segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

O Paulistão de 2011 e Algumas Divagações



O Santos de Elano lidera...(Gazeta Press pelo R7)


...Mas o Palmeiras de Kléber vem na cola (Gazeta Press/R7)
Depois de quase terem sido extintos, os estaduais voltaram e, de pouco em pouco, cresceram novamente. Vejam vocês só, que este ano o Campeonato Paulista terá 23 datas. Quase um Brasileirão. Vinte clubes, primeira fase de turno único todos contra todos, passam os oito primeiros para as finais, sendo as quartas e as semi-finais em jogo único e a final em dois jogos - sem dúvida, um artifício para proteger os grandes que, não raro, não conseguiam se qualificar entre os quatro melhores (algo que só aconteceu no Paulistão de 2009) .  Quem sabe isso sirva também para dar um ânimo para algum time do interior. Em cinco rodadas já disputadas, o Santos lidera ao lado de um surpreende Palmeiras, levando vantagem apenas no saldo de gols - e se o Santos sobra mesmo jogando com time misto, assim como sobrará mais ainda quando Elano se juntar a Neymar e Ganso, talvez com um Keirrison em alta (apesar de quase sempre tão apático), mas que terá de tomar cuidado para não se afundar nas limitações de seu comandante, Adílson Batista, nem em eventuais ataques de estrelismo (como aquele de Neymar, ano passado, que custou o segundo semestre do time). O Santos, é bom lembrar, terá ainda uma Libertadores pela frente, o que poderá atrapalha-lo aqui. Já o Palmeiras é mesmo, a despeito de sua grandeza, a surpresa do torneio, depois de um segundo semestre de 2010 conturbadíssimo, um processo de sucessão de  presidencial tenso, ele manteve a base do elenco - que se não é a melhor do país, também não é ruim - que, debaixo do trabalho de Felipão, ganhou padrão de jogo e entrosamento - com a pequena ajuda do acerto de alguns meses de salário atrasado logo de cara - e o time tem jogado com raça, Kléber voltou à velha forma, Marcos Assunção e Tinga estão bem, Cicinho (não aquele, o do Santo André) foi uma contratação boa, sobram bons goleiros, embora ainda falte um lateral-esquerdo e um centroavante. Será que vai se manter? É difícil dizer, mas o começo saiu melhor do que encomenda e Felipão é Felipão. O Corinthians está em crise, terá de reverter um placar desfavorável no qualificatório para a Libertadores contra o fraco Tolima e seu time pouco convenceu este ano, seu futuro depende muito do que vai rolar na Libertadores. O São Paulo, apesar da estrutura e de um bom elenco, também está girando em falso, em grande parte por conta da gestão problemática de Juvenal Juvêncio, que cada vez mais lembra os maus momentos da segunda metade dos anos 90 - mas eu acho que o time cresce, apesar de ser duro ganhar um mata-mata com essa apatia toda. Americana (o ex-Guaratinguetá, clube-empresa que mudou de sede), Mirassol e Ponte parecem bons times, Portuguesa e Bragantino estão por ali. Enfim, os estaduais, ainda - mas já vi piores.

P.S.: Juca Kfouri comemora a escolha de Henrique Meirelles como Autoridade Pública Olímpica pela Presidenta da República. Além de dar uma "medalha" para Dilma, ele qualifica o ex-Presidente do Banco Central como "homem rico, independente e competente" - apesar de entendermos Juca em parte (de fato, havia opções piores), não sabíamos que ser rico era, por si só, uma qualidade e, quanto ao resto, só resta o velho "menos, menos". Ademais, finalizar com um "e até Lula, que não poderá criticar a escolha de quem presidiu o Banco Central para ele durante oito anos"  é o velho sofisma "Lula culpa est" (mais um produto da tecnologia brasileira do século 21º): É como se Lula quisesse atrapalhar (mas não pudesse) a escolha de um sujeito (ou de qualquer outra  indicação de Dilma) só porque ele mesmo o empossou, manteve debaixo de todas as (justas) críticas e até lhe deu (erroneamente) status de Ministro (e como se Dilma, em pessoa, não o tivesse defenestrado do BC dia desses). Ora, se chamar Meirelles é mérito de Dilma, é de Lula também. Não há contradição cara-pálida. Não existe "até Lula". Em suma, a obsessão com nosso ex-presidente é tanta, mas tanta, que qualquer crítica ao Governo sai distorcida (para não dizer invertida e até, por que não, divertida)*.


P.S.T.U.: Aliás, o João Villaverde escreveu um belo artigo sobre o futebol do Rio de Janeiro romântico da primeira metade do século 20º, quando o futebol se popularizava na esteira da inclusão dos negros nos times grandes: Nos tempos de Leônidas, Carvalho e Heleno. Vale realmente a pena dar uma olhada. 


* fiz uma pequena modificação no texto para ele ficar mais claro.

domingo, 30 de janeiro de 2011

Egito: ElBaradei, os EUA e a Ordem Global

El Baradei na Praça da Libertação - Al Jazeera, tirada do live bloggin do Guardian

O Egito segue agitado, milhares de manifestantes continuam, neste exato momento, na Praça Tahrir - curiosamente, a Praça da Libertação -, o centro nevrálgico do Cairo, onde ficam o Museu Egípcio - que foi depredado no tumulto -, a sede do partido da ditadura - agora, felizmente, os destroços dele - e a sede da Liga Árabe, entre outros edifícios proeminentes. Eles exigem a renúncia do Ditador Hosni Mubarak, passo essencial para a democratização do país - e Mubarak, aliás, é alguém que está no poder desde que o General Figueiredo era nosso Presidente, portanto, muito antes deste humilde redator nascer e o mesmo, suponho, vale para a maior dos leitores deste blog. Na noite de sexta, Mubarak praticamente coordenou seu pronunciamento oficial com o de Obama em Washington (e o "praticamente", aqui, é um eufemismo diante de toda essa farsa): Sua fala, diversionista, defende seu governo, traz a promessa de endurecer com os manifestantes - como se isso já não estivesse acontecendo -, enquanto o discurso de seu aliado, Obama, passou por genéricas reformas democráticas e pela defesa dos direitos humanos (tudo isso em relação a uma Ditadura esclerosada que ele não deixou de conceder uma ajuda militar bilionária durante os  mais de dois anos de seu governo). 

