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terça-feira, 27 de novembro de 2012

Filhotes da Ditadura: A Seleção, Marin e a morte de Herzog

Vladmir Herzog
Muito se fala e muito se diz sobre a queda do treinador da Seleção, sobre quem o sucederá e sobre a crise no nosso futebol às vésperas da Copa que sediaremos. Pouco se escuta, mesmo que seja de ouvir dizer, qualquer coisa sobre causas de tanta degradação que, certamente, superam o óbvio da mercantilização do futebol e, sobretudo, da Seleção Brasileira, rifada entre interesses comerciais e políticos da própria CBF, da TV Globo e dos empresários dos jogadores e do próprio treinador da Seleção: existe algo de político, um fator importantíssimo que remete ao fato de como a política nacional penetra o futebol e vice-versa.

Vamos lá. Hoje, diante da prisão do vice-presidente da CBF, Marco Polo Del Nero, o jornalista Juca Kfouri lembrou do passado obscuro do dirigente e suas ligações íntimas com a Ditadura Militar. Há coisas piores: o atual presidente da CBF, José Maria Marin, nos seus tempos de parlamentar apoiador da Ditadura Militar, foi um dos responsáveis por denunciar o departamento de jornalismo da TV Cultura por promover a "presença comunizante no vídeo" (no dizer de seu correligionário, Wadih Helu) -- dessa denúncia resultou um processo de investigação pela polícia do regime que terminou com a morte de ninguém mais, ninguém menos do que o jornalista Vladmir Herzog.

Em outras palavras, o nosso futebol está nas mãos de uma rede de televisão que sustentou a Ditadura, e de dirigentes que foram burocratas da Ditadura. A erosão do nosso futebol, via capitalismo 2.0 e redução do nobre esporte bretão à lama dos holofotes e do marketing é apenas parte de um processo que não começou agora. Os mesmos dirigentes que enquadraram o futebol ao esquema do capitalismo estatalista comandado por militares são aqueles que o colocaram na rota da mercantilização, do craque for export e para o inferno goebbeliano da máquina de publicidade do capital. 

É um processo que se interpenetra ao Estado, o projeto silencioso do chamado "entulho autoritário" que os democratas, meio positivistões, achavam que ia ser "superado" com o andamento de eleições e debates livres. Em outras palavras, precisamente no momento. Nada de novo sob o Sol. Pouco importa a Arena histórica, que está em vias de ser refundada, mas o arenismo que subsistiu em caráter viral pelas instâncias variadas do Estado e de seus tentáculos. A recaptura do futebol, um esporte de elite devorado pelo povão, mas agora ameaçado pelo grande capital é parte disso. 

O momento, portanto, é paradoxal: se nunca antes estivemos tão bem, nunca antes o poder esteve por aí tão forte a nos espreitar. Os megaeventos poderiam ser uma oportunidade única esportiva e urbanística para o país, mas podem ser, perfeitamente, um desastre -- como tendem a ser --, sobretudo se a gestão burocrática do esporte perder mais oportunidades ainda de inverter a hierarquia do "esporte de ponta" em relação ao "esporte de base" -- como o PT conseguiu fazer em várias outras áreas.  Nada leva a crer que venceremos a Copa de 2014, mas a verdadeira derrota é o atoleiro do que fica, tanto no sentido institucional quanto pela completa erosão do comum futebolístico. O adversário não é Marin, como não era Ricardo Teixeira, mas o processo que os colocou e os sustenta no poder.




quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

São Marcos se Aposenta


E ontem, encerrou a carreira Marcos, o maior ídolo palmeirense desde a Academia, goleiro do Penta e não só o maior goleiro que eu vi jogar, mas também uma figura rara em tempos bicudos: São Marcos foi o último ídolo comum a todas as torcidas que se tem notícia. Não, não é só de excelência técnica e lealdade ao seu clube que tratamos quando falamos sobre ele, é de algo que supera isso em muito. Marcão conseguiu desenvolver uma ética dentro de campo, com sua simplicidade, franqueza e garra que o fazia ser essa figura - e não um consenso fabricado pela indústria do marketing futebolístico, tão falso quanto são os garoto-propaganda do Joga Bonito. Qual outro ídolo rival, ainda mais com histórico de seu algoz, tem o respeito de uma torcida como a corintiana quanto Marcos? Podemos enumerar pouquíssimos ao longo da História, talvez Pelé e gente desse mesmo quilate. Nos últimos tempos, certamente ninguém. E a carreira de Marcos foi um mar de emoções. De grande responsável pelo maior título palmeirense, a Libertadores de 99, à tristeza da final do mundial contra o Manchester United - e os anos inglórios pelos quais o alviverde ainda passa. Das defesas impossíveis que tiraram do Corinthians a Libertadores tanto em 99 quanto em 2000 até as contusões sem fim, não hesitando em ir a campo com dor nos últimos anos. Goleiro do Penta, porque foi bancado por um gaúcho teimoso devido apenas e tão somente às suas qualidades - e não por sua evergadura política de bastidores, proteção da CBF ou de algum grande patrocinador como os nossos últimos guarda-redes. A primeira vez que vi São Marcos jogar foi em um de seus primeiros jogos como titular - à época, substituindo o épico Veloso - lá pelos idos de 96, naquela máquina que Luxemburgo montou: uma vitória de 4x0 sobre o Botafogo de Ribeirão Preto, com direito à penâlti defendido. Aquele jogo, como costumam ser os jogos da nossa meninice, nunca me saiu da cabeça, e talvez por isso não tenha me desesperado, como a torcida se desesperou, quando soube-se que Veloso não poderia jogar o mata-mata da Libertadores de 99, contundido que estava. E ele não me decepcionou. Assistir a aposentadoria de Marcos me dói , é sinal que o tempo passa - cada vez mais rápido do que antigamente até. De repente, o templo do Palestra, onde eu o vi jogar tantas vezes, já foi demolido para a construção de uma Arena - que não terá o privilégio de tê-lo em seu gramado. É a vida, envelhecer é também ver seus ídolos se aposentando. Obrigado, obrigado mesmo, São Marcos.


domingo, 17 de julho de 2011

Seleção Avícola Depenada nos Pênaltis (Ou "É Tudo Culpa do Dunga")

Elano isola  (M. Sayão/EFE) assim como fizeram André Santos e Fred
Agora há pouco, o Brasil foi eliminado da Copa América, nos pênaltis, pelo Paraguai. E foi grotesco. A seleção canarinho perdeu os quatro pênaltis que bateu - um, vamos dar o devido desconto, o ótimo goleiro paraguaio Villar pegou. Isso tudo depois de um jogo amarrado, no qual o Brasil dominava, mas finalizava com o desdém, a falta de firmeza e a despreocupação que caracterizam esse time. Neste blog, sempre buscamos escapar da patriotada no que toca à cobertura da Seleção, mas o viés, é claro, sempre foi de apoio - apesar de todos os pesares - ao time nacional. No entanto, dessa vez foi difícil: na campanha de três empates e uma única (e pouco convincente) vitória, o Brasil de Mano Menezes não apenas não conseguiu jogar bem como não atraía a mínima simpatia; é um time pretensioso demais para muito pouco, em grande parte porque seu treinador se dobra aos consensos da imprensa esportiva - sobretudo da Globo - em vez de montar um time competitivo - ao contrário do que fazia Dunga, dono de um aproveitamento espetacular à frente da Seleção, mas que jamais se vergou aos achismos dos pitaqueiros de plantão, o que lhe valeu um verdadeiro apedrejamento midiático - ainda mais quando cortou privilégios da poderosa rede de televisão que monopoliza a cobertura do escrete canarinho. Mano, a melhor revelação no comando técnico do futebol brasileiro nos últimos anos, preferiu fazer o caminho inverso do seu antecessor e deu com os burros na água: depois de um breve período sendo incensado pela mídia, agora assistirá ao desembarque dos seus "apoiadores", uma vez que não deu resultado mesmo fazendo o que eles achavam certo. Essa eliminação, como a de ontem da Argentina frente ao Uruguai, demonstra a decadência do futebol das duas maiores escolas sul-americanas, fato sobre o qual alertamos lá atrás, no  post sobre o começo da Copa América. Não que o futebol uruguaio não viva um renascimento ou o Paraguai, sempre menosprezado pelos seus vizinhos, há tempos não venha fazendo boas campanhas, mas é preciso ponderar que esse fenômeno se trata do encontro de duas curvas: uma, a das duas potências decadentes, a outra, a do crescimento de Uruguai e Paraguai junto à profissionalização das demais seleções. Esses resultados, portanto, foram tão justos quanto Justo é Villar, o melhor jogador em campo hoje.

