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quinta-feira, 23 de maio de 2013

(Re)Virada Cultural -- Existe Amor...?

Entre os últimos sábado e domingo, aconteceu a Virada Cultural de 2013 em São Paulo, evento anual que atrai milhões de pessoas para uma série de atividades artístico-culturais que ocorrem no Centro. A crítica que se abateu sobre esta edição, por seu turno, foi inclemente: as palavras violência e criminalidade tomaram as manchetes da mídia. Como sempre, a questão, posta nesses termos, é uma falácia. Nem essa "criminalidade" é causa autônoma de nada, tampouco é um efeito de problemas específicos da Virada -- como se, antes, não houvesse uma onda crescente de violência no estado de São Paulo. Nem por isso, no entanto, a Virada 2013 foi um sucesso ou mereça ser defendida.

A crítica posta nos termos do escândalo público com a "violência" ou a "criminalidade" é um equívoco atroz -- sempre que a sociedade brasileira faz isso, via de regra, dificilmente procura encarar as causas sociais que geram esse quadro, tanto menos resolvê-las; in casu, sequer a criminalidade, ou a atual onda de crescimento desta em São Paulo, é causada pela Virada ou possa ser atribuída à Prefeitura e não ao governo do estado, por uma óbvia questão de competência: é o governador do estado, Geraldo Alckmin, que comando o sistema de segurança pública, não o prefeito de São Paulo, Fernando Haddad.

É preciso, portanto, pôr os pingos nos Is. A questão da violência é transversal à Virada, o que não quer dizer que ela deva ser blindada de críticas, só que estas, obviamente, precisam se referir ao que interessa nessa conversa: políticas culturais, ou melhor, onde este uma política democratizante no campo da cultura. Nisso Haddad, que acertou bem mais do que errou, não só pode como merece ser cobrado.

O modelo posto de Virada -- que é bom apenas naquilo que é acidental, mas o acidental não deixa de ser (muito) bom -- foi repetido em 2013. E se 2013 não marcou um corte ou uma inovação em relação a 2012, também não lhe superou dentro do modelo proposto. Isto é, a partir de uma perspectiva mais democrática e aberta, o desastre foi grande: fez-se o de sempre e mal.

A falta de atividades na periferia -- que contam com a bela estrutura dos CEU's --, a ausência de palcos menores povoando o próprio Centro em detrimento do Grande Evento, a carência de critérios mais sólidos e transparentes para a escolha dos eventos são, sem dúvida, pontos que precisam ser levados sim em consideração.

A Virada, lembremos, tem quase uma década e remonta à gestão Kassab que, embora tenha terminado com baixíssima taxa de aprovação, ao menos emplacou algo popular. Ou quase. A Virada se chocou desde o início com o próprio projeto que Kassab tinha para o Centro: se por um lado a Prefeitura, naquela ocasião, agiu firmemente aliado das corporações, realizando uma típica política urbana higienista com vistas a uma ambiciosa reforma excludente e autoritária da região central, por outro, ela trouxe, com a Virada, milhões de pessoas anualmente para uma zona da cidade abandonada, retirando aquela área da invisibilidade que o próprio projeto kassabista demandava.


Haddad, por sua vez, mal entrou e engavetou o principal projeto de Kassab para o Centro. Mas o Centro, nesta ocasião, voltou a ser a um sujeito ativo do ponto de vista geográfico-político -- o que, inclusive, ajudou a forjar a eleição do atual prefeito paulistano. Creditar isso apenas à Virada é um engano, mas esquecer qual o peso delas para tanto é igualmente ingênuo.


Serra, por exemplo, foi derrotado na região central por Haddad e, ao mesmo tempo, a questão do Centro e a proposta de reforma excludente foram um dos maiores motes anti-PSDB dos últimos anos. Ocupar o Centro antes de reforma-lo -- como Haddad ambiciona -- é o correto, pois força sua transformação. Reformar para ocupar é ilusório, sem ocupação dos espaços, não levará nunca a melhoria alguma.


É óbvio que nunca houve nada na Virada que partisse da premissa de uma reconhecimento da Cultura como produção comum da multidão.Cultura aqui aparece como produto mercantilizável, mas que pode ser alavancado pelo Estado em um esquema, no entanto, empresarial e corporativo.

No entanto, pôr milhões de pessoas ocupando as ruas de um Centro entregue às baratas -- para que possa ser demolido e reconstruído por interesses bem distantes do social --, sem querer, é fazer algo (acidentalmente) revolucionário. Nem que fosse em apenas um dia no ano. É evidente, no entanto, que é possível fazer mais a partir desse processo.

O espírito do Existe Amor em SP, festival que mobilizou milhares de jovens nas eleições municipais do ano passado contra a ascensão do candidato conservador Russomanno -- e, de certa forma, a favor de Haddad, então mal das pernas nas pesquisas --, além de suas falhas criticáveis -- o milagre da multiplicação de "investimento" no festival pelas novas formas de exploração e captura, por exemplo -- marcou a ascensão de um verdadeiro oba-oba na Cultura paulistana. 

Agora, tudo se passa por uma crença no entretenimento 2.0; sob uma retórica (pós)moderna não apenas estão longe de considerar a potência produtiva da multidão, dos pobres e precários, no campo da cultura -- e da cultura como bem comum -- como, ao contrário, lhe antagoniza de forma sofisticada; no lugar da velha linha de montagem hierárquica, redes de captura da produtividade da multidão. Essa lógica domina, hoje, a Secretaria de Cultura.

O agenciamento desse fenômeno com a Prefeitura resultou numa Virada pouco democratizada na ponta, pois esteve carente de democratização na base do processo. Enfim, faltou democratização econômica, geográfica e política da Cultura na Virada 2013, mas isso não é problema para os conservadores que preferem a retórica do pânico e do sensacionalismo com a violência, pois, evidentemente, seus objetivos são outros. Nem por isso é questão de escaparmos ao debate real que precisa ser travado aqui. É possível ir além.



domingo, 4 de novembro de 2012

O Prefeito Haddad, as "Duas" São Paulos e o Comum

Há uma semana, Fernando Haddad foi eleito prefeito de São Paulo. O que é realmente curioso nesse processo -- além dele ter sido a disputa municipal que mais aludiu à grande disputa nacional, PT x PSDB -- foi a exposição de um abismo (eleitoral, político, social, econômico, cultural...) na maior metrópole do país: de um lado, a periferia pobre, com muitos habitantes, poucos empregos e poucas políticas públicas, do outro, a São Paulo do centro expandido, seus centros empresariais,  culturais e bairros de primeiro mundo. 

Os fluxos da cidade movem-se sob uma lei clara: a multidão confinada nas periferias é obrigada a se deslocar -- para chegar aos seus empregos, aos hospitais, universidades e opções de entretenimento e cultura -- em um transporte público superlotado, por vias superlotadas. A poluição crônica e o congestionamento das vias -- nasais e públicas -- é a resultante óbvia desse processo. São Paulo poderia funcionar, a exemplo de outras metrópoles ao redor do globo, na sua disfuncionalidade, mas o fato é que sua elite dirigente, embora se orgulhe de ter conseguido confinar os pobres para longe, não logrou muito êxito nisso.

