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quarta-feira, 26 de março de 2014

A Grande Beleza: O Vazio e a Cosmética do Pós-Moderno

Por Hugo Albuquerque e Isabella Eid,

Vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro, o italiano A Grande Beleza de Paolo Sorrentino (2013) é um belo, vibrante e inquietante espetáculo estético que lança questões importantes sobre a pós-modernidade e a Europa atual – além de apresentar algumas respostas que, antes de tudo, merecem ser entendidas. O protagonista, Jap Gambardella (Toni Servillo), é um escritor sexagenário, uma versão dândi do homem (pós-)moderno: um eu central que é fio de ligação para inúmeros retalhos de memórias, circunstâncias e sensações em um mundo no qual o vácuo e o nada se tornam dolorosamente presentes; autor de apenas uma única – e aclamada – obra publicada há décadas, ele está sempre confrontado com o fato de não ter escrito mais nada, enquanto promove festas de arromba, ajuda amigos falidos e trabalha como jornalista cultural.

A Grande Beleza traz a carga dramática, um ar de decadência elegante que é, certamente, uma das formas de se enxergar o momento europeu. É a decadência vista de dentro, não do continente, mas do ponto de vista do europeísmo na forma em que ele tomou no “fim da História”. Se a História acabou e não chegamos à utopia, é certo que o futuro faliu “conosco” dentro. E o “conosco” certamente se refere aos europeus, rifados neste mundo cheio de turistas asiáticos, consumidores árabes muçulmanos e assim por diante – que aparecem às revoadas em cenas específicas. É possível sentir um fundo melancólico, comum a outras obras recentes como Um Castelo na Itália de Valéria Bruni Tedeschi, também de 2013 – a Europa não mais se pertence, a desterritorialização promovida pela globalização arrancou o solo histórico europeu.

Mas antes de qualquer julgamento, ou acima de qualquer tentativa de julgar, é preciso entender. E a persona de Jap, desenhada por Sorrentino, ainda que acuse o estado da arte do paradigma [de supremacia] europeu é uma entidade trágica – o que torna a película trágica, mas não pelos motivos que o autor dela talvez desejasse. Não é a tragédia da cultura e da civilização europeia face à invasão dos bárbaros, da passagem do tempo em que a doce foi a vida – quando Jep e uma de suas musas passa do lado da Fontana de Trevi, um marco óbvio de Roma e do cinema italiano – , mas a da própria condição trágica em si de estar nessa situação, precisando apelar, talvez inconscientemente para esse recurso, para essa muleta.

Há, contudo, algo de relevante quando o filme escapa à Europa, e que interessa, quando ele aporta no pós-moderno em si. E aí, ele passa a interessar mais nas linhas do que nas entrelinhas. É a bem desenhada expressão do kitsch pós-moderno, feito de baladas tecno, da miscelânea estética pronta à “surpreender” – tanto que resta absolutamente previsível –, do torpor. E aí poucos filmes foram tão bem-sucedidos na exposição estética dessas formas. É difícil sair do cinema sem a sensação de termos nos dado conta do óbvio; antes de dar a pensar, algo se faz sentir, mas é possível criar experiências que estejam no sensível em um grau maior: e aqui, depois de se deparar com as festas incrivelmente animadas e vazias, da alegria triste do nosso tempo, é impossível não se dar conta de quantas situações parecidas não vemos em qualquer parte: festas de formatura, baladas, carnavais. Pura casca sem conteúdo.

Difícil não lembrar também de uma obra como O Homem sem Conteúdo, de Giorgio Agamben, que já no início dos anos 1970, dissecando “a estética moderna” já antevia o aprofundamento de uma produção artística desprovida de carne, um objeto morto produzido pela subjetividade absolutamente livre de “um artista”. É certo que Agamben talvez entenda a estética com uma cosmética, mas superado esse ponto, é exatamente essa sensação que se tem quando nos deparamos, nessa película, com o vazio aleatório da performance de um artista que, nua, choca sua cabeça contra as paredes de uma ruína.

Enquanto isso, Jap se vê engolfado pela presença de presenças femininas fortes; uma recém-falecida ex-namorada, que sempre o amou -- apesar dele só ter descoberto isso após a morte dela -- torna-se objeto constante de suas lembranças; a filha de um amigo (Sabrina Ferilli) que se dedica a ser stripper de luxo e a quem este lhe confia os “cuidados”; uma velha conhecida de círculo intelectual que lhe desafia por sua inércia artística.

Em duas cenas, temos um complemento interessante: a editora de Jep, uma simpática anã, lhe serve uma sopa quando lhe trata pelo diminutivo; indagada do porquê daquilo, ela responde sobre a importância dos amigos fazerem uns aos outros se sentirem crianças novamente; no outro flanco, quando depois de uma de suas festas, Jep confessa que não escreveu mais nada porque “nem Flaubert foi capaz de escrever sobre o Nada”. O devir-criança e um pessimismo niilista aparecem lado a lado no paradoxo constitutivo de uma Europa, uma Itália e um tempo na encruzilhada.

No fim, aparecem um pomposo cardeal papável e uma centenária missionária considerada “santa”, os quais trazem o filme para a zona das respostas, ou da tentativa de fazê-las; e elas apontam, de um lado, para crítica à decadência da Igreja pelo abandono da espiritualidade em detrimento da glória mundana na figura do cardeal e, por outro lado, para o valor da espiritualidade “verdadeira” na forma de uma volta às “raízes” – que é a única coisa que a velha monja diz comer, justamente por “saber da sua importância”.

Cabe apontar, quanto a esta aura tradicionalista que envolve a zona de respostas do filme, que a estética do homem, enquanto maioria, é vítima do retorno do Mesmo. Explica-se: O ser do homem médio racional, desapegado de qualquer elaboração cultural, ou de qualquer manifestação sensível, equivale ao espírito majoritário que norteia, também, o homem pós-moderno – flashs, luxúria, música alta, luzes, dinheiro, dinheiro!  --, ambos possuem um liame secreto e mais potente do que parece.

Se seguíssemos essa lógica cíclica, não seria impossível antever a sucessão de uma sociedade voltada a preservação da tradição, da família e da religião, a tendência à estrutura simples ou à ilusão da pulsão de morte como resposta ao exaurimento hedonista -- exaurimento este como uma das possibilidades do Moderno.

O filme aponta  para esta reação como uma saída, mas não deixa de mostrar outro aspecto: o retorno da humanidade, da paixão, do sensível. Se analisarmos a escola romântica, verificamos que esta representou uma volta de valores tradicionais e medievalistas -- o herói burguês perfeito, forte, lindo e corajoso e honesto -- mas também, paradoxalmente, da paixão e do singelo. E isso, apesar dos pesares, isso se aplica aqui, ao mesmo tempo em que ele se fecha, também se abre a algo pré-moderno que resiste ao pós-moderno -- e mesmo decidindo pela captura no final, a questão é que aqui é deixado um em-aberto que tem lá sua potência.

