Mostrando postagens com marcador Plínio. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Plínio. Mostrar todas as postagens

domingo, 10 de outubro de 2010

Eleições 2010: A Semana Seguinte


(Maria Rita Kehl [CPFL/Cultura divulgação] -- o caso emblemático da semana pós-Primeiro Turno)

Há uma semana atrás, urnas fechadas, urnas contadas - poeira levantada, poeira que baixou. O PT,
como narramos aqui, registrou larga vitória, batendo o recorde de senadores eleitos nesta eleição, elegendo a maior bancada individual na Câmara dos Deputados - e a maior coalizão naquela Casa -, um bom número de governadores aliados - poucos petistas, é verdade, mas isso se deve à tática do partido privilegiar o Senado e não os governos estaduais. O partido da estrela, entretanto, não conseguiu a almejada vitória em Primeiro Turno na Presidencial, embora o tenha vencido. Agora as forças de ambos os lados se rearticulam para o enfrentamento de Segundo Turno. Serra, cuja candidatura simplesmente não funcionava, ganhou uma nova chance no colo graças ao discurso que a mídia corporativa - que lhe pauta e lha apóia - imprimiu, especialmente no ataque bisonho aos direitos civis que está sendo empreendido agora - e que Serra encampa vergonhosamente.


Como bem colocou a Professora Marilena Chauí - das mais lúcidas intelectuais brasileiras - no ato pró-Dilma na Sala dos Estudantes, existem dois pontos essenciais no que toca ao Segundo Turno: (a) É inadmissível deixar que as famílias que controlam a mídia pautem os rumos da política nacional; (b) É preciso conversar com os ambientalistas sobre o que resultaria um apoio a Serra e sua proximidade com os ruralistas, isto é, estabelecer o diálogo com a parte do heterogêneo eleitorado de Marina que nutre identidade com a esquerda (ou, quem sabe, a integra mesmo) - a esse ponto, eu acrescentaria que é necessário assumir um compromisso programático claro e firme no que toca essa questão.


A maneira como essa eleição se desdobrou em um dos mais inglórios ataques aos direitos civis se inscreve na forma de cinismo: Enquanto as camadas médias da sociedade são chantageadas com o fantasma de que o PT representa alguma ameaça às liberdades individuais, as camadas pobres são expostas a uma propaganda inversa, na qual é proposto que Dilma produziria um alavancagem na política de direitos civis, brincando justamente com as superstições e moralismos que foram introjetados há séculos nessas camadas para mantê-las no lugar - o que foi consideravelmente melhorado nos últimos anos, mas ainda falta muito. Existe um duplipensar óbvio nisso tudo, no qual dois discursos diferentes são feitos ao gosto do freguês. Em um primeiro momento, a propaganda é mentirosa posto que (I) Hoje, mais do que nunca, a questão da opressão não pode mais ser vista pela relação bilateral e hierárquica entre Estado e cidadãos, a mídia e os múltiplos atores sociais também tem poder concreto e interesse no controle de corações e mentes, portanto, nem que os petistas quisessem (e não querem, como os últimos oito anos provam claramente) a questão da liberdade nem passa mais por aí; (II) Por outro lado, as forças que usam a candidatura Serra e o PSDB como instrumentos estão fazendo uso das superstições de um modo como há muito tempo não se fazia mais, estão abrindo uma caixa de pandora que talvez nem eles próprios tenham controle logo mais adiante.


Sobre o item I do último parágrafo ainda vale a pena lembrar de um dos fatos mais chocantes que aconteceram na semana passada - e que ilustram o que seria um Governo Serra - pelos fatores reais de poder que apóiam, pautam e controlam sua campanha: A demissão da psicanalista Maria Rita Kehl do Estadão, após ter escrevido, um dia antes do pleito, o histórico artigo Dois pesos, duas medidas no qual teceu das mais contundentes críticas já feitas ao preconceito violento contra o Bolsa-Família que ronda certos ambientes da classe média - sobretudo, suas caixas de e-mail -; isso demonstra o quão pesado este jogo é. Desde o ano passado o Estadão se colocou na posição de vítima de censura no que toca o caso Fernando Sarney - falácia que Dalmo Dallari desmontou há pouco menos de um ano, ao demonstrar, de forma cabal, que se tratou de autocensura -, o que serviu para aquele jornal encampar o fantasma da ameaça à liberdade de imprensa por parte do PT - talvez por medo da regulamentação dos dispositivos constitucionais que acabariam com certos privilégios de grupos midiáticos como o seu -, mas agora o seu duplipensar se revela de maneira cruel e pungente com essa demissão. 


Depois de declarar apoio ao candidato oposicionista José Serra, nada mais natural que um jornal que passou o último ano se colocando na posição de guardião das liberdades individuais, respeitasse mais ainda a posição de seus articulistas no que toca temas de relevância nacional, o que cai por terra com a demissão de Maria Rita logo após aquele artigo. Essa ambiguidade do Estadão mostra não só sua falta de compromisso com a liberdade como revela uma faceta perigosa do projeto político que há décadas defende: Por meio da demonização das forças políticas populares e reformistas, ele cria um álibi para atacar os direitos civis e direitos sociais de maneira pungente - como expôs brilhantemente Murilo Duarte Côrrea, a importância do Bolsa-Família é central em toda essa mudança que ocorreu nos últimos anos no país e não é difícil achar isso e eu acrescento: Combater o Bolsa-Família hoje só é possível pela afirmação de que o programa deveria ser incrementado ou, por via negativa, pelo uso e abuso de superstições e aí voltamos ao Tratado Teológico-Político de Spinoza, com um discurso de terror sendo organizado para aflorar os medos dos cidadãos; medo é tristeza causada em relação a evento incerto, logo, equivale a resignar preventivamente aqueles que você deseja dominar (e que você domina desse jeito, reduzindo a capacidade de agir deles de antemão), o que hoje demanda um discurso muito sofisticado que só a mídia corporativa é capaz de operar.


A situação se complica um pouco mais pulamos para o item II, o Tratado Teológico Político não está na ordem do dia apenas porque a mídia corporativa tem agido como o novo avatar da dominação sacerdotal, mas porque ela também faz uso da dominação sacerdotal em pessoa, para defender seu projeto, criando medos absurdos em meio às populações mais humildes, ensinadas há muito a temerem os direitos civis e a enxergarem as liberdades - mesmo as burguesas, limitadas à individualidade - de maneira nociva como forma de perpetuar a servidão voluntária - a questão urgente da Filosofia Política, seja no século 17º ou agora. De repente, surge o fantasma do aborto que, claramente, nunca foi pauta da campanha de Dilma (nem poderia estar de maneira formal, afinal, isso é uma questão legislativa) e na prática, nunca foi proposto como ameaça à vida por nenhum grupo: Nunca se pôs em dúvida a decisão moral de ninguém em abortar, o que sempre esteve em jogo é se moralmente você é a favor da criminalização de alguma menina que fez aborto. No fim, isso nunca teve a ver com ataque à vida, mas defesa da mesma, do mesmo modo que isso trata da questão da própria disponibilidade dos corpos das pessoas por elas mesmas, o que é um primeiro passo para Liberdade, convenhamos. Sobre o casamento gay e os direitos dos homossexuais, então, me nego a falar em qualquer coisa que os negue ou que proponha sua criminalização.