Sim, a noção de crise social é sempre relativa. Ela diz respeito para quem e como: na periferia, a crise é permanente -- está no interior de seu ser, não no predicado --, enquanto nos bairros de elite, ela pode ser uma ocasião determinada. Mas a crise da periferia, que é periferia do centro -- isto é, sua existência é relativa, de modo mútuo e simultaneamente implicante, a do centro. Não há duas São Paulos. Há --como efeito e não por natureza -- uma mesma São Paulo: e a Lei do Mesmo, aplicada sobre diferentes (étnicos, sociais, políticos etc) produz uma grande fenda na forma de desigualdade, exposta na divisão, de caráter segregacionista, da metrópole paulistana em duas metades.

Todos sabem que as coisas vão mal por aqui. Mas é um ir mal que, como já dissemos, varia do ponto de vista, e do modo, que se olhe. Kassab não foi um mau prefeito do mesmo modo para um habitante médio de um bairro de elite e para um morador da extrema periferia. Tanto que mesmo entre quem avaliava mal sua gestão nos bairros ricos, votou, via de regra, em Serra (seu antecessor e sucessor natural). O fato de Kassab ter sido considerado um mal prefeito em toda parte, no entanto, alude para a possibilidade de que há um mal comum -- e, portanto, abre a brecha para a produção de um bem comum. 

Mesmo dentro da estrutura conflitual da sociedade capitalista -- e como esse fenômeno se manifesta disposto no corpo de uma metrópole como São Paulo -- na qual o mal é diferente e varia conforme o sujeito e o modo, é possível que as contradições se expressem de modo que a vida seja comumente ruim ou, em sentido inverso, que possa ser comumente boa: e bem e mal, aqui, como situação que permite o aumento ou diminuição da potências das pessoas no contexto da vida urbana.

Isso está longe de ser uma formulação de que é possível um governo municipal, ou a atuação política urbana, poder ser universalmente boa, mas sim de que há um bem, um aumento de potência, que possa ser comum e estar no comum das vidas. Um argumento [retórico] possível para a vitória petista é que quem "precisa de governo" -- ou de bem estar -- votou em Haddad, enquanto a parte que não dependeria disso pôde optar por uma saída moral que se desdobraria em uma bifurcação: (i) já que eu não preciso e o outro precisa, eu voto conforme o interesse dos "necessitados"; (ii) eu voto conforme meu interesse enquanto abastado. 

Se fosse assim, tudo estaria perdido. Seria como se, uma vez terminadas as necessidades, ninguém votaria em uma proposta social, o que é falso.  A verdade é que todos podem optar, como optam, para além das suas necessidades. E podem optar por fora da moral, por fora até do seu próprio interesse, mas não para além do seu próprio desejo -- e foi assim que optaram; tampouco existe a possibilidade de que as metades nas quais São Paulo está dividida sejam causais: elas são efeitos, que se interrelacionam, e compartilham do mesmo evento causante que é o próprio sistema de produção, e sua disposição pela metrópole. Se dizemos que algo produz riqueza é porque está, ao mesmo tempo, produzindo pobreza, uma vez que riqueza e pobreza são condições relativas e mutuamente implicantes (se há rico, é preciso haver um pobre e vice-versa). 

Nas diferenças de posições da cadeia produtiva, e da organização social, haverá sempre lados e a relatividade aparente da crise -- os altos aluguéis são a crise dos sem casa para morar e o tempo de vacas gordas dos proprietários de imóveis -- mas esses lados só existem porque, antes de mais nada (num sentido ontológico e não cronológico) há um comum metropolitano e urbano: O rico pede pobres para poder ser o que é, enquanto o pobre pode ser o que já é sem os ricos. 

Embora a situação de exploração possa durar indefinidamente, o fato é que ela dura mal, para ambas as partes: se os pobres votam em quem apresenta um programa mais favorável, é pela afirmação de sua potência e de sua condição -- o que consiste numa opção --, mas quando os ricos fazem algo semelhante, vê-se que a simetria é falsa, uma vez que não há voto mais servil do que aquele que serve para atestar o próprio vazio de sua condição. 

Os ricos vivem aparentemente bem, do contrário não o seriam, mas vivem bem às custas do vício na exploração do outra, na paranoia constante que isso implica (é preciso manter o controle! manter o controle!), o que em outra palavras é viver mal, é viver em um estado de constante vazio -- entre doses de rivotril, cercas eletrificadas e a impossibilidade deles, mais do que ninguém, em disporem da própria cidade (por motivos objetivos e subjetivos). 

A questão não está em investir na "base da pirâmide social" em vez da "ponta" para universalizar o bem-estar. Está em investir no desejo que perpassa todo o sistema de modo comum. É da compreensão disso que a ocupação da função de governo, enquanto antigoverno (e não desgoverno, como Kassab), pode produzir alguma diferença: o desgoverno demonstra por vias tortas que há uma potência comum compartilhada, para o bem e para mal, na urbe, enquanto o antigoverno a catalisa. 

É nesse cenário que Haddad assume. E assume porque, antes de mais nada, o Lulismo que ele ajudou a construir, ao deixar de lado a retórica própria da esquerda e assumir práticas radicais, permitiu. Não é mais como a São Paulo de 2000, onde Marta apesar da votação apenas um pouco maior do que a dele, venceu em toda parte: agora, claramente, a cidade tem lados, uma vez que a luta de classes saiu do plano figurativo. Os pobres, agora, desejam, foram autorizados a desejar e tudo mais é uma consequência disso.

Haddad venceu pela fortuna -- pelos fatores e variáveis não capturáveis pela esfera de cognição de um movimento político --  além da virtù. Ele terá de articular as tensões de força dentro  do PT paulistano e suas inúmeras correntes, sabendo que os movimentos e redes de apoiadores externos, além de essenciais para sua vitória, são a única fonte suficiente para evitar que o partido, e o seu governo, devore a si mesmo. Vai precisar desses mesmos setores, inclusive, para não ser devorado por uma Câmara fisiológica onde não tem maioria e Kassab conserva sua influência.

São Paulo, pela primeira vez em dez anos, respira. Desobrigada de ser trincheira dos projetos pessoais de quem fracassou nos anos 90 e insistiu em reagir ao projeto que mudou esse país ao longo da última década, a altos custos humanos, agora a metrópole paulistana pode ser tornar quem ela é.

sábado, 20 de outubro de 2012

A Metrópole e uma Ontologia do Desespero-Segurança

Amarelo, Azul e Vermelho -- Kandinsky
























Até que ponto podemos dizer que a esperança e o medo, a dupla-hélice do DNA do discurso tirânico, são dois afetos absolutamente diferentes? A esperança se funda em uma negação da atualidade, um abrir mão do aqui-agora em virtude da Promessa -- o que, embora se deva a um bônus, essa lacuna protelatória é negativa: medo de viver no aqui-agora. E o medo não deixa de ser a espera(nça) da tristeza. O que interessa nos dois, e não me resta muita dúvida, é a promessa e a expectativa. Hoje, contudo, a promessa e expectativa estão postos de outra maneira: é o desespero e a segurança que avançam e se impõem cada vez como a nova matriz do despotismo.

A diferença está no fato de que as dúvidas sobre a desdita futura, ou passada, são cada vez mais dissipadas: nunca houve tanta certeza sobre o incerto quanto hoje, nunca se morreu tanto de véspera. O cidadão recluso e hipocondríaco das metrópoles pós-pós está certo que, caso saia às ruas e encontre uma multidão, será vítima de alguma violência ou restará contaminado por um mal sem cura. 

