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segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Réquiem para Mandela

"Nós adotamos a atitude de não violência só até o ponto em que as condições o permitiram. Quando as condições foram contrárias, abandonamos imediatamente a não violência e usamos os métodos ditados pelas condições"

Nelson Mandela

Faleceu, no último dia 5 de Dezembro, Nelson Mandela,  ex-presidente sul-africano, ícone internacional da luta contra a opressão e grande líder da luta contra o apartheid -- regime oficial de segregação étnica que perdurou por 44 anos, entre 1960 e 1994, em seu país. Mandela morreu aos 95 anos, 27 dos quais passados em uma prisão, em virtude da sua participação na luta armada contra aquele regime --  a prisão de Mandela aconteceu em 1963, em decorrência do Julgamento de Rivônia, sendo que ele só foi libertado em 1990, depois de muita pressão sobre o governo sul-africano.

Curioso notar a santificação que Mandela atingiu nos seus últimos anos de vida: de repente, Mandiba era unanimidade entre esquerda, direita, centro, gregos e troianos. Sua morte repercutiu pela mídia global e não houve quem, nos últimos dias, não se compadecesse de seu falecimento. A questão que se insurge é:  Como uma figura radical como Mandela, em um mundo como este,  pode tornar-se um herói?

Aí entram alguns detalhes importantes: Mandela participou com todo afinco da luta contra o Apartheid, quando criou e participou da organização guerrilheira Umkhonto we Sizwe -- "Lança de uma Nação" -- como resposta ao Massacre de Sharpeville,  aliou-se  ao movimento não-alinhado e flertou com o bloco soviético no contexto da Guerra Fria -- na medida em que o regime do Apartheid era apoiado pelo Ocidente -- e recusou, no decorrer de seu longo cárcere, inúmeras ofertas de libertação em troca de assumir uma posição contrária à luta armada. 

Uma vez liberto em 1990, foi eleito presidente da nova nação sul-africana em 1994, em um processo marcado pela fusão da bandeira da África do Sul nacional com a do CNA -- Congresso Nacional Africano, organização política negra da qual ele fez parte e que, desde 1912, empenhou-se na luta pela autonomia dos negros na África do Sul e na luta contra as variadas formas de segregação. A nova África do Sul, embora livre da segregação racial formal, ainda hoje apresenta das mais altas desigualdades sociais do mundo e o abismo entre brancos negros, e entre brancos, continua absurdo.

A questão inicial, portanto, possui dois eixos principais. Um deles é a maneira como a mídia global diluiu a biografia de Mandela, transformando-o em alguma espécie de pregador passivo e cândido, alguém que jamais se usou do "radicalismo" contra a ordem posta; o outro, o quanto que diz respeito aos mecanismos internos do racismo, expresso no contexto sul-africano do século passado na forma de apartheid. 

A pasteurização de Mandela é não só necessária como urgente. Os heróis do nosso tempo precisam ser, sobretudo, resignados face à ordem posta, seja ela qual for: a virtude é cumprir o dever para com o Estado, em um contexto de dívida infinita. Mandela teria sido bom graças ao fato de nunca ter cruzado esse limite. Daí, a omissão e as fraudes históricas praticadas em relação à sua biografia como bem demonstrou Idelber Avelar -- no entanto, é preciso ver que existem algumas nuances a mais nessa ressignificação do que o mero fato de Mandiba, em certo momento, ter se tornado "inatacável".

Mandela, de certa forma, deixou sua narrativa ser reescrita na gramática do poder constituído, relegando sua fúria revolucionária ao papel de mito fundador de uma nova ordem de paz. Se Mandela jamais leu o discurso que a mídia global lhe preparou, por outro lado, é preciso entender o que em seu discurso real tenha lhe valido tamanha leniência de setores tão atrozes: pois bem, a radicalidade de sua ação, embora jamais renegada, foi colocada por ele mesmo em um plano meramente retórico e virtual (no passado, mesmo que apresentado como necessidade), sendo que aquilo teve sentido prático e atual nos tempos da militância e, também, nos anos do cárcere. 

