domingo, 8 de janeiro de 2012

Cracolândia: Moradia, Drogas e a Governança na Metrópole

A Cracolândia -- Alessandro Shinoda/Folhapress
O Centro de São Paulo é uma região inacreditavelmente degradada. Só não é mais vergonhoso porque é chocante: seres humanos dormindo nas calçadas, muito lixo e sujeira, velhos prédios abandonados. Ao mesmo tempo em que isso ocorre, é como se todos esses problemas fossem provocados por algum mal que lhe fosse tão inerente quanto ele é sobrenatural - e lá, convenhamos, é um território envolto por superstições, mas lembremos que elas jamais nascem do nada ou são produzidas à toa. 


Teorias não faltam para explicar isso. Segundo as palavras atribuídas a Andrea Matarazzo - ex-subprefeito da região e pré-candidato a prefeito pelo PSDB - em um cable de Wikileaks, o centro trata-se de uma terra de ninguémÉ um lugar cheio daquilo que os bons ativistas da rica  Higienópolis - limítrofe ao Centro - chamam de gente diferenciada. Toda a vida, produção e resistência dos pobres que ainda habitam a região são ignoradas; esqueça todas as variáveis socioeconômicas, repete o planejador urbano de forma paranoica. 

Recentemente, abordamos a saga da Favela do Moinho - vítima de um incêndio muito mal-explicado e palco da fracassada implosão do prédio abandonado que constitui um de seus blocos e onde, presumivelmente, se originaram as chamas. Agora, o Centro volta ao noticiário por conta de mais uma intervenção policialesca da gestão Kassab: a Operação Sufoco. Com isso, ele pretende desmobilizar a chamada Cracolândia, área que engloba praticamente todo o Centro e já o extravasa - e que entra no rol das grandes políticas kassabistas, a exemplo da operação delegada, na qual a polícia era usada para reprimir artistas de rua.

Falar em violência ou opressão contra a Cracolândia - ou sua criminalização, via ideologia - é chover no molhado: sua própria denominação já denota tudo isso, todo o resto é pura decorrência lógica - e de que outra forma se exerce o poder no Ocidente, senão pela atribuição de identidades que servem para controlar a potência de agir dos viventes e das coisas? 


A simples enunciação de "Cracolândia" já nos põe frente à tese de que a causa da problemática social da região é um mal intrínseco e fantasmagórico chamado crack, algo tão inerente que, inclusive lhe nomeia.  Que solução teria um lugar com esse - pensa o incauto - senão ser varrido do mapa?

Esqueça a especulação imobiliária, a violência policial e a pobreza. O problema é uma droga que, por si só, causa automaticamente todos aqueles males. Vivemos tempos curiosos: pessoas são viciadas em Rivotril, alcool, internet, comida, pílulas para emagrecer, pílulas para dormir, mas o foco se volta para o vício em drogas ilegais - ainda como se elas pudessem, por si, produzir o vício em si mesmas. Quais seriam as causas?


Tudo isso torna-se subterfúgio para a resolução do problema da pobreza pela eliminação dos pobres. O álibi já está pronto na figura do crackeiro. O crack acaba servindo ainda como caricatura para toda sorte de psicotrópicos, servindo ao recrudescimento da criminalização de todas drogas e como desculpa para a formatação de seus usuários - como se todos fossem viciados. Matam-se dois coelhos com uma cajadada só - vide as políticas de internamento compulsório que estão sendo discutidas, hoje, no plano federal.


Os pobres do Centro tornam-se necessariamente crackeiros - e aqueles em zumbis contaminados por um mal cuja libertação exige a dor da penitência. Superstições, aliás, não servem apenas à manipulação dos desavisados para que se movam voluntariamente para onde o Poder precisa que eles caminhem, mas também ao próprio alívio da culpa que os tiranetes e seus operadores também estão sujeitos. Se são todos zumbis, por que me preocupar?


E fazer referência ao fascismo histórico torna-se uma meia verdade no debate da questão urbana de São Paulo: é fato que a estetização da política sobreviveu à derrota do nazi-fascismo e incorporou-se à normalidade democrática, portanto, não é preciso ir muito longe para traçar qualquer paralelo. Políticas de reorganização urbana fundadas na limpeza, no embelezamento são a tônica dos dias atuais - e no Brasil isso ganha uma dimensão particularmente tensa, dado seu histórico e a proximidade dos megaeventos.


O objetivo de Kassab é limpar o Centro. Torna-lo um terreno propício para os novos negócios do setor imobiliário, uma vez que especular com prédios abandonados saiu de moda - o que a ausência de políticas sociais para a região central ajudava a mascarar, diga-se -, e agora a bola da vez são os novos empreendimentos. Os pobres, que moram nas ruas ou no Moinho, que se virem. Na falta de meios para a eliminação física direta e imediata, um processo de expulsão e confinamento na periferia da própria capital ou da região metropolitana. Gestão dos corpos alheios por meio do álibi das drogas e gestão desumana dos espaços urbanos. 