A catástrofe é certa e a única perspectiva que temos, na prática, é das nossas assépticas torres de cristal. Só nos resta a segurança, precisamos lutar por segurança pública -- policialesca e inclemente --, por segurança nos nossos posicionamentos e votos -- estar de lado até mesmo daquilo que é certo enquanto posição minoritária, nunca ousar --, segurança nas nossas mais íntimas relações humanas. 

Em Spinoza, a diferença entre o par medo-esperança -- a expectativa ou reminiscência da tristeza-alegria -- e o par desespero-segurança é precisamente a ausência de dúvida. Se temos medo, é em virtude de alguma tristeza que nos marcou -- a exemplo da dor na forja do Contrato, como nos lembra Nietzsche em Genealogia da Moral -- ou que imaginamos que irá nos acometer, mas o desespero é ausência de dúvida sobre o que é por natureza incerto, um senhor abraço à miragem: já não esperamos, irá acontecer. 

Na segurança ocorre o mesmo em relação a alegria: mas o suposto aumento de potência da alegria está sempre eivado pelo negativo do deslocamento para o futuro, se dizemos que estamos seguros é porque estamos desesperados, é o desespero pela alegria, ele mesmo, que nos faz paranoicos, estar seguro é estar com a potência reduzida em face de um complexo de coisas que, supostamente, nos faz e fará alegres: a portaria fortificada e blindada do prédio, a cerca elétrica, tudo para o nosso bem passado, presente e futuro, enquanto necessário e insubstituível. 

O problema é o tempo, sempre o tempo, e como ele se articula: se dinheiro é tempo, e ele o é no capitalismo pós-fordista, testemunhamos a alteração da percepção do segundo e as relações que envolvem o primeiro; com o trabalho dissipado pelo dia, do expediente temperado com a página do facebook aberta até leituras noturnas dos e-mails com os relatórios de vendas, as coisas saem de lugar. 

E quem tem reserva de tempo é quem tem dinheiro, tempo para investir, tempo para recuar e fazer opções melhores, segurança, enquanto quem nada tem, ou tem tempo sob a servidão está em desespero; não é preciso brincar com a ameaça de uso da força ou a promessa do bem-estar (pela adesão aos ditâmes do Estado ou o enriquecimento via trabalho duro), basta negociar o tempo curto e dúctil que resta às pessoas comuns: e elas estão certas do mal que virá, logo, o leque de opções é curto.

Talvez a constatação até intuitiva do império do desespero-segurança leve a pensadores como Badiou a darem um novo estatuto para a esperança: precisamos de esperança nesses tempos, cultivar uma potência entre o tempo de aqui e do porvir. Mas em todo caso, a crença -- e tratamos de algo que será sempre uma crença -- em uma promessa foi o substrato necessário para a construção das redes de segurança social, em outra ponta, da mostra do desespero: "trabalhe e faça parte (da Família, do Estado, da Empresa) porque sem eles você, certamente, estará frito". 

O problema, naturalmente, não é criar meios para dar educação e saúde para populações imensas, mas a forma como isso foi criado, de forma tão pueril que acabou perdido e solapado pela reação neoliberal. E esperança não serve nem para as lutas que se iniciam: é preciso de um virtuosismo renascentista como o de Negri -- ou da promessa descumprida do evento Lula, de ser um governo de esperança, quando foi de alegria, apesar de alguma poluição do negativo aqui e acolá.  

O despotismo pós-moderno não precisa da força do welfare ou do workfare, tampouco da ameaça do uso de forças militares, ele apenas e tão somente negocia a ansiedade alheia frente ao futuro construído, faz apostas sobre as reservas de tempo, as expectativas e as especulações: o risco, aquilo que há de mais próprio e belo na vida humana, torna-se problema, é preciso depositar nossa liberdade para os soberano por conta do risco.

Olhando a metrópole, as cidades-mãe, vemos algo parecido no Rio: como Paes venceu? Primeiro, porque ele é um aspecto próprio aos paradoxos internos do Lulismo, capturador e capturado, depois porque ele não pertence a um grupo de políticos conservadores que irá para o confronto, como o velho Serra e Kassab, mas sim negocia: ao negociar, nega o ócio, institui um regime de obrigações que, aqui, diz respeito ao tempo esgarçado dos dias atuais, e da pouca reserva de tempo dos removidos nas comunidades frente a uma proposta de quem detém uma reserva quase imensa de tempo, o poder público. Por que não aceitar o cheque e ir embora nas minhas condições? 

Foram os removidos ou removíveis que elegeram Paes, enquanto muitos dos que lutaram por eles ficaram no campo eleitoral oposto -- que pouco tinha a oferecer frente ao Um Rio, justamente, por não se aliar ao monstro da classe sem nome. O Rio está mais seguro, afinal. O confronto precisa ser, antes, na concepção de tempo: ao negócio, opôr o ócio. É preciso tornar o tempo não suficiente (segurança), mas devir-abundante. Uma esquerda precisa avança mais e mais no sentido de dizer "ou é para todos ou é para ninguém", na alegria carnavalesca disso, do que "ou tudo ou nada" ou apostar no regime moral da denúncia: "as premissas estão postas, queremos segurança, a falta está introjetada desse modo, eu irei ser complacente com as milícias sim, a minha adesão é funcional, não moral, nem cambiável pela moral".

Em São Paulo, onde o tempo seco da gestão da vida já está afirmado há tempos, na forma como a polícia planeja a política de habitação e as imobiliárias executam a política de segurança pública,  o que está em jogo? Haddad não lidera simplesmente por conta do PT, pela sua campanha, embora ambos catalisem bastante apoio, em contraste com o foi recorrente ao longo do anos 00 com Marta, isso não é suficiente por si só: o que interessa ali, mais do que a presença de corpo e alma de Lula, é o movimento espontâneo da multidão das periferias, nas universidades ou mesmo fora de tudo isso, andando nas ruas; não é Haddad que puxa o movimento, é o movimento que potencializa Haddad e é esse o real evento Haddad: ele está muito além das questões internas do PT, das disputas e das certas poluições burocráticas.

A questão não é que Haddad pouco importe, ele importa, mas importa por nada fazer, por não agir na obstrução dos setores vivos que fazem o partido, dentro e em torno dele. Há tempos não se via algo assim em São Paulo, mas certamente nunca se viu desse modo: é o devir-Brasil de São Paulo, ainda que confrontando-se com o tornar-se Brasil, das disputas, do equilíbrio de poder na base e, é claro, da fome do próprio capital paulistano: sim, o capital paulistano, que sabe muito bem que é o governo federal quem tem dinheiro e disposição para investir na cidade, uma vez que Alckmin, no governo do estado, não tem nenhum nem outro, seja pelo seu plano pouco funcional de economizar em tempos de crise -- o que vai custar muitas prefeituras no interior -- e sua antipatia aguda por Serra.

Como equilibrar, a fome do capital que financia campanhas e controla do mundo e a  efetuação das demandas sociais? Foi ser capaz de dar esse nó que permitiu a Lula levar a cabo boa parte das conquistas dos último anos, maquiavelicamente: aliar-se intensivamente com a classe sem nome, sabendo que é você quem está em função dela e que sua força, por sinal, é imensa. São os paradoxos e o jogo complexo de tudo isso que, inclusive, explica Paes no Rio, conservador, capturado e ao mesmo tempo capturante, face direita do Lulismo que não deixa de abrir-se à esquerdização de fora, ao contra-déspota que vem de fora.

