![]() |
| El Baradei na Praça da Libertação - Al Jazeera, tirada do live bloggin do Guardian |
O Egito segue agitado, milhares de manifestantes continuam, neste exato momento, na Praça Tahrir - curiosamente, a Praça da Libertação -, o centro nevrálgico do Cairo, onde ficam o Museu Egípcio - que foi depredado no tumulto -, a sede do partido da ditadura - agora, felizmente, os destroços dele - e a sede da Liga Árabe, entre outros edifícios proeminentes. Eles exigem a renúncia do Ditador Hosni Mubarak, passo essencial para a democratização do país - e Mubarak, aliás, é alguém que está no poder desde que o General Figueiredo era nosso Presidente, portanto, muito antes deste humilde redator nascer e o mesmo, suponho, vale para a maior dos leitores deste blog. Na noite de sexta, Mubarak praticamente coordenou seu pronunciamento oficial com o de Obama em Washington (e o "praticamente", aqui, é um eufemismo diante de toda essa farsa): Sua fala, diversionista, defende seu governo, traz a promessa de endurecer com os manifestantes - como se isso já não estivesse acontecendo -, enquanto o discurso de seu aliado, Obama, passou por genéricas reformas democráticas e pela defesa dos direitos humanos (tudo isso em relação a uma Ditadura esclerosada que ele não deixou de conceder uma ajuda militar bilionária durante os mais de dois anos de seu governo).
Até agora, a única reforma democrática que vimos foi a risível nomeação de Omar Suleiman para vice-presidente (cargo até então inexistente), a típica coisa que por qualquer lado que se olhe é completamente absurda: Como bem anota Robert Fisk, trata-se do septuagenário chefe do serviço secreto egípcio, contato-mor com Israel, em suma, uma atitude que além de não ajudar a Ditadura em nada, ainda põe mais lenha na fogueira das manifestações, dado o fato dele ser uma figura naturalmente odiada no país. Por outro lado, aportou no Cairo, Mohammed ElBaradei, Prêmio Nobel da Paz em 2005 e ex-diretor geral da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), cuja atuação naquela organização foi marcada por ter denunciado que os documentos que diziam que o Iraque adquiriu armas nucleares eram falsos - o que, naturalmente, causou toda uma animosidade com a administração Bush, embora suas posições passem ao largo de serem anti-ocidentais. Sua presença na própria Praça Tahrir conclamando as massas a continuarem o que começaram é mais um importante fator de pressão - ElBaradei é uma voz respeitada dentro do Egito -, o que, junto com a presença de veteranos da Guerra de 67 contra Israel nos protestos, gera um clima de pressão enorme, sucedido inclusive pela convocação de uma greve geral no país. Apesar dos riscos todos e da imprevisibilidade dos eventos, é fato que a ditadura Mubarak foi ferida de morte, a questão é que sua queda o mais breve possível é importante para a concretização de um regime verdadeiramente democrático ao contrário de uma saída gatopardiana - que deve estar na cabeça dos estrategistas de Washington e que estava na fala de Obama. A julgar pelo engajamento massivo da sociedade egípcia, as chances de uma saída secular e, ao mesmo tempo, autônoma aumentam consideravelmente - nesse sentido, ElBaradei pode ser uma chave importante.
Os atuais eventos no Egito e no Mundo Árabe, aliás, são um atestado de que a ofensiva imperialista americana iniciada por Bush Filho em 2001 - e mantida inercialmente por Obama - entrou em colapso. Se a política externa americana estreada no Congresso Berlim-África (foto) de 1884 - primeiro fórum internacional de relevo do qual os americanos participaram - era caracterizada por feições peculiares - o controle de pontos estratégicos de acesso para mercados no lugar do controle de enormes territórios e populações e, também, a dominação indireta por meio de aliados -, isso não quer dizer que ela deixava de ser uma espécie de Imperialismo, embora isso também não seja igual ao que é tocado há dez anos: Essa política externa americana tradicional só foi reforçada por Roosevelt, mas é Bush Filho que irá altera-la, lançando-se em uma ofensiva direta e belicosa pelo Oriente Médio - talvez ressentido pela forma como o imperialismo americano tradicional não conseguia reverter uma curva onde a economia americana perdia importância relativa ao Globo. Isso pouco tem a ver com o 11 de Setembro, não custa lembrar que das primeiras atitudes de Bush foi bombardear o Iraque ainda em 20 de Janeiro daquele ano, portanto, bem antes do atentado em Nova Iorque. Seja como for, Bush e o establishment americano subestimaram a capacidade econômica do país e desequilibraram o sistema econômico mundial com esse movimento, o que, junto com a farra de desregulamentação do sistema financeiro e certas idiossincrasias do Capitalismo - a saber, o velho problema da realização do valor - causaram a atual guerra. A ascensão chinesa, a desvinculação da maior parte dos países latino-americanos da sua esfera de controle e, por fim, o desabamento das ditaduras mediante as quais ele controla o mundo árabe são sinais claros de que ou essa insanidade é cessada agora - em prol da construção de mecanismo multilaterais efetivos - ou os EUA assistirão ao agravamento de seus problemas econômicos e políticos nos próximos anos - quem sabe, levando todo o mundo junto.
P.S.: A Internet segue controlada no Egito, enquanto isso, a Al Jazeera (que está dando um show de cobertura) teve seu sinal cortado no Egito assim como repórteres da Telesur foram expulsos do país.