No fim, no entanto, não há como sublinhar a conclusão definitiva: em um mundo vazio, nos quais as certezas, incontestavelmente, se chocaram no rochedo, a resposta final seria a religião, a tradição e a privação como âncora necessária – algo capcioso, sobretudo em um momento no qual um Putin reconstrói a Rússia justamente calcado nesses valores, isto é,  se apresentando como condutor de um reduto conservador face a um mundo em caos. Se é isso que nos resta nessa ida para o futuro, o que será de nós? Como ser felizes se a solução ao alcance seria, apenas e tão somente, um refúgio interior e deslocado no passado? 


quarta-feira, 16 de novembro de 2011

A Itália e o seu Bello Monti

Monti em coletiva de imprensa hoje
Não, eu não podia perder a piada. Embora estejamos a falar sobre algo que, certamente, tenha mais contornos trágicos do que cômicos: hoje, a Itália testemunhou o anúncio de que  Mario Monti aceitou o cargo de primeiro-ministro. Daí, vocês perguntam: quem elegeu Monti? Ninguém. A que partido ele pertence? Nenhum. Onde está a democracia na Itália? Na melhor das hipóteses, em alguma loja de penhores. O burocrata Monti, sob os auspícios da sua capacidade "técnica" e de sua credibilidade - junto aos bancos -, é um recém-nomeado senador vitalício: láurea curiosa dentre láureas curiosas existentes naquele país, ela consiste na nomeação, pelo Presidente da República, de qualquer cidadão local, por seus préstimos à pátria-mãe, como parlamentar perpétuo, somando um total de cinco na câmara alta daquele parlamento - o que não se confunde com os senadores de direito e vitalícios, isto é, todos os ex-presidentes da república, como disposto imediatamente antes no mesmo artigo daquela Constituição.

A recentíssima nomeação de Monti - no dia 09 deste mês -, pelo Presidente Giorgio Napolitano, sequer é capaz de esconder que seu verdadeiro motivo repousa menos nos méritos do nomeado do que na crueza da conspiração para arrancar Berlusconi do poder - e substituir-lhe por alguém de confiança da Troika, o triunvirato formado pelo Banco Central Europeu, FMI e a própria UE, que tenta salvar uma unidade monetária falida, de acordo com os interesses do bancos, a qualquer custo e do jeito errado. 

E se um monstro de três cabeças manda na Europa hoje, também fazemos questão de  reiterar novamente que uma aparente quimera de duas cabeças continua a determinar os rumos da Itália (dentro do que ela ainda pode se determinar, mesmo que seja para obedecer ordens): é a criatura que emerge do Compromisso Histórico, marcada pela inusitada aliança entre democratas cristãos e comunistas, que revela, no entanto, a ligação íntima entre os políticos tradicionais e os apparatchiks reacionários nos quais se tornaram os membros do que foi o partido de Gramsci.

Napolitano quer fazer tudo parecer o mais legítimo possível, dando cores de transitoriedade à pílula, o que esbarra na não convocação de novas eleições até agora: assim, Monti deve guiar o governo até, no mínimo, 2013 - embora ele tenha sido nomeado há apenas sete dias para aquela Casa, é bom lembrar que tal parlamento tem mandato de cinco anos e foi eleito em 2008. Esse curioso interregnum branco reserva aos italianos ajustes duros, com a suspensão de direitos sociais e um arrocho nunca antes visto. Seu modelo -político e econômico -, não por coincidência, foi implementado nos últimos dias pela Grécia com Lucas Papademos e parece se tornar uma tendência na Europa.

O ridículo do conceito de governo técnico grassa. Antes de mais nada, tomar o conceito de técnica como um conjunto de saberes neutros, "objetivos" e universais, já é por si só absurdo - seja na etimologia ou na lógica -, imagine supor que esse tipo de saber pudesse ser aplicado na chefia de governo de seja lá onde for: é como se as decisões pudessem ser exatas. Um mundo de necessidades extremas como regra - uma construção ideológica que visa naturalizar a emergência enunciada e alude, é claro, ao franco autoritarismo. É um velho binarismo sujeito-objeto servindo ao enquadramento das multiplicidades, produção de subjetividades em larga escala, produção de caminhos únicos do outro lado para contê-las.

A dívida italiana é impagável nas atuais circunstâncias. Seja pelo salvamento irresponsável do sistema financeiro, sem garantias de devolução aos cofres públicos daquilo que foi de lá para os bancos, seja pela dinâmica do Euro, completamente inviável para grande parte de seus signatários. Os 7% de juros sobre os títulos da dívida italiana, que representa mais do que a totalidade do PIB local, são o fim da linha do bem estar e importam em cortes impraticáveis, mas que vão ser levados a cabo pela banca - portanto, apertem os cintos. O sucesso da democracia social europeia, com isso, cai por terra, miragem que sempre foi: a máquina teológica-política chamada Estado estará sempre vinculada à economia da dívida, não à factualidade da dívida, mas ao permanente endividamento que sempre volta para cobrar sua conta. Como o velho Mefistófeles.

Atualização de 19/11 às 17:16: vale a pena ler este artigo da Uninômade italiana sobre a ascensão de Monti.

domingo, 13 de novembro de 2011

A Itália Pós-Berlusconi

Berlusconi em pânico no Parlamento.
Ontem, em Roma, Silvio Berlusconi anunciou sua saída do cargo de Premiê da República Italiana, em uma cerimônia que uniu o pior da ópera bufa com o kitsch, no Palácio Quirinale, residência oficial do Presidente da República. Os incautos se surpreendem como uma figura tão ridícula pôde, em um sistema parlamentarista, durar tanto tempo no poder; ainda chega a ser assombrosa a maneira como ele exerceu o poder, e o quanto tardou nele, sobretudo em sua última jornada: parecia mais um protótipo de ditador magrebino aliado do ocidente - trágico e cômico, autista em relação às pressões sociais e com uma disposição kadafiana de não largar o poder - do que mesmo um líder parlamentar inepto da civilizada Europa. 

O Berlusconi angustiado, flagrado pelas câmeras de todo o mundo, era uma surpresa: aquela expressão de quem estava ferido de morte, ansioso pela espera da aprovação de um plano inviável de cortes de investimentos para "adequação" do orçamento, estava bem distante da tônica de seu governo; sempre bonachão e inabalável, Berlusconi parecia nos mostrar que os limites da encenação parlamentar iam mais longe do que podíamos supor. E o evento-Berlusconi é das coisas mais importantes que podem ter acontecido na Europa pós-soviética. Na Itália, mais do que em qualquer outra parte do Velho Mundo, o sistema parlamentar ruiu e disso nasceu o processo que desencadeia Berlusconi.

Cabe aqui uma pequena digressão: sempre quando falamos porque da perseguição ao ativista italiano Cesare Battisti, de toda a sanha irracional e violenta contra a Autonomia Operária nos anos 70, do colapso do sistema italiano, não estamos falando da vitória de uma conspiração direitista (tão somente); esse quadro, por mais que os minos da vida insistam em dizer o contrário, só fecha se levarmos em consideração a participação burocrática do antigo Partido Comunista Italiano, fazendo acordos com a democracia-cristã - ou o nome dado para o simpático consórcio entre a máfia, a burguesia italiana e tudo mais que os acompanhasse -, cerceando a luta autônoma dos trabalhadores, mulheres e da plebe rude nas ruas, na adesão bisonha ao "desenvolvimento nacional" marcado pelo Compromisso Histórico - saída nacionalista arranjada depois que até as pedrinhas da rua sabiam que a nau soviética já tinha afundado.

É em cima desse pacto, entre uma direita fascista sem poder sê-lo de fato e uma esquerda que resolve se converter à religião teológico-política do Estado, que a Itália adentra mais ferozmente ao sistema europeu, em uma situação nada favorável: nem tão pobre que pudesse ter sua economia desenvolvida - ou melhor, inchada, como vimos hoje -, nem tão rica que pudesse se valer disso - como se valeram Alemanha e o Benelux, p.ex -; a implosão das forças parlamentares clássicas, do Partido Comunista pelo fim da URSS e da Democracia Cristã e dos Partido Socialista pela Operação Mãos Limpas - e o desmascaramento dos principais esquemas das máfias - foi só a cereja do bolo. É aí que o bonachão Berlusconi, magnata e chauvinista profissional, ascendeu ao poder: o show precisava continuar e a plateia, afinal de contas, precisa rir, nem que seja com deboches contra si mesma...