Ele fez isso em nome de uma governabilidade, da possibilidade de reconciliação nacional, mas essa astúcia lhe valeu mais a santificação do que a transformação sul-africana: a falta de coragem de buscar alternativas ao livre-mercado causou, por exemplo, uma insuficiência na reversão de desigualdades materiais, o que culmina com dados sociais muito negativos; a epidemia de HIV-AIDS não foi enfrentada, sendo uma das principais causas da expectativa de vida no país ter caído. 

Para se ter uma ideia, a expectativa de vida na África do Sul era de 60,54 anos em 1994, mas caiu para 52,62 anos em 2011 -- isto é, durante o tempo de governo da CNA de Mandela, correspondendo aos governos dele, de Thabo M'beki e de Jacob Zuma; só de 2006 para cá, houve alguma melhora nos índices, quando a taxa atingiu seu ponto mais baixo, pouco mais de 50 anos, subindo dois anos de lá até 2011. Antes, a expectativa de vida sul-africana registrou seu ápice em 1991, com uma média de 61,53 anos. Só para constar, a média de vida brasileira era, em 1991, de 66,73 anos, 67,94 em 1994, e  73,44 em 2011 -- isto é, o que era uma diferença de 5 anos a favor dos brasileiros, tornou-se mais de 20 anos.

Na África do Sul não houve sequer um esforço semelhante ao do Brasil, que mesmo movido pelos interesses dos laboratórios nacionais em vez de qualquer altruísmo, tocou a quebra de patentes dos medicamentos para o tratamento da AIDS e, por sua vez, construiu um programa de combate à doença. Esse exemplo ajuda a entender como Mandela permaneceu santificado: não feriu interesses, salvo para empreender conquistas formais. E também nos ajuda a passar para o segundo ponto, no que toca ao racismo de antes e o de hoje.

Ora essa, chegamos a um ponto espinhoso, tentar determinar o racismo em sentido conceitual, como modo de dominação, e nas condições sul-africanas. Racismo ou luta de classes, eis a questão? Ambos. O racismo só existe como armadilha para segregar determinadas camadas, cuja diferença biológica possa ser identificada, e, assim, conduzi-las aos piores postos na divisão do trabalho. E não é uma divisão do trabalho injusta, mas uma das formas de expressão da injustiça que é a divisão do trabalho. O negro é representado como pior, justamente para ocupar cargos piores, só que resignadamente. Racismo não pode ser visto como  problema moral, ele é problema econômico-político.

A construção de um racismo de Estado, estipulado por Lei, como o apartheid era um desastre. Mas certamente um desastre explicável pela história da África do Sul, um acidente histórico causado pela peculiar colonização holandesa na região; a presença de colonos vindos do campo no século 17, no que deveria ser apenas um empreendimento mercantil-colonial da Companhia das Índias Orientais, gerou uma aleatoriedade histórica: eram conservadores religiosos desterrados, por seu turno, em um ambiente hostil no qual disputavam terras com etnias tradicionais da região, enquanto, por outro lado, viam-se desde sempre acossados pelo imperialismo britânico -- e o povoamento do país por mão-de-obra indiana; a construção nacional sul-africana, portanto, se deu na forma de um arcaísmo brutal e foi o último grande agenciamento de castas do homem branco, posterior mesmo ao nazismo -- e ambos apenas reproduziram as experiências coloniais arianas no mundo oriental, incluso aí a própria Índia de tempos imemoráveis.

O liberalismo e a ordem política burguesa, com a igualdade formal e a gradativa conversão dos escravos negros em trabalhadores assalariados, deram conta já no século 19º de elaborar uma tecnologia espantosamente mais sofisticada no que tange à manutenção do racismo. Não há segregação legal-formal, mas sim indireta, cultural e psicossocial, efetivada pelo dispositivo econômico. Grandes estrelas negras das artes, dos esportes e mesmo da política não são desconhecidas mundo afora, mas isso não mudou substancialmente a situação do negro comum, apenas lhe deu a ilusão do "mérito" -- o que opera de modo reverso no imaginário comum, servindo como explicação da pobreza da maior parte dos negros não na forma de efeito da dominação, mas sim de culpa.