Até agora, a única reforma democrática que vimos foi a risível nomeação de Omar Suleiman para vice-presidente (cargo até então inexistente), a típica coisa que por qualquer lado que se olhe é completamente absurda: Como bem anota Robert Fisk, trata-se do septuagenário chefe do serviço secreto egípcio, contato-mor com Israel, em suma, uma atitude que além de não ajudar a Ditadura em nada, ainda põe mais lenha na fogueira das manifestações, dado o fato dele ser uma figura naturalmente odiada no país. Por outro lado, aportou no Cairo, Mohammed ElBaradei, Prêmio Nobel da Paz em 2005 e ex-diretor geral da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), cuja atuação naquela organização  foi marcada por ter denunciado que os documentos que diziam que o Iraque adquiriu armas nucleares eram falsos - o que, naturalmente, causou toda uma animosidade com a administração Bush, embora suas posições passem ao largo de serem anti-ocidentais. Sua presença na própria Praça Tahrir conclamando as massas a continuarem o que começaram é mais um importante fator de pressão - ElBaradei é uma voz respeitada dentro do Egito -, o que, junto com a presença de veteranos da Guerra de 67 contra Israel nos protestos, gera um clima de pressão enorme, sucedido inclusive pela convocação de uma greve geral no país. Apesar dos riscos todos e da imprevisibilidade dos eventos, é fato que a ditadura Mubarak foi ferida de morte, a questão é que sua queda o mais breve possível é importante para a concretização de um regime verdadeiramente democrático ao contrário de uma saída gatopardiana - que deve estar na cabeça dos estrategistas de Washington e que estava na fala de Obama. A julgar pelo engajamento massivo da sociedade egípcia, as chances de uma saída secular e, ao mesmo tempo, autônoma aumentam consideravelmente - nesse sentido, ElBaradei pode ser uma chave importante.

Os atuais eventos no Egito e no Mundo Árabe, aliás, são um atestado de que a ofensiva imperialista americana iniciada por Bush Filho em 2001 - e mantida inercialmente por Obama - entrou em colapso. Se  a  política externa americana estreada no Congresso Berlim-África (foto) de 1884 - primeiro fórum internacional de relevo do qual os americanos participaram - era caracterizada por feições peculiares - o controle de pontos estratégicos de acesso para mercados no lugar do controle de enormes territórios e populações e, também, a dominação indireta por meio de aliados -, isso não quer dizer que ela deixava de ser uma espécie de Imperialismo, embora isso também não seja igual ao que é tocado há dez anos: Essa política externa americana tradicional só foi reforçada por Roosevelt, mas é Bush Filho que irá altera-la, lançando-se em uma ofensiva direta e belicosa pelo Oriente Médio - talvez ressentido pela forma como o imperialismo americano tradicional não conseguia reverter uma curva onde a economia americana perdia importância relativa ao Globo. Isso pouco tem a ver com o 11 de Setembro, não custa lembrar que das primeiras atitudes de Bush foi bombardear o Iraque ainda em 20 de Janeiro daquele ano, portanto, bem antes do atentado em Nova Iorque. Seja como for, Bush e o establishment americano subestimaram a capacidade econômica do país e desequilibraram o sistema econômico mundial com esse movimento, o que, junto com a farra de desregulamentação do sistema financeiro e certas idiossincrasias do Capitalismo - a saber, o velho problema da realização do valor - causaram a atual guerra. A ascensão chinesa, a desvinculação da maior parte dos países latino-americanos da sua esfera de controle e, por fim, o desabamento das ditaduras mediante as quais ele controla o mundo árabe são sinais claros de que ou essa insanidade é cessada agora - em prol da construção de mecanismo multilaterais efetivos - ou os EUA assistirão ao agravamento de seus problemas econômicos e políticos nos próximos anos - quem sabe, levando todo o mundo junto.

P.S.: A Internet segue controlada no Egito, enquanto isso, a Al Jazeera (que está dando um show de cobertura) teve seu sinal cortado no Egito assim como repórteres da Telesur foram expulsos do país.

sábado, 29 de janeiro de 2011

Aniversário de Dois Anos d'O Descurvo

O Cairo como a expressão de um mundo em mutação/ AFP retirada daqui

Hoje faz dois anos que eu iniciei esta aventura aqui. Uma luta danada para conciliar faculdade, vida pessoal e blogagem, mas valeu a pena. Em 2009, as movimentações para as eleições de 2010 já se desenhavam no começo do ano - com um certo editorial que falava em Ditabranda e a divulgação de uma ficha falsa contra Dilma Rousseff - e  e o processo, como apostávamos aqui, tendia a ser  dos mais sujos da nossa breve história democrática - e foi sufocante, embora não tenha acontecido o pior no desfecho graças à vitória de Dilma. No mundo, o Governo Obama mal começava e, embora, não tivéssemos grandes ilusões por aqui, sua degeneração em uma pasmaceira de hesitações e concessões absurdas não deixa de ter um ar dramático: O que poderia ser um governo favorável à reforma no sistema global, terminou sendo um arranjo conservador (e em certa medida cínico) de uma velha ordem sem mais ora nem lugar - e que agora mesmo se desfaz, diante dos nossos próprios olhos, pelo mundo, seja na América Latina ou no Mundo Árabe. A Europa segue na crise que de lá para cá só se aprofundou, vítima de todas as disfuncionalidades relativas à Crise Mundial e ao próprio chão falso sobre o qual se assenta o Euro. A Rússia foi bisonhamente afetada pela Crise Mundial e as ganas de retomada da sua importância, projeto-mór da era Putin desfez-se no ar - assim como a ascensão chinesa não avança sem dar mostras de suas limitações como a repressão às minorias que ela promove, a censura à Internet e outras peculiaridades suas suscitam (muito embora ela não esteja disposta a embarcar numa aventura imperialista seja por realismo político ou pela sua cultura). Nunca na história da humanidade os mecanismos de dominação e controle foram tão concretos e nunca eles puderam ser desmanchados com tamanha facilidade. A História morta em boatos, nos prega peças diárias se fazendo passar por assombração. É tudo um grande espetáculo aterrador e magnífico tal como uma tempestade em alto-mar - e cá seguimos com o nosso bravo barquinho...

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Depois da Tunísia, o Egito

A Multidão e a Polícia no Cairo 

O processo de descolonização do Norte da África e do Oriente Médio, coincide, a grosso modo, com um período de desmonte do Império Otomano e a ascensão dos Estados Unidos enquanto a grande potência econômica mundial. Washington opta por uma política de interferência permanente naqueles jovens Estados, geralmente por meio de aliados locais - quase sempre ditadores - e do controle direto de pontos estratégicos, com direito a incursões militares, em suma, imperialismo à americana em profusão por conta da localização estratégica de vários daqueles países e, claro, da existência de petróleo neles - o ouro negro, combustível da máquina capitalista americana. Instituições frágeis são subornadas, corrompidas ou simplesmente derrubadas por meio de golpes de aliados seus, autoritarismos amigos são erigidos e omissões honrosas escondem párias ou buscam justificações perversas para seus regimes. 


No entanto, algo está mudando no mundo e muito rápido: Se por um lado, a decadência gradual dos Estados Unidos - que se verificava pela queda da importância relativa do seu PIB em relação ao mundo - foi mascarada pelo colapso soviético, por outro lado, os Governo de Bush Filho e o de Obama trataram de acelerar o processo, às custas de irresponsabilidade econômica e decisões geopolíticas desastrosas. Isso muda completamente o jogo da geopolítica internacional e a hegemonia americana é abalada; se tivemos mudanças importantes na América Latina na última década, hoje, a grande região que inclui o Magheb e o Oriente Médio sente novos e bons ventos soprando: Somada à decadência dos americanos, a degeneração dos regimes que lhes são fiéis, o avanço tecnológico e o aumento da organização dos movimentos sociais naqueles países estão minando o esquema de Washington. 