É essa enormíssima briga que Dilma Rousseff terá pela frente, mas a contradição da direita está aí expressa, conjugada com a enorme pressão posta contra sua figura pessoal, o que serve de cortina de fumaça - e eis aí um problema permanente do presidencialismo, a frequente personalização da política. Os setores mais à esquerda do heterogêneo eleitorado de Marina - sim, existe uma enorme diferença entre quem votou em Marina no Nordeste ou no Rio e de quem votou em Marina em São Paulo Capital e quem o fez em sua própria Região Metropolitana - já se mostram simpáticos à candidatura Dilma (como o Alexandre Nodari) e é com eles que é preciso conversar. A extrema-esquerda, cuja votação foi pequena e se deu nas zonas urbanas, precisa estar ciente do que está em jogo agora. O Tsavkko, que votou no Plínio de Arruda Sampaio, escreveu um post a esse respeito que ilustra bem essa situação. Trata-se de um momento que é um verdadeiro divisor de águas na nossa história. José Serra não é, em si, o pior político que poderia emergir do PSDB, mas sua candidatura é a pior que o partido já lançou à Presidência da República. Não estamos mais vivendo um a discussão entre o projeto posto ou a modernização conservadora contra um projeto em abstrato que se propõe melhor, mas sim de um projeto que já foi abstrato e em sua aplicação rendeu sim seus frutos - e por isso provocou uma reação forte dos setores conservadores, como não poderia ser diferente - contra um outro projeto que se pauta por falácias e ataques de toda a natureza para, no fim das contas, lançar um ataque contra o que temos - se não fosse isso, não teria razão de existir. É o que está em jogo, trata-se de uma bifurcação bem clara no nosso projeto de país e da nossa responsabilidade sobre tudo isso.






terça-feira, 28 de setembro de 2010

Meu Voto em Dilma




Vamos começar do começo, como é de costume por aqui. Primeiro, convém acrescentar que não me pronunciei  aqui, até agora, sobre o assunto do meu voto não por ensejar qualquer espécie de neutralidade ou imparcialidade. Não é o caso, afinal, quem me acompanha aqui sabe que não sou o maior defensor dessa visão de mundo. Tampouco isso se deve ao fato de supor que exista alguma separação entre o blog e eu, o que seria tão absurdo quanto supor que eu e o produto de minha atividade inscrito nas folhas dos meus rascunhos são coisas diferentes. O ponto é que esse sempre foi um espaço de crítica, que parte de pressupostos como (I) Todo ponto de vista é visto de um ponto inserido em um plano, logo, não existe possibilidade de estar fora, acima ou neutro em relação àquilo de que eu trato, portanto, minhas posições sempre foram muito claras por aqui; (II) Manter um diálogo aberto e franco com quem viesse criticar, apoiar ou complementar algo; (III) Não fazer militância, embora respeite e não veja problema nenhum em quem faça isso nos seus blogs, a questão é que, simplesmente, essa não era, nem nunca foi, a ideia deste espaço. Portanto, uma declaração de voto aqui é só uma declaração de voto mesmo - como o cachimbo que no fim das contas só era um cachimbo mesmo.

Sim, é claro que eu vou votar em Dilma Rousseff - o que não é nenhuma novidade caso você vasculhe meus arquivos e leia meus posts, o ponto é que eu estou escrevendo este post para explicar os motivos e razões. Em um primeiro momento, não podemos perder de vista que estamos vivendo um momento histórico ímpar: Essas são as eleições gerais mais importantes da história do Brasil. Isso pode até parecer um clichê, mas não é - e não é mesmo. São as primeiras eleições nas quais faremos a escolha clara entre manter um projeto concreto e efetivo ou optar por uma outra saída. Não é mais decidir entre o que está aí - que sempre se defendia com o argumento de ser o mal-menor ou de ser a política do "pinga, mas não seca" - e algo novo e incerto, mas entre escolher algo que funciona mesmo e projetos que lhe servem de oposição - e que, infelizmente, me parecem mais anti-projetos, o que me incomoda muito, posto que todos eles se corporificam em sombras de todo ou de aspectos do projeto petista, mas não em alternativas a ele, seja no caso mais radical e violento, o de Serra, cujo cerne de seu programa é um antipetismo não raro paranoico e poucas vezes respeitoso ou no idealismo de Plínio ou na candura de vestal de Marina. 

O Brasil passa a ter eleições livres - e verdadeiramente abrangentes - apenas nos fins dos anos 80, o que coincide não só com o atoleiro intelectual e cultural no qual o mundo se encontrava como também com a estagnação definitiva do nosso (disfuncional toda vida) modelo econômico, cuja formulação última remontava aos anos 30, muito embora os militares tenham feito alguns ajustezinhos para pior nos seus 21 anos de Ditadura. Como o Brasil não seria ele mesmo se não fosse exótico, o resultado de décadas de luta social - pela mais elementares liberdades, frise-se - pode até ter resultado no fim da Ditadura e na retomada da Democracia - ou isso que denominamos por tal -, mas esse raio de sol desemboca, curiosamente, em um momento no qual se acelera a velocidade técnico-econômica de um Capitalismo em globalização, fenômeno que causa - ao passo que mascara - a letargia e o infantilismo coletivo e individual. 

Os anos 90 nos quais cresci foram uma época idiota. Se uma direita caquética ainda rufava tambores em prol de um autoritarismo cujo ranço deve remontar ao Medievo, por outro lado, um projeto de modernização conservador foi posto em prática no país já com a eleição de Collor. São tempos duros, nos quais o único caminho, verdade e salvação era qualquer coisa que variava entre o desumanismo - porém sofisticado e fofo - do livre-mercadismo e ainda algum rompante desenvolvimentista. Enquanto o Estado Varguista é desmontado para se colocar em seu lugar o descalabro, o PT - um partido socialista e de massas, inspirado no modelo Europeu Ocidental - era a única força relevante de resistência, disposto a pautar uma saída outra, embora fosse simplesmente esmagado pelo esquema clientelista-midiático, fruto da junção do que demais perverso e atrasado existia na política nacional com a mais alta tecnológica a serviço de uma mídia de massa. Isso foi o Governo FHC.

Não foram apenas os desequilíbrios gerais do Sistema Capitalista, as particularidades dos erros dos anos 90 ou a crise em que nos encontrávamos no início do século que geraram a eleição de Lula em 2002, mas sim, sobretudo , a atitude do PT como oposição ao caminho único naquele período e a sua guinada em prol do realismo no início do século, liberando-se de boa parte das amarras idealistas que lhe prendia. Entre erros e acertos, o PT conseguiu coisas que poucos partidos de esquerda conseguiram pelo mundo - ainda mais assumindo em condições desfavoráveis - como arrumar a economia - o que não se restringe a mera estabilidade monetária como também a geração de emprego, renda e inclusão -, bancar uma política externa precisa - seja na área comercial ou estritamente política - e a estabelecer uma política institucional que é sim melhor do que a de seus antecessores - muito embora seja onde mais vacilou, mas não imagine você que se os termos das alianças que os petistas fizeram fossem tão ruins quanto as de FHC, que seria possível ter implementado metade do que implementaram. 

