quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Django Livre: o Anti-Obama, Anti-Spike Lee

Django Livre possivelmente é o melhor filme de Quentin Tarantino. A exemplo das demais obras do cineasta, trata-se de um projeto tecnicamente irretocável: da trilha sonora às atuações, passando pela fotografia e pelas incomparáveis cenas de ação. No entanto, há algo de superior em Django em relação aos demais filmes de Tarantino -- que é justamente o modo praticamente perfeito como a narrativa habita seu locus histórico. Poucas películas pontuaram tão bem a questão racial americana quanto ela. O cowboy é negro, o anti-racista é alemão, o grande vilão é a servidão voluntária -- que é prontamente desnaturalizada; não é uma questão de mocinhos e bandidos, é uma questão de vontade de potência contra paixões tristes.

Há dois pontos em Django que incomodaram mesmo o movimento negro americano (o que é revelador): o primeiro é que se trata de um filme bem humorado, o segundo é que a servidão voluntária é retratada como o centro de gravidade do esquema racista da Casa Grande. Talvez incomode ver a KKK sendo ridicularizada antes de ser destroçada por Django na cena mais engraçada do filme -- mas quem não se agrada do riso é, certamente, digno de alguma desconfiança (como, aliás, já lembrava um tal Foucault). Talvez incomode admitir o colaboracionismo negro no esquema da escravidão ou mesmo que não conciliação possível. Mas ter cutucado essas feridas é o torna Django sensacional.

Leonardo de Caprio interpreta não o antagonista da trama, mas uma marionete deprimente de um esquema no qual Samuel L. Jackson, manipulador e inteligentíssimo, move as pobres mentes brancas para a manutenção de uma ordem na qual ele prepondera como chefe e morador distinto da Casa Grande (sem ele mesmo deixar de ser escravo ou, também, uma peça do jogo). O racismo americano é demonstrado em toda a sua dimensão sistêmica, sem se rebaixar ao discurso de conciliação -- como o de Obama na política ou mesmo aquele visto em películas como Invictus -- ou ao maniqueísmo -- como insiste um Spike Lee que não viu e não e não gostou do filme.

A personagem sensacional de Cristoph Waltz, um dentista alemão que se tornou caçador de recompensas e nutre um ódio sem limites à escravatura, não media nem conduz nada: ele é tanto mais um xamã, abrindo portais para novos mundos, do que qualquer outra coisa. E o problema não está no alemão, no outro -- o evidente inimigo e vilão -- mas sim na elite branca e ignorante dos Estados Unidos. Kerry Washington, como a amada de Django, sequestrada e torturada, expressa essa dor sem fim (e duplicada) da mulher negra.


E Jamie Foxx está soberbo. O seu Django é a expressão máxima e definitiva da potência da gente negra. Se ele realmente não era a primeira opção de Tarantino, seguramente, entrará para o rol dos grandes planos B da história do cinema. Deus abençoe o fato de ter sido ele, e não (o cada vez mais irrelevante) Will Smith, o Django. Só o negro é capaz de romper os grilhões que lhe prendem -- e o olhar cortante (de amor, de paixão) de Foxx traduz isso perfeitamente. O inimigo está aqui dentro. Django para lá da farsa histórica e do discurso auto-indulgente: é tudo questão de força, pura força e puro estilo, é questão de confrontar e saber confrontar. Sem isso, não existe liberdade -- e o que interessa: os negros podem. 

Django acerta um tiro certeiro no coração do racismo americano. E também nas duas faces nas quais se desdobra o lado asceta do movimento negro. Aquele discurso que gira em torno da culpa, seja tirando a culpa dos brancos (como no caso de Obama) ou colocando-a paranoicamente sobre eles (no caso de um Spike Lee). Não é questão de culpa, mas sim das coisas como elas realmente estão -- e de que é preciso fazer a diferença optando pela libertação. Não há motivo para se temer o riso. 

P.S.: Esta postagem é a primeira do ano V de O Descurvo, ontem foi aniversário de quatro anos do Blog.

26 comentários:

  1. adorei Hugo. só uma coisa: o Stephen é interpretado pelo Samuel L. Jackson. abs!