O novo biopoder não se volta para organizar o medo da morte, mas o desespero em vida: estar sem tempo, embora a reserva dele não seja nada menos do que anestésico e cancerígeno. Remete o centro da nossa vida para trás, ou para frente, nos prendendo em um ciclo de remorso e angústias, ele se infiltra, o que exige que nos infiltremos: é mais fácil derrota-lo o abraçando e tirando fotos com ele do que o denunciando. Esse biopoder não precisa da nação, mas da pólis, da metropólis global, pequena mônada onde vive um mundo inteiro -- e como diria Clarisse, citada por Negri no Multidão: "O mundo inteiro terá de se transformar para eu caber nele". O nosso mundo é a metrópole, locus mais global do que o próprio globo; nada mais global do que a pautas meramente municipais que pautam, muito mais do que as nacionais, as presentes eleições.

A biopolítica exige um estado de exceção constitutivo, organizar o desejo de vida, de viver intensamente o aqui-agora porque não se ama no amanhã, só no hoje. A emergência dos que foram feito submersos. Se o problema é tempo, que ele seja abraçado e desembaraçado. O novo Brasil entrará em um novo momento nas próximas semanas: a crise mundial, o STF como tribunal de exceção e a fome do capital de um lado, a classe sem nome em sua fúria monstruosa de cupidez do outro.


  

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

São Paulo, Haddad, Serra: a Batalha e a Metropóle

Recomeçou esta semana a campanha municipal, agora é a ora e a vez do 2º turno. Em São Paulo, alinham-se na disputa Fernando Haddad (PT) e José Serra (PSDB), representantes das duas forças que disputam, há cinco eleições, a cadeira presidencial -- cada qual capitaneando um lado do espectro político. São Paulo é a maior metrópole do país. E é grande sobretudo onde é pequena, onde é minoritária. Por que São Paulo? Certamente não porque é o umbigo do mundo ou muito menos do Brasil, mas sim porque protagonizou a reação ao projeto que governa o país há anos, nem sempre por seus defeitos.

Uma aliança perfeita: a direção das grandes corporações de mídia e seu jogo panfletário, a burguesia local e seus pruridos -- e setores médios que se prestaram -- o financismo -- na forma da especulação imobiliária, a dívida sem fim para poder habitar -- o jogo oportunista de setores centristas, "social-democráticos", dispostos a tudo para chegar ao poder no governo federal. Oito anos depois e o resultado é que São Paulo, sem risco de ser parcial, desumanizou-se. 

As conquistas dos anos Lula, que bem ou mal chegaram no aspecto macro, não adentraram à vida das pessoas -- ao lado de fora de casa, como diria Haddad -- não somente por falta de um governo que se abrisse para articular políticas públicas em parceria com o governo federal, mas também, e sobretudo, pelo fato dele se fechar transformando São Paulo numa trincheira de uma guerra contra um inimigo que nunca existiu: mas Kassab, enquanto vê sua gestão liquefazer, muda de lado, racha a direita nacional, se fisiologiza -- só não poderia dizer um não ao seu padrinho político, José Serra, quando ele precisou se candidatar.

As UPP's e as remoções no Rio, metrópole-laboratório do governo federal -- embora nas mãos de aliados e não de correligionários propriamente ditos -- são dignas de críticas, mas precisam ser vistas nas suas ambivalências. Favelas pegando fogo durante a calada da noite, não, é um ato puramente inequívoco. Criticar Serra não é paranoia, tampouco exime o PT, municipal ou nacional, de nenhuma crítica, mas isso não quer dizer que ele não tenha a enorme responsabilidade por Kassab e tudo mais que veio junto -- que mais do que empurrar com a barriga os problemas da cidade, instituiu um vazio de ideias uma geleia geral. O que houve com São Paulo durante esses oito anos?

No 1º turno, enquanto o julgamento do mensalão transcorria como espetáculo do moralismo nacional, uma fogueira da inquisição da sociedade do espetáculo -- coincidentemente ocorrida durante as eleições -- Russomanno ascendia com um misto de demagogia religiosa, discurso da segurança pública e quetais. Se Maluf foi assunto das eleições por conta da famosa foto com Lula e Haddad, o malufismo mesmo estava lá. E parecia não arrefecer mesmo com o baixo tempo de TV e recursos dele. Serra caia e depois disputava voto a voto com Haddad para passar ao 2º turno.

Pesquisas a postos, a ascensão de Haddad foi subestimada, assim como sua chegada na hora H, Serra idem e a queda de Russomanno -- cuja figura contestabilíssima começou a ser desconstruída pela própria mídia conservadora, por tirar votos também de Serra -- fim de jogo: Russomanno foi, ainda, bem votado na periferia, quase não teve votos no centro expandido, Chalita apareceu em um quarto lugar constante por todo o município e Haddad venceu na periferia enquanto Serra venceu nos bairros ricos. 

A geografia de São Paulo é a perfeita ilustração da luta de classes e do êxito da burguesia em varrer seus pobres pra longe, embora dependa deles diariamente --  pobres que moram nas bordas e precisam vir de todos os lados para trabalhar no centro expandido todo dia (concentração de gente na periferia, concentração de empregos no centro); daí que a crítica ao modelo urbano-econômico de São Paulo não ser de natureza moral, mas sim pragmática-funcional: não, desse jeito, São Paulo não funciona mesmo, poluída, engarrafada e insuportável.

Se Serra teve menos votos que Kassab na periferia é porque o terceiro candidato, Russomanno, mantinha o apelo popular lá, embora tivesse poucos votos no centro expandido -- onde Serra foi mais bem votado do que Kassab --, caso exatamente oposto ao de Alckmin, terceiro mais votado em 2008. Haddad, por sua vez, foi mais bem votado do que Marta no centro expandido, mas teve menos votos na periferia justamente pelo fator Russomanno.

Haddad é a construção do Novo Brasil em São Paulo, um tornar-se novo Brasil da pauliceia por meio do Lulismo, nas suas ambivalências e, sim, sua potência. Serra é o tornar São Paulo o Brasil -- trazer São Paulo, não a intensidade da São Paulo viva, mas fazer, forçosamente, do Brasil aquilo aquilo que São Paulo é, ou está. 

Nas pesquisas de 2º turno, Haddad iniciou na frente, entre dez a onze pontos percentuais válidos, de Serra. Nada de novo sob o Sol: candidato mais rejeitado entre todos, e com o eleitorado de Russomanno, pelo menos aquele que restou com o candidato do PRB até o dia da votação do 1º turno, mais propenso a votar no candidato petista, Serra não poderia registrar nada diferente que não isso. 

Nada que não motivasse um ataque duro. E novamente Serra apela para o discurso moral e para a violência oportunista com as minorias ao se usar do kit homofobia contra Haddad -- projeto educacional do MEC contra o ódio aos homossexuais, mas barrado pela bancada da direita evangélica (e não bancada evangélica, não vamos colocar todos os evangélicos na mesma canoa, por favor). Irresponsabilidade que não foi poupada nem mesmo por um editorial da Folha, serrista de tempos e de carteirinha. 