Alguém pode afirmar que poderia ter sido feito coisa melhor - o que pode ser verdade, ainda que eu não saiba por quem -, mas não que o Governo Lula deu errado, muito pelo contrário - assim como não há como surgir com uma simetria entre este Governo e o que lhe antecedeu, nem que existe equivalência entre o PT e o PSDB hoje em dia, pois até onde eu sei, o segundo jamais se prestou a fazer autocrítica em relação ao que concretamente errou, item que eu julgo, inclusive, fundamental para a consolidação da nossa Democracia. Votar em Dilma não dever ser enquadrado em qualquer forma de binarismo, especialmente aquele que nivela tudo necessariamente como perfeito ou horrível, trata-se apenas de um voto humano em seres humanos - cujo projeto que pretendem continuar não é apenas bom como também é o melhor que temos aqui e agora. Meu voto, portanto, é em Dilma Rousseff e se estende nos demais cargos para Mercadante, Marta e no Partido dos Trabalhadores nas eleições para o Legislativo. Simples - e convicto - assim.




segunda-feira, 13 de setembro de 2010

O Pós-Debate

Sim, chamar o debate de ontem de morno, é elogio - não que eu teça loas à oratória ou à retórica, embora também não as despreze de um todo nem deixe de considerar que o buraco é mais embaixo: Não se debatem ideias e quando alguém se arrisca, faz isso errado. Dilma fez o seu papel, jogou com prudência numa eleição na qual só perderia caso se comprometesse, embora pudesse avançar mais, mesmo discursivamente à luz do atual projeto. Serra foi inexpressivo e terá dificuldades para ter mais do que 25% dos votos válidos - quando eu pensava que seu piso era de pelo menos uns 30%. Marina, que foi mal na Band, bem no UOL-TUCA e na Canção Nova, ontem foi novamente mal - e sua campanha prossegue modorrenta. Plínio poderia pautar o debate à esquerda, mas insiste em debater por um prisma idealista - quem não quer uma educação pública de qualidade? Mas daí a esvaziar isso propondo um acordo público que iria destinar 10% do PIB para educação é ilusório; não administramos bem nem o que gastamos, por que propor uma realocação gigantesca que ele mesmo sabe que não é possível dadas as atuais condições objetivas? Há quem veja isso como pautar de forma radical uma eleição morna e conservadora, eu vejo como desperdício de uma oportunidade de ouro de provar que não é só possível - como também é necessário - pautar uma agenda realista que aprofunde mais - e mais rápido - as mudanças neste país - claro que para tanto é necessário sair do casulo e aceitar que os avanços do Brasil nos últimos oito anos não são fruto de um bem executado discurso petista. Sem querer fazer analogias com o nobre esporte bretão - mas já fazendo, porque aqui isso cabe -, é o mesmo que jogar pra torcida, dando bons dribles para o lado e fazendo embaixadinhas no meio de campo. O Partido dos Trabalhadores segue, quase incólume, sua trajetória de solidão na esquerda democrática (a de verdade) - e a julgar pelos dados, ele chegará a um controle gigantesco das instituições no que se seguirá ao 03 de Outubro. 


Grandes avaliações surgem. A de Mino Carta, de quem não raro discordo, é precisa: Querem transformar Serra no bode-expiatório da derrota. É uma bela - porém terrivelmente disfuncional - forma de racionalizar a porrada eleitoral que o PSDB está por tomar, tamanha que o partido corre sérios riscos de ter de repensar - bem, já era hora - sua própria função nessa maravilha chamada sistema político-partidário nacional - e não há como pensar no real tamanho do estrago que se anuncia no horizonte dos caminhos que o PSDB escolheu trilhar sem ler essa baita análise da Maria Inês Nassif - texto maravilhoso, lucidez impressionante - no Valor. Aliás, falando na Valor, agora lendo o blog do nosso João Villaverde, topei com um belo texto sobre a questão da segurança pública em São Paulo, o que na verdade caminha numa zona cinzenta que o texto da Maria Inês deixa, não por equívoco, mas porque ela deixa essa questão em aberto: O PSDB ainda continua cotado nas eleições estaduais de São Paulo (o que, claro, não muda seu processo enfraquecimento, até porque Dilma está para ganhar aqui), mas o que se esconderia por detrás desse fenômeno? É mais ou menos aquilo que nós temos debatido por aqui já há algum tempo, São Paulo é o estado mais rico e populoso da Federação, embora tenha sido a sede da fundação do PT, é daqui que a direita nacional - ou com força nacional - se organiza,  portanto, discutir suas contradições, como a própria questão da criminalidade  - e de como as pessoas se relacionam com ela - é um fio interessante para desmantelar um novelo que diz respeito a todo Brasil.


É hora de nos mantermos atentos, um novo Brasil está surgindo e mais do que nunca é necessário analisa-lo. Não é mais questão de pensar se Dilma continuará o que Lula fez - o que é, na verdade, o grande debate dessa eleição, aliás -, mas de saber que nem mesmo se Lula pudesse continuar no cargo, ele poderia continuar fazendo o que fez; as demandas que se anunciam são outras, é hora do ajuste fino e para isso é necessário entender mais do que nunca o país; por ora, muito embora o PT tenha uma esfera de cognição econômica e social pequena - como a maioria dos partidos pelo mundo -, ela é enormemente maior do que a de seus adversários. 


P.S.: Aliás, para quem quiser ler um belo texto sobre a intersecção mídia-política, vá até ao blog da Flávia Cera, não deixe de ler "Sobre o 'Espião de Dilma'", seguramente, é um dos melhores textos escrito nos últimos dias na blogosfera.





sexta-feira, 6 de agosto de 2010

O Primeiro Debate Eleitoral

Ontem à noite, a TV Bandeirantes realizou e transmitiu o primeiro debate eleitoral da atual disputa pela Presidência da República. Basicamente, foram os três primeiros candidatos nas pesquisas e Plínio de Arruda Sampaio do PSOL - partido que detém representação no Senado e na Câmara. O ponto é que o modo como esses debates são feitos - e esse não foi exceção - é muito ruim. Primeiro, todos os candidatos deveriam ter o direito de participar - pouco importa se temos doze nove, não é justo excluir ninguém que seja candidato legítimo -, depois que o próprio formato, ao contrário de privilegiar o debate de ideias, trata-se sobretudo de um espetáculo midiático. Para além da forma, o debate em si também foi bem fraco. Como debatemos aqui, existe um esvaziamento discursivo cada vez maior nas democracias contemporâneas, no Brasil, isso não é diferente - e nem por isso deva ser visto como normal. Os debates retratam bastante essa faceta - e aqui não falo de retórica necessariamente, mas de capacidade e disposição de debater.


Do debate em si, Dilma e Serra adotaram estratégias conservadoras, demonstrando sua habitual postura - são políticos muito menos retóricos e muito mais realizadores -, Marina fez o mesmo e Plínio usou de sua excepcional capacidade retórica para tentar desfazer a vantagem que os três possuem sobre ele - utilizando-se bem bem do espaço que lhe é negado por quase toda mídia corporativa. Pela perspectiva do conteúdo, Dilma, que iniciou nervosa e foi se recuperando, tinha uma vantagem sobre os demais: Números concretos para afiançar o projeto. Isso não é uma vantagem pequena da candidata petista, ainda que se aponte para o fato dela não ser uma exímia retórica-, sua força discursiva está nos momentos em que se fixa nos dados e na questão administrativa, passando a imagem de precisão e segurança - o conteúdo é simples, o que deu certo, como deu certo e o quanto. Serra, por sua vez, também não é um retórico, assim como Dilma, ele tenta passar a imagem do político gerencial e eficiente, mas se lhe falta a capacidade argumentativa, também lhe falta capacidade administrativa, o que fica claro em contraste com uma administradora que lhe é bem superior - além de ter caído na mesma encruzilhada que Alckmin em 2006, não tendo coragem de defender o Governo FHC nem de ataca-lo, mostrando um desconforto que enfraquece o próprio partido. Marina, perdeu-se ao se colocar ao centro e perdeu uma bela oportunidade de dar um cara mais coerente à sua candidatura - não gosto de candidatos que entram em eleições para pautarem certos tópicos, por mais importantes que eles sejam, como foi Cristovam Buarque em 2006 e agora a própria Marina, não resta dúvida que questões como educação e meio-ambiente são fundamentais, mas o debate não pode se limitar a eles, sob pena de banaliza-los pela exaustão que ser bandeira única de algum candidato provoca. Plínio, por sua vez, falou bem, acertou em elevar o tom - algo necessário para a situação de sua campanha, ainda que tenha exagerado nas ironias em dados momentos - e conseguiu finalmente um espaço importante para pontuar o caráter de sua candidatura, mas em termos materiais encara a limitação de pautar seu posicionamento preocupado com a perfeição de princípios e fins, mas sem a mesma sofisticação na construção de meios práticos de intervenção política para realizar as metas - porque sua candidatura foi construída para pautar o debate eleitoral mais à esquerda, diante das limitações concretas na disputa pela hegemonia, ainda assim, o resultado seria mais efetivo se considerasse as dificuldades concretas de execução da execução do programa, o que resta, portanto, é algo conceitual demais e inalcançável para a massa.