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  2. Também achei Django Livre o melhor do Tarantino. Muito bacana o texto, e bom começar o 5º ano do blog com uma postagem sobre um filme tão divertido e interessante. Parabéns!
    Só uma correção Hugo. O negro da casa grande não é interpretado por Glover, mas por Samuel L. Jackson, que está sensacional, diga-se. A cena em que recebe Candie, interpretado por Di Caprio, na biblioteca da casa, é digna de nota e bastante atenção.

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    1. Obrigado pelo toque betaclapp e Ronan Ferreira e desculpem pelo equívoco -- e, sim, Ronan, aquela cena é o centro de gravidade do filme.

      abraços

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  3. O filme NÃO acerta o coração do racismo norte-americano. Dizer que a solução para o racismo está num confronto que ainda está por ocorrer, dependendo para isso de uma força negra ainda não mobilizada, é um desrespeito à história de negros e negras que resistem à escravidão e ao racismo desde que o primeiro tumbeiro atracou num porto norte-americano (e nesse sentido a crítica de Lee, mesmo uma crítica "não vi e não gostei", continua a ter pertinência e sentido após ter visto o filme) e insuportavelmente indulgente, ainda mais vindo da voz de um branco. É fazer pouco de uma Rosa Parks, de uma Angela Davis, de um Malcolm X, de um Martin Luther King - foi potência? foi força? foi disposição para o confronto que faltou a eles? Ou a persistência do racismo apesar da existência dessas, e tantas outras, figuras históricas da luta antirracista não aponta para outra coisa?
    Um dos grandes méritos do filme é, de fato, retratar não só a violência branca contra o corpo negro, mas também a inversão dessa violência com a narrativa da vingança, e permitir que a audiência se identifique positivamente com essa violência. Isso, de fato, é muito bom.
    Mas desarticular isso do sistema de privilégios para brancos que permite, estimula e se beneficia da violência e em função do qual, até certo ponto, ela existe, é ruim. Pior ainda é associar um herói que se quer antirracista com uma narrativa marcada pelo individualismo, pelo excepcionalismo e pelo apadrinhamento - características marcantes da sociedade americana e do discurso racista norte-americano contemporâneo. Existe uma direita americana abertamente racista, organizada em torno da KKK, que parece ser contra quem o discurso do filme é dirigido; mas e o discurso de uma direita que, há décadas, desde pelo menos Reagan, *exorta* os negros americanos a encontrarem o excepcional dentro de si, a criar caricaturas de welfare queens e gangsta culture como denúncias de uma preguiça, de uma inadequação social, que pode ser superada pela força de vontade, e que aponta Obama, Rice, Powell e outros como exemplos de que vivemos numa sociedade "pós-racial" onde há oportunidades para todos e todo esforço é recompensado - tudo isso para mascarar um sistema de privilégios que garante que não, a porta não está aberta para todos - esse discurso, que é hegemônico hoje, é menos racista?
    Fazer essa articulação teria exigido um filme bem diferente - certamente não um filme, como você bem descreve, onde o "mastermind" é um escravo negro que manipula o senhor branco, este um peão no esquema montado para garantir a exploração de outros corpos negros. Teria que ser um filme em que essa escolha do personagem de Jackson só foi possível/necessária porque essa escolha lhe foi imposta pela casa grande. Numa sociedade racista de privilégios, o sucesso só está aberto aos brancos, através da exploração de corpos negros; a escolha de um negro de se aproximar desse sucesso tornando-se, ele também, um explorador de outros corpos negros é uma escolha dentro do esquema da escravidão, que não questiona sua existência ou pressupostos, é uma escolha que não emancipa e não liberta, quando a alternativa da rebelião poderia fazer as duas coisas; verdade. Mas essa escolha só estava lá porque foi posta por um sistema de exploração de corpos negros, de seu sequestro, reificação, comercialização e exploração, criado por e para brancos. A escolha do negro da casa grande é a escolha de um negro por *embranquecer*, por vestir uma máscara branca, um processo muito bem descrito por Fanon, só possível numa sociedade racista, organizada em torno dos privilégios de uma elite branca. Colocar o negro como vilão do próprio negro, sem demonstrar o quanto essa situação só é possível numa sociedade racista em que brancos promovem e se beneficiam da exploração de negros, única sociedade onde o embranquecimento é possível, é uma construção rasa, ideológica - e racista. Faça a Coisa Certa e A Hora do Show, ambos do Spike Lee, são melhores retratos do racismo do que Django.

