Mostrando postagens com marcador Honduras. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Honduras. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 29 de junho de 2010

O G-20, a Ordem Mundial e o Aniversário de Honduras

(Cristina Kirchner na Cúpula do G-20 - Página 12)

Ontem, deparei-me com a declaração final do G-20 sobre mais esse capítulo da Crise Mundial. Esse peculiar clube dos Estados que, juntos, praticamente, monopolizam a produção econômica mundial. Sou do tempo quando ainda se falava em G-7. Os americanos, os japoneses, o Canadá e os quatro grandes da Europa - Alemanha, França, Reino Unido e Itália. Era um tempo de fim de festa - e de História - quando a União Soviética fez-se pó - com a fragmentação do país e uma crise aguda nos países recém-nascidos que apostavam numa transição absurda, para a felicidade de certos teóricos ocidentais -. a Iugoslávia se consumia no Guerra Civil sanguinolenta os holofotes ainda não se voltavam para China e Índia, enquanto o Brasil era apequenado pelos seus líderes.

A evolução do processo de mundialização do Capitalismo alterou profundamente a relação do sistema de produção com os Estados-nação, o que se configurava por uma nova configuração da divisão internacional do trabalho e do consumo, na qual o Estado deixava de ser a estrutura necessária para a manutenção do Capitalismo para se tornar instrumentos cômodos. Isso muda tudo. A informática é responsável em grande parte por isso, seja nas linhas de produção ou de comunicação. Nada de novo sob Sol, computadores e suas redes integradas são como as velhas alavancas, aumentam a eficiência do Trabalho, a sua peculiar natureza sob o sistema capitalista é como isso se relaciona com um sistema cujas unidades de produção, por excelência, funcionam de forma anti-sistêmica. Falo, portanto, de desemprego e avanço da desigualdade material.

Por outro lado, a alteração na relação de produção e comércio mundial nos leva a uma nova conjuntura que altera a relação de poder entre os Estados: Em dado momento, as potência ocidentais controlaram nacos consideráveis do mundo por meio do seu sistema financeiro e de instrumentos cambiais. Muito embora não produzissem mais, tinham moedas mais fortes, o que servia como mecanismo de controle. A mundialização das empresas as fez notar para outros fatores: O poder de comprar real das moedas. Se você instala uma empresa na China e aufere seus ganhos em dólar, não será nada animador, no entanto, caso o cálculo seja feito em cima do que aquilo pode comprar no mercado interno chinês, a história muda. Essa internacionalização fez economistas e analistas voltarem seus olhares para o tamanho real da produção ainda que, paradoxalmente, a dita economia financeira, tenha sofrido uma elefantíase, mas advirto: Nunca de forma descolada da realidade produtiva, talvez como sua parasita, mas o sistema financeiro não passa, como nunca passou de um instrumento político de realocação da mais-valia, ideologicamente legitimado .

O crescimento econômico mundial fez com que a China se destacasse. Comandada por uma tecnocracia que se corporifica no Partido Comunista, algo como uma imensa corporação monopolista nacional, o Trabalho é explorado - e a renda do trabalhador cresce em níveis muito abaixo de sua potente economia - e o país funciona como o fígado do mundo, recebe matéria-prima, processa exporta. A China mantém dessa forma boa parte do consumo mundial: Ela garante preços baixos e, ao mesmo tempo, usa parte desses ganhos para comprar títulos da dívida americana e papéis de todo tipo como forma de garantir mercados consumidores. Os trabalhadores, alienados da simples ideia do produto do seu trabalho são mal-remunerados, os tecnocratas, enriquecem.

Hoje, o chamado BRIC - grupo formado por Brasil, Rússia, Índia e China - detém mais de um quinto da economia mundial e dois quintos das reservas econômicas mundiais. A China é grande responsável por isso. Os quatro, juntos, formam um grupo deveras heterogêneo, mas que quando concordam em algo, possui um pode imenso para pautar o item na agenda mundial. A reservas monetárias, mais do que as bombas atômicas russas, chinesas e indianas. Isso esvaziou o poder desse G-7 - que no meio do caminho foi transformado em G-8, absorvendo a Rússia de Putin, suas bombas atômicas e seu Capitalismo de Estado. Mas ao invés de um G-11, fez-se um G-20 para completar todos aquele que realmente controlam o Capitalismo Mundial, restando uma fração pequena.

Ao meu pensar, o cerne da Crise Mundial é bastante simples: Trata-se de um esgotamento de um sistema econômica que, na prática, constitui-se como um projeto suicida - como bem define Paulo Arantes - e que, portanto, anda mesmo de mãos dadas com a esquizofrenia - se permitem o deleuzianismo. O modelo é um natimorto, uma tentativa de construção de um Capitalismo Mundial sobre as velhas estruturas nacionais, desprezando a lição de Lord Keynes, sem embargo, o maior defensor do Capitalismo que já existiu, que apontava para a construção de instituições internacionais e, inclusive, uma moeda mundial - para servir como referencial de troca. Sem isso, o Capitalismo Mundial teve de orbitar em torno da potência americana, mas seus líderes, incapazes de resistir aos acintes dos grupos de interesse específicos internos, viu-se incapaz de corresponder a tal tarefa.

George W. Bush antecipou aquilo que aconteceria em quinze ou vinte anos com suas políticas belicistas. Nem mesmo toda boa vontade do Partido Comunista Chinês em financiar suas aventuras bélicas, seria capaz de financiar a ponto de anular seu déficit nas contas pública que, junto ao déficit comercial - crônico, devido ao modelo consumista - corrói, dia após dia, a economia central. A tentativa de reequilibrar tudo com uma desvalorização do dólar representa uma saída simples no curto prazo, mas que só aumenta as nuvens negras no horizonte: Mesmo que os eurolíderes aceitassem tal medida covardemente, como aceitaram, isso só representaria uma transferência do desarranjo e não sua solução - pelo menos aqui parte-se do princípio que tirar a bomba do próprio colo para repousa-la no colo de quem está imediatamente ao lado não me parece estratégia viável.

A Europa merece um parágrafo à parte. Quando muitos analistas falavam na falência do modelo americano e a ascensão do modelo europeu, não restava outra coisa senão rir. O modelo europeu nada mais é que uma construção astuciosa das potências europeias para submeter as pequenas economias do continente - tudo sob os auspícios de lemas vazios envolvendo um dita solidariedade continental. Uma moeda única como instrumento geral de trocas para economias diferentes, com condições de equiparação falsas. Cedo ou tarde, os países periféricos ruiriam. Com os ajustes americanos, uma sobrevalorização do Euro - muito embora com um PIB capta alguma coisa maior do que a metade do americano, a moeda europeia ostenta, neste exato momento, uma taxa de câmbio 21% mais valorizado do que o dólar. A válvula de escape do comércio exterior à Europa é comprometida e traz à tona uma série de problema fiscais de países que nunca tiveram mecanismos reais para de equiparação.

