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quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

A Intervenção no Mali, Françafrique, a Velha Europa

-- Um espectro ronda a Europa, mas desta vez não é a Revolução, mas sim algo, digamos, um tanto menos vivo --
Além da crise da União Europeia, questão recorrente no noticiário nos últimos anos -- com o poder europeu misturado ao sistema financeiro, Alemanha à frente e acima, no esmagamento dos países periféricos  --, agora temos a intervenção francesa no Mali -- um tanto mais direta e presencial do que a, digamos, nada pequena participação franco-britânica na Líbia. Uma palavra nova entra no nosso léxico: Françafrique -- o neologismo definitivo para definir a doutrina neocolonial francesa sobre suas ex-colônias africanas; trata-se de uma ironia precisa (e polêmica) de François-Xavier Verschave, em livro homônimo dos anos 90, para a relação nebulosa entre a França e suas ex-colônias.

Esqueça o fascismo ou o velho imperialismo: vivemos em uma época outra, onde qualquer conservador faz objeção de princípios a líderes opressores e grandes assassinos, mesmo os de extrema-direita. O fato é que o sistema não precisa mais matar, ele deixa morrer com estilo e sem cerimônia; os velhos genocidas fascistas são, portanto, instrumentos ultrapassados destinados ao descarte no ferro velho da esquina. O máximo de intervenção e combate que podemos testemunhar é o dos poderosos exércitos da civilização, enquanto força de polícia cosmopolita, pondo ordem na Casa. O sistema não mata, ele deixa morrer em nome de uma responsabilidade pessoal transcendente -- ou mata sob a prerrogativa da preservação da civilização global.

O Centro produz a periferia dialeticamente. O processo civilizatório é dialético na medida em que a civilização cria seus bárbaros e selvagens para, vejam só,  homologar-se enquanto tal. Do mesmo modo que o capitalismo, ao criar riqueza, cria pobreza, pois só é rico alguém ou algo que tem um pobre para lhe servir como referência homologatória: o rico o é não por ter muito, mas por ter quem tenha menos em relação a si. O etapismo e o enriquecimento sustentam as duas dialéticas: o esforço da periferia em ser centro é o que permite a existência de uma zona periférica, o esforço do pobre em ser rico é o que mantém a pobreza. Na essência do problema, pelo menos da questão geopolítica levantada, está a aliança entre a elite africana e francesa contra os pobres de canto a canto -- no outro exemplo, é a aliança entre o pobre dominado por paixões tristes (a dívida, p.ex.), o pobre que não devém pobre, e o rico que sustenta a "desigualdade social".

Quem está em colapso é a Alemanha de Merkel, como sempre insistimos por aqui, não Portugal, Espanha, Grécia ou Irlanda. Mas é ela quem tem o poder, via Euro, de sufocar os mais pobres, jogar-lhes a culpa e a dívida -- que bem sabem os alemães ser a mesma coisa -- e se alimentares. O capital alemão na sua dimensão esfomeada já se alimentou dos recursos humanos da antiga máquina burocrática da falecida da Alemanha Oriental, já mandou plantas industriais para a China aos borbotões, e, agora, come os periféricos da Europa. Hollande, que não deixa de ser um contraponto à Alemanha internamente no jogo europeu, não deixa de ter o apoio da maioria, da Otan, dos próprios germânicos para comer pelas beiradas uma resolução da ONU que falava em forças africanas para "estabilizar" o Mali, não francesas. Mas a guerra é sempre urgente, necessária; discordar torna-se, rapidamente, o mesmo que estar a favor dos rebeldes.

Os rebeldes malineses, terríveis "islamistas", estariam armados com os despojos do arsenal de Kadafi, déspota líbio recentemente derrubado -- e cruelmente morto por "rebeldes" apoiados pela aviação de combate da França. Não só, o Mali, que hoje vê sua capital cercada, já se encontra em problemas há tempos. O governo, ora sitiado, é ilegítimo e ascendeu via golpe de Estado. Governo este responsável, inclusive, pela maior estagnação do país em seus cinquenta e dois anos de existência pós-colonial. Mas só agora, e dessa forma, houve alguma mobilização. Nada conspira pela legitimidade desta ação ou para sua funcionalidade. É como uma volta ao passado, quando Guattari comentava com Lula sobre as ambiguidades da política externa da França de Mitterrand: a denuncia do imperialismo americano por uma mão e a deflagração do botão da guerra na África pela outra.

