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domingo, 15 de julho de 2018

O Adeus da Copa da Rússia e a França campeã

A. Namenov (AFP_
O término de Copas do Mundo nos fazem refletir sobre o tempo. É como se esses ciclos de quatro anos ativassem nossa memória afetiva -- ela sempre o é, mas eu digo a memória dos afetos mesmos, uma certa ternura que fica em cada momento. Onde estávamos há quatro anos ou oito anos, há doze? Que fazíamos? Como estávamos como indivíduos como estava o país? 

Muito se passou, a idade começa a chegar, uma certa nostalgia de outros tempos irremediavelmente bate, sobretudo nesse nosso momento atual -- no qual mais do que presente, nos falta futuro.

A Copa da Rússia, disputada em um momento terrível do Brasil e do Mundo, não deixa de ter sua importância simbólica: de um povo tão marcado pelas guerras, pelas agressões estrangeiras, por mais de cem anos de cerco das mesmíssimas potências e potestades ocidentais. 

Para muito além do "grande evento", seus problemas e aporias, havia algo de um esforço russo em se mostra uma nação como qualquer uma outra, para além de uma demonização internacional, tanto premeditada como profissional -- a ponto de um comentário como este ser considerado "russófilo", quando o que ele pede é que russos e seus líderes, e seu povo, deveriam ser julgados, absolvidos ou condenados, com a mesma medida que americanos ou europeus são ou deveriam sê-lo.

Tão previsível quanto dolorosa, a derrota brasileira ilustra o espírito do tempo nacional: entre a ansiedade crônica e uma certa presunção (que no fundo é uma resposta defensiva e infantil), somos um país que ou negamos nossas tradições ou as afirmamos como estereótipo de brasilidade da farsa global. O Neymarismo como vítima de si mesmo e, portanto, seu próprio algoz. Um país bipolar e não tratado: sempre da mania à depressão.

Ganharam os franceses, multirraciais e multicoloridos, que mantém a tônica gaulesa desde os anos 1980: boas gerações, com hiatos generosos e reaparições gloriosas; da França de Platini para a França de Zidane ao bi mundial com Mbappé e Pogba. 

E que não se diga a França dos imigrantes e refugiados, que o aparado pós-colonizador arregimentou e colocou para levar o país às glórias futebolísticas: ao contrário, o futebol como instância de representação nacional sempre tratou, não só na França como na Europa, de excluir árabes e negros e se abriu pela força deles. 

Na França, onde Platini, um franco-italiano, era lido como um branco e, portanto, um nacional Zidane o era menos e Mbappé uma verdadeiro escândalo, por não ser apenas  não branco como fruto da miscigenação entre imigrantes árabes e negros.

Nessa França, a polaridade racial é tão brutal que a inclusão à brasileira, cordial e malandramente opressora, nem é possível: lá ou seria inclusão à força pela luta ou seria exclusão pura e simples -- e inclusão contra um imaginário que inclusive cogitou instaurar cotas para limitar o acesso de crianças negras e árabes (sim, isso aconteceu mesmo, não é suposição) ao futebol e, por conseguinte, tornar o futebol francês "mais branco".

E que não se chamem os croatas puramente de "nazistas", embora a extrema-direita diga muito sobre como o país hoje, muitos jogadores de sua seleção e ao trágico desmonte da Iugoslávia, no qual a Croácia sob o comando de forças ocidentais ajudou a detonar um conflito horrendo -- que vitimou, a bem da verdade, mais bósnios e sérvios.

A Croácia, em si, seria nazista? Não, mas muitos jogadores seus simpatizam. E sua vitória era parte de uma estratégia de propaganda nacionalista de direita. Ao contrário da França, em que pese  o paradoxo de ser a nação das luzes e, ao mesmo tempo, um país colonialista indômito -- que conserva sua violência via cosmopolitismo neoliberal --, mas não tem no seu time nacional, a sua maior expressão -- embora Macron, esperto como o diabo de Bergman saiba bem jogar com isso.

Na bola e no campo, onde as coisas se decidem, um vareio de bola da França sob o comando de Griezmann, francês de origem luso-alemã, e com toques de talento do menino-prodígio Mbappé e do espetacular Pogba -- o que permitiu até erro crasso do bom goleiro Lloris.

Fica a memória. Onde estaremos daqui a quatro anos, como fãs de futebol e brasileiros, é a grande incógnita.






quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Para além do Ser ou Não Ser [Charlie] em Tempos de Boko Haram

A marcha dos líderes mundiais (apartados da multidão)
"(..) A senhora sabe que não se contam os mortos da mesma maneira em todos os lugares do mundo"
 Jacques Derrida, Filosofia em Tempo de Terror, p. 101


Je Suis Charlie << Eu sou Charlie >> se tornou um dos maiores memes da história das redes sociais. Ele expressa a justa indignação com as vítimas do atentado à redação do Charlie Hebdo. E isso foi o mote da enorme manifestação ocorrida há poucos dias, em Paris, com alguns líderes mundiais conduzindo simbolicamente o cortejo.

Em resposta, veio o Je Ne Suis Pas Charlie <> que problematiza a questão, trazendo um ponto importante: sim, houve um desastre, mas nada é tão simples, seja porque há um uso suspeito da tragédia ou talvez porque o Charlie, por algum motivo, não mereça a beatificação.

O Je Ne Suis Pas Charlie foi dito por bocas diferentes, senão opostas: pelo velho senhor Le Pen,  por entender que o periódico atentava contra a moral política francesa (seja lá o que isso for para um ex-torturador da guerra da Argélia). 

Mas a negativa veio, sobretudo, à baila pelas redes de militantes islâmicos e seus defensores -- apesar de reconhecerem a tragédia, não poderiam concordar com a linha editorial do jornal e suas constantes infâmias.

A não adesão à marcha incluiu, inclusive, alguns dos sobreviventes ao ataque da redação do Charlie. Apesar de suas muitas contradições, não aderiram, eles não se deixaram usar pela marcha republicana. 

A dita marcha foi gigantesca, puxada simbolicamente por líderes globais -- embora isso tenha sido retratado como se eles estivessem mesmo guiando manifestação --, tomou Paris, num misto de êxtase geral, quando medidas de exceção eram encaminhadas.

Aliás, a própria ação na qual os suspeitos do atentado foram mortos, de tão desastrada, resultou na morte de muitos dos reféns -- que só não foi maior, ironicamente, pela atuação de um imigrante negro e muçulmano. Interessava mata-los, só isso.

Matar do mesmo jeito que, ironicamente, fazem os tantos líderes benevolentes no comando de suas máquinas de guerra. Muitos deles sequer têm o pudor de, nas contingências da guerra civil global, não apoiar movimentos fundamentalistas islâmicos.

A marcha de líderes, guiando o povo, aparece como uma recriação, pós-moderna e às avessas, de um episódio narrado por Victor Hugo em Os Miseráveis: Como um General Lamarque da era das redes sociais, o Charlie também teve seu cortejo conduzido como se fosse amigo do rei, mas aqui não foi para causar a indignação dos republicanos, ao contrário, foi para satisfazê-los.