Uma minoria inteira exposta por oportunismo eleitoral, por uma pesquisa desagradável -- embora o governo Serra tem distribuído um material parecido ao kit anti-homofobia nas escolas públicas de seu estado, o que torna tudo mais cruel do que seria preconceito puro. Nada muito diferente de 2010, quando valeu literalmente tudo para impedir a ascensão de Dilma.

E de lá para cá, o debate político tem sido pautado por superstições morais: o preconceito do o tom da chantagem parlamentar no Congresso, e fora dele, e o governo petista não sabe o que fazer, se responde, se contemporiza. São absolutamente injustas as críticas de homofobia por parte de Dilma, mas é certo que o governo atual tem medo -- quando precisávamos do contrário. E o PSDB surfa na onda contra o PT, o que, pelo visto, não tem lhe ajudado a vencer eleições, mas prejudica o rival e torna o jogo político um tanto pior.

Nada está decidido em São Paulo. É possível que Serra eleve o tom e atire para todos os lados. Precisa sobreviver na política. Não sabemos quem mais, depois dos homossexuais, irá se tornar refém eleitoral. Haddad precisará ser preciso e duro sem perder a ternura -- tem a seu favor uma rejeição menor e a capacidade disputar votos na periferia próxima, nos bairros que são limítrofes, por fora, com o centro expandido, onde venceu em alguns e perdeu, só por conta de Russomanno, em outros.

Há muito o que discutir, há muito o que fazer. Não adianta supor que isso é uma batalha do bem contra o mal, onde Haddad seria o mocinho e Serra o bandido, mas também não é qualquer jogo onde ambos são o mesmo, ou niveláveis pela mesma régua: o longo governo Serra/Kassab não está em crise, ele é a crise, mas não a crise para os especuladores do setor imobiliário e outros parasitas tantos, mas sim a de nós outros, os cidadãos comuns que tentam, e até precisam, habitar e viver a cidade, incorporando e sendo incorporados. 

Portanto, não é hora, nem o caso, de não tomar partido, é preciso fazê-lo e tudo mais: tomar partido, tomar o partido, lutar pela desinterdição afetiva à qual estamos sujeitos há muito. Pode ser ingênuo, mas é, e precisa ser, corajoso.

Atualização de 18/10 às 03:05: Leiam Algo de Novo na Geografia do Voto Paulistano? de Raquel Rolnik, um post excepcional sobre distribuição do voto nos espaços físicos da capital. E também, Haddad amplia mais ainda a diferença de Serra no Ibope: de 11 para 16 pontos.









segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Segundo Turno, Afinal

Batalha pelo simbólico em PoA: o Tatu da Coca e a privatização da cidade
As eleições municipais apresentaram poucas surpresas. Em geral, gestões bem-avaliadas venceram em primeiro turno com certa tranquilidade, o que nem sempre é positivo: é o gerencialismo que domina aqui e acolá, um certo comodismo mórbido com melhoras inerciais, dificilmente acompanhadas de qualquer perspectiva de urbanismo mais sofisticada, de direito à cidade. A crítica da esquerda, no entanto, precisa ir mais longe; de fato, esse gerencialismo urbano (que é conservador, mas não levanta bandeira nem deixa de incorporar certos maneirismos de esquerda) melhora em alguns aspectos a vida das pessoas, o desafio, portanto, é mostrar qual é a alternativa, construir um programa bem estruturado com tudo que se imagina de uma cidade liberta e viva e um sistema de propaganda suficiente -- é preciso atacar o tatu da coca-cola, mas também é preciso ir além. 

O consenso em torno de Fortunati, Lacerda, Paes foi exatamente isso. Só mudou, nos lugares  onde algo deu errado, como em Salvador e São Paulo -- onde talvez os projetos (ou dejetos, conforme se veja) que governaram a prefeitura nos últimos quatro anos precisavam, pela tensão de forças em seu interior, caminhar mais à direita. Justamente será em São Paulo e Salvador onde a velha oposição ao governo Lula irá confrontar o PT, onde o cenário está mais polarizado do que nas brigas quase consensuais entre facetas da base governista (e, por que não, do próprio Lulismo). ACM Neto é uma ameaça importante, apesar de isolado. Serra e Haddad -- que é ele, mas é Lula como poucos -- protagonizarão outro confronto importantíssimo. Em Belo Horizonte, é errado pensar numa vitória da velha oposição, mas de outra coisa: do tipo de oposição que Aécio Neves sonha em implementar, a despeito do PSDB paulista, que é a alternativa gerencial em parceria com o PSB de Eduardo Campos (isto é, dilmismo completamente sem esquerda, um horror sem dúvida) -- como também é igualmente errado, pelos mesmos motivos, pensar que o que houve no Recife, com a ascensão do PSB sobre o PT, não seja preocupante.

Serra e Haddad é confronto chave? Sim, é, aliás menos porque São Paulo é a maior cidade do Brasil e mais pelo singelo motivo que uma derrota de Serra é uma vitória de Aécio, e altera o panorama para 2014; derrotado, dificilmente a oposição ao PT nas próximas eleições gerais passará pelo PSDB paulista, o que muda substancialmente o jogo. Será Aécio o adversário e ponto final, a menos que tramem algo sórdido demais contra o governador mineiro. No plano municipal propriamente dito, Serra manteve o apoio entre as classes médias tradicionais do centro expandido, conquistou boa votação nos bairros da periferia próxima -- zona norte, zona leste --, mas ainda registra uma altíssima rejeição do público local pelo desastroso rumo da gestão Kassab, que é de responsabilidade sua -- e com a qual se mantém coligado via PSD. Haddad, por sua vez, é uma aposta de renovação do Lulismo por dentro. Um quadro jovem, com chances intelectuais e capacidade de atuação, em relação ao qual não resta dúvida que Lula espera muito dele, do contrário o teria abandonado em algum momento dessa eleição -- e, tão logo debateremos o Lulismo, mas se ele existe (e suspeitamos que sim), Haddad é uma possibilidade de sua manutenção e resolução à esquerda pelo seu histórico.

sábado, 6 de outubro de 2012

O Xadrez das Municipais e o Que Está em Jogo

The Chess Players --Schwartz (1958) -- daqui
Amanhã, teremos a votação do primeiro turno das Eleições municipais. Apesar de toda a ritualística partidária e tentativas de nacionalização da disputa, elas decidem-se nos próprios municípios. O fator nacional e partidário, aliás, diminui brutalmente de importância conforme diminui o município -- e, assim, vemos eleições de partidos muito pequenos, alianças exóticas mesmo pelos padrões heterodoxos do jogo político nacional. Em 2002, com poucas prefeituras, embora bem localizadas, o PT ganhou as eleições presidenciais da forma mais consistente até hoje, isto é, com uma distribuição geográfica mais homogênea do voto. Em 2004 e 2008, apesar da enorme popularidade do governo Lula, as vitórias do partido nas municipais passaram longe de ser acachapantes -- por outro lado, o domínio do PMDB nos pequenos municípios, nem por isso, o cacifa como partido capaz de lançar uma candidatura viável no plano majoritário federal ou mesmo na maioria dos estados. Agora, em 2012, Dilma é popularíssima, Lula mantém-se como grande líder político nacional, mas nem por isso o PT vencerá de forma arrasadora, tampouco o marketing negativo da campanha midiática sobre o mensalão o conduzirá a uma derrota grandiosa. É claro que certos balanços de poder nas grandes capitais influirá ao longo dos próximos dois anos no plano federal, é preciso atentar para isso.