Na prática, Dilma, que está disparando nas pesquisas, saiu incólume e sua trajetória de ascensão deve persistir - o teto para tanto, até agora, ninguém conseguiu sequer prever -, o que tornou o debate improdutivo para Serra - que também não se comprometeu, mas precisava simplesmente travar sua adversária para tirar algo de produtivo na noite de ontem, mas que topou com uma Dilma se saia bem na maior parte das confrontações diretas e quando se encontrava numa situação complicada, acabava sempre se saindo com comparações entre Governo Lula sobre o de FHC, o que normalmente favorece o primeiro. Marina perdeu uma bela oportunidade de dar um caráter mais propositivo à sua candidatura, enquanto Plínio fez o contrário e voltou a disputar o terceiro lugar - e é o único candidato que alterou sua situação (para melhor, no caso), em algum grau, pelo debate de ontem, os demais cumpriram tabela e suas candidaturas seguem a mesma curva em que se encontravam antes do embate, ou seja, bom para Dilma, ruim para Serra e Marina.


Atualização de sábado 07/08: Idelber Avelar fez uma breve análise do debate no site da Fórum e André Egg também escreveu a respeito no Amalgama.

terça-feira, 27 de julho de 2010

A Economia Enquanto a Banda Passa

Neste exato momento, enquanto as atenções no Brasil se voltam para o debate eleitoral - ou isso que classificamos como tal -, a roda da economia continua a girar. Sim, a Crise Mundial segue. Seu movimento sinuoso é também singular. O movimento inicial, que veio à tona em 2008 era a concretização de uma tragédia anunciada, decorrência necessária da esquizofrenia das desregulamentação desvairada dos anos 80 e 90 e da irresponsabilidade americana durante os anos Bush. O aporte trilionário feito pelos Estados, refreou a crise - sem implicar em expropriações (pelo menos de parte) ou, ao menos, punição de executivos das grandes corporações. Por outro lado, políticas de contenção fiscal passaram a ser novamente defendidas, enquanto os atores políticos são incapazes - por uma série de motivos - de examinar a natureza dos gastos públicos, não distinguindo assim o joio do trigo, o que é fundamental para saber o que deve ser cortado e no que deve ser investido.


Confusões e hesitações como essas são normais em momentos nos quais a ordem dominante - por sinal, capitalista - se vê em xeque, suas válvulas de escape estão entupidas e não há para onde direcionar a pressão produzida. Algumas saídas são muito simples, mas ela se contrapõe a interesses de grupos - cuja influência na esfera política é certamente maior do que a produtividade econômica delas. É mais ou menos como a questão da indústria bélica americana, que necessita de guerras para funcionar, muito embora tais conflitos nem sempre tragam retorno para o sistema - muito pelo contrário, no atual momento. A ordem capitalista tem às mãos saídas que resultariam em seu próprio suicídio - o que em outra palavras, seria um suicídio inverso, pois tal sistema, em si, constitui-se em um Programa Suicida como bem anota Paulo Arantes -, o que está fora de cogitação, portanto, rumina-se saídas dentro do próprio sistema.


Caso retomemos o primeiro link, leremos o liberal Krugman falar na raridade de momentos como este, falando que embora recessões sejam normais, as depressões são fatos completamente excepcionais na "história econômica" - claro, na história capitalista. Certamente são essas depressões os momentos que devem ser chamados crises: O momento da decisão e da diferenciação, quando, diante de uma bifurcação, a Ordem precisa se reorganizar para voltar a responder à maior parte das demandas sem deixar de se auto-sustentar - ainda que possa, e até precise, fazer concessões para tanto -, o que nem sempre é instantâneo ou retíleneo. A pressão dos setores explorados constitui outra variante na planilha - especialmente caso se organizem, levando em consideração ainda o seu grau de consciência e compreensão conjuntural. Ordem capitalista, compreenda-se, nem sempre se confunde com o próprio Governo do Estado. 


O Brasil não está fora desse mundo. Em que pese ter saído mais rápido do momento incial da crise, ela descreveu uma curva. Ademais, temos alguns descompassos. Se por um lado, fizemos, ao longo do tempo, uma política inteligente de estabilidade fiscal desde o início do Governo Lula, com a adoção de superávits e de uma política contraciclíca, por outro, a regulagem da taxa de juros pelo Banco Central sempre esteve descalibrada ao longo dos últimos anos - ainda que no atual governo se pratique taxas menores do que no Governo FHC, não resta dúvida que seu valor excede o nível de aquecimento da economia - bem como a política cambial esteve à deriva. Se de um lado o crescimento aumentado pelas políticas do PAC - e depois o aporte bilionário junto ao setor produtivo durante a Crise - provocaram uma absorção dos impactos, do outro, a demora do BC em cortar as taxas de juros, oneraram a economia - pelo gasto que ela provoca e pela maneira como colabora para a valorização da moeda, o que de uma vez só, reduz o superávit comercial e aumenta o gasto público. Isso é péssimo. 


Primeiro, depois de uma retomada aguda do crescimento, vem uma desaceleração provocada pela nova oscilação do mercado externo. Para além do catastrofismo, essa matéria do Estadão, ilustra a situação de deterioração das contas externas - no entanto, ela simplesmente não explica de onde veio o gasto público. Parece que falamos de algo que surgiu do nada, citar que existem problemas é normal, afinal, a culpa é atribuída ao atual governo - no entanto, silencia-se a respeito desses fatores, pois eles favorecem precisamente alguns interesses que o referido jornal está junto. Um ponto lateral, mas de relevo foi, entretanto, surpreendentemente lembrado: O aumento agressivo das remessas das multinacionais para seus países-sede como forma de cobrir balanços. Isso, no entanto, nutre uma relação com o próprio valor do câmbio apreciado.


E política cambial é matéria de controvérsia na teoria econômica. Grosso modo, os defensores do dito "câmbio livre" partem do pressuposto que as interferências do Estado na cotação cambial - como no caso mais radical de fixação do valor da moeda nacional - provoca distorções, postulando que a função do câmbio é servir muito mais como um transmissor de informação para o Estado regular suas políticas econômicas em cima do valor dado - que seria a expressão real das necessidades econômicas. O câmbio flutuaria, portanto, naturalmente. Os opositores dessa tese afirmam que nunca haverá a expressão real dessas necessidades econômicas, pois a construção do dado cambial é uma decorrência da atuação de determinados agentes visando o estabelecimento do seu valor - ou produzindo efeitos sobre ele em decorrência de decisões suas -, deixado livre, o valor cambial poderia, portanto, ser facilmente distorcido por  certos agentes, o que pressupõe uma descrença na auto-regulação do mercado e a ideia da construção do dado cambial como forma de alavancagem do desenvolvimento. Se para os primeiros, ele é praticamente um indicador, para os segundos, ele se trata de um instrumento. Como a primeira hipótese pressupõe a neutralidade dos agentes no processo de construção do valor cambial, logo, tendo a discordar dela.