Certamente, Charlie não é um Lamarque, embora não se possa dizer isso -- na era da liberdade de expressão (unilateral)

Um novo corte: pouco antes de tudo isso, enquanto a tragédia acontecia em Paris, o Boko Haram, organização terrorista de orientação wahabita -- o islamismo saudita --, realizava o massacre de Baga, na Nigéria, matando milhares de pessoas. Nem preciso dizer, a comoção global foi pequena ou nenhuma pelos mortos. 

O pouco que Baga ressoou na mídia serviu, naturalmente, para uma condenação do islamismo em geral, seja o que significar. No presentismo da era do (macarrão e do debate) instantâneo,  pouco importam as causas, os processos históricos e as complexidades -- e não é questão de se comparar o valor de vidas, elas já foram comparadas.

Os muitos líderes globais, e a boa sociedade francesa, não têm responsabilidade alguma. Mesmo que a Arábia Saudita seja aliada do ocidente, mesmo que grupos fundamentalistas tenham sido apoiados "taticamente", mesmo que os árabes e os muçulmanos sejam marginalizados. Apontar tais detalhes, é claro, soaria como uma perigosa "relativização" do que acontecer.

Justamente por isso outra: Je Suis Passé D'Outre Chose. Entre o ser ou não ser algo [um objeto qualquer], passar a outra coisa -- ou melhor, como a língua portuguesa nos permite dizer, ao contrário da francesa, eu me permito estar de passagem para outra coisa. 

Isto é, flexionar o "passer", fazê-lo algo no sentido do "passe" -- da mágica ou das religiões afro-brasileiras. Nada melhor do que fugir a uma dicotomia e, sobretudo, afirmar outra coisa além do ser, de fazer-se identidade no sentido de algum objeto. 

Os rumos dos acontecimentos levam a isso. O grande consenso da política francesa não é digno de adesão. É o mesmo consenso que, inclusive, se alia a fundamentalistas islâmicos no oriente médio se isso for "necessário. 

O mesmo consenso que, também sequer levou os terroristas a julgamento -- preferiu executa-los sumariamente, sem sequer se preocupar efetivamente com os reféns. Porque uma outra dialética, de fundo, sustenta o terror, terror de Estado e terror [supostamente] não-Estatal. Um alimentando o outro, quando não diretamente.

Há sempre uma afirmação de que os que não aderiram são, de certo modo, ou esquerdistas demais ou, pior chegam a ter culpa [ou até dolo!] pela chacina. Uma falácia sem tamanho. Tampouco quando afirmam se tratar de "relativismo", o qual excluiria a responsabilidade dos atacantes. 

Como explicar a recente proibição dos muçulmanos rezarem em público? Ou, antes, de proibir vestes islâmicas, independentemente se as mulheres islâmicas estejam, necessariamente, obrigadas a tanto? 

A questão não é que a laicidade radical se opõe à intromissão da religião, mas que nem a tal laicidade radical é para todos -- embora eu desconheça medidas do tipo contra cristãos na França -- , tampouco ela abole a religião. 

A laicidade radical francesa institui uma religião de Estado,  capaz de estabelecer e modificar as premissas do próprio jogo -- livre, inclusive, para se contradizer. Qual deus seria mais formidável -- e real -- do que este?

A questão da marcha republicana supera o caso Charlie. Ela diz respeito à própria maneira como as resistências, hoje, enfrentam armadilhas mais poderosas do que se pode supor. O mundo é complexo e cheio de ambivalências.  

O problema, por certo, não está em se compadecer por doze seres humanos mortos de forma violentíssima, covarde e absurda, mas que a piedade que nos é permitida ter, sob o regime estético-midiático, é demasiado reduzida -- e falta tanta piedade, que os momentos piedosos terminam como, no máximo, meras catarses.

E é um problema porque as nossas emoções, sensações e afetos são manipuladas a ponto de terminarem anestesiadas na maior parte do tempo, vindo à tona só quando, e na direção, que o sistema precisa. 

Os momentos de inflexão, na sua aparente potência, acabam se perdendo. Disso, no máximo acabamos nas mãos do indignismo momentâneo, sendo usados ao sabor de catarses, que vistas em si, são mesmo legítimas.

A situação não é simples. O poder não vai, nem precisa, criar uma nova grande narrativa quando pode criar um regime estético, baseado nos afetos, na manipulação das emoções e criação de sensações que assujeite o mundo. 

É como Rancière, crítico tão arguto do republicanismo francês, nos mostra ao longo de sua obra. Diante do Estado de Guerra Civil global, não podemos capitular diante do óbvio, do hype e permitir que a política seja reduzida a um mero flashmob armado [nos dois sentidos do adjetivo].




sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

A Chacina do Charlie Hebdo e os Ecos de Camus

A redação do jornal satírico francês Charlie Hebdo foi chacinada. Dois atiradores fortemente armados ceifaram a vida de uma dúzia de pessoas, ferindo outras tantas outras. Os assassinos seriam muçulmanos se vingando do Charlie pela publicação das polêmicas charges de Maomé em 2011. Como o atentado, o mundo entrou em choque, os franceses saíram às ruas, os líderes mundiais condenaram o atentado com veemência e, para completar a praxe, tags de solidariedade invadiram as redes sociais. Enfim, um péssimo cartão de visitas para 2015. 

Obviamente, matar pessoas dessa maneira é um absurdo total e completo, mas é fundamental observar os desdobramentos disso à luz de um contexto no mínimo delicado: a crise econômica persiste e, por tabela, o espectro do neonazismo, e outras formas de fascismo histórico, voltam a mostrar suas garras. A exemplo dos anos 1930, eles também têm uma cortina de fumaça central na forma de inimigo público:  para os novos fascistas não é mais a "ameaça judaica", mas sim os muçulmanos, os imigrantes e o Islã. Agora, eles têm o seu factóide como os nazistas tiveram o incêndio do Parlamento.

A nova extrema-direita vende a ideia de que ela, e somente ela, tem a solução para a desgraça da Europa -- a qual, de fato, esta afundada no neoliberalismo torpe mantido pelas forças de centro-direita e centro-esquerda, em consenso. Seu objetivo, contudo, é salvar o capitalismo dele mesmo, não importa como. E para salva-lo, é preciso apagar o antagonismo real -- a exploração da multidão de precários pelo sistema financeiro -- pela via da construção de um antagonismo falso, no qual os problema é, na verdade, um confronto de culturas: em vez de capital vs. trabalho, temos uma ópera bufa na qual lá estão os franceses contra os imigrantes/não-cristãos/não-franceses étnicos.

O episódio em questão seria, pois, a prova cabal que o Front National, e seus congêneres de extrema-direita na Europa, teriam pois "razão" quanto ao seu discurso. Agora, sua líder Marine Le Pen sugere um plebiscito para reintroduzir a pena de morte na França, além de propor fechar as fronteiras do país e outras asneiras autoritárias.

Assim, mesmo sem uma investigação sólida, o crime já tinha um culpado: qualquer muçulmano (que possivelmente é também árabe e "imigrante").  Pouco importa quem, de qual organização e o por qual motivo: os culpados já foram achados (e condenados!), são milhões de pessoas, quase um décimo da população da França! Triste ironia, quis o destino que um policial morto ao tentar deter os terroristas fosse, ironicamente, muçulmano. 

