sexta-feira, 2 de julho de 2010

Notas da Copa: Brasil eliminado

(Júlio César em prantos - Reuters)

Eu vi o Brasil eliminar por duas vezes a Holanda em Copas. A primeira, quando tinha seis anos - e já me entendia por gente - com aquele gol de Branco. 3x2 apertado. Épico. Quatro anos mais tarde, já grandinho, vi o Brasil de Ronaldo, Dunga e Taffarel eliminar, nos pênaltis, aquele excelente time laranja treinado por Guus Hiddink. Isso foi uma desforra para a geração dos meus pais que viu aquela eliminação doída contra Laranja Mecânica, a legítima, em 74 - o time de Rinus Mitchel, o melhor produto da revolução tática e de preparação física pelo qual a Europa passou no início dos anos 1970. Hoje, foi o meu dia de ver o Brasil perder para o futebol holandês.

Tudo tem um lado bom, antes perder para a Holanda do que para as itálias ou franças da vida - para a segunda, vi duas vezes. Nada contra os países, mas sim em relação às suas escolas. Horríveis. Frias. Espero que o fracasso nesta Copa produza uma revolução em ambos os países e que, daqui a quatro anos, vejamos uma Itália e uma França jogando um futebol mais alegre. Muito embora a Holanda de 2010, do glorioso Bert van Merwijck, seja uma equipe que não necessariamente jogue um futebol tão bom quanto a Holanda poderia, ainda assim, trata-se de uma escola que há quarenta anos representa o melhor que o futebol europeu  produz, em termos técnicos e de inovações, portanto, suas vitórias são merecidas.

Aliás, o esquema 4/2-3/1 que todos jogam atualmente foi desenvolvido, ao que me conste, na Holanda do início dos anos 2000: Trazer de volta a figura dos três atacantes e do ponta - adaptando esta figura à dinâmica do futebol contemporâneo, transformando num jogador que varia do meio para frente conforme a necessidade do jogo. Podem existir outros exemplos, mas quem realmente deu relevo para o esquema foram os laranjas e o mesmo aconteceu também com o 3/5/2 e com o 4/4/2 - na forma que se popularizou no Brasil, não o inglês. A Holanda, mesmo com a vitória de hoje, ainda nos deve uma atuação consistente - e aqui não falo de "futebol-arte" que só existe na cabeça de alguns, mas de um futebol consistente mesmo.

Sobre o Brasil, a equipe a exemplo de 2006, chegou na Copa com os créditos do título da Copa América, da Copa das Confederações e de uma grande eliminatória. A diferença, é que em 2006 Parreira selecionou um grupo de jogadores que era fruto da communis opinio da imprensa esportiva - da rota e da sofisticada. Jogadores acima de qualquer suspeita, de qualquer crítica, mesmo chegando à Copa dez quilos acima do peso. Claro, as críticas vieram quando o óbvio se fez e Parreira se viu rifado por quem o insuflava: O vento mudou, a previsão foi-se junta. Dunga não, seu trabalho teve coerência interna ao longo do ciclo.

Não é porque agora o time perdeu um jogo - e Copas são particularmente traiçoeiras - que agora se deva fazer linchamentos. Primeiro, isso é um esporte, ainda que toda uma série de variáveis políticas e psicológicas faça com que as coisas saíam do controle. Depois, é necessário fixar os olhos no que realmente houve. O exagero nos superlativos é a característica mais patente da má crítica futebolística. A Seleção não estava jogando o melhor futebol, mas não era a pior equipe, alternou momentos, mas os seus piores se concretizaram no jogo de hoje. Isso difere consideravelmente da eliminação para a França há quatro anos. Ali, havia uma linha de coerência entre o que deu errado e a forma como se deu o desfecho.

O Brasil venceu com nervosismo a Coreia do Norte, cresceu contra Costa do Marfim num mata-mata antecipado - e sofreu uma grande baixa, perdendo Elano, violentamente tirado da Copa -, jogou mal contra Portugal num jogo que poderia ter aproveitado melhor, jogou o firme contra o Chile e perdeu um jogo estranho para a Holanda: Num duelo contra uma das boas seleções da Europa, dominou o primeiro tempo, largou na frente, poderia ter definido logo aí, depois, num erro crasso da defesa levou o gol de empate no primeiro tempo e se abateu mortalmente...daí para nova falha e novo gol tomado foram dois passos. Invertemos o anátema, em 2006 foi uma farsa, 2010 foi uma tragédia.