Nem PT, nem PSDB, contudo, vão bem, embora os dois apresentem, ainda, algum destaque nos municípios com mais de 150 mil eleitores: nas grandes capitais eles estão longe de monopolizar as disputas na forma da polarização que se repetiu, vejamos só, nos últimos cinco pleitos presidenciais. No lugar dos dois partidos que deram as cartas da política brasileira nos últimos anos, uma miríade de partidos médios e nanicos (como PRB em São Paulo ou PSC em Curitiba) surge com possibilidades reais de eleger prefeitos nas capitais. Mas não é errado dizer que o PSB de Eduardo Campos, governador pernambucano e aliado do Lulismo,  rume para vitórias importantes saia do pleito fortalecido, inclusive com alianças com o PSDB (Curitiba, Belo Horizonte, Campinas etc) -- com um discurso gerencialista e pragmático, mas escapando ao elitismo que não à toa serve de rótulo ao PSDB, Campos fez seu partido nadar a braçadas, apostou alto e sua posição junto ao governo federal terá de ser renegociada para o alto, queira Dilma ou não, ainda mais depois do poder que ele passará a dispor no Nordeste, região fundamental para o PT no balanço de forças nacional.

Governadores bem avaliados -- como o próprio Campos, ou Sérgio Cabral no Rio -- caminham a passos largos para eleger correligionários seus nas capitais, mas isso não é regra geral e absoluta: governos razoavelmente estruturados como o de Tarso Genro (PT-RS) ou de Beto Richa (PSDB-PR) não parecem encontrar a mesma facilidade em disputas particularmente confusas. Existe uma fragmentação do eleitorado, uma dispersão radical num momento no qual quase todos os partidos são situação no plano federal, o que cria um impasse na disputa por vagas e espaços -- e deságua, afinal, nas disputas municipais.No estado de São Paulo, bunker tucano, os PSDB está longe da glória de outrora nas cidades acima de 400 mil habitantes. Se os tucanos conquistarão a petista Osasco, possivelmente em primeiro tuno, os petistas darão o troco, nos mesmos termos, em São José dos Campos, terra do desastre do Pinheirinho -- aliás, São José dos Campos que é a principal cidade do Vale do Paraíba, leste do estado, e reduto eleitoral do governador Geraldo Alckmin, que acabou, ainda, sendo suplantado em São Paulo capital com a entrada de Serra no jogo. 

Na capital paulista, de onde escrevemos afinal, a entrada no jogo do desconhecido Russomanno -- que cresceu muito, se manteve durante muito tempo e só está cando agora -- embaralhou o jogo por completo, resultando em um empate técnico entre ele próprio, José Serra e Fernando Haddad às portas da votação. Pela primeira vez desde 2004, a política paulistana voltou a ser dividida em um tripé entre a direita -- não liberal, alojada em uma estrutura partidária fraca e dispensável  e populista -- o centro, ou centro-direita, gerencial dos tucanos e a esquerda petista. Serra carrega o ônus de ser, afinal, o candidato de situação vindo na esteira de uma desgoverno como o de Kassab, mas tem seu eleitorado sólido que é precisamente aquele de classe média, refratário ao petismo e ao direitismo populista. Enquanto isso, a campanha de Haddad se viu obrigada a marchar em um terreno pantanoso, pois embora com experiência na administração pública ele é um estreante em eleições e teve de entrar em cena lutando contra a campanha midiática antipetista, o cancelamento de dois debates televisivos pelas duas principais redes de televisão -- Globo e Record, ambas apoiadoras de seus adversários -- e uma campanha rasteira da Igreja Universal e de políticos evangélicos que se usaram da estrutura, e de suas redes sobretudo na periferia, para eleger Russomanno. Não é fácil saber o que ocorrerá, mas a crise da cidade, solapada pela especulação imobiliária, extremamente poluída e com a vida cultural interdita e privatizada, apontariam para um governo difícil para Haddad, mas um aprofundamento da crise com Serra e, sobretudo, Russomanno. 

No Rio, a aliança PMDB-PT encabeçada por Eduardo Paes levará fácil, em primeiro turno, com Marcelo Freixo do PSOL em segundo, o motivo, para além de questões eleitorais, é simples: o Rio é, enquanto cidade, o laboratório do Lulismo, dos investimentos e do êxito de certas políticas, ainda que o PT local seja burocratizado e pouco operante -- salvo alguns setores --, o que importa é o PT nacional e o governo federal, o que produz uma aliança fortíssima dentro de um contexto de melhora das condições de vida -- isso esvazia a contestação de Freixo, em uma cidade cujo histórico de prefeitos não é bom, é difícil pensar trocar um governo associado com um bom momento da cidade, a redução da violência, que conseguiu ser sede das próximas Olimpíadas e, ainda, com trânsito pleno junto a um governo federal popular, ainda mais cidade. O PSOL sai, contudo, fortalecido do processo, ainda que para conseguir êxito precise se aliar com a classe sem nome que ascende, saindo do mitologema da "sociedade civil organizada". Em Minas, mesmo que se veja como positivo o rompimento da aliança de Pimentel com Aécio Neves em prol de Márcio Lacerda (PSB), é preciso que a candidatura de Patrus Ananias (PT) cresça a ponto de levar o pleito para o segundo turno, do contrário, vai ser uma derrota importante. O quadro de Porto Alegre, com um desenho em forma de geleia geral destinado a reeleger Jorge Fortunati (PDT) já explode da pior maneira. 

Os rumos do pós-mensalão, a crise mundial e a determinadas nuances da composição de forças que sai dessas eleições municipais -- São Paulo e o Nordeste são chave nessa história toda --, mas fica claro que apesar da sua popularidade, do aparente sucesso da intervenção de Dilma no plano macroeconômico -- mitigando os efeitos de uma crise mundial que se abate sobre o país desde 2008, agravando-se em 2011, mas cujas resposta dada este ano fez a economia se recuperar no presente trimestre -- sem um giro político politizante não estaremos tratando nem do risco de Dilma continuar no poder pelos próximos seis anos, supondo uma reeleição, de forma burocratizada, promovendo um termidor planejado (e, por isso, talvez igualmente mitigado) do Lulismo, mas sim do próprio termidor do Lulismo com impactos de reversão claros: se o Bolsa Família ou as políticas de distribuição de renda e emprego parecem um consenso, sem politização e com crise, isso pode desmanchar no ar. Enfim, é a política, e não a economia, a resposta.

P.S.: O Descurvo reitera novamente seu apoio a candidatura de Fernando Haddad (13) em São Paulo e a Gabriel Medina (13.321) em São Paulo, o primeiro por seu histórico e por ser a única candidatura aceitável na capital, o segundo por representar uma renovação importante no PT local.


quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Rainha Morta, Rainha Posta: Marta no Lugar de Ana no MinC

Meme contra Ana de Hollanda, ainda no início de sua gestão (Barbara Szaniecki)
Ontem, Ana de Hollanda foi demitida do Ministério da Cultura (MinC) após uma reunião de meia-hora com a presidenta Dilma Rousseff, sendo substituída pela senadora Marta Suplicy (PT-SP). A escolha de Ana de Hollanda para o Ministério da Cultura, lembremos, foi a primeira grande polêmica de Dilma na Presidência. Não só pelo fato disso ter marcado um recuo e, de certa forma, o desmonte nas políticas inovadoras e libertárias de Gilberto Gil e Juca Ferreira no MinC como, também, pela própria torpeza da ocupante do cargo, uma irmã obscura, e com pouquíssimo traquejo político, do antológico cantor e compositor Chico Buarque. 