Não custa lembrar que no famoso massacre na ilha norueguesa de Utoya, na qual dezenas de membros da juventude socialista local foram mortos por um atirador, logo se desconfiou de que o culpado fosse um radical islâmico, o que não se confirmou: o assassino era Anders Breveik,  um norueguês étnico, cristão e de extrema-direita. Ele foi julgado na forma da lei,  terminou condenado por um tribunal legítimo, sendo condenado para uma pena já prevista. Nem o cristianismo, tampouco a extrema-direita foram estigmatizados (embora a última merecesse). 

A Noruega deu um exemplo para mundo na forma como lidou com o assunto, mas frise-se que a Europa não cobrou nenhuma medida de exceção assim que se conheceu a identidade, e as motivações, do terrorista.  Fosse ele um muçulmano, teria sido igual?

Longe de haver um mundo preto-e-branco, na França, o atual governo "socialista" de François Hollande apoiou fundamentalistas islâmicos na Síria para, em aliança com Estados Unidos e Reino Unido, derrubar o regime local. Nem é questão de dizer que a França, ecoando o velho colonialismo que a fez cometer crimes contra humanidade aos borbotões, provoque indiretamente o extremismo entre muçulmanos, mas que ela, num jogo de poder absolutamente cínico, chega a diretamente cria-los, sustenta-los e apoia-los.

No jogo pela hegemonia do Império, elites burocráticas dos velhos Estados nação se aliam e fazem o que for necessário para manter ou alcançar o poder. O Ocidente, apesar do seu discurso maniqueísta de se arrogar como arauto das liberdades é quem, contraditoriamente, mais apoia o fundamentalismo islâmico -- e teocracias como a Arábia Saudita.

Quando os americanos justificam, agora com a França lhes sendo absolutamente subserviente, sua política de intervenção e domínio pela desculpa do confronto entre civilização (o Ocidente) e a barbárie (o Islã), ela mente copiosamente: existe uma aliança entre as elites ocidentais e parte das elites islâmicas (como há entre a China e a Rússia com a outra parte das oligarquias do Oriente Médio e Mundo Islâmico), e ela é necessariamente contra a multidão de pobres e oprimidos que, embora não saiba, têm o mesmo interesse seja na península arábica ou na Europa.

Enxergar esse caso como uma disputa entre liberdade de expressão e fundamentalismo ou, pior, como um choque cultural -- no qual explícita ou implicitamente se afirme a superioridade dos valores "iluministas ocidentais" face às outras culturas -- é fazer o jogo da extrema-direita que, à base do preconceito, está a à espreita na esquina para tomar o poder -- ou, no mínimo, para evitar que a nova esquerda vença as eleições. 

Não custa lembrar de O Estrangeiro, clássico de Albert Camus, no qual o personagem principal foi condenado à morte (!) por não ter chorado no enterro da mãe, mas não por ter matado um árabe na então colônia francesa da Argélia. Camus não foi um visionário apenas por profetizar o agravamento da situação na Argélia, e as causas tanto disso quanto da futura derrota francesa, nem por antever um futuro como um colonialismo interno (dentro da própria França e contra os imigrantes) , mas por ter entendido o que fundamentou tudo isso: uma indiferença radical como forma de eliminar aquilo que não se enquadra à universalidade do republicanismo francês.

Esses imigrantes, e os tantos cidadãos franceses (muçulmanos ou árabes) cuja cidadania é negada por "uma falta de identidade étnica", vivem no limbo de um estatuto jurídico -- e ontológico -- causado por essa indiferença: se os valores do humanismo caracterizam a boa república, há aqueles que são humanos piores (ou nem isso), os quais jamais serão cidadãos reais (mesmo que o sejam), condenados a trabalhar muito e reclamar pouco.

Foi talvez por essa indiferença que o Charlie não percebeu a gravidade do que fez quanto às charges de Maomé. Sim, aquelas charges reforçaram sim a islamofobia na França -- e a islamofobia é a melhor e maior fábrica para gerar terroristas. E não há que dizer que o satírico era assim para todos: há poucos anos, ele demitiu, com toda razão, um cartunista que cometeu ofensas semelhantes contra o judaísmo. Os muçulmanos, e em menor grau árabes e africanos cristãos, são menos cidadãos, menos humanos naquele país.

Enfim, o atentado não muda o fato de que o Charlie errou, e errou feio, na ocasião das charges de Maomé, mas, também, não torna agora as vítimas menos vítimas. Isso não é um debate sobre culpa, mas a análise de um processo histórico bem complexo. Do ponto de vista político, é questão da França fazer uma reflexão profunda sobre si mesma. Basta ver as retaliações contra a comunidade islâmica, que já começaram a acontecer.

Não resta dúvida que os assassinos devem, na forma da lei e na medida de sua culpabilidade, pagar individualmente pelos seus crimes, mas isso não pode ser vendido jamais como uma questão cultural, como "fascismo islâmico" ou outras superstições, que só alimentam a real ameaça: o maior avanço da extrema-direita desde os anos 1930. E se algo realmente ameaçou a Europa, e a existência de uma cultura europeia, foi um fascismo bem europeu.




quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

A Intervenção no Mali, Françafrique, a Velha Europa

-- Um espectro ronda a Europa, mas desta vez não é a Revolução, mas sim algo, digamos, um tanto menos vivo --
Além da crise da União Europeia, questão recorrente no noticiário nos últimos anos -- com o poder europeu misturado ao sistema financeiro, Alemanha à frente e acima, no esmagamento dos países periféricos  --, agora temos a intervenção francesa no Mali -- um tanto mais direta e presencial do que a, digamos, nada pequena participação franco-britânica na Líbia. Uma palavra nova entra no nosso léxico: Françafrique -- o neologismo definitivo para definir a doutrina neocolonial francesa sobre suas ex-colônias africanas; trata-se de uma ironia precisa (e polêmica) de François-Xavier Verschave, em livro homônimo dos anos 90, para a relação nebulosa entre a França e suas ex-colônias.

Esqueça o fascismo ou o velho imperialismo: vivemos em uma época outra, onde qualquer conservador faz objeção de princípios a líderes opressores e grandes assassinos, mesmo os de extrema-direita. O fato é que o sistema não precisa mais matar, ele deixa morrer com estilo e sem cerimônia; os velhos genocidas fascistas são, portanto, instrumentos ultrapassados destinados ao descarte no ferro velho da esquina. O máximo de intervenção e combate que podemos testemunhar é o dos poderosos exércitos da civilização, enquanto força de polícia cosmopolita, pondo ordem na Casa. O sistema não mata, ele deixa morrer em nome de uma responsabilidade pessoal transcendente -- ou mata sob a prerrogativa da preservação da civilização global.

O Centro produz a periferia dialeticamente. O processo civilizatório é dialético na medida em que a civilização cria seus bárbaros e selvagens para, vejam só,  homologar-se enquanto tal. Do mesmo modo que o capitalismo, ao criar riqueza, cria pobreza, pois só é rico alguém ou algo que tem um pobre para lhe servir como referência homologatória: o rico o é não por ter muito, mas por ter quem tenha menos em relação a si. O etapismo e o enriquecimento sustentam as duas dialéticas: o esforço da periferia em ser centro é o que permite a existência de uma zona periférica, o esforço do pobre em ser rico é o que mantém a pobreza. Na essência do problema, pelo menos da questão geopolítica levantada, está a aliança entre a elite africana e francesa contra os pobres de canto a canto -- no outro exemplo, é a aliança entre o pobre dominado por paixões tristes (a dívida, p.ex.), o pobre que não devém pobre, e o rico que sustenta a "desigualdade social".

