segunda-feira, 20 de junho de 2011

Uma carta, um devir

Chegada de Maria de Médici em Marselha -- Rubens
Querida D.B.,


Sim, de fato, há muito não nos falamos e é claro que esse desencontro se deu por culpa exclusivamente minha, mas peço que não me compreendas mal. Isso foi bom para nós dois, tu sabes muito bem das razões para tanto e no fundo hás de concordar comigo - do mesmo modo que não hás de se amolar pelo fato de, apesar de tanto tempo já ter passado, ainda assim eu me referir a ti usando a segunda pessoa do singular. Agora, me escreves para falar sobre teu vindouro casamento e, como se não fosse o suficiente, ainda assumes uma postura inquisitorial, questionando-me sobre o que eu penso de uma instituição tão precária e provisória  quanto o matrimônio. Confesso que me sinto tentado a te responder com uma troça, mas pela consideração mútua, declino - ou, quem sabe, eu decline porque, talvez, não desacredite nele de um todo, desde que isso seja tomado como uma possibilidade existencial e não como uma necessidade social ou, quem sabe, por eu ser bem mais conservador do que gostaria de ser; a minha relação com o matrimônio é curiosa, embora eu não me conceba em um - e grande parte dos casamentos que eu já tenha testemunhado tenham dado errado -, justo aquele que eu presenciei de mais perto, acabou por dar certo. 

Creio que há qualquer coisa de racional nisso, quem sabe se as partes se esmerarem em desenvolver a capacidade de saber conjugar suas vidas no plural, mas também existe a parte obscura, em relação à qual não temos controle algum - e por isso tanto nos amedronta -, que é justamente a que diz respeito ao sensível: certamente a sustentabilidade da vida conjugal passa por uma afinidade demente pelos defeitos do outro - o que não se explica nem se aprende, apenas se sente. Se a vida pós-burguesa, egocêntrica ao infinito, nos faz não aguentar nem mais a nós mesmos, não sei como operaríamos isso ainda hoje - se bem que é tão bom saber que não podemos ter o controle total sobre as coisas, pois isso significa que sempre nos depararemos com uma saída, nem que seja a própria morte, afinal, sempre haverá razões que a própria razão desconhece. 

Mas talvez tudo isso seja uma bobagem tremenda da minha parte. Eu estou dissertando longamente sobre o tornar-se perfeito cônjuge, quando isso, a bem da verdade, pouco importa: talvez fosse tanto mais útil para ti falar no devir eterno amante, o qual há de coincidir com isso que pretendes experimentar tão logo. Antes de mais nada, convém diferir o tornar-se do devir: jamais poderás tornar-te novamente uma linda menininha - como deves ter sido -, mas é possível devires menininha sempre; tornar-se é passar a ser, enquanto devir é sentir a intensa emoção de ser. Preocupar-se com o que podemos - ou pior, devemos - ser é o pior dos pesadelos, enquanto sentir a intensidade de ser é justamente libertar-se das amarras do destino. Portanto, esqueça-te desde já de pensar em uma maneira de tornar-te bem sucedida nesse pacto que ensejas, devenha eterna amante: como já disse o Poeta, e quem sou eu para contradizê-lo, que seja imortal enquanto dure, posto que é chama. Pouco importa a duração, a quantidade, tente sentir isso ao máximo, pois o infinito só existe em ato.

Espero que ele te mereça tanto quanto eu mereço a desdita.

saudações tão cordiais quanto cordial é o meu povo, do teu
F.E.

4 comentários:

  1. muito bonito. Estranho dizer isso, mas (entenda que não é uma disputa por autoria da beleza) poderia ter sido eu a escrever isso

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  2. Não precisa se explicar, Célio, essa é a ideia - e a beleza não se disputa, ela é construída.

    abraço

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  3. Bravo! Bravo!
    Que delícia de carta!!!

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  4. Obrigado, C., muito gentil de sua parte.

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