domingo, 25 de julho de 2010

O Esvaziamento do Debate Eleitoral e as Pesquisas

Sim, meus caros, para além do império dos factóides, essa eleição também é marcada por um jogo duro no mundo das pesquisas. Não existe debate, sem dúvida. Quando o PT era oposição havia uma crítica à esquerda da política tradicional brasileira e, em um segundo momento, o confronto praticamente polar com o PSDB, quando o partido da estrela se posicionava fortemente contra as privatizações, a liberalização econômica e a ideia de um mercado dotado de design inteligente que em tudo põe ordem - justamente aquilo que seu rival colocava pautava - propondo uma reconstrução do Estado e de uma lógica pública, social e solidária de economia - além de uma política externa verdadeiramente independente.


Isso acabou. Primeiro, porque diante do alto nível de desemprego e do sucateamento do setor público, as propostas do PSDB se tornaram justificada e incrivelmente impopulares sem que isso provocasse uma mudança de rumos interna ou uma explicação decente sobre as causas desses problemas, criando um discurso simulado e confusa seja com Serra em 2002 - que para uns se punha como tucano diferente, anti-malanista e "desenvolvimentistia", enquanto que para sua base se afirmava como a continuidade necessária e, para todo o resto, apenas insuflava um pânico anti-lulista e anti-petista - ou com Geraldo Alckmin 2006 - que apareceu como uma espécie de candidato que, para além da fobia anti-petista (o discurso de lei dos candidatos tucanos), calava sobre a agenda impopular do seu partido, descolava-se da figura de FHC e, sobretudo, vendia a ideia de que a "política" faliu e era hora de se eleger um "gerente" - em suma, esqueçamos essa história de democracia e de "muita conversa" e vamos funcionar como uma tecnocracia. Lula no primeiro caso foi o candidato da esperança, enquanto no segundo, foi o candidato que dizer que a "política" - isto é, a democracia - ainda valia a pena e venceu ambas, adotando, entretanto, um discurso mais centrista que nas campanhas anteriores.


Enfim, foram duas campanhas péssimas, porque seja enquanto situação ou oposição, os tucanos não sabiam o que fazer para explicar as falhas do Governo FHC: Por convicção politica, Serra e Alckmin não viam muitos problemas nas políticas dos anos 90, seja porque não sabiam porque elas deram errado, porque viam outras tantas coisas como "mal-necessário" ou porque, como via de regra era uma opção de continuidade ao Fernandismo dentro do partido, não julgavam prudente fazer críticas frontais a um ou outro ponto que poderiam discordar - Serra talvez tenha feito isso, quando disputava a indicação para a Presidência em 2002, talvez por uma questão de afirmação interna, nada mais. Nesse sentido, ambos elogiaram algo que ainda restava como popular e calavam sobre todo o resto, mesmo o que consideravam certo, porque isso depunha contra sua ambições políticas. Isso produziu momentos engraçados como, por exemplo, em 2006 quando Alckmin foi jogado na parede por Lula sobre a questão das privatizações, entrou em pane porque não tinha coragem de defendê-las nem de crítica-las.


Nessa campanha eleitoral, no entanto, as coisas pioraram. Como debatia quando discutia a questão de Serra e das FARC, a quantidade de factóides por minutos que são produzidas é absurdo e eles surgem, fundamentalmente da campanha serrista, Em 2010, depois do bem-sucedido mandato de Lula, onde o país cresceu muito bem, resistiu à crise sem punir a população, desenvolveu mais ainda os programas sociais e reduziu o desemprego gradativamente - Junho deste ano  foi o mês de Junho com a menor taxa de desemprego em anos -, o candidato da oposição tomou uma rota confusa e muitas vezes desequilibrada: Em um primeiro momento, tentou se lançar com a tese de que não é o candidato oposicionista, mas sim aquele candidato "mais preparado" para governar o país no pós-Lula, mas sempre alternou isso com críticas vulgares ao que foi feito nos últimos sete anos - principalmente em matéria de política externa - e depois destrambelhou-se com a escolha, a despeito de sua vontade, de Índio da Costa como vice.


Serra acusa paranoicamente a todos, A Bolívia, o PT, o Mercosul e até as camisinhas chinesas, mas, por pura diletância, pergunto: Onde estariam as provas? A resposta recorrente é o velho "todos sabem". Vergonhosamente, a blindagem que ele sofre da mídia corporativa é enorme. Ali, ninguém o cobra de nada que diz. Aliás, enquanto balões de ensaio são, tragicomicamente, produzidos acerca da forma como o atual governo ameaça a liberdade de imprensa, a própria liberdade de imprensa, ela mesma, é atacada em São Paulo, como se vê no caso da TV Cultura, o canal público paulista, que é simplesmente bombardeada pela intervenção política do Palácio dos Bandeirantes.