Quem está em colapso é a Alemanha de Merkel, como sempre insistimos por aqui, não Portugal, Espanha, Grécia ou Irlanda. Mas é ela quem tem o poder, via Euro, de sufocar os mais pobres, jogar-lhes a culpa e a dívida -- que bem sabem os alemães ser a mesma coisa -- e se alimentares. O capital alemão na sua dimensão esfomeada já se alimentou dos recursos humanos da antiga máquina burocrática da falecida da Alemanha Oriental, já mandou plantas industriais para a China aos borbotões, e, agora, come os periféricos da Europa. Hollande, que não deixa de ser um contraponto à Alemanha internamente no jogo europeu, não deixa de ter o apoio da maioria, da Otan, dos próprios germânicos para comer pelas beiradas uma resolução da ONU que falava em forças africanas para "estabilizar" o Mali, não francesas. Mas a guerra é sempre urgente, necessária; discordar torna-se, rapidamente, o mesmo que estar a favor dos rebeldes.

Os rebeldes malineses, terríveis "islamistas", estariam armados com os despojos do arsenal de Kadafi, déspota líbio recentemente derrubado -- e cruelmente morto por "rebeldes" apoiados pela aviação de combate da França. Não só, o Mali, que hoje vê sua capital cercada, já se encontra em problemas há tempos. O governo, ora sitiado, é ilegítimo e ascendeu via golpe de Estado. Governo este responsável, inclusive, pela maior estagnação do país em seus cinquenta e dois anos de existência pós-colonial. Mas só agora, e dessa forma, houve alguma mobilização. Nada conspira pela legitimidade desta ação ou para sua funcionalidade. É como uma volta ao passado, quando Guattari comentava com Lula sobre as ambiguidades da política externa da França de Mitterrand: a denuncia do imperialismo americano por uma mão e a deflagração do botão da guerra na África pela outra.

Hollande conta com alguns ases na manga. Um deles é de que, de fato, o governo (de facto) do Mali foi quem pediu ajuda à comunidade internacional, sobretudo à França. O outro, é que a intervenção é brutalmente popular na França. Para um governo apagado como o de Hollande, cujas tentativas de emplacar políticas anticrise e de reduzir a hegemonia alemã na Europa resumem-se, quase sempre, ao discurso e à pirotecnia, ter uma ação aprovada por três quartos da sua população não é pouca coisa. Mais até do que isso,  por questões políticas e econômicas, fazer guerra nunca foi de um todo mau para o capitalismo, sobretudo quando se faz guerra contra organizações não-capitalistas ou pré-capitalistas.
Não é uma questão nacional, por óbvio. É da interface imperial do sistema global que estamos falando. Do arcaísmo  fundamentalista como colateralidade do funcionamento da economia-mundo. Da guerra como negócio derradeiro, desafogo da política e forma de incentivar a fabricação de bugigangas bélicas. O que resolverá mais essa guerra se ela existe como consequências do fracasso da intervenção na Líbia e do fracasso do sistema global? Mesmo com todas as suas reticências, a pergunta de Mélenchon é válida: esta guerra servirá para algo?

domingo, 6 de maio de 2012

O Presidente Hollande

Eleitores de Hollande comemoram sua vitória
Sim, como previsto há meses, o socialista François Hollande conseguiu uma previsível vitória contra Nicolas Sarkozy, algo que estava claríssimo depois do 1º turno - sobretudo com linhas curiosas: Hollande venceria por pouco, mas dificilmente deixaria de vencer. Conforme previmos por aqui, embora as pesquisas apontassem para uma vitória em torno de 55%, o voto silencioso talvez favorecesse Sarkozy como de fato aconteceu, com o atual presidente francês perdendo apenas em torno 52 a 48.

A vitória apertada de Hollande, é claro, não é nenhuma novidade: Mitterrand, que a exemplo dele derrotou um gaulista pleiteante à reeleição (no caso dele, D'Estaing), também venceu por uma margem bastante parecida - e apesar de em ambos os casos os pleiteantes à reeleição derrotados tenham sido figuras egressas da ala mais liberal do gaulismo (ao contrário de Chirac), as semelhanças param por aí: a política externa de D'Estaing foi profundamente não-aliada aos EUA, com direito a flertes com a União Soviética (com quem sempre manteve boas relações), enquanto isso, Sarkozy foi o primeiro mandatário francês, desde o colaboracionismo, a abrir mão da autonomia em matéria de relações internacionais, se curvando aos EUA e à Alemanha.

E embora maus resultados econômicos tenham ajudado a derrubar D'Estaing e Sarkozy, é preciso entender a conotação diferente com a qual essas degradações foram percebidas, uma vez que há uma inegável transversalidade entre economia e política externa na Europa atual, o que trouxe o centro de gravidade da questão para o segundo campo: a União Europeia e a unidade monetária estão aí com todos os seus problemas e suas problemáticas. 

Isso explica porque em uma eleição na qual a direita levou vantagem durante o 1º turno, mesmo assim, viu o candidato esquerdista vencer no 2º turno sem maiores dificuldades: Hollande foi eleito para confrontar o consenso de Bruxelas que cada vez mais se parece com a ditadura de Berlim; Sarkozy, visto como um covarde nesse sentido, não conseguiu capturar votos preciosos do seu próprio campo político. Fora a vitória a passadas largas de Chirac no 2º turno de 2002, quando uma aberração da natureza - isto é, alta abstenção e um número absurdo de candidatos - colocou Le Pen e não Jospin para disputar a segunda volta, e a de De Gaulle em 58 (talvez a sua vitória confortável em 64, ainda que no 2º turno).

A vitória sobre Sarkozy, no entanto, teve um peso moral muito forte que favorece Hollande e dá forças ao PS para, nas eleições legislativa de daqui a um mês, conseguir reverter a maioria gaulista na Assembleia Nacional. Caso assuma sua agenda, sobretudo no que toca ao enfrentamento do projeto europeu atual, ele atrairá para si, fatalmente, o apoio da base mesmo do oposicionista Front National ou até do enfraquecido gaulismo. 

É perfeitamente natural que se faça referência ao efeito dança das cadeiras quando se analise as eleições francesas, mas é mais complexo do que isso: se onde era governado pela centro-direita passou para a centro-esquerda (e vice-versa), nos aproximamos de um momento culminante, porque cada espectro da política europeia está tendo suas oportunidades de pôr sua política em curso. 

Até agora, as políticas de austeridade de Merkel, ressoadas pelos governos de Passos Coelho e Rajoy - respectivamente em Portugal e Espanha, que trocaram a centro-esquerda pela centro-direita - não tem surtido nem tendem a surtir qualquer efeito sobre a crise. A conveniência da centro-esquerda com esses mecanismos, inclusive, foi causa das quedas dos socialistas na península Ibérica - e também no Reino Unido. O projeto de Hollande, ao contrário, é um significativo não, por parte da social-democracia europeia, ao consenso, ainda que seja muito comportado.