O esquema do apartheid só durou tanto na medida em que, vejam só, um estamento local específico se beneficiava do sistema e, estrategicamente, o mantinha servindo de tentáculo do trabalho sujo do Ocidente no continente africano durante a Guerra Fria. Internamente, a cooptação de lideranças tribais, a modulação da segregação conforme a brancura da pele, mantinha os oprimidos suficientemente divididos para que sua resistência não fosse suficiente. Os burocratas do Partido Nacional precisavam do apartheid, não a totalidade dos brancos de elite: quando esta viu modos melhores de manter sua hegemonia, avançou e repetiu a estratégia dos seus pares nas Américas.

Isso não torna, é óbvio, Mandela um idiota útil a serviço do domínio branco. Mas tampouco o torna uma mera vítima do falseamento histórico da mídia global. É preciso libertar Nelson Mandela, como nos lembra João Telésforo, mas isso só é possível por meio da experiência do Mandela menor: eu quero o Mandela iconoclasta e não o ícone universal; é preciso atualizar o discurso de Mandela como prática e mostrar o quão indigesto, para opressores e racistas, é a figura que eles tentam deglutir a todo custo. Não queremos, nem precisamos, do Mandela tolerante com o intolerável, mas do Mandela intolerante com o tolerado. 





terça-feira, 22 de junho de 2010

Notas da Copa: Definição dos Grupo A e B


Hoje à tarde tivemos quatro partidas pela terceira rodada da Copa do Mundo. Foram concluídos os jogos do Grupo A e B com a classificação de, respectivamente, Uruguai e Argentina na primeira colocação e de México e Coreia do Sul em segundo. Portanto, teremos na oitavas de final os confrontos de Uruguai contra a Coreia e Argentina contra México (repetindo o jogo das oitavas da Copa passada). Do que se pode concluir num primeiro momento, está a ascenção relativa do futebol sul-americano - e latino-americano também, levando em consideração o México -, a afirmação da Argentina como uma das favoritas à Copa - já afirmava isso há muito tempo, ainda que o quadriênio tivesse sido desfavorável, com um técnico carismático e a atual geração, na Copa as coisas seriam outras para los hermanos - e a decadência do futebol da Europa e da África. 

Sobre a Europa, fica mais um indicativo da decadência dos grandes times, algo iniciado lá pelo início dos anos 2000, mascarado por uma Copa atípica e agravado agora. Isso se expressa com a classificação de times ridículos como a Grécia - que hoje, mesmo enfrentando uma Argentina com mistão e em ritmo de treino, foi incapaz de levar perigo. As grandes seleções, do seu lado, apresentam dificuldades em se renovar  por conta da política simples e prática dos seus clubes contratarem atletas de todo mundo, relegando a dura tarefa de formar jogadores para o segundo ou terceiro plano, além, claro, do superpoder das ligas nacionais e do enfraquecimento das federações, incapazes de comprar brigas e reduzidas à pequenas unidades burocráticas.

Dos africanos, a dona de casa, África do Sul, fez um dos papéis menos ridículos, só deixando de se classificar por saldo - quem sabe pela falta de maturidade contra o México, na estreia ou, quem sabe, segurando um pouco mais o Uruguai - enquanto a Nigéria foi ridícula nos três jogos que disputou. A hipótese que eu levanto aqui é bastante simples:  O desenvolvimento do futebol da África Negra foi atrapalhado pela descolonização tardia do continente e das sangrentas guerras civis que se seguiram, quando razoavelmente assentado o processo, vimos times nacionais bons, mas com pouca ou nenhuma organização. Vejo poucas chances de classificação para qualquer um outro time da África.

De repente, os jogadores, ainda muito novos, começaram a ser levados para a Europa e os técnicos europeus começaram a vir treinar as seleções, o que foi nocivo para o futebol africano, pois significou a imposição de um modelo externo, impedindo o desenvolvimento de uma forma de jogar bola própria e mais adequada às singularidades locais. Não me resta muita dúvida que, tecnicamente, os jogadores africanos chegam a estar acima da média dos europeus, mas sua criatividade está sendo pouco a pouco tolhida, o que lhes põe numa zona cinzenta onde seu desenvolvimento enquanto o que são não é possível - seria como, por exemplo, importar o modo italiano de jogar bola para o futebol brasileiro e trazer um técnico de lá para treinar a Seleção Brasileira, suspeito que não iria funcionar. É torcer para que a elite de jogadores africanos atuais se tornem técnicos no futuro e mudem essa realidade.