Muito do que diz respeito à continuação descontinuada de Dilma em relação a Lula, sobretudo tudo no que toca ao giro Ordem & Progresso, é, não raro, ignorado ou relativizado pela competência dos ocupantes dos ministérios, o que não acontecia no caso de Ana: politicamente indefensável e odiada pelos militantes e especialistas da área de sua pasta, ela foi uma bola fora sob qualquer ponto de vista. Foi sob a gestão de Ana que o MinC deixou de usar a licença creative commons no seu site -- um belo simbolismo no que toca à capitulação ao lobby dos direitos autorais --, que voltou a rufar os tambores para o mito da "classe artística" -- em detrimento de pensar a produção cultural como multitudinária e plebeia -- além de manter sem ânimo e (quase) por inércia os programas da gestão anterior.

Poderíamos começar especulando o motivo que levou Ana a cair, mas seria melhor questionar, antes de mais nada, por que diabos ela não caiu antes. Não caiu porque Dilma teve problemas em ministérios demais em tempo de menos -- pois, paradoxalmente, se quase não há mais oposição neste país, também não parece haver mais do que alguns elétrons livres na chamada base governista -- e porque, no limite, o projeto de Ana não destoava do giro promovido pela própria Dilma em outras áreas. Depois, ela caiu porque roeu a corda, rompeu com aliados pesados seus como Antônio Grassi -- seu fiador junto ao lobby da "classe artística" no Rio de Janeiro -- e teve uma carta sua para a ministra do planejamento, Miriam Belchior, na qual fazia duras críticas ao "estado da cultura" no país -- isto é, o valor insatisfatório da verba da pasta --  repercutida pelo jornal O Globo.

Se Dilma sabia que, no fundo, só era ela mesma a segurar a ministra no cargo, por outro, imaginava que ela viesse a ter qualquer tipo de gratidão profunda por isso. A carta n'O Globo foi o fim da linha, como fica claro na declaração oficial de apaziguamento em meio à polêmica, tornando Ana uma ministra sacrificável no jogo político. Sua queda, contudo, talvez tenha sido adiantada pelas tensões relativas à disputa pela prefeitura paulistana, onde a tentativa de costurar apoio de Marta Suplicy à candidatura de Fernando Haddad, dentro do próprio PT, parecia impossível, tornando o oferecimento do MinC para a senadora -- a exemplo do que já tinha sido feito com Aloísio Mercadante e o Ministério da Educação -- uma possibilidade selar a união do partido da estrela. Foi o que aconteceu. A entrada "para valer" de Marta numa campanha na qual ela relutou até o último momento se deu junto de sua entrada no MinC.

Certamente, a entrada de Marta no cargo marca, por si só, a possibilidade de uma melhora na pasta, o que não quer dizer muito, mas não é de um todo ruim. Mas Marta não é da área e resta saber que direcionamento ela vai dar. Sua gestão na prefeitura de São Paulo (2001-04) foi marcada por iniciativas ousadas na forma de projetos que ela bancou -- embora nem sempre tenham sido de sua lavra pessoal, como os CEU's, criação do ora candidato Fernando Haddad -- e, por outro lado, aproximações com o mercado e a iniciativa privada, sobretudo no que diz respeito à área de moradia e urbanismo, cujos resultados práticos foram ruins. No entanto, Marta certamente foi melhor prefeita do que líder partidária. Fica o detalhe para a completa incógnita de Marta no MinC, uma vez que alheia à área da pasta, ela será o que os assessores que ela escolher -- possivelmente segundo o que partido orientar -- forem. Fora do eterno confronto Bahia x Rio na Cultura, Marta pode ser tudo e nada. 

Essa articulação sela a paz no PT -- pelo menos até o ponto que demanda a presente eleição municipal paulistana -- em momento no qual Haddad cresce, possivelmente ultrapassa José Serra, mas precisa adquirir mais massa crítica para tirar de Celso Russomano um eleitorado que é petista, votaria em Marta, mas não está com ele agora -- embora a classe média e os mais jovens venham se aproximando de Haddad de um modo que não se aproximariam de uma nova candidatura Marta (como foi, aliás, nos pleitos de 2004 e 2008). Interessante notar pelo menos dois coisas: como a candidatura Haddad forçou o PT paulistano à esquerda,  obrigando Dilma a compensar forças conservadoras, e em certa medida personalistas, com espaços no plano nacional -- Marta no MinC, Mercadante no MEC, Tatto na liderança do PT na Câmara -- e, é claro, o descompasso e a falta de diálogo de Dilma com os ativistas da área de Cultura, muitos dos quais seus fiés apoiadores em 2010; Ana de Hollanda terminou caindo por motivos diversos e até estranhos ao debate travado ao longo dos últimos vinte meses...




domingo, 26 de agosto de 2012

As Eleições Municipais e a graça da Política Brasileira

Multidão (A. Ruivo),
As eleições municipais de 2012 seguem em um ritmo morno, estão quase quietas. É fato que depois da vitória de 2010, a radicalização do discurso de direita vista até ali sucumbiu junto com José Serra nas urnas. A vitória de Dilma e seu já concluso um terço de mandato, por outro lado, praticamente colocaram termo final à expectativa de uma continuidade das mudanças em termos de esquerda: se os pobres foram autorizado a desejar, tornaram-se parte do jogo, ascenderam como tumulto incomodando até mesmo a esquerda,  a resposta de como guiar o país se dá, hoje, em termos gerenciais e modernizatórios -- eis uma longa estrada para o progresso, eis uma crise que precisamos nos livrar, assim segue o governo, por ora, muito bem avaliado, apesar da deserção gradual de parte da intelectualidade que lhe apoiou fielmente e de alguns setores.

Dilma segue bem avaliada, inclusive, por setores que rejeitavam Lula e, ao contrário do seu antecessor, jamais perdeu a oportunidade de buscar uma aproximação com a mídia tradicional que ele confrontava abertamente. Dilma agrada a classe média, mais até do que por seu jeito de ser, e mais por sua política de governo mesmo. Não é difícil imaginar que muitos dos eleitores de Dilma teriam votado em Plínio ou Marina se pudessem antever o que é seu governo, mas não seria arriscado que grande parte da classe média do sul-sudeste que votou em Serra talvez titubeasse em fazê-lo aqui e agora. Ainda assim, se pegarmos o que escrevem e pensam  Serra, Plínio e Marina sobre desindustrialização -- e basta uma googleada para tanto --, não temos nada tão diferente ente si, exceto as cores da moldura -- azul, vermelho e verde. E nem vem que não tem: o problema não é o desenvolvimentismo do outro. É nesse clima político que estamos vendo as eleições municipais. 

Não há mais direita, nem há mais esquerda, mas esse modernismo ao qual o próprio Lula aderiu ao ratificar as mudanças de Dilma também não é Lulismo, mas uma de suas possibilidades; é sem ter sido, Dilma não é Lula, mas Lula, que era muitos, restou Dilma. Não há mais radicalização alegre e se era possível fazer dessa ascensão tumultuada dos pobres um carnaval, hoje, o que há é a missa civil do, pelo e para o Moderno. O PT mudou? É claro -- e raramente para melhor, mas isso não quer dizer que ele seja o problema. Posta de lado a direita, temos um problema geral os partidos, supondo que eles ainda sirvam taticamente para algo.Se até mesmo Badiou já abandonou os partidos, quem somos nós, não? 