A fagocitose fica clara. Euroautoridades aparecem com suas faces rosadas e escarnecidas culpando gregos, portugueses e espanhóis por sua irresponsabilidade. O programa de "ajustes" proposto para a Grécia, sem medo de exagerar, se coaduna com a mesma lógica genocída das terapias de choque do Leste Europeu nos anos 90 - e não deixa de ser ilustrativo de como o Capitalismo anda de mãos dadas com a esquizofrenia mesmo, até mesmo "terapias de choque" ganham seu lugar em momento de crise dependendo da escola do analista. Nouriel Roubini nos dá a real dimensão do choque quando compara a crise grega com a argentina de nove anos atrás. Voltemos à declaração final do G-20: É essa mesma lógica europeísta agora elevada ao cubo. Nada mais preciso do que a resposta da Presidenta da Argentina Cristina Kirchner sobre a tal lógica de ajustes: A Argentina é maior prova do desastre que a ortodoxia financista realmente é, seja pela hecatombe produzida nos anos Menem ou pela forma como o país escapou à sua falência, achando soluções diametralmente opostas a certo receituário.

Aqui não reside qualquer apologia à heterodoxia. Ambas, como os nomes suscitam, pertencem ao império da opinião e fazem jus ao seu nome. Ao menos os heterodoxos, por definição, não se pretendem os senhores da verdade e sabem que a real tarefa deles é achar as linhas de fuga que o Capitalismo necessita no campo da Política Econômica. Enquanto a ortodoxia é uma aguda forma de idealismo destinada a produzir contradições indissolúveis, a heterodoxia é uma forma de resolução das mesmas dentro da ordem, sem, no entanto, cogitar superar as causas - portanto, falo de uma máquina esquizofrênica de resolução de problemas pelas consequências.

Frente a isso, o sistema americano permanece incapaz de produzir saídas. O sistema político-partidário americano é incapaz de construir sequer resoluções para as consequências dos problemas, pois a flexibilização para se adequar a certas demandas parece impossível. Estamos às voltas com o primeiro ano do Golpe em Honduras, dia em que qualquer possibilidade do Governo Obama poder representar uma sobrevida ao modelo virou vapor. A História, portanto, vive - e estamos em um período de grandes e bruscas mudanças, comparável até aos anos 80.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Notas da Copa: Fim da Segunda Rodada, Portugal, Chile e Espanha

(foto retirada daqui)

Hoje, terminou a segunda rodada da primeira fase da Copa do Mundo. O destaque fica por conta da goleada portuguesa sobre a Coreia do Norte em jogo disputado pelo Grupo H: 7x0. Goleadas como essa só acontecem no futebol, entre equipes profissionais, porque o time goleado (I) queria derrubar o técnico; (II) não estava recebendo o salário; (III) não estava bem física e/ou mentalmente. Apesar que seja consenso a fragilidade do time norte-coreano, minha aposta vai na terceira hipótese: Por pior que fosse, tomar de sete é um supremo exagero e se explica pela instabilidade psicológica de uma time que segurou, em dois tempos contra o Brasil e um contra Portugal, uma das mais duras retrancas dessa Copa e, ao sentir a desclassificação bater à porta e, depois de ter tomado um golzinho de Portugal no Primeiro Tempo, abriu a porteira e levou seis na segunda etapa. Em outras palavras, o time lusitano treinado por Carlos Queiroz, praticamente carimbou sua vaga para as oitavas, afinal, precisaria ser goleado pelo Brasil e ver Costa Marfim golear a Coreia do Norte para ser eliminado pelo saldo de gols. Não sei o que será da próxima rodada ou melhor, como se comportará o Brasil já classificado e sem Kaká contra Portugal, mas suspeito que o time tem seus brios para não perder nem a invencibilidade nem a primeira colocação. Sobre Portugal, o time só jogou bem nesta Copa contra o time norte-coreano em pane no segundo tempo, fora isso, há muito o que provar.

O Chile, do técnico Marcelo Bielsa, é uma das poucas equipes que destoam da mesmice tática nessa Copa, além de jogar um futebol alegre e ofensivo. Em seu 3-4-3 - que lembrava o time argentino do próprio Bielsa que fez sucesso no quadriênio 1999/2002 até fracassar na Copa da Ásia -, o time chileno envolveu o 4/4/2 com duas linhas do time suiço, dominou o jogo, forçou cartões e uma expulsão, mas não conseguiu transformar volume de jogo em gols. Isso só mudou quando Bielsa alterou a forma do time jogar, botando Valdivia na ponta-direita no lugar do centro-avante Suazo, com Sánchez passando para o meio e Beausejour continuando na esquerda. Num enfiada de bola marota de ex-camisa 10 palmeirense para Paredes, ele cruzou para González fazer o gol - Paredes estava ligeiramente impedido, mas quando se põe uma defesa para jogar fazendo, sistematicamente, linha de impedimento, você deve contar com duas coisas: (I) Seus zagueiros não errarão jamais o posicionamento e sempre - disse sempre - terão o devido feeling e (II) Os bandeirinhas nunca - eu disse nunca - vão errar uma marcação. Chile 1x0 Suiça. Poderia - e deveria - ter sido mais, com esse resultado os chilenos jogam por um empate contra a Espanha, mas é um desafio imenso, haja vista o poder de fogo do time ibérico e o fato da Suiça jogar contra Honduras no outro jogo. Se os suiços passarem, ótimo, é do jogo, mas para quem gosta do futebol bem jogado e de criatividade tática, será triste.

O outro jogo ficou por conta da Espanha, praticamente no 4/3/3 como Villa, Torres e Navas no ataque, contra uma Honduras retrancada como no primeiro jogo - ou seja, no mesmo 4/4/2 com duas linhas com 4 fechando-se como a Suiça horas antes. Os espanhóis começaram num ritmo sensacional, massacraram e marcaram: Villa, um golaço - para recompensar os que ele perdeu contra a Suiça. Depois de muito apertar, ter um pênalti a ser favor não convertido, a Espanha diminuiu o ritmo e não conseguia fazer o segundo. No Segundo Tempo, ou Honduras iria partir para o tudo ou nada - o que conduziria muito provavelmente a uma goleada da Fúria - ou iria prosseguir se segurando - em outras palavras, iria tomar outro gol só na hipótese de um outro golaço como o de Villa. Nem tanto ao mar nem tanto à terra: Honduras se abriu, Villa fez outro, em um contra-ataque onde pegou a defesa adversária aberta, mas parou por aí, os hondurenhos voltaram a marcar e o jogo ficou por isso mesmo. Até agora, nada impressionante o time espanhol, ainda que tenha demonstrado qualidade. Disputará a vaga na última rodada contra o bom Chile. Resta saber se Honduras irá atrapalhar ou não a vida da zebra suiça. Pela inaptidão de ambos no ataque, talvez sim.

Foto 2 e 3 AP 

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Notas da Copa: A Alegria de Don Diego e a Mexicanada

(Maradona & Messi - Foto Ap)

O futebol latino-americano segue jogando bem: Até agora, só Honduras perdeu e foi para outro time do continente, o Chile. Hoje, tivemos a vitória da Argentina sobre a Coreia do Sul (4x1) e a vitória do México contra a França (2x0) - além dos dois primeiros gols e da consequente primeira vitória da Grécia numa Copa, 2x1 sobre a Nigéria, o que lhe colocou novamente na disputa.

