domingo, 7 de fevereiro de 2010

São Paulo 1x2 Santos - O Paulistão 2010

Os estaduais ainda sobrevivem. Principalmente me anos de Copa, o seu calendário já reduzido fica mais apertado ainda e as rodadas se seguem num ritmo frenético. Aqui em São Paulo já estamos na 7ª rodada - e dois clássicos já foram disputados: Domingo passado, num jogo esvaziado e com as duas equipes desfalcadas, o Corinthians bateu o Palmeiras por 1x0 e, hoje, o Santos bateu o São Paulo no Morumbi por 2x1 num belo jogo que marcou a volta de Robinho no time do litoral. 

Esqueça o tragicômico Santos das duas últimas temporadas que, exceto aquela arrancada do estadual de 09 - interrompida pelo Corinthians de Mano Menezes -, não fez mais nada. O time comandado pelo competente e injustiçado Dorival Jr. tem na reabilitada dupla Neymar/Ganso o seu motor - reforçado agora por um jogador do nível de Robinho -, mas também conta com uma dupla de zaga precisa - formada por Durval e Edu Dracena -, um lateral-direito promissor - Wesley - e um Arouca ensaiando fazer o mesmo que fazia no Fluminense - em suma, tudo aquilo que ele não fez no São Paulo.

O tricolor, aliás, permanece uma boa equipe, mas falta força nas alas - Jean não dá, seja lá em que posição for, mas muito menos na ala-direita - e Jorge Wagner não é mais o mesmo. A zaga, apesar das falhas de hoje prossegue forte e Hernanes e Richarlyson prosseguem bem - ainda que eu ache que Cléber Santana caiba nesse meio com algum dos volantes sendo deslocados para alguma ala. O trio Marcelinho/Dagoberto/Washington pode dar caldo, desde que não seja tão fominha quanto foi hoje.

Primeiro tempo de domínio santista com o gol de penâlti - desnecessário - cometido por Miranda sobre um vingativo Arouca: Neymar, com paradinha, tendo à frente Rogério Ceni; Ricardo Gomes mexeu bem para o segundo tempo, ganhou meio e numa jogada áerea seu time empatou. Jogo aberto e prevaleceu o talento de Robinho, que entrou voando: Gol de letra. O Santos cala a boca dos críticos e crava a liderança, no entanto, duvido muito que os quatro grandes não estejam na Segunda Fase como no ano passado - apesar da melhora dos times do interior. E, sem ufanismos, o estadual de SP prossegue sendo disparadamente o melhor do país.

O Choque na Periferia da Europa

(Charge retirada daqui)

Há pouco menos de um ano, eu já debatia por aqui a situação econômica e política da Europa; ela não é nada boa e a crença de que alguns nutriam no colapso do Capitalismo de Estado à americana em detrimento de um Capitalismo de Estado à europeia era equivocado em virtude da própria dinâmica da atual Crise Mundial - em suma, do seu impacto real tanto sobre os EUA quanto sobre a UE. O caso da periferia europeia - isto é, Portugual, Irlanda, Espanha e Grécia - não é só da maior gravidade como também é revelador: O cerne da questão são os problemas contidos nas diretrizes básicas de como se deu o processo de integração europeu dos anos 80 para cá e não na "mudança nos padrões de consumo daqueles povos" como alguns analistas apregoam.

Desde o fim da Segunda Guerra Mundial, os Estados europeus superaram a destrutiva lógica de afirmação econômica por uma perspectiva nacional estrita, o que, no duro, foi a causa das duas guerras mundiais - ambas travadas em grande parte dentro do território daquele continente e que como consequência resultaram na perda do protagonismo geopolítico daqueles países. De tal forma, foi fundado um compromisso ético na direção de uma solidariedade não apenas política como também econômica entre os países da Europa Ocidental - e que como todo compromisso ético é, sobretudo, um exercício de utilitarismo a longo prazo do que idealismo bem-intencionado, como pensam alguns realistas vulgares. Para além da necessidade de evitar a guerra - entendida após o desastre da Guerra como uma verdadeira autofagia - também pesou a necessidade de aumentar a coesão diante do poderio econômico, político e bélico da União Soviética e o seu bloco de países no leste do continente.

O avanço do processo de integração foi progressivo apesar do ceticismo britânico; as grandes economias da Europa Ocidental se integravam cada vez mais como nos casos da antiga Alemanha Ocidental com a França, as economias do Benelux, Áustria e como um pouco de distância a Itália - que não obstante o seu atraso relativo às potências do continente, ainda demorou um pouco mais para se recuperar dos danos da Guerra. O desafio que se desenhava no horizonte nos anos 70 partia de duas constatações: (a) a manutenção do processo de integração dependia do esboço das linhas gerais de um projeto que conduzisse a uma moeda única para o bloco; (b) ainda existiam países pobres naquele lado do continente, todos muito pouco industrializados e passando por uma frase de transição quer seja de ditaduras (Portugal, Grécia e Espanha) ou da instabilidade causada por divisões internas (Irlanda e novamente Espanha).

Os dois processos, o da continuidade da integração dos países cêntricos do continente visando um moeda única e o de absorção dos países periféricos seguiu sincronicamente - e em um ritmo considerável -, tanto é que em 1999 entrou em circulação a moeda única, o Euro. É preciso notar que se o primeiro processo dependeu apenas de uma política estratégica, comercial e macroeconômica coordenada entre os principais países da região, o segundo se deu de uma maneira mais complexa: As grandes economias do continente passaram a reservar "fundos de equiparação" para os países mais pobres para que eles pudessem atingir um grau de desenvolvimento suficiente para a integração física e monetária com o resto da Europa - quase sempre num esquema de empréstimos a baixo custo e com pagamento a longo prazo, além de certos fundos humanitários e também a própria abertura comercial.