A divergência em tela, entretanto, passou batida porque momento da economia mundial produzia um efeito interessante, onde os liberais poderiam dizer que a estabilidade era fruto do equilíbrio natural produzido pelo câmbio livre enquanto seus variados opositores podiam dizer que a estabilidade era fruto do aquecimento do mercado mundial que mascarava os efeitos do câmbio valorizado. Os atuais movimento apontam para a segunda hipótese. Evidentemente, o câmbio livre sempre chega a um equilíbrio, mas esse ajuste por se dar por bem ou por mal: Todo avião que levanta voo, desce, não importa como, caindo ou pousando. Isso é o que está em questão aqui. Construir uma política cambial clara e por fim ao descompasso entre as necessárias políticas de aceleração de crescimento e a política monetária são itens urgentes ainda do atual governo - e do próximo. 


Por si só, não bastará, claro, o desenvolvimento econômico demanda aumento da gestão social do patrimônio econômico e uma ação propositiva acerca do impacto da produção sobre o equilíbrio do meio-ambiente - o que se encontra dentro de um agenda reformista, o que não é solução para o problema central, o que, até a criação de uma vontade organizada revolucionária de novo tipo, é o que nos resta, embora a primeira seja tática e a segunda dificilmente possa ser construída por dentro do Estado. Seja como for, a saída para o Capitalismo não é, certamente, o descapitalismo. Nesse sentido, a candidatura Serra vociferando contra o descompasso da política econômica soa estrepitosamente falso, seja porque não tenha força para empreender um tensionamento com o setor financeiro ou por suas declarações estabanadas acerca de política externa possam ter resultados econômicos negativos imediatamente. Isso não isenta Dilma de ir além do Governo Lula, o que será necessário não só na campanha como também em seu eventual Governo. A candidatura Marina se perde nas divagações liberais de sua equipe enquanto a de Plínio acerta na coisa, mas erra nas proporções e na velocidade por subestimar a complexidade do processo e das variáveis. Em suma, trata-se de uma questão que exige uma resposta no curto prazo dos candidatos e o PT prossegue menos distante nesse assunto.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Serra e as FARC

(Pára-militares Colombianos, provas-vivas de que o jogo é bem mais complexo do que Serra faz parecer)


Se existe uma coisa patente nesta campanha eleitoral é a quantidade de factóides produzidos por minuto. Impossível acompanhar todos, a menos que você esteja debruçado vinte e quatro horas sobre as eleições. Também não seria o caso de ficar jogando informação paranoicamente, essa não é proposta daqui d'O Descurvo - muito pelo contrário, o objetivo deste blog é matar a bola da overdose de informações no peito e cadenciar o jogo de forma racional. Em suma, a questão aqui é avaliar criticamente e sem sucumbir às exigências do "tempo". 

Para quem desconhece o termo, "factóide" é um suposto fato político, lançado no ar por algum candidato ou por um governante, que pode ser verdadeiro ou não - mas pela matéria que se trata ou pela pessoa a quem se refere, é possível, ainda que isso pouco importe, quem fala, não tem essa intenção. É difícil que algum adversário produza um factóide dizendo que Plínio de Arruda Sampaio recebe dinheiro de associações neonazistas do Grande ABC, mas o mesmo não se pode dizer de um factóide onde ele seja financiado integralmente por Cuba - embora claramente absurdo.

Pois bem, a questão é que a candidatura do candidato da oposição, o tucano José Serra, até agora, é uma sequência de factóides. Muitos das quais terceirizadas pela "grande" mídia que, via de regra, está alinhada com sua candidatura, além de outras tantas que começam a vir de sua boca e, em especial, do seu vice, Índio da Costa, numa campanha que é a dissimulação em estado puro - onde não se sabe se bolsa família é "bolsa-esmola" ou se foi invenção de FHC, sendo essa última, a falácia recorrente quando o discurso serrista toma um viés mais, por assim dizer, "social", o que pode ser facilmente desmentido.

No entanto, Índio, um vice obscuro escolhido à revelia do cabeça de chapa, é aquilo que pode se chamar de militante de direita padrão. Ele puxa a campanha de Serra para a direita. Vejamos, embora as dissimulações, a campanha serrista oscilava mais para dizer que a questão não era discutir o Governo Lula, mas sim em apresentar alternativas para depois, dizendo que o Brasil pode mais - fazendo até críticas por um viés desenvolvimentista. Mudava a plateia, claro, mudava o discurso, mas o a linha geral, para o "grande público" era a primeira, o que não era condenado pela segunda plateia, que via como uma "astúcia" em um jogo que vale tudo. Com Índio, a tese do bolsa-esmola torna-se mote.

Entre os factóides que o nobre deputado carioca soltou, o maior foi envolvimento do PT com as FARC. Pior, se antes algumas das besteiras que Índio soltou pelos cotovelos lhe valerem  repreensões da coordenação de campanha serrista, esta, Serra encampou publicamente. Uma resposta contundente, simples e precisa para a questão foi a de Brizola Neto:

"O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso defende publicamente a legalização da maconha como forma de superar o problema da criminalidade ligada ao narcotráfico. Concorde-se ou discorde-se dele, isso não dá a ninguém, exceto a quem seja um crápula, o direito de dizer que o ex-presidente é ligado ao uso de drogas. Seria uma infâmia, uma calúnia, um ato odioso. Se o PT e outras forças políticas defenderam ou defendem a negociação com o movimento guerrilheiro das FARC como forma de superar os impasses políticos que, há décadas, consomem vastas áreas da Colômbia, isso igualmente não dá a ninguém o direito de dizer que, por isso, são ligados ao terrorismo. É uma mentira infamante, um ato de oportunismo tão grande quanto o que se apontou no parágrafo anterior."
Ora essa, sabe-se que o PT sempre defendeu uma saída negociada para a Guerra Civil que vitima a Colômbia há quase meio século. Sabe-se que o PSDB, pelo menos no Governo, defendeu o mesmo - e que FHC declarou, publica e orgulhosamente, ter negado a proposta de Clinton segundo a qual o Brasil deveria ajudar - militarmente - a "normalizar" a situação do país vizinho. Mais do que isso, apesar de que tenha sido com algum atraso - coincidentemente depois do seu Governo -, hoje, o ex-Presidente Fernando Henrique Cardoso se empenha na luta pela resolução do problema das drogas defendendo sua liberalização. Enfim, dizer como isso é essa afirmação de Serra não é apenas um factóide - e um factóide ruim por ser completamente ilógico -, Brizola Neto já o fez: Se o PT é ligado ao tráfico por isso, o PSDB também o é, mas evidentemente não é o caso. 


O aspecto que me interessa - além de reiterar aos incansáveis frequentadores deste blog a minha decepção com o baixo nível do debate nesta campanha - é o quão Serra é temerário. Já não é a primeira vez que ele dá passos errados e comete erros gravíssimos para alguém que quer ser Presidente. Acusar mentirosamente o PT é o menor dos problemas que ele está causando quando faz afirmações como essas: A questão aqui é como a ambição pessoal do candidato é tão grande que ele é incapaz de considerar o quão delicado é o quadro humanitário da Colômbia, um dos países com um dos maiores números de refugiados de guerra do mundo. Nada disso, o que importa é a campanha e diz-se o que bem entende, pouco importando a gravidade da matéria da qual trata. 


Já não é a primeira vez que isso acontece, aliás, os acusações até agora sem provas contra a Bolívia, contra a viabilidade do Mercosul - à revelia dos números - atentam para essa nuance particular do candidato Serra. Sobra verborragia e falta conhecimento de política externa, sempre que na falta de ideias, repete-se o "exemplo chileno", como se um país do tamanho do Brasil pudesse seguir o exemplo do nosso vizinho, cujas características econômicas, ainda por cima, são totalmente diversas das nossas. 