P.S.: O Chile pode ter um time que joga um futebol alegre - foi o melhor da primeira fase -, mas seria interessantíssimo se a Venezuela levasse a outra partida das quartas (ora em disputa).

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Brasil: Apesar dos Frangos, a Vitória

Um dos frangos de Julio Cesar
Enfrentando um Equador bem longe do brilho de alguns anos atrás, quando conseguiu se classificar por duas vezes consecutivas para a Copa do Mundo (2002 e 2006), a Seleção Brasileira venceu por 4x2 e se classificou para a 2ª fase da Copa América. A única coisa que chamou a atenção em um jogo estranho como esse foi, sem dúvida, os dois frangos sofridos por Julio Cesar - sempre incensado, mas apenas um bom goleiro (e um ótimo político, convenhamos). Dessa vez, pelo menos, o time de Mano Menezes conseguiu executar jogadas de ataque de forma mais ou menos coerente, embora a marcação adversária tenha ajudado bastante. Maicon, que não sei por quais cargas d'água estava no banco, voltou à titularidade e mostrou o quanto Daniel Alves está longe de ser tudo isso. Que a torcida não se engane: o Brasil se classificou vencendo apenas e tão somente o pior time do grupo e só empatando - na bacia das almas - contra Venezuela e Paraguai. Agora, terá pela frente novamente a seleção paraguaia num confronto no qual só é ligeiramente favorito. A Copa América está completamente em aberto, Brasil, Argentina e Uruguai, as três forças do continente, tiveram uma primeira fase igualmente ruim, vencendo apenas as piores equipes dos seus grupos. Mesmo com uma avenida de oportunidades pela frente, seleções como Chile e Colômbia não aproveitaram tão bem assim a falta de concorrência. A Venezuela, cujo futebol se profissionalizou há pouquíssimos anos, conseguiu a classificação e é a sensação do torneio - agora pega o Chile, elas por elas dono do melhor futebol da primeira fase, e o vencedor desse jogo enfrentará quem levar de Brasil e Paraguai. Argentina e Uruguai, pelas contingências do destino, se enfrentam já nas quartas de final próximo sábado com tênue favoritismo para os donos da casa - e o vencedor enfrenta quem levar Colômbia x Peru, com favoritismo dos colombianos. Nada de animador para o futebol brasileiro. Bem longe de quem terá (a pressão) de sediar um Mundial em Casa.

P.S.: Das poucas atrações da Copa América, a cobertura feita pelo convalescente Hugo Chávez, via twitter, da seleção de seu país é das coisas mais engraçadas de um torneio tão mal resolvido como esse.

sábado, 9 de julho de 2011

Acorda, Mano Menezes

Fred se prepara para fazer o gol de empate -- lancenet
O Brasil empatou, na bacia das almas, agora há pouco por 2x2 contra o Paraguai. Tudo tedioso e previsível. Vejamos o caso de Robinho, por exemplo: a imprensa esportiva o linchou ao longo de toda a semana e, adivinhem só o que o treinador do time nacional, o Sr. Mano Menezes, fez? Sacou Robinho do time. Dá até depressão a maneira como o promissor Mano Menezes, das grandes revelações do futebol brasileiro para comando técnico, se apequenou na Seleção Brasileira, tornando-se um mero escravo dos holofotes do sistema Globo/CBF/Patrocinadores. A questão que resta é saber se é possível ser diferente hoje em dia, com Ricardo Teixeira, o chefão da CBF, se achando uma entidade intangível, na medida em que se aproxima a Copa do Mundo no Brasil e que mesmo com a revelação de um sem número de escândalos seus, as autoridades nada façam contra ele. E Teixeira é, no final das contas, a pedra de toque disso tudo. O jogo em si, portanto, é o que menos importa. Um treinador brasileiro inseguro, uma boa porém arrogante seleção e o Paraguai que mesmo sendo inferior, compensa isso jogando de forma aplicada - e Brasil e Paraguai hoje, não se esqueçam, são equipes no mesmo nível; ambos chegaram até às quartas de final da última Copa do Mundo e pararam diante dos dois finalistas daquela competição. Os paraguaios, espertos, falam em guarani para confundirem seus rivais e em tempos em que todos reproduzem o 4/2-3/1 como esquema, eles vão lá, enfiam duas linhas de 4 para anularem seus rivais e posicionam dois (bons) atacantes fechados para apanharem o contra-ataque quebrando a sobra de bola do rival. Uma boa jogada, mas única boa jogada ofensiva que o Brasil caiu por duas vezes.  Quando a derrota brasileira parecia certa, até a Globo desembarcava do seu fiel Mano Menezes - com Casagrande mudando de opinião sobre a boa entrada de Elano; Casão, pelo menos, se manteve na mudança, mas Galvão mudou de lado de novo, lançando rapidamente o "Copa América é assim mesmo, gente". Mas como sabemos, é tudo culpa do Dunga, aquele técnico ranheta.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Brasil no Zero

Cão invade o gramado: a atração do jogo
Ontem o Brasil empatou em zero com a Venezuela. Isso me fez ter recordações. Há pouco menos de um ano, o futebol brasileiro tinha um único problema, um pequeno grande obstáculo, um empecilho para a nossa felicidade em forma de homem: Dunga. Jamais concordamos neste blog com a genificação do ex-técnico da Seleção Brasileira, mesmo nos piores momentos. Sejamos honestos, Dunga era um problema porque não convocava quem e como o establishment da imprensa esportiva queria - sempre ela  -, o que lhe valia a oposição da turba dos especialistas quadrienais de futebol - aqueles que aparecem de quatro em quatro anos para dar seus pareceres, servindo de massa de manobra para os espertos de toda espécie. É claro que se isso lhe valia a antipatia do público brasileiro, embora a terra que terminou de fechar sua cova foi a implicância com os privilégios da Globo junto ao escrete canarinho. Ou era ganhar a Copa ou ser execrado. Perdeu. Hoje, ainda é vítima de troças de toda sorte. Mano Menezes, atual técnico da Seleção, certamente é alguém com muito mais capacidade do que Dunga, mas desde que chegou, convoca quem e como a imprensa quer, escala o time dos sonhos, justapõe os queridinhos como se isso fosse montar o melhor time. Não é. Ontem, a Venezuela apenas se retrancou e cumpriu uma movimentação elementar de marcação para não perder - e não perdeu, empatou em zero com o Brasil. Ganso e Neymar, vendidos como panaceia para a Seleção, não decidiram. Pato foi uma negação no comando de ataque (que, adianto, não é a sua praia) e Robinho foi horrível. O sucesso ou não da Seleção, em uma crise tão complexa do futebol nacional como essa, não depende exclusivamente de seu treinador, mas se ele não tiver personalidade e quiser agradar o esquemão em vez de montar a melhor equipe possível, a tragédia torna-se certa. Como foi em 2006 com Parreira e um título praticamente certo - onde se esconderam todos os comentaristas que ratificaram aquela convocação logo após a desclassificação? E aí, o promissor Mano Menezes se verá sozinho mais rápido do que ele poderá pedir socorro. É preciso corrigir, ou pelo menos remediar, isso tão logo.



sexta-feira, 1 de julho de 2011

Hoje Começa a Copa América

Há quem diga que a Copa América, cuja 43ª edição começa hoje na Argentina, é um torneio sem importância. Bobagem. Seleções nacionais jogam poucos torneios oficiais e os que existem sempre são importantes. Dizer que só a Copa do Mundo vale algo é o tipo de argumento que só dura até o momento em que o Brasil perca, ou perigue não ganhar, alguma dessas competições. E temos vencido com frequência, apesar dos vexames nos dois últimos mundiais, somos os bicampeões da Copa América e da Copa das Confederações - e ai se não fossemos. Agora, é claro que disputar um título na casa do maior rival futebolístico dá um tempero interessante à competição. 

Brasil e Argentina são duas das principais escolas de futebol do mundo, senão as principais, e possuem um histórico equilibradíssimo de confronto entre si. O problema é que o enquanto o primeiro se livrou da síndrome de vira-lata frente aos grandes da Europa há muito - até antes de 58, se pensarmos bem -, a Argentina, embora dominasse as competições continentais de clube e de seleções, tremia diante de camisas italianas, inglesas ou alemãs. É verdade que isso muda um pouco nos últimos anos, pouco a pouco o Brasil passou a se impor no cenário continental, vencendo seguidas copas américa e levando boas taças libertadores, enquanto os argentinos mirraram. 