Tunísia
Os eventos de Dezembro do ano passado colocaram abaixo o Ditador Ben Ali na Tunísia na chamada Revolução do Jasmim afetam todo Norte da África. O processo revolucionário tunisiano, aliás, em muito lembra a Revolução dos Cravos no Portugal nos anos 70, seja pela derrubada de um regime obtuso que era tratado com eufemismos pelas potências ocidentais devido à sua lealdade, quanto pela complexidade do processo - é provável que ele demore anos - e até por certas coincidências como, por exemplo, os insistentes boatos ecoados sobre os riscos do fundamentalismo islâmico tomar o controle da situação - algo parecido com o que se fazia no Portugal dos anos 70 em relação ao Comunismo -, quando, na verdade, o grande risco é mesmo dos integrantes do Velho Regime conseguirem neutralizar os efeitos da insurgência. Outro paralelo importante, é o quanto essa Revolução refletiu a realidade de uma região inteira, uma reivindicação que mais do que política, é geopolítica - e em certa medida, até cosmopolítica. Como dito, os efeitos da Tunísia se espalharam pelos seus vizinhos - e aqui, falo de Egito e Argélia fundamentalmente, mas isso tem desdobramentos agora sobre o Iémen e o Líbano.

Pois bem, hoje, o Cairo segue em plena ebulição, enquanto as coisas estão quentes na Argélia também. Como o Tsavkko lembrou bem, embora estejam no mesmo plano e sejam vizinhos, é necessário pontuar que as sociedades egípcia e argelina não são laicas com a da Tunísia. De fato, existem grupos religiosos importantes e beligerantes como a Irmandade Muçulmana no Egito e a Frente Islâmica de Salvação na Argélia, o que é um considerável combustível de risco - e o que pode, de fato, dar um caráter diferente para eventuais derrubadas dos regimes locais. Claro, isso não esgota, de modo algum, a legitimidade das reivindicações contra os regimes de Mubarak no Egito ou de Bouteflika na Argélia, mas apenas apresentam sim um fator de risco real inerente à sua eventual  (e quem sabe necessária) derrubada. 

A batalha campal do Cairo (Tahrir Square) 
O que estamos vivendo exatamente agora é um verdadeiro clima revolucionário no Egito: Dezenas de milhares de pessoas estão nas ruas do Cairo, o toque de recolher foi decreto, há violência policial, a sede do partido do governo foi saqueada e há um risco claro e iminente de queda do regime de Mubarak, o que deixa Washington em polvorosa: Não falamos de um país relativamente pequeno como a Tunísia, mas de um aliado estratégico de grande porte que recebe uma ajuda militar enorme. Palavrinhas como Canal de Suez e Israel devem estar tilintando na cabeça das lideranças americanas neste exato momento. O fato é que a multidão está nas ruas e ninguém tem controle da situação, mas pelo menos graças a cobertura da Al Jazeera - para variar - não estamos completamente cegos em relação ao que realmente se passa agora no Cairo, embora a torrente de informações que chega até nós seja fabulosa e enebriante.

Cairo -- Tahrir Square
Trata-se, com efeito, de um momento espetacular: A História pulsa intensamente viva depois de a terem declarado morta, tesa e dura, não tem nem um quarto de século. Os desdobramentos desse eventos são surpreendentes e se projetam para o Leste e também para o Sul. A hesitação de Obama em aceitar a nova - e desfavorável - situação geopolítica americana para, assim, poder negociar uma nova ordem mundial multipolar não evitou, naturalmente, que as mudanças necessárias se operassem por vias outras. O resultado é semelhante - e em larga escala - ao que se viu no Leste Europeu nos anos 80, só que em larga escala: Uma potência hegemônica que perdeu a sensatez e o substrato moral assistindo à derrocada do seu controle do espaço por conta da multidão nas ruas. É um momento revolucionário e, como tal, nos reserva uma miríade de desdobramentos possíveis para tão logo. Fiquemos à espreita.

*imagens de Fethi Belaid/AFP (foto 1)  Mohamed Abd El-Ghany/Reuters (foto 2) e Mohammed Abed (AFP) (fotos 3 e 4) -- retirado do álbum do Boston Big Picture sobre o Cairo e a insurgência no Maghreb e no Oriente Médio onde você pode encontrar outras belas fotos dos fatos.

Atualização (19:02): Assistam à Al Jazerra em inglês. O bicho tá pegando.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Os Desafios do Governo Dilma

A Ministra Ana de Hollanda em coletiva de imprensa - Agência Brasil.
O Governo Lula foi responsável por duas imporantes reformas: A transformação da política externa, tornando o Brasil um país que se move de acordo com os seus interesses e não reage com políticas de alinhamento automático às potências - sem, no entanto, cair no vazio do nacionalismo raivoso - e, também, a construção de uma política econômica que, em certa medida, se põe em função da sociedade - a última, marca indelével da social-democracia,  ou seja, a manutenção de um sistema econômico que põe as pessoas em função de seu funcionamento (por conta da sua capacidade de produzir riqueza) e criar uma política econômica que serve, em tese, de contra-peso a isso - algo com problemas no horizonte, mas que produz bons efeitos no presente. Faltou, como sabemos, uma reforma no sistema físico da organização política, isto é, no próprio Estado e em seus mecanismos, embora, reitero, a  mudança na lógica e na ética tenham sido de importância lapidar para um começo de conversa. Também faltou a esperada conciliação entre ecologia e economia. As duas faltas correspondem aos dois grandes desafios a superar agora em escala macro, sendo que para o primeiro, Dilma tem propostas razoáveis e é possível que saía algo bom (e reformas políticas são como o conserto de um carro, se não são feitas produzem tragédias, se são, passam desapercebidas, especialmente se forem boas, além de consumirem tempo e recursos). A questão ecológica, ponto forte da campanha de Marina Silva, ainda é um desafio que resta em aberto. Para além de toda a parafernália dos aspectos macropolíticos, existem fatores micropolíticos que não são menos importantes do que os primeiros, talvez sejam até mais intensos, embora menos amplos. Aliás, uma parte relevante do PT nesse quadriênio é administrar essa agenda de sintonia fina na conjuntura que ele próprio ajudou a construir. Questões como educação, cultura e saúde são algumas delas. Há muito o que ajustar, de início, a Cultura é de longe o pior ministério desse início de Governo, promovendo retrocessos em relação a gestão surpreendentemente boa de Gil continuada por Juca. A Ministra da Cultura Ana de Hollanda cometeu belos erros no que toca à controvérsia das licenças Creative Comuns e pela sua simpatia às políticas pró-ECAD - o que suscita uma das políticas de direitos autorais mais burras da face da terra, se é que isso é possível. O mesmo podemos dizer da política de segurança pública articulada em torno do Ministério da Justiça, que precisa administrar melhor seu medo de não cair numa candura de esquerda em relação ao problema da criminalidade para não cair de costas no seu exato oposto. Nada disso, no entanto, significa um adeus a Lula, mas a manutenção de seu projeto, isto é, a continuidade de uma ampla discussão e uma ampla disputa em torno de setores e temas, um projeto cujos resultados práticos, desde nomeação de ministros até políticas implementadas, é apenas a resultante de uma tensão de forças (por dentro e por fora do PT) enorme. Muitas vezes, essa articulação ao melhor estilo sindical-trabalhista descamba para a admissão de setores cujos valores ameaça a própria forma proposta (ainda que mesmo dentro dela, a presença de forças e proposta assimétricas concorram como se simétricas fossem). Dentro desse projeto, Lula, mesmo com sua imensa capacidade política, só conseguiu render frutos ao se aliar a uma pessoa com a capacidade gerencial de Dilma. Talvez, hoje, precisemos que Dilma faça o caminho contrário: Sua incontestável capacidade gerencial - o que já se expressa na política econômica - carece de uma figura propriamente política. Eis aí o motivo de me ressentir com a figura de um Palocci na Casa Civil - alguém cuja capacidade de interlocução é boa apenas com certos setores, mas não de um modo geral -; seja como for, o Governo atual depende mais do que nunca da combinação que fez o segundo mandato de Lula render frutos, ainda mais por ter desafios maiores pela frente. À esquerda cabem dois desafios muito fortes, se desinvestir dos modelos idealistas que sempre lhe perturbaram e compreender que, no momento, a única máquina com tamanho e amplitude suficientes para transformar o país é o PT, mas que essa constatação também não significa um alinhamento imediato - é preciso ser autônomo sabendo que isso não é igual a se opor e apoiar sabendo que isso não significa perder a autonomia de pensamento.