Autismo político é sinal de falta de senso republicano, o que foi patente nos seus governos na Capital e no Estado de São Paulo. Isso, como discutimos aqui é um enorme perigo em termos de política legislativa, mas na questão da administração pública, principalmente em termos de Política externa, é fatal. Honestamente, esperava que Serra mudasse um pouco para a campanha presidencial, pelo menos sendo o Serra dos anos 90, mas a cada minuto que passa, as coisas ficam piores e os riscos são tremendos. Quando tudo, até mesmo guerras civis, passam a ser enquadradas na lógica de classificação reducionista, binarista e, sobretudo, desumana que divide os fatos - e as pessoas - em instrumentos e obstáculos, aí, sim, temos realmente nuvens negras no horizonte.

sábado, 17 de julho de 2010

A Coragem de Cristina Kirchner e as Eleições do Brasil



A recente aprovação do matrimônio gay na Argentina, para além do tema central - o avanço dos direitos civis, em especial naquilo que concerne à relação dos homossexuais com a coletividade da qual fazem parte -, traz à baila também um séria de outras questões, de cunho geral, cujas implicações não são menos importantes. Um ponto que me chama, particularmente, a atenção diz respeito àquilo que concerne ao desenvolvimento de meios para o exercício do poder em uma "democracia representativa", cujo fim é a resposta de certas demandas essenciais, cuja necessidade embora evidente - e facilmente demonstrável à luz da razão - tem sua resolução prática bloqueada por fatores condicionantes ligados à ideologia dominante ou à própria cultura.

A indagação que eu me faço se funda no seguinte: Podemos saber e demonstrar racionalmente porque os gays devem poder casar se assim porque programas sociais devem ser executados para a realização da população, mas como construir, concretamente, os mecanismos para tanto, diante da frágil estrutura das sociedades contemporâneas, levando em consideração que qualquer movimento hoje - mais do que nunca - pode facilmente restar neutralizado por um teia social que é complexa como a trama de aranhas e, ao mesmo tempo, frágil como cristal. Essa indagação não concerne a como formular qualquer estratégia fundada, digamos, em uma espécie de consenso formal, vago e cândido - até porque não há simetria entre os atores -, mas sim como conduzir a confrontação dentro da conjuntura exposta - com as estruturas de poder, tal como dadas, enquanto elementos construíveis e transformáveis com a emancipação humana como meta e não como ideal.

Larguemos as abstrações e relacionemos isso com o Brasil contemporâneo - que se encontra, vejam só, às vésperas de suas eleições gerais. Assistimos sete anos de Governo de uma das mais relevantes agremiações de esquerda surgidas na América do Sul desde o último quarto de século, que termina com altos índices de aprovação e, agora, a ex-Ministra Dilma Rousseff concorre à Presidência pela situação contra adversários, cuja formação política se deu à esquerda no espectro político - e falo aqui de José Serra, Marina Silva e Plínio de Arruda Sampaio, o que muito embora isso não coincida com as posições atuais de todos eles. Os outros  oito anos anteriores foram de governo de um ex-professor de Sociologia - que embora restasse convertido ao credo mercadista, passava ao largo de ser um reacionário - ainda assim, restam inúmeros itens na agenda da Democracia brasileira no que concerne a resolução de certas demandas - seja pelo maquiavelismo do ex-professor, um cinismo político calculado, ou pelo reformismo fundado na lógica do distensionamento do ex-metalúrgico que ora nos preside.


Aparentemente, quando pensamos na política argentina à luz da lógica do possível que nos é vendida pelos dirigentes - com suas insígnias de ex-comunistas, ex-socialistas e que ainda ostentam a posição de democratas convictos e militantes -, não faz muito sentido as conquistas em determinadas áreas que o país vizinho teve, seja na área de mídia, de reforma material do judiciário local - com a indicação de juristas progressistas para sua suprema corte -, da política econômica - no enfrentamento direto da banca depois da quebra em 2001 - e agora com a lei que possibilitou o matrimônio gay. Evidentemente, a Argentina é um país menor e de certa forma menos complexo do que o Brasil, mas não resta dúvida que muito do que foi conquistado lá poderia tê-lo sido feito aqui; seja sob a égide do reformismo lampedeuziano dos tucanos ou, principalmente, o reformismo cauteloso porém obstinado dos petistas - se estivesse falando de futebol, diria retranqueiro, mas não cometerei tal impropriedade -, o desenvolvimento de certos instrumentos políticos para a concretização de certas metas - que são consensos civilizatórios - poderiam ter sido desenvolvidas de outra maneira.


Como já debati aqui, muitas vezes, a construção da realpolitik esbarra em um problema claro, que é a delimitação do que é o real, em outras palavras, do que é o possível - antes mesmo do reducionismo que essa espécie de política demanda que seja feito em relação à coletividade. Por exemplo, ontem, o Raphael Neves divulgou pelo seu twitter uma informação curiosa, do Clarín, sobre como se comportaram as bancadas do Senado Argentino durante a votação. Não, Cristina não tem maioria no Senado. De 72 cadeiras, Cristina tem 29, 9 são peronistas dissidentes - dentre eles o ex-Presidente Carlos Menem -, 18 são da tradicional União Cívica Radical e 16 senadores de outras agremiações - dentre eles Independentes e representantes locais. O que ela teve de empreender foi a aprovação de um lei que apesar de ser perfeitamente constitucional, mas altamente polêmica por se contrapor aos interesses da Igreja Católica - com cada vez menos praticantes, mas ainda com uma relevante influência nas estruturas políticas -, com o apoio de um pouco mais de metade das pessoas, segundo as pesquisas de opinião - o post de Ariel Palacios vale a penas ser lido - e, claro, a desvantagem de cadeiras na referida Casa Parlamentar. 


O modo como Cristina trabalhou por fora das insituições, no esfera de discussão pública, usando a visibilidade que seu cargo no executivo lhe dá para afiançar a proposta e como trabalhou dentro e fora de sua bancada foram fundamentais - o que, naturalmente, ainda encontrava o complicativo de que muitos dos seus senadores não iriam votar mesmo no Projeto de Lei. A ação foi bem articulada, pois se deu por fora e por dentro do Senado, se articulando junto aos movimentos de reivindicação e à multidão em geral. Quanto a hierarquia da Igreja se deu por conta, a aprovação seria inevitável, o que a fez reagir de maneira totalmente descontrolada, o que serviu ainda mais para enfraquecer sua posição. Quando até mesmo figuras como cardeal Bergloglio, segundo no último conclave, perde a compostura, tudo estava perdido.


No Brasil, no entanto, pouco se fala. A repercussão do acontecido na República vizinha fez com que o vice da Chapa de Dilma, Michel Temer, se dissesse favorável à União Civil entre pessoas do mesmo sexo, posicionamento no qual está acompanhado pela titular de sua chapa - o que não é a mesma coisa do que o matrimônio, digamos, é uma saída pelo meio - enquanto Marina Silva disse que o "casamento é um sacramento" - fazendo sua habitual confusão a respeito da laicidade do Estado ao olvidar que estamos falando do instituto civil do casamento, não de algum ritual religioso, mas aparentemente apoiando alguma espécie de saída como a União Civil. O católico Plínio de Arruda Sampaio já se mostrou favorável à liberação das drogas e da legalização do aborto, ainda que, no entanto, não saiba sua posição quanto às últimas notícias que vêm de Buenos Aires. De José Serra, candidato que apesar das origens está à direita do centro nessa campanha, desconheço o posicionamento.


