quinta-feira, 3 de março de 2011

A PUC-SP e a Pedagogia do Trogloditismo

A PUC  de São Paulo foi uma das casas do Professor Paulo Freire. Para quem não o conhece, eu falo de um dos maiores expoentes da história da Pedagogia: Freire teve o mérito inconstestável de ter posicionado tal ramo enquanto instrumento da emancipação humana - em suma, na sua obra, a finalidade de aprender era, nada menos, do que libertar-se. Infelizmente, sua obra é profundamente mal lida, seja nos corredores acadêmicos brasileiros ou mesmo puquianos: O ensino bancário, disciplinador e autoritário sempre grassou pelas salas da Gloriosa, embora a PUC nunca tenha aberto mão de associar seu nome ao do velho mestre. Hoje, em um momento no qual a crise eterna da PUC - movida, vejam só a ironia, por uma dívida infinita - chega em níveis gravíssimos, essa situação piora cada vez mais. O que dizer dos cortes arbitrários de cursos e matérias na Faculdade de Psicologia e de Economia e Administração? Ou melhor, o que dizer do fato disso ter sido (mais) uma medida imposta pela Igreja, a despeito dos órgãos competentes da Comunidade? 

A gravidade da crise atual é tão grande que chega até mesmo a antes intocável Faculdade de Direito onde este humilde redator estuda. A primeira medida é administrativa e autoritária, haverá cortes de docentes que dão poucas aulas por semana, independentemente do seu mérito acadêmico, a outra é o resultado da degradação pela qual o curso passa nos últimos anos: O Conselho da Faculdade de Direito pretende aumentar a nota média de aprovação de 5,0 para 7,0 como forma de fazer os "alunos estudarem mais" - dado os maus resultados da Faculdade no último exame da OAB. O primeiro problema está em perfeita harmonia com a política insana que a PUC adotou desde a crise de 2004: Resolver os problemas da PUC por meio de cortes de gastos e não pela geração sustentável de receita, algo cuja consequência prática é ter professores sobrecarregados e afastar bons nomes. O segundo problema se enquadra na pedagogia obtusa que, infelizmente, não é incomum à Faculdade de Direito: focar o ensino em exames e concursos e tentar resolver o que dá errado punindo os estudantes - como se numa relação educacional, só uma parte pudesse ser o problema ou mesmo se o fim ao qual está sendo a FD não seja completamente indesejado. 

Ademais, os doutos juristas (e eventuais acadêmicos) também se esquecem que tais "maus resultados" são, inclusive, efeito inercial da própria degradação do mecanismo de seleção puquiano somado, ainda, ao aumento de vagas na Faculdade: Se por um lado massificou-se o curso, por outro, isso foi acompanhado de sua elitização por meio de um aumento massivo das mensalidades como visto nos últimos anos. O problema, claro, não está em aumentar vagas, mas sim fazê-lo de maneira desordenada e desastrosa. Infelizmente, existe muito pouca gente disposta em atacar frontalmente essa causa, afinal, há quem veja com bons olhos essa elitização (em um sentido social não intelectual) do curso, embora até mesmo os resultados nos concursos e exames da vida caiam - o que é sintomático, essa estruturação sequer sustenta uma excelência meramente técnica. Aumentar a nota de aprovação para melhorar a   a qualidade do ensino é algo tão irreal quanto congelar preços para acabar com a inflação, em suma, um reles cavalo de pau acadêmico para tentar melhorar a aprovação na OAB - como se isso quisesse dizer alguma coisa academicamente no fim das contas. Onde está a discussão sobre o plano pedagógico? Será que ninguém percebe que a combinação de fatores da "solução" encontrada não fecha? Que algo sempre vai ser sacrificado (normalmente, a excelência acadêmica)? Ou melhor, será que ninguém percebe o impacto disso sobre o próprio rendimento, produzindo dependências e, inclusive, a evasão de bolsistas carentes (sobretudo, os prounistas)? 

A sequência do movimento foi uma revolta dos estudantes e dos mais variados grupos políticos locais, afinal, até o mais decidido chapa-branquismo tem limites. As manifestações contrárias e o abaixo-assinado batendo de frente com as mudanças receberam, inclusive, uma resposta mal-educada da Diretoria da Faculdade via e-mail, que preferiu tentar bater na chapa derrotada das últimas eleições do Centro Acadêmico para tentar dividir um movimento que é de todos os estudantes - em um dos maiores atos de infantilidade que eu já vi em toda a minha vida. O verdadeiro clima de guerra das últimas semanas é assustador, enquanto lutamos cá do nosso lado contra isso - e isso explica a ausência deste blogueiro de seus afazeres -, mais parece que toca ao fundo da confusão toda o réquiem para a nossa Faculdade de Direito, uma Casa que nasceu, vejam só, para superar o tradicionalismo tacanho do ensino jurídico paulista e durante anos, de fato, conseguiu levar isso adiante.

Voltando à PUC, não existe outra saída para toda a Universidade senão a estatização neste momento, mas existe um pequeno fator de desequilíbrio nessa conversa toda (e não é só o Estado): A Igreja, sempre mais preocupada em garantir seu domínio sobre a produção de conhecimento do que em qualquer saída acadêmica. E é fato que desde a explosão da crise de 2004, a Igreja sempre se usou habilmente da situação para aumentar seu grau de influência sobre a PUC - vejam bem, universidades são autônomas no Brasil e instituições confessionais não se confundem com apêndices acadêmicos de nenhuma religião -, o que levanta dúvidas sobre os reais motivos da falta de ânimo em buscar soluções para essa crise financeira mal-explicada. Hoje, a ingerência do Conselho Administrativo - composto pelo Reitor e dois padres que representam a mantenedora - sobre assuntos acadêmicos não é apenas absurda como também é assustadora. Na Faculdade de Direito, as ações impensadas da burocracia local são desesperadoras e decepcionantes. Estamos diante de uma verdadeira pedagogia do trogloditismo.