Se a fórmula da austeridade faz a Europa caminhar para a falência do seu sistema político, o que, no momento, seria o mesmo que joga-la na mão da extrema-direita - olhem a nova Constituição húngara, p.ex. -, agora existem novos vetores: a pressão dos movimentos sociais que lotou as praças por toda a Europa e essa cisão na cúpula do poder são exemplos disso. No entanto, para que uma nova esquerda seja constituída, a esquerda que vai às ruas, precisa produzir novos espaços e formas de intervenção à altura de intervir no grande jogo político, enquanto a esquerda parlamentar precisa reconhecer esses atores e, uma vez no governo, intervir na questão do Euro que, está bem claro há algum tempo, é a pedra de toque dessa conversa toda.

O abalo produzido na dinâmica de funcionamento da União Europeia, no entanto, foi relevantíssimo, embora para o pior não acontecer, ainda precisemos de muito. 

domingo, 29 de abril de 2012

Eleições Francesas: Os Rumos da União Europeia

Hollande e sua esposa cumprimentam eleitores
O socialista François Hollande e o conservador, e atual presidente, Nicolas Sarkozy estão a uma semana da votação que definirá as eleições francesas. Até aqui, Hollande segue favorito do mesmo modo que já era há meses atrás. As pesquisas são claríssimas: Hollande alterna entre 54% e 56% das intenções de voto e só um fato novo muitíssimo relevante poderia tirar essa vitória dele - detalhe para o fato de que pesquisas nem sempre captam certos movimentos de última hora, nem o chamado voto envergonhado, que talvez favoreça Sarkozy em algum grau, mas que, a julgar pelos fatos, tende a não ser suficiente para ele neste momento.

Um detalhe curioso sobre a provável vitória dos socialistas é que ela se daria dentro de um cenário no qual a direita, sim senhores, venceu o Primeiro Turno: somando os votos de Sarkozy, Marine Le Pen, Nicolas Dupont-Aignan e Jacques Cheminade, aquele campo registrou 47,1% dos votos - contra 41,4% da esquerda, contabilizando Hollande, Mélenchon, o anti-capitalista Philippe Poutou e a trotskysta Nathalie Arthaud, além dos 11,4% para o centro, inclusos aí o europeísta Bayrou e a verde Eva Joly. 

A despeito do fracasso do seu governo, é curioso notar como Sarkozy caminha para perder uma eleição para um socialista em um cenário que favorece, brutalmente, uma candidatura conservadora. O x da questão é que o buraco, em termos de política francesa, é sempre mais embaixo: não é sobre direita e esquerda que essas eleições tratam, mas sim sobre o posicionamento da França na União Europeia, quase que em um caráter plebiscitário.

Ainda que eleitores do direitista Front National tendam a votar em Sarkozy ou, simplesmente, não comparecerem às urnas, é fato que haverá relevante transferência de voto daquele setor para Hollande, o que parece completamente non-sense, mas não é: dentro da lógica dessa eleição, certos eleitores de Marine preferem ver uma mudança à esquerda na relação franco-europeia a não vê-la. 

E Sarkozy arca com o ônus de, ao longo de cinco anos, ter quebrado o consenso que permeou a França desde o pós-guerra, isto é, autonomia incondicional na política externa. Ter, pela primeira vez desde o Colaboracionismo, se alinhado automaticamente - e de forma submissa - a potências estrangeiras - com o agravante disso ter trazido prejuízos econômicos - é algo imperdoável. Mesmo que a maioria dos franceses não gostem das políticas socialistas para os imigrantes - mais sensíveis, capazes de enxerga-los como humanos -, isso caminha apenas para garantir uma votação muito além do que Sarkozy poderia ter.

O fato é que a França, a exemplo dos países mais ricos da União Europeia, se favorece da união cambial, uma vez que, em tese, dispõe de uma economia mais competitiva do que a de grande parte de seus vizinhos. O ponto é que mesmo assim, o país registra déficits comerciais e ele nem ao menos consegue reproduzir o modelo parasitário alemão - de se favorecer do câmbio para se tornar uma potência exportadora dentro da Zona do Euro e que, na hora da crise, abandona seus clientes à própria sorte lhes negando crédito para não se comprometer. 

Isto é, ter aceitado a valorização do Euro frente ao Dólar, junto de Berlim, não fez nenhum sentido para a França: ainda que o problema seja maior do que isso, o Euro supervalorizado é tão nocivo para a França quanto o é para Portugal e Grécia. Pior, ter tentado equilibrar as contas do país, agravadas pelo processo anterior, às custas de cortes no sistema de bem-estar só agravaram a situação de seu governo - como no caso dos mega-protestos contra o aumento da idade para a aposentadoria.

Quando Hollande apresenta um programa social-democrata contrário à austeridade, ele não está sendo irresponsável e os franceses sabem disso: as causas que forçam à austeridade dentro da Europa não são fenômenos naturais, eles têm a ver como a própria União Europeia se posiciona de forma torpe à farra dos EUA nos últimos anos - gastando horrores com guerras estúpidas e repassando seus custos para a comunidade internacional com a desvalorização do Dólar, além da emissão de moeda - e o comodismo alemão, que não precisa comprar briga nenhuma, uma vez que mesmo nesse cenário, Berlim continua a se manter estável pelo comércio intra-europeu.

Não há nada inovador em Hollande, mas é justamente isso que desestabilizaria o estado de coisas europeu atual: com a política externa francesa clássica, que une desde gaulistas e ultranacionalistas a socialistas e comunistas, boa parte do experimento que Merkel levou a cabo não teria sido possível. Se estiver disposto a confrontar isso, e ele parece realmente estar, Hollande terá o apoio firme mesmo de setores que não o apoiaram no Segundo Turno e, por tabela, considerável tranquilidade interna durante seus primeiros anos de mandato. Se conseguir uma inesperada virada, Sarkozy estará, mesmo assim, sob forte pressão desde o primeiro dia de governo e poderá ter tido uma vitória de pirro. Em resumo, o peso sem igual na política alemã.

Ainda é preciso considerar que Hollande teria algo bastante importante a seu favor (e, em sentido oposto, seria um grande problema para Sarkozy): a esquerda é majoritária no atual Senado francês, com 168 de suas 348 cadeiras contra 132 da direita e 41 do centro - mais 7 cadeiras de independentes. No mais, ainda que a composição da Assembleia Nacional (AN), na atual XIIIª legislatura, seja hostil à esquerda, é fato que a tendência aponta para a perda considerável das cadeiras por parte dos conservadores, com ou sem vitória de Sarkozy. 

Confirmando-se a derrota do atual presidente, é muitíssimo provável que a esquerda parlamentar se torne majoritária na AN em Junho deste ano, a despeito da boa votação da direita nas presidenciais, uma vez que são duas eleições com caráter bastante diferente (o próprio comparecimento nas urnas, em eleições parlamentares, é bem menor do que nas presidenciais, além de ser influenciado por elas, por isso Sarkozy gozou de um apoio na AN proporcionalmente maior do que os votos que ele recebeu para Presidente).

Essas eleições exprimem, como todas as mais recentes na Europa, uma insatisfação generalizada, uma angústia total que resulta desde uma linha de fuga nomádica, como se vê com as acampadas por toda a Europa, até o seu inverso, com o crescimento de movimentos nazi-fascistas - e essa polarização fica clara com o tamanho da votação somada da extrema-direita e da extrema-esquerda na França, de quase um terço dos votos válidos. 