Hollande conta com alguns ases na manga. Um deles é de que, de fato, o governo (de facto) do Mali foi quem pediu ajuda à comunidade internacional, sobretudo à França. O outro, é que a intervenção é brutalmente popular na França. Para um governo apagado como o de Hollande, cujas tentativas de emplacar políticas anticrise e de reduzir a hegemonia alemã na Europa resumem-se, quase sempre, ao discurso e à pirotecnia, ter uma ação aprovada por três quartos da sua população não é pouca coisa. Mais até do que isso,  por questões políticas e econômicas, fazer guerra nunca foi de um todo mau para o capitalismo, sobretudo quando se faz guerra contra organizações não-capitalistas ou pré-capitalistas.
Não é uma questão nacional, por óbvio. É da interface imperial do sistema global que estamos falando. Do arcaísmo  fundamentalista como colateralidade do funcionamento da economia-mundo. Da guerra como negócio derradeiro, desafogo da política e forma de incentivar a fabricação de bugigangas bélicas. O que resolverá mais essa guerra se ela existe como consequências do fracasso da intervenção na Líbia e do fracasso do sistema global? Mesmo com todas as suas reticências, a pergunta de Mélenchon é válida: esta guerra servirá para algo?

domingo, 29 de abril de 2012

Eleições Francesas: Os Rumos da União Europeia

Hollande e sua esposa cumprimentam eleitores
O socialista François Hollande e o conservador, e atual presidente, Nicolas Sarkozy estão a uma semana da votação que definirá as eleições francesas. Até aqui, Hollande segue favorito do mesmo modo que já era há meses atrás. As pesquisas são claríssimas: Hollande alterna entre 54% e 56% das intenções de voto e só um fato novo muitíssimo relevante poderia tirar essa vitória dele - detalhe para o fato de que pesquisas nem sempre captam certos movimentos de última hora, nem o chamado voto envergonhado, que talvez favoreça Sarkozy em algum grau, mas que, a julgar pelos fatos, tende a não ser suficiente para ele neste momento.

Um detalhe curioso sobre a provável vitória dos socialistas é que ela se daria dentro de um cenário no qual a direita, sim senhores, venceu o Primeiro Turno: somando os votos de Sarkozy, Marine Le Pen, Nicolas Dupont-Aignan e Jacques Cheminade, aquele campo registrou 47,1% dos votos - contra 41,4% da esquerda, contabilizando Hollande, Mélenchon, o anti-capitalista Philippe Poutou e a trotskysta Nathalie Arthaud, além dos 11,4% para o centro, inclusos aí o europeísta Bayrou e a verde Eva Joly. 

A despeito do fracasso do seu governo, é curioso notar como Sarkozy caminha para perder uma eleição para um socialista em um cenário que favorece, brutalmente, uma candidatura conservadora. O x da questão é que o buraco, em termos de política francesa, é sempre mais embaixo: não é sobre direita e esquerda que essas eleições tratam, mas sim sobre o posicionamento da França na União Europeia, quase que em um caráter plebiscitário.

Ainda que eleitores do direitista Front National tendam a votar em Sarkozy ou, simplesmente, não comparecerem às urnas, é fato que haverá relevante transferência de voto daquele setor para Hollande, o que parece completamente non-sense, mas não é: dentro da lógica dessa eleição, certos eleitores de Marine preferem ver uma mudança à esquerda na relação franco-europeia a não vê-la. 

E Sarkozy arca com o ônus de, ao longo de cinco anos, ter quebrado o consenso que permeou a França desde o pós-guerra, isto é, autonomia incondicional na política externa. Ter, pela primeira vez desde o Colaboracionismo, se alinhado automaticamente - e de forma submissa - a potências estrangeiras - com o agravante disso ter trazido prejuízos econômicos - é algo imperdoável. Mesmo que a maioria dos franceses não gostem das políticas socialistas para os imigrantes - mais sensíveis, capazes de enxerga-los como humanos -, isso caminha apenas para garantir uma votação muito além do que Sarkozy poderia ter.