Começando pelo começo, a vitória da Argentina sobre a Coreia do Sul foi um massacre. Maradona repetiu o 4/2-3/1 do primeiro jogo, com Di Maria armando pelo centro, Tevez pela esquerda, Messi pela direita e Higuaín no comando de ataque. Muito embora a defesa tenha navalhado novamente - o gol tomado hoje foi brincadeira -, é lindo ver o ataque dessa equipe jogar, é bom demais. Essa vitória foi uma bela cutucada naqueles que falavam que a Argentina não tinha chance nenhuma - parece até que ninguém se lembra de 2002, quando o Brasil chegou na Ásia desacreditado e contando apenas com um técnico carismático que unia um time cujo acerto foi se deu ao longo do próprio torneio. Claro, não vejo a Argentina como a favorita, mas ela está na briga sim pelo título e cresceu do primeiro jogo para cá. Aliás, não deixa de ser digno de nota a alegria de Maradona à beira do gramado. É contagiante.

Também pelo grupo B, os gregos bateram os nigerianos, conseguindo assim não apenas marcar seus dois primeiros gols em copas como também arrancar sua primeira vitória, botando fogo no seu grupo, onde a Argentina simplesmente sobra - para não perder a deixa, que participação horrível do futebol africano em uma Copa que sedia, não? Os nigerianos tiveram boas chances contra uma Argentina que se acertava, mas não marcaram nem um golzinho, agora apanham dos gregos, que coisa.


O jogo que eu vi na íntegra mesmo foi México 2x0 França pelo fechamento da rodada do Grupo A - que teve ontem a elástica vitória do Uruguai sobre a África do Sul por 3x0. Basicamente, o primeiro tempo foi horrível, com as equipes se anulando e pouco produzindo: Se de um lado os mexicanos alternavam um esquema 4/4/2 para um 3/5/2 sem sucesso algum, os franceses viam seu 4/2-3/1 - o esquema da Copa - naufrgar pela falta de um armador decente e de pontas criativos. Se Peréz não tinha trabalho no gol mexicano, Osório pouco fazia pela direita - e Malouda colaborava, anulando o jogo por aquele lado do campo -,  os bons zagueiros Rodríguez e Moreno anulavam Anelka, mas não tinham com quem sair, daí Salcido começou a fazer essa função se tornando um ala - até porque Ribéry nada fazia. No meio, Govou não armava para a França, mas os volantes mexicanos, Rafa Márquez e Juárez pouco faziam - principalmente o último -, enquanto dos volantes franceses, só Toulalan aparentemente entrou em campo - alguém aí, honestamente, viu Diaby? - e os meias mexicanos se negavam copiosamente a armar o jogo - Dos Santos e Torrado, que horror. O ataque mexicano, com Franco e Vela nada fez contra uma zaga francesas mal posicionada - Gallas e Abidal estavam irreconhecíveis -, enqaunto só apareceu para tomar um amarelo, o segundo só o fez quando saiu contundido para a entrada de Barrera, cuja atuação foi inscipiente no primeiro tempo.

Javier Aguirre, no entanto, soube mexer no time mexicano no intervalo e a equipe voltou com outro espírito. Saiu o insosso volante Juárez para entrar o atacante Hernández e, logo depois, saiu Franco, uma nulidade no ataque, para entrar Blanco. O efeito prático das duas substituições foi uma mudança no jogo mexicano: O ataque ganhou velocidade - até Barrera cresceu no jogo - e o meio, com Blanco, ganhou o toque de bola e a qualidade na saída de bola que não teve no primeiro tempo - com Rafa Márquez dando sinal de vida também. A França prosseguia morta, Domench tirou Anelka - muito mais uma vítima de um meio de campo ineficiente do que culpado do que quer que seja - e pôs Gignac - porra e o Henry? - e nada, como era de se esperar, mudou. O México, numa linda enfiada de bola de Rafa para Hernández, que entrava em velocidade, pegando a linha-burra da França no contra-pé deu no primeiro gol do time latino-americano. A França não cresceu, ao contrário, foi dominada cada vez mais, lançando-se ao ataque sem vontade, sem alma e sem responsabilidade também: Barrera, em jogada individual penetrou na área, foi derrubado para o veterano Blanco bater com firmeza e definir o placar.

Rodada encerrada no Grupo A e B e não tivemos ainda nenhuma equipe matematicamente classificada. Claro, se Uruguai e México, na próxima rodada, fizerem um joguinho de amigos e empatarem ambos passam, a questão é saber se os mexicanos aceitarão passar em segundo e assim, possivelmente enfrentar a Argentina - sim, porque o Uruguai tem um gol a mais de saldo -, o que poderia criar alguma situação. No Grupo B, pelo que se viu até agora, a Argentina deve enfiar uma cacetada na Grécia pela última rodada, mas ainda não está garantida - claro, ela precisaria levar uma goleada para ficar fora e ainda ver a Coreia do Sul vencendo a Nigéria bem, o que é extremamente improvável. O outro time que passa nesse grupo, aí, já é um mistério, tamanha a ruindade de parte a parte.

(A segunda foto é da EFE)

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Notas da Copa: Fim da Primeira Rodada e a Tragédia Sul-Africana


(Forlán, o carrasco de hoje - foto retirada daqui)

Hoje, terminou a primeira rodada da primeira fase da Copa e também tivemos o primeiro jogo da segunda rodada. O Chile de Marcelo Bielsa e Valdivia, como era de se esperar, bateu Honduras, mas ainda que tenha tido amplo domínio do jogo, não conseguiu fazer mais do que um gol sobre o adversário centro-americano - que, assim como boa parte das equipes desse torneio, se prestou apenas a ficar na defensiva arriscando um ou outro contra-ataque, ainda que tivesse um pouco de mobilidade. Fechando o Grupo H, aquilo que muitos consideravam impossível, aconteceu: A Espanha perdeu para a Suiça. O ponto é que os espanhóis são bons, leves, tocam bem a bola, mas lhes falta a figura do craque para romper sistemas defensivos funcionais. O ponto é que a Suiça aguenta tranco, ainda que não tenha um ataque dos sonhos - se tivesse, brigaria pelo título. Craque é o jogador que consegue fazer do imprevisível sua normalidade e só ele consegue furar esse tipo de retranca - o exemplo emblemático disso é o nosso Mané Garrincha contra a União Soviética na Copa de 58, não que eu espere um craque desse porte na Espanha, mas lhe falta um jogador capaz de superar esse tipo de defesa sim e é necessário um deles para levar a Copa. Desse jeito, a festejada Espanha acabou sucumbindo à marcação suiça e ainda tomou um gol no contra-ataque - por isso não falem besteira sobre a vitória apertada do Brasil na estreia, é para poucos furar as retrancas gloriosas dessa Copa. Terminada a primeira rodada, a Alemanha está uns degraus acima de todo o resto.