Na prática, esse processo tem levado a trocas de governos de centro-direita por governos de centro-esquerda - ou o contrário, conforme a situação -, embora no caso islandês a volta da social-democracia ao poder depois de 30 anos tenha se verificado pelo aprofundamento de sua agenda e, no caso húngaro, tenha radicalizado a direita parlamentar para o canto extremo.

A conjuntura europeia atual, sem dúvida, encontra maiores semelhanças com os anos 30 do que com 68, embora o devir-68 presente no modo como os movimentos sociais resistiram talvez esteja fazendo a diferença porque, até agora, em larga escala, o único caso verdadeiramente preocupante é mesmo a Hungria. No que toca à 68, não resta dúvida que a França foi seu centro de irradiação para todo o mundo - e talvez a última vez que o tenha realmente sido -, mas ali, as mobilizações multitudinárias não conseguiram nem construir uma alternativa ao sistema representativo, nem produzir uma alternativa por dentro dele de forma imediata. 

1968 serviu para atestar o quanto o Partido Comunista Francês era obsoleto no campo canhestro e jogar, nos anos que se seguiram, o país um pouco para a esquerda - o que, na prática, resultou na reorganização das forças social-democratas do país em torno da figura do atual Partido Socialista, cujos frutos foram verificados, sobretudo, a partir de 1974, sob a liderança de Mitterrand - que só venceu em 1981 pelo impacto de médio prazo de 68 sobre a cultura e o modo de vida franceses, potencial que, no entanto, ele não foi, nem poderia, ser capaz de extrair no grau necessário.

No atual cenário, os socialistas franceses foram capazes, à sua maneira, de compreender e absorver mais rápido as demandas do atual ciclo do que no final dos anos 60 e, atentem para isso, sem cometer os mesmos erros dos gabinetes da Frente Popular nos anos 30, que terminaram por se isolar frente à sociedade francesa - o que colaborou para o avanço do fascismo no país. Naturalmente, Hollande não é Mitterrand, cuja figura só pode ser comparada a De Gaulle na política francesa do século 20º, mas ele sabe disso e não pretende sê-lo - ao contrário de Lionel Jospin, cuja liderança entre os anos 90 e os anos 00 resultou no maior ciclo de trapalhadas da história do atual PS.

A questão que se põe, entretanto, é a problemática que restou em aberto no final dos anos Mitterrand, isto é, qual o potencial que a social-democracia ainda tem como ente transformador para melhor da vida - agora, agravada pela complexidade trazida pela emergência dos novos sujeitos políticos como a multidão e o precariado. Como bem observa Antonio Negri, o próprio Mélenchon - cujo papel nessa eleição, a meu ver, foi central para uma reforma programática no campo comunista e filo-comunista da esquerda francesa -, ainda assim não deixou de exprimir essa mesmíssima limitação.
   
Se a atuação da esquerda, na França ou aqui mesmo, depende cada vez mais de uma movimentação nem institucional, nem não-institucional, mas sim transversal e em rede - coisa que a direita, ao seu modo, já aprendeu há décadas -, a provável vitória de Hollande precisa ser vista com necessário desapego: ela será sim uma vitória da esquerda apesar de suas limitações - e não precisa ser comemorada efusivamente, tampouco desprezada, uma vez que se ela não se constitui em uma grande saída por si só, ao menos produz linhas de fuga cruciais neste momento em que a Europa, sete décadas após o auge do fazer morrer na forma do nazi-fascismo, assiste ao ápice do deixar morrer na forma das políticas de austeridade conduzidas por Merkel.


domingo, 22 de abril de 2012

Conexão Brasil-França: Notas sobre um Mundo que se Encontra

Sarkozy e Dilma na ONU - Ricardo Stuckert
Neste dia chuvoso de Abril, duas notícias sobre a grande cena política chegam até nós: a primeira trata do fato de que Dilma Rousseff bateu novamente o recorde de aprovação presidencial no Brasil, a outra  fala que François Hollande está registrando uma vitória mais apertada no Primeiro Turno das eleições presidenciais francesas e, a julgar pela boa votação de Marine Le Pen, ele terá uma certa dificuldade em um Segundo Turno para o qual, entretanto, ainda é favorito.

Dilma é um fenômeno assentado na popularidade herdada por Lula, pelo momento relativamente bom que vive o país e por não representar, pessoalmente, a ameaça que seu antecessor se afigurava junto à classe média tradicional do sul-sudeste. Ainda, Dilma vive uma situação curiosa: ela alterou, sem muita cerimônia, alguns vetores importantes do modo de fazer política do governo Lula como, por exemplo, a relação com a grande mídia - que antes era de confronto, agora é de aliança como Palocci defendia - e com os movimentos sociais e ativistas em geral - que foram colocados na berlinda. 

Com isso, Dilma agrada quem simpatiza com o PSDB e mesmo quem votou em Serra, enquanto, pela falta de uma oposição consistente à esquerda, ela não tem perdido essa fatia do eleitorado - que é precisamente a mais fiel ao PT em termos históricos, mas que não está tão satisfeita assim e ainda é saudosa de Lula. Dilma agrada tucanos e desagrada petistas porque acha que já tem os segundos e precisa pregar para não-convertidos, além de, também, suas convicções pessoais - que passam por um asceticismo gerencialista.

Também não é de se ignorar a má relação de Dilma com os intelectuais: se FHC, intelectual de cátedra, só agradava sua patota - não era de se estranhar, dificilmente um intelectual no poder faria o contrário - Lula, político nato e não-intelectual, ouvia a todos, os fazia sentir ouvidos e fagocitava-lhes o que lhe interessa e só não teve relações com os intelectuais que o rejeitavam. Dilma é diferente porque não é intelectual e tampouco é política nata, não está disposta a afagar o ego de ninguém e confunde ouvir os outros com indulgência: manda de forma centralizada e deixa isso claro. 

Os intelectuais estão em choque: qual o seu papel diante de um governo muito popular e que não os ouve? O governo Dilma torna-se, assim, um fenômeno tão preocupante quanto exótico nascido no meio da disputa que mobilizou o Brasil nas últimas duas décadas. Ironicamente, o desintelectualismo falsamente atribuído a Lula pela pequena burguesia encontra, na verdade, sua forma acabada em Dilma e junto disso recebe aplausos das camadas médias.

Na distante terra francesa, o pêndulo move-se em direção contrária: em um país, ao contrário do que o imaginário esquerdista brasileiro supõe, tendente à direita, o governo altamente desmoralizado de Sarkozy ruma para a perda de uma reeleição que poderia ser tranquila, embora boas doses de xenofobia ou mesmo do tradicional conservadorismo brando francês lhe garantam o Segundo Turno. Hollande, seu opositor e possível vencedor do Primeiro Turno, é morno, mas ousou mais do que os socialistas ousaram desde o primeiro Mitterrand e a coalizão com os comunistas. 

As estrelas dessa eleição francesa, no entanto, não são nem Sarkô, nem Hollande: são Marine Le Pen, candidata da extrema-direita francesa e sucessora política de seu pai, Jean Marie, e o esquerdista Melénchon que com sua Frente de Esquerda tentou recuperar o espírito da velha Frente Popular. Juntos, eles somaram quase um terço dos votos, enquanto os dois primeiros colocados sequer chegaram, com sua votação somada, a metade dos eleitores. 