Dunga fez suas apostas e acertou muito mais do que errou, seus erros, no entanto, coincidiram com a tragédia. A defesa, uma das melhores da Copa, foi displicente nos quatro gols que tomou na Copa. Hoje, tomou dois, quando sua média era o inverso disso. Felipe Melo sempre foi um erro, mas hoje, foi mais. Ramires, que poderia ter tomado a posição, tomou um amarelo burro contra o Chile. Michel Bastos, apesar dos pesares, não comprometeu contra Robben. Não foi sua falta que ocasionou o gol de empate, foi a saída errada de Júlio César e a afobação de Felipe. Robinho jogou muito.Como evoluiu esse jogador. Antes, era mais um sou-jovem-craque-risonho-que-faço-pose-para-foto - como Ronaldinho e Cristiano Ronaldo -, hoje, assumiu responsabilidades e aprendeu a ser sério. O mesmo se pode dizer de Kaká que mesmo com sérias limitações físicas fez uma grande Copa. De Maicon.

Enfim, foi uma pena. Que daqui para frente a Holanda jogue o que não jogou até agora e que o Brasil se prepare bem para daqui a quatro anos. A vida dos sul-americanos, como adiantava aqui ontem, não está fácil. Logo mais, o Uruguai terá um jogo difícil, embora seja favorito, amanhã, no meu entendimento, nem a Argentina muito menos o Paraguai o são. É evidente que estarei na torcida pelos três, em especial por Don Diego.

Atualização de 03/07 às 21:23: Fiz algumas alterações no texto para arrumar alguns erros de ortografia.

16 comentários:

  1. Não entendi a diferença de tratamento. Por que a derrota de hoje é coisa do futebol e a de 2006 foi um enorme erro?

    O Brasil, desconsiderando o jogo-treino contra o Chile, jogou bem somente dois tempos nessa Copa. O segundo contra a Costa do Marfim e o primeiro de hoje. Não foi consistente assim e entrou no já-ganhou, alardeando uma Copa América, cujo título apagou o quão sofrida foi (perdemos para o México, suamos contra Uruguai). E esquecemos que a Copa das Confederações não foi nenhum brilhantismo. Basta ver os jogos contra o Egito, a África do Sul e os Estados Unidos.

    No fim das contas, no papel, 2006 foi melhor. 4 vitórias e 1 derrota. 10 gols feitos contra 2 levados. Nesta: 3 vitórias, um empate, uma derrota. 9 gols feitos, 4 levados.

    Futebol de resultado por futebol de resultado, tá aí a resposta.

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  2. Felipe,

    o argumento central da crítica sobre 2006 - e isso está bem claro - é foram convocados alguns iluminados, acima de qualquer crítica, apontados pela imprensa a despeito da própria continuidade do trabalho deles na Seleção - com um esquema que se pode dizer o mesmo. Quem se preocupou em pesquisar qual era a condição física dos jogadores? Quem fez alguma crítica antes do óbvio vir à tona? Ronaldo, Adriano e Ronaldinho estavam acima demais do bem e do mal para isso. Parreira, enquanto convocador-geral do time que a imprensa queria, também.

    O time de 2006 foi muito menos conciso. Sua postura em campo, para além da própria questão física era patente. Primeiro que pegou uma chave bem mais fraca. A única atuação boa na primeira na fase foi contra o Japão, quando Parreira entrou com time reserva que, veja só, deveria ser o titular.

    Na Copa atual, o Brasil pegou uma chave muito complicada, venceu a inquietação contra a Coreia do Norte, derrotou a Costa do Marfim - que apesar da postura anti-desportiva no fim do jogo tem qualidade técnica -, jogou mal contra Portugal - quando já estava classificado, é verdade - e atuou bem contra Chile - o segundo melhor time das eliminatórias sul-americanas que havia perdido apenas de 2x1 para Espanha, contra quem jogou aberto e de igual para igual, coisa que nem Portugal fez.

    No primeiro tempo de hoje, o Brasil foi amplamente superior, poderia ter matado o jogo. Não matou. Falhou feio no gol de empate e lhe faltou personalidade para seguir. Usar isso para dizer o velho "não falei" é oportuno.

    abraço

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  3. Discordo, Felipe. Aquele time de 2006 tinha Ronaldo -- vencedor de duas Copas, artilheiro de 2002, melhor do mundo --, Ronaldinho Gaúcho -- ganhador de uma Copa, então melhor do mundo --, Kaká -- jogador sensação, campeão de uma Copa, já o melhor do mundo --, e todos os outros já eram campeões de Copa. Além, é claro, de Cafu, titular das seleções de 1994, 1998, 2002 e 2006, um dos mais vitoriosos jogadores de Copas.