O apêndice que suturou neste exato momento, contudo, se liga ao defeito de origem do processo de absorção: A UE por ter decorrido em grande parte do processo de integração dos países periféricos da banda ocidental, mas eles se integraram na condição de periféricos - eis o ponto. Estamos falando de países que à época da implantação da moeda única ainda detinham PIB's per capta inferiores aos da média dos países cêntricos e o fato de compartilharem a mesma moeda com uma Alemanha, por exemplo, teve um impacto semelhante - ainda que numa gradação menor - do Brasil ter mantido sua moeda em paridade com o dólar americano; evidentemente, se aqui o descompasso entre assimetria produtiva e simetria monetária levou o país à bancarrota, na Europa a menor diferença produtiva entre os países da periferia e os países cêntricos assim como a existência de fundos continentais de contrapartida geraram um equilíbrio que, a priori, deu viabilidade ao projeto.

Dispondo de uma menor produção e um moeda forte - o que implica não apenas em poder de compra direto como também em juros mais baixos -, animados pelos ganhos reais de qualidade de vida devido os investimentos em saúde e educação - feitos pelos seus governos que tinham à mão as verbas europeias - e submetidos à intensa propaganda midiática, os cidadãos dos países periféricos da Europa ocidental se lançaram numa orgia de consumismo e endividamento que impactou diretamente em déficits na balança comercial dessas nações - favorecendo em um primeiro momento as economias cêntricas do continente por meio de exportações, mas num segundo momento criando problemas continentais, pois o desequilíbrio severo nas balança comercial dessas nações gera, por tabela, uma desarmonia severa nas suas contas correntes, o que não pode ser ajustado por meras medidas de equilíbrio e fiscal e, levando em consideração o fato de que tais países compartilham da mesma moeda que os demais, surge o risco de um desequilíbrio macroeconômico geral.

Essa relação país cêntrico exportador-financiador dos fundos europeus/país periférico importador-tomador de empréstimos estatais e privados se baseava em um equilíbrio extremamente tênue. A absorção de muitos dos países do antigo leste Europeu à UE, por si só, já resultou num impacto muito grande nisso, na medida em que o dinheiro dos países europeus centrais se pulverizava - e os próprios países cêntricos se viram incapazes de arcar com um novo processo de equiparação econômica em larga escala, pela própria dinâmica do capitalismo global e o seu impacto sobre suas economias. Por outro lado, tal dependência por parte dos periféricos colaborou para um processo de industrialização interno incapaz de suprir sua demanda de consumo interna por si só.

Um outro fator, não menos importante, foi a crise no dolár americano causada pelas intemperes na gestão daquele que é o subsistema central do capitalismo global: A valorização artificial do Euro jogou um peso grande demais sobre as costas de França e Alemanha bem como expôs a Itália - um país que nos anos 80 se encontrava num estágio intermediário entre as economias altamente desenvolvidas do continente e as periféricas que hoje se encontra numa sinuca de bico, por não ter conseguido se beneficiar do processo de integração europeu e não ter mecanismos cambiais para tentar se recuperar. Some isso ao efeito dominó provocado pelo aumento dos juros americano, o que expôs tanto as incongruências do sistema credíticio estadunidense quanto das demais bolha ao redor do mundo, em especial, as da periferia da Europa.

A recente pontada europeia é que não há condições da UE suportar um Euro tão valorizado sem que as economias não acusem algum sintoma - e o mercado reagiu com a desvalorização recente do Euro. Esse cabo de guerra entre Euro e Dolár apontam para o fato de que lá atrás, autoridades russas e chinesas tinham razão: O futuro próximo do Capitalismo Globo depende de um gerenciamento global, quem sabe até de uma base de trocas mundial.

A dimensão da gravidade do atual momento político-econômico do projeto europeu é enormíssima; a crise de sua periferia é um atestado do fracasso do projeto europeu e, ao mesmo tempo, uma demonstração que nem mesmo o Capitalismo fortemente regulamentado e articulado para além dos limites nacionais é incapaz de promover um estado de real equidade - na prática, os países Ibéricos, Grécia e Irlanda não se desenvolveram realmente, eles apenas se tornaram colônias de luxo, ou seja, mercados consumidores construídos com os excendentes das economias cêntricas do continente para servir ao desenvolvimento real das mesmas, mas sua manutenção, ainda assim, é artificial, pois estabeceu uma simetria macroecômica falsa entre aqueles países ao desconsiderar a necessidade de buscar uma equidade, quem sabe estabelcendo uma moeda de trocas continental como base apenas para as trocas internacionais, mas sem abolir as moedas nacionais que expressavam de certas maneira valores referentes às idiossincrasias econômicas locais  - em suma, o Euro engessou a Europa e criou uma anomalia nas periferias.

Se de um lado o saldo da Segunda Guerra aponta para a insustentabilidade de uma política nacionalista radical, o outro lado, o desastre do socialismo à soviética na Europa Oriental, mira na inviabilidade de um modelo que esmague a Política em prol de uma administração cientificista e alheia às demandas individuais - o que a torna alheia às próprias demandas coletivas ao não reconhecer um de seus aspectos fundamentais -; o fato é que hoje estamos na terceira margem do rio, descobrindo a inviabilidade do Capitalismo de Estado pós-nacional e social-redistributivo - que no fim das contas é incapaz de dirimir contradições, no máximo, capaz de escondê-las bem.