Esses posicionamentos refletem bastante o que se pode esperar das principais forças políticas brasileiras. O PT prosseguirá pelos próximos anos seguindo a rígida estratégia político-institucional com uma proximidade junto aos movimentos sociais enquanto força subsidiária - em momento algum, o PT se afastou dos movimentos reivindicatórios, o que não quer dizer que os tenha mobilizado, a estratégia lulista se centra num caminhada por uma linha reta e tênue no extremo que separa o não agir extra-institucionalmente e o poder agir, o que serve para arrefecer ânimos reacionários de certos setores e, ao mesmo tempo, manter os movimentos sociais por perto com o aceno constante de poder mobiliza-los - com o socialismo enquanto ideal e não como meta, ainda que determinados pontos como Reforma Agrária, Democratização da Mídia ou a Reforma Política sejam itens que, como os próprios nomes sugerem, estão distantes de qualquer tópico revolucionário e se enquadram como demandas concernentes ao próprio processo civilizatório. Abrir mão disso enquanto meta seria abrir mão da própria identidade de partido à esquerda do centro, o que poderia fazer com que o Partido dos Trabalhadores acabasse engolido pelas transformações que ele próprio ajudou a construir no plano econômico, como a redução do exército de reserva e a redução severa da fome, o que em uma gradação considerável serviu para o avanço da emancipação humana no país.


Como coloca André Singer, se o PT, depois de ter dados importantes passos em reverter no plano econômico o declínio severo agudo dos anos 80 e 90 - e ter dado uma profunda contribuição para a democratização do país - não se voltar para a politização do sub-proletariado ascedente - embora eu discorde do termo "subproletariado" como já expus aqui, leiamos proletariado urbano estabelecido -, fatalmente verá as mudanças que ajudou a produzir o engolirem; essa hipótese faz sentido porque depois de ter alcançado determinadas conquistas, a tática anterior se esgota exigindo novos passos que se não forem dados fatalmente produzirão um retrocesso ou o surgimento de uma outra força capaz de catalisar essas forças - mesmo negando os méritos petistas na construção dela. Mesmo o não avanço na agenda das reformas citadas, demandas claras e urgentes, pode provocar o mesmo efeito. O exemplo que fica da Argentina é de que existe a possibilidade da efetividade de um discurso, cuja articulação não se restrinja à esfera institucional, como instrumento para a consecução de um fim que, por ora, demande a ratificação das institucionais. As possibilidades de atuação do PT junto à coletividade são, inclusive, maiores do que as do Partido Peronista. A questão é que não bastará a Dilma administrar o projeto que lhe foi legado, mas construir ou permitir que se construa uma renovação interna, o que é uma missão complexa.


Por outro lado, se o discurso - e a tática que lhe fundamenta - do PT corre por vias demasiadamente institucionais - buscando o aperfeiçoamento dos mecanismos de hegemonia nesse plano sem aprofundar-se para fora dele -, o PSOL erra ao passa demais por fora das instituições, insistindo, ainda, na disputa por espaços extra-institucionais já existentes - quando poderia também e prioritariamente buscar articular outros tantos setores, que restam desorganizados. Tal erro Psolista reside numa leitura equivocada da conjuntura atual, ignorando certas ferramentas existes, o que implica na impossibilidade prática de concretizar determinadas metas, com a redução dessas a meros ideais de forma involuntária. 


A candidatura verde de Marina Silva prossegue com os mesmo problemas de alguns meses atrás: A insistência em um discurso que substitui o republicanismo por certo moralismo cristão - o que serve, por convicção, de entrave para determinados avanços do mesmo modo que o faz o realismo eleitoral petista -  e o baixo grau de concretude e coesão do PV pelo país são temas pungentes. O programa econômico ecológico-liberal também esbarra num erro elementar entre causa e efeito na questão ambiental, estabelecendo-se como a tentativa esquizofrênica de resolver os problemas pela consequência e não pela causa. Serra, do seu lado, está enclausura num projeto hegemônico quase que pessoal no qual mesmo as (poucas) boas intenções da sua visão tecnocrática de mundo restam neutralizadas pelas alianças que teve que fazer.


O ponto é que se uma análise rápida do sistema político-partidário brasileiro leva ao pessimismo, o advento na Argentina no prova que, necessariamente, há saídas e o que está posto na política é mais móvel - ou se desmancha no ar mais fácil do que imaginamos - do que nos é feito pensar - sobretudo que a articulação dos meios práticos para tanto é uma atividade mais dura do que sua realização. Ademais, um ponto central nisso tudo é como muito a organização dos atores pode e deve passar por fora do sistema partidário, ainda que não deva despreza-lo; a construção de espaços públicos para ao compartilhamento do conhecimento, reflexão, discussão e intervenção na realidade, com as devidas salvaguardas para evitar seu aparelhamento, constituem caminhos interessantes, ainda que a indagação feita lá em cima permaneça em aberto. Na falta de uma praça pública, construamos várias e interliguemo-nas no futuro.





domingo, 23 de maio de 2010

Datafolha: Day After

Como é de costume, me presto a analisar aqui as coisas com um certo distanciamento de tempo. O fato político de ontem foi a divulgação do resultado da pesquisa Datafolha mostrando o empate entre Dilma e Serra, depois da petista, supostamente ter subido 7 pontos e o tucano ter caído 5. Como é sabido, a última pesquisa do mesmo instituto apontava para uma vantagem serrista de 12 pontos percentuais, uma tendência que claramente contraduzia os demais institutos e, pior, foi justamente o Datafolha, às vésperas do lançamento da candidatura de Serra, que começou a apresentar pesquisas que, no duro, eram pontos fora da curva, incongruentes, inclusive, com sua própria pesquisa espontânea, que demonstrava a liderança de Dilma nos mesmo níveis dos demais institutos.

Quando do primeiro ponto fora da curva do Datafolha, o Sensus e o Vox Populi registravam empate técnico entre os candidatos. Em um primeiro poderia-se dizer que alguém errou, depois, com uma nova série de pesquisas demonstrando a mesma contradição, só era possível que alguém estivesse mentindo e, assim, começou uma guerra de acusações, com uma pressão imensa sendo jogada sobre o Sensus e o Vox Populi - institutos desprovidos de um meio de comunicação próprio, ao contrário do Datafolha, para conseguirem se debater publicamente de igual para igual. Ao mesmo tempo em que isso acontecia, o Eduardo Guimarães e o pessoal do Movimento dos Sem Mídia entraram com uma ação no Ministério Público pedindo a investigação das pesquisas eleitorais pela PF. 

Acusações de um lado, acusações de outro, talvez a perspectiva fosse essa mesmo: Institutos demonstrando resultados diferentes até as eleições - o que geraria uma tensão absurdamente grande até lá. Ainda assim, os dados do Datafolha eram inexplicáveis, depois de meses registrando uma leve e constante queda de Serra e uma ascenção vigorosa de Dilma, ele passou a apresentar uma curva diferente sem ter acontecido nenhum fato novo relevante para tanto. As últimas pesquisas do Sensus e Vox Populi, inclusive, demonstraram que Dilma ultrapassou Serra. De repente, de uma penada só, aparece o Datafolha de ontem com uma pesquisa mostrando uma incrível variação de Serra para baixo e Dilma para cima.

Ao passo em que isso acontece, surge uma argumentação recorrente e aparentemente coordenada nas páginas da Folha: Dilma cresceu por conta da propaganda fora do tempo na qual Lula aparece ao lado de sua ex-ministra. Como se Serra não tivesse super-exposto, como se não tivesse feito propaganda da Sabesp pelo país inteiro. Evidentemente, todo o movimento da pesquisa estranha do Datafolha, a forma como os demais institutos foram atacados nas páginas da própria Folha de São Paulo e a maneira como o recuo se deu com a tese da responsabilização do crescimento de Dilma por conta de "trapaça" - ecoando pela edição inteira de ontem -, é tudo mera coincidência.