Atualização de 31/01/11: Interessante essa entrevista do deputado Paulo Teixeira (PT-SP), líder da bancada do partido na Câmara, sobre as recentes decisões do MinC: "Creative Commons está na política do Governo" - aparentemente, surgiu alguma reação de dentro à atual política da Cultura e o debate está aberto. Menos mal, mas vá para frente.



terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Feliz Aniversário, São Paulo?

Fundação de São Paulo -- Parreiras
São Paulo é uma das raras cidades da História cuja fundação se deveu à edificação de uma escola - que servia, por sua vez, ao projeto jesuíta, isto é: À expansão do império católico pelos confins do planeta. Nesse projeto, a catequese cumpre sua função de universalizar a figura do sujeito católico, o homem de bem temente a Deus, aquele que está eternamente endividado em relação ao grande Pai Eterno, divino e transcendente, que, por sua vez, descansava nas alturas enquanto era devidamente representado, nesses brasis de meu deus, pelos doutores da Igreja. O genocídio cultural - ou assimilação forçada, se você for dado a eufemismos - enquanto mal necessário na luta pela salvação de almas. Subjetivar para delimitar a capacidade de agir. É em torno dessa invenção aterradoramente genial dos jesuítas que, mais tarde, se organizará um estado do tamanho de um país. Mas São Paulo não é só isso, ele é também o território a ser desterritorializado pelos agentes do despotismo colonizador, bandeirantes que não veem potenciais sujeitos nos nativos, mas apenas objetos - instrumentos úteis ou obstáculos a destruir; ambos os projetos se unem enquanto se contradizem - catequese e pilhagem juntos como causas ambíguas da origem da maior metrópole brasileira. Um corte: A cidade completa 457 anos hoje, perdida entre enchentes, crises políticas e culturais várias - tornou-se tão grande, mas parece tão pequena. Com um potencial maravilhoso, caldeirão de gentes que é, mas tão refém da pequenez do pensamento segregacionista, reterrorializante de uns poucos. São Paulo foi a estandarte de tempos outros, quando se apresentava como modelo para a modernização nacional - numa época em que o moderno ainda era tão sedutor e a nação ainda estava adormecida -, enquanto hoje, procura seu lugar no novo Brasil. A minha São Paulo é aquela que apesar de tudo isso, ainda carrega as sementes de um cosmopolitismo verdadeiro, cujo cultivo pode ser delicado e difícil, mas caso vingue, valerá a pena.

domingo, 23 de janeiro de 2011

O PSDB e a Guerra de Todos contra Todos

E sobram bicadas no ninho tucano --John Gould 
O Partido da Social Democracia Brasileira é um dos principais personagens partidários do Brasil pós-88. Ocupou a Presidência da República por duas vezes - e só não esteve na disputa real da cadeira em 1989, apesar da excelente votação de Mário Covas -, governou estados importantes, tem a terceira maior bancada da Câmara e é o maior partido de oposição no plano federal, hoje. Trata-se, com efeito, de uma profunda exceção no campo político ocidental (que, talvez, se repita apenas em Portugal): É um partido social-democrata que não é bem social-democrata na prática - e aqui falo dos discursos corriqueiros, das políticas de aliança ou mesmo da auto-identificação dos simpatizantes e eleitores médios -, apesar do seu nome, do seu estatuto e do seu programa atual - que, caso fossem lidos por um analista político estrangeiro não iniciado na história política do Brasil, seriam creditados a algum partido de esquerda, sobretudo por conta do seu programa original (1988) que defende até auditoria da dívida externa assim como também clama enfaticamente por uma Reforma Agrária.


Para muito além do discurso, há uma história que o precede e onde ele está inserido, na qual os fundadores do PSDB eram apenas a ala institucionalista e menos demagógica do PMDB - uma artificialidade construída pela Ditadura Militar com o intuito de legitima-la - que tomou vida por conta das disputas internas do PMDB-SP e da insatisfação com os rumos do PMDB pelo país - a entrada de políticos pró-ditadura, ainda que isso não tenha sido a causa determinante de sua fundação, mas sim a vitória de Quércia sobre o núcleo duro do PMDB paulista, onde residiam figuras como FHC, Montoro, José Serra e Mário Covas. É certo que a grande maioria dos fundadores do PSDB tinham ânimo de fundar outro partido por motivos programáticos, do contrário, teriam se usado do momento politizante das Diretas para tanto - todos pensavam, entretanto, em construir um projeto de modernização conservadora a partir da estrutura do próprio PMDB.


O partido, portanto, nasce indeterminado, vagando entre a má vontade com a esquerda formada pelos movimentos sociais e um oposicionismo institucional contra a direita pró-ditadura. E é FHC que irá determinar os destinos do partido, sobretudo, por sua atuação política pessoal, seja enquanto esteve próximo a todo momento do Poder quando era Senador - primeiro, chegando a liderar o governo no Senado durante o Governo Sarney, depois sendo próximo de Collor e de Itamar - ou quando ele resolve ser o fiador de um certo projeto de modernização conservadora, o que o aproximou do esquema do Carlismo na Bahia - e de Marco Maciel em Pernambuco, algo que se ramificava por todo Norte-Nordeste.


O PSDB pós-FHC posicionou-se à direita do centro, liderando as forças daquele espectro a partir de então, o que se acentua por conta da oposição promovida pelo PT - que àquela altura, englobava os setores que foram postos de lado no processo de estabilização econômica dos anos 90, a saber, os trabalhadores empregados, os movimentos sociais vários e mesmo a pequena indústria, setores que normalmente são representados por um partido social-democrata como manda a praxe da política europeia ou de inspiração europeia. As crises e as falhas todas cometidas durante o Governo FHC provocaram uma queda severa de sua popularidade, o que foi determinante para o desfazimento da aliança que o elegeu e o sustentou desde 1994, fato que colabora decisivamente para sua derrota em 2002 para Lula, que naquele momento construiu um potente arco de alianças ao incluir as demandas de uma direita desenvolvimentista e inclui-las junto das demandas laborais e sociais que o PT sempre defendeu.