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    1. André, não é questão de "desrespeito": o negros americanos -- e os brasileiros, latinos-americanos, europeus... --, assim como qualquer outra minoria, são vítimas de uma guerra que não causaram e não são responsáveis pela própria desdita, NO ENTANTO, só serão livres no momento em que se levantarem, porque é por paixões tristes, pela própria resignação, que são dominados. E servidão voluntária não é natural, tampouco um fruto de uma hábil perversidade discursiva do dominador: é fruto de uma interação, na qual as partes representam em um mesmo contexto de discurso mestre-escravo. Todos os ícones negros que você citou romperam isso e fizeram acontecer -- e fizeram a história dos negros, a indulgência com a qual o tema é tratado, ao contrário, apaga a história dos negros para criar a história das vítimas ou dos coitados, coisa que os negros não são: toda minoria é antes de tudo, forte.

      E para criticar um filme, precisa ler sim, meu querido. É uma regrinha básica da coisa. Se Lee fez, errou. A resposta de Jamie Foxx foi contundente. No mais, o Django que ele interpreta passa ao largo de ser fruto de um discurso reaganiano-neoliberal que faz "os negros americanos a encontrarem o excepcional dentro de si": Reagan sequer os exortava a isso. O discurso de Reagan era o dos negros encontrarem o seu lugar, cientes de que se adequassem ao mundo branco e soubessem o seu lugar, talvez encontrassem algum bom destino. A culpa era dos negros. A obra de Tarantino não é escrava da culpa e Django é tanto mais um super-homem nietzscheano do que uma ovelhinha do neoliberalismo, por isso neste ponto discordo bastante de ti.

      Sobre o personagem de Jackson, ele é tão vilão quando Di Caprio, porque ele pode escolher diferente e mais do que qualquer outro. A dialética do soberano-súdito não funciona sem um terceiro termo: será sempre o escravo de dentro-de-casa, o fura-greves, a mulher machista. Sim, só são possíveis dentro da guerra que nem eles escolheram, mas não são vítimas, são o elemento essencial para a manutenção da ordem -- nos Estados Unidos, na África do Sul, em qualquer parte -- e sem derrota-los, não existe liberdade. Dizer que tocar nessa ferida é racismo, é conveniente.

      abraços

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    2. Algumas questões mais:

      1. A relação mestre-escravo não é uma relação de ruptura OU conformidade, é as duas ao mesmo tempo. Qualquer relação de poder está atravessada por resistências, subversões, rupturas; ainda que momentâneas, limitadas, elas estão lá, a todo momento. A opressão sempre será uma imposição ao oprimido, mas ao mesmo tempo nunca será o destino ideal que o opressor gostaria de lhe impor. Negros e negras (qualquer grupo oprimido) se levantam a todo momento, em todos os lugares, de diferentes formas. Ninguém é coitado nessa história, longe disso. E justamente por isso não há sujeitos imóveis que precisem ser mobilizados; a fragilidade não é o imobilismo, é o isolamento, a desarticulação, a redução da opressão à sua expressão meramente individual e a promessa de sua superação também colocada no plano meramente individual (IMVHO). Eu não conheço o referencial teórico da servidão voluntária, pode ser que eu esteja mirando o alvo errado e que eu precise conhecer do que estou falando (provavelmente é o caso), mas me parece que não é essa (toda) a questão. Da mesma forma, conheço pouco Nietzsche (só Para Além do Bem e do Mal), mas o que li dele me passou uma visão ética profundamente individualista que responde pouco e mal a essa questão.