    Aquela seleção não empolgou em nenhum jogo. Nenhum cara.

    Não que esta, de 2010, tenha. Muito pelo contrário. Mas a diferença está aí. Uma seleção em que o atacante titular jogou sua primeira Copa. Onde o grande nome, o cara decisivo, Kaká, jogou fora de ritmo. Ninguém esperava nada desse time, mas esperava muito do de 2006.

    ***
    Agora, Hugo, estou com os latino-americanos, a exceção do Paraguai :-)

    Abraços

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  4. João,

    Exato. Concordo plenamente com o complemento. Aliás, torço pelos sul-americanos por uma questão de simpatia extra-futebolística mesmo. É evidente que seria bacana ver uma escola de futebol bacana como a da Espanha ser campeão. Como a Holanda também - embora a Espanha mereça mais pelo que fez nos últimos anos. Mas a coisa não tá tão fácil não, como eu já alertava ontem.

    abração

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  5. Numa coisa então devemos concordar: em 2006 havia banco. =)

    Mas eu realmente não gostei desse time de 2010. Falar que não foi o pior time da Copa não condiz com o que se espera da Seleção Brasileira. Por exemplo, Ronaldo estava fora de forma em 2006, é verdade, mas Kaká estava fora de ritmo nesse ano. No entanto Kaká é que nem Teflon, não gruda nenhuma crítica. =)

    O papo da chave difícil, na teoria, é verdade. Mas os adversários nossos jogaram muito mal. E a Holanda hoje também não jogou bem.

    Eu acredito, e sei que é polêmico dizê-lo, que Dunga cometeu exatamente os mesmos pecados de 2006. Explico:

    1. Confiança no já ganhou. Confiou-se muito no retrospecto dos quatro anos, esquecendo-se que o Brasil não jogou bem no único jogo de 2010 antes da convocação, contra a Irlanda. E depois, os dois outros amistosos foram muito fracos. Ou seja, em cima da hora, não estava bom, como já não esteve contra a Bolívia e a Venezuela, últimos jogos das eliminatórias. Exemplo disso: quando perguntado se temia a Argentina, que, ao contrário do Brasil, mostrou bom futebol NA COPA, Dunga se justificou no já ganhou de Rosário.

    2. Jogadores intocáveis. Em 2006, os intocáveis eram os estrelas. Em 2010, valia a confiança do Dunga. Acontece que se deve confiar em quem joga bem e está, no momento, jogando bem, não só na lealdade com o técnico. Por causa de UM gol contra a Argentina, EM 2007, Júlio Baptista tinha toda a proteção do mundo de Dunga. Porque não perdeu nenhum jogo com Dunga (aliás, igualzinho a Ronaldinho Gaúcho na seleção principal), Felipe Melo idem. E isso apesar das temporadas muito ruins na Juventos e no Roma... No fim, provaram ter sido péssimas escolhas.

    Abraço!

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  6. Felipe,

    Em 2006 tinha banco, mas, veja só que coincidência, era ele que era para ser o time titular...Não vejo, de modo algum, simetria entre Ronaldo em 06 e Kaká em 10: Um foi acima do peso para uma Copa do Mundo por irresponsabilidade e o outro jogou no sacrifício.

    Eu discordo novamente. Os jogos nesta primeira fase foram mais complicados, muito mais. A Costa do Marfim não foi mal. Nem o Chile. Concordo quanto a Holanda. Ela não jogou bem, apenas aproveitou-se das falhas brasileiras. Taticamente, o Brasil estava mais bem disposto. O problema foi uma questão psicológica. Como bem nos aponta o Nassif, faltou mesmo um cara para tirar a bola do barbante e carrega-la debaixo do braço depois do gol.

    Não concordo com a tese do já ganhou. Dunga precisava animar a sua equipe e dar declarações positivas. É do jogo. O Brasil não jogou em cima de já ganhou nenhum. Não foi essa postura da equipe nem nos bons nem nos maus momentos dessa Copa. Não concordo com os intocáveis. Quem jogou mal com Dunga não foi. Quem ele achava que fazia jus à função, estava lá. Ele fez apostas arriscadas como inúmeros treinadores fizeram, mas elas só se tornam polêmicas porque não era o arriscado que o mainstream da imprensa esportiva curtia. As opções que ele fez não foram as que eu faria, mas estavam dentro de uma lógica de trabalho.