Tragédia mesmo ficou por conta da África do Sul de Parreira, cotada como provável desastre antes do mundial, a equipe teve um estreia interessante contra o México, onde só não ganhou por azar dos atacantes e uma infelicidade defensiva. A alegria da torcida, toda a animação, enfim, tudo foi por água abaixo frente ao disciplinado Uruguai de Forlán que lhe enfiou, agora há pouco, 3x0. Posicionado defensivamente da mesma maneira que esteve no jogo contra a França, o Uruguai abriu o placar com Forlán, chutando de fora da área ainda no primeiro tempo, aguentou a pressão desordenada da África do Sul, fez o segundo de pênalti e marcou o terceiro numa falha abissal da defesa adversária no fim do jogo. O placar praticamente qualifica o Uruguai para a outra fase e reforça três pontos centrais: (I)A boa campanha que o futebol da América do Sul realiza nesta Copa, refletindo o bom nível das eliminatórias locais, (II) A má campanha do futebol africano, haja vista que apenas Gana conseguiu vencer um jogo - ainda assim, jogando bisonhamente - e só a Costa do Marfim fez um jogo convincente e (III) as boas arbitragens, pois um ver um país-sede com poucas chances não ser ajudado não é pouca coisa - assim como o cômputo geral da coisa, onde os árbitros têm sido eficientes e corretos.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Honduras Ainda

A diplomacia brasileira, seja comercial ou propriamente política, tem obtido êxitos interessantíssimos no atual governo, apesar de alguns poucos erros. Um dos maiores, foi a nossa reação postura firme em favor da Democracia na América Latina, o que impediu a escalada golpista na Bolívia e resultou numa pressão muito forte contra o golpe hondurenho - um espetáculo tétrico, onde os EUA, a despeito da condenação momentânea ao acontecido, viram suas pegadas na ocasião serem, aos poucos, descobertas. Honduras é um país pequeno, mas é um ponto estratégico na América Central. O Governo Obama, por sua vez, dá sinais confusos desde o seu início e não se sabe exatamente se a Casa Branca anda se comunicando tão bem com a Secretaria de Estado, ainda que a militarização do nosso continente (ver Colômbia) é um bom indicativo do que se pretende - ainda que os gastos militares sejam, objetivamente, a maior ameaça à estabilidade econômica americana num futuro próximo. Entretanto, ainda nos vemos diante da problemática hondurenha: Zelaya foi deposto de forma bizarra, eleições foram puxadas sob estado de sítio e um candidato conveniente foi eleito, enquanto as infrações aos direitos humanos prosseguem acontecendo. Por outro lado, a construção de uma base aeronaval no país, pelos EUA, não parece também um sinal muito animador depois de tudo que aconteceu. É necessário abrir os olhos por aqui e os interesses que nos circundam.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

América Latina: Uruguai e Honduras

(Artigas na Cidadela - Juan Manuel Blanes - retirada daqui)

A América Latina, segundo o mestre Eduardo Galeano,
é o reino dos paradoxos - e eu creio que seja mesmo. Quando estávamos tão esperançosos nos anos do pós-Guerra e as nossas contradições nos pegaram de calças curtas: Pagamos um alto preço pela nossa juventude - a mesma juventude que era, ao mesmo tempo, a nossa maior virtude diante de um velho mundo esclerosado, cinza e em escombros. O Nosso clamor por Democracia, por incrível que pareça, sobreviveu, mesmo depois de ter sido pisado pelas botas dos generais e depois esfrangalhado por essa quimera chamada Neoliberalismo.

Crescia a certeza de que aquelas trevas poderiam ser eternas e junto com elas se agigantava a concepção de que a nossa tarefa, dali por diante, seria de apenas e tão somente carregar algumas velas para iluminar alguns metros mais adiante; de repente, o dia cismou em nascer - e nasceu. O início do século 21º começou de uma maneira bisonha para a maior parte do mundo: Os atentados de 11 de Setembro de 2001 como a tragédia (farsa?) necessária para a escalada da xenofobia, do racismo e do belicismo que estavam ali, sendo cozinhados juntinhos e com muito cuidado no "primeiro mundo". Para nós, não: Ele nasce com a vitória de governos progressistas que se prestaram a desmontar, em maior ou menor grau, a estupidez a qual estávamos (aparentemente) condenados.

O primeiro grande balde de água fria nesse processo foi o Golpe em Honduras. Golpe típico da nossa história em uma época atípica, um Paradoxo doloroso, sem dúvida. Logo em seguida, nos vimos diante de algo que se parece com o enredo dos nossos melodramas televisivos; as idas e vindas de um processo interminável ao qual estamos nos sentimos compelidos a assistir e perante o mesmo as nossas recém-nascidas e incrivelmente robustas instituições multilaterais lutavam com unhas e dentes pela não-interrupção do avanço da Democracia no continente; seus adversários iam desde um Imperialismo embolorado, escamoteado e dando seus últimos sinais de vida até o nosso próprio quintacolunismo crônico e paranóico.

Hoje, temos dois motivos para comemorar para só depois retomarmos a luta, afinal, nem só de peleja se constitui uma guerra:

O primeiro diz respeito ao fracasso da eleição farsesca em Honduras, cuja taxa de abstenção ficou entre 65% e 75% do eleitorado - isto é, algo entre dois em cada três hondurenhos e três em cada quatro não foi às urnas. Ainda estamos falando de uma longa luta, mas o povo de Honduras deu, em meio às circunstâncias, a mais potente resposta que poderia ser dada, por mais que a nossa mídia corporativa cisme em distorcer fatos e torcer ideias.


O segundo concerne à vitória de José Mujica no Uruguai, esse pequenino país, terra de José Artigas e do nosso bom Galeano - símbolo, em um dado momento, do que podíamos e gostaríamos de ser: Prósperos, pacíficos e possível, mas que acabou arruinado pelos mesmos motivos que quase todos nós; no entanto, depois da sua morte ter sido declarada, esse nosso pequeno estandarte cisma em renascer e agora, com a vitória do tupamaro Mujica, uma das figuras mais dignas e sacrificadas da política latino-americana, volta a nos dar o exemplo - se mesmo aquele que é um dos menores de nós pode ousar tanto, qual o motivo para nós não seguirmos o mesmo caminho?

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Honduras - Estado de Exceção (II)

Não canso de repetir que mesmo um relógio quebrado marca a hora certa duas vezes ao dia. Esse é o caso da Folha de São Paulo, jornal paulistano que protagonizou o lamentável episódio da Ditabranda, mas publicou o artigo abaixo do professor Pedro Estevam Serrano, um dos bons nomes da Faculdade de Direito da PUC-SP - uma luz de sensatez em meio às trevas da cobertura imoral que o jornal está promovendo em relação ao Golpe e consequente Estado de Exceção ocorridos em Honduras. Acabei pescando isso no blog do Jefferson Marinho que, por sua vez, pegou do blog do Favre que, pela vez dele, deve ter lido na própria Folha (o máximo eu que consigo é ver a capa dos jornalões aqui de SP, mais do que isso, minha gastrite ataca). Eis a blogosfera, o ambiente onde o cidadão comum pode não apenas produzir a própria notícia sem a mediação por si mesmo como também pode pescar e subverter criticamente o que sai na mídia corporativa. Deem uma olhada:

Constituição hondurenha não justifica o golpe


*PEDRO ESTEVAM SERRANO ESPECIAL PARA A FOLHA

O golpe em Honduras, que destituiu do exercício de seu mandato pelas armas um presidente eleito pelo voto, tem sido duramente repudiado pela comunidade internacional. Os golpistas usaram como justificativa o apoio da Corte Suprema e do Legislativo à deposição de Manuel Zelaya, fundando-se no artigo 374 da Constituição, que torna inválido qualquer plebiscito ou referendo que possibilite a renovação do mandato presidencial. A partir dessa justificativa, alguns articulistas têm adotado como verdade uma suposta juridicidade do golpe, que teria, assim, um caráter universal de defesa da Constituição.