O período todo do Governo não serviu para sedimentar a identidade do partido, comos vemos em documentos pouco divulgados, mas de importância singular única como, por exemplo, uma nota oficial datada de 2003 - e assinada pelo então Presidente do Partido, José Aníbal - que ataca a Internacional Socialista por não ter convidado o PSDB para seu XXII Congresso - realizado em São Paulo, tendo por anfitrião o Partido dos Trabalhadores (que é membro observador da organização) e cujo discurso de abertura foi proferido pelo então Presidente da República Luís Inácio Lula da Silva. O problema aqui não é ser ou não de esquerda, nem uma crítica à disputa pelo significado das palavras - que, no fim das contas, é a própria política -, mas sim da profunda insensatez que gestos como esse significam, tendo em vista os oito anos de polarização onde o PSDB se pôs, conscientemente, no campo direito (e anti-socialista) da disputa política.


As duas disputas presidenciais que se seguiram à vitória de Lula teve novos confrontos entre o PSDB e o PT, onde primeiro se viu Geraldo Alckmin concorrendo contra um Lula que pleiteava um segundo mandato sob os auspícios de um discurso moralizante e gerencial - a eleição do modelo da empresa como alternativa à política (na verdade, à democracia) - e depois a disputa envolvendo José Serra e a sucessora indicada de Lula, Dilma Rousseff, na qual o governador paulista largou o discurso centrista de 2002 - quando foi derrotado por Lula - para assumir um discurso desesperado e negativo, abraçando o que há de pior na direita nacional - os extremistas religiosos da TFP, os monarquistas et caterva - para tentar surfar em uma onda de ódio profundo sem se molhar e assim vencer. As duas derrotas - especialmente a última - repercutiram mal sobre o partido e algumas lideranças estaduais falam em refundação, quem sabe um afastamento do discurso religioso-moralista e uma retomada do "PSDB dos anos 90" - o que, por certo, trata-se de uma certa bravata anti-serrista, dada a ampla rejeição popular em nível federal da própria figura pessoal de FHC.


A crise que hoje percorre o PSDB nacional é algo que começa das próprias disputas internas para concorrer à Presidência da República ao longo do tempo - um jogo duro, onde os caciques  guerreiam no interior do partido para chegarem às vésperas das eleições aclamados, sem a necessidade prévias nem quetais. Há um ano, assistíamos ao fim do confronto formidável entre José Serra e Aécio Neves, onde o primeiro derrotara o segundo, mas o derrotado, habilmente, preparou uma armadilha para o governador paulista: Serra tinha de vencer e ainda se preparar para fazer campanha literalmente sozinho. O mesmo podia ser visto em São Paulo, onde Geraldo Alckmin, candidato à chefia do governo do estado, concentrava-se na sua própria disputa - para a qual ele foi indicado pela falta de quadros no partido - ao passo em que ele largava a disputa presidencial, largando Serra, a quem tanto lhe combateu internamente, à própria sorte.  


A vergonhosa derrota de José Serra em 2010, em qualquer país razoável do mundo, provocaria o fim da sua carreira política, mas o Brasil é o país da jabuticaba e a jabuticaba é única: Ele continua a se pronunciar internamente, deseja concorrer à Presidência do Instituto Teotônio Vilela - o equivalente à Fundação Perseu Abramo do PT, em suma o centro de estudos, pesquisas e doutrinação do Partido - e há quem suscite seu nome para a disputar a Prefeitura de São Paulo em 2012 (!). Enquanto isso, Aécio Neves emergiu falando alto enquanto a própria liderança da nova oposição, exatamente como tinha planejado caso ocorresse a combinação de sua vitória com a derrota de Serra, mas algo escapou ao cálculo do político mineiro: Alckmin continua discursando com autoridade - até criticando Dilma - e Serra não se retirou da vida política, portanto, a sua aclamação como líder da oposição não aconteceu. Existe uma hesitação importante entre os setores que apóiam o PSDB, seja dentro ou fora da política, em rumarem imediatamente para o séquito de Aécio.


De fato, não há refundação do PSDB, o que existe ainda é uma disputa interna pelo poder. A força de certo setor da elite paulista - não aquela ligada às corporações modernas ou as multinacionais estabelecidas no estado, mas sim certos setores mais tradicionais e locais - é resistente a Aécio como é resistente a qualquer proposta que passe por fora de São Paulo. Alckmin pode ser um político com limitações e pouca criatividade, mas sabe disso, está refazendo conexões e jogando duro para varrer o legado de Serra no Governo bandeirante. Enfim, não houve aclamação de ninguém, mas sim disputa, a velha disputa interna tucana, nos termos que ela sempre foi travada. Não é, também, a resistência do PSDB paulista que impede sua refundação: O próprio Aécio não é um nome capaz de renovar um partido, ele é um político personalista que se cerca de bons técnicos, mas não um pensador ou o líder de um movimento.


Só para citar aqui alguém insuspeito de maiores petismos - ao contrário deste humilde redator - como um Paulo Nogueira, "Aécio é a face sem rugas do atraso" - e, mesmo que eu não concorde com uma perspectiva de História centrada no binarismo progresso-atraso, tomo aqui "atraso" pelo seu sentido corriqueiro, isto é, a expressão da política tradicional brasileira - oligárquica, personalista e cordialmente autoritária -, o que torna a ironia de Paulo fina e precisa: Aécio é o tradicional irresoluto que gosta de parecer o Novo, ele aceita e brinca com esse binarismo para se mover pelo pântano da política nacional. Qual a nova ideia e qual o movimento relevante que Aécio produziu? Sua espécie de Novo-direitismo com pendores panbrasileiristas não é, com efeito, a saída para os problemas do Brasil ou mesmo para a manutenção da Ordem que é, hoje, se vê ameaçada pelo reformismo banho-maria dos petistas - diria que mesmo eleitoralmente, isso é muito pouco, depende mais dos erros de Dilma para dar certo do que qualquer outra coisa. 


E assim segue o PSDB, sendo a coisa mais parecida com a excêntrica ideia hobbesiana da "guerra de todos contra todos" que a política brasileira de hoje poderia reproduzir...



sábado, 22 de janeiro de 2011

Um Pouco mais Sobre a Tunísia





Segue o início da minha humilde colaboração para o OutrasPalavras, site editado pelo Antônio Martins e pelo nosso velho conhecido Bruno Cava - e que tem uma proposta muito bacana, midialivrista e politizante. Trata-se de um artigo um pouco mais extenso sobre a Revolução Tunisiana do que aquele postado aqui imediatamente à luz dos fatos

O que disparou a Revolução do Jasmim
Os fenícios eram um povo notável. Muito antes da Hélade florescer e das luzes de Roma brilharem, os fenícios desenvolveram as ciências, as artes e o comércio. Do comércio chegaram às navegações, fincando bandeira de canto a canto do Mediterrâneo. Na costa da África, fundaram Cartago, a Nova Cidade, em torno da qual se edificou uma das mais espetaculares civilizações antigas. No principal embate da Antiguidade, essa civilização caiu, derrotada frente a uma República Romana inflamada pelos discursos da CatãoDelenda Carthago est – numa escalada que garantiu o controle do Mediterrâneo aos latinos e abriu os caminhos para a sua expansão incessante. 