Embora tenham vencido 14 das 42 edições da Copa América, a última vitória argentina - e último título da seleção profissional - foi em 1993, enquanto de lá para cá o Brasil venceu cinco edições. Se considerarmos a Copa América em sentido estrito, desconsiderando os antigos campeonatos sul-americanos, o Brasil bate a Argentina por 5 a 2 - e o próprio Uruguai aparece com 3 títulos. No futebol clubístico, embora a Argentina tenha vencido 22 edições da Libertadores contra 15 do Brasil, nas últimas dez edições, o Brasil venceu 4 torneios contra 3 da Argentina - e enquanto times brasileiros diferentes levaram a Libertadores nos últimos anos, boa parte dos trunfos argentinos se deve ao fenômeno Boca Juniors, ora arrefecido.

A geração de Messi, que ficou aquém do esperado no mundial africano, tem, em seus gramados, mais do que um mero desafio de autoafirmação geracional, mas uma responsabilidade tremenda de fazer a Seleção Argentina voltar a ser vitoriosa e, quem sabe, reverter a curva que aponta para a decadência do futebol daquele país. Não que a situação brasileira seja fácil; também com uma jovem geração em campo, o país se vê às voltas com a obrigação de montar um time forte para disputar o mundial que sediará em 2014, um desafio tremendamente árduo, não resta dúvida.

E o Brasil se vê às voltas com a sombra de uma decadência em seu futebol não muito diferente do que passe a Argentina há quase vinte anos. Desde a globalização, clubes brasileiros largaram atrás dos europeus - e continuam se distanciando, apesar da grave crise econômica europeia -, os jogadores saem cada vez mais cedo do país e a reposição já começa a não ser tão fácil. O mundial de 2002 foi vencido por um time que era, em sua metade, formado por jogadores que atuavam no Brasil. Nas duas (fracassadas) copas seguintes, o time era integralmente de jogadores que atuavam na Europa, podemos dizer que foi a campo uma seleção de brasileiros e não uma Seleção Brasileira - nas duas edições, chegamos apenas nas quartas de final.

Se o Brasil passou a ocupar no cenário local a hegemonia, certamente isso se deve aos espaços deixados pela própria Argentina e por um força inercial. A redução da força verde-amarela começa a ser sentida no cenário mundial. Pior, o que se projeta é cada vez menos animador, faltam jogadores para posições importantes, o que pode se tornar um problema sério, tendo em vista que o próximo mundial será disputa aqui: a vitória será vista como obrigação, uma derrota, será uma tragédia de proporções inimagináveis.

É nesse clima que a Copa América será travada em gramados argentinos, tendo o adendo do renascimento do futebol uruguaio, que levará a campo o melhor time sul-americano do último mundial, sob o comando de Forlán e Cavani - equipe perigosíssima e sem maiores problemas para derrotar Brasil ou Argentina como a própria história prova. Os paraguaios seguem sob o comando de Gerardo Martino e, como nos lembra a Copa da África, podem muito bem criar belos problemas. 

No papel, o Brasil tem o melhor time, ainda que lhe falte um grande goleiro - Julio Cesar, me desculpem, é só um bom goleiro -, um lateral-esquerdo e um centroavante - de repente, Pato pode aproveitar a chance de ficar com a abandonada 9, embora não seja um goleador. A defesa verde-amarela, no entanto, é bem melhor do que a Argentina. Agora, o Uruguai me parece a equipe mais funcional. Se tivesse de apostar, apostaria no Brasil, ainda que com uma pulga atrás da orelha.

P.S.: A Partida inaugural será hoje entre Argentina e Bolívia, o Brasil estreia no domingo contra a Venezuela.

terça-feira, 28 de junho de 2011

Capita vs.Tostão: A Questão da Pensão dos Campeões Mundiais

Tostão e C.A. Torres
Há alguns anos atrás, o então Presidente Lula prometeu uma pensão aos campeões mundiais de futebol. Hoje, ela tornou-se uma proposta concreta e está prestes de passar por votação no Senado. Não só, ela já acende polêmicas, mesmo no meio seleto dos campeões mundiais, como podemos ver pelas acusações pesadas de Carlos Alberto Torres - capitão do Tri e favorável à medida - feitas contra seu ex-companheiro de Seleção - e contrário a ela -, o hoje médico e colunista esportivo Tostão. A contenda em questão traz à baila uma série de questões sobre a condição do jogador de futebol na nossa sociedade e, ainda, qual a responsabilidade do Estado em relação a eles. O futebol é uma parte importante da cultura nacional, mas jogadores não são mitos, são gente de carne e osso.  

A promessa de Lula faz sentido, muitos dos nossos ex-campeões restam em asilos, onde se encontram, não raro, doentes e desemparados. Mas também pode-se argumentar que a medida é insuficiente. Por que não algum tipo de aposentadoria para todos os ex-jogadores da Seleção? E a questão da aposentadoria de jogadores de futebol e atletas de um modo geral? Sim, pois sua carreira, via de regra, é curta, o que os obriga a arranjarem uma nova profissão no auge da vida adulta, o que nem sempre dá certo. Jogadores de futebol, especialmente, nem sempre reagem bem ao final da carreira: uma hora são astros, nem que seja de uma cidade do interior, mas num passe de mágica, não são mais nada. Isso, ao mais tardar, aos quarenta anos de idade.

Alguns jogadores recomeçam suas vidas em outras áreas com o pé de meia que fizeram, outros nem isso conseguiram fazer - a vida média de um jogador de futebol brasileiro está longe do glamour dos grandes campeonatos -, existem aqueles que continuam no mundo do futebol como treinadores, empresários e afins, mas muitos terminam deprimidos, no alcoolismo, perdidos. Somos uma pátria de chuteiras, não de coturnos, portanto, a síndrome do veterano aqui não se refere à guerra, mas sim a uma peculiar versão sua, domesticada e contida nas quatro linhas do gramado. 

Sim, o Capita errou feio ao se referir a Tostão da maneira belicosa que fez, rotulando-o com adjetivos de toda sorte - justo Tostão, sujeito tão pacato e educado -. mas será que ele estaria errado? Quer dizer, embora se entenda que a proposta de Lula, por si só, seja insuficiente, será que isso exclui a sua implementação? Ou deveríamos, em nome de uma ética maior e transcendente, abrir mão de uma medida boa, pois se não dá para fazer tudo agora, temos de nos contentar com nada? Cá entendemos que não é bem por aí, ainda mais quando se tratam de vidas. Há quem não precise de ajuda, então que abra mão e doe o dinheiro, mas não é possível ser contra direitos para o grupo ao qual pertence em nome da sua condição privada. 

Argumentar que isso é "dinheiro público" também não nos parece um bom caminho, afinal, isso não oneraria de forma relevante o erário público: tanto se esvai, por que não gastar um pouco com nossos velhos campeões? Além do mais, o dinheiro, meus caros, sempre é público. Longe de ser excluído de pronto, a pensão para ex-campeões mundiais de futebol é justa e pode ser, ainda por cima, instrumentalizada no debate sobre a aposentadoria de ex-atletas de um modo geral - desde que tenha quem o faça, é claro, se ficarmos às voltas com os muxoxos de sempre, nunca saíremos do lugar.



quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

O Futebol e o Espetáculo: Ronaldinho Gaúcho

Ronaldinho no Flamengo
Este blogueiro que vos escreve já gostou tanto de futebol, mas tanto, que é até difícil dizer. Hoje, não muito. Sim, um pouco do meu desgosto tem a ver com as desditas do bom e velho Palmeiras - não tanto pelas derrotas, mas pela maneira particularmente tristes como elas se sucederam nos últimos anos -, mas o desânimo tem muito mais a ver com dinâmica do futebol mundial nos últimos anos e, em particular, do brasileiro. Muitas coisas colaboram para isso, desde o derretimento do futebol numa massa pastosa e indeterminada à luz de holofotes tantos até a degeneração do craque em celebridade e garoto-propaganda que (eventualmente) joga bola, passando, ainda, por uma imprensa esportiva que cansa (e como). Boa parte dos jovens craques brasileiros, nascidos e crescidos numa época em que os "empresários" controlam o mundo da bola e o grande objetivo é jogar num clubegrandedaeuropa - que, não raro, se torna um clube da segunda divisão italiana que lava dinheiro para máfia -, se perderam ainda tão novos e hoje fazem bons comerciais de Televisão, mas não conseguem construir uma carreira minimamente estável. Um grande exemplo da nossa época é Ronaldinho Gaúcho. Era para ter se tornado um dos nossos grandes, mas se apequenou (e como) num mundo de glamour, altos salários e paparicação sem limites; depois de grandes temporadas no Barcelona, refugou vítima do próprio ego, se omitiu de responsabilidades, desapareceu numa Copa do Mundo na qual tinha tudo para brilhar e diminuiu no próprio futebol de clubes. Eis que depois de uma mal-fadada ida para a Itália, ele reaparece num verdadeiro leilão, onde seu irmão-agente - o equivalente contemporâneo da mãe de miss - o oferece para clubes ávidos por darem satisfações às suas torcidas, tudo em troca de um salário maior do que aquele que ele ganhava no Milan. De repente, todos ganharam o que queriam, Ronaldinho volta a ficar em evidência e irá ganhar um baita salário no Flamengo, enquanto dirigentes de Palmeiras e Grêmio se mostraram pró-ativos. Um grande espetáculo midiático que, naturalmente, não garante nenhum espetáculo futebolístico futuro - como tem sido a tônica da carreira do meia gaúcho nos últimos anos. Torço para que ele dê certo na Gávea, apesar de duvidar que isso aconteça - e se acontecer, tenho dúvidas que isso seja minimamente duradouro -, mas não tenho como não ficar feliz por ele não ter ido para o Palmeiras...