Tal conclusão, contudo, não resiste a uma leitura minimamente sistemática do texto constitucional de Honduras. O artigo 374 da Carta Magna hondurenha efetivamente impossibilita reforma constitucional que altere o mandato presidencial ou possibilite a reeleição do titular do respectivo mandato. Em verdade, tal dispositivo é clausula pétrea da Carta.

A cláusula torna inválida qualquer alteração constitucional com tal objeto, mas não tem por si o condão de gerar a perda de mandato do presidente e muito menos dispensa o devido processo legal para tal sanção. O artigo 5º da Constituição impossibilita referendos ou plebiscitos que tenham por objeto a recondução do presidente ao mesmo mandato, sendo que o artigo 4º considera como obrigatória a alternância do exercício da Presidência, tornando crime de traição contra a pátria sua não observância.

Ora, a simples proposta de reeleição por um mandato do presidente da República não implica atentado contra o princípio da alternância, apenas altera o lapso de tempo pelo qual se dará tal alternância. O único dispositivo no texto que poderia servir de fundamento à possível perda do mandato do presidente seria, provavelmente, a alínea 5 do artigo 42 da Carta, que torna passível da perda dos direitos de cidadania, entendida como a capacidade de votar e ser votado, a pessoa que “incitar, promover ou apoiar o continuísmo ou a reeleição do presidente”.

Primeiro, a afirmação que a proposta de reforma constitucional de Zelaya implica inobservância de tal dispositivo merece algum reparo. O dispositivo pretende evitar o apoio e o incitamento ao continuísmo do detentor do mandato de presidente na época dos fatos. Zelaya tem afirmado que sua proposta é de possibilitar a reeleição de futuros presidentes, e não dele próprio. Assim, ele não teria apoiado, promovido ou incitado o continuísmo do atual presidente -ele próprio.

E, de qualquer forma, a alínea 6 do artigo 42 e diversos outros dispositivos da Constituição hondurenha determinam que a perda da cidadania deve ser aplicada em processo judicial contencioso e com direito a ampla defesa, observado o devido processo legal, o que não ocorreu de modo algum no procedimento adotado pelos golpistas e seus apoiadores.Ainda que se considerasse que Zelaya cometeu crime ao ter formulado uma proposta de consulta popular contrariamente à Constituição, que o devido processo legal seria desnecessário por não previsão de procedimento específico de cassação de seu mandato na Carta hondurenha, que a Corte maior daquele país sancionou a decisão golpista de detê-lo, a forma de execução dessa decisão foi integralmente atentatória a dispositivos expressos da Constituição de Honduras.

O artigo 102 estabelece expressamente que nenhum hondurenho pode ser expatriado nem entregue pelas autoridades a um Estado estrangeiro. Ter detido Zelaya ainda de pijamas e tê-lo posto para fora do país de imediato atenta gravemente contra tal dispositivo.

A conduta golpista tratou-se de um cipoal de inconstitucionalidades, ao contrário do que postularam articulistas apressados, mais animados pela simpatia ao golpe de direita que por qualquer avaliação mais precisa e sistemática da Constituição hondurenha. Os atos praticados formam um atentado grave a diversos dispositivos da Carta Magna daquele país.Em verdade, a conduta dos golpistas e dos que os apoiaram é que, clara e cristalinamente, constitui crime conforme o disposto no artigo 2º da Carta hondurenha, que tipifica como delito de traição da pátria a usurpação da soberania popular e dos poderes constituídos.

Podem querer alegar que, mesmo inconstitucional, toda a conduta golpista foi sustentada pela Corte maior. À Corte constitucional cabe o papel de interpretar a Constituição e não de usurpá-la às abertas. Sua autoridade é exercida não em nome próprio, mas como intérprete da Constituição, cabendo-lhe defendê-la, não destruí-la.

Ao agir como agiu, a Corte hondurenha realizou o que no âmbito jurídico tem-se como “poder constituinte originário”, ou seja, uma conduta política e não jurídica, originária, de fundação de uma nova ordem constitucional. Uma ordem imposta, de polícia e não democrática. Na ciência política, o mesmo fenômeno tem outro nome: golpe de Estado.

*PEDRO ESTEVAM SERRANO, mestre e doutor em direito do Estado, é professor de direito constitucional da PUC-SP

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Honduras - Estado de Exceção (I)

Publico aqui comentário que acabo de enviar para o blog do Nassif (este é o primeiro item de uma série que espero que termine logo):

Nassif,

O bom e velho Marx já dizia que a História pode até se repetir, como asseverava um certo Hegel, mas se da primeira vez ela se dá como tragédia, na segunda ela acontece como farsa. Enfim, sábias palavras; elas explicam perfeitamente o que se passa em Honduras, hoje.

Esse Golpe aparentemente é idêntico às quarteladas dos anos 60/70 na América Latina, absurdos descarados cujos autores tentavam, a todo custo, jogar uma mão de tinta tosca para racionalizar o inominável e banalizar o Mal – no entanto, se lá se tratavam de tragédias, eis que aqui estamos diante de uma genuína farsa.

No fim, a imagem que fica sobre a situação atual – e, meu caro Nassif, uma imagem vale mais do que mil palavras – é a foto tosca do suicídio montado de um certo jornalista Herzog; mais do que mau caratismo, defender que Herzog se matou, baseado naquela foto, era um sinal incontestável de esquizofrenia, do mesmo tipo daquela que se abateu sobre os Nazistas e os fez acreditar nas mentiras que eles repetiam mil vezes para que se tornassem verdade – e as imagens que vêm de Honduras só podem implicar na não condenação do Golpe se estivermos diante da mesma negação esquizofrênica da verdade e da justiça.

Os integrantes da mídia corporativa que defendem o Golpe que me desculpem, mas eu vejo nos olhos deles a manifestação da mesma loucura, o mesmo sinal do Mal.

Capacetes azuis em Honduras já.

Sem mais,
Hugo Albuquerque

terça-feira, 22 de setembro de 2009

O Cerco à embaixada brasileira de Honduras

Eu tenho acompanhado, consternado, a todo esse embróglio hondurenho desde o começo - e não escrevi nada acerca do mais novo episódio dessa novela simplesmente porque, cada vez mais, compreendo menos o que realmente está acontecendo. Neste exato momento, me vejo às voltas como os meus botões tentando juntar as peças, especular e, quem sabe, chegar a uma teoria aceitável do que se passa por ali; o Presidente de jure da República de Honduras, Manuel Zelaya está na embaixada brasileira em Tegucigalpa depois de ter entrado de finalmente ter conseguido voltar ao seu país. Detalhe: A embaixada brasileira está sitiada por tropas sob as ordens do Governo Golpista e água, luz estão cortadas. O Governo golpista - aquele que a comunidade internacional consensualmente não reconhece - exige que o Governo brasileiro entregue Zelaya.

Venhamos e convenhamos: Um erro bastante recorrente entre muitos pensadores de esquerda é aceitar a visão vendida pela ideologia hegemônica na qual o Direito se resumiria a uma estrutura meramente formal, objetiva e neutra, o que os faz rechaçar prontamente o Direito em si ao invés de demonstrar o quanto essa visão é falaciosa; evidentemente, o Direito possui uma dimensão formal, mas não se resume a ela; ele também possui uma dimensão material e outra substancial que, no entanto, são colocadas de lado pelo doutrinarismo jurídico padrão, principalmente quando se busca determinar o que é um Estado de Direito - o que não deixa de ser astucioso, afinal de contas, se fossemos discutir isso esses dois outros aspectos do fenômeno jurídico, nos pegaríamos diante de uma inevitável crítica ao Capitalismo.