O fato é que a França, a exemplo dos países mais ricos da União Europeia, se favorece da união cambial, uma vez que, em tese, dispõe de uma economia mais competitiva do que a de grande parte de seus vizinhos. O ponto é que mesmo assim, o país registra déficits comerciais e ele nem ao menos consegue reproduzir o modelo parasitário alemão - de se favorecer do câmbio para se tornar uma potência exportadora dentro da Zona do Euro e que, na hora da crise, abandona seus clientes à própria sorte lhes negando crédito para não se comprometer. 

Isto é, ter aceitado a valorização do Euro frente ao Dólar, junto de Berlim, não fez nenhum sentido para a França: ainda que o problema seja maior do que isso, o Euro supervalorizado é tão nocivo para a França quanto o é para Portugal e Grécia. Pior, ter tentado equilibrar as contas do país, agravadas pelo processo anterior, às custas de cortes no sistema de bem-estar só agravaram a situação de seu governo - como no caso dos mega-protestos contra o aumento da idade para a aposentadoria.

Quando Hollande apresenta um programa social-democrata contrário à austeridade, ele não está sendo irresponsável e os franceses sabem disso: as causas que forçam à austeridade dentro da Europa não são fenômenos naturais, eles têm a ver como a própria União Europeia se posiciona de forma torpe à farra dos EUA nos últimos anos - gastando horrores com guerras estúpidas e repassando seus custos para a comunidade internacional com a desvalorização do Dólar, além da emissão de moeda - e o comodismo alemão, que não precisa comprar briga nenhuma, uma vez que mesmo nesse cenário, Berlim continua a se manter estável pelo comércio intra-europeu.

Não há nada inovador em Hollande, mas é justamente isso que desestabilizaria o estado de coisas europeu atual: com a política externa francesa clássica, que une desde gaulistas e ultranacionalistas a socialistas e comunistas, boa parte do experimento que Merkel levou a cabo não teria sido possível. Se estiver disposto a confrontar isso, e ele parece realmente estar, Hollande terá o apoio firme mesmo de setores que não o apoiaram no Segundo Turno e, por tabela, considerável tranquilidade interna durante seus primeiros anos de mandato. Se conseguir uma inesperada virada, Sarkozy estará, mesmo assim, sob forte pressão desde o primeiro dia de governo e poderá ter tido uma vitória de pirro. Em resumo, o peso sem igual na política alemã.

Ainda é preciso considerar que Hollande teria algo bastante importante a seu favor (e, em sentido oposto, seria um grande problema para Sarkozy): a esquerda é majoritária no atual Senado francês, com 168 de suas 348 cadeiras contra 132 da direita e 41 do centro - mais 7 cadeiras de independentes. No mais, ainda que a composição da Assembleia Nacional (AN), na atual XIIIª legislatura, seja hostil à esquerda, é fato que a tendência aponta para a perda considerável das cadeiras por parte dos conservadores, com ou sem vitória de Sarkozy. 

Confirmando-se a derrota do atual presidente, é muitíssimo provável que a esquerda parlamentar se torne majoritária na AN em Junho deste ano, a despeito da boa votação da direita nas presidenciais, uma vez que são duas eleições com caráter bastante diferente (o próprio comparecimento nas urnas, em eleições parlamentares, é bem menor do que nas presidenciais, além de ser influenciado por elas, por isso Sarkozy gozou de um apoio na AN proporcionalmente maior do que os votos que ele recebeu para Presidente).

Essas eleições exprimem, como todas as mais recentes na Europa, uma insatisfação generalizada, uma angústia total que resulta desde uma linha de fuga nomádica, como se vê com as acampadas por toda a Europa, até o seu inverso, com o crescimento de movimentos nazi-fascistas - e essa polarização fica clara com o tamanho da votação somada da extrema-direita e da extrema-esquerda na França, de quase um terço dos votos válidos. 