Marina Silva, candidata do PV, pondo-se ao centro dessa questão, pauta uma mistura de ambientalismo, uma agenda de direitos civis candidato democrata-cristão dos anos 70, com uma pegada liberal no programa econômico.Frente a isso, a candidata da situação, Dilma Rousseff, segue a orientação de campanha de não entrar em divididas, mesmo quando acusada infantilmente, a ideia, claro, é não entrar na briga e tratar de colar sua imagem na figura de Lula, que persiste altamente popular, propondo-se como candidata da continuidade. Plínio de Arruda Sampaio, candidato do PSOL, foi seguidas vezes boicotado pela mídia, sob a alegação de que não pontua nas pesquisas. Aliás, encontramos o gancho para um dos principais fenômenos  que compõem o conjunto desse processo de esvaziamento do debate: As pesquisas eleitorais e o modo como os candidatos se relacionam com elas.


Sim, de repente, o debate político nacional se viu engessado pela figura das pesquisas eleitorais. De repente, as considerações do eleitorado sob temas polêmicos são avaliadas - sob uma metodologia nem sempre bem avaliada - por pesquisas de opinião, logo, os principais candidatos se orientam por aí, elas se tornam uma baliza de uma espécie de doutrina de ação eleitoral. O dado que vem dali parece que se torna uma verdade universal imutável e, logo, ninguém se arrisca numa das funções mais elementares da política que é o convencimento público em relação a temas polêmicos - mesmo que acredite no que está defendendo. E fazem isso sob bases pantanosas. Outro problema, e aí sim a porca torce o rabo, é da efetividade das pesquisas eleitorais. Não faltam estatísticos que, justificadamente, as critiquem. Por outro lado, temos uma verdadeira guerra entre os institutos de pesquisa, que conflitam, como nunca, nos resultados das pesquisas. Poderíamos falar em erro por parte de ninguém há meses atrás, mas a persistência do fenômeno nos leva a crer que alguém está mentindo.


Fosse o caso de divulgar pesquisas eleitorais, eles deveriam ter uma metodologia oficial uniforme - e, de preferência, elas deveriam ser produzidas por um instituto oficial e não por um emaranhado de empresas privadas, dotadas de interesses próprios. Isso, ao meu pensar, funciona como as famosas "agências de risco", as famigeradas empresas privadas que avaliam o "risco" de investir nos países pelo globo, sendo decisivos, em especial para os países pobres, dotados de gigantescas dívidas. As pessoas tomavam aquele dado como um verdade, mas se esqueciam que, na verdade, aquelas agências eram empresas privadas como qualquer uma outra, com interesse privados e, sobretudo, com a possibilidade de ter interesse direto e efetivo na negociação de dívidas com alguns países - não à toa, boa parte das agências quebrou na Crise Mundial que segue, tão envolvidas estavam no jogo da especulação. O mesmo ocorre com nossos institutos de pesquisa de opinião, em especial, no que toca às pesquisas eleitorais: Antes de avalia-las é necessário saber que aquelas empresas podem ter sim interesse direto na eleição de um candidato - e isso, ainda que condenável eticamente, não é uma anormalidade econômica, convenhamos.


Até março deste ano, os institutos coincidiam em suas análises: A candidata governista, Dilma Rousseff, crescia inercialmente e o candidato da oposição, José Serra, via sua liderança diminuir. Depois, enquanto Vox Populi e Sensus anotavam a manutenção da tendência, o Datafolha - instituto do Grupo Folha, dono do jornal Folha de São Paulo, conhecido por suas posições pró-PSDB - dizia o contrário: Quando os dois primeiros diziam que Dilma se aproximava, ele apontava que ela ainda estava longe, quando os dois primeiros diziam que houve empate, ele apontava para uma liderança menor de Serra, quando os dois primeiros diziam que Dilma ultrapassou Serra, ele insiste na tese do empate. Curioso. Enquanto isso, o Ibope, fica no meio-termo entre os dois movimentos - com seu proprietário sob particular suspeição, depois de declaração públicas ano passado.