sábado, 24 de julho de 2010

Mano Menezes na Seleção

( Foto retirada do lancenet)


Depois do pastelão envolvendo Muricy Ramalho no dia de ontem, Mano Menezes é o novo técnico da Seleção Brasileira. Sinceramente, eu não entendi nada. As informações apontavam, ao longo da semana passada - e, especialmente, na quinta -, que Mano seria confirmado ontem no cargo - e não Muricy que era apenas um nome distante. As pistas quanto a isso eram boas, falo aqui tanto do fato da diretoria do Corinthians sinalizar que não criaria problemas para que Mano assumisse a Seleção quanto da admiração que Felipão nutre por Mano - dando a entender nas entrevistas que ele era seu favorito - passando ainda, sobretudo, pelo bom momento profissional que vive o treinador.


Mano era a escolha lógica. Dentre os treinadores que surgiram nos últimos cinco anos na grande cena do futebol brasileiro, ele era o mais promissor. Nesse período, enquanto Muricy alcançava o teto de sua carreira, Luxemburgo decaia visivelmente e Felipão seguia fora do país - fazendo um excepcional trabalho na Seleção de Portugal e depois fracassando nas suas aventuras clubísticas -, ele vinha numa ascendente, pegando clubes difíceis de se trabalhar em situações horríveis: O Grêmio,  rebaixado e esmagado em 2004, que ele levou para a Série A em 2005 e a uma final de Libertadores em 2007, e o Corinthians, na mesma situação, o qual ele levou também de volta à Série A - sendo campeão da Segundona em 2008 -, além de ter vencido a Copa do Brasil e o Paulistão de 2009.


Uma das suas principais características, para além de ser um soberbo estrategista, é sua capacidade de gerenciar elencos, administrando crises e apagando incêndios como poucos - sem perder as rédeas do grupo. Essa virtude é uma das características marcantes da escola gaúcha de treinadores - e talvez por isso ela seja a melhor do país -, mas ela só se exacerba em seus melhores. E Mano é o melhor treinador dessa escola desde Felipão, superior a Tite e a Dunga.


Aliás, falando no atual técnico palmeirense, suas declarações públicas, meio que como quem não quer dizer nada, apontavam para uma certa simpatia por Mano. A coincidência disso com a escolha demonstra sua relação de amor e ódio com à atual direção da CBF: Se por um lado, ele só treinou a Seleção em condições bastante específicas, largando-a depois da conquista do Penta pela impossibilidade de continuar seu trabalho em termos razoáveis, por outro lado, Ricardo Teixeira sempre se agradou de seu estilo de treinamento e sua capacidade, ainda que entre ter um técnico digno e manter a contestável dinâmica de gestão Seleção Brasileira, sempre opte pela segunda hipótese - uma contradição que só não é indissolúvel pela qualidade do futebol nacional, uma benção que nesse aspecto torna-se praga. 


Claro, ainda assim, Teixeira nunca deixou de sonhar de ter um Felipão "domesticado", mas talvez estivesse disposto a aceitar o treinador fazendo concessões grandes porque o problema que se avizinha agora não é dos menores: O Brasil não pode perder a próxima Copa porque aí o esquema de Teixeira estará ameaçado. Mesmo com a recusa, a palavra de Felipão em favor de Mano e a semelhança de seus estilos pesou na escolha.


Outro aspecto não menos interessante é Corinthians: Por suma série de singularidades do clube, trata-se da equipe historicamente mais difícil de se treinar e jogar em São Paulo, quem se destaca especialmente em seu comando técnico é porque tem talento - e Parreira, por mais erros que tenha cometido na carreira, foi um dos poucos que conseguiu isso, saindo de uma campanha vitoriosa no Corinthians na temporada 2002 para a Seleção. Sim, este humilde - e palestrino, sobretudo palestrino - blogueiro que vos escrevinha, considera que ir bem no Corinthians é um ótima credencial para treinar a Seleção porque o grau destrutivo das habituais crises no time da marginal é a coisa mais parecida, em termos clubísticos, com as crises que às vezes se abatem no escrete canarinho.


Reitero e sustento: Foi a melhor escolha, ainda que de uma forma atabalhoada.


P.S.: Sobre o caso Muricy, ele deveria ter se certificado dos seus termos contratuais antes de sentar à mesa com Ricardo Teixeira para negociar algo que não tinha certeza se podia fazer ou não. Sim, ele errou e perdeu mais pontos na minha consideração. Claro, o erro maior, para variar, foi de Ricardo Teixeira, ao negociar publicamente com um treinador que não poderia, por contrato, assumir a Seleção. Todo esse desgaste poderia não ter acontecido se as três partes, CBF, Muricy e Fluminense, tivessem conversado em particular de forma franca antes de mais nada. Mas isso, claro, é pedir demais.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Atualizado depois da Teixeirada --> Seleção: Muricy Ramalho é o técnico (ou não)





Honestamente, achei uma escolha surpreendente. Pelo que se avizinhava, Mano Menezes era o favorito - desde o momento em que Felipão recusou a proposta. Muricy, seja pela postura independente ou por não estar no auge de sua carreira  - embora ensaie uma recuperação nessa remontagem do Fluminense, ora líder do nacional - não me parecia o nome predileto da CBF pelos motivos errados e pelos certos. Sim, trata-se de um dos três técnicos mais vencedores do futebol nacional nos últimos dez anos, numa lista que tem, claro, Felipão e Luxemburgo, mas ainda assim não era meu palpite nem o meu nome favorito.


Depois de um começo ali pelo São Paulo nos anos 90, certas turbulências o fizeram ir para do Guarani, por onde passou em 97, para em seguida embarcar para a China. Votou treinando equipes do interior paulista até que em 2001 foi para o Náutico de Pernambuco, no ano do centenário daquele tradicional clube recifense, onde iniciou a guinada na sua carreira. Foi bicampeão pernambucano tirando o Náutico da lama, teve uma passagem boa pelo Figueirense no Brasileirão de 2002, livrando-o do rebaixamento certo, foi para o Inter em 2003, onde foi campeão gaúcho, mas pediu demissão por não emplacar uma boa campanha. No São Caetano em 2004, comandou uma recuperação inacreditável no Paulistão daquele ano e foi campeão - e ficou entre os oito melhores da Libertadores, mas acabou injustamente demitido. Voltou para o Inter no mesmo ano fazendo boas campanhas, ganhou o Gauchão em 2005 e só não levou o Brasileirão do mesmo ano por conta do famoso escândalo de arbitragem envolvendo Edílson Pereira de Carvalho, que fez vários jogos serem repetidos, prejudicando seu time.


Em 2006, assumiu o São Paulo campeão mundial no ano anterior, abrindo uma nova página na sua carreira. Perdeu um Paulistão - jogado em pontos corridos em turno único (?!) - pela ressaca que o time vinha, depois de ter levado o Mundial e, depois, perdeu a Libertadores, na final, em um épico duelo tático com Abel Braga. Muricy se recupera no Brasileirão daquele ano, mantendo a base tática herdada de 3/5/2, zaga bem postada, marcação, forte e jogadas rápidas pelas alas e foco na bola parada - foi um passeio. Em 2007, acabou eliminado do Paulistão pelo invocado - e surpreendente - São Caetano de Dorival Júnior e perdeu para o operário Grêmio de Mano Menezes nas oitavas da Libertadores - novamente, se redimiu no Brasileirão, mostrando que sabia jogar como ninguém um torneio longo, estilo maratona, com todas as peculiaridades que bem conhecemos, novo passeio e segundo título seguido pelo tricolor.2008, o filme se repete, eliminação no Paulistão para o Palmeiras/Traffic de Luxemburgo e derrota na Libertadores para outro time brasileiro, o Fluminense de Renato Gaúcho nas quartas, nova recuperação no Brasileirão e, contra tudo e contra todos, leva o nacional pela terceira vez. 2009, é eliminado do Paulista pelo Corinthians de Mano Menezes e é eliminado a Libertadores para o Cruzeiro de Adílson Baptista - desta vez, no entanto, é demitido pela diretoria são-paulina, pelos atritos com o presidente Juvenal Juvêncio e pela sua  incapacidade de vencer torneios eliminatórios - ainda que eu discorde de sua demissão durante o Brasileirão do ano passado.