A solidariedade se mostra um beco sem saída, pois ela, juridicamente, significa a vinculação dos separados enquanto separados, portanto, não apenas não afasta as contradições como também as gera; é necessário retomar um pensamento de conjuntural-dedutivo, o que dentro de uma lógica capitalista é sempre muito complicado, pois sua essência se fundamenta no alheamento do todo. De qualquer modo, do contrário, nos aproximaremos de um momento limite - e na Europa isso é particularmente preocupante por conta da alta taxa de concentração demográfica conjugada com uma profunda pluralidade cultural. a conjuntura política europeia, no entanto, suscita qualquer coisa menos otimismo.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

O Aumento da Criminalidade em São Paulo

Eu já dissertei sobre a complexa relação entre violência e criminalidade por aqui e agora, diante dos dados do aumento da criminalidade no estado de São Paulo, me ocorreu de retomar brevemente a questão. O Governo Serra, por sua vez, alega que os reflexos da Crise Mundial somados a greve da polícia no ano passado colaboraram para isso, o que no mínimo é curioso, afinal, se existe um fator que fundamenta a alta popularidade do Governo Lula é, justamente, ter feito o país passar incólume pela Crise Mundial - em suma sem geração de desemprego ou queda de renda salarial compatível ao tamanho do estrago

Aliás, a questão de culpar a greve da polícia civil pelo aumento da violência merece um parágrafo à parte; greve de servidores públicos é coisa mais comum do mundo, ainda mais num estado que os remunera relativamente tão mal quanto São Paulo - em relação até mesmo à baixa burocracia das secretarias e ao setor privado -, o fato é que o Governo Serra tem uma responsabilidade aguda em tudo isso na medida que que negociou tão mal que chegou a provocar uma guerra entre as duas polícias; Serra descumpriu a palavra de dialogar com as lideranças grevistas e aunda mandou a Polícia Militar "conter" os grevistas, o que resultou numa óbvia agressão dos PM's em relação aos grevistas, policiais. Dali em diante, se ter duas polícias já era esquizofrênico, ter duas polícias com os ânimos acirrados entre si, praticamente desfez o aparato policial, o que conjugado com a dinâmica de desagregação social do estado - mascarada pela repressão policial em larga escala -, agravou a situação.

Evidentemente, o fenômeno da criminalidade não pode ser reduzido aliás, merece um olhar muito para além do penalismo e requer uma olhar antropológico e sociológico, mas aqui não há como buscar na externalidade da Crise Mundial as causas para o atual momento; as causas econômicas para tanto se encontram muito mais no processo de desindustrialização da região metropolitana de São Paulo e de uma industrialização massiva do interior, ambas desacompanhadas de políticas públicas tanto para redistribuir renda quanto para criar saídas para amortecer o impacto de mudanças sociais tão bruscas - como manda o receituário básico de qualquer Capitalismo de Estado minimamente funcional.

Eu poderia dizer que o colapso do aparato policial foi positivo para trazer à tona essa realidade que estava mascarada e não tardaria e explodir, mas o fato é que aí entra minha velha crítica ao catastrofismo: Pessoas de verdade estão morrendo em maior proporção devido a tudo isso, portanto, não é engraçado ou desejável. 

O desmonte do aparato policial nas sociedade contemporâneas deve estar em compasso com a construção de pesado investimento social em educação, saúde e moradia, pois essa tarefa demanda a a neutralização das consequências que a lógica burguesa vende como as causas quem justificam essa a ideologia policial perante a sociedade, isto é, a chamada "violência urbana" que vitima tantas pessoas e provoca forte comoção social - e está ligada com a desagregação social, ainda que as pessoas e mesmo os trabalhadores não percebam isso; evidentemente, o que está em jogo é a manutenção da ordem política estabelecida como as constantes ações violentas contra os movimentos sociais provam.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

A disputa pelo Governo de São Paulo

atual é uma das disputas mais mornas que se tem notícia por essas terras. Não obstante a tradicional baixa atenção dada às eleições parlamentares federais - fruto do oportunismo dos políticos nacionais, a falta de cultura de participação política por parte dos cidadãos e a própria deseducação que a mídia corporativa promove -, agora, assistimos a um esvaziamento das eleições estaduais, em especial em São Paulo, maior estado da Federação - e isso, acredito, se deve ao fato de que no duro tanto PT quanto PSDB são partidos paulistas antes de serem brasileiros, como a briga pela Presidência da República é absurda este ano, as demandas estaduais (bem reais, diga-se) estão sendo deixadas de lado.

(Bandeirantes - adcionados dia 03/02)


Depois de toda a guerra interna sangrenta dentro do PSDB - partido no qual a briga foi tão hedionda que, para afirmar internamente e disputar a Presidência, Serra foi capaz de sabotar Alckimin eleger Kassab nas municipais da Capital em 2008 -, resta um bocado de ressentimento lá dentro e a concetração de poder gigantesca nas mãos de Serra - que aparentemente não tem secretários e faz tudo sozinho no seu governo como a sua propaganda, divulgada até no Acre, sugere - produz um esvaziamento que impede o partido de se oxigenar. Por ora, resta a obessessão por defenestrar o PT do Palácio do Planalto custe o que custar e dane-se o resto; na escala estadual, a provável candidatura de um desacreditado Alckimin é a mais fidedigna expressão disso.

Do lado petista não é muito diferente: Os esforços todos estão concentrados na eleição de Dilma e, somada a briga entre os cabeças da Articulação, principal corrente do partido e igualmente concentradora de poderes,  não se produz sequer uma candidatura sólida lá dentro e tampouco abre espaço para uma discussão interna para que envolva as outras correntes e outros nomes  - imagine só, se por um acaso isso gera um projeto político plausível para resolver os graves problemas do estado. Ora o candidato é Palocci, depois é Mercadante, em outros momentos é Marta - todos de alguma maneira desgastados, pouco empenhados em desenvolver um projeto, mas perfeitamente dispostos em concorrer. José Eduardo Cardozo, que deve assumir o Ministério da Justiça no lugar de Tarso Genro, é politiqueirão, mas poderia ser um nome cogitável, só que não entra no cardápio porque não é da Articulação. Ainda assim, todos os nomes citados conseguem ser bem melhores do que o glorioso picolé de chuchu.