      2. A medida da opressão não pode ser outra senão o próprio oprimido; ele sabe o quanto lhe dói a opressão imposta, ele sabe o valor da liberdade que consegue conquistar dia a dia, pedaço por pedaço, na resistência cotidiana ou na sublevação. Ninguém tem mais sabedoria que ele para delimitar os conflitos nos quais se inserem, quem são seus inimigos, quem são seus aliados, quais suas prioridades, e ninguém tem mais legitimidade para fazê-lo. Nesse sentido, o problema não é tocar a ferida, é quem toca nessa ferida - e sim, isso importa. Malcolm X já falava o que era o negro da casa grande. Se eu entendi o que você quis dizer com servidão voluntária, Stephen é seu principal exemplo no filme, embora a impressão que QT dê é de inverter os papéis aqui, uma das coisas que tanto me incomodou. O racismo não é tocar nessa ferida, mas é que a mão que cria essa ferida - pois mesmo o negro da casa grande participa, como você disse, de uma guerra que não escolheu, ela foi escolhida por outrem. O negro da casa grande não pode ser usado como bode expiatório para a responsabilidade branca como protagonista na manutenção do racismo. E o branco responsável pelo racismo (não pessoalmente, individualmente - a questão não é de culpa -, mas ainda assim informado pelo racismo sobre o papel que ocupa e deve ocupar na sociedade e beneficiário da rede de privilégios que o racismo lhe proporciona - a questão é de normas e privilégios), responsável pelas feridas nos corpos negros, arvorar-se a dizer qual dessas feridas é prioritária, de que forma elas devem ser tratadas - isso é indulgência, condescendência, arrogância, racismo. O racismo é um problema que envolve também os brancos, e nós também devemos estar envolvidos em sua superação. Mas o primeiro passo que nós brancos devemos tomar (IMVHO) é compreender que não somos nós os dirigentes desse processo, que não devemos ter a expectativa de cumprir na luta antirracial o mesmo papel privilegiado, especial, central que o racismo nos ensina que estamos destinados a cumprir na sociedade. Não somos nós os responsáveis pela emancipação negra; os negros não precisam que nós conquistemos sua liberdade por eles, não precisam de nós como seus tutores - achar isso é trazer para a luta antirracial as ideias e comportamentos que o racismo nos ensinou a ter. É assim que vejo agir a voz de Tarantino no filme - dr. Schultz -, é assim que (acho que) o próprio Tarantino age na condução do filme, e, IMVHO, é um agir racista.

      3. Falando em culpa, ela não está tão ausente do filme assim. O próprio dr. Schultz confessa, numa das primeiras cenas do filme, o quanto abomina a escravidão e o quanto se sente culpado por usá-la para garantir sua superioridade em relação a Django - mas não hesita em usá-la quando e como lhe convém. Se o filme tem uma chave, para mim é essa cena.

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    3. André, eu diria que há duas linhas recorrentes em nosso meio para tratar a questão da opressão (racismo incluso): uma é moral, enquanto a outra é extramoral. A primeira, depende de um culpado, resulta em uma vítima, na qual o motor da dialética é, necessariamente, a existência do rompimento de um dever, um vínculo ideal de comportamento em relação ao outro: ele não devia ter feito. Para mim, isso é pouco. É se sustentar em uma ilusão que foi quebrada. Sempre andaremos no círculo sem fim do não -devia-ter. Temos bons e maus, um oprimido, um opressor.

      É preciso considerar, ao meu ver, a relação de opressão por seus aspectos reais. Moral não é real, ou melhor, é real apenas como ficção. Há, com efeito, um temor de que isso venha a ser só uma forma de ratificar a racionalidade dominadora. Besteira. É preciso considerar o que existe de impotente no dominado e que permite a dominação. É uma discussão difícil, mas paciência. Não somos coagidos o tempo todo, não estamos sob uma arma o tempo todo. É o discurso que introjeta um comportamento servil pela maneira como ele interfere no nosso imaginário e, daí, nos nossos atos reais: é uma relação íntima entre dominador e dominado, racista e discriminado.

      O dominador introjeta paixões tristes no dominado, que luta contra si como se fosse por si, como considera Spinoza. A história da tirania não é a história de uma força transcendente que subjuga a todos por sua potência, ao contrário, é isso que ela precisa parecer. Ela domina retirando essa capacidade. Mas isso não é uma simples polaridade dominador-dominado, exige um terceiro elemento, que sustenta a ordem: o fura-greves, a mulher que cria a filha para servir o negro da Casa Grande. Ele é a chave.

      É claro que é a minoria o desfavorecido, quem sentirá sempre no lombo o custo da opressão, mas é ela, e somente, ela que detém a força de se libertar. E se libertar porque o dominador é antes de tudo um fraco, senão, creio que não precisaria recorrer a este expediente. O dominado não é culpado pela própria dominação, mas só ele pode libertar a si mesmo. Do contrário, estaríamos esperando pela benevolência do dominador -- uma moralização voluntária? -- ou por um milagre.