Seguindo via oposta, segue o futebol do extremo-oriente tem repetido no esporte bretão aquilo que fizeram na economia: Fagocitam instrumentais do Ocidente e os adaptam às suas necessidades. Isso faz como que, apesar de suas ainda consideráveis limitações técnicas, sul-coreanos avancem cada vez mais e conquistem uma vaga nas oitavas - e o mesmo vale para o Japão, que caiu num grupo difícil, mas ainda está na briga por vaga. 

Por outro lado, temos o modelo sul-americano que está ultrapassando a Europa. A Argentina segue como uma das grandes forças do mundial e provou, hoje, que além de um belo time, tem um baita elenco, capaz de ser mais forte que a maioria dos times desse mundial caso entre com time reserva. Messi ainda não fez gol, mas é um baita jogador, temos ainda Verón, e reservas de luxo como Máxi Rodriguez, Aguero e Milito. Honestamente, pelo que eu vi do México, os argentinos são bem favoritos nas oitavas. Maradona põe seu time para jogar num 4/2-3/1 que normalmente vira um 4/3/3 mesmo, se mostrando até aqui o ataque com mais recursos nessa Copa e, mesmo que pesem as falhas defensivas, uma das melhores equipes do torneio. Javier Aguirre, por outro lado, tem dificuldades com o time do México, ainda que o miolo de zaga funcione bem, a lateral-direita não é bem assistida, falta qualidade na saída de bola no meio - adoro Rafa Marquez, mas não como volante -, os meias são inexperientes - Dos Santos é um ótimo jogador, mas é muito novo - e um atacante de peso - como, em seu tempo, foram Luiz Hernández e Jared Borghetti -; enquanto isso, seu principal jogador é o veteraníssimo Blanco que não tem condições de atuar um jogo todo. A saída para o México é jogar na retranca esperando por uma falha defensiva argentina no contra-ataque - ainda assim, lhe falta um jogador de ligação para puxar um contra-ataque qualificado.

O Outro jogo, Uruguai e Coreia do Sul, é uma das partidas entre uma das defesas mais sólidas desse torneio e um time disciplinado, com muita vontade e pouca técnica. Para mim, o Uruguai leva. A defesa liderada por Lugano, um meio com bons marcadores e um ataque com o talentoso Forlán e o regular  Suárez tornam o time uruguaio muito mais qualificado que o rival - aliás, o Uruguai é um dos times mais inteligentes dessa Copa.

Foto1 Getty Images: Maradona e Palermo
Foto 2: Luís Suárez

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Notas da Copa: A Alegria de Don Diego e a Mexicanada

(Maradona & Messi - Foto Ap)

O futebol latino-americano segue jogando bem: Até agora, só Honduras perdeu e foi para outro time do continente, o Chile. Hoje, tivemos a vitória da Argentina sobre a Coreia do Sul (4x1) e a vitória do México contra a França (2x0) - além dos dois primeiros gols e da consequente primeira vitória da Grécia numa Copa, 2x1 sobre a Nigéria, o que lhe colocou novamente na disputa.

Começando pelo começo, a vitória da Argentina sobre a Coreia do Sul foi um massacre. Maradona repetiu o 4/2-3/1 do primeiro jogo, com Di Maria armando pelo centro, Tevez pela esquerda, Messi pela direita e Higuaín no comando de ataque. Muito embora a defesa tenha navalhado novamente - o gol tomado hoje foi brincadeira -, é lindo ver o ataque dessa equipe jogar, é bom demais. Essa vitória foi uma bela cutucada naqueles que falavam que a Argentina não tinha chance nenhuma - parece até que ninguém se lembra de 2002, quando o Brasil chegou na Ásia desacreditado e contando apenas com um técnico carismático que unia um time cujo acerto foi se deu ao longo do próprio torneio. Claro, não vejo a Argentina como a favorita, mas ela está na briga sim pelo título e cresceu do primeiro jogo para cá. Aliás, não deixa de ser digno de nota a alegria de Maradona à beira do gramado. É contagiante.