Cogita-se também o nome de Ciro Gomes como candidato a governador pelo lulismo, talvez com um vice petista,  em uma espécie de compensação para sair da corrida presidencial. Um descalabro, sem dúvida. Lulistas e petistas de todo país alimentam essa ideia com se pudesse ser algo razoável - o que não é, seja pela biografia questionável de Ciro quanto pela artificialidade do modo como essa candidatura está sendo pensada. Argumentos realpolitkeiros ou coisas como "o eleitorado paulista é conservador, o máximo que poderemos emplacar é um Ciro" beiram o ridículo; não é possível empurrar para os cidadãos a culpa pela tremenda irresponsabilidade histórica e social do PT em estar pensando tão mal a política estadual há tanto tempo - em especial, os gravissímos problemas sociais de certas regiões do interior.

São Paulo tem problemas graves por mais que sejam tabus debaterem eles; além da educação pública profundamente deficiente, uma péssima rede de saúde pública horrível - em grande parte pela forma como os servidores públicos são explorados em detrimento da burocracia enraízada nas secretarias da vida - faltam políticas de coordenação intermunicipal - principalmente nas regiões metropolitanas do estado, nas quais o planejamento e a problemática social acaba saindo da mão das administrações municipais devido ao fenômeno radical de conurbação que ignora as divisas municipais. 

Ademais, resta o problema de que o interior tem seus focos de desenvolvimento, determinadas cidades que se tornaram centros industriais respeitáveis, mas que padecem de problemas sociais nas suas periferias - além, claro do gravissímo problema da Região Metropolitana de São Paulo, com 39 municípios e um verdadeiro anel de miséria em seu entorno fruto de um processo de desindustrialização precoce e uma passagem turbulenta para uma fase pós-industrial, que pode sim se repetir no interior sem que não tenhamos desenvolvido uma solução plausível. Honestamente, não estou esperando nada de bom este ano.

sábado, 30 de janeiro de 2010

As Pesquisas Eleitorais e as Eleições 2010

Em um primeiro momento, eu creio que as pesquisas eleitorais são uma página particularamente complexa da ordem brasileira pós-1988, pois, para além da neutralidade com a qual se apresentam, elas são um importante fator de direcionamento do eleitorado e de uma redução do processo eleitoral a uma mera disputa de popularidade - e temos sim episódios completamente bizarros como a das últimos eleições baianas, na qual Jacques Wagner estaria sendo derrotado no primeiro turno e, de repente, exatamente o contrário aconteceu (!).

Portanto, é preciso muito ceticismo na avaliação desse tipo de pesquisa: Considerar de antemão a inexistência de neutralidade delas e investigar os pressupostos políticos e econômicos por detrás da sua elaboração e publicação são fatores essenciais nesse processo. Tais empresas de avaliação da "opinião" - e não de conhecimento  das pessoas são influenciadas, em um primeiro momento, por seus próprios interesses políticos e econômicos estritos - a preferência sim por um dos candidatos - e pela necessidade de sobrevivência no ramo, o que as pressiona por outro lado para a divulgação de pesquisas mais ou menos fidedignas - em suma, é mais comum a indução dos entrevistados do que a fraude propriamente dita.

Tais pesquisas servem para o sistema como oráculos: Se por um lado, elas podem ser um instrumento de influência da massa desorganizada no período pré-eleitoral, por outro, elas são importantes fontes de informação que ajudam o sistema a traçar, com a devida certeza e antecipação, o seu modus vivendi com os grupos que tem chances reais de ocuparem o poder político. Nesse clima particularmente agitado pela proximidade da campanha para a Presidência da República, a  mais recente pesquisa eleitoral causa furor e se torna o grande ponto para o debate - principalmente, pelo fato da candidata governista, Dilma Rousseff, ter registrado novo crescimento.

É um cenário muito complexo, para além das pesquisas eleitorais, temos um quadro em eleições presidenciais, de 89 para cá, no qual a esquerda jamais teve menos do 30% dos votos. Por outro lado, desde que Lula ficou a frente de Brizola naquele pleito, temos um quadro no qual o PT domina o setor de esquerda (o que se comprova também nas eleições parlamentares) e, depois de 2002,  passou a absorver grande parte do eleitorado centrista - evidentemente Lula é maior eleitoralmente do que o PT, uma distorção possível dos sistemas presidencialistas, mas isso não quer dizer que o PT seja pequeno, muito pelo contrário, ele foi o partido com a maior votação direta para a Câmara em 2006 e segunda maior nas municipais de 2008.

Nesse momento, Dilma, representa tanto a sucessão de Lula quanto a candidatura do PT. José Serra, seu adversário, mesmo tendo origens na esquerda, está firmemente aliado com a direita e detém ao seu favor praticamente a unidade desses votos. As pesquisas de opinião, em sua sutil metafísíca, apontam, por sua vez, para uma altissíma popularidade do atual presidente, o que pode fazer a diferença na disputa do eleitorado centrista - as duas eleições de Lula foram fruto de um consenso entre a esquerda e e parte do centro, expressa pela mistura de uma política social-democrata com retoques desenvolvimentistas; tais pesquisas sobre sua popularidade, portanto, apontam para a manutenção desse consenso, o que é amplamente desfavorável para Serra.