Depois da sua saída do São Paulo, Muricy, acaba recebendo proposta pública do Presidente do Palmeiras, recusa e, semanas mais tarde, acaba voltando atrás. Assume o time em primeiro lugar, mas algumas declarações anteriores - bem como sua recusa - fizeram-no assumir o time num clima ruim - num ambiente altamente delicado -, o que se agravou com sua postura distante dos jogadores: O Palmeiras perdeu o campeonato mais vencido de todos os tempos, não conseguindo, sequer, classificação para a Libertadores. Mesmo assim, permaneceu no cargo para 2010, mas acabou perdendo definitivamente o controle do elenco no Paulistão e caiu ainda no meio da Primeira fase. Meses depois, ele retorna a um clube brasileiro, promovendo uma reestruturação no Fluminense, sendo ainda eliminado da Copa do Brasil pelo Grêmio de Silas. Ainda assim, conseguiu o recuperar o time para o Brasileirão deste ano e, por ora, lidera o torneio.


Creio que o auge da carreira de Muricy foi em 2006, a partir dali, se seguiu uma estabilidade: Embora ele não tenha conseguido crescer mais - isto é, fazer sues times terem mais sangue em jogos eliminatórios ou saberem jogar atacando -, ele se manteve no mesmo nível. Sua passagem desastrosa pelo Palmeiras, apesar de todos os problemas do clube e o fracasso do bom time montado no começo do ano passado, também teve responsabilidade sua, admita ou não. Seu trabalho no Fluminense ainda é muito recente para qualquer avaliação. O melhor nome, ao meu pensar, era o de Mano Menezes, o melhor copeiro que apareceu no futebol nacional desde Felipão. Não foi. Ele terá um desafio muito grande pela frente, se a cobrança em cima de um treinador da Seleção já é absurda, o encarregado de conduzir o time para um Mundial em relação ao qual seremos sede terá de suportar a mesma pressão, no mínimo, dobrada. Não sei até que ponto Muricy pode funcionar nesse contexto.


Atualização das 17:30: Como Mauro Betting bem colocou, Muricy é o ex-novo técnico da Seleção Brasileira. E não, não foi um passa-moleque que a imprensa - ou o humilde blogueiro que vos escreve - tenha tomado, mas sim da fanfarronice de Ricardo Teixeira, o glorioso ditador presidente da CBF que anunciou publicamente seu nome sem que Muricy tenha aceitado formalmente (?!). Depois de tudo o que aconteceu na Copa da África, nuvens turvas acenam no horizonte para a Copa do Mundo do Brasil. Aguardemos o desenrolar da novela. Muricy, claro, também tem suas responsabilidades nessa conversa toda, assim como no caso do Palmeiras ano passado. Ele só deveria ter negociado, caso tudo estivesse certo entre ele e o Fluminense.

domingo, 4 de julho de 2010

Notas da Copa: Análise do Brasil


O Brasil venceu três jogos, empatou um e perdeu o outro. Ficamos na sexta colocação da Copa com a eliminação nas quartas de final com 10 pontos - portanto, dois pontos a menos do que a Argentina, três a mais do que Gana e quatro a mais do que o Paraguai. O time marcou nove gols e tomou quatro. Qualitativamente, a equipe fez uma estreia meramente razoável embora tenha vencido, cresceu muito na segunda partida e aproveitou mal o último jogo da primeira fase, quando já estava classificado. A partida contra o Chile nas oitavas marcou a retomada do bom futebol, o que durou até o intervalo do jogo contra a Holanda. O segundo tempo contra a Laranja foi o pior momento do Brasil em toda a Copa - e foi fatal.

Notas do último Jogo:

1. Júlio César: Falhou no primeiro gol e ficou desestabilizado. 4,0
2. Maicon: Bem marcado por Kuyt, ainda tenou bastante. 6,5
3. Lúcio: Em tese, cumpriu sua missão, que era marcar Van Persie, mas falhou, junto com o resto da zaga no posicionamento quando das bolas paradas. 5,5
4. Juan: O mesmo que Lúcio. 5,5
6. Michel Bastos: Marcou Robben melhor do que se esperava, mas em certos lances se afobou demais.  4,5
(16. Gilberto)  Entrou para marcar Robben e nem comprometeu nem acrescentou. 5,0
5. Felipe Melo: Uma bela enfiada de bola no lance do primeiro gol e um segundo tempo desastroso com direito a gol contra e expulsão. 3,0
8. Gilberto Silva: Sua marcação sobre Sneijder estava perfeita, até o time entrar em pane. 6,0
13. Daniel Alves: Realmente não conseguiu fazer a função de Elano. Errou quase tudo, por mais volutarioso que tenha sido. 3,5
10. Kaká: Bem marcado e sem condições físicas ideais, conseguiu ainda produzir dois lances de perigo contra o gol adversário. 6,5
11. Robinho: Fez o gol e um excepcional primeiro tempo. Depois, caiu com o resto do time. 7,0
9. Luís Fabiano: Perdeu a briga para a zaga laranja. 4,0
(21. Nilmar) Poderia ter entrado antes, tentou botar fogo no jogo. 5,5  
Nota Média: 5,11
T. Dunga:  O time estava bem distribuído em campo e tinha o controle do jogo no primeiro tempo, mas sofreu uma pane no intervalo. Substituiu bem, ainda que Nilmar pudesse ter começado um pouco antes. As ausências de Ramires e Elano fizeram a diferença. 4,5


Nota Média Geral e Avaliações:


1. Júlio César: Mostrou segurança ao longo da Copa, não teve culpa no gol contra a Coreia - embora pudesse ter abafado -, foi vítima da zaga no gol de Drogba, falhou no primeiro gol contra a  Holanda e não teve culpa no segundo. 6,2
2. Maicon: Foi o melhor jogador da equipe na Copa. Não deu brechas na marcação e apoiou com eficácia. Marcou o primeiro gol do time. 7,4
3. Lúcio: Demonstrou técnica, mas foi displicente nos lances dos gols em termos de posicionamento. 6,0
4. Juan: Marcou até gol, mas de resto foi igual a Lúcio. 6,1
6. Michel Bastos: Aposta arriscada numa posição que não deu muitas escolhas para Dunga, fracassou. 4,5
16. Gilberto: Pelas contingências, merecia ser o titular na lateral-esquerda, mas acabou entrando pouco. 5,0
5. Felipe Melo: Outra aposta arriscada, quando ia perdendo a posição, Ramires foi suspenso e acabou indo do céu ao inferno contra a Holanda. 4,2
18. Ramires: Entrou bem nos jogos da primeira fase, mas só ganhou a vaga de titular com a contusão de Felipe Melo. Quando ia dominando a posição, foi suspenso de maneira boba. 7,5
8. Gilberto Silva: Não chegou à Copa no seu auge, mas é de longe o melhor primeiro-volante revelado no futebol brasileiro desde a aposentadoria de César Sampaio. Se não ajudou tanto desta vez, também não comprometeu. 5,7
20. Kléberson: Entrou só no fim de um jogo.
7. Elano: Fez dois jogos muito bons, mas foi criminosamente tirado da Copa. 7,2
13. Daniel Alves: A verdade é que foi mal, sentiu a pressão de uma Copa e diminuiu. 4,4
10. Kaká: Duas Copas, uma em que ele foi traído por um grupo que jogou contra si, outra em que ele foi traído pela sua condição física. Lutou o quanto pôde e foi bem. 7,0
19. Júlio Bapstista: Só teve oportunidade fora de sua posição e foi mal. 4,0
11. Robinho: Jogou para o time e foi crescendo no decorrer da Copa, infelizmente a equipe parou antes de chegar no apíce. 6,8
9. Luís Fabiano: Foi fundamental contra a Costa do Marfim, funcionou contra o Chile, mas foi mal no resto. 5,9
21. Nilmar: Merecia mais oportunidades, entrou sempre no fim dos jogos para dar gás. 5,5

Dunga: Em termos gerais, foi vítima de uma entre-safra do futebol nacional e escalou o melhor que pôde. Falhou na armação do sistema de marcação no meio; na lateral-esquerda, fez o que pôde. Ainda foi prejudicado por contusões - provocadas ou não - e suspensões ao longo do torneio. 6,1

Média da Seleção no jogo a jogo: 5,702

Elas por elas, o nosso melhor jogador foi Maicon, afinal, Ramires só jogou um jogo e a parte final de outro.

sábado, 3 de julho de 2010

O Pós-Dunga: Felipão



O Ciclo de Dunga a frente da Seleção Brasileira, como já era sabido, terminou. Com ou sem o hexa, o treinador da seleção já havia adiantado que sua participação na Seleção Brasileira se encerraria nessa Copa. E ele termina com um senhor aproveitamento de 76,66% dos pontos a frente da Seleção principal, dois títulos e a sexta colocação na Copa do Mundo da África do Sul. Agora, a CBF tem uma missão dura pela frente: Trazer um técnico capaz de tocar o insano trabalho da próxima Copa, em relação a qual, por coincidência, seremos o país-sede - e se em uma situação típica as expectativas em torno da Seleção já são absurdas, imagine só daqui a quatro anos...