2011: as ruínas de Cartago ainda estão voltadas para o Mediterrâneo. Passaram-se os romanos, a cristianização, os vândalos, novamente os romanos (os orientais bizantinos, desta vez), os árabes, os turcos e, por fim, os franceses. O país é independente há 54 anos, mas sob a bota de um regime autoritário que oscilou entre o nacionalismo originário e o filossocialismo dos anos 1960. Para, depois, descambar no mais puro servilismo a potências ocidentais.

Não por coincidência, foram apenas dois presidentes nas últimas cinco décadas. O primeiro foi líder do movimento de independência, Habib Bourguiba. O outro, seu ex-primeiro-ministro, Zine El Albidine Ben Ali, que assumiu o poder imediatamente após uma conspiração palaciana, em 1987. Com isso, passou a controlar autoritariamente o país, mediante eleições fraudulentas, estado policial, nepotismo e a formação de uma indistinta cleptocracia. Ao mesmo tempo em que manteve ótimas relações com o Ocidente.

Essa realidade mudou radicalmente há poucos dias...



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Deleuze & Guattari e Los Jaivas: Quando a Filosofia Encontra a Música




1. 
"Longe de ver no Estado o princípio de uma territorialização que inscreve as pessoas segundo a sua residência, devemos ver no princípio de residência  o efeito de um movimento de desterritorialização que divide a terra como um objeto e submete os homens à nova inscrição imperial, ao novo corpo pleno, ao novo socius"
DELEUZE Gilles e GUATTARI Félix, O Anti-Édipo, p. 258, São Paulo, Ed. 34, 2010 [tradução de Luiz B. L. Orlandi


2.




Hace mucho tiempo que yo vivo preguntándome
para qué la tierra es tan redonda y una sola no más
si vivimos todos separados
para qué son el cielo y el mar
para qué es el sol que nos alumbra
si no nos queremos ni mirar

tantas penas que nos van llevando a todos al final
cuantas noches, cada noche, de ternura tendremos que dar
para qué vivir tan separados
si la tierra nos quiere juntar
si este mundo es uno y para todos
todos juntos vamos a vivir



Letra de "Todos Juntos" de Los Javias, retirada do excelente - e recém-inaugurado - Som Imaginário do Luis Henrique.

Isso é o que se chama de bom encontro...

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

As Eleições no Palmeiras e Algumas Pensatas


Tirone é abraçado por seu vice, Frizzo -- GazetaEsportiva.net

Ontem, Arnaldo Tirone, candidato da oposição, venceu as eleições para a Presidência do Palmeiras. Além das datas das eleições atrapalharem o Palmeiras historicamente, dessa vez, as coisas ainda correram de um modo bem atribulado, em grande parte por conta do profundo racha interno e, claro, da grave situação do clube em virtude da degeneração da gestão Beluzzo - certamente um homem de ideias e que ama o Palmeiras, um boa praça que consegue ser amigo de José Serra e sócio de Mino Carta ao mesmo tempo, mas que fracassou rotundamente como dirigente de futebol, quando era a última esperança de um clube marcado pela pequenez e falta de criatividade de seus dirigentes. A eleição do Professor Beluzzo, há dois anos atrás, aconteceu sob o apoio da imprensa esportiva e de palmeirenses influentes, o que serviu para vencer maiores resistências internas. Só que em matéria de política, vencer uma eleição é  sempre mais fácil do que governar: E Beluzzo pagou caro, colocou o coração de torcedor na reta e tomou decisões erradas, hesitou em outros momentos e não esperava a armadilha que já estava preparada lá atrás por seus advesários, caso sua gestão falhasse. Perdeu dinheiro, a saúde e o sossego. Com a situação rachada, o irascível Palaia insistindo numa candidatura sem justificativa ou sentido só por odiar Paulo Nobre - o candidato de Beluzzo e, sim, o melhor nome da disputa -, Tirone, ligado ao grupo de Mustafá Contursi, acabou vencendo o pleito - e bem. O novo presidente verde é filho de dirigente e alguém que frequenta o Palestra desde sempre no alto de seus sessenta anos, mas também é ligado a uma ala autoritária, sem criatividade e com pouca tesão por futebol que, finda a era Parmalat, transformou uma dos times que sempre lutava pelos principais títulos da temporada em um  clube médio, incapaz de ganhar títulos e volta e meia correndo riscos de rebaixamento - quando não, caindo mesmo. Nada animador, claro.  Ainda mais em um cenário de dívidas, falta de títulos e afins, as perspectivas não são boas para a gestão Tirone.

Esse processo inteiro, aliás, acende um debate fundamental: Como os clubes de futebol brasileiros são verdadeiras aristocracias; eles representam alguns milhões de torcedores, possuem alguns milhares de sócios, mas quem decide seu futuro é sempre uma pequena minoria de iluminados chamados conselheiros, cujos interesses e perspectivas quase sempre giram em torno da própria auto-reprodução o que, por vezes, está completamente descolado do que desejam os torcedores. Há quem pense que os nosso clubes de futebol funcionariam melhor se tornando corporações modernas, empresas com capital aberto na bolsa cuja administração seria feita por "profissionais", mas eu, particularmente, discordo: O significado que os clubes têm junto à nossa cultura, sendo partes integrantes da história de cidades e bairros inteiros, não é congruente com a impessoalidade do Capitalismo Financeiro, tampouco isso resolve, por si, problemas financeiros (como se empresas não quebrassem, nem pudessem ser corruptas...).  O caminho seria o da democratização, por meio de uma política massiva voltada a agregar mais e mais sócios e, assim, fortalecer as instituições internas pela sua massificação - ampliando, assim, o próprio espectro eleitoral - além de proporcionar um meio de financiamento, digamos, mais republicano. Dentro desse cenário, o futuro do Palmeiras é particularmente preocupante, essas contradições comuns ao nosso futebol se manifestam de forma grave ali dentro, não é uma equipe com problemas ou um clube em má fase, trata-se de um clube em crise.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

A Ética em Deleuze

Íntegra: Ética em Deleuze - Luiz B. L. Orlandi | CPFL Cultura
- Watch more Videos at Vodpod.



O Vídeo que segue  é uma palestra de Luiz B. L. Orlandi - dos maiores conhecedores de Deleuze no país e tradutor da mais recente edição do Anti-Édipo - sobre a Ética em Deleuze. Ao contrário do que se pode supor após uma leitura desatenta, a Ética não é um tema lateral em Deleuze - nem por ele foi considerada desnecessária ou obsoleta -, mas sua problemática está decididamente colocada no campo da Imanência: Não há uma Ética transcendental, uma Ética que se baseie em um dever ser universal à moda prussiana de um Kant; não é de modelos ideais de comportamento - logo, de vias únicas a se trilhar - que falamos quando o assunto é Ética, mas do desafio do homem, dentro da concretude das relações humanas, realizar a sua potência e ser feliz. Deleuze está com o Spinoza que o inspirou e com Nietzsche, ambos radicais filósofos da Imanência - que fatalmente "engole os sábios e os deuses" como disse o próprio Deleuze ao lado de Guattari.