      Essa é a lição que importa em Django. O perverso dominado que serve como peça chave para a dominação precisa ser derrotado. E a minoria é forte, mas é da construção de sua impotência que ela se mantém ali. Quando isso muda, a Casa Grande explode. Dizer que o Dr. Schultz é a voz de Django no filme é pueril. É Django que assume os rumos do próprio destino e vence, é ele quem sobrevive. E racismo, como lembra Foucault, é uma decisão sobre quem é matável se não aceitar se dominar. Tarantino não faz isso no filme, definitivamente não faz: O protagonismo é do negro e ver perna em cobra.

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    4. Então, um branco e um negro têm a mesma coisa a dizer sobre o racismo? Um branco e um negro têm a mesma coisa a dizer sobre um negro? Eu acho que não.

      Além do conteúdo, do que se fala, o racismo está presente também do lugar de onde fala, do papel social cumprido por quem produz o discurso? Eu acho que sim. Isso que estou questionando.

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    5. Não, mas não é isso que está em questão aqui: não é uma questão de "ser", mas de "devir"; ser negro não é condição absolutizante para falar da questão do racismo, nem ser branco desautoriza quem quer que seja. A questão é a posição, não só de vista, mas de movimento, de experiência intensiva. É claro que a primazia é contar a história pelos olhos e boca de quem sofreu, do oprimido: mas o negro é protagonista aqui, usando a própria iconografia que pertence ao herói branco, só que invertido.

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  4. Samuel L. Jackson repete seu papel em Manderlay.

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  5. Spike Lee vai estar aqui no Vila Velha semana que vem...

    e diga-se o que quiser, Lee é um grande cineasta do ponto de vista do dominio tecnico (enquanto Tarantino é, na melhor das hipoteses, um coroinha ladrão de hostias nestas teologia a que chamamos Cinema, com C grande. Se Bresson dizia que não fazia cinema, mas cinematografo, porque o cinema era banal, Tarantino eleva a banalidade ao extremo, ao paroxismo).

    E por outro lado, Spike Lee não tem como tema central a questão "do negro" e sim da "inviabilidade de miscigenação entre imigrantes" nos EEUU, diferente da nossa antropofagia de raiz que mesmo na CasaGrande&Senzala gerou uma mestiçagem carnavalesca (aí um que o movimento negro brasileiro não lê e não gosta e com isso perde muito: Gilberto Freyre. A boa esquerda não pode deixar de dialogar com os grandes conservadores que não são reacionários, Marx sabia disso bem).

    O tema aliás da (não) admissão dos imigrantes (mormente pobres) ao American Way Of Life foi tratado no limite da perfeição por Robert Wise em West Side Story (no Brasil com o titulo patético de Amor Sublime Amor - quando poderia apenas ser Um Amor De Periferia) - que já seria genial pela torção completa da gramatica do musical que ele impõe: coreografias em canone, luzes estouradas, camera em movimento, desfocamentos e embassamentos, etc.

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  6. Invictus, como todos os filmes do grandissimo Clint Eastwood (este sim um dos ultimos, senão o último, tragico western do cinema) é menos sobre a conciliação, e mais sobre a persuasão - esta arte radicalmente democratica de causar desejo no adversário, de modo a subverter em conta-gotas.

    É aliás tema central em Eastwood desde Os Imperdoáveis e passando pelas Pontes de Madison, Meia-Noite No Jardim Do Bem e Do Mal, etc.

    Mas lembre sempre que pra mim Tarantino sequer faz cinema ruim - ele não faz cinema algum. Isso que ele faz é mais facilmente classificavel como pudim. Meu conceito de cinema é ortodoxo, classico e rigoroso: nele Visconti e Tarantino não cabem. Tarantino portanto fica fora, e Visconti fica dentro.

    Tarantino fez o pior filme que eu já vi (Pulp Fiction) e o pior filme que eu não vi (Kill Bill) - que só é o pior que eu não vi, porque eu não vi: tivesse eu visto, seria o pior que eu já vi, superando-se a si mesmo...