Em suma, nada de novo sob o Sol. A Folha perdeu o prumo já não é de hoje. O episódio da Ditabranda foi emblemático, um divisor de águas numa escalada que, no entanto, não começou ali. A Folha foi o jornal que mais colaborou com a Ditadura em si, apesar da família Frias ter colaborada menos do que os Mesquita com o Golpe de 64. O problema é que o velho Frias movia seu produto para o lado em que o vento apontava e nisso ele era bom, de repente, a reformulação que ele promoveu no jornal nos ano 80, jogou todo os ônus de colaboracionismo para o Estadão. Nos anos 90, ainda que com o apoio ao tucanato, nunca faltaram páginas para os petistas porque qualquer iniciados na brasilianística sabia que o telhado do projeto de FHC era de vidro. 

O erro está com Otavinho, o menino que quis fazer o vento em vez de segui-lo: Ele conseguiu acabar de uma vez só tanto com aquela ideia do jornal que ouvia "os dois lados" - transformando seu jornal em um panfleto serrista - e, ao mesmo tempo, trouxe à tona os esqueletos guardados no armário, que estavam ali, vejam só, desde os anos de chumbo. Agora, foi a vez de destruir a reputação do Datafolha, um instituto consagrado ao longo dos anos 80 e 90. A direção atual da Folha conseguiu a proeza que uma geração inteira de esquerdistas, muitos deles estranhamente entusiastas daquele jornal, não conseguiu.

Por outro lado, resta a tristeza quanto aos rumos da jovem - e quem sabe pretensa - democracia brasileira, cujo debate público se resume atualmente à guerra de pesquisas. Dilma representa uma continuidade de um projeto que conseguiu ter mais prós do que contras, diferentemente de todos os outros que lhe antecederam - um projeto que, suspeito, ainda conseguirá fazer o mesmo pelos próximos quatro anos, depois, depende de sua reinvenção -, enquanto Serra representa o desequilíbrio de uma oposição perdida, que não sabe se quer se assumir como a continuidade ou como o arauto do antipovismo - ainda que, na prática, seja a segunda opção mesmo. O PV está rachado e a candidatura Marina não consegue pautar o que quer - o que não sei exatamente se seria bom. No PSOL, Heloísa Helena conseguiu provocar danos demais ao partido, o que enfraqueceu a própria posição de um Plínio de Arruda Sampaio em estabelecer-se como um contraponto produtivo à esquerda - ainda que em termos projetivos, evidentemente, não havia esperança alguma quanto a isso. Por ora, é o que temos.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

O Andamento da Campanha

Entre factóides, pesquisas estranhas, um número enorme de eleitores ainda indecisos - ou mesmo que ainda não se deram conta que Lula não pode ser candidato em Outubro -, as coisas vão se delineando nos bastidores.

A aliança entre PT e PMDB, que é dita e sobredita, com Lula já admitindo como razoável o cargo de vice para Temer, é uma dos pontos mais relevantes para o que pode acontecer no final do ano - e, se a empreitada der certo, um evento com efeito considerável para os próximos quatro anos. O PMDB pode assumir a mesma postur cínica dos últimos anos e se beneficiar de quem ganhar a eleição ou pode se arriscar e ganhar algo mais. O PT ganha eleitoralmente com essa aliança, quer seja pelo tempo de televisão ou pela alianças nos estados (tirando palanques de Serra, por exemplo), mas dependendo como faça essa amarração, pode se complicar nos próximos quatro anos.

O PSDB, por sua vez, se apóia na incerta liderança de Serra, que permanece em primeiro nas divergentes pesquisas estimuladas ao mesmo tempo em que perde para Dilma e também para Lula (?!) em todas as pesquisas espontâneas - entender porque as espontâneas se parecem entre si e as estimuladas divergem certamente é uma coisa que aguça a minha imaginação... também pesa o atual cenário onde muitos eleitores ainda estão indeciso, embora tendam a votar na continuidade pela forma como aprovam o Governo Lula. Pesa contra o PSDB também a crise no DEM e no PPS, o que pode dificultar a situação de um Serra eleito no Congresso.

As coisas vão caminhar com pequenas alterações pelo próximo mês - ou mesmo qualquer mudança mais brusca poderá ser revertida durante a época da campanha na televisão, o que realmente importa, por mais triste que isso seja. Em Junho, claro, as coisas param por conta da Copa, mas o resultado do Brasil ali não terá reflexos eleitorais - a não ser, claro, pôr a questão eleitoral na própria criogenia. Julho as coisas pegam e esquentarão mês a mês. Na briga da TV, veremos qual marketeiro se sairá melhor. Nos palanques estaduais, a aliança do PT com o PMDB no Sul pode ser fatal para Serra, desde que os palanques em São Paulo e em Minas sejam razoáveis - aliás, o primeiro discurso de Mercadante foi bom, o que forçará o enfraquecido Alckmin a trabalhar para ele mesmo e para Serra com mais afinco.

Do ponto de vista do que conta mesmo, o fato é que o exército de reserva de mão de obra está baixo e, nos últimos anos, apesar da renda do capital não ter sido direta e imediatamente ameaçada, a renda do trabalho aumentou - o que se manifesta pelo aumento do poder de reivindicação dos sindicatos, por exemplo. Isso gerará um movimento muito forte nos últimos anos e é por isso que muitos setores empresariais mantêm-se firmes na candidatura Serra, que exige um esforço pesado. 

Por outro lado, existem determinados setores capitalistas que estão com o PT porque vislumbram que esse eventual fortalecimento da classe trabalhadora passará por dentro do partido da estrela e assim ele será neutralizado - ou mesmo que, pelos próximos quatro anos, o projeto petista além de não ameaçar ninguém, ainda vai ajudar bastante. Do ponto de vista dos sindicatos e dos movimentos sociais, ficam algumas conquistas alcançadas no Governo atual - e um ressentimento por certos recuos diminuído tanto pela ideia do medo do PSDB quanto pela falta de opções.

O que o PT quer não está claro, mas muito provavelmente é continuar tocando uma política de articulação capital-trabalho bastante engenhosa - tanto que continuou funcionando bem em plena crise mundial, ainda que traga em seu interior certas incongruências que, cedo ou tarde, virão à tona. O PSDB, com seus eternos candidatos mais chegados a um projeto pessoal, encampam quem está insatisfeito com esse projeto ou quem o enxerga com desconfiança. Em suma, por vias oblíquas, não estamos falando de um confronto muito diferente daquele se via entre PTB e UDN nos fins dos anos 50 - claro, ressalvadas todas as diferenças.

Se Serra ganhar e mantiver a política de confrotação que se vê em São Paulo - ainda mais para os fins que ele está sendo projetado como candidato -, ele terá problemas, se por bom senso recuar, terá de mostrar a habilidade negocial que sempre lhe faltou; Dilma teria mais tranquilidade num primeiro momento, mas teria de lidar com a necessidade de renovar de maneira viável o projeto petista nos próximos anos. PSOL e PV terão uma função importante na próxima eleição, com o primeiro pautando a crítica ao Capitalismo - o que infelizmente vai ser prejudicado por suas deficiências internas e a dissidência que se vê no momento - e o segundo trazendo à baila a questão ecológica - que não é perfumaria nem se desvincula da questão econômica, muito pelo contrário.  

O Brasil tende a se transformar bastante nos próximos anos, quem não tiver em mente isso ou mesmo a capacidade de catalisar criativa e sustentavelmente o processo, terá problemas. Seja como for, a aparente calmaria dos anos Real tende a ser rompida. Seja lá qual for o Governo eleito, o próximo quadriênio será marcado por uma especial necessidade da nossa democracia se aprofunda e se sofisticar, pois as demandas tenderão a ser aproximar em complexidade.