As últimas pesquisas do Vox Populi e do Datafolha são emblemáticas. Enquanto o primeiro afirma a tendência inercial de crescimento de Dilma - o que não teria motivos para ter cessado, afinal, não houve fato novo e relevante sobre o Governo Lula ou ela no período -, o segundo insiste que houve empate. A distância é gigantesca, o primeiro diz que Dilma está oito pontos na frente e o segundo diz que ela está um ponto atrás. Marina Silva, curiosamente, está com a mesma margem de pontos em ambas. Dilma lidera ambas as pesquisas espontâneas - isto é, aquela onde o entrevistado é perguntado diretamente em quem vai votar, enquanto na segunda, ele é informado sobre quem concorre. Evidentemente, a maneira como ocorre a exposição dos candidatos está fazendo toda a diferença. Não só isso, a metodologia de seleção dos entrevistados e distribuição do eleitorado pelo país é diferente. Quem aponta isso é Brizola Neto, deputado federal pedetista que disputa a reeleição, e é crítico do Datafolha.


Pode se discutir aqui que ambas as metodologias são corretas, mas um ponto que me intriga particularmente é como o Vox e o Sensus - que ainda não saiu - estão antevendo os movimentos enquanto o Datafolha mostra os mesmos movimentos com efeito retardado. Também é curioso como ambos coincidem nas intenções de voto de Marina. Por isso, entendo que o Datafolha precisa se explicar do mesmo modo que o Grupo Folha, jogando na ofensiva já fez com os outros institutos, por muito menos, o fizessem. Seja como for, a lúgubre democracia brasileira, para não esmorecer de vez, precisa de uma reforma urgente no regime jurídico-eleitoral e a abolição das pesquisas eleitorais ou, no mínimo, sua racionalização mediante a instituição de metodologia uniforme, deveriam ser itens postos em debate. Para além disso, em termos factuais, não deixa de ser perturbadora a forma como o processo de esvaziamento do debate eleitoral tem sido catalisado, particularmente, pela oposição tucana.



6 comentários:

  1. É, meu caro Hugo, vivemos tempos interessantes. Digo interessantes porque, não só as peripécias da imprensa pró-Serra para mantê-lo no páreo são de uma surpreendente baixeza e cretinice _ e por isso mesmo me interesso em entendê-las _, mas também porque me ascendem a curiosidade quanto ao seu futuro caso a Dilma se eleja, já que investem, sobretudo a Folha e a Veja, mas também Globo e cia, sua própria reputação na campanha serrista.
    Será que veremos aqui o nascimento de uma versão tupinikim para o Tea Party, encampado por parte dessa imprensa, ou veremos essa mesma imprensa, sobretudo a escrita, se recolhendo a um papel cada vez menor como formadora de opinião depois de perder sua credibilidade frente aos novos leitors _ talvez mais progressistas _ , porque os mais velhos, que insistiram em ficar, vão morrendo?

    Concordo com você que a legislação eleitoral precisa mudar, mas não acho que ela deveria interferir muito nos métodos de pesquisa, talvez um poquinho mais, só, menos ainda proibir qualquer pesquisa de intenção de voto. Acho que como está, está quase bom. O problema, a meu ver, não é a existências de metodologias diferentes, mas a repercussão desigual que a imprensa da a elas, privilegiando Datafolha e IBOPE.

    Pelo que eu entendo do processo, e não é muito, todo instituto de pesquisa precisa detalhar para a Justiça Eleitoral, e tornar públicos, seus métos estatisticos e a forma como pretende identificar e entrevistar o eleitor, publicando inclusivo o questionário que será usado, as localidades, enfim. Graças a internet, e a alguns iluminados que dedicam seu tempo em dissecar essas metodologias, podemos conferir se determinada pesquisa pode ser confiável ou não. Acredito que nas próximas eleições isso será muito mais explorado, tanto na internar quanto na imprensa. Mas concordo que o porcesso deve ser mais transparente.
    Talvez a propria consuntura política obriga a mudanças. Sim porque depois dessas eleições, se o Serra realmente perder, vai ser difícil o Datafolha recuperar sua credibilidade. Sua relevancia deve diminuir nas eleições futuras. Parece que o IBOPE já percebeu isso e resolveu tirar pelo menos uma das mãos do fogo, se queimar uma, ainda sobra a outra.

    Abraço!

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  2. Luiz Serra Azul Junior26 de julho de 2010 10:16