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    1. Django é melhor do que os dois. Uma experiência de ação tão interessante quanto com maturidade. E de certa forma, Django é bom porque em grande medida é (talvez) inconscientemente freyreano (nas virtudes de Freyre, é claro).

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  7. Muitas vezes esquece-se que cinema não é literatura nem tese antropológica, mas simplesmente (se é que cabe a palavra simples aqui)uma forma de narrativa que, em última análise, pretende contar uma historinha, prender a atenção do expectador e, por fim, entretê-lo. Não por outro motivo carrega seu clássico slogan: Cinema é a maior diversão. A ilusão que a sétima arte provoca, entretanto, é campo fértil e feroz para inúmeras confusões, que se repetem ao longo dos anos. Independentemente das intenções do autor/diretor, ou mesmo da crítica, cinema não é o campo natural de batalhas sociológicas, apesar do seu potencial de manipulação de corações e mentes, só para não fugir do linguajar do universo cinematográfico. Antes de mais nada, Tarantino é um criador, um artista e, como tal, exerce plenamente seu ofício, levando à expansão da percepção e da sensibilidade, não da história. Polemiza e desconstrói, não explica nem resolve enigmas. Se é que há um papel a ser cumprido é o de incomodar, de propor novos problemas. Tudo o mais é ficção, assim como a própria matéria de que é feito o cinema.

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    1. Cinema não é literatura, antropologia, mas também não é só mera estética. Mas pode ser objeto de todas elas ou, até melhor, uma parte do fluxo livre de conhecimento e discussão, movimentando-se por aí, embora não deixe de habitar -- ou pelo menos aportar -- nesta ou naquela dobra. Arte não é só arte, arte é sempre para além de si mesma.

      abraços

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  8. Huguito, sem discordar necessariamente de (quase) nada do que você diz, afirmo que, pra mim, está longe de ser o melhor filme do Tarantino. Christoph Waltz parece fazer exatamente o mesmo personagem que fez em "Bastardos Inglórios", só que agora humanizado (e, creia, eu sou apaixonada pelo sujeito). Confesso que, em que pese a mise-en-scène, diálogos e atuações sempre muito elaborados (virtuosos até), o filme pra mim se esvazia como texto quando fica parecendo auto-pastiche - com suas citações esvaziadas ao western spaghetti que parecem estar ali apenas para confirmar a já sabida (e batida?) intertextualidade do Tarantino com gêneros B. E a dimensão pessoal, individualista que não consigo deixar de perceber na vingança de Django, a meu ver, aproximou o filme mais de "Kill Bill", o que só o enfraquece. Do ponto de vista estritamente técnico, também me incomodou a montagem, que achei mais 'truncada' (e depois lembrei que é o primeiro filme dele não montado por Sally Menke, morta há dois anos, e sim por seu assistente letrado em filmes de ação, picotados até dizer chega). Finalmente, o "excesso" de violência (que não enxergo como crítica, mas como marca autoral do Tarantino, repetida aos estertores) me cansou e não me disse muita coisa. O bloodbath em que Django é preso e mesmo a vingança final me desceram quadrado, bem diferente do final de "Bastardos..." (em que se trata menos de uma vingança pessoal e mais de uma "vingança histórica", na medida em que muda o trajeto da guerra).
    (De resto: menino, quanta belicosidade aqui em alguns comentários!...)

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    1. Eu gostei mais de Django porque ele é consistente no todo. Mas só discordo de ti, mestre, quanto à dimensão individualista da vingança do protagonista: é uma vingança dos negros, contra os racistas e os elementos no interior de sua própria coletividade que colaboram a manter essa dominação.

