quinta-feira, 2 de abril de 2009

Crise Mundial e a importância dos BRIC's


Logo após a queda da União Soviética e do bloco socialista, o nosso porvir estava traçado de forma irremediável e previsível segundo proclamavam os grandes ideólogos daquele momento: A História acabara e em virtude disso a luta de classes era coisa do passado, o Estado de bem estar social uma peça de museu na medida em que os governos não eram mais necessários e as empresas resolviam tudo, o G7, sob as bençãos dos EUA – o país que mandava porque voava mais alto e por isso via mais que os outros – se sentava à mesa e resolvia as questões do mundo enquanto os países de terceiro mundo deveriam se livrar de suas estatais ao mesmo tempo em que poderiam, quem sabe, dolarizarem suas economias.

Enquanto esses dogmas e tantos outros eram espalhados aos quatro cantos nos anos 90, a China e a Índia experimentavam um crescimento econômico respeitável; devido as profundas mudanças que permearam a China anos antes, seus habitantes experimentaram uma abertura econômica cada vez maior sob a égide de um capitalismo de Estado eficiente que enquanto gerava – e gera – um crescimento econômico gigantesco, também produzia – e produz - uma exploração pesada da mão-de-obra, do meio ambiente e da comunidade de um modo geral, ainda que tenha resultado no enriquecimento material e a melhora em algum grau da qualidade de vida de toda a população; os indianos que nunca experimentaram um socialismo formal como os chineses, mas adotavam um sistema de capitalismo estatizado altamente ineficiente, passou a elaborar saídas com a dinamização deste, sem, no entanto, abrir mão de um projeto de país ou sucumbir ao mercadismo ratasqueiro – realizando, por exemplo, um grande avanço na área de indústria e de serviços. China e Índia, permanecem crescendo bem até os dias atuais.

Do outro lado, Brasil e Rússia viviam momentos opostos a China e Índia; enquanto o nosso país vivia, desde os governos Collor e FHC, o desmonte do tripé clássico de sua economia (capital privado nacional/capital estatal/capital estrangeiro) se desequilibrar fortemente com os processos de privatização e uma abertura tresloucada que falia a indústria nacional – resultando em taxas de crescimento econômico anêmicas -, a Rússia, após o fim da URSS passava por um processo seguramente mais severo que o Brasil no que toca privatização de estatais – a famosa terapia de choque de Gaidar/Yeltsin – e ainda sofria um desmonte da sua rede de proteção social, o que implicou numa queda violenta da qualidade de vida no país, tendo, inclusive a expectativa de vida desabado ferozmente no período – e aqui, mais do que baixo crescimento econômico, viu-se uma depressão.

As coisas em ambos mudaram por meio de trocas de postos; Vladimir Putin, um ex-burocrata da KGB, professor de Direito Internacional em São Petersburgo é alçado pela oligarquia formada nos primeiros anos de capitalismo russo para salvar o país que eles usaram como instrumento de enriquecimento e agora poderia virar simplesmente pó – some-se isso a alta nos preços internacionais dos hidrocarbonetos e a Rússia de Putin experimentou um crescimento considerável, dentro de uma lógica de política nacional e com uma organização ainda que primitiva, mas superior ao que foi o infantilismo de Yelstsin; No Brasil, a eleição de Lula em 2002 resultou em uma síntese entre o sistema herdado com um retorno mínimo ao planejamento, à política nacional, a uma política externa mais independente e de certa maneira àquilo que denominamos por desenvolvimentismo com o PAC – resultando no fato de que o país passou, ao menos, a crescer no ritmo da economia mundial, enquanto sua média no anos 90 era de apenas 66% da média mundial.

O fato é que desses processo que surgiu o conceito de BRIC – o grupo dos mais expressivos países em desenvolvimento, denominado por conta das iniciais de Brasil, Rússia, Índia e China; em 2008, segundo dados do CIA World Factbook utilizando os dados do Programa de Comparação Internacional do Banco Mundial para se efetuar o cálculo da Paridade de Poder de Compra, constata-se que a economia dos quatro alcançou aproximadamente 21,7% da PIB mundial, o que é extremamente relevante se pensarmos que o PIB dos EUA fechou o mesmo ano girando em torno de 20,6% do PIB do mundo enquanto o da UE bateu em 21,1% . Em suma, a fantasia do G7 resolvendo os problemas do mundo foi por água abaixo, daí a importância realização de encontros de um G20: Não é mais possível sequer imaginar um debate sobre os problemas do mundo sem a presença dos principais países em desenvolvimento.