Nesse ponto, boa parte das pesquisas eleitorais do ano passado que apontavam para Serra com uma considerável vantagem, tinham omitidas na sua publicação pela mídia corporativa o fato de que poucos entrevistados manifestavam a sua intenção de voto - e muitos dos que se manifestavam, o faziam mediante o estímulo, ou seja, depois da leitura dos nomes dos possíveis candidatos. Levando em consideração que o eleitorado que tende a estar mais mobilizado um ano antes das eleições é, justamente, o de oposição, tínhamos uma situação pouco esclarecedora.  

O que temos assistido nos últimos meses é o crescimento da candidatura Dilma, o que revela uma aproximação das pesquisas de opinião sobre as eleições 2010 com as congenêres sobre a avaliação do atual mandatário - confirmando uma tendência como aponta um post do blog do Azenha: Dilma detinha 17% em dezembro e agora tem 27%, a proporção diante da manifestação bruta de intenção de voto foi de 22,07% para 34,6% - haja vista que em Fevereiro 78% dos entrevistados se manifestaram contra 77% em Dezembro. A candidata governista tem agora o eleitorado consolidado da esquerda e possívelmente alguns eleitores centristas - dado o fato de que Marina Silva ainda rouba votos à esquerda.

Serra, por sua vez, caiu de 50,6% para 43,58% no que toca aos entrevistados manifestaram intenção de voto. Foi uma queda drástica se levarmos em consideração o espaço de tempo que falamos, mas ela foi previsível. O que ele tem, mesmo sendo o nome mais conhecido do eleitorado, é pouco mais do que votação que ele e Alckmin tiveram em 02 e 06 respectivamente, algo relevante, mas insuficiente. Essa equiparação entre os candidatos, ditada pelas pesquisas, vai esquentar as coisas daqui para frente, espero que colabore para a qualificação do debate, ainda tão pobre numa democracia representativa cada vez mais em crise.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Aniversário d'O Descurvo

Há um ano atrás, este blog teve início. De lá pra cá, foram 253 postagens. Passei por altos e baixos, fiz correrias inacreditáveis para continuar postando, mas sempre tentei manter-me fiel à ideia fundante deste espaço: Fomentar o debate e provocar a reflexão em relação a todo esse fluxo informacional que nos sufoca diariamente. Não é uma tarefa nada fácil - e é assim que ela deve ser encarada, sem se perder no idealismo nem no niilismo, dando um passo de cada vez e chamando as pessoas para construírem junto. Estivemos juntos acompanhando momentos que vão desde o protesto contra a ditabranda até o golpe hondurenho, sempre provocando um cadinho e chamando para o debate. A blogosfera é um meio profundamente dinâmico e um ano aqui equivale a décadas no "mundo real" - seja lá o que isso signifique -; quando eu lembro que a minha carreira de comentarista obsessivo-compulivo de blog tem só dois anos e meio, e que eu escrevo aqui há apenas um, chega a ser chocante. Nesse período, não acho que a blogosfera evoluiu qualitativamente, muito pelo contrário, em muitos momentos ela me preocupa -  e do mesmo modo, eu sou cada vez mais crítico em relação ao que eu escrevo e ao que eu estou fazendo nesse espaço. Espero continuar aqui por mais um bom tempo ou pelo menos enquanto eu continuar achando que ainda faço alguma diferencinha por aqui - dentro da minha humilde pequenez -, sigamos juntos, portanto e matemos os nossos leões de cada dia.

Um abraço

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

A Economia Americana e a Era Obama

Ontem, o nosso amigo João Villaverde postou um artigo capicioso sobre a nova política americana de corte de gastos e aumento dos impostos; Para o João, essa política seria suicida e estava destinada a agravar a situação economica do país - para tanto, ele traçou um interessante paralelo com a Crise de 29 e como políticas de austeridade fiscal agravaram a situação ao invés de resolvê-la. 

É um bom debate, mas eu discordo do João. A Crise de 29 se deveu entre outras coisas a um aumento considerável da produtividade industrial americana, desacompanhada de um crescimento salarial e de um desenvolvimento do mercado creditício - tanto em condições de crédito quanto no acesso a ele - capazes de suportar tal fenômeno. Também devemos poderar o fato que a Europa foi destruída no pós-Guerra e não teve ajuda americana para se reconstruir, logo seus mercado interno, que poderia absorver a produção americana, estava completamente anêmico - ao passo que Japão e URSS se desenvolviam com modelos fechados.

Não deu outra: A deflação explodiu nos EUA, pois a oferta era muito maior do que a procura, os preços caiam e junto com eles os empregos iam embora num círculos vicioso - mais do que isso, todo o sistema ocidental, já tributário da jovem potência americana, acabou sentindo os efeitos da Crise. Naquele momento não havia outra política possível nos EUA senão cortar juros - e para tanto, Roosevelt bateu de frente com o sistema financeiro - e gerar déficitis públicos derramando a grana na economia - em suma, ali o desarrocho fiscal e monetário eram fundamentais porque a economia estava artificialmente congelada.

Essa crise atual, por sua vez, é bem diferente. Ela diz respeito aos efeitos adeversos a uma mundialização economica assentada sobre uma superpotência e sua respectiva moeda nacional - assumida enquanto moeda hegemônica -, o que era insustentável a longo prazo, mas acabou explodindo nos anos Bush por conta da forma como ele e os republicanos detonaram as contas públicas, o que, junto com o déficit comercial, criaram um déficit em conta corrente insustentável mesmo para os EUA, pois essas medidas acertavam bem no centro de equilíbrio do Dólar, justamente a grande arma americana em assusntos econômicos.

A sobrevivência do Capitalismo contemporâneo passa pela construção de mecanismos globais de governança econômica e, quem sabe, de uma moeda global. No entanto, enquanto essa complexa construção não é elaborada - e um dos entraves para isso é, justamente, a política muito pouco empenhada do Governo Obama nesse sentido -, o mundo depende sim de ajustes econômicos nos EUA - e os próprios americanos dependem disso.