Pois bem, pelo doutrinarismo jurídico padrão, Honduras era um Estado de Direito e estamos diante de um Estado de Exceção. Todavia, eu, aqui do meu cantinho, sustentaria que Honduras jamais foi um Estado de Direito e que o Golpe em questão foi apenas a concretização de uma das várias possibilidades decorrentes das contradições estruturais daquele país. No entanto, tal evento desconstruiu algumas bases que um dia poderiam servir para reversão desse quadro - que, aliás, não difere em essência, talvez apenas em gradação, do que ocorre ao redor do resto do planeta.

Seguindo adiante, vemos os golpistas hondurenhos, que apesar de não contarem com o apoio formal ou público de nenhum Estado ou organização relevante da comunidade internacional permanecem agindo de maneira consideravelmente temerária, o que faz as pessoas razoáveis desconfiarem do que realmente se passa lá dentro. No atual momento, o cerco à embaixada brasileira em Honduras é um sinal significativo do quanto essa situação parece descambar para um desfecho trágico.

Se boa parte das normas do atual Direito Internacional foram produzidas em inspiração de certas normas que já existiam entre as poleis helênicas numa tentativa de civilizar as relações entre Estados e combater a bárbarie, hoje, os sequestradores do povo hondurenho passam por cima de tudo isso e promovem o achincalhe da civilização em um evento histórico cujos desdobramentos históricos, principalmente no que concerne à construção da Democracia no continente, serão pesadamente sentidos - e, ironia das ironias, é nos ombros do Brasil que pesa a resolução disso.

Lula, por sua vez, compreendeu a dimensão histórica desse evento e o Brasil tem trabalhado duro para o desmonte dessa bomba relógio - apesar da simpatia que alguns setores da nossa sociedade nutrem em relação ao que houve na América Central; só resta saber se se esgotarem todas as possibilidades diplomáticas de resolução do problema - e falta pouco para isso acontecer - como reagiremos.

sexta-feira, 24 de julho de 2009

E a Esquizofrenia Pós-Moderna se Fez Golpe e Habitou em Honduras

Só é isso que se pode concluir em relação ao que se passa em Honduras ao longo desse mês. A começar por um golpe daqueles que há muito não se via - e cuja possibilidade de acontecer se supunha extinta -, passando por uma rejeição consensual da comunidade internacional e das organizações internacionais, chegando na tentativa frustrada de retorno de seu presidente constituicional, Manuel Zelaya. As próximas horas decisivas as quais eu me referia logo após ao Golpe se prolongaram a ponto do tempo deixar de fazer sentido.

De lá pra cá, os golpistas permaneceram em aparente isolamento e a Costa Rica, país mais estável da América Central, se apresentou como mediadora do conflito, numa estranha negociação envolvendo presidente legítimo e tirano. Os golpistas, claro, se usaram disso para levar adiante sua estratégia de transformar a exceção em regra pela força normativa dos fatos. Nem pode se dizer que essas negociações fracassaram, elas já nasceram fracassadas.

Zelaya tentou retornar hoje para Honduras novamente. Cruzou a fronteira por algumas metros e os militares, impassíveis - e impossíveis - não permitiram sua entrada. Simultaneamente, a Cúpula do Mercosul transcorria no Paraguai e os líderes do bloco mantiveram sua posição contrária ao golpe assim como declararam a favor de um endurecimento maior em relação aos sequestradores daquele país. Diante disso, não deixam de pairar dúvidas sobre o que realmente se esconde por detrás desse inusitado fato, afinal, nunca antes se viu um golpe que sofreu tamanho rechaço formal não cair em poucos dias.

Em tempos tão bicudos como esse, onde o Nazismo volta a ser medida possível - em toda a ambiguidade que essa expressão possa conter - mesmo na fala corriqueira de dirigentes políticos que não se originaram na extrema-direita, o golpe na pequena e pobre Honduras é um precedente perigoso e espantoso - mais do que o golpe em si, a tosquice dele salta aos olhos. O golpe nesse país centro-americano é, insisto, a expressão acabada da loucura de nosso tempo.

terça-feira, 14 de julho de 2009

Giro Rápido por um Mundo em Crise

Em Honduras, os golpistas prosseguem no poder. O Direito, como o seu próprio nome sugere, é aquilo que é próprio daquilo que é reto, ou seja, aquilo que está alinhado com o ideal. Se há o ideal ou se existem vários ideais é um debate longo que atormenta o Homem há muito. O fato é que há uma determinada ordem em Honduras que ao ser ameaçada resultou no golpe, ou seja, na instalação da exceção para reconduzir o país àquilo que é considerado ideal por sua classe dominante e que, ao meu ver, passa longe de ser reto: É o permanente oblíquo ao qual também estamos submetidos. Bem se sabe que a exceção vira regra pela força normativa dos fatos; posse vira propriedade - e os desbravadores do oeste estadunidense hão de concordar comigo - e tirania vira governo legítimo - como tenta repetir a oligarquia hondurenha repetindo seus pares latino-americanos - pela impossibilidade das coisas voltarem ao status quo ante pelo passar do tempo. Ironicamente, ao se digitar "presidente interino de Honduras" no Google se faz descobertas interessantes sobre a cobertura dada pela mídia corporativa ao evento.

Mais do que expor as nossas fraturas ainda expostas a crise hondurenha expõe também as dos nossos ricos irmãos do norte, que tem em Obama o necessário negociador para alterar a estratégia americana, o homem a quem foi imputado o dever de ceder o menor número de anéis possíveis em troca dos dedos que estão sob pungente ameaça: Ao mesmo tempo em que ele condenou o golpe publicamente e depois interrompeu o envio de verbas para os gloriosos programas de cooperação com Honduras, sabe-se agora que
o embaixador americano em Tegucigalpa se reuniu com os conspiradores às vésperas do golpe, o que suscita sérias dúvidas acerca do que se passa nos corredores escuros de Washington e quais serão os rumos de sua política de exceção for export tão necessária para manter a estabilidade interna diante das contradições inerentes ao seu sistema. Até que ponto a CIA se autonomizou como deu a entender um maledicente Chávez?

Do outro lado do mundo, a situação no Xinjiang pemanece tensa; ela expõe tanto os impactos da crise na China quanto a sua própria fragilidade que mora justamente no fato de ser um país étnica e socialmente fragmentado. As elites do país, que concentraram a renda decorrente do boom econômico dos últimos trinta anos de forma brutal, se vê às voltas com a necessidade de ceder os anéis, mas nunca parece disposta a tanto. Por outro lado, o fato do primeiro-ministro turco ter apontado o dedo para os chineses denunciando um suposto genocídio
me parece um tanto irônico.