Ainda que características italianíssimas sejam inerentes a tal acontecimento, um certo berlusconismo ronda toda Europa. Ele nasce em um terreno comum às democracias representativas europeias: as baixas participações do eleitorado nas votações - cada vez mais frustrado em só poder escolher os atores para uma peça cujo script, figurino, iluminação (ou falta dela) e direção de cena já estão prontos -, na superstição anti-imigrante - a pulsão de pogrom, algo tão velho na Europa e, por isso, tão atual enquanto arcaísmo -, no pedantismo proposital dos partidos parlamentares. A partir daí, revitalizar o espetáculo com o bufo é uma possibilidade aberta.  Os franceses chegaram perto com seu Le Pen, embora as condições especialíssimas da Itália tenham permitido a realização do evento em sua integridade - e, de certa forma, não foram o que fizeram os russos com seu Putin?

No entanto, é preciso pensar quando se discute Berlusconi, para além da importância do evento político, no programa que trespassou seu governo e, agora, buscará uma nova forma de se realizar. Por que Berlusconi caiu? Porque suas piadas politicamente incorretas agora estão atrapalhando o script, é preciso algo novo. A Itália foi das primeiras economias grandes da Europa atingidas pelo efeito bumerangue da crise nos pequenos porque sua situação, como já dito, nunca foi favorável dentro do sistema europeu: já razoavelmente desenvolvida para que os fundos de equiparação significassem qualquer melhora relativa, o país de Dante e também dos Bórgia apenas se viu diante da competição com o capital alemão, holandês e belga. O endividamento foi apenas consequência. Ainda que suas contas não estivessem estouradas, com a piora das condições de financiamento, por conta da crise dos periféricos e, sobretudo, da Grécia, a dívida tornou-se impagável.

O que a crise na Grécia e nos demais periféricos quis dizer? Diria, algo bem além do espetáculo tragicômico dela ter sido creditada moralmente aos gregos. Fosse um processo restrito àqueles pequenos países, que somam um montante ridiculamente baixo da dívida total da Europa e representam uma proporção desconsiderável da economia do continente, naturalmente não haveria problema algum. O que está em jogo é que aquilo foi causado pelo funcionamento da União Europeia: um esquema de moeda única que só favorece os mais ricos e só funciona com crédito artificialmente barato para os mais pobres - que se tornam compradores sem fundos dos bens e serviços alemães -; uma vez o mecanismo do sistema da dívida infinita do capitalismo financeiro tenha entrado em colapso, acabou-se o jogo. 

Angela Merkel, a iluminada líder alemã, fechou as comportas e forçou todos os seus clientes a arcarem com um ônus que pertence a toda Europa, em uma jogada oportunista para se livrar de seus custos (como se cedo ou tarde isso não fosse chegar à Alemanha, nem que seja como crise política...). Sem financiamento e com déficits gêmeos - sobretudo depois de terem salvado seus bancos com dinheiro público, após a primeira onda de choque da crise -, países inteiros foram deixados à própria sorte. Hoje, gregos, portugueses, espanhóis e, agora, italianos, serão forçados a fazer ajustes por uma dívida cuja responsabilidade é conjunta. Em momento mais oportuno, certamente refletiremos sobre o conceito de dívida, o que mais do que nunca, se tornou chave para a compreensão do Ocidente - e do modo ocidental feito universal e universalizado pelo Globo.

Os ajustes propostos pela Troika formada pela Comissão Europeia, FMI e Banco Central Europeu, na verdade, incidem sobre programas de seguridade social, a base sobre a qual o sistema europeu se sustentou desde o fim da Segunda Guerra. Ninguém será morto - embora o sábio Papandreou, raposa velha como só ele, tenha removido seus chefes militares pouco antes de renunciar -, mas muitos serão deixados para morrer - e em relação a isso, Foucault certamente nos responderia com um sorriso sarcástico. Portanto, a figura do discreto, erudito e plácido Presidente Giorgio Napolitano, junto a todas as suas insígnias esquerdistas, que agora entra em cena não é uma antítese de Berlusconi, mas a expressão da dupla-hélice que caracteriza a governança italiana do último quarto de século para cá: ao emergir de sua inoperosidade de pseudo-monarca republicano para desbancar um premiê desacreditado e, agora, negociar o nome de algum tecnocrata ao gosto do sistema financeiro como premiê-tampão, ele nada mais fez do que avançar com o Programa. Não há qualquer contradição em termos aqui.

Em uma vida engolida pelo Welfare, no momento em que a esperança é desfeita, por que abrir mão do presente em prol do paraíso terreno (e um paraíso bem católico: uma aposentadoria segura e contemplativa)? Diante disso, a velha ordem europeia, para o bem para mal, se aproxima do seu fim. As reformas propostas pela Troika são, na verdade, o delírio megalômano do paranoico tecnocrata europeu, que prefere ignorar as variáveis biopolíticas - embora as tenha em mente de forma clara - que podem resultar de suas decisões encontrar um porto seguro imaginário: de repente, não estaríamos mais falando em vidas humanas, resistência e rebeldia, mas sim em meras - e inofensivas - estatísticas em relação às quais não é possível ter medo do que elas podem fazer conosco ou sentir culpa pelo que fazemos com elas. Ledo engano.






quinta-feira, 9 de junho de 2011

A Libertação de Battisti e o Estado de Exceção

Battisti deixa a prisão
"A tradição dos oprimidos nos ensina que o "estado de exceção" em que vivemos é na verdade a regra geral. Precisamos construir um conceito de história que corresponda a essa verdade. Nesse momento, perceberemos que nossa tarefa é originar um verdadeiro estado de exceção; com isso, nossa posição ficará mais forte na luta contra o fascismo. Este se beneficia da circunstância de que seus adversários o enfrentam em nome do progresso, considerado como uma norma histórica. O assombro com o fato de que os episódios que vivemos no séculos XX "ainda" sejam possíveis, não é um assombro filosófico. Ele não gera nenhum conhecimento, a não ser o conhecimento de que a concepção de história da qual emana semelhante assombro é insustentável."
(Walter Benjamin, Tese VIII sobre o Conceito de História) 




A decisão de ontem do STF que libertou o ativista italiano Cesare Battisti começou com mais uma cena surreal para se acrescentar ao caso: uma discussão preliminar que tratava da "reclamação constitucional" da República Italiana contra a decisão do Presidente Lula que negou a extradição de Battisti, o que foi rejeitado pela Corte devido a obviedade de que um Estado estrangeiro não pode questionar atos soberanos da Presidência da República. Passado isso, o gigantesco (e pedante) voto do relator, Gilmar Mendes, foi lido integralmente, conseguindo a proeza de não tratar da questão à qual se referia aquele julgamento: não mais estava em questão se a extradição iria ocorrer ou não, mas se seria expedido ou não o alvará de soltura do ex-extraditando; mas Mendes trouxe novamente à baila a questão da extradição, esquecendo-se convenientemente que aquela mesma corte já havia decidido que sua decisão sobre a extradição era meramente autorizativa e que cabia ao Presidente da República a palavra final (que foi negativa, aliás).