P.S.: E um tanto off-topic, mas em tempo, foi dado parecer favorável ao início do processo de tombamento do Belas Artes. Uma batalha foi vencida, agora resta o decorrer da guerra, mas estamos otimistas por aqui. 


* Tentei compartilhar o vídeo, mas não sei por quais cargas d'água ele não abre. De todo modo, o link está aí e eu vou ver o que eu faço até amanhã - o pessoal da CPFL/Cultura podia disponibilizar os links no Youtube, seria tão mais fácil...

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

A Internet e o Vigilantismo

retirado daqui
Uma sombra nada amigável ronda a Internet brasileira. Hoje, lendo um post no blog do Tsavkko, vi como andava uma situação absurda, cujas notícias já ouvia há alguns dias, mas ainda não tinha parado para entender atentamente: Quem usa os serviços de Internet da Telefonica no Brasil não pode acessar sites como o Diário Liberdade* e sites pró-independência do País Basco; por outro lado, o CMI está sendo bloqueado por quem usa internet móvel pela Claro e pela TIM. Isso é gravíssimo. Dentro de um cenário no qual nos vemos rondados pelo horrendo projeto de lei de controle da Internet do Senador Azeredo (PSDB-MG) - o chamado AI-5 digital - e blogueiros de esquerda como Eduardo Guimarães defendem leituras desapaixonadas do libelo autoritário, é assustador ainda  acontecerem casos de bloqueio a sites por parte de empresas privadas, ora concessionárias de um serviço público. Se o controle e o vigilantismo estatal são um verdadeiro risco à liberdade, um cenário onde empresas que mexem com os negócios de Internet bloqueiam, por conta própria, o acesso a certos sites é absurdo porque somos pegos de surpresa. Isso é revelador, aliás, de como se estruturam os mecanismos de controle na sociedade contemporânea, certamente não falamos de uma anomalia decorrente de regimes tirânicos - e bárbaros no imaginário corrente -, mas de práticas comuns àquilo que de melhor há na civilização e que vão para muito além do Estado. Evidentemente, quando se trata do Estado democrático que está pautando isso - por meio de um de seus representantes -, surge inevitavelmente algum debate - ainda que cheio de armadilhas e cortinas de fumaça, mas ele acontece -, afinal, dentro da democracia representativa é preciso dar legitimidade e um ar de racionalidade ao projeto - para que a plateia queira aquilo que os representantes querem -, o que abre flancos para combatê-lo - dentro de um confronto desigual, mas ainda possível. Aqui, entretanto, a conversa é outra. Uma empresa vai lá discricionariamente e elimina o que quer, não há previsibilidade, acontece e é preciso correr atrás do dano. E são sites em relação aos quais se pode discordar, mas sequer é possível usar os fantasmas pró-censura habituais contra eles - a pedofilia, o terrorismo. Isso é ilustrativo de como vai se estruturar a luta nos nossos tempos, a Tecnologia - uma ciência que vai para muito além da Robótica ou da Informática e seus produtos - será um área de confronto inevitável. O modo como as recentes tecnologias da informação transformaram a política é impressionante, ao mesmo tempo em que existem mecanismos de vigilância inacreditáveis, as redes sociais são capazes de produzirem uma troca de informações tão intensa e veloz que regimes autoritários se veem vulneráveis como nunca - o discurso nunca foi tão facilmente desconstrutível quanto agora e o controle disso é essencial para o Poder. 

*Hoje, estranhamente, consegui acessar o Diário Liberdade, mas há meses não conseguia.

domingo, 16 de janeiro de 2011

Pós-Lula: A Primeira Quinzena de Dilma

Dilma visita as áreas destruídas pelas enchentes do Rio -- foto retirada daqui


Estamos na segunda quinzena do Governo Dilma. Sim, o projeto que guiou o país desde 2003 continua de pé. Por ora, grande parte da mídia tradicional continua fixada demais na figura de Lula, a quem não deixa de agredir. Lula saiu da Presidência, mas a mídia tradicional não saiu ainda da Presidência dele. Para além de eventuais diversionismos - que tentam desconstruir Lula para depois desgastar Dilma -, existem constatações verdadeiras como já adiantávamos aqui em dezembro (e sobre o que o Sérgio Leo escreveu um belo post): Lula e Dilma são mesmo diferentes. Um nasceu politicamente como sindicalista, a outra como guerrilheira. Sim, o Novo Sindicalismo e o Foquismo são escolas diferentes, mas isso não muda o fato de estarem do mesmo lado das barricadas. A duplicidade de poder na área econômica fazia todo sentido para Lula e nenhum sentido para Dilma - tanto é que isso mudou. Sem crise: Lula sabia disso melhor do que qualquer um de nós, quando tomou a decisão de indicar a candidatura de Dilma. O Planalto não deve ser conivente com tentativas de atacar o legado de Lula, mas isso não pode ser confundido com negar as diferenças - e como a esquerda lida mal com a Diferença, não? - entre ambos, isso seria trair o próprio legado de Lula que, ao contrário do seu antecessor FHC, não quis mudar as regras do jogo em curso para tentar um terceiro mandato, mas sim respeitou o que estava posto e deu andamento à rotatividade do poder, elegendo uma mulher cujo histórico de vida é bem diferente do seu. O desafio está em ressaltar diferenças para afirmar o caráter próprio do atual governo, mostrando que isso não implica em juízos de valor que hierarquizem o hoje em relação ao ontem, nem contradiz o fato de estarmos dentro de uma fase diferente de um mesmo projeto. Por ora, as coisas seguem o seu ritmo previsível - que, em último caso, é o melhor que se poderia pôr em prática na atual conjuntura. 