O fato é que dentre as economias desenvolvidas do globo, os EUA tem uma das menores cargas tributárias, com algo em torno de 27% do PIB - contra uma média de 38% na Europa. Por outro lado, a população americana é profundamente contrária a aumentos de impostos e se mostra mais insatisfeita com os impostos que paga do que os Europeus. O Allan Patrick fez um post interessante sobre as possíveis causas disso: O Governo Americano gasta 55,3% do PIB em gastos militares e em juros da dívida pública (sendo que tais juros crescem devido com a dívida agravada pelos gastos militares).

Em suma, objetivamente, mais da metade dos impostos arrecadados nos EUA vão para oligopólio bélico e para o financeiro. Tirando algo que se perca pelo caminho, então temos um descalabro, quase nada retorna para o contribuinte e, pior, o Estado, mesmo tendo uma tamanho relativamente pequeno, opera como um elemento concentrador de renda agudo, tirando dos trabalhadores e dando para o grande capital bélico e financeiro - numa inversão tão feroz que passa desapercebida pelo próprio Índice de Gini.

Economia não é um jogo de custos, mas sim de custo-benefício, nesse sentido, a eficiência do imposto pago pelo contribuinte americano é muito mais baixa do que o do seu congenêre europeu. Assim, ele acaba mirando a sua insatisfação no Estado e se torna arredio a qualquer política de ampliação dele - pelos motivos errados, o que implica até mesmo numa oposição mesmo a planos como o da universalização da saúde pública. Hoje, o capitalismo americano depende de um aumento do Estado e um corte de gastos sim, mas caso o sistema politico local não seja capaz de cortar onde ele deve , ou seja, no descarado subsídio dado ao setor bélico, ocorrerá um desastre sem precedentes devido a capitulação do sistema a um setor-parasita.

O capitalismo americano - e global - pode simplesmente implodir. Isso não é nada bom: Devemos trabalhar pela superação dialética dos sistemas economicamente exploradores, esperar pelo colapso já previamente inscrito em sua dinâmica. Portanto, o catastrofismo alimentado por certos setores da esquerda é simplesmente assustador, improdutivo e anacrônico. Tomemos como exemplo o fim da ignomoniosa planificação centralista da Cortina de Ferro, ocorrida não por sua superação, mas sim pelo seu colapso e temos uma bela imagem dos riscos que estamos correndo.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

O Aniversário de São Paulo

Hoje, São Paulo completa 456 anos de idade e não há o que comemorar. Choveu e, para variar, inúmeros bairros ficaram debaixo d'água, aconteceram desabamentos, o transporte público parou ou ficou lento e o trânsito ficou um caos. O problema não é apenas o ridículo de uma cidade desse porte simplesmente parar quando chove forte, mas sim o singelo fato de que pessoas de verdade vão morrer e outras tantas ficaram desabrigadas.

A cidade é um caos urbano. O crescimento maluco do pós-guerra movido à política econômica pau-na-máquina dos militares se concretizou por uma industrialização anormal, a doutrina de privilegiar o transporte individual em detrimento do público e no acúmulo dos trabalhadores em verdadeiros anéis de pobreza estabelecidos na pereferia do município. Some-se isso a intrincada rede de corrupção enraizada na administração pública e temos a expressão do caos.

Se até os anos 80, ainda residia a ilusão de uma vida digna no coração dos milhões de trabalhadores imigrantes que ajudaram a construir a cidade, depois disso, a desagregação social atingiu patamares inacreditáveis. A favela deixou de ser um local de moradia precário, porém temporário para se tornar uma campo de concentração perpétuo. Os aluguéis nos bairros proletários se tornaram impagáveis. Quando a desindustrialização precoce decorrência lógica do processo de industrialização anormal, os políticos ainda vendiam a ilusão de "trazer mais indústrias".

Nesse sentido, setores da esquerda paulistana foram fundamentais na organização de movimentos de moradia. Em geral, falávamos daqueles setores que giravam em torno da esquerda católica que ajudou a fundar o PT e, em menor grau, setores da esquerda uspiana. Mesmo sendo pouco, foi com o apoio desses setores que Luiza Erundina venceu as prévias do PT, contra os interesses da cúpula do partido, derrotando, vejam só, o hoje psolista Plínio de Arruda Sampaio, então candidato da Articulação - numa época em que as bases do PT ainda tinham forças para peitar a cúpula do partido, logo mais, isso mudaria. Erundina ainda venceria Paulo Maluf, a encarnação da direita paulistana, nas eleições municipais.

Claro, Erundina nunca foi perdoada por setores importantes do seu partido. Isso fez uma diferença muito grande quando ela era massacrada pela direita paulistana durante o seu governo - e muitos dos seus correligionários simplesmente não descruzavam os braços, exceto quando era para brigar internamente. A falta de cola administrativa de sua gestão, o jogo baixo dos seus adversários e a falta de coesão interna do partido abriu espaço para a volta da direita no poder, mais especificamente do malufismo - com efeito, um desastre.

Os anos 90 foram um desastre. Sob a égide de Maluf, a corrupção grassava na prefeitura enquanto um modelo urbanista fracassado e já ultrapassado - mas interessante para alguns oligopólios - era mantido. Some isso ao desmonte promovido pelo Governo FHC e por Covas no Governo Estadual - que diagnosticava bem os problemas de São Paulo, mas fracassava nas medidas - e o PIB da maior cidade do país, inclusive, caiu em números absolutos, o desemprego cresceu exponencialmente junto com a pobreza, a miséria e a violência. O terror só piora quando Maluf ainda faz sucessor e elege Celso Pitta na esteira da inépcia da esquerda local. Durante o Governo Pitta, a tragédia ganhou aspectos de comédia.