Também pelo grupo B, os gregos bateram os nigerianos, conseguindo assim não apenas marcar seus dois primeiros gols em copas como também arrancar sua primeira vitória, botando fogo no seu grupo, onde a Argentina simplesmente sobra - para não perder a deixa, que participação horrível do futebol africano em uma Copa que sedia, não? Os nigerianos tiveram boas chances contra uma Argentina que se acertava, mas não marcaram nem um golzinho, agora apanham dos gregos, que coisa.


O jogo que eu vi na íntegra mesmo foi México 2x0 França pelo fechamento da rodada do Grupo A - que teve ontem a elástica vitória do Uruguai sobre a África do Sul por 3x0. Basicamente, o primeiro tempo foi horrível, com as equipes se anulando e pouco produzindo: Se de um lado os mexicanos alternavam um esquema 4/4/2 para um 3/5/2 sem sucesso algum, os franceses viam seu 4/2-3/1 - o esquema da Copa - naufrgar pela falta de um armador decente e de pontas criativos. Se Peréz não tinha trabalho no gol mexicano, Osório pouco fazia pela direita - e Malouda colaborava, anulando o jogo por aquele lado do campo -,  os bons zagueiros Rodríguez e Moreno anulavam Anelka, mas não tinham com quem sair, daí Salcido começou a fazer essa função se tornando um ala - até porque Ribéry nada fazia. No meio, Govou não armava para a França, mas os volantes mexicanos, Rafa Márquez e Juárez pouco faziam - principalmente o último -, enquanto dos volantes franceses, só Toulalan aparentemente entrou em campo - alguém aí, honestamente, viu Diaby? - e os meias mexicanos se negavam copiosamente a armar o jogo - Dos Santos e Torrado, que horror. O ataque mexicano, com Franco e Vela nada fez contra uma zaga francesas mal posicionada - Gallas e Abidal estavam irreconhecíveis -, enqaunto só apareceu para tomar um amarelo, o segundo só o fez quando saiu contundido para a entrada de Barrera, cuja atuação foi inscipiente no primeiro tempo.

Javier Aguirre, no entanto, soube mexer no time mexicano no intervalo e a equipe voltou com outro espírito. Saiu o insosso volante Juárez para entrar o atacante Hernández e, logo depois, saiu Franco, uma nulidade no ataque, para entrar Blanco. O efeito prático das duas substituições foi uma mudança no jogo mexicano: O ataque ganhou velocidade - até Barrera cresceu no jogo - e o meio, com Blanco, ganhou o toque de bola e a qualidade na saída de bola que não teve no primeiro tempo - com Rafa Márquez dando sinal de vida também. A França prosseguia morta, Domench tirou Anelka - muito mais uma vítima de um meio de campo ineficiente do que culpado do que quer que seja - e pôs Gignac - porra e o Henry? - e nada, como era de se esperar, mudou. O México, numa linda enfiada de bola de Rafa para Hernández, que entrava em velocidade, pegando a linha-burra da França no contra-pé deu no primeiro gol do time latino-americano. A França não cresceu, ao contrário, foi dominada cada vez mais, lançando-se ao ataque sem vontade, sem alma e sem responsabilidade também: Barrera, em jogada individual penetrou na área, foi derrubado para o veterano Blanco bater com firmeza e definir o placar.

Rodada encerrada no Grupo A e B e não tivemos ainda nenhuma equipe matematicamente classificada. Claro, se Uruguai e México, na próxima rodada, fizerem um joguinho de amigos e empatarem ambos passam, a questão é saber se os mexicanos aceitarão passar em segundo e assim, possivelmente enfrentar a Argentina - sim, porque o Uruguai tem um gol a mais de saldo -, o que poderia criar alguma situação. No Grupo B, pelo que se viu até agora, a Argentina deve enfiar uma cacetada na Grécia pela última rodada, mas ainda não está garantida - claro, ela precisaria levar uma goleada para ficar fora e ainda ver a Coreia do Sul vencendo a Nigéria bem, o que é extremamente improvável. O outro time que passa nesse grupo, aí, já é um mistério, tamanha a ruindade de parte a parte.