As especulações, claro, passaram imediatamente a girar em torno do nome de Luís Felipe Scolari, seguramente o melhor treinador brasileiro em exercício e comandante brasileiro do Penta. Agora há pouco, Felipão, que está de retorno ao Brasil para treinar o Palmeiras, declarou que está focado no time paulista e que, pelo menos até 2012, não pensa na Seleção Brasileira. A decisão é óbvia. Primeiro, Felipão jamais descumpriria sua palavra com a direção do Palmeiras, isso nunca foi do seu feitio. Segundo, dividir-se enquanto técnico da Seleção e, ao mesmo tempo, de um clube seria uma tarefa esquizofrênica e insuportável - a experiência de Vanderlei Luxemburgo, em 1999, no Corinthians e na Seleção nos prova disso bem.

Outro aspecto da negativa é que Felipão pensará bem em aceitar o convite da Seleção. O treinador tem uma experiência no mínimo radical com o time nacional: Quando o assumiu, no distante ano de 2001, a equipe vivia a fase mais negra de sua história, arriscado a não conseguir, sequer, a vaga para a Copa da Ásia. Nada funcionava, a ferida causada pela derrota na final de 98 ainda estava aberta, o trauma pelas desditas nos dois anos anteriores estava bloqueando qualquer iniciativa, o modelo de gestão da CBF - disfuncional até na bonança - colapsava diante do impasse - e o futebol do país, ainda por cima, vivia um período de entre-safra.

A pressão que pesa sob a cabeça do treinador do escrete canarinho estava potencializada e as derrotas no início tornaram a situação insustentável. A imprensa esportiva nativa, limítrofe e presunçosa como só ela, já acendia suas tochas numa tentativa prévia de racionalização de um fracasso - que sequer havia acontecido -, escolhendo a via da caça aos bodes-expiatórios - no caso, de um grande e único bode-expiatório: Felipão, que, ainda por cima, tomou duas decisões racionais que serviram para botar mais lenha na fogueira ao colocar o time para jogar no 3/5/2 - tendo em vista a inexperiência dos zagueiros do time e a aptidão dos laterais para apoiar e criar jogadas - e não convocar Romário, ídolo e responsável pelo Tetra que vivia uma crise aguda-extrema de marra, que o tornava fator de desestabilização.

Como apanhou Felipão.O que Dunga passou não foi nada perto daquilo. Pelo menos uma coisa ele teve de vantagem: A crise era tamanha na seleção que sua autonomia como treinador foi uma das maiores desde que o Regime Militar tirar João Saldanha do comando do time nacional nos idos dos anos 70. Suas apostas deram rigorosamente certo. O único erro, a marcação do meio-de-campo, foi acertado durante a própria Copa com a troca de Juninho Paulista por Kléberson. Ganhamos a Copa. Felipão não continuou. Seu último jogo, aliás, foi um amistoso que perdemos para o Paraguai. As exigências da CBF e o modo como o trabalho deveria continuar dali em diante não lhe pareciam incentivos para continuar. Foi o que aconteceu e para seu lugar veio Carlos Alberto Parreira, homem de confiança do poder.

Felipão conhece muito bem os interesses que gravitam em torno do time nacional e de como tudo que ele construiu pode ir por água abaixo facilmente. Sua volta é possível no prazo em que ele estipulou, mas apenas numa situação minimamente digna, o que eu tenho minhas dúvidas se essa CBF será capaz de - ou estará disposta a - produzir.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Notas da Copa: Brasil eliminado

(Júlio César em prantos - Reuters)

Eu vi o Brasil eliminar por duas vezes a Holanda em Copas. A primeira, quando tinha seis anos - e já me entendia por gente - com aquele gol de Branco. 3x2 apertado. Épico. Quatro anos mais tarde, já grandinho, vi o Brasil de Ronaldo, Dunga e Taffarel eliminar, nos pênaltis, aquele excelente time laranja treinado por Guus Hiddink. Isso foi uma desforra para a geração dos meus pais que viu aquela eliminação doída contra Laranja Mecânica, a legítima, em 74 - o time de Rinus Mitchel, o melhor produto da revolução tática e de preparação física pelo qual a Europa passou no início dos anos 1970. Hoje, foi o meu dia de ver o Brasil perder para o futebol holandês.

Tudo tem um lado bom, antes perder para a Holanda do que para as itálias ou franças da vida - para a segunda, vi duas vezes. Nada contra os países, mas sim em relação às suas escolas. Horríveis. Frias. Espero que o fracasso nesta Copa produza uma revolução em ambos os países e que, daqui a quatro anos, vejamos uma Itália e uma França jogando um futebol mais alegre. Muito embora a Holanda de 2010, do glorioso Bert van Merwijck, seja uma equipe que não necessariamente jogue um futebol tão bom quanto a Holanda poderia, ainda assim, trata-se de uma escola que há quarenta anos representa o melhor que o futebol europeu  produz, em termos técnicos e de inovações, portanto, suas vitórias são merecidas.

Aliás, o esquema 4/2-3/1 que todos jogam atualmente foi desenvolvido, ao que me conste, na Holanda do início dos anos 2000: Trazer de volta a figura dos três atacantes e do ponta - adaptando esta figura à dinâmica do futebol contemporâneo, transformando num jogador que varia do meio para frente conforme a necessidade do jogo. Podem existir outros exemplos, mas quem realmente deu relevo para o esquema foram os laranjas e o mesmo aconteceu também com o 3/5/2 e com o 4/4/2 - na forma que se popularizou no Brasil, não o inglês. A Holanda, mesmo com a vitória de hoje, ainda nos deve uma atuação consistente - e aqui não falo de "futebol-arte" que só existe na cabeça de alguns, mas de um futebol consistente mesmo.

Sobre o Brasil, a equipe a exemplo de 2006, chegou na Copa com os créditos do título da Copa América, da Copa das Confederações e de uma grande eliminatória. A diferença, é que em 2006 Parreira selecionou um grupo de jogadores que era fruto da communis opinio da imprensa esportiva - da rota e da sofisticada. Jogadores acima de qualquer suspeita, de qualquer crítica, mesmo chegando à Copa dez quilos acima do peso. Claro, as críticas vieram quando o óbvio se fez e Parreira se viu rifado por quem o insuflava: O vento mudou, a previsão foi-se junta. Dunga não, seu trabalho teve coerência interna ao longo do ciclo.

Não é porque agora o time perdeu um jogo - e Copas são particularmente traiçoeiras - que agora se deva fazer linchamentos. Primeiro, isso é um esporte, ainda que toda uma série de variáveis políticas e psicológicas faça com que as coisas saíam do controle. Depois, é necessário fixar os olhos no que realmente houve. O exagero nos superlativos é a característica mais patente da má crítica futebolística. A Seleção não estava jogando o melhor futebol, mas não era a pior equipe, alternou momentos, mas os seus piores se concretizaram no jogo de hoje. Isso difere consideravelmente da eliminação para a França há quatro anos. Ali, havia uma linha de coerência entre o que deu errado e a forma como se deu o desfecho.

O Brasil venceu com nervosismo a Coreia do Norte, cresceu contra Costa do Marfim num mata-mata antecipado - e sofreu uma grande baixa, perdendo Elano, violentamente tirado da Copa -, jogou mal contra Portugal num jogo que poderia ter aproveitado melhor, jogou o firme contra o Chile e perdeu um jogo estranho para a Holanda: Num duelo contra uma das boas seleções da Europa, dominou o primeiro tempo, largou na frente, poderia ter definido logo aí, depois, num erro crasso da defesa levou o gol de empate no primeiro tempo e se abateu mortalmente...daí para nova falha e novo gol tomado foram dois passos. Invertemos o anátema, em 2006 foi uma farsa, 2010 foi uma tragédia.