Na prática, esse processo tem levado a trocas de governos de centro-direita por governos de centro-esquerda - ou o contrário, conforme a situação -, embora no caso islandês a volta da social-democracia ao poder depois de 30 anos tenha se verificado pelo aprofundamento de sua agenda e, no caso húngaro, tenha radicalizado a direita parlamentar para o canto extremo.

A conjuntura europeia atual, sem dúvida, encontra maiores semelhanças com os anos 30 do que com 68, embora o devir-68 presente no modo como os movimentos sociais resistiram talvez esteja fazendo a diferença porque, até agora, em larga escala, o único caso verdadeiramente preocupante é mesmo a Hungria. No que toca à 68, não resta dúvida que a França foi seu centro de irradiação para todo o mundo - e talvez a última vez que o tenha realmente sido -, mas ali, as mobilizações multitudinárias não conseguiram nem construir uma alternativa ao sistema representativo, nem produzir uma alternativa por dentro dele de forma imediata. 

1968 serviu para atestar o quanto o Partido Comunista Francês era obsoleto no campo canhestro e jogar, nos anos que se seguiram, o país um pouco para a esquerda - o que, na prática, resultou na reorganização das forças social-democratas do país em torno da figura do atual Partido Socialista, cujos frutos foram verificados, sobretudo, a partir de 1974, sob a liderança de Mitterrand - que só venceu em 1981 pelo impacto de médio prazo de 68 sobre a cultura e o modo de vida franceses, potencial que, no entanto, ele não foi, nem poderia, ser capaz de extrair no grau necessário.

No atual cenário, os socialistas franceses foram capazes, à sua maneira, de compreender e absorver mais rápido as demandas do atual ciclo do que no final dos anos 60 e, atentem para isso, sem cometer os mesmos erros dos gabinetes da Frente Popular nos anos 30, que terminaram por se isolar frente à sociedade francesa - o que colaborou para o avanço do fascismo no país. Naturalmente, Hollande não é Mitterrand, cuja figura só pode ser comparada a De Gaulle na política francesa do século 20º, mas ele sabe disso e não pretende sê-lo - ao contrário de Lionel Jospin, cuja liderança entre os anos 90 e os anos 00 resultou no maior ciclo de trapalhadas da história do atual PS.

A questão que se põe, entretanto, é a problemática que restou em aberto no final dos anos Mitterrand, isto é, qual o potencial que a social-democracia ainda tem como ente transformador para melhor da vida - agora, agravada pela complexidade trazida pela emergência dos novos sujeitos políticos como a multidão e o precariado. Como bem observa Antonio Negri, o próprio Mélenchon - cujo papel nessa eleição, a meu ver, foi central para uma reforma programática no campo comunista e filo-comunista da esquerda francesa -, ainda assim não deixou de exprimir essa mesmíssima limitação.
   
Se a atuação da esquerda, na França ou aqui mesmo, depende cada vez mais de uma movimentação nem institucional, nem não-institucional, mas sim transversal e em rede - coisa que a direita, ao seu modo, já aprendeu há décadas -, a provável vitória de Hollande precisa ser vista com necessário desapego: ela será sim uma vitória da esquerda apesar de suas limitações - e não precisa ser comemorada efusivamente, tampouco desprezada, uma vez que se ela não se constitui em uma grande saída por si só, ao menos produz linhas de fuga cruciais neste momento em que a Europa, sete décadas após o auge do fazer morrer na forma do nazi-fascismo, assiste ao ápice do deixar morrer na forma das políticas de austeridade conduzidas por Merkel.


domingo, 22 de abril de 2012

Conexão Brasil-França: Notas sobre um Mundo que se Encontra

Sarkozy e Dilma na ONU - Ricardo Stuckert
Neste dia chuvoso de Abril, duas notícias sobre a grande cena política chegam até nós: a primeira trata do fato de que Dilma Rousseff bateu novamente o recorde de aprovação presidencial no Brasil, a outra  fala que François Hollande está registrando uma vitória mais apertada no Primeiro Turno das eleições presidenciais francesas e, a julgar pela boa votação de Marine Le Pen, ele terá uma certa dificuldade em um Segundo Turno para o qual, entretanto, ainda é favorito.