(A segunda foto é da EFE)

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Notas da Copa: Fim da Primeira Rodada e a Tragédia Sul-Africana


(Forlán, o carrasco de hoje - foto retirada daqui)

Hoje, terminou a primeira rodada da primeira fase da Copa e também tivemos o primeiro jogo da segunda rodada. O Chile de Marcelo Bielsa e Valdivia, como era de se esperar, bateu Honduras, mas ainda que tenha tido amplo domínio do jogo, não conseguiu fazer mais do que um gol sobre o adversário centro-americano - que, assim como boa parte das equipes desse torneio, se prestou apenas a ficar na defensiva arriscando um ou outro contra-ataque, ainda que tivesse um pouco de mobilidade. Fechando o Grupo H, aquilo que muitos consideravam impossível, aconteceu: A Espanha perdeu para a Suiça. O ponto é que os espanhóis são bons, leves, tocam bem a bola, mas lhes falta a figura do craque para romper sistemas defensivos funcionais. O ponto é que a Suiça aguenta tranco, ainda que não tenha um ataque dos sonhos - se tivesse, brigaria pelo título. Craque é o jogador que consegue fazer do imprevisível sua normalidade e só ele consegue furar esse tipo de retranca - o exemplo emblemático disso é o nosso Mané Garrincha contra a União Soviética na Copa de 58, não que eu espere um craque desse porte na Espanha, mas lhe falta um jogador capaz de superar esse tipo de defesa sim e é necessário um deles para levar a Copa. Desse jeito, a festejada Espanha acabou sucumbindo à marcação suiça e ainda tomou um gol no contra-ataque - por isso não falem besteira sobre a vitória apertada do Brasil na estreia, é para poucos furar as retrancas gloriosas dessa Copa. Terminada a primeira rodada, a Alemanha está uns degraus acima de todo o resto.

Tragédia mesmo ficou por conta da África do Sul de Parreira, cotada como provável desastre antes do mundial, a equipe teve um estreia interessante contra o México, onde só não ganhou por azar dos atacantes e uma infelicidade defensiva. A alegria da torcida, toda a animação, enfim, tudo foi por água abaixo frente ao disciplinado Uruguai de Forlán que lhe enfiou, agora há pouco, 3x0. Posicionado defensivamente da mesma maneira que esteve no jogo contra a França, o Uruguai abriu o placar com Forlán, chutando de fora da área ainda no primeiro tempo, aguentou a pressão desordenada da África do Sul, fez o segundo de pênalti e marcou o terceiro numa falha abissal da defesa adversária no fim do jogo. O placar praticamente qualifica o Uruguai para a outra fase e reforça três pontos centrais: (I)A boa campanha que o futebol da América do Sul realiza nesta Copa, refletindo o bom nível das eliminatórias locais, (II) A má campanha do futebol africano, haja vista que apenas Gana conseguiu vencer um jogo - ainda assim, jogando bisonhamente - e só a Costa do Marfim fez um jogo convincente e (III) as boas arbitragens, pois um ver um país-sede com poucas chances não ser ajudado não é pouca coisa - assim como o cômputo geral da coisa, onde os árbitros têm sido eficientes e corretos.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Notas da Copa: Itália 1x1 Paraguai e a Estreia da Holanda



Começando pela estreia da Itália, a atual campeã, o que se viu agora há pouco contra o Paraguai foi mais um jogo triste. A Itália não joga um futebol de resultados, ela joga um anti-futebol, onde a defesa e a marcação funcionam efetivamente ao contrário do ataque, uma engrenagem travada. Foi assim, é verdade, que o time venceu a última Copa, mas não há como não relembrar o quanto a Copa de quatro anos atrás foi igualmente disfuncional e sem opções, com o retumbante fracasso da única equipe capaz de encantar, justo a nossa, sobrou  para decidirem o título a Azurra tal como ela é hoje e um time sub-50 da França.


Do jogo de hoje, a Itália começou num 4/2-3/1, com Buffon; Zambrotta, Canavarro, Chiellini e Criscito; De Rossi, Montolivo, Pepe, Marchisio e Iaquinta. Gillardino - treinada por Marcello Lippi. O Paraguai, num 4/4/2, entrou com Villar; Bonet, Da Silva, Alcaraz e Rodríguez; Vera, Cáceres, Torres e Riveros; Lucas Barrios e Valdez - treinada por Gerardo Martino.