12 comentários:

  1. Hugo, acabei de me formar na Faculdade de Direito de Sorocaba mas, curiosamente, enquanto eu lia seu texto eu via a descrição perfeita do momento que vive a instituição em que eu estudei.

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  2. É, a PUC tá na m* mesmo... Ainda bem que eu saí a tempo!=P Mas cada vez mais parece mesmo que a estatização, que só os mais radicais e malucos pediam acaba por ser a única saída visível, ou então a PUC vira uma UniEsquina.

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  3. Fernando, de fato, existe uma crise profunda no ensino jurídico brasileiro, nas faculdades paulistas, no entanto, isso parece pior.

    abraço

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  4. Tsavkko, senão a PUC fecha, meu velho. Porque tem um limite para ela piorar - e eu não falo dela continuar como um zumbi (como hoje), mas fechar as portas mesmo, o que seria uma desgraça.

    abração

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  5. Flávia Bellaguarda3 de março de 2011 23:16

    Hugo, sou estudande de Direito, e nossos pensamentos e indagações são os mesmos, minha Faculdade (Fac. de Direito de Sorocaba) infelizmente está passando pelo mesmo processo e o Centro Acadêmico a cada dia cada é mais massacrado, essa mercantilização do ensino não é "privilégio" de poucos.. tive a oportunidade de conhecer Centros Acadêmicos de Direito do Brasil, e posso confirmar que é um problema geral.

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  6. Pior ainda é a situação do pessoal de ciências sociais, geografia, história... Se eles estão mexendo com os professores do Direito é que o négócio tá feio!
    Me formei no ano passado, em Psico, e vi que eles do nada cortaram onze matérias de uma turma.Muito triste isso...

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  7. Flávia, eu não duvido, mas o processo puquiano é um dos mais violentos do país. Arrisco em dizer que a Faculdade corre o risco de entrar em colapso em poucos anos.

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  8. Carol, sim, o que aconteceu na Psico foi gravíssimo e, até onde eu sei, eles foram obrigados a recuar por conta do MEC - mas o bicho continua pegando no Consun (Conselho Universitário, o "parlamento" da PUC), existe até ameaça de entrega dos cargos por todos os professores (o que seria o fim do curso). É um drama horrível que, infelizmente, irá se agravar até o final do ano.

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  9. Outra coisa ruim é que fica parecendo que o Direito é um curso mais exigente em relação aos outros da Puc (o que aumenta a arrogância), o que PIOR QUE NÃO É VERDADE. Por exemplo quanto a um item: as horas extracurriculares. Cá entre nós, o pessoal do Direito consegue essas horas numa sem-vergonhice (só para citar a forma MENOS PIOR: veteranos recomendando acessar site, dar o play da video-aula, e simplesmente imprimir o certificado quando o falatório acabar). Olha, nos outros cursos é mais exigente para conseguir essas horas, podiam aumentar a rigidez nessas coisas. Uma menina de Letras tava contando que no caso deles ainda tem 250 horas ACCs para o qual têm de ver coisas culturais como filmes, teatro, etc. No Serviço Social, na falta de horas, começam a incluir coisas como passeatas no 1° de maio (desde que com relatório). A "exigente" Faculdade de Direito pode até dizer que filmes, teatro e 1° de Maio não estão diretamente relacionadas com Direito, mas seria bem melhor os estudantes ASSISTIREM e COMPARECEREM a essas coisas do que a sem-vergonhice que está hoje. (em tempo: "Cine Pipolítica" e o "Cinema, Filosofia e Direito" eram atividades bacanas)

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  10. Célio,

    Não, o Direito não é o curso acadêmica ou intelectualmente mais exigente, mas justamente por isso, ele é o mais problemático: Eu não conheço outro curso na PUC onde se faça tanta questão de nota (provinhas e seminários) e se desdenhe tanto produção científica. Isso é uma clara inversão de valores que, no entanto, pode piorar no caso em questão. O Aumento da nota de aprovação não vai melhorar essa realidade - e, consequentemente não vai melhorar a qualidade do curso -, mas sim vai apenas acentuar a dinâmica disciplinar e reprodutória que é sua característica - embora isso seja vendido sob o manto de seriedade e símbolo de excelência, quando, na verdade, nem para dar uma base técnica-operacional isso tem servido. Enfim, trata-se de um curso que poderia ser denominado como desgastante e a medida em tela pode torna-lo mais ainda.

    abraço

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  11. Vocês falam isso por que não conhecem a Faculdade de Direito da UFMG: http://www.em.com.br/app/noticia/especiais/educacao/2011/02/23/internas_educacao,211788/justica-federal-manda-afastar-diretor-da-faculdade-de-direito-da-ufmg.shtml

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  12. Cara, obrigado por essa informação, pode nos ser útil - já serviu para eu passar a melhor pegadinha em anos nos e-groups do Direito com o capcioso título: "Diretor de Faculdade de Direito é afastado pela Justiça"...hehe

    abraço

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