Marine, no entanto, ilustra também um voto difuso de insatisfação com a União Europeia, justamente por isso, uma parte de sua votação - estimada em 25% - migrará para Hollande, enquanto o mesmo não pode se dizer dos eleitores de Melénchon que majoritariamente devem votar em Hollande, ainda mais com seu candidato declarando apoio incondicional e sem contrapartidas a uma cruzada anti-Sarkozy.

Já o centrista François Bayrou tende a ser o fiel da balança, mas seus votos devem se repartir quase que perfeitamente entre os dois candidatos e a abstenção, o que dá, no fim das contas, vantagem moderada - e, para falar a verdade, pouco segura - para Hollande. Em termos práticos, um governo Hollande abalaria os alicerces do atual consenso europeu justamente porque seria um governo tradicional de centro-esquerda francês - e por tradicional entenda-se nacionalista e pouco disposto ao alinhamento automático com os EUA e, por tabela, com o governo Merkel em Berlim que lhe serve de tarefeira. 

Basicamente, uma vitória da centro-esquerda francesa, que pouco tem a ver com a experiência petista e mais com com a experiência tucana - que, no entanto, se endireitou -, favorece ao Brasil e aos países pobres apesar do eventual protecionismo: hoje, a maior ameaça é, sem dúvida, os efeitos dessa governança tecnocrática voltada para o mercado financeiro, em relação ao qual Sarkozy é a pedra de toque, por mais que o protagonismo aparente caiba à Alemanha - e isso é suficiente para que, no íntimo, Brasília prefira um socialista em Paris ao atual mandatário, com quem tanto Lula quanto Dilma nutrem boas relações.

Seria uma vitória para a diplomacia de Dilma, que já se pegou às turras com Merkel: mas a pendenga aí teve menos a ver com o jeito de fazer política e tanto mais com a direção do projeto. E Hollande, ainda que acene para uma direção de oxigenação da política, não pertence a um partido historicamente disposto a isso - coisa que Melénchon pareceu ser, depois de décadas de paralisia mental da esquerda francesa, presa entre o estupor filo-stalinista do PCF e o tecnocratismo pequeno-burguês do PS, coisa que só Mitterrand furou levemente.

Enquanto o mercadismo implode, o Plano, repaginado, volta à ordem do dia como possível novo paradigma do Programa. É o que está em jogo por aqui.


segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

A França e François

Hollande, pelo gerenciamento da dívida, contra Sarkô e Merkel
Há pouco menos de dois meses, François Hollande venceu as prévias do Partido Socialista Francês. Isso o tornou, imediatamente, o favorito das próximas eleições presidenciais de seu país, a serem disputadas já no primeiro semestre de 2012. Isso é parte do efeito dança das cadeiras, que é sentido em toda Europa, uma vez que os governos do momento estão sendo responsabilizados pela crise, embora tal processo se deva mais às semelhanças entre os partidos do que às suas diferenças.

E o governo Sarkozy, além disso, ainda é um prato cheio para a oposição. Ele possui todos os defeitos do governo Chirac com pouquíssimas de suas virtudes - leia-se: política externa, coisa que os franceses prezam muito, mas que Sarkô afundou com seu alinhamento automático aos Estados Unidos e sua postura tosca, ao lado de Angela Merkel, no gerenciamento da crise europeia.

A vitória de Hollande nas presidenciais poderia mudar a tônica da política europeia, pela possível saída da passividade artificial em que se encontram os franceses na atualidade. Nada indica que os socialistas, apesar de sua agenda rebaixada, irão à reboque dos alemães: aliás, os interessa salvar o Euro e eles sabem que, para tanto, precisam criar mecanismos de gerenciamento da dívida. Um debtfare? 

Sarkozy não consegue vislumbrar isso, enquanto Merkel, em seus rompantes sub-thatcherianos, assume uma posição de austeridade sistemática como se soubesse o que está fazendo, mas não está: a primeira-ministra alemã fica entre a impossibilidade de largar mão do Euro e a paralisia de fugir dele (ambas as hipóteses exigem uma virtù que Merkel não tem). Embora o plano B de retomar o Marco Alemão acalme a líder germânica, os franceses não tem essa opção em relação ao seu finado Franco.

Um outro governo que não seja alinhando a Washington, como Sarkozy é, não interessa a Obama - e o atual mandatário francês é um pássaro raro em seu país, seja à direita ou à esquerda.  Inclusive porque a tradicional política externa francesa é capaz de dizer não aos americanos, o que, caso se refira à desvalorização do Dólar sobre o Euro, pode fazer toda a diferença na crise atual.

Hollande, portanto, pode mudar o jogo não por lhe trazer algo novo, mas sim por ser um típico político francês de centro-esquerda - contando com uma historicamente atípica maioria no Senado para a centro-esquerda. Isso pressionará Merkel a mudar seus planos.

Mas a futurologia acaba no momento em que o Euro pode morrer, mesmo que queiram salva-lo, antes do novo mandato presidencial francês. E um agravamento da conjuntura russa, com severos impactos para o equilíbrio estratégico no Leste Europeu, Ásia Central e Oriente Médio não está descartado, simultaneamente a tudo isso. 

domingo, 27 de março de 2011

Crise Mundial: Reino Unido e Portugal

Manifestação gigantesca em Londres contra política de socialização de prejuízos - The Guardian

Ontem, quatrocentas mil pessoas saíram às ruas de Londres para protestar contra o plano anti-crise elaborado pelo governo britânico. O plano do gabinete do premiê David Cameron não passa de mais uma repetição da manobra mais batida entre manobras batidas do nosso tempo; cortam-se verbas para o financiamento de serviços essenciais como Educação e Saúde para cobrir um rombo cuja origem está nas próprias incongruências do sistema capitalista. Sim, o Capitalismo, como pontificou Marx há séculos, também tem seu movimento de sístole e diástole: O mesmo sistema que privatiza os ganhos socialmente produzidos é também aquele que socializa os prejuízos individualmente gerados - e isso é cíclico. 

No entanto, hoje, mais do que nunca, a Vida está posta em função do Capitalismo, o que só é possível pela existência de um Estado gigantesco que nos envolve a todos com sua política de exceção. Vivemos na era do cinismo em pessoa: O mesmo Governo Britânico, que está em guerra na Líbia por razões essencialmente imperiais - como o faz no Iraque e no Afeganistão há anos - também é o mesmo que alega não ter dinheiro para custear hospitais e escolas. Nada muito diferente da República Portuguesa que assistiu a queda do Governo Sócrates, há seis anos no poder, depois do Parlamento ter rejeitado um plano de recuperação similar ao refutado pelos britânicos nas ruas - embora aquele Parlamento não tenha decidido (e tampouco o fará) sair também da zona do Euro, o que faz com que aquela decisão seja apenas um capítulo do impasse na vida daquela república ibérica.

Se do lado português, a crise suscita a existência de um arranjo delirante do sistema europeu, constituído no fato de que países periféricos compartilham da mesma moeda usada por países como França e Alemanha, podemos dizer algo parecido do lado britânico: A bomba relógio monetária também aparece aqui, mas o faz na forma da superavalorização da Libra Esterlina. Para os países periféricos da Europa, o fato de  pertencerem ao sistema do Euro os torna dependentes de um ciclo de endividamento infinito possibilitado por um sistema de crédito com limites - para não verem suas contas explodirem imediatamente pelo déficit em conta corrente via balança comercial, aqueles Estados foram se endividando massivamente nas últimas décadas, mas pelo jeito a corda estouro. 