      (pegou fogo, mas este post foi para gerar o dissenso mesmo! Abraços)

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  9. Luis Carlos de Alencar1 de fevereiro de 2013 11:10

    Somando-me aos comentários de André, sequer vejo na obra o que há de melhor em Tarantino: os diálogos são ruins, não há nenhuma sequência memorável - a da KKK é previsível e chula, as cenas de duelo são medíocres (exceto pelo uso de Rap, que me arrebatou). A direção de ator, entretanto, é sublime - ali ele mantém sua genialidade, que paradoxalmente nunca alcançou a sua própria atuação. O roteiro só não é tão previsível e ruim do que "O Homem de Hollywood", seu curta em Grande Hotel (1995) - talvez por isso Django não seja seu pior filme. E falar que Spike Lee coloca a culpa paranoicamente sobre os brancos, é não conhecer a sua obra. Ou ser leviano com a proposta estética e política de um dos diretores mais importantes do cinema norte-americano. Recomendo que se reveja "A Hora do Show", onde a complexidade mestre-escravo é colocado com extrema competência e sem nenhuma condescendência - muito menos paranóia. Aliás, pouca gente percebe nesse filme que diversas possibilidades desse binômio (o buraco de bala é muito mais em baixo), para mim, são mais interessante quando aparecem em um certo grupo de personagens secundários, onde jovens negros, apesar de radicais, possuem um branco entre seus membros, porque o mesmo se considera negro, veste-se como negro, age como negro, vive em bairro negro - mas não morre, no final do filme, como os negros. Toda essa euforia em torno de uma suposta genialidade tarantiniana de ter botado o dedo na ferida, pioneiramente, no cerne do racismo norte-americano, é desconhecer a produção norte-americana cinematográfica, que já complexificou há decadas o papel histórico dos negros e indígenas na formação do imaginário do cinema. E tb se aproxima daquelas conversas da republiqueta das bananas, onde dedos em riste apregoam aos quatro cantos "mas os negros também escravizavam os negros no brasil" ou "os negros tb são racistas porque casam com loiras". Para terminar: nem Tarantino, em princípio, se colocou nesse altar da luta racial; a pressão passou a ser tanta que agora começou a ostentar discursos antirracistas em suas entrevistas. Daí, meus amigos e amigas, sua obra vai estar intrinsicamente associada ao debate. E tem muito a dever. grande abraço

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    1. Luis Carlos de Alencar. Tarantino foi bom, aqui ele foi genial. Porque não fez a história do vitimismo, mas da liberdade. E Spike Lee é quem não conheceu algo, porque ele comentou um filme que não viu e se incomodou justamente com o humor -- justo o riso, sintomático. Mas uma coisa que eu discordo mesmo é dizer que "E tb se aproxima daquelas conversas da republiqueta das bananas, onde dedos em riste apregoam aos quatro cantos 'mas os negros também escravizavam os negros no brasil" ou 'os negros tb são racistas porque casam com loiras'": confundir o pseudo-cinismo racista com uma abordagem extramoral da questão é bem fraco. Porque esse pseudo-cinismo, inclusive, é moralista, é escravo da moral, ele precisa pôr a culpa nos negros, talvez até por perversidade, ele precisa de um lugar para a culpa porque não a suporta. Abordar de forma extramoral é mostrar que a liberdade só vem com a superação da impotência trazida pela liturgia pedante em que querem converter a luta, dos perversos que trabalham contra os seus e,é claro, contra aquele que se põe no papel de opressor. Tarantino já se pôs contra o racismo quando resolveu fazer o filme de um cowboy negro atirando em racistas nos Estados Unidos, não depois.