No começo, a Itália marcava sob pressão e sufocava os paraguaios, no que prática era um 4/3/3, mas o time sulamericano, apesar de inferior, se defendia bem ao mesmo tempo que de seus desarmes só resultassem chutões tentando alcançar seus dois atacantes enfiados. Foi essa a dinâmica de boa parte do Primeiro Tempo , italianos acossando paraguaios, sem criatividade ou mera ousadia, e paraguaios incapazes de encaixar contra-ataques - isso até o fim da primeira etapa, quando Torres bateu falta cometida por Chiellini sobre Valdez para Alcaraz, no meio de De Rossi e Canavarro, cabecear para abrir o placar em favor do time paraguaio. O jogo italiano não funcionava, seus pontas (Pepe e Iaquinta) eram perfeitamente neutralizados pelos laterais paraguaios (Bonet e Rodríguez), Marchisio não armava e Gillardino permanecia como permaneceu o jogo inteiro: Anulado pela zaga adversária. Muito embora o Paraguai não conseguisse construir jogadas ofensivas, se o jogo seguisse aquela tônica no Segundo Tempo, fatalmente, acabaria com vitória por 1x0 para os paraguios.


Na segunda etapa, o Paraguai começou melhor, mas depois de desperdiçar uma chance emblemática: Vera isolou uma bola que deveria ter convertido e a partir dali, a Itália recuperou o terreno que lhe daria o empate - especialmente depois de Marcelo Lippi ter modificado a forma da equipe jogar, colocando Iaquinta junto com Gillardino no ataque (depois colocando Di Natale no seu lugar) e colocando Camoronesi no lugar de Marchisio para ser o extremo-direito do meio, em suma saiu, o 4/2-3/1 para entrar o 4/4/2. O lance do empate só saiu mesmo depois de escanteio bem batido por Pepe, má saída do goleiro paraguaio, e conclusão, na raça, de De Rossi. Daí até o final, os italianos pressionaram ainda bastante, mas não conseguiram virar.


Nada animador de lado a lado, ainda que imaginar a desclassificação das duas seleções num grupo com Nova Zelândia e Eslováquia seja duro. Ainda assim, a sobrevivência de ambos no torneio vai demandar uma melhora aprofundada. A Itália foi o sexto time campeão mundial a estreiar num mundial que reúne todos os campeões mundiais, agora falta apenas o Brasil entrar em campo - até agora, ninguém perdeu, mas só a Alemanha não só encantou como goleou. 


Holanda e Grupo E


A Laranja Mecânica estreou hoje atuando ofensivamente, mas muito travada; faltou leveza no ataque e um cadinho de criatividade para jogar em cima da defesa dinamarquesa, pesada toda vida, que assim como o resto do time me surpreendeu negativamente. Ainda assim, ela soube manter a posse de bola e conseguiu o domínio suficiente para marcar dois gols - um deles, aliás, contra da dinamarca. Fim de jogo 2x0. O Japão e Camarões fizeram o outro jogo do grupo e a seleção nipônica, num lance de oportunismo, venceu os africanos - com a derrota de hoje, Camarões se junta à Nigéria e à Argélia entre os africanos derrotados na primeira rodada, o que depois do empate de África do Sul e México, torna Gana o único time do continente a ter vencido. Futebol por futebol, depois da estreia de 22 seleções, a única que jogou bola mesmo foi a Alemanha e não tem conversa.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Notas da Copa: O Início

Hoje, tivemos a cerimônia de abertura da Copa - honestamente, não gosto muito de cerimônias de abertura, mas fica aí o registro -, amanhã, começa o que realmente importa, os jogos. A dona da casa África do Sul abre o torneio contra o México e a França joga depois contra o Uruguai. Sobre o primeiro jogo, evidentemente, o México é bem melhor do que a África do Sul, cuja única chance de vencer reside na euforia pelo fato de ser a mandante do jogo - por mais simpatia que se possa ter pela seleção do país de Mandela, primeira seleção africana a ser anfitriã de uma Copa, o time é fraco mesmo. Eu aposto num empate, muito embora o México possa mesmo levar - em especial pelos jogos que o time fez na preparação para a Copa, com direito a vitória contra o time titular da Itália. Uruguai x França tende a ser um jogo ruim e a chance de um empate em zero não é pequena - ainda que se eu fosse apostar em uma vitória, seria do Uruguai. Para não ficar em cima do muro, dois empates e tudo deve ficar igual no grupo A.