Dilma é um fenômeno assentado na popularidade herdada por Lula, pelo momento relativamente bom que vive o país e por não representar, pessoalmente, a ameaça que seu antecessor se afigurava junto à classe média tradicional do sul-sudeste. Ainda, Dilma vive uma situação curiosa: ela alterou, sem muita cerimônia, alguns vetores importantes do modo de fazer política do governo Lula como, por exemplo, a relação com a grande mídia - que antes era de confronto, agora é de aliança como Palocci defendia - e com os movimentos sociais e ativistas em geral - que foram colocados na berlinda. 

Com isso, Dilma agrada quem simpatiza com o PSDB e mesmo quem votou em Serra, enquanto, pela falta de uma oposição consistente à esquerda, ela não tem perdido essa fatia do eleitorado - que é precisamente a mais fiel ao PT em termos históricos, mas que não está tão satisfeita assim e ainda é saudosa de Lula. Dilma agrada tucanos e desagrada petistas porque acha que já tem os segundos e precisa pregar para não-convertidos, além de, também, suas convicções pessoais - que passam por um asceticismo gerencialista.

Também não é de se ignorar a má relação de Dilma com os intelectuais: se FHC, intelectual de cátedra, só agradava sua patota - não era de se estranhar, dificilmente um intelectual no poder faria o contrário - Lula, político nato e não-intelectual, ouvia a todos, os fazia sentir ouvidos e fagocitava-lhes o que lhe interessa e só não teve relações com os intelectuais que o rejeitavam. Dilma é diferente porque não é intelectual e tampouco é política nata, não está disposta a afagar o ego de ninguém e confunde ouvir os outros com indulgência: manda de forma centralizada e deixa isso claro. 

Os intelectuais estão em choque: qual o seu papel diante de um governo muito popular e que não os ouve? O governo Dilma torna-se, assim, um fenômeno tão preocupante quanto exótico nascido no meio da disputa que mobilizou o Brasil nas últimas duas décadas. Ironicamente, o desintelectualismo falsamente atribuído a Lula pela pequena burguesia encontra, na verdade, sua forma acabada em Dilma e junto disso recebe aplausos das camadas médias.

Na distante terra francesa, o pêndulo move-se em direção contrária: em um país, ao contrário do que o imaginário esquerdista brasileiro supõe, tendente à direita, o governo altamente desmoralizado de Sarkozy ruma para a perda de uma reeleição que poderia ser tranquila, embora boas doses de xenofobia ou mesmo do tradicional conservadorismo brando francês lhe garantam o Segundo Turno. Hollande, seu opositor e possível vencedor do Primeiro Turno, é morno, mas ousou mais do que os socialistas ousaram desde o primeiro Mitterrand e a coalizão com os comunistas. 

As estrelas dessa eleição francesa, no entanto, não são nem Sarkô, nem Hollande: são Marine Le Pen, candidata da extrema-direita francesa e sucessora política de seu pai, Jean Marie, e o esquerdista Melénchon que com sua Frente de Esquerda tentou recuperar o espírito da velha Frente Popular. Juntos, eles somaram quase um terço dos votos, enquanto os dois primeiros colocados sequer chegaram, com sua votação somada, a metade dos eleitores. 

Marine, no entanto, ilustra também um voto difuso de insatisfação com a União Europeia, justamente por isso, uma parte de sua votação - estimada em 25% - migrará para Hollande, enquanto o mesmo não pode se dizer dos eleitores de Melénchon que majoritariamente devem votar em Hollande, ainda mais com seu candidato declarando apoio incondicional e sem contrapartidas a uma cruzada anti-Sarkozy.

Já o centrista François Bayrou tende a ser o fiel da balança, mas seus votos devem se repartir quase que perfeitamente entre os dois candidatos e a abstenção, o que dá, no fim das contas, vantagem moderada - e, para falar a verdade, pouco segura - para Hollande. Em termos práticos, um governo Hollande abalaria os alicerces do atual consenso europeu justamente porque seria um governo tradicional de centro-esquerda francês - e por tradicional entenda-se nacionalista e pouco disposto ao alinhamento automático com os EUA e, por tabela, com o governo Merkel em Berlim que lhe serve de tarefeira. 