    No fim, o Brasil perdeu o jogo mesmo. Simples assim. Não acho que adianta escavar para procurar indícios objetivos das escolhas dos técnicos. Como já dizia um certo Ibn Khaldun, as sementes da decadência já estão plantadas quando do nascimento de um império - isso vale para um projeto ou qualquer coisa do tipo, no fim das contas, todo projeto tem, em sua potência, falhas. Se elas coincidem com a derrota, no futebol, você perde. Não vejo nenhuma culpa nisso.

    abraço

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  7. E olha, a Holanda só não fez o terceiro no finalzinho do segundo tempo porque não quis.

    Agora imagina só uma possível final Uruguai x Argentina... o mundo acaba, no mínimo.

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  8. Luis,

    A Holanda não fez o terceiro porque nem mesmo ela acreditava no que tava acontecendo. É difícil que essa final ocorra, mas não duvide. Ainda assim, vejo mais pessoas torcendo para que isso aconteça do que há alguns atrás - o xenofobismo galvão-buenista, cuja maior vítima sempre foi a Argentina parece estar arrefecendo...

    abraço

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  9. Olá! Vou dar meu pitaco: Ontem não se viu jogadas pelo lado do Maicon, os ataques aconteciam muito mais com o Michel Bastos, o que é até bom porque ele tem mérito como jogador, ao contrário do que se dizia nas narrações.

    O Luis Fabiano não fez nada. Kaká bem que tentou mas não levou a melhor em nenhum lance. No ataque, Robinho foi o melhor mas tava muito nervoso, assim como todo o time e até o time da Holanda.

    Tivemos azar. Dois gols de bola parada e eliminação diante de uma seleção com tradição.

    Tem que saber perder.

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  10. Adriano Matos,

    Sim. Muitas vezes lidamos melhor com a derrota quando encontramos certos atos equivocados que, tivessem sido ponderados por certos juízos racionais, podiam não ter acontecido. Identificamos os agentes, culpabilizamo-os e assim está feito o descarrego de consciência.

    É evidente que havia erros, houve erros durante o jogo, mas esse clima de "não falei" de "ia dar errado o tempo inteiro" é uma coisa meio martirizante e supersticiosa. Michel, por exemplo, marcou bem, embora tenha se afobado demais em alguns lances. Maicon não rendeu porque Kuyt atacava e voltava marcando-o. Kaká estava no sacrifício e Luís perdeu a briga para o miolo de zaga adversário. Robinho levou vantagem, ainda que tenha caído no segundo tempo.

    A chave do esquema era mesmo Felipe Melo. Gilberto Silva marcava Sneijder e Kaká era marcado pelos dois volantes holandeses - apesar de tudo -, sobrava ele no meio. Acertou na enfiada de bola para Robinho, errou no lance do empate - onde Júlio teve uma responsabilidade maior. Meio gol a favor, meio gol contra. Depois, perdeu a cabeça com a pressão.

    Se Ramires estivesse em campo a história seria outra, mas estava suspenso. Elano, criminosamente tirado da Copa, poderia ter feito a diferença na dirença na direita.

    Fizemos um grande primeiro tempo e entramos mal no segundo, nos afobamos diante do gol e perdemos o jogo. É questão de dimensionar a análise dos erros, isso é futebol, mesmo que não fossem, o clima de turba é indesejável. Você tem toda razão: Temos mesmo que saber perder.

    abraço

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  11. Olá Hugo!

    Me pareceu que o Brasil voltou pro segundo tempo ainda pilhado. Parece que não descansou nos vestiários! Acho que faltou energia e, conseqüentemente, cabeça fria para perceber que é preciso ter a posse de bola, no chão, prá vencer uma seleção de grande estatura física.

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  12. Luiz Serra Azul Junior3 de julho de 2010 14:55

    Ganhar ou perder é do jogo, sobretudo quando os jogadores e comissão técnica se dedicam com denodo aos objetivos traçados. Nesta Copa, a nossa seleção, se apresentou imbuída desse espírito lutador dos grandes campeões, faltando-lhe um pouco de equilíbrio psicológico no momento crucial da competição. Continuo orgulhoso do escrete canarinho, e plenamente confiante na capacidade renovadora do nosso futebol.

