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quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Esquerda Caviar, Direita Fast Food

Junk Food People -- Joe Maccarone
Essa conversa de "esquerda caviar" é o cúmulo da infantilização do debate político-ideológico. E eis que agora ela voltou à cena, com o termo sendo empregado pelo douto magistrado paulista, e professor, Marcelo Matias: ocorreu, pasmem, na decisão que negou a soltura de Fábio Hideki e Rafael Lusvargh, os dois ativistas presos sob falsa acusação de porte de explosivos em uma manifestação -- falsidade que nem a Folha de São Paulo, em editorial, ousou discordar. 

Mas voltemos ao nosso pálido espectro. Embora cá no Brasil a ideia de "esquerda caviar" tenha sido, recentemente, popularizada por Rodrigo Constantino -- um jovem inseguro e "liberal", que aparece aqui neste vídeo, levando uma surra homérica num debate com Ciro Gomes --, ela tem uma origem mais antiga. Aparece, segundo se sabe, na França, saindo da boca dos detratores de 1968, os mesmos que atacariam logo mais o governo Mitterrand -- contra o qual se voltavam, sobretudo, por sua política interna pró-direitos civis e direitos humanos: mas isso vinha tanto dos direitistas fanáticos quanto da esquerda (euro)comunista, a qual não se conformava com os desvios "burgueses" e a política "mole" do líder francês. Contra a política praticamente neocolonial mantida pelos socialistas em África, nem um pio. 

O deboche da "esquerda caviar" sempre foi uma espécie de pacto Ribbentrop-Molotov das bravatas: unia fascistas e stalinistas na mesma estranha, e boçal, aliança. O termo, apesar do tom aparentemente bem humorado, esconde uma visão persecutória e criminalizadora: sempre se voltou a deslegitimar os setores da esquerda democrática, libertária e adepta da virada cultural dos anos 1960, vinculado-os ao fantasma de sua eventual origem de classe -- o que nem sempre é verdade, aliás. 

E também atentava contra algo muito presente no pós-68: o desejo de ter, o desejo de desejar, atacado pela falácia implícita na fórmula esquerda coerente = estar na/cultuar a pobreza. Esses novos esquerdistas seriam "desocupados" que abraçam causas que não lhes dizem respeito, cabendo aos trabalhadores se afastar deles para "não se meterem em problemas", "não entrarem na onda de gente louca, inconsequente e irresponsável"

Não é de se espantar que esse mesmo discurso tenha unido a direita aos stalinistas, ou equivalentes, naquele momento e ainda hoje. A ditadura do economicismo em suas faces direita e esquerda. O reaparecimento do espectro da "esquerda caviar" foi visto, recentemente, quando alguns velhos amantes do eurocomunismo no nosso país, como Mino Carta e Walter Maierovicth, se usaram dele para desqualificar os defensores da não-extradição do ativista italiano Cesare  Battisti -- extradição a qual era reclamada pelo Estado italiano, que o condenou anos antes, com poucas provas, num clima da caça às bruxas lamentável. Entre a perseguição italiana e o refúgio no Brasil, coincidência ou não, Battisti esteve abrigado por décadas na França, enquanto vigeu a doutrina Mitterrand. 

Do ponto de vista do seu uso pela direita neoliberal, temos o livro de Constantino que nem na sua grande criação conseguiu ser original: a reedição da "esquerda caviar", pronta à pretensa desqualificação pública de setores acadêmicos e médio-classistas que atacam o "pensamento único", os quais seriam contrastados com a massa "trabalhadora", "de bem" e "boa pagadora". E isso se transforma até mesmo em fundamento judicial para manter ativistas presos: ora, se são uma "esquerda caviar", não merecem perdão ou devido processo legal. O deboche -- o humor duvidoso empregado contra minorias, oprimidos e fragilizados -- surge como uma hiena cumprindo sua função punitivista.

Se houvesse alguma honestidade nessa falácia, se isso se tratasse de um auto-engano ou desconhecimento teórico, poderíamos citar Reich e sua lembrança preciosa de que libertação e opressão não são uma pontos objetivos, mas sim itens ligados à posição desejante, pois não é o fato objetivo da carência que impele nenhuma revolução: fosse assim, os trabalhadores fariam greve sempre, ou os pobres sempre  se rebelariam, e os ricos estariam todos satisfeitos. Ou que não é errado ter bens de consumo, ter ou não ter algo de sua época, é fruto de escolhas pragmáticas e não-egóicas, não uma questão moral -- inclusive porque se fosse, nenhum anticomunista poderia utilizar serviços que dependem de satélite, uma invenção socialista. Mas, volto ao ponto levantado, a história da "esquerda caviar" não é séria.

A falácia disso reside em várias coisas: se ser de esquerda é incoerente para quem não é pobre ou trabalhador, por que então fazer greves, questionar o poder ou se rebelar nunca lhes foi permitido? E como a origem de classe de parte da nova esquerda deslegitimaria, a priori, sua voz em relação a qualquer tema? E quem é pobre e deseja desejar, como fazer? E por que alguém que come caviar precisa se sentir satisfeito com a sociedade em que vive? Ou, afinal de contas, por que não podemos comer, ou desejar, caviar?

A coerência de uma esquerda não se mede pela origem de classe, hábitos em si ou trejeitos que possa ter, mas sim pela sua coragem, capacidade e força para assumir, de um bom grado, muitas dores que permeiam nossa sociedade e lutar para pôr fim a elas. Lutar pelos negros sem ser negro, lutar pelas mulheres sem ser mulher, lutar pelos estudantes apesar de ser estudante. Não, não há nenhum problema em não ser egoísta, não temos porque ser vítimas dessa má consciência primária. Lute por Hideki porque ele lutou por você -- o que é mais pura verdade.

Mas o que essa nova direita teria a nos oferecer senão, para manter aqui as referências culinárias, um grande fast food: essas pastas de gordura, pseudo-carne, sódio e açúcar prontas a serem devoradas rapidamente -- para que possamos, afinal, trabalhar --, nos fazendo a um só tempo diabéticos, hipertensos, com as veias entupidas, obesos, obedientes e ansiosos