O PT municipal só ressucitou à luz do descalabro. A atuação corajosa de um José Eduardo Cardozo na Câmara foi fundamental na confrontação que resultou na derrota do malufismo, a duras penas no ano 2000, quando uma certa Marta Suplicy passa para o Segundo Turno contra Maluf e o derrota com o apoio do PSDB covista - talvez no último gesto político de relevo de Covas, que viria a morrer meses mais tarde em 2001.

O Governo Marta foi um misto de boas políticas sociais, a velha falta de coesão administrativa do PT paulistano e certos exageros e imprudências. Isso custou a derrota petista em 2004 para um Serra, disposto a usar aquela eleição como um trampolim para seu renascimento político - o que implicaria na sua volta ao jogo da disputa pela Presidência da República, o que se confirmou.

Curiosamente, Serra vence com um vice desconhecido, um obtuso deputado do ex-PFL chamado Gilberto Kassab que herda quase que um mandato inteiro, quando Serra, naturalmente, pula do barco e vai disputar o Governo do estado - saindo-se bem-sucedido novamente, pelo menos do ponto de vista eleitoral. Kassab toca mantém certas características do Governo Marta, pára outras e as contradições essenciais do município continuam sendo mais do que empurradas com a barriga: Elas são acirradas.

Kassab derrota uma desgastada Marta e um decrépito Alckimin graças a mais um jogada de mestre de Serra que assim afirmou sua liderança dentro do partido. A história daí em diante, você já deve conhecer. Enquanto os confrontos eleitorais entre os partidos burgueses se segue, a população vive mal. Hoje, 57% da população gostaria de se mudar. Só agora, tanto tempo depois, as pessoas descobrem que Kassab é um mal prefeito.

A cidade é isso, uma pequena quantidade de bairros burgueses e pequeno-burgueses, mantidos pelos trabalhadores que moram em bairros decadentes na periferia - ou mesmo na hiperperiferia da região metropolitana. A cultura é uma cópia do mass culture global e uma tentativa de réplica da erudição europeia. São Paulo incomoda porque ainda tem potencial de ser algo melhor, mas não é e só será quando a ideologia bandeirante - o processo bárbaro, incessante e imoral de civilização - for superada.



 

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Análise das Eleições Chilenas


 (Foto retirada daqui)


Sebastián Piñera derrotou Eduardo Frei no segundo turno das eleições chilenas e é o novo presidente do país. Será o primeiro presidente direitista eleito naquele país pelo voto popular - em um processo limpo, diga-se - desde que Jorge Alessandri venceu as eleições presidenciais de 1958 - para um mandato que acabou em 64. De lá para cá, fora a ditadura Pinochet, a cadeira presidencial foi ocupada por três democratas-cristãos e três socialistas - portanto, houve uma alternância entre o centro e a esquerda no que toca os dois períodos de normalidade institucional dos últimos 46 anos. O resultado foi bastante apertado: Piñera venceu Frei por 51,8% a 48,1%.

No Chile, diferentemente do Brasil, a direita é bem articulada partidariamente e não precisa se associar a partidos de centro para vencer eleições. Ela mobiliza um eleitorado poderoso e a verdade é que o país é bem mais conservador do que o Brasil - principalmente em questões morais. Piñera é muito diferente de Serra: Enquanto o segundo é um político de centro cuja origem remonta à esquerda e agora, oportuna e eleitoralmente ele se alia  à direita, o primeiro foi um homem do establishment da ditadura Pinochet e é várias vezes mais conservador.

Aliás. o Renovación Nacional (RN), o partido de Piñera, também não é o PSDB. Ele é muito pior. Ele é um quase DEM, um partido criado em 87, logo depois que Pinochet permitiu a reorganização dos partidos e o país se preparava para o plebiscito que iria decidir pela permanência da ditadura, conseguido a duras penas - tanto por uma pressão interna silenciosa quanto pela pressão internacional. Mesmo estando um tantinho à esquerda da Unión Democrática Independente (UDI, a maior agremiação individual do país) o RN apoiou em sua maior parte a manutenção da ditadura. Se o antigo PFL no Brasil pelo menos nasce de uma ruptura na base de apoio da ditadura local, numa adesão de última hora à democracia formal, no Chile, o RN, nem isso é. No máximo, é um quase DEM.

Também é particularmente engraçado como Eduardo Frei-Tagle é qualificado como esquerdista. Nada disso. Frei é um centrista, fosse brasileiro e estaria certamente no PSDB. Aliás, quando falamos no Consertación, a famosa coalização que une partidos de esquerda e centro-esquerda do pais, falamos de um balaio de gato que só teria paralelo no Brasil se o PT e o PSDB se unissem numa coalização para derrotar a direita - mais ou menos quando ambos se uniram nos segundos turnos das eleições para o governo de São Paulo em 98 e para a Prefeitura de São Paulo em 00 contra o malufismo.

Talvez, isso só não aconteça no Brasil porque a direita pró-ditadura seja insignificante, o que permite o PSDB manter uma posição cínica de cooptação de votos à direita - e de composição com partidos desse espectro -, por um oportunismo eleitoral que ele pode se dar ao luxo pela conjuntura. Aliás, insisto: O Partido Democrata-Cristão do Chile se assemelha mesmo ao nosso PSDB enquanto o Partido Socialista seria o equivalente ao PT. De tal forma, Serra não mente quando diz que torcia para Frei. Para exemplificar, PT e PSDB têm, juntos, 27,8% dos deputados enquanto PP e DEM têm 19,8%; no Chile, enquanto o PS e a Democracia Cristã têm 25% dos deputados, UDI e RN têm 48%.