    O candidato José Serra sabe que esta é sua última chance para disputar uma eleição para presidente da República. Por outro lado, o seu partido o PSDB, que vem decaindo ano a ano, sofre de uma anomalia grave: tem a pretensão de atuar como um Partido Nacional, mas que na prática age como um Partido de interesse Regional, circunscrito às regiões sul e sudeste, ficando o seu “Quartel-General” localizado na cidade de São Paulo, que tem a primazia de ditar as ações e estratégias político-eleitorais para todos os rincões do território nacional. Como o PT amadureceu e ganhou musculatura neste período do governo do presidente Lula, que vem obtendo êxitos inquestionáveis, sobretudo no tocante à distribuição de renda e melhoria da qualidade de vida das classes menos abastadas, o quadro de dificuldades para as oposições é desesperador. Contudo, nada justifica os erros estratégicos e absurdos políticos cometidos pelo PSDB, e demais apoiadores da candidatura do presidenciável José Serra. Estão destruindo e jogando no lixo da história, a biografia, a honra e a dignidade desse importante quadro da política nacional. No que diz respeito aos Institutos de Pesquisa, o que eles vêm fazendo, não condiz com a essência da democracia, regime político que se funda nos princípios da soberania popular e prima pela liberdade eleitoral, pela divisão dos poderes e pelo controle da autoridade, e qualquer agente, entidade ou instituição que conspurcar esse princípio, deve sofrer as penalidades da lei.

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  3. Prezado Hugo
    Ótimo artigo!
    Penso que debater essa questão das pesquisas na blogosfera tem sido um importantíssimo fator de desmonte e prevenção de esperadas e anunciadas fraudes eleitorais.
    E as verdades vão surgindo: essa da Datafolha de excluir os Sem Telefone, denunciada no blog do Nassif mereceria um processo judicial. Trata-se de uma flagrante fraude, un engodo grosseiro,não acha?
    Espero que vc prossiga com os seus excelentes artigos voltados para as eleições que se avizinham.
    Gostaria de lhe pedir que prosseguisse com artigos sobre análise histórica recente do Estado de São Paulo. Os paulistas e o Brasil desconhecem profundamente o que levou SP ao quadro econômico e político atual.E isso impede uma visão dialética.
    Um abraço e sinceros parabéns pelo seu blog, que atento acompanho aqui do Rio.
    Ramiro Tavares

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  4. Edu,

    Em um primeiro momento, essa mídia tradicional tende a ser esmagada com ou sem Serra por questões econômicas prementes - claro, com o candidato tucano vencendo, elas esperam ganhar tempo (por meio de bons negócios) para se reorganizarem frente à nova conjuntura mundial. Ainda assim, é difícil que isso prospere. A situação é mais complexa do que isso e sua sobrevida depende em ir de encontro ao próprio desenvolvimento do Capitalismo, o que é bem complicado. Aliás, já escrevi um artigo que trata essa questão de maneira abrangente.

    Sobre as pesquisas eleitorais, creio que é questão mesmo de, no mínimo, apertar o cerco sobre a metodologia que as fundamenta ou mesmo extirpa-las do cenário. Ao meu ver, elas corrompem o debate público que já está rarefeito, gerando bolas de neve. O mínimo que se pode imaginar é mantê-las de forma organizada e racional.

    abração

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  5. Serra Azul,

    Coincido praticamente na íntegra com a sua análise. Um ponto polêmico que muitos analistas subestimam - e você levantou muito bem - no que toca ao PSDB é a questão do seu regionalismo: FHC só conseguiu vencer a eleição e governar por uma aliança com o PFL - hoje DEM - e Serra não tem mais esse mecanismo. Isso, claro, pensando por uma perspectiva formal. Materialmente, aliar-se ao DEM - o PFL que trocou de nome, mas não reverteu seu processo degenerativo - é o beijo da morte: Tática conservadora manjada entre táticas conservadoras manjadas, governar o Brasil pelo centro-sul e entregar o quinhão do norte-nordeste para qualquer oligarca fiel sempre foi a receita para o subdesenvolvimento nacional e a própria instabilidade política nacional. Os Bragança fizeram isso, a República Velha foi isso assim com a Ditadura Militar. Quem escapou razoavelmente a essa armadilha, como Getúlio e JK, escreveu seu nome na História; Lula, que subverteu a questão, usando alguns oligarcas para poder implementar suas políticas, mudou a direção do vento. O que Serra está fazendo nesta campanha - como há muito tempo - é danoso para a Democracia e para as conquistas dos últimos anos. É simplesmente horrível. Creio que sua derrota seja o resultado mais provável, com a direita caminhando para um discurso centrista que gravitará em torno da figura carismática - e controversa - de Aécio - uma vitória serrista, claro, será o pior dos mundos porque dará em inevitáveis turbulências.

    abraços

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  6. Ramiro,

    Então fique conosco. Daqui para frente, o alvo vai ser nas eleições mesmo. O espírito deste blog não é o de, necessariamente, fazer cobertura em cima do lance de cada fato - embora tenhamos feito isso por aqui durante a Copa -, mas sim fazer análises conjunturais do processo - e, claro, se analisar o que se passa nas eleições presidenciais é de lei, o foco no âmbito estadual é mesmo nas terras paulistas porque são nelas que O Descurvo está instalado.

    abraços

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