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  13. Adriano,

    Concordo. Acho que o time já começou errado quando time insistiu muito no chuveirinho no fim do primeiro tempo. Exageramos ali. A postura na volta do intervalo foi péssima - e pior ainda quando o time tomou o gol. Luís Nassif acertou: Faltou um Didi ali, um cara capaz de arrancar aquela bola do fundo do gol e levar para dar a saída de bola.

    abraço

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  14. Luiz,

    Por isso que a derrota de 2006 deu raiva e a de ontem, apesar dos pesares, causou-me tristeza - assim como na maior parte das pessoas que eu conheço.

    abraço

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  15. Hugo, estou lendo seu post no domingo, 4 de julho. Portanto, muita coisa já se resolveu, inclusive os times das semifinais. Cheguei aqui por indicação do blog do Miguel do Rosário. Não sou expert em futebol, mas acompanho há muitas décadas.Fico feliz de ver que há pessoas sensatas como você, como os leitores Adriano e Luiz Serra Azul, assim como gostei das análises sempre sensatas do Tostão no JB. Concordo com sua visão do jogo BRA x HOL e, sobretudo, com a ênfase no fato de que se trata de um jogo, numa Copa que se decide em 7 jogos dos quais 4 num mata-mata. Considero maléfico para o futebol, como para qualquer outra atividade humana, essa badalação de que o BRA sempre deve ganhar, porque "é o melhor do mundo", talvez por direito divino, surgida, a meu ver na década de 60 e 70, esquecendo-se todos de que outros países desenvolveram seu futebol, incorporando alguns a criatividade e a exploração dos talentos individuais brasileiros das seleções famosas de 58, 62 e 70. Outros partiram para um jogo mais disciplinado, coletivo e de força física. Discordo também dessa louvação do "futebol-arte" que a imprensa tanto saúda, como se fosse um privilégio nosso.De que "arte se trata? Do drible? Da inteligência espacial que leva um jogador a visualizar todo o campo e a dar passes exatos e precisos? Do entrosamento e solidariedade de toda a equipe? Acho que o time da Alemanha também exibiu "arte", criatividade (2 gols com três passes!), ao lado da organização disciplinada. A Holanda me pareceu inferior ao time alemão; não creio que vença o Uruguai. Como o Adriano, tenho esperanças no vigor do futebol brasileiro, no óbvio encanto que o jogo tem para as novas gerações; nada de voltar ao tempo de 1958, quando Pelé e Garrincha eram novidades e tinham espaço para jogar. No mais, adorei o time de Gana; espero que por lá também haja futuro para o futebol de outras Copas.

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  16. Vera,

    Concordo em gênero, número e grau com a sua análise. Há uma expectativa dificilmente concretizável em torno da Seleção, pois quando falamos dela, há desde uma mistura de idealismo futebolístico - e a quimera do "futebol-arte" - até fatores políticos - e, portanto, psicológicos - envolvidos no assunto. Isso provoca uma situação na qual a derrota é repelida com todas as forças, muitas vezes sendo pré-racionalizada com a identificação de certos bodes-expiatórios e verdadeiras caça às bruxas.

    É o caso de Felipão no pré-2002. As pessoas tinham com certa a derrota naquele mundial e procuraram, a cada ato dele, uma evidência dos erros que nos levariam fatalmente à derrota e iniciaram uma malhação ao judas na já na terça-feira. Daí, ele foi campeão e não lembro de muitas pessoas pedindo desculpas - aliás, devem desculpas a ele não por apenas pelo time ter sido campeão, mas, sobretudo, porque se trata de um ser humano.

    E Felipão, desde os tempos do Grêmio, ensinava uma lição dura sobre futebol, de que as equipes brasileiras, para se tornarem competitivas na Libertadores, ou mesmo a Seleção Brasileira, para voltar a ser competitiva, precisa largar mão desse preciosismo, desse futebol-arte - que, na verdade, nunca passou de um entrecortado de melhores momentos da era de ouro do futebol nacional, devidamente editados em mentes bem-intencionadas. Foi esse preciosismo, aliás, que levou às derrotas em 82 e 86. Um pouco menos e toques de efeito e teríamos sido campeões. O mesmo, somado à extrema irresponsabilidade do elenco, pode ser dito de 2006.

    O caminho para a Seleção Brasileira voltar a ganhar passa, ao meu ver, pela manutenção da base do trabalho atual, sem reinvenções de roda, com correções aqui ou acolá, tendo em vista a experiência dos últimos quatro anos.

    Sobre a atual Copa, creio que a Holanda cresça diante do Uruguai, isso se deve, em parte, à animação pela vitória sobre o Brasil. Pesa contra a Celeste, também, o fato de Lugano não jogar por conta da contusão que sofreu contra Gana e de Suárez ter sido expulso - mas é um time muito bem arrumado em campo, creio que assim como o Paraguai, que fez uma grande partida contra a Espanha, o Uruguai fará um grande jogo também. Alemanha e Espanha é o repeteco da final da Euro 08 e, pela atual situação, a Alemanha me parece mais inteira, ainda que a fúria tenha seus encantos.

    beijos e obrigado pelo comentário sensato

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