Mas nem tudo são flores; se os quatro terminaram 2008 ainda com um bom crescimento econômico, é bom não esquecer que já no final do ano eles sentiram os efeitos da crise e em 2009, o ritmo de todos eles cairá; ainda assim, o Brasil deve manter-se pouco acima da média mundial ao passo que China e Índia devem se manter crescendo acima da média mundial – a China deve crescer esse ano por volta de 6,5%, muito pouco para os 9% ou 10% dos últimos anos, mas certamente algo espetacular nesse não muito admirável mundo novo. O que preocupa aí - e muito - é a Rússia; a queda do preço dos hidrocarbonetos teve um impacto pesado sobre a economia do país e o governo se mostra mais paralisando na gestão dos efeitos da crise do que a média – fala-se em um queda entre 5,6% e 4,5% do PIB do país, o que pode ter um impacto político significativo e gerar tensões perigosas na região pós-soviética, ainda mais se ponderarmos que os seus vizinhos também estão com profundos problemas. Em breve, falarei mais da Rússia e da Índia, na medida em que já tratei de Brasil e China, por ora, deixo essa vista panorâmica da situação.

4 comentários:

  1. Victor Seiji Endo3 de abril de 2009 21:43

    E olha que, se referindo especificamente ao Brasil, há um grande risco, segundo pesquisas realizadas pela FIESP em março, de que seu PIB nem chegue a crescer e sim permanecer abaixo do 0. O que, segundo meus conhecimentos na área, seria algo um pouco improvável levando em consideração a grande produção industrial e de commodities no país e a redução de impostos como IPI,cuja medida liberou mais de 5 bilhões de reais para o consumo com o intuito de estimular a própria economia brasileira. Fora as reservas financeiras brasileiras...etc.

    Fico pensando também até que ponto estas projeções da FIESP são cientificamente confiáveis, sendo que é um orgão extremamente reacionário e que recebe propina da Camargo Correa. ( Accusation Mode : ON )

    Abraços velhinho. E esqueci de dizer no outro post, parabéns pelo blog. Muito bem elaborado e organizado.

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  2. Victor,

    Há um grande espaço de manobra para o governo promover a recuperação da economia - tanto do ponto de vista monetário quanto fiscal -, portanto, compartilho a descrença do amigo sobre crescimento nulo esse ano - ainda que correndo todos os riscos do mundo ao fazer esse tipo de afirmação num momento como esses.

    Dos BRIC's quem tá numa situação complicada mesmo é a Rússia.

    E, claro, também não colocaria minha mão no fogo por uma pesquisa da FIESP hehehe

    abração e obrigado pelo incentivo, O Descurvo agradece em ritmo de festa ;-)

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  3. Victor e Hugo,

    É muito esclarecedor notar que a FIESP, que deveria ser a instituição mais interessada no crescimento econômico do país, faça previsões tão pessimistas sobre o desempenho da economia brasileira. Essas previsões de "crescimento zero" _ já ouvi de um economista que já estaríamos em recessão! _ tem muito mais de torcida que de
    metodologia.

    Como previsões pessimistas _ ainda mais vindas de uma instituição supostamente seria como a FIESP _ levam incertezas ao mercado e inibem investimentos, parece que a estratégia é provocar uma paralisia na economia e minar as medidas de incentivo ao crescimento tomadas pelo governo.

    Mas qual o interesse desses grupos em que a economia vá mal se eles próprios pagarão um preço elevado por isso? Se o interesse for prejudicar a candidatura Dilma em 2010, como eu imagino que seja, as custas do desemprego alheio, então tenho que admitir que nossa classe empresarial é uma das mais vis, imorais e mesquinhas do mundo.

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  4. Eduardo,

    É aquilo que eu coloquei no post sobre a Crise e o Brasil: É necessário analisar tudo que seja relacionado com os efeitos dessa Crise no nosso país com muito cuidado; ao passo que as eleições gerais se aproximam, pseudo-análises conjunturais se tornarão frequentes - não que eu acredite em análises "neutras" ou "imparciais", muito pelo contrário, penso que todas elas são ideológicas, no entanto, tomo por "análise da conjuntura econômica" aquela que parte de um determinado modo de ver o mundo e busca narrar o que de fato está acontecendo no que toca as relações de produção e circulação, distorcer fatos e torcer dados é, na verdade, exercício de prosa ficcional e tem em vista fins meramente eleitoreiros. Aliás, é isso que eu desconfio que seja a pesquisa da gloriosa FIESP.

    Sobre a classe empresarial brasileira, o que eu posso dizer é que antes dela ser vil, imoral e mesquinha, ela é profundamente incapaz e míope, o que a obriga a agir de maneira tosca e, não raro, enfiar os carros na frente dos bois.

    Acredite-se no que for, o fato é que para qualquer projeto dar certo é necessário que o processo civilizatório avance; quando alguns empresários usam essa taticazinha baixa contra o PT, eles estão na verdade dando um tiro no próprio pé, posto que nenhuma das outras opções políticas é melhor para o capitalismo nacional; doutro lado, há setores na esquerda que adotam um catastrofismo de quinta como mote, achando que do colapso das instituições virá a possibilidade de um recomeço - pondo de lado inclusive o impacto humano que isso teria -, esquecendo-se do elementar: A construção da Comunidade justa passa pelo crivo da superação do capitalismo e não da sua destruição, afinal de contas, pensar o contrário é simplesmente tentar semear alguma forma de socialismo reacionário, querer fazer voltar os ponteiros da História e nada mais.

    abraços

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