sábado, 15 de janeiro de 2011

A Revolução Tunisiana

retirado daqui
A Tunísia, uma república árabe do norte da África, está passando por um processo revolucionário. Falamos de terras cuja  história é simplesmente fantástica: Sua aparição na História Universal começa com a expansão fenícia para o norte da África, o que resulta na construção de um importante entreposto comercial sobre o qual é edificada Cartago, das mais poderosas cidades da Antiguidade. Durante séculos a fio, cartagineses disputaram com as cidades-estado helênicas e com os romanos a hegemonia do Mediterrâneo. Sua derrota definitiva para os romanos foi dos maiores eventos da Antiguidade e seus ecos sentimos até hoje, o centro do mundo conhecido passou irremediavelmente para a Europa de onde a cultura ocidental (europeia ou, se muito, euro-originária) se projetou continuamente, num processo ainda em curso - o obstinado Delenda Carthago est de Catão, pelo jeito, surtiu efeitos. O que hoje é a Tunísia passou de colônia romana para o domínio árabe, depois otomano e, por fim, francês, até sua independência nos anos cinquenta. Sua independência foi parte do grande movimento nacionalista e anti-imperialista que, ao fim da Segunda Mundial, agitou o mundo - em especial África e Ásia, onde França e Portugal ainda mantinham uma decrépita estrutura imperial. Mas nem tudo são flores e a História nos ensina que irrupções revolucionárias nem sempre se traduzem em libertação real. Não, o problema não são os romanos, os árabes, os turcos ou os franceses - nem mesmo o colonialismo -, mas sim os velhos mecanismos de dominação que eles puseram em prática; mantenha-os e você apenas estará trocando os atores, mas a peça encenada ainda será a mesma. Cinquenta e quatro anos de autoritarismo nacionalista - e apenas dois presidentes em sua existência independente - somados a muita corrupção e exploração depois, irrompem revoltas populares e o velho Estado entra em colapso - com direito até ao habitual, e ensurdecedor, silêncio da mídia ocidental, o que é a praxe quando das quedas de tiranias amigas. Mas há algo de novo aqui: Como bem observa Elizabeth Dickinson na Foreign Policy (aqui, em português), essa pode ser a primeira Revolução Wikileaks, afinal de contas, um dos grandes deflagradores da revolta foi, justamente, o conteúdo dos telegramas da  diplomacia americana sobre a Tunísia revelados por aquele site (movimento?), seguido por uma medida atabalhoada do regime local em tentar censurar a rede e perseguir ciberativistas. Ainda é cedo para dizer o que pode acontecer com a Tunísia, as coisas estão em plena ebulição, mas esperemos que elas se encaminhem bem desta vez. Seja como for, as informações do Wikileaks não são tão inofensivas quanto alguns gostariam que fossem.*


*fiz algumas pequenas correções e alterações no texto, mas nada que tenha mudado o sentido dele. A maldita pressa, sempre ela.


Atualização de 16/01 às 00:25: Interessante ler o post do embaixador português na França (sim, ele tem um blog) sobre o caso - ele exprime bem uma visão, não muito incomum, da diplomacia europeia sobre a questão: Os europeus perderam uma ditadura amiga bruscamente e estão temerosos enquanto resmungam.

Sábado e Música: Area e o Rock Progressivo Italiano

 

Os italianos costumam referir-se à decada de 70 do século XX assim como a nossa, anos de chumbo. Cesare Battisti escreveu bastante sobre a sujeira debaixo do tapete democrático que apresentavam o PCI e a Democracia Cristã perante o mundo. Era uma época na qual as tensões políticas se infiltravam em todos os aspectos da sociedade. A música não era exceção, e o grupo Area, ilustre integrante do rock progressivo italiano era talvez a mais emblemática na militância política da arena musical, que se traduzia nas letras de protesto em obras como Arbeit Macht Frei e no conceitual Maledetti, cuja canção Giro Giro Tondo pode ser conferida aqui

[Nota d'O Descurvo: Dica musical e introdução de autoria do nosso amigo Luís Henrique Mello, com quem conversava agora há pouco]


Atualização de 16/01 às 14:46: E o Luis resolveu, finalmente, fazer um blog. Já estou acompanhando aqui, deem uma olhada lá no Som Imaginário.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

O PMDB Pós-Quércia & Kassab

Temer e Kassab em encontro já este ano --  Fernando Pereira/Secom
No começo dos anos 80, uma briga de foice se instalou dentro do PMDB de São Paulo: O partido, uma artificialidade criada em 1965 pela Ditadura Militar que tomou o poder em 64 para ser sua oposição oficial - e assim lhe dar legitimidade -, via-se rachado por uma disputa entre Orestes Quércia e sua ala paulistana formada por gente como Franco Montoro, Mário Covas, Fernando Henrique Cardoso e José Serra. Quércia, um político campineiro cujas vitórias nos anos 70 foram um marco na quebra da hegemonia dos apoiadores da Ditadura no estado - forçando o Regime, diante da perda de apoio eleitoral, a mostrar sua cara -, liderava um largo esquema político no interior com algumas ramificações na capital, baseado num estilo de política personalista e eloquente. Enquanto isso, seus rivais defendiam um estilo de política institucionalista e discreto, eram céticos quanto a aproximação do partido junto a antigos quadros arenistas e tinham um projeto de poder claro, embora dentro das regras da estrutura do partido. Montoro disputou a indicação para ser cabeça de chapa nas eleições para governador de 82 com Quércia - que antes de perder a quebra de braço, aceitou ser candidato a vice -, eis que a chapa venceu a eleição, mas Quércia foi antes de um vice, o pior opositor de Montoro. E o cabo de guerra continuou até Quércia se tornar ele mesmo o governador - eleito em 86, sucedendo Montoro -, assumindo assim o controle total da máquina, o que forçou seus rivais a saírem do partido e fundarem uma nova agremiação chamada, por sinal, PSDB. O resto da história é conhecida, o PSDB toma o lugar que antes era do PMDB, seja por seus méritos eleitorais ou pela maneira como o segundo murcha devido a liderança centralista de Quércia - que, no entanto, permanece incólume na liderança estadual do partido até a sua morte, nos fins do ano passado. Como dizia na ocasião do falecimento de Quércia lá no João Villaverde, o desaparecimento de Quércia era um momento histórico, dado que Michel Temer estava prestes a assumir a vice-presidência da República pelas negociações todas com o PT em nível nacional e, mesmo que nunca tenha disputado o poder dentro do PMDB em nível estadual, agora ele via a possibilidade de reorganizar a agremiação em São Paulo, trazendo quadros que Quércia afastava: Um alvo certo de assédio era o prefeito paulistano, Gilberto Kassab (DEM) - quem, insisto, trata-se de um político com senso de oportunidade único e uma incrível consciência de suas limitações -, que ganharia espaço, largando o engessante esquema do PSDB-DEM por uma legenda nacionalmente poderosa que, vejam só, poderia muito bem recepcionar o centrão paulista, difuso hoje numa série de partidos menores - e Kassab teria a oportunidade única de ser a face pública do partido, enquanto Temer regeria a orquestra nos bastidores. As negociações para tanto, pelo visto, seguiram quentes nos primeiros dias de 2011 e já são públicas. Na prática, isso seria a criação de uma nova força no estado, conservadora, fisiológica - e, pelo segundo motivo, tendente a se apresentar como uma terceira via entre PT e PSDB, o que não é verdadeiro. Se os desacertos internos de PSDB e PT produziram a desastrosa eleição de Kassab em 2008 na capital - seja porque ele soube jogar com os rachas do primeiro ou porque os rachas do segundo inviabilizaram uma candidatura competitiva -, hoje, enquanto os tucanos parecem cada vez mais reféns políticos do atual mandatário, no processo de sucessão da Prefeitura, os petistas seguem titubeantes. Enquanto o PSDB degringolou de vez enquanto uma legenda conservadora e sem criatividade, o PT de São Paulo padece de um arranjo interno ruim para o partido - o que limita sua força eleitoral e política -, o que agora se soma ao fato do risco claro de surgimento de um grande consórcio fisiológico - e de Kassab se tornar um interlocutor importante, um fiel da balança na disputa pelo poder no estado, o que é o inverso dos bons ventos que pareciam soprar na São Paulo do fim dos anos 90, quando PT e o PSDB de Covas inviabilizaram o Malufismo.