Basicamente, uma vitória da centro-esquerda francesa, que pouco tem a ver com a experiência petista e mais com com a experiência tucana - que, no entanto, se endireitou -, favorece ao Brasil e aos países pobres apesar do eventual protecionismo: hoje, a maior ameaça é, sem dúvida, os efeitos dessa governança tecnocrática voltada para o mercado financeiro, em relação ao qual Sarkozy é a pedra de toque, por mais que o protagonismo aparente caiba à Alemanha - e isso é suficiente para que, no íntimo, Brasília prefira um socialista em Paris ao atual mandatário, com quem tanto Lula quanto Dilma nutrem boas relações.

Seria uma vitória para a diplomacia de Dilma, que já se pegou às turras com Merkel: mas a pendenga aí teve menos a ver com o jeito de fazer política e tanto mais com a direção do projeto. E Hollande, ainda que acene para uma direção de oxigenação da política, não pertence a um partido historicamente disposto a isso - coisa que Melénchon pareceu ser, depois de décadas de paralisia mental da esquerda francesa, presa entre o estupor filo-stalinista do PCF e o tecnocratismo pequeno-burguês do PS, coisa que só Mitterrand furou levemente.

Enquanto o mercadismo implode, o Plano, repaginado, volta à ordem do dia como possível novo paradigma do Programa. É o que está em jogo por aqui.


segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

A França e François

Hollande, pelo gerenciamento da dívida, contra Sarkô e Merkel
Há pouco menos de dois meses, François Hollande venceu as prévias do Partido Socialista Francês. Isso o tornou, imediatamente, o favorito das próximas eleições presidenciais de seu país, a serem disputadas já no primeiro semestre de 2012. Isso é parte do efeito dança das cadeiras, que é sentido em toda Europa, uma vez que os governos do momento estão sendo responsabilizados pela crise, embora tal processo se deva mais às semelhanças entre os partidos do que às suas diferenças.

E o governo Sarkozy, além disso, ainda é um prato cheio para a oposição. Ele possui todos os defeitos do governo Chirac com pouquíssimas de suas virtudes - leia-se: política externa, coisa que os franceses prezam muito, mas que Sarkô afundou com seu alinhamento automático aos Estados Unidos e sua postura tosca, ao lado de Angela Merkel, no gerenciamento da crise europeia.

A vitória de Hollande nas presidenciais poderia mudar a tônica da política europeia, pela possível saída da passividade artificial em que se encontram os franceses na atualidade. Nada indica que os socialistas, apesar de sua agenda rebaixada, irão à reboque dos alemães: aliás, os interessa salvar o Euro e eles sabem que, para tanto, precisam criar mecanismos de gerenciamento da dívida. Um debtfare? 

Sarkozy não consegue vislumbrar isso, enquanto Merkel, em seus rompantes sub-thatcherianos, assume uma posição de austeridade sistemática como se soubesse o que está fazendo, mas não está: a primeira-ministra alemã fica entre a impossibilidade de largar mão do Euro e a paralisia de fugir dele (ambas as hipóteses exigem uma virtù que Merkel não tem). Embora o plano B de retomar o Marco Alemão acalme a líder germânica, os franceses não tem essa opção em relação ao seu finado Franco.

Um outro governo que não seja alinhando a Washington, como Sarkozy é, não interessa a Obama - e o atual mandatário francês é um pássaro raro em seu país, seja à direita ou à esquerda.  Inclusive porque a tradicional política externa francesa é capaz de dizer não aos americanos, o que, caso se refira à desvalorização do Dólar sobre o Euro, pode fazer toda a diferença na crise atual.

Hollande, portanto, pode mudar o jogo não por lhe trazer algo novo, mas sim por ser um típico político francês de centro-esquerda - contando com uma historicamente atípica maioria no Senado para a centro-esquerda. Isso pressionará Merkel a mudar seus planos.

Mas a futurologia acaba no momento em que o Euro pode morrer, mesmo que queiram salva-lo, antes do novo mandato presidencial francês. E um agravamento da conjuntura russa, com severos impactos para o equilíbrio estratégico no Leste Europeu, Ásia Central e Oriente Médio não está descartado, simultaneamente a tudo isso.