Na Europa, o centro-direitista polonês
Jerzy Buzek é o novo Presidente do Parlamento Europeu e o primeiro europeu oriental a ocupar o cargo. O Parlamento Europeu, por sua vez, criou uma comissão permanente para tratar da Crise Mundial - medida um tanto pirotécnica, afinal o problema econômico do continente é muito mais embaixo; um capitalismo que fracassou já no início do século 20º, duas guerras mundiais que eclodiram de seu interior, o fogo-fátuo da social-democracia, o socialismo centralista e sua inevitável queda, o desmonte da social-democracia com a globalização. É um esgotamento de modelos conjugado a um vazio criativo.



domingo, 5 de julho de 2009

Honduras e a Sociedade do Espetáculo

Hoje, domingo, por volta das quatro (horário de Brasília), o presidente legítimo de Honduras, Manuel Zelaya partiu de Washington em uma aeronave acompanhado de sua chanceler, do Presidente* da Assembleia Geral da ONU e de mais algumas pessoas. Chegaria ao aeroporto de Tegucigalpa às oito.

Eu estava lendo um pouco e por volta das sete entrei no
twitter, achei umas imagens da Telesur via #Honduras e passei a aguardar o pouso. O exército hondurenho já cercava o aeroporto isolando os apoiadores de Zelaya ao mesmo tempo em que, lentamente, ocupava a pista. Os militares abriram fogo contra a multidão e mataram, pelas informações do momento, duas pessoas.

As imagens que eu via me provocavam um sensação estranha. Já tinha visto alguns vídeos de Honduras antes, mas aquela imagem que a reportagem da Telesur fazia do aeroporto dava a impressão que Tegucigalpa era uma cidadezinha do interior brasileiro, fosse por sua pequenina pista de pouso ou por suas serrinhas. Coexistia na imagem algo de incrivelmente provinciano com universal - mas um universal tão nosso...

Pois bem, lá estava eu com meus olhos na pequena telinha, mirando fixo no horizonte hondurenho. Sentia um misto de fascínio e de medo, essa situação hondurenha não me cansa de assustar e de me surpreender a cada minuto. De repente, o aviãozinho de Zelaya aparece. As tropas se mantêm em prontidão no solo. Atrás da repórter da Telesur, apareciam alguns manifestantes pró-Zelaya estranhamente efusivos. O avião contorna e não pousa. O comandante rapidamente se comunica com a Telesur e fala que foi ameaçado de abate. Hugo Chávez também é entrevistado. Depois Zelaya, não sei se ainda no avião ou quando já estava em terra firme na Nicarágua.

O golpe se desenrola; de tão aparentemente clássico no princípio, ele vai se tornando o mais agudo anacronismo da política latino-americana desde sempre - se é que o tempo faz algum sentido nessa ocasião; da reprovação diplomática rápida, unânime e dura da comunidade internacional - de todas as letrinhas que você pode imaginar - até o quixotesco voo de Zelaya em sua jornada cristã parece ter passado uma eternidade -quase como numa materialização de algum conto do realismo mágico latino-americano.

Os golpistas, mesmo diante da reprovação diplomática que ia de Washington até Moscou passando por Brasília e Pequim, não retrocederam. Depois de schmittiamente terem resolvido o problema Zelaya, goebbelianamente começaram a repetir a mentira que contaram para dar o golpe, tanto para si mesmos quanto para uma civilizada, cosmopolitíssima e candidíssima comunidade internacional que planejou a volta triunfal de Zelaya sem antes ter removido o tiranete - no mais puro sentido etimológico da palavra - local.

O absurdo sucede o absurdo e o faz em forma de espetáculo. Não é incomum em nossa época, só não precisava ser tão cruel.


*Atualização de 06/07 às 00:29: Na verdade, o nome do cargo ocupado por Miguel d'Escoto é Presidente da Assembleia Geral da ONU e não "Secretário Geral". Desculpem.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

A Eterna Espera

("O Arsenal, Frida Kahlo distribuindo armas", de Diego Rivera. Retirado daqui)

No primeiro post sobre Honduras, terminei o texto com um "as próximas horas serão decisivas", mas elas estão sendo também intermináveis - pior, elas parecem atemporais; é como se estivéssemos no momento zero da explosão de uma bomba e a nossa vida passasse bem em frente aos nossos olhos.

Alguns bibliólogos dizem que Marcos escreveu o seu evangelho na época da destruição do templo e por isso escrevia num estilo apressado, quase como se estivesse a esperar notícias. Entendo o que é isso agora assim como entendo o que o velho
Antônio Abujamra sempre repetiu: A esperança destruiu a América Latina - e não me venham com histórias como "devemos buscar a esperança do verbo esperancear", esperança é de esperar mesmo e quando nos rendemos a ela, acabamos nos deparando com o velho pesadelo como num eterno retorno, restando esperar que ele acabe. O que eu quero dizer com isso? Quero que o medo finalmente vença a esperança entre os democratas do continente porque é o sincero e terrível medo que move o Homem, talvez pelofato do outro lado tanto temer, ele consiga quase sempre o quer.

O momento em que vivemos é paradoxal; os países Latino-Americanos sempre se viram às voltas com uma Oligarquia ao pior estilo colonial que só lutou pela Independência para se livrar dos decadentes império ibéricos e que, no fim das contas, se arrependeu disso; a vida do oligarca latino-americano médio dos fins do século 19º era marcada por uma inquietude profunda na alma: Ele era parte de uma elite colonial sem metrópole, um carrasco sem tribunal de exceção, um capitão-do-mato sem Casa Grande. A expansão econômica, política e militar dos EUA após a sua Guerra Civil acabou sendo a solução fantástica para esse problema, apesar das idiossincrasias do imperialismo americano.

A Questão Social da América Latina sempre se travou em bases muito diferentes da que havia na Europa; cá nunca houve o confronto que lá se viu. Na Europa, a Revolução Burguesa se manifestou em sua primeira etapa como o extermínio definitivo do passado medieval e na segundo como a busca por um presente atemporal - onde suas leis, materializadas em
códigos mágicos seriam definitivos e marcariam o fim da História, muito antes de Fukuyama; em oposição a isso surgia o clamor da massa operária e camponesa que em sua dor e em sua determinação lutava por um futuro, o que fez muitos dos filhos dessa mesma burguesia se darem conta de um lamento muito maior: O grito feroz da História. Era, no fim das contas, o atemporal presente condenado, já de início, a ser um profundo passado lutando contra a História. Por aqui não. Os Oligarcas latino-americanos nunca tiveram o impulso de destruir o passado, sempre se assentaram nele se apropriando dos elementos convenientes do Liberalismo e, depois no Fascismo; cá a luta sempre foi entre o profundo passado e a busca débil por um futuro por parte de uma massa camponesa ainda em vias de ser absorvida pela indústria.

Os oligarcas latino-americanos se viram, no decorrer da História, em tardia desvantagem, mas tinham ao seu lado o leviatã americano que soube como poucos projetar para fora a sua efervecência interna e assim se desvencilhar das eternas rupturas. O Nazismo, inclusive, acabou sendo muito caro para a oligarquia local na medida em que, ao mesmo tempo em que exibiam suas constituições liberais ou até pós-liberais, por outro lado, mantinham no horizonte visível o seu próprio
artigo 48 do Weimar de forma consuetudinária: Se a ordem real fosse ameaçada, as Forças Armadas seriam utilizadas como a ferramenta necessária para impor a exceção sobre a qual eles decidiram. Tal exceção, no entanto, dizia respeito ao desmontar da metafísica ordem formal das coisas, das parcas e atrofiadas instituições que se aparentavam com as de um Estado Burguês e que freiavam , em certa medida, a intensidade da violência da perene exceção econômica.