      abraços

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  10. Gente, o negócio aqui tá pegando fogo. Bacana. Pô, gostei de Django. Gostei para caramba. Fiquei com aquela sensação de vingança na boca e com alegria. Já engoli tanto sapo. Mulher, pobre, caipira que vai morar numa ilha que é balneário de Sampã. Então, o sangue que voava dos corpos, para mim, tinham gosto de celebração, fez todo o sentido a violencia, nada banal. Algo assim: ok, posso me sujar sim, faz parte da luta e isso pode ser divertido. Tenho a sensação de que Tarantino, já assisti alguns de seus trabalhos, não tem a intenção de ser um referencial histórico. Acho que ele trata as questões como mitos urbanos, tipo arquétipos urbanos e segue. E acho ótimo. E achei bom falar do racismo com essa propriedade, porque não pensei só no Negro, pensei que todo o sistema favorece essa captura, se tu quiser viver "melhor". Todos nós podemos ficar bacacas, acomodar nossos rabos num trabalho que que pague algo, as vezes até que bem, e nos obrigue a cometer as pequenas e covardes violências do cotidiano, essas mesmos que sofremos.Até que peguemos gosto, é quando noe embabacamos. Essa é a luta de toda a nossa vida, não embabacar. Acho que esse é um território comum. Não condeno o Samuel L. Jackson, não menos do que um cara que para do meu lado numa festa e despeja mais de metro de conversa machista só falando da "beleza" da mulher ou de um trabalhador na industria que dedura os amigos, e afirma estar fazendo a coisa certa, seguindo as normas de proteção, etc. Adorei esse Tarantino, porque pude participar da vingança, eu a desejava e gosto desse gosto. A alegria! E o que pode ser mais alegre do que acolher o risco da morte nesse processo todo. Tipo, o amigo de Django, adorei a morte dele. Sabe aquela frase da música, é preciso estar atento e forte, não temos tempo de temer a morte? Então, é uma ameaça a menos. Ameaça de poder sobre o nosso corpo. Sim, queremos viver, é bom e é algo sério, tanto que vale desenhar a morte com alegria. Sem medo. Não sei, acho que Django teve a sorte de poder fazer isso abertamente, por fogo na casa, tudo explodir. É bom ver essa cena, só para variar. Isso é meter o dedo no real. Porque se formos ficar presos aos fatos, a "história", fodeu, seria mais uma narrativa aos moldes de Law And Order, como tantas outras que rolam no cinema, na televisão. Para variar, é bom ver uma narrativa em que a minoria ganha, uma narrativa que fala do salto onde essa minoria ganha bonito, sem culpa, sem medo, assim: vivo de cara pro vento, na chuva e quero me molhar. Acho foda. E viva a vingança! O gosto de sangue é bem melhor do que a poeira seca que temos comido.

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    1. Cara, o Fabrício me contou de uma leitura do filme, que adorei. Django é o negro e o alemão, e eles se constroem juntos ao longo do filme. O alemão, era um cara que convivia diretamente com essa violência injusta, pessoas armadas, massacrando pessoas desarmadas, que não tem o direito de lutar. Quando ele conhece Django, ele vê o Siegfried, e se contagia. Por outro lado, o escravo negro, que tenta controlar a raiva a todo instante, ameaçando por a mão nas armas e jogar tudo para o alto. E o alemão diz para ele, você vai aprender a representar. E toda a raiva dele acaba tendo um direção, a pontaria. E ambos vão se transformando em Django nesse convívio, nessa relação de contagio e desejo de luta. Até que o Django alemão morre, e morre dizendo, não pude me conter. Justo o que ele pedia para Django e Django, tem de se render, ter estomago para ir adiante com a vingança. Dai, a maior vingança que a gente pode ter é fazer ruir essa estrutura, vivermos o suficiente para fazê-la ruir, para explodi-la. Não é legal.

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    2. Sim, é uma bela leitura do Fabrício mesmo. Essa dualidade. Mas tem um ponto importante na morte do alemão que Isabella notou: ele preferiu morreu a fechar um acordo com o senhor de escravos -- o que seria selado pelo aperto de mão que não aconteceu. Ironicamente, ele não dá conta mesmo do cinismo de resistência que propõe a Django -- e este incorpora até o momento certo, saber se render, saber lutar, tática e estratégica para além da moral, de qualquer moral.

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  11. Assisti o filme ontem e adorei! é daqueles filmes que ficam reverberando em você depois que sai da sala de cinema. Também adorei seu texto, que coaduna com as impressões que eu mesma tive. Destaco ainda a cena do crânio, muito bem interpretada, aliás, por Di Caprio. Obviamente que a teoria de Lombroso é ridícula, mas creio que nessa cena Tarantino também desnuda um pouco o lugar das vítimas nas situações de opressão, ou seja, de que elas mesmas também são responsáveis, de certa maneira, não de serem colocadas nesse lugar, mas de permanecerem nele. Parabéns pelo texto!! Conheci seu blog por ocasião deste texto e gostei, já estou seguindo...convido-o a conhecer o meu. um abraço

    http://ritadecassiadeaalmeida.blogspot.com.br/

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    1. Rita,

      Aquela é uma das cenas centrais. É parte do discurso soberano construir a naturalidade da servidão voluntária, como desculpa externa e interior também. O contraste entre aquilo e a desnaturação que Django promove é central na compreensão da película.

      abraços

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  12. Ai me deixa gostar do filme, por favor! Obrigada.

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