sexta-feira, 26 de junho de 2009

Sarney e as eleições de 2010

(foto retirada daqui)

José Sarney, Senhor das distantes terras do norte, Presidente do Senado e Imortal. Oligarca nordestino - e nortista também, mas por incidente -, ele segue a tradição comum aos senhores da região desde que D. Pedro I era manipulado pela maçonaria para proclamar a independência brasileira: Serviu à elite do sul-sudeste massacrando, a soldo dela, as forças progressistas de sua região, exigindo em troca ser deixado em paz para controlar seu feudo. Ironia das ironias, essa prática não deixou de ser comum ao Brasil 'democrático' seja como FHC e seu ACM ou Lula com o dito cujo

Nesse exato momento, Sarney está sendo bombardeado. Infelizmente, não pelos motivos certos, mas por conta das velhas e nem tão boas intrigas palacianas do Brasil varonil. O Senado, como senhores já devem ter suspeitado, é de uma inutilidade institucional sem tamanho e vive às turras com um conservadorismo paralisante pior do que isso até: Com práticas condenáveis tanto ética quanto juridicamente que graças à sua hipocrisia oligárquica tornam-se mais intragáveis do que as patifarias dos Comuns.

Já abordei aqui n'O Descurvo o que eu penso sobre o apoio de Lula para Sarney, enfim, mesmo pensando a questão pelo viés da política feita pelo alto e a portas fechadas, o apoio a Sarney não faz sentido da forma como está sendo feita. Dia desses, debatendo com o Maurício Caleiro em seu Cinema & Outras Artes, levantei uma bola: As desventuras lulistas em muito se dão pelo rompimento com os movimentos sociais e a crença no pastelão da política de cúpula que ZD institui no PT do século 21º; não há outro modo de não virar refém político de instituições apodrecidas senão via manutenção de uma relação orgânica com os movimentos sociais.

Quem fez isso no Brasil, com pequena profundidade, foi o conservador Tancredo Neves nas eleições presidenciais indiretas de 85, a qual ele disputou como se direta fosse. Como no Brasil ironia pouca é bobagem, foi justamente desse processo, após, claro, a morte de Tancredo que Sarney ganha a Presidência de presente - em que pese a infelicidade na escolha do vice, certamente Tancredo teve menos escolha do que Lula no que envolve o nome de Sarney.

Lula, mais do que qualquer um, era o presidente que tinha mais possibilidades de se usar disso, mas jogou essa possibilidade pela janela quando se iludiu com as vantagens da dita realpolitik que em onze de cada dez casos onde foi empregada ao longo da História acabou dando no descalabro.


Eis aí que voltamos para o presente e encontramos no nosso Senador a guerra parlamentarque decidirá sobre a saída ou não de Sarney da Presidência da Casa. Uma óbvia antecipação de 2010 que já começou sorrateiramente com a eleição de Gilmar Mendes para a Presidência do STF, coisa que ninguém deu muita atenção na época. O Senado e a Câmara são os estandartes de um Poder de Estado falido chamado Legislativo que hoje, do ponto de vista decisório, é no máximo o terceiro Poder em força, soterrado pelas Medidas Provisórias e agora pelas Súmulas Vinculantes. Ele é, no entanto, o ringue onde os entes do nosso falido sistema político-partidário têm a oportunidade de se esbofetear e decidir o que será no ano que vem - ou o que já está sendo esse ano, já resolveram antecipar a campanha.

Estamos numa encruzilhada: Sarney merece sair, mas aqueles que podem entrar representam um risco maior. O caos e a falta de norteadores é tão grande que eu vejo com cada vez mais reservas o futuro próximo do Brasil.

4 comentários:

  1. É, Hugo, é aquela velha história do feitiço virando contra o feiticeiro. Nosso presidente, que se vangloria pela capacidade de não contrariar quase ninguém e de fazer amplas alianças, preferiu o velho coronelismo às forças à esquerda que sempre o apoiaram. Agora lega pro Brasil mais essa crise institucional.

    Isso não quer dizer, evidentemente - e como você sugere - que a alternativa a Sarney no Senado seja melhor (não é) e que, através do conluio oposição-mídia, não esteja acontecendo um processo de linchamento do maranhense que inclui bem mais do que suas próprias faltas no episódio. Como tem mostrado Nassif, tornou-se um vale-tudo, em que entram meras suspeitas e atos secretos cometidos em gestões anteriores à dele. Tudo, é claro, com a eleição de 2010 nohorizonte. Durma-se com um barulho desses.

    A tempo, obrigado pelo link.

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  2. Maurício,

    É isso daí mesmo, 2010 começou antes de primeiro de janeiro e de agora em diante estamos condenados a ver o processo se intensificar naquela que será uma das eleições mais sujas do Brasil em muito tempo.

    A forma como estão linchando Sarney não difere muito do linchamento de Renan Calheiros: O Oligarca nordestino que apóia Lula por vantagens óbvias sendo bombardeado pela mídia/oposição - tanto faz, são a mesma coisa - não por seus defeitos, mas por um mero joguinho eleitoreiro barato.

    abração

    P.S.: De nada, o seu post sobre a questão merece uma boa olhada.

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  3. antonio barbosa filho27 de junho de 2009 20:34

    Perfeito, Hugo. Tenho chamado a atenção para o mais grave erro de Lula, que foi a opção por uma política de cúpula, com a desmobilização popular e dos movimentos sociais. Faltou política de massas, com as massas -e, como vc diz, ninguém teria mais condições de fazê-lo do que Lula.
    Agora, o governo fica refém dessas jogadas da mídia oposicionista. Lula não pode abandonar seu aliado nesta hora, mas pega mal defender Sarney.
    De qualquer maneira, está claro que não está em jogo a moralidade. Trata-se da luta da oposição para derrubar um político anti-Serra, substituindo-o pelo tucano Perillo, no tabuleiro de 2010. Só isso.

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  4. Grande Antonio,

    Para quem acreditou que poderia fazer uma política de cúpula sem traumas e maiores dificuldades, nosso Presidente está se saindo bem demais dado o grau de decrepitude das nossas instituições, no entanto, há situações em que não há habilidade política que resolva. Esse é um deles, é o famoso se correr o bicho o pega, se ficar o bicho come.

    abração e apareça mais vezes por aqui.

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