Dunga fez suas apostas e acertou muito mais do que errou, seus erros, no entanto, coincidiram com a tragédia. A defesa, uma das melhores da Copa, foi displicente nos quatro gols que tomou na Copa. Hoje, tomou dois, quando sua média era o inverso disso. Felipe Melo sempre foi um erro, mas hoje, foi mais. Ramires, que poderia ter tomado a posição, tomou um amarelo burro contra o Chile. Michel Bastos, apesar dos pesares, não comprometeu contra Robben. Não foi sua falta que ocasionou o gol de empate, foi a saída errada de Júlio César e a afobação de Felipe. Robinho jogou muito.Como evoluiu esse jogador. Antes, era mais um sou-jovem-craque-risonho-que-faço-pose-para-foto - como Ronaldinho e Cristiano Ronaldo -, hoje, assumiu responsabilidades e aprendeu a ser sério. O mesmo se pode dizer de Kaká que mesmo com sérias limitações físicas fez uma grande Copa. De Maicon.

Enfim, foi uma pena. Que daqui para frente a Holanda jogue o que não jogou até agora e que o Brasil se prepare bem para daqui a quatro anos. A vida dos sul-americanos, como adiantava aqui ontem, não está fácil. Logo mais, o Uruguai terá um jogo difícil, embora seja favorito, amanhã, no meu entendimento, nem a Argentina muito menos o Paraguai o são. É evidente que estarei na torcida pelos três, em especial por Don Diego.

Atualização de 03/07 às 21:23: Fiz algumas alterações no texto para arrumar alguns erros de ortografia.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Notas da Copa: Julho e a Análise das Quartas de Final

Primeiro de Julho. Estamos por volta da metade do primeiro dia da metade final do ano. Mês passado, em ritmo alucinante, estivemos diletando sobre a Copa sem tirar o olho das movimentações eleitorais - ou eleitoreiras, sabe-se lá, mas que elas foram um tanto mais agitadas do que supunha, isso sim. As férias e um ligeiro - porém gratificante - sacrifício da minha vida social contribuíram para que eu achasse tempo. Agora a Copa desacelera e se adensa, o que já não era sem tempo, seja pela qualidade do torneio que aumenta ou porque a overdose de jogos já deu; ontem e hoje foram os dois primeiros dias sem jogos desde que o torneio quadrienal começou, amanhã, começam as quartas de final. Acertei sete dos oito palpites das oitavas. errei só a classificação de Gana sobre os EUA - enfim, Milovan Rajevac pegou a mim e aos gringos de supresa, modificou a forma de sua equipe jogar e despachou o escrete americano e o pé-frio do Clinton de volta para os states.


Agora, o jogo muda. Se antes estava relativamente fácil para acertar os jogos, agora, longe disso. Tirando Espanha x Paraguai, partida na qual a diferença entre as equipes é relativamente grande, acertar pelo menos um dos outros três confrontos é tarefa para quem entende de bola. Ainda que se deva comemorar as quatro vagas sul-americanas nas quartas, é bom abrir o olho, porque os europeus que continuam no torneio são justamente os três melhores times daquele continente. Vamos às análises:


Uruguai x Gana


Pois bem, os uruguaios são a grande supresa da Copa, seja pela eliminatória que fizeram, os resultados na Copa América e demais amistosos - a previsão mais otimista em relação ao time de Oscar Tabárez era de que chegasse, com algum esforço, às oitavas. Pois bem, chegou às quartas em plenas condições de avançar mais. Muslera, apesar das falhas contra a Coreia do Sul, faz uma boa Copa,  Máxí Pereira é um dos três melhores laterais-direitos, Lugano e Godín estão em grande fase, Fucile tem se esforçado, os Areválo e Pérez marcam muito no meio, os dois Álvaros (o Pereira e o Fernández) sabem articular o jogo e, no ataque, o time se segura bem: Como Forlán pela esquerda, Cavani pela direita e Luís Suárez no comando de ataque, a equipe segue marcando gols - normalmente, Forlán volta e complementa o meio de campo, mas Cavani também pode fazer isso. Em suma, trata-se de um time que alcançou se ápice no momento exato em precisa fazê-lo. Pelo seu lado, Gana é o único time africano que restou no torneio, faz sua segunda Copa e avançou em relação à primeira: Se em 2006 o time parou nas oitavas de final frente ao Brasil de Parreira, agora a seleção avança uma casa e disputa as quartas. Para mim, Milovan Rajevac é, até o presente momento, melhor técnico da Copa - em uma competição marcada pela mesmíce tática e pela incapacidade dos treinadores trocarem algo um pouco diferente de seis por meia dúzia, Rajevac foi um dos poucos a conseguir adaptar a forma de sua equipe jogar às necessidades, saindo do seu habituall 4/2-3/1 para enfiar um 3/4/3 em e assim dar um nó tático em Bob Bradley, o hábil treinador americano. A seleção africana tem um bom goleiro, Kingson, e deve voltar ao seu esquema habitual frente a um Uruguai que joga com três na frente: Pantsil que quando necessário vira zagueiro volta para a lateral-direita, os dois Mansah formam uma zaga forte, Sarpei marca bem pela esquerda, embora não apóie e, no meio, encontramos os destaques do time: Annan é fundamental para o time jogando na marcação, Boateng marca e chega de trás, Asamoah arma e sabe atacar pela ponta-direita. Na frente, Ayew, pela esquerda, é a revelação do time, Gyan é preciso no comando de ataque e Tagoe, eventualmente, quebra o galho pela ponta-direita. No duro, o ataque uruguaio leva vantagem sobre a defesa de Gana, mas a briga pelo controle do meio promete ser boa e nela, fisica e até tecnicamente, os africanos são um pouco superiores - enquanto na briga entre o ataque de Gana e a defesa uruguaia, a celeste leva ligeira vantagem. Há quem diga que ser capaz de controlar o meio é o diferencial para a vitória, mas veremos no que dá num jogo onde a equipe que perde no meio é superior nos dois extremos. Honestamente, é jogo para triplo, a ligeira superioridade técnica da celeste é compensada pela motivação do adversário - que deve contar com a torcida a seu favor. Para não ficar em cima do muro, aposto no Uruguai, na dureza, nem sei se no tempo regulamentar.


Brasil x Holanda


Falamos aqui do confronto de duas das melhores seleções dos últimos quatro anos. O Brasil venceu tudo. A Holanda, pos sua vez, teve o quadriênio que só não foi perfeito pelo desastre frente a uma imprevisível Rússia nas quartas da Euro 08 - o time liderado por Arshavin jogou tudo o que jamais jogou (nem voltou a jogar) contra a Laranja e a despachou de forma doída. Na Copa, o Brasil chegou com dois dos seus melhores longe da excelência fisíca - casos de Júlio César e Kaká -, enquanto outros jogadores tiveram problemas ao longo da competição - casos de Robinho, Felipe Melo e Júlio Bapstista, além de Elano, criminosamente vitimado por um jogador marfinense dois minutos depois de feito seu gol na vitória brasileira por 3x1. Apesar disso, Dunga consegue fazer um bom trabalho, com alguns eventuais deslizes, mas que, até agora, funcionou nos momentos decisivos: Seu time joga num 4/2-3/1 como a maior parte dos times já a algum tempo, Júlio tem pegado bem no gol, Maicon é o melhor lateral-direito da Copa, Lúcio e Juan formam uma dupla de zaga primorosa - que teve algumas desatenções na primeira fase, mas tecnicamente é mais capaz do que qualquer miolo de zaga nesta Copa -, Michel Bastos é o ponto fraco da equipe pela lateral-esquerda; no meio, Gilberto Silva compensa com inteligência as sus limitações físicas - e rendeu melhor quando no lugar do travado Felipe Melo atuou ao seu lado Ramires, o que infelizmente não pode se repetir pela suspensão do bom camisa 18 do Brasil - e Kaká, ainda que pareça não estar 100%, sempre que entra no jogo, faz toda diferença; na frente, Elano era um peça essencial ao esquema, atacando pela direita e voltando para compor o meio, sua saída foi suprida por Daniel Alves, que apesar da partida razoável contra o Chile não correspondeu contra Portugal - nem quando entrou antes -, Luís Fabiano não estourou, mas soube marcar gols nos momentos decisivos e Robinho finalmente desencantou na última rodada, mas tem feito partidas taticamente corretas. A Holanda de Bert Van Marwijk não tem o brilho de outrora, tentando jogar de forma mais eficiente do que bela para ganhar o título que sua bela tradição de jogo bonito nunca foi capaz de levar - ainda que muito do futebol opaco da equipe nesta Copa se deva menos a alga tática em especial do que ao desempenho dos seus jogadores; o o mal dessa equipe está numa disposição morna dos atletas que alternam entre o feijão-com-arroz e alguns lampejos. A equipe venceu os três jogos da fase inicial sem muito esforço - o primeiro contra uma Dinamarca pesada, o segundo com a ajuda da Jabulani contra o Japão e o terceiro contra um já eliminado Camarões - e sofreu mais do que o esperado frente a Eslováquia nas oitavas.  Stekelemburg é bom nome no gol, Van der Wiel é sóbrio, mas lhe falta um tanto de arte pela lateral-direita, a zaga é baixa e se não compromete também não acrescenta, Van Bronckhorst é aquele velho poço de vontade;  no meio, De Jong e Van Bommel marcam bastante e tocam rápido a bola, mas não tem grande qualidade, dedicando-se a carregar o piano para Sneijder jogar - o meia, ainda que não tenha estourado nesta Copa, é o maestro do time, com seus passes precisos, belos lançamentos e boas chegadas; na frente, Robben voltou ao time pela ponta-direita e é o outro destaque, Van Persie no comando de ataque e Kuyt pela direita são bons jogadores, mas longe de ser craques. Diante de seus enormes desfalques, Dunga deve manter Daniel pela direita até para liberar Maicon para o ataque, o que aumenta a responsabilidade de Kaká pelo meio e Robinho pela esquerda, o problema está mesmo com o fato de Robben atacar pelo setor que Michel Bastos defende e do time, depois de ter arrumado Ramires pelo meio, tê-lo perdido, restando poucas opções no elenco. Setor por setor, o defesa brasileira leva vantagem sobre o ataque holandês - apesar desse pequeno detalhe que pode acabar decidindo o jogo -, a meia-cancha de ambos se equivalem - pelas contingências - e o ataque brasileiro é melhor que a defesa laranja. Jogo duro, aposta numa vitória apertada do Brasil. 