Já o Reino Unido, a pátria do eurocetismo, mesmo que não tenha entrado na Zona do Euro, também caiu numa arapuca monetária - aliás, a peculiar arapuca monetária *e cambial* britânica é o que explica o país não ter aderido à moeda comum europeia; falo aqui da maneira como a economia britânica se tornou mais e mais financeirizada, criando uma elefantíase do mercado de seguradoras, o que fez com que seguidos gabinetes mantivessem uma moeda incrivelmente valorizada, fato que somado aos custos das guerras nas quais o país se envolveu, gerou um rombo incontrolável nas contas do país. É preciso cortar em algum lugar, mas o que fazem, diante disso, os líderes britânicos e portugueses? Cortam verbas que iriam para hospitais e escolas. 

Nada muito diferente de líderes alemães e franceses que, enquanto motores do sistema monetário europeu, se acham profundamente espertos ao jogarem todo o ônus da crise sobre os seus vizinhos mais pobres, fechando as torneiras do sistema de crédito que eles próprios apresentaram aos portugais e grécias da vida como a garantia inabalável - e inesgotável - de viabilidade do Euro  - como se isso pudesse evitar uma contaminação sistêmica, via Euro, causada pela provável quebradeira geral que se avizinha no horizonte.

Isso, claro, sem falar em como a crise social e política na periferia da Europa irá lhes afetar. Não à toa podemos dizer que essa é, seguramente, a mais limitada geração de líderes europeus desde os anos 3o, algo sintomático em um momento no qual os partidos estão engessados na mais pura falta de criatividade e desconexão com a realidade social - a crise da esquerda partidária europeia está aí para nos provar isso. Ou a Europa produz novas saídas políticas - e Ed Miliband é uma esperança no Reino Unido - ou irá ser engolida pela crise. A implosão da União Europeia que se desenha é dos mais graves eventos que se pode conceber.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

1968 e as Olimpíadas da Paz

O ano era 1968 e irrompiam protestos de canto a canto do Globo. Uma geração inteira de jovens, nascida no pós-Guerra, se via tomada por um furor revolucionário que se espalhou como um efeito dominó por todos os lados. Nos EUA, a luta pelos direitos civis seguia firme e forte atingindo seu ápice - bem como a luta pelo fim da Guerra do Vietnã, cujo único significado era a própria crueza que lhe era inerente -; na França, os jovens partiam para o confronto contra uma patética reforma educacional que nada mais era do que a ponta do iceberg da esclerose do Gaulismo tardio - e só o início dos problemas -; do outro lado da Cortina de Ferro, as multidões se debatiam sob o sol primaveril de Praga por um Socialismo com face humana; no Brasil, nos víamos sitiados por uma Ditadura Militar implementada em meio ao transe geral - que se consolidava lentamente - e a reação tardia e desorganizada daquele momento, como sabemos, não foi suficiente para deter seu recrudescimento logo em seguida.


Um fato que passa desapercebido sobre 1968 é que ele também era, vejam só, ano olímpico e em sua sede, aliás, as coisas não foram muito diferentes: O Governo Díaz Ordaz - mais um da nefasta tradição do priismo que governou aquele país por 70 anos - gastara uma fábula para que a Cidade do México fosse sede daquelas Olimpíadas e seguia, por conseguinte, firmemente uma política de cerco aos movimentos sociais e às liberdades individuais - o álibi era a realização do espetáculo, mas a medida que se apertava, as inquietações aumentavam e ao passo que isso acontecia, se justificava mais aumento do cerco. A opressão a serviço do espetáculo global e um espetáculo global a serviço da opressão. Assim, a democracia de partido único do México seguia seu ritmo, multipartidarizando-se mais tarde, mas sem perder seus trejeitos.

Exército Mexicano na Praça do Zócalo
As coisas pioraram com a chegada das Olimpíadas em Outubro, os protestos estudantis ganham força até o episódio da Praça das Três Culturas, de triste lembrança, que ficou gravado na História como o Massacre de Tlatelolco: Milhares de jovens, há poucos dias da cerimônia da abertura, se reuniram para o maior protesto desde então. Eis que franco-atiradores instalados no alto dos prédios abrem fogo contra a multidão, matando um sem número de manifestantes - cujos corpos foram simplesmente desaparecidos, talvez  jogados ao mar pelos militares - e milhares foram presos por tropas do exército. Tais eventos passaram em pune; dez dias mais tarde, Díaz Ordaz inaugura os Jogos Olímpicos de 1968, as Olimpíadas da Paz...

Existe muita coisa para se dizer aqui. Seja o significado de 1968 pelo mundo, um tema digno de uma série de posts - ou quem sabe de um blog inteiro - e o outro é a própria natureza dos espetáculos globais, o que eles demandam dos governos e o como eles servem de álibi para políticas de efetivação do próprio domínio deles sobre corpos e mentes: Como a urgência da sua demanda justifica ações violentas e como é possível o Poder brincar com a possibilidade de urgência para executar políticas das mais diversas naturezas. É como nos diz Murilo Duarte Costa Côrrea, com sua habitual sagacidade: Trata-se do argumento transcendente da necessidade inscrito no desejo, em outras palavras, o que faz com que o descalabro nem precise mais ser justificado, posto que suas premissas, já estão, há muito, naturalizadas no inconsciente da multidão. No Rio, sede das Olimpíadas a se realizarem em menos de dois anos, a política de pacificação se mostra como de extermínio - se é que poderia se mostrar de forma diferente -,  no qual, independentemente de qualquer política de combate ao tráfico - certa ou errada -, estamos diante de uma urgência que nos leva à guerra pelo controle territorial daquela maneira e, ao mesmo tempo, justifica uma política para as favelas - e aqui, o tráfico é álibi, não o alvo - que desejávamos há muito.

O sujeito histórico do militante estudantil sai de cena e entra o sujeito histórico do favelado rebelde. Ambos são elétrons livres que circulam, por diversos motivos histórico-culturais, fora do alcance da esfera de controle da Ordem. Em ambos os casos, um falso cosmopolitismo, iluminista e autoritário, faz uso de um de seus principais espetáculos para representar uma confraternização universal que não passa, vejam só, de normalização universal a serviço do processo civilizatório, com a Paz como grande significante vazio a nos assombrar em seu altar - a paz perpétua pela vigilância e guerra perpétua. O caminho que seguimos não é animador, as chances que temos de escapar é a subversão da ordem posta e, nesse sentido, o Governo petista que ocupa o poder há oito anos significa, quem sabe, um ponto de fuga à desdita (quase) certa: Entre seus trancos e barrancos, nenhuma força política conseguiu concretamente subverter o funcionamento histórico de uma verdadeira máquina (cordial) de segregação como o Estado brasileiro com ele. Conseguirão os petistas no poder escaparem à miopia racionalista que ainda os purga para, eles mesmos, não se sujeitarem aos desmandos da sujeição alheia? Em outros palavras, a aparente vitória petista de trazer as Olimpíadas para o Brasil se assume como o seu maior desafio, como não se deixar usar pelo clamor das massas que deliram seus Díaz fictícios ou reais?