Seja como for, pensando o voto como possibilidade real posta, as candidaturas petistas quase sempre são as melhores -- pelo menos pensando nas grandes capitais --, exceto quando por candidatura petista entenda-se uma candidatura meramente governista como nos casos de Curitiba -- a grande capital mais conservadora do país, onde as opções não são animadoras -- ou, sobretudo, do Rio -- onde ver Lula fazendo campanha para Paes é curiosamente funesto, embora não seja surpreendente como um todo. Em São Paulo, como insistimos há muito, para além das desventuras e de erros importantes na campanha de Fernando Haddad, é fato que ele é, dentro do plano do PT e da esquerda algo razoável: Nádia Campeão é uma boa vice etc etc. 

Na Pauliceia, as pessoas certas do PT paulistano estão honestamente do lado dele -- Paulo Teixeira, Nabil Bonduki; tampouco não se compara ao que seria o apoio a um aliado -- Chalita? -- ou a insistência absurda em Marta -- quatro vezes, não, né? Ainda mais levando em consideração os atritos desnecessários todos, a política de habitação, a luta contra a esquerda do partido e os vereadores independentes. Há quem diga que Marta seria melhor candidata -- e possivelmente teria uma intenção de voto mais alta do que Haddad neste momento --, mas eu discordo frontalmente disso. Haddad merece ser prefeito pela sua atuação na secretaria de finanças do município e pela sua atuação sim no MEC. Assim como Gabriel Medina tem feito uma campanha interessante para vereador, coisa que não se repete dentro do PT nem fora dele pela esquerda. Ironias do destino, é Russomano e não Haddad, Chalita ou Serra que está em primeiro. Agora, a incerteza é a lei como aponta a boa análise de Elton Flaubert.  

No Rio, a um primeiro olhar, a campanha de Freixo é uma luta contra moinhos de vento e isso, é claro, desperta os brios da (boa) esquerda, mesmo de corações endurecidos como deste blogueiro. Mas o PSOL do Rio, que tem afinal um candidato com carisma e força pessoal -- para, sozinho, ir além em um sistema político tão dependente de carisma e da pessoalidade --, por outro lado, tem como pouca multidão; se o PT nacional nasce como o primeiro partido de esquerda nacional desde o Partidão a realmente ter participação massiva de trabalhadores, lhe faltavam pobres -- o que não se confunde com abertura para pobres, mas com a falta dos próprios em pessoa --, mas se em nível nacional, futuramente, ele resolveu este problema, no Rio, ele permaneceu elitizado e branco demais, anêmico demais para não virar peão no jogo da direção nacional. Com o PSOL carioca de hoje, ironicamente, ocorre o mesmo -- ainda que com mais obstinação. Uma candidatura socialista que continua ainda distante demais dos pobres. Não que não haja como não reverter isso, nem que não seja preciso, afinal, se agenciar com essa classe sem nome que está aí por óbvios motivos de ordem eleitoral e política mesmo.

A correlação de forças entre os grandes partidos não deve mudar, com destaques aqui ou acolá. Possivelmente, o PT cresce mais um pouco, talvez o PSDB, mas nada muito relevante. O que muda mesmo é o impacto imediato do jogo nas grandes capitais sobre o grande consenso partidário e a oposição escanteada. Mantém-se? revitaliza? Mas as coisas não vão bem e não é esperando que o governo mude que iremos para algum lugar. Falta vontade para se mover realmente por fora desses esquemas de captura. Nascer dói, é preciso reaprender a dor da luta como disse um filósofo por aí. Politicamente, nunca estivemos tão bem, nem tão mal.

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Sucessão Paulistana: Erundina vice de Haddad

As negociações entre PT e PSB para as eleições paulistanas parecem ter confluído para algo bom: Luiza Erundina possivelmente será a candidata a vice na chapa de Fernando Haddad para a Prefeitura. Erundina é uma figura importantíssima na história política paulistana, pois foi a gestão, para além de todos os problemas que enfrentou, a deixar o legado político mais relevante - antes de mais nada, porque no governo, Erundina não foi governista, ela se desfez do pedestal estatista e procurou, junto à associações de moradores e movimentos sociais, fazer a boa política, focando na questão da moradia (sem dúvida, a questão central da política local) e no diálogo franco com a sociedade.

São Paulo é uma cidade politicamente complexa e profundamente problemática. Todas as gestões, exceto a de Paulo Maluf (1993-96), terminaram com um desgaste altíssimo - e Maluf, mesmo tendo feito sucessor, o falecido Celso Pitta (1997-2000), sofreu um pesado desgaste posterior, seja pela revelação de escândalos seus quando na Prefeitura ou pelos efeitos do desastre da gestão Pitta. Tanto é verdade, que Maluf, depois de ter refeito sua carreira política com certo êxito no pós-ditadura, não só jamais conseguiu vencer uma eleição majoritária novamente, como também viu seu tamanho político severamente diminuído: mesmo eleito com boas votações para a Câmara dos Deputados, sua influência é pequena e sua figura é condenada a uma representação quase tragicômica, mesmo entre os meios conservadores que lhe sustentavam.

Erundina, por motivos outros e na outra ponta do espectro político, não deixaria também de sofrer um processo de fritura, mas ao contrário de Jânio, do já referido Maluf, de Marta ou Kassab, ela deixou linhas gerais de como fazer política na capital, que persistem até hoje. Não só, Erundina saiu pessoalmente incólume dos escândalos e absurdos mil comuns à política local. Hoje, ela persiste sendo reeleita como deputada federal - não mais pelo PT, onde sempre teve problemas com a direção, mas sim pelo PSB - e exerce um mandato bem avaliado, sustentada por um eleitorado cativo, focando sobretudo em questões como a comunicação social e apresentando bom trânsito na política nacional.

Trata-se, sem dúvida, de um bom norte para a candidatura do jovem Fernando Haddad. A reaproximação de Erundina com o PT não deixa de ser um bom sinal, uma vez que o partido da estrela, sem dúvida a mais relevante legenda de esquerda do país e da capital, anda em círculos desde o fim da gestão Marta, que embora tenha implementado boas políticas públicas, fragmentou o partido e o deixou em um permanente tensão interna nos últimos anos. Também faz bem para o PSB de Erundina, pois fortalece a ala não-fisiológica e com a alguma disposição social do partido, minoritária em relação a uma direção estadual alinhada com o governo Alckmin.

Haddad precisa disso em uma campanha na qual, ainda que venha garimpando um espaço razoável na mídia, é desconhecido pelo eleitorado e precisa não só de um impulso eleitoral como, também, de uma ancoragem política que lhe dê mais densidade no nível municipal. Ainda que José Serra seja um líder de pesquisas anômalo, por ser também o candidato com a mais alta rejeição - tanto por questões pessoais como por ser o sucessor de uma gestão fracassada como a de Kassab -, é fato que ele é o candidato a ser batido pelo franco apoio do establishment local. Em termos propriamente políticos, a presença de Erundina na chapa, a norteia na posição em que ela precisa estar para ter razão de ser. Seja como for, trata-se de uma boa notícia.