Alemanha x Argentina


Único jogo que envolve dois campeões mundiais, trata-se da maior atração das quartas. O time alemão dirigido por Joachim Löw é um dos melhores do quadriênio, a equipe, depois de uma das suas maiores crises de renovação da história, usou o mundial passado, o qual sediou, como forma de projetar jovens jogadores e começar a seleção do zero. Deu certo. O time arrancou uma terceira colocação e depois fez um bom quadriênio - sendo vice da última Euro - e fazendo boas campanhas nas últimas duas eliminatórias. Nesta Copa, a Alemanha caiu num grupo bem disputado, surpreendeu a todos jogando o fino da bola contra a Austrália, depois, mais surpreendemente ainda, foi anulada pela Sérvia que lhe derrotou para depois, num jogo tenso, vencer por 1x0 Gana e se classificar - nas oitavas, eliminou a Inglaterra sendo superior em campo, embora tenha sido favorecida pela arbitragem. A Argentina, já há muito se ressente da falta de títulos, sendo que na última Copa foi eliminada, nos pênaltis, por essa mesma Alemanha, iniciando um ciclo doloroso, onde Alfie Basile fracassou no comando da equipe, cedendo lugar para que o astro maior do seu futebol assumisse o time: Maradona voltou e conseguiu contornar momentos difíceis, emplacando uma classificação dura em quarto lugar nas eliminatórias - para uma Copa onde foi premiado com um grupo relativamente simples, onde venceu os três jogos sem muita pressão dos adversários e, quando finalmente topou com um desafio, também acabou ajudada pela arbitragem que validou um gol ilegal de Tevez contra o México - o que além da vantagem no marcador, desestruturou o time adversário. Equipe por equipe, a Alemanha joga num 4/2-3/1 muito parecido com o Brasil: Neuer, seguro, é o goleiro, a defesa tem Lahm pela lateral-direita - disputando com Maicon o título de melhor jogador da posição -, Mertesacker e Friederich formando uma zaga bem concisa, Boateng (o alemão) marcando bem esquerda, ainda que não seja nenhuma virtuose; no meio, Khedira e Schweinsteiger são os volantes - combinando força física, bom toque de bola e inteligência tática - enquanto Özil é o maestro do time - forte candidato a melhor armador da Copa; pelas pontas, Müller, técnico e veloz, é presença forte pela direita e Podolski, com sua categoria e precisão, domina a esquerda e, no comando de ataque, Klose continua sendo matador, eficiente por baixo e muito bom por cima. Já a Argentina, atua também num 4/2-3/1, com algumas peculiaridades: Romero, não muito seguro é o goleiro, Otamendi quebra o galho pela lateral-direita e o mesmo faz Heinze pela esquerda, enquanto Demichelis e Burdisso formam a zaga depois da contusão de Samuel; no meio, Mascherano faz uma excepcional Copa como primeiro volante e Maxí Rodríguez disputa a outra vaga na marcação com o experiente Verón; mais adiante, Tévez joga mais fixo na ponta-esquerda, mas Messi e Di María  se alternam entre o meio e a direita, abastecendo Higuaín. O ataque ainda não jogou o (muito) que pode, mas a defesa dá sustos e faltam laterais. No confronto, o ataque alemão leva vantagem ampla sobre a zaga argentina, no meio, será travado uma das mais qualificadas disputas dessa Copa, o ataque argentino é capaz de infringir dor a qualquer defesa desse torneio e isso vale também para a boa defesa alemã. Em suma, o time germânico parece mais equilibrado, enquanto a Argentina é superior nas individualidades - e no carisma de Maradona -, falamos de duas seleções vencedoras que há muito amargam um jejum em Copas, jogo para quádruplo - um palpite para cada possibilidade, outro para o improvável -, mas já que estamos no inferno, então que ousemos dar uma tapa no diabo: Ainda que eu torça para a Argentina , a Alemanha é favorita por um fiozinho de cabelo, mas não duvide de prorrogação ou pênaltis aqui.


Espanha x Paraguai


A Espanha é o segundo melhor time do mundo dos últimos quatro anos. Venceu a Euro para a qual se classificou depois de boa eliminatória, fez uma boa eliminatória para a Copa, mas rodou na Copa das Confederações contra o time americano. Na atual Copa, tomou um susto logo de cara ao ser neutralizada pelo ferrolho suíço - e derrotada por um gol de contra-ataque -, mas recuperou-se ganhando de Honduras - outra gloriosa retranca, em relação a qual não conseguia golear apesar do amplo domínio - e depois venceu o Chile, em jogo duro, que garantiu sua classificação em primeiro no grupo para confrontar seu arqui-rival Portugal nas oitavas - jogo que venceu como nos demais: Amplo domínio, mas poucos gols, placar magro de 1x0. O Paraguai é, desde os anos 90, um futebol em franca ascensão, joga defensivamente, marca muito é organizado em campo e, mesmo não formando meias criativos, tem lá seus atacantes -  time do técnico argentino Gerardo Martino liderou o início das Eliminatórias Sul-Americanas, mas depois perdeu duas posições, para Brasil e Chile, ainda que tenha ficado apenas um ponto abaixo do líder. Time por time, a Espanha de Vicente del Bosque joga num 4/3/3, com Casillas no gol - grande goleiro, ainda que não esteja no auge -, uma defesa modesta porém esforçada formada por Sergio Ramos pela lateral-direita, Puyol e Piqué pela zaga, Capdevilla pela lateral-esquerda; no meio, Busquets é volante, Xabi Alonso é o segundo volante - homem das saídas rápidas - e Xavi é o armador; pela frente já jogara Navas, como um legítimo ponta-direita, e Iniesta, fazendo um misto de ponta e exterior-direito, David Villa é o craque do time pela ponta-esquerda - e, por ora, é ele quem tem efetivamente feito o ataque espanhol funcionar - e Fernando Torres no comando de ataque = contestado e em má fase, o que abre espaço para Llorente na frente. O Paraguai joga num 4/4/2 que se torna 4/3/3, mas que no jogo em questão deve se resumir às duas linhas de quatro mesmo - para tentar fazer com que o raio caia duas vezes no mesmo lugar, depois da vitória suíça -, com Justo Villar, muito bem, no gol, dois excepcionais laterais defensivos que apóiam mal - Bonet pela direita e Morel Rodríguez pela esquerda -, uma zaga tecnicamente qualificada e bem postada - formada por Alcaraz e Da Silva -, um meio com Cárceres fazendo o primeiro volante e Riveros mais adiante, Vera fazendo um extremo-direito - meia-armador aberto dos 4/4/2 europeus - recuado, Barreto ou Benítez fazendo o mesmo, só que mais avançados, pela esquerda e um ataque variante, com a figura de Lucas Barrios enfiado na zaga adversária e algum outro nome por fora da área, seja ele Cardozo, Roque Santa Cruz ou Haedo Váldez. No duro, será mais um jogo de ataque contra defesa, onde a Espanha se manda para o ataque e o adversário planta duas linhas de quatro para se defender e achar o contra-ataque salvador. Três das quatro equipes que enfrentaram a Espanha fizeram o mesmo, mas  só a Suíça levou a melhor. Por mais que um milagre paraguaio fosse um espetáculo, é difícil que ocorra.