11 comentários:

  1. Apenas dois comentários marginais (ops!):
    1) Estritamente falando, uma enorme parte das compras de Rivotril é ilegal. TEORICAMENTE, só psiquiatras podem dar receita de Rivotril, mas, bem, há, há há.
    2) O que me assusta não é só a escancarada política de higienização do Centro. É a alta chance de reeleição do Kassab. Quer dizer, uma coisa é um político destrambelhado fazer essas coisas medonhas, outra coisa é a própria população dar-lhe suporte.
    Tristemente, a cidade de São Paulo ainda é fortemtente malufista. Progresso é concreto armado e brancura.

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  2. Dica de documentário: Quebrando o tabu.
    Deixa muito evidente o atraso do Brasil com relação ao assunto.

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  3. A esquerda entorpecida

    A expulsão dos moradores de rua das áreas centrais de São Paulo e a proposta de internação compulsória de usuários e dependentes de crack são gestos desesperados de um espírito repressivo que tenta espalhar seus tentáculos para não sucumbir junto com o fracasso das políticas proibicionistas antidrogas. Criminalização do tabagismo, leis secas, toques de recolher e outras medidas similares também personificam espasmos dessa reação, que age pelas brechas possíveis para fortalecer o controle estatal da individualidade, tentando compensar ou impedir o inevitável relaxamento das legislações repressivas.

    Deve-se ter algum cuidado ao refletir sobre a legalidade dessas patadas autoritárias. Claro que o encarceramento de miseráveis e doentes é inconstitucional, mas, à luz de uma interpretação doutrinária dos direitos básicos de cidadania, o consumo privado de qualquer substância deveria receber idêntico resguardo. Ao mesmo tempo, entretanto, um legalista radical não veria problema em recolher pessoas que usam drogas nas vias públicas, que ameacem ou constranjam os passantes, que demonstrem sofrer de graves distúrbios físicos.

    A esquerda precisa compreender que a abordagem policial tem respaldo na legislação e amplo apoio popular. Na ocupação das favelas cariocas o embasamento era semelhante, e lá tampouco serviu apelar para o discutível argumento da especulação imobiliária. Se quiserem mesmo transformar as coisas, os progressistas devem abrir caminhos institucionais para a reformulação do paradigma legal que envolve a produção, a posse e o uso das drogas. As bases dos governos Lula/Dilma têm perdido a chance de assumir a vanguarda desse debate, permitindo que a direita preserve suas políticas obsoletas e imponha remendos canhestros quando alguém ameaça questioná-las.

    http://www.guilhermescalzilli.blogspot.com

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  4. Meu bom,HWB,

    (1) Que seja ilegal, mas o fato é que não existe proibição absoluta ao Rivotril, tampouco sua estigmatização, embora haja uma, digamos, hipertrofia no seu uso...
    (2) Kassab não pode mais se reeleger, embora já tenha sido reeleito. De todo modo, sua popularidade não anda lá muito alta, até onde sabemos

    abraços

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  5. Guilherme,

    Sim, sem dúvida, é preciso avançar nesse sentido, embora estabelecer marcos legais não possa ser visto como um fim em si mesmo - só discordo de duas coisas: esse tipo de abordagem policial não tem exatamente respaldo legal e, também, duvido muito que o argumento da especulação imobiliária seja discutível nesses casos (pelo menos não nesse sentido, já que essas ações não raro vem acompanhadas de outras, que visam gerir os espaços urbanos de uma forma voltada aos interesses do rentismo imobiliário).

    abraços

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  6. Políticas de higienização no centro? Ora, 100 anos depois os paulistas resolvem imitar os cariocas e os parisienses.

    Será que o ser humano não aprende mesmo?

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    1. Luis, creio que isso é recorrente. O que espanta são os métodos utilizados atualmente, a prática, em si, é tão velha aqui quanto no Rio ou em Paris - curiosamente, falamos de três cidades cujo conservadorismo é, via de regra, ignorado.

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  7. Um texto que dialoga com você: http://rafazanatta.blogspot.com/2012/01/o-verdadeiro-zombie-walk.html

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  8. Hugo,
    Kassab, Maluf, é tudo a mesma coisa. Você entendeu o que quis dizer. :^D

    Agora, fora de brincadeira: por um lapso, esqueci-me mesmo de que Kassab não pode mais se reeleger. Mas minha preocupação se mantém. E se ele tenta ser governador? O marketing faz maravilhas; nós aqui da capitarrr sabemos direitinho dele, mas não necessariamente, por exemplo, o interior do Estado ou o resto do Brasil.

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