E assim segue a História da América Latina, com os Estados Unidos servindo como o fiel da balança na tensa correlação de forças entre o passado e futuro em um presente esgarçado e esgarçando-se. Essa mesma História sofre um violento revés com a lenta e ignorada contração do Leviatã Americano. O fiel da balança começar a pesar cada vez menos e os movimentos sociais do continente geram, das mais variadas formas, forças partidárias capazes de se usar da liberdade eleitoral criada na esteira do suposto Fim da História.

O avanço da Democracia em sentido material, mesmo com seus reveses, tem se materializado com uma estabilidade econômica ímpar e com o fim da fracionariedade nas relações internacionais dentro do Continente; se antes éramos uma miríade de pecinhas unidas pela influência americana, hoje se desenha uma solidariedade latino-americana por meio de uma série de organizações comerciais e políticas no continente - com os EUA, inclusive, tendo de aceitar tal conjutura por conta de seu próprio momento.

Eis o paradoxo: No mesmo momento em que esse processo está em curso, ocorre o golpe na pequena e empobrecida Honduras e o oligarquismo latino-americano volta a revelar sua face medievalista que sabe como ninguém fazer uso tanto do liberalismo quanto do fascismo quando lhe convém; neste momento, estamos diante de um reflexo extemporâneo do fascismo que, pasmem, nunca deixou de ser visto enquanto hipótese aplicável; é um anacronismo que denuncia o nosso próprio anacronismo e prova o quanto estamos - ainda - à beira do abismo - e esse mesmo abismo, ao ser encarado em sua profunda obscuridade e obscura profundidade, nos olha de volta sorrindo.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

O Ressurgimento das Vivandeiras

Eu, na minha inocência, achava que elas já estavam mais mortas que a minha querida tataravó, mas eis que elas ressurgem nessa semana. Bastou um golpe, um único golpizinho, lá num pequeno e distante país da América Central para elas saírem da toca. São as vivandeiras, a classe mais repugnante da política nacional.

É muito fácil reconhecer uma delas; todas vibram quando acontece um golpe, todas buscam explicações lógicas para legitimar o golpe, ao serem questionadas, acusam o crítico de ser golpista e dizem que o golpe foi para proteger a Democracia (?!).

Elas enxergam o Brasil através da distante janela de seus belos apartamentinhos em Higienopólis ou na Barra, sempre movidas pelos nobres impulsos do seu baixo ventre; a política não deveria existir, bons eram os tempos em que todos estavam no seu devido lugar e ninguém reclamava - e se neguinho ousasse, ia pro tronco ver o que era bom.

Para elas, maravilhosos eram os anos 20 dos coronéis ou os anos 60 quando os militares botaram ordem na anarquia das duas décadas anteriores. O tempo em que vivemos não; é uma desgraça. Uma parte considerável de tudo que acontece - como pobres xexelentos com acesso à Internet, com bolsas em universidades de elite etc - é culpa do Lula, aquele presidente analfabeto. Bons tempos eram aqueles em que se podia chutar a porta e dizer em alto e bom som -protegidas por aqueles soldados altos, fortes e simpáticos - que a terra era quadrada.

Enquanto os segmentos progressistas da sociedade se veem às voltas com o desafio - e a necessidade - de efetivar e avançar a Democracia, lá estão elas, frustradas com o pouco que há e que lhes parece tanto.

Honduras acaba se tornando uma esperança. Uma Primavera de Praga ao avesso para pessoas avessas. Como seria bom fazer o mesmo aqui e ter Diogo Mainardi como Presidente, Reinaldo Azevedo como vice, Olavo de Carvalho como chefe de gabinete, Demétrio Magnoli na Integração Nacional, Marco Antônio Villa na Educação e, com uma forçadinha de barra, Bento XVI na Saúde.

Tristes trópicos, tão distópicos.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

O Golpe Militar & A América Latina

Os golpes militares na América Latina encontraram seu auge na Guerra Fria, em especial no governo Nixon, quando ele e seu Secretário de Estado, Henry "Arauto da Realpolitik" Kissinger, não apenas patrocinaram uma série de golpes como financiaram as ditaduras decorrentes. Para além da colaboração americana, o Golpe Militar era visto sempre como uma possibilidade concreta e aceitável pelas elites latino-americanas histéricas com as transformações sociais do século 20º.

Os golpes apresentavam como padrão uma conjugação de elementos: Quase sempre havia um governo de frente popular promovendo reformas mais ou menos radicais que irritavam tanto as elites locais quanto Washington e, em decorrência disso, as Forças Armadas desses países eram manipuladas e mobilizadas para, sob a prerrogativa de um inflado perigo vermelho, botarem as tênues e atrofiadas instituições liberais abaixo com a violência que fosse necessária; as ditaduras resultantes eram amigas de Washington e buscavam mudar tudo para que nada mudasse.

Com o fim da Guerra Fria e o aparente Fim da História, o Golpe Militar deixa de ser visto como instrumento funcional na medida em que era muito mais fácil simplesmente eleger políticos confiáveis e alinhados ao Consenso de Washington. Veio o século 21º, a decadência americana, as inúmeras mudanças no continente e o controle estadunidense desaba na região, o que, somado a força dos movimentos sociais faz com que governos de esquerda cheguem ao poder por via eleitoral e as elites tenham de ceder os anéis para não perderem os dedos.

Há um resfriamento na prática golpista. Ainda assim, houve a quartelada que tentou derrubar Chávez na Venezuela com apoio da Administração Bush. Deu errado. O governo golpista ficou isolado no continente. Também houve a recente tentativa de golpear o presidente Evo Morales que esbarrou numa resposta diplomática mais sofisticada dos países da região - via recém-criada UNASUR. No domingo, como os senhores devem saber, houve um Golpe Militar em Honduras.

O caso do presidente Zelaya, o bom liberal, é emblemático em vários sentido, citaria quatro em especial:

1. Ele foi um golpe militar ao pior estilo anos 60 ou 70, com direito até a sequestro do presidente por militares na residência oficial;

2. Ele vem numa esteira de um movimento de relativização da ditadura no Brasil, maior país do continente;

3. Ele se dá num contexto onde os EUA, sob o comando de Obama, tenta redefinir o jeito americano de fazer política externa, um tanto por idealismo outro tanto pelas vicissitudes materiais do país no momento;

4. Ele se dá num quadro onde os países da América do Sul e da América Latina nunca estiveram tão organizados politicamente como prova tanto a UNASUR quanto as próprias transformações na OEA.

Isso implica em várias coisas ao mesmo tempo. Uma delas foi a reação diplomática rápida, coordenada e firme dos países latino-americanos contra o golpe. O segundo é o posicionamento firme dos EUA em favor da democracia burguesa no continente, algo raro na História. Os golpistas, portanto, se encontram sitiados.

Por outro lado, no Brasil, alguns notórios nomes da direita fascista prosseguem na sua esquizofrênica e conveniente alternância entre a defesa do liberalismo e o golpismo puro e simples: Apoiam o golpe e alguns, mais sofisticados, aparecem com factóides mil para esconder o óbvio e evidente ato criminoso perpetrado.

As próximas horas serão decisivas.

atualização de 30/16 às 00:02: Corrigi o título.
atualização de 30/06 às 12:06: Até agora, mesmo sobre intensa pressão internacional, os golpistas permanecem no poder. Segundo informações da Telesur, o Presidente Zelaya retornará a Honduras na quinta com apoio da OEA.