Finalmente lido o voto do relator, com referências insistentes ao risco que corria o Estado de Direito - quando o Presidente não apenas tinha cumprido o que o nosso direito determina como o que o próprio STF, em um julgamento posterior e capcioso, o autorizou a fazer -, sua tese foi destroçada pelos colegas, sobretudo por Luiz Fux: uma vez não extraditado e não tendo motivos para estar preso no Brasil, o paciente só poderia ser solto. Mesmo que os votos do Presidente da Corte, Cezar Peluso, e também a ministra Ellen Gracie, tenham ido na mesma direção do relator, a agonia de quatro anos no cárcere para Battisti finalmente terminou com um placar de 6x3 por sua libertação. Para além da problemática do funcionamento atual daquela corte - sobretudo as perfomances histriônicas de Mendes, com todos os seus conhecidos contorcionismos lógicos - e da reação desequilibrada da República Italiana desde o começo do caso - que, imersa em profunda crise política, busca no caso Battisti uma conveniente cortina de fumaça -, a questão de fundo, e o que que realmente interessa, é o seguinte: o caso em questão, muito mais do que o julgamento de uma mera extradição, foi uma verdadeira crise institucional, na qual o STF, ao ver a oportunidade de tomar prerrogativas que não são suas, lançou uma verdadeira ofensiva pelo poder na tentativa de neutralizar a própria política por meio da judicialização da democracia.

Os mecanismos de controle de constitucionalidade assim como de controle de atos administrativos, por eles mesmos, são muito mais do que instrumentos de autodefesa do Estado de Direito - como creem os crédulos na religião constitucionalista e como postulam os ideólogos da judicialização da política: tratam-se, na verdade, da exposição da fissura fundamental do sistema, a partir dos quais o STF exerce a máxima jurisdição, podendo facilmente tomar medidas de exceção - e a possibilidade de supressão de direitos por meio da interpretação e aplicação das leis pelo judiciário é a prova máxima de como o Estado de Exceção é uma realidade latente ao Estado de Direito e não sua antítese, oposta em termos binários. A briga terminada ontem se deu porque o caso Battisti nos levou a uma disputa numa zona ainda não explorada de decisão final, na qual ideólogos como Gilmar viram a oportunidade única de entrar na seara dos atos políticos e soberanos - que cabem ao Presidente da República que, não à toa, é democraticamente eleito. Fosse triunfante a tese de Mendes,  estaria legitimado um avanço estratégico do Supremo, afigurado a partir daí como uma Casa de Melhores pairando sobre a Democracia.

E aqui não vai uma defesa de qualquer decisionismo Presidencial - o que sequer deveria estar em discussão, pois Lula exerceu atribuições já instituídas pelo texto constitucional, portanto, se há algum problema, certamente não seria culpa dele -, mas sim um olhar para a problemática da decisão final no Direito, ora exposta, o que de pronto expõe uma fissura irremediável sua, ferindo de morte a segurança fundada na possibilidade de existência de um sistema jurídico perfeito, unitário e capaz de se autocorrigir: ele sempre dependerá, em última instância, do desejo e da capacidade de criação de um reles mortal como qualquer um de nós. É essa função, trajado com a roupa que só os inteligentes veem, que Mendes pretendeu usurpar para si. E aqui cabe atentar também para o fato de que há um distinção fundamental, quando falamos em aplicação do Direito, entre e dever e poder: não me interessa, de maneira alguma, partir de uma premissa idealista na qual falamos do que tribunais deveriam fazer, mas sim avaliar o que eles podem fazer; o risco permanente exposto pela possibilidade da exceção basta por si só, embora, no mundo das ideias, o direito lhe vedasse a possibilidade de existir.

Quando o STF lançou suas garras sobre a decisão do então Ministro da Justiça Tarso Genro, o fez adentrando o terreno do mérito de sua decisão de concessão de asilo para Battisti - sendo que ele deveria apenas se ater às questões formais do ato administrativo. Quando a mesma corte julgou se sua decisão pró-extradição era autorizativa ou vinculativa, ele realizou um julgamento absurdo no qual decidiu qual o caráter de uma decisão (já tomada) e se ele teria poder de decidir, à revelia da autoridade do Presidente, uma medida de política externa ( sendo que, em tese, quem representa o nosso país no plano exterior é, vejam só, nosso chefe de Estado e não nossa suprema corte...). Ontem, o eminente relator, em um julgamento sobre expedição de alvará de soltura para ex-extraditando, decidiu que seria possível reverter tudo que já foi decidido - quando deveria, em posição conservadora, no máximo determinar a manutenção da prisão dele no nosso país. Não há nada de "anormal" porque, na prática, não existe "normalidade", o que existe é essa fissura expressa pelo poder daquela Corte que, como todas as doenças, tem seu diagnóstico tornado claro no momento de crise.

Se os anos de chumbo italianos, em relação aos quais Battisti foi uma das muitas vítimas, trouxe a questão do Estado de Exceção à luz de uma forma comparável apenas ao  modo como Hitler usou-se da Constituição do Weimar para instalar uma ditadura sanguinolenta, novamente eles acabam, mesmo que com certo atraso, trazendo essa problemática novamente à luz no Brasil dos anos 10. É essa questão que atormenta um pensador do porte do italiano Giorgio Agamben, testemunha ocular dos anos de chumbo e, não  à toa, grande teórico da questão do Estado de Exceção na comtemporaneidade. Agora que o caso deve ir à Corte de Haia, viveremos um momento interessante, no qual a Itália, na tentativa de jogar o Brasil contra a parede, terá de enfrentar publicamente e no plano internacional seus demônios interiores - e o Brasil estará diante da doutrina do terrorismo internacional, o álibi maior da humanidade desde o fim da "ameaça comunista", mas com certos ministros da nossa Corte, certamente não precisamos de (mais) inimigos.









quarta-feira, 8 de junho de 2011

O Julgamento de Battisti: Parte Final?

Como nos lembra o sempre atento João Villaverde, está rolando mais um capítulo do julgamento de Cesare Battisti agora. Os ministros do Supremo estão avaliando se a decisão do Presidente Lula de não extradita-lo para Itália, apesar da decisão autorizativa do STF quanto a competência dele, é válida. O problema é que não faria sentido julgar diferente - em um caso onde tanta coisa não faz sentido -, haja vista que  STF, ele mesmo, foi quem decidiu que que o Presidente da República tem competência para decidir sobre extradições, olhem só que enorme coincidência - e esqueçam que isso está claro na Constituição, o STF pode fazer o que quiser em termos de controle de constitucionalidade, afinal, existe uma linha muito clara entre o que pode e o que deve ser feito. A defesa do Governo Italiano, por sua vez, alega que o Presidente Lula violou tratado de extradição entre Brasil e Itália, o que é surreal, afinal nenhum tratado deve ferir a soberania dos signatários. Em suma, como se não bastasse o caráter kafkaniano do processo - o que de certo modo é uma inerência do Direito, embora isso só fique claro na crise -, a maneira como esse acontecimento é transversal à grave crise política pela qual a Itália, onde Battisti se tornou cortina de fumaça rapidamente, torna o caso um evento histórico de porte . Enfim, torçamos para o melhor, mas não nos esqueçamos da íntima relação entre o exercício de jurisdição - sobretudo as supremas cortes e tribunais constitucionais - e o estado de exceção.

P.S.: Não sei qual a natureza do problema técnico, mas não está dando para ver o julgamento ao vivo no site do STF, mas segue o link para quem quiser tentar. Também dá para apelar para o twitter do STF, se vocês preferirem. Conforme dica do Rodrigo aí embaixo, segue o link do portal Terra que acompanha o julgamento ao vivo.