Se pegarmos as duas últimas eleições chilenas para presidente, veremos que os candidatos do Consertación venceram por margens pequenas. Os democratas-cristãos Aylwin com e Frei ganharam com, respectivamente, 55% e 58%, enquanto os socialistas Lagos e Bachelet venceram, ambos em segundo turno, com , respectivamente, 51% e 53%. Na hora H, a aliança de centro-esquerda sempre esteve pau a pau com a direita e o voto centrista é quem decidiu. A referida popularidade de Bachelet era pura aprovação pessoal e de governo, o que conta pouco num país no qual o eleitorado é bem mais polarizado e dividido do que no Brasil - e bem menos progressista também.

Bachelet errou em alguns aspectos, mas os democratas-cristãos erraram ainda mais. Por mais que o PDC seja maior do que o PS, suas lideranças deveriam ter a sensibilidade - e a honestidade - de admitir que não tinham quadros para disputar uma eleição majoritária e que nas fileiras socialistas haveria quem fizesse isso melhor - como o próprio Marco Enriquez-Ominami, que se candidatou como independente porque o Consertación iria indicar um democrata-cristão e o mesmo vale para Jorge Arrate. Tanto isso é verdade que ressucitaram a figura de Frei. O erro da atual presidente do Chile foi não ter tensionado e bancado uma candidatura própria do partido.

Dentro da atual conjuntura política chilena, no entanto, Piñera estará duramente limitado. Não poderá governar para si ou apenas para elite chilena. É verdade que é contraditório que tenha vencido, com um discurso fora de moda à luz da conjuntura mundial, mas ele não poderá fazer um governo conservador radical, nem virar as costas totalmente para a integração latino-americana e os projetos sociais do Consertación - que são fundamentais para um país com um abissal desigualdade social como o Chile, a maior ameaça no médio prazo para o avanço do desenvolvimento do país.

Mesmo que a instituição da Presidência da República seja forte no Chile, a conjuntura parlamentar não lhe favorece; a Coalizão pela Mudança a que pertence, fez apenas 58 deputados em 120 - apenas mais um do que o Consertación - e fez apenas 17 senadores em 120 - um a menos do que o Consertación. A Coalizão de Esquerda Chile Limpo fez 6 senadores e e 3 deputados. Os independentes fizeram 4 senadores e 2 deputados. A Nova Maioria - coalização que une ecologistas e humanistas - fez 7 senadores e nenhum deputado. Portanto, o equilíbrio dos últimos anos foi mantido, o que aponta para mais 4 anos de conservadorismo extremo nas questões individuais e uma manutenção do modelo econômico e social - ou pelo menos representa que se Piñera quebrar esse pacto, o Chile ficará ingovernável e ele ficará paralisado.

Duro é saber o quanto Piñera pode conter arroubos do tipo por parte da direita e mesmo o quanto ele quer isso. Mais duro ainda é saber até quando o modelo chileno continuará produzindo efeitos socialmente positivos - afinal, se mesmo com as reformas lentas do Consertación, as coisas pareciam se aproximar de uma contradição logo mais, agora as coisas tendem a ficar mais complicadas.

No que toca ao futuro dos socialistas, é difícil imaginar que eles voltem ao governo caso não refundem seu partido. Isso não está próximo nem será fácil: O PS é refém político dos democratas-cristãos e o resultado das eleições parlamentares onde ele ficou apenas em quinto no geral individual dos partidos e em terceiro dentro de sua coalizão - bem como a crise nas suas bases e no topo - são indicativos claros disso.

Enfim, o caso chileno não tem tantos paralelos quanto imaginamos com o nosso quadro político - ou como nos fazem imaginar alguns cientistas políticos que veem nisso um bom argumento para dizer que Dilma irá perder (ela pode até perder, mas não pelos mesmos motivos). O paralelo que se pode traçar, portanto, não é eleitoral, mas sim puramente político: A esquerda não pode fazer política orientada por cálculos frios de poder, mas sim a partir e de acordo com valores. Seja lá onde for.

sábado, 16 de janeiro de 2010

Ano novo no Futebol

Há quem veja o futebol com maus olhos, eu pessoalmente, creio que visões muito negativas sobre o esporte bretão são movidas por uma profunda incompreensão do que ele se trata - ou pelo menos, nunca me deparei com uma argumentação suficientemente convincente contra ele. Creio que, como qualquer outra atividade humana, ele tenha defeitos e virtudes, mas estou certo que as segundas superam de longe as primeiras;  mais do que isso: Mesmo que por natureza o futebol já seja um esporte bastante includente, ele, mais do que as outras esferas de convivência humana, se mostrou mais capaz de absorver certas demandas sociais do que a média; Ele incluiu negros, está incluindo as mulheres assim como inclui pessoas dos mais diversos biotipos - e, por tabela, etnias. O futebol tem um grande desafio pela frente que é incluir também os homossexuais masculinos, mas creio que cedo ou tarde isso vai acontecer. O futebol já parou guerras. Lembro bem do jogo entre Brasil e Haiti e de como isso ajudou a facilitar a missão da ONU no país - que se não rendeu os devidos frutos, não foi nem é pela presença das tropas da Minustah por lá. A temporada, aliás, começou - cedo devido a Copa da Mundo da África do Sul que parará o mundo da bola no meio do ano. Destaque para o meu Palestra que a despeito da fragilidade do adversário, o Mogi Mirim, jogou muito e enfiou um chocolate de 5x1 - Márcio Araújo e Léo estreiaram muito bem, Cleiton Xavier e Diego Souza deitaram e rolaram. Pois é, a saída de Vágner Love fez bem para a equipe.