Atualização das 21:13: Fim de papo, por 6 votos (Luiz Fux, Cármen Lúcia, Lewandovski, Joaquim Barbosa, Ayres Britto e Marco Aurélio) a 3 (Gilmar Mendes, Ellen Grace e Peluso) Cesare Battisti está livre. Finalmente. Amanhã tecerei mais comentários sobre o acontecido, evidentemente que o buraco é muitíssimo mais embaixo, mas não resta dúvida que hoje foi uma grande vitória: seja para o próprio Battisti quanto para quem acompanhou esse processo bisonho. O pior, às vezes, não acontece.

sábado, 15 de janeiro de 2011

Sábado e Música: Area e o Rock Progressivo Italiano

 

Os italianos costumam referir-se à decada de 70 do século XX assim como a nossa, anos de chumbo. Cesare Battisti escreveu bastante sobre a sujeira debaixo do tapete democrático que apresentavam o PCI e a Democracia Cristã perante o mundo. Era uma época na qual as tensões políticas se infiltravam em todos os aspectos da sociedade. A música não era exceção, e o grupo Area, ilustre integrante do rock progressivo italiano era talvez a mais emblemática na militância política da arena musical, que se traduzia nas letras de protesto em obras como Arbeit Macht Frei e no conceitual Maledetti, cuja canção Giro Giro Tondo pode ser conferida aqui

[Nota d'O Descurvo: Dica musical e introdução de autoria do nosso amigo Luís Henrique Mello, com quem conversava agora há pouco]


Atualização de 16/01 às 14:46: E o Luis resolveu, finalmente, fazer um blog. Já estou acompanhando aqui, deem uma olhada lá no Som Imaginário.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Caso Battisti: O STF e o Golpe de Estado

Luis Roberto Barroso no Julgamento de Battisti no STF -- Dida Sampaio/AE

"A manifestação do presidente do Supremo, sempre com o devido e merecido respeito (afirmação que é sincera e não meramente protocolar), constitui uma espécie de golpe de Estado, disfunção da qual o País acreditava já ter se libertado"
Declaração do constitucionalista Luís Roberto Barroso, advogado de defesa de Cesare Battisti, nessa reportagem do Terra, em resposta ao mais novo capítulo da novela que tornou o processo envolvendo seu cliente: Dessa vez, Cezar Peluso, Presidente do Supremo Tribunal Federal, tomou uma estranha decisão que ainda manterá Battisti preso, muito embora sua extradição tenha sido negada pelo Presidente da República e não pese nenhuma condenação contra o escritor italiano no Brasil; o habeas corpus impetrado foi remetido ao relator do caso, Gilmar Mendes, e será apreciado apenas em Fevereiro, ao fim do recesso. Trata-se de um dos casos mais bisonhos da Suprema Corte do deste país, seja pela maneira como o ato de concessão de refúgio foi considerado ilegal, pelo julgamento da extradição ter sido anterior ao julgamento de quem daria a palavra final sobre ela - como se precisasse -, pela forma insistente dos atuais ministros contrariarem a própria jurisprudência do tribunal sobre a matéria e, se não me escapa mais nada, a manutenção de Battisti preso - afinal de contas, se o próprio STF mal acabou de reconhecer que o Presidente da República era a autoridade competente para decidir sobre a extradição - e que ninguém pode ficar preso em um lugar  onde não cometeu crime algum -  do que estamos falando agora, afinal? Não resta dúvida que é uma violação aos direitos humanos de Battisti e (uma nova) sobreposição de poderes, dessa vez, mais acintosa do que no episódio do julgamento da legalidade do ato de concessão de refúgio - no qual toda a argumentação jurídica ultrapassou o controle dos atos administrativos para baixar no solo firme da administração -, somada a uma sobreposição da decisão recente daquela própria corte. Enquanto Battisti torna-se uma cortina de fumaça para uma Itália em grave crise, ele também expõe as fragilidades das instituições no Brasil  e, mais até do que as frágeis escolhas de Lula para aquele tribunal - coisa que até lulistas roxos entre lulistas roxos reconhecem -, revela-se mais do que nunca que o arranjo institucional brasileiro padece da falta de mecanismos de controle para aquela Casa - e, em última instância, toda essa conversa revela as próprias limitações práticas do que chamamos de Estado de Direito.

domingo, 2 de janeiro de 2011

Toni Negri e a Revolta Eterna

Negri 
Poucos pensadores do nosso tempo honraram tão bem o que disse Marx, nas Teses sobre Feuerbach, de que não basta apenas interpretar o mundo, mas que é preciso muda-lo, do que o italiano Antonio Negri. Arquétipo de intelectual engajado, ele viveu intensamente a Itália da segunda metade do século 20º, quando a industrialização tardia - e regionalmente desigual - acirrava brutalmente a polarização política e a consequente insurreição contra o Estado - particularmente corrupto e disfuncional, se comparado com seus pares da Europa Ocidental. Tratava-se de uma polarização de tal ordem que chegava a  ser paradoxal, alternando do horror - as medidas sim de exceção do Estado, os atentados sob bandeira falsa para acusar a esquerda, os processos judiciais falsos - ao esplendor - um cinema político radical, um movimento estudantil e operário radical, uma crítica voraz. Nesse cenário, Negri foi o grande nome de uma geração de intelectuais que  rompiam com a concepção de vanguarda, o imobilismo dos sindicatos - alinhados e enebriados pela corrupção e pelo ilusão do nacional-desenvolvimentismo - e burocratismo de um PCI - o maior partido comunista do ocidente, já praticamente esterilizado pela dupla vassalagem que prestava, a Moscou e ao institucionalismo do Parlamento. E Negri estava junto dos intelectuais por detrás do Potere Operaio, das organizações autônomas de mulheres, estudantes e operários extra-parlamentares e extra-sindicais, o que lhe valeu a maior honra que cabe a um filósofo: A acusação de terrorista e corruptor de jovens - cattivo maestro - por parte do Poder, acusado de ser mandante moral do assassinato do primeiro-ministro democrata-cristão Aldo Moro. A partir daí, sua vida é uma saga, da condenação e posterior prisão até o refúgio para a França da Doutrina Mitterrand, que abrigou tantos e tantos refugiados políticos italianos - passando pela sua breve libertação entre um fato e outro, ao ser eleito deputado pelo Partido Radical, o que lhe valeu uma imunidade parlamentar rapidamente cassada pelos seus pares. Seus anos na prisão, seu contato com a obra de Spinoza e depois sua estadia na França, na qual teve outro bom encontro, com Guattari e Deleuze que lhe deram toda assistência e lhes abriram as portas dentro da comunidade intelectual parisiense, produziram uma inflexão na sua obra, catalisando uma inquietação que já estava no jovem Negri. A história de Negri, narrada no documentário L'Eterna Rivolta é uma ode à única postura aceitável do intelectual em nosso tempo assim como é, também, uma obra sobre a História, não a que contam, mas a que deixam de contar sobre a Itália, que explica muito sobre o estado de coisas que aquele país está a viver e, também, sobre episódios específicos que chegam a interferir na nossa própria realidade política brasileira, como no caso Battisti. Para além de toda a parafernália jurídica que se possa alegar no caso do escritor italiano - e, acreditem, não é pouca coisa que pesa contra a extradição - ainda existe um pequeno detalhe chamado História, dentro da qual a história de Negri - como a de Pasolini e tantos outros - é chave para a compreensão do que foram os anni di piombo, compreensão elementar para o início dessa conversa e de tantas outras sobre a Itália de hoje.

P.S. Seguem aqui os seis capítulos de L'Eterna Rivolta (que também está na íntegra no link acima);






quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Cesare Battisti e a Transição no Brasil

(Battisti: prisioneiro político há três anos no Brasil)


O João Villaverde, com a maestria que lhe é peculiar, trouxe de volta ao debate uma questão que ficou no ar durante o último período eleitoral: O caso do militante italiano Cesare Battisti, condenado em seu país por crimes políticos cuja autoria até hoje permanece duvidosa e preso, já há alguns anos, no nosso país depois de uma verdadeira saga, que passa pelos seus anos de exílio na França, a bisonha revogação da Doutrina Mitterrand no Governo Chirac, sua fuga para o México e, depois, sua chegada ao Brasil, onde acabou preso depois de algum tempo, movimento do qual segui-se todo um cavalo de batalha da direita brasileira contra sua presença - a figura do militante de esquerda que pegou em armas era, naquele momento, o item a se destruir, seja pela potencial candidatura Dilma ou pelas feridas em aberto dos tempos da nossa ditadura - e, claro, um imbróglio diplomático com a Itália, sedenta por punir Battisti, transformado em bode expiatório de um país que se esvai em uma grave crise institucional.  


Depois de um julgamento melancólico e irracional do STF, que passou, bisonhamente, por cima da competência do Ministério da Justiça, decidindo que Battisti, embora com o status de refugiado político, deveria ser mesmo exilado - o que, em decisão imediatamente subsequente, referendou o óbvio de que a palavra final sobre isso é do Presidente da República. De lá para cá, passou um ano e Battisti permaneceu trancafiado a despeito da atuação incansável e brilhante de seu advogado, o ilustre constitucionalista Luís Roberto Barroso. O Presidente Lula, que preferiu manter a questão em suspenso durante a longa noite do período eleitoral recentemente encerrado, agora não só se depara com um quadro no qual juridicamente a sua autonomia para decidir é pacífica como também navega politicamente em águas tranquilas.


O Estadista é aquele político que domina sua arte com proficiência mesmo - e principalmente - nos momentos extremos, sabendo dosar as decisões de governo de modo a saber quando e como pode ousar, sempre tendo em mente que se o corpo político sofrer uma tensão extrema, ele estoura - e que disso nada resta -, mas que ele não pode se acomodar durante um longo período sem força-lo em nenhum momento, posto que aí, ele produz o mal justamente inverso, a atrofia das instituições, da prática política e do pensar. Lula soube manusear isso como ninguém, sua larga experiência sindical lhe deu o senso de extensão em matéria de política que a dialética vulgar - e não raro idealista - de grande parte da nossa esquerda, em sua inconsequência, jamais foi capaz de entender, no entanto, Lula não é (nem poderia ser) Deus, e em muitos momentos, errou a mão justamente quando conciliou em questões inconciliáveis por ter lido a conjuntura errado e visto confronto onde não havia. Sua hesitação aqui não foi seu maior erro, mas está entre seus mais graves e pode ainda ser o seu pior.


É preciso que Lula antes de completar seus oito anos de governo - que foi sim o melhor da nossa História -, tendo, ainda por cima, feito sucessor - ou melhor, ter conseguido realizar o feito de alçar uma mulher, ex-presa política e torturada à Presidência da República -, tome uma decisão à altura das conquistas sociais que realizou e, mesmo com certo atraso, não cometa o grave equivoco histórico de corroborar com a transformação definitiva de Battisti no boi de piranha de políticos delirantes sejam da direita ou da esquerda italiana, todos sócios da crise pela qual passa aquele país, tampouco de um certo setor da direita brasileira, cuja irracionalidade veio à tona nessas eleições. Se a História é feita pelos vencedores, que Lula mostre de vez quem a venceu para não deixar mais dúvidas quanto a isso - e assim ajude a sepultar um passado que ainda anseia por escalar, tal como morto-vivo, a sua cova que permanece, misteriosamente, ainda aberta.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Notas da Copa: Definição dos Grupos E e F


(Dois azuis, dois destinos - fotos da AP)







Com certo atraso, mas com igual disposição, comento aqui as surpresas de ontem: A vergonha da desclassificação italiana frente a gloriosa Seleção da Eslováquia e a pancada que o Japão deu na Dinamarca. Sim, eu queimei a língua, no entanto, não por ter negado, algum dia, que a Itália é uma fraude ou que o Japão - e o futebol do extremo-oriente - estão em processo de evolução, mas por ter subestimado os dois fenômenos. Acertei, no entanto, quanto ao Paraguai, que confirmou a tendência de ascenção do futebol sul-americano na esfera global de seleções - tome outra classificação em primeiro, fenômeno que se manifestou no Grupo A e B e agora se repete agora no Grupo E. A Holanda confirmou o favoritismo e manteve a primeira colocação do Grupo F.

A desclassificação italiana se deu num jogo dramático, com cinco gols - algo raro numa Copa que não fosse pela bola teríamos batido o recorde de placares em zero -, o que demonstrou as graves limitações do futebol italiano, escravo de uma mentalidade defensivista que veda a formação de jogadores ofensivos - em especial para a armação de jogo - e que só é capaz de produzir times campeões em situações atípicas, o que é decepcionante - e também alentador, se visto pelo lado bom -, pois não resta dúvida que falamos de um futebol tradicional e com know-how para fazer mais do que isso. O Paraguai, por sua vez, controlou a fraca Nova Zelândia, garantiu a primeira colocação e demonstrou seu bom e velho pragmatismo - dessa vez amadurecido.

Claro, de longe o melhor jogo foi entre japoneses e dinamarqueses na disputa pela última vaga do Grupo F: Um jogaço no qual a seleção do país do sol nascente dominou o adversário, soube aproveitar as idiossincrasias da jabulani e, sob o comando do técnico Takeshi Okada, desenvolveu uma forma de jogar própria às suas necessidades - além do contar com jogadores como um Honda. Foi a melhor partida do Japão numa Copa do Mundo e, depois da surpresa, eles travaram um confronto duro - e igualmente inesperado - contra o também surpreendente Paraguai. A Holanda, que teve ontem a volta de Robben, venceu o já eliminado Camarões e passou em primeiro com 100% de aproveitamento, ainda que sem lá muito brilho.

domingo, 20 de junho de 2010

Notas da Copa: Brasil 3x1 Costa do Marfim


(Batalha campal, imagem retirada daqui)

Agora há pouco, a Seleção Brasileira derrotou por 3x1 a Costa do Marfim. Foi o melhor jogo de uma grande seleção mundial nesta Copa. Um belíssima resposta de Dunga para uma imprensa esportiva que pouco - ou nada - entende de futebol e fica batendo em treinadores que não satisfazem sua communis opinio degenerada e idiota - e se possuem algum mérito, é o de provocar efeitos manada usando-se na mentes ingênuas que acompanham futebol de 4 em 4 anos. Foi também a pior arbitragem de uma Copa de boas arbitragens - e a mais flagrante postura antidesportiva de uma seleção nessa Copa, como comprova a postura dos marfinenses que bateram a rodo e tiraram Elano do jogo, oxalá, não da Copa. Mais do que isso, a Seleção Brasileira, se classificou antecipadamente para a segunda fase da Copa do Mundo - repetindo a Holanda e confirmando um ciclo quadrienal virtuoso, iniciado com uma vitória por 3x0 sobre a Argentina, e que esteve abaixo, em aproveitamento, apenas da seleça no ciclo 58/62, treinada por Feola, e da média de Zagallo.

O Brasil entrou em campo no 4/2-3/1, o 4/3/3 falso, com Julio Cesar onde Maicon era lateral-direito, Lúcio (pela direita) e Juan (pela esquerda) faziam o miolo de zaga e Michel Bastos era lateral-direito; Gilberto Silva e Felipe Melo eram os volantes, o trio de criadores foi Elano (ponta pela direita), Kaká (armador central) e Robinho (ponta-esquerda) e, na frente, Luís Fabiano era o centro-avante. Em suma, o mesmo que o jogo passado. A Costa do Marfim, fez o mesmo, como os esquemas se anulam, eram quatro zagueiros marcando três atacantes de lado a lado e três meias se batendo. Drogba jogou. Sven-Göran Eriksson armou o time para empatar e tirar o Brasil na base do saldo contra a Coreia do Norte - e provou pela centésima nonagésima vez que não sabe fazer outra coisa senão falar javanês.

O jogo começa tenso, com os marfinenses recuados em seu campo defesa com Kalou e Dindane fazendo marcação sob pressão nos laterais e dando bem o bote. Drogba ficava entre os dois zagueiros. O jogadores de meio marfinenses corriam bastante, Kaká sentia a parte física e não corria, Gliberto Silva e Felipe Melo não saiam para o jogo. Maicon era quem, apesar dos pesares, tentava sair com a bola e Robinho mostrava a maior fome de jogo, enquanto Elano pouco aparecia e Luís Fabiano estava desabastecido no comando de ataque. Era um jogo de xadrez com nervosos saltados, mas Kaká foi entrando no jogo e junto com ele veio Elano. Numa jogada individual do nosso dez, Luís Fabiano entrou na área e fez um baita gol, recebeu na direita e chutou sem ângulo. Costa do Marfim ainda reequilibrou no fim do Primeiro Tempo que terminou equilibrado, execeto pela posse de bola, ligeiramente maior por parte do time brasileiro.

Veio o Segundo Tempo. O Brasil começa bem. Logo no comecinho, a bola sobra para Luís Fabiano que dá um chapéu, dá outro e conclui de primeira. Golaço. Brasil 2x0. O time fica eufórico e a defesa dá sua primeira navalhada: Drogba, livre, cabeceia para fora - dentro fosse e o deslocado Júlio César teria levado. O Brasil segue melhor e Kaká vai à linha de fundo cruzar para Elano, vindo de trás, só empurrar e fechar a fatura, Brasil 3x0 - lance trágico de dois jogadores que encontrariam sua sorte (ou falta dela) logo mais. Num contra-ataque marfinense, dois minutos depois do gol, Elano antecipa, é inocente ao entrar de carrinho de frente, Tioté entra por cima o tira de campo. O árbitro nada faz e Costa do Marfim começa a bater - e muito. Daniel Alves substitui Elano pela ponta-direita e a pancadaria come solta Kaká é provocado, toma cartão. Um contra-ataque que deveria ter sido morto logo no meio resulta no gol de Drogba frente uma zaga brasileira distraída e mal posicionada. As provocações continuam e Dunga erra em não tirar Kaká. Aos 44, um jogador marfinense simula ter sido agredido por Kaká e provoca a expulsão do jogador. O jogo termina, Brasil nas oitavas.

Valeu Dunga. Torçamos por Elano.

Atuação do Brasil

1. Júlio César: Sem culpa no gol, mostrou elasticidade e boa colocação - só errou em um lance que Drogba errou. 7,0
2. Maicon: Marcou em cima, apoiou menos do que no primeiro jogo. 6.5
3. Lúcio: Foi bem, mas deu espaços no segundo tempo. 6,0
4. Juan: O mesmo que Lúcio. 6,0
6. Michel Bastos: Apesar do erro ter sido coletivo, foi o maior culpado pelo gol e novamente foi mal. 3,5
8. Gilberto Silva: Bem na marcação, mas parece fora de ritmo. 5,5
5. Felipe Melo: Muito mal no começo, depois se recuperou e engrossou o caldo na marcação. 5,5
7. Elano: Entrou nervoso, depois se recuperou, coordenou as jogadas pelo meio, fez seu gol e foi vítima de uma entrada criminosa. 7,0
(13. Daniel Alves): Entrou numa verdadeira fogueira e se complicou em lances simples. 4,5
10. Kaká: Quando entra no jogo, mostra que é o principal jogador brasileiro. Foi vítima da arbitragem. 8,0
11. Robinho: Mostrou vontade, moveu-se bem, mas faltou um pouquinho de calma. 6,5
(18. Ramires): Deveria ter entrado bem antes no lugar de Kaká, não teve tempo. sem nota.
9. Luís Fabiano: Dois golaços. É um baita centro-avante. 9,0
Nota Média: 6,25

Dunga: Armou magnificamente bem para um dos jogos mais complicados da Copa, seja no que toca a disposição tática ou a de espírito. Errou no segundo tempo ao não ter tirado Kaká para poupa-lo das pancadas e da arbitragem esquizofrênica, mas fora isso foi muito bem. Não entendo porque leva tanta pedrada 7,5

Outras

A Itália é um time que em dez anos foi vice da Euro - em 2000, por covardia na final - e campeã mundial - num campeonato incrivelmente fraco, onde Parreira fez as escolhas erradas (veja só, as da imprensa esportiva!) e afundou o único time capaz de fazer algo naquele mundial. Fora isso, o time é bisonho, não exatamente pela qualidade, mas pelo anti-futebol que pratica. Não há como não torcer contra. Hoje empatou com a Nova Zelândia. Já o Paraguai venceu a Eslováquia e está a um empate da classificação para as oitavas. Uma maravilha para quem fica exaltando o futebol europeu e fazendo piada da América do Sul.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Notas da Copa: Itália 1x1 Paraguai e a Estreia da Holanda



Começando pela estreia da Itália, a atual campeã, o que se viu agora há pouco contra o Paraguai foi mais um jogo triste. A Itália não joga um futebol de resultados, ela joga um anti-futebol, onde a defesa e a marcação funcionam efetivamente ao contrário do ataque, uma engrenagem travada. Foi assim, é verdade, que o time venceu a última Copa, mas não há como não relembrar o quanto a Copa de quatro anos atrás foi igualmente disfuncional e sem opções, com o retumbante fracasso da única equipe capaz de encantar, justo a nossa, sobrou  para decidirem o título a Azurra tal como ela é hoje e um time sub-50 da França.


Do jogo de hoje, a Itália começou num 4/2-3/1, com Buffon; Zambrotta, Canavarro, Chiellini e Criscito; De Rossi, Montolivo, Pepe, Marchisio e Iaquinta. Gillardino - treinada por Marcello Lippi. O Paraguai, num 4/4/2, entrou com Villar; Bonet, Da Silva, Alcaraz e Rodríguez; Vera, Cáceres, Torres e Riveros; Lucas Barrios e Valdez - treinada por Gerardo Martino.


No começo, a Itália marcava sob pressão e sufocava os paraguaios, no que prática era um 4/3/3, mas o time sulamericano, apesar de inferior, se defendia bem ao mesmo tempo que de seus desarmes só resultassem chutões tentando alcançar seus dois atacantes enfiados. Foi essa a dinâmica de boa parte do Primeiro Tempo , italianos acossando paraguaios, sem criatividade ou mera ousadia, e paraguaios incapazes de encaixar contra-ataques - isso até o fim da primeira etapa, quando Torres bateu falta cometida por Chiellini sobre Valdez para Alcaraz, no meio de De Rossi e Canavarro, cabecear para abrir o placar em favor do time paraguaio. O jogo italiano não funcionava, seus pontas (Pepe e Iaquinta) eram perfeitamente neutralizados pelos laterais paraguaios (Bonet e Rodríguez), Marchisio não armava e Gillardino permanecia como permaneceu o jogo inteiro: Anulado pela zaga adversária. Muito embora o Paraguai não conseguisse construir jogadas ofensivas, se o jogo seguisse aquela tônica no Segundo Tempo, fatalmente, acabaria com vitória por 1x0 para os paraguios.


Na segunda etapa, o Paraguai começou melhor, mas depois de desperdiçar uma chance emblemática: Vera isolou uma bola que deveria ter convertido e a partir dali, a Itália recuperou o terreno que lhe daria o empate - especialmente depois de Marcelo Lippi ter modificado a forma da equipe jogar, colocando Iaquinta junto com Gillardino no ataque (depois colocando Di Natale no seu lugar) e colocando Camoronesi no lugar de Marchisio para ser o extremo-direito do meio, em suma saiu, o 4/2-3/1 para entrar o 4/4/2. O lance do empate só saiu mesmo depois de escanteio bem batido por Pepe, má saída do goleiro paraguaio, e conclusão, na raça, de De Rossi. Daí até o final, os italianos pressionaram ainda bastante, mas não conseguiram virar.


Nada animador de lado a lado, ainda que imaginar a desclassificação das duas seleções num grupo com Nova Zelândia e Eslováquia seja duro. Ainda assim, a sobrevivência de ambos no torneio vai demandar uma melhora aprofundada. A Itália foi o sexto time campeão mundial a estreiar num mundial que reúne todos os campeões mundiais, agora falta apenas o Brasil entrar em campo - até agora, ninguém perdeu, mas só a Alemanha não só encantou como goleou. 


Holanda e Grupo E


A Laranja Mecânica estreou hoje atuando ofensivamente, mas muito travada; faltou leveza no ataque e um cadinho de criatividade para jogar em cima da defesa dinamarquesa, pesada toda vida, que assim como o resto do time me surpreendeu negativamente. Ainda assim, ela soube manter a posse de bola e conseguiu o domínio suficiente para marcar dois gols - um deles, aliás, contra da dinamarca. Fim de jogo 2x0. O Japão e Camarões fizeram o outro jogo do grupo e a seleção nipônica, num lance de oportunismo, venceu os africanos - com a derrota de hoje, Camarões se junta à Nigéria e à Argélia entre os africanos derrotados na primeira rodada, o que depois do empate de África do Sul e México, torna Gana o único time do continente a ter vencido. Futebol por futebol, depois da estreia de 22 seleções, a única que jogou bola mesmo foi a Alemanha e não tem conversa.

domingo, 13 de junho de 2010

Notas da Copa: Segunda, Grupo E e a Itália

Amanhã estreiará a Itália, atual campeã mundial, contra o bom time do Paraguai pelo Grupo F. Será, sem dúvida, um bom jogo, ainda que os italianos sejam favoritos, é bom não desprezar os paraguaios, que fizeram uma boa eliminatória. O jogão de amanhã será mesmo aquele que abre o dia, Holanda e Dinamarca, pelo Grupo E, mesmo que a seleção laranja historicamente jogue um futebol mais estético do efetivo, nunca faz mal vê-la jogar - e mesmo que enfrente um bom time, creio que a Holanda seja favorita mesmo. Japão e Camarões, também pelo Grupo E, podem fazer um jogo melhor do que aqueles que vimos hoje de manhã - e será uma partida disputada, destinada ao empate, suponho. Em suma, é uma merda que a tabela de segunda não foi a do domingo.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

A Itália de Berlusconi



é um país assustador, sem dúvida. Desde que a República foi posta abaixo na Roma Antiga, os italianos se encontram às voltas com figuras bisonhas na Política de tempos em tempos; elas não apenas representam um tom trágico para a política daquele país como também imprimem um certo ar cômico; de um Calígula até um Berlusconi passando por um César Bórgia, resta um algo de terrível somado ao mais profundo ridículo.Para se ter uma ideia do que é o atual premiê do país, Silvio Berlusconi, é preciso imaginar o que daria uma mistura de Silvio Santos, Paulo Maluf e Don Vito Corleone. Agora, imagine isso governando o seu país. Bem-vindo à Itália.

A Itália que chega a essa situação é o país que passou séculos fragmentado, convivendo com guerras fratricidas que decorriam tanto do ímpeto dominador de monarcas de toda Europa como da canhestrice dos seus líderes regionais - para o horror de gênios como um Dante ou um Maquiavel - para depois ver que da sua reunificação nasceu um país disfuncional; é esse o terreno fértil que produziu o Fascismo, uma ideologia que resultou em um movimento social e político cujo precursor, o jornalista Benito Mussolini, acreditava em um Estado forte como articulador das relações entre capital e trabalho para assim, corporativamente, construir uma espécie de utopia pós-liberal e anti-comunista - o sistema ideal para sustentar o Capitalismo. Sua fantasia nacionalista e autoritária era fruto de uma óbvia exacerbação do romantismo: O que se refletia por meio de sua visão idealista de História que o fez buscar no ufanismo em relação ao passado glorioso da Roma Antiga as bases e as palavras de ordem para levar esse projeto adiante.

O Fascismo deixou marcas difíceis de apagar em toda a Europa a ponto de virar um termo lato - e o próprio Fascismo italiano ser visto como tipo estrito emparelhando-se com o Nazismo, o Salazarismo e o Franquismo em um organograma da Ciência Política, ainda que historicamente os tenha antecedido e inspirado - assim como inspirou boa parte da ideias por detrás do nosso Varguismo. Como os demais regimes fascistas na Europa, o Fascismo acabou com seu próprio país enfiando-o de cabeça na Segunda Guerra Mundial. O país que emerge do conflito está destruído e vivendo uma profunda crise de valores; nesse quadro as forças esquerdistas tornam-se um poderoso elemento político e causam preocupações severas nas potências ocidentais.

A Itália do pós-guerra é uma república parlamentar na qual a
Democracia Cristã surge como força hegemônica amparada pela Igreja, pelos setores conservadores do país, pelos EUA e pela própria Máfia enquanto o Partido Comunista Italiano, maior agremiação comunista da Europa Ocidental se afigura como uma força política enormíssima - mas o Partido de Gramsci não consegue ser suficientemente duro para fazer a Revolução nem suficientemente flexível para se tornar governo e o jogo político fica na mão dos democratas cristãos pelas décadas seguinte. Esse cenário piora nos anos 60 e 70 quando as contradições da industrialização tardia, regionalmente desequilibrada e socialmente desigual produz as inquietações políticas que tornaram aquela época conhecida como os anos de chumbo - época em que parte da esquerda partiu para a luta armada, a direita praticava atentados sob bandeira falsa e a máfia grassava.

No fim dos anos 80 e início dos anos 90, a velha ordem do pós-guerra é alterada quase como por um vendaval; o colapso soviético joga o PCI numa desnecessária - e fatal - crise e a operação mãos limpas simplesmente liquida com a Democracia Cristã revelando a ligação de boa parte de seus membros com a máfia. Resta um vazio político - uma crise de hegemonia, como diria Gramsci. No fim dos anos 90, isso é preenchido com o primeiro governo de esquerda do país; aquele liderado pela Democracia de Esquerda, uma das agremiações que sucederam o PCI; em seu comando estão Romano Prodi e Massimo D'Alema. Isso, no entanto, não muda a sorte italiana produzindo os estragos necessários para que Berlusconi suba ao poder depois de uma breve passsagem pelo poder após o Governo Ciampi.

Nosso personagem, um ex-crooner, magnata das comunicações, dono de um time futebol, conquistador e político nas horas vagas é a figura burlesca que vai dominar a cena política italiana no início do século que começa por cinco anos - sendo um dos mais fiéis aliados de Bush na Europa Ocidental. Seu Governo é marcado por um corrupção aguda severa e por uma inoperância ímpar. Romano Prodi, por meio de uma ampla aliança de esquerda e centro o derrota em 2006 para ver seu governo virar água em pouco menos de dois anos e assim permitir que Berlusconi volte. Por ora, os holofotes da mídia preferem se voltar para os chocantes - mas politicamente irrelevantes - acontecimentos de sua vida privada, esquecendo do mais importante que é a profunda crise política e social que persiste na Itália.

Há poucos dias, o Tribunal Constitucional Italiano declarou incontitucional a lei que garantia a imunidade do chefe de governo e agora ele irá responder às toneladas de processos nos quais é réu como um reles mortal. Sem dúvida, uma decisão política da suprema corte italiana movida pelo desespero de ver a chefia de governo do seu país sequestrada por um louco - e ainda há quem leve a sério o que as autoridades italianas falem a respeito do processo de extradição de Cesare Battisti. Do ponto de vista partidário, temos o início do fim de Berlusconi, mas a pergunta que fica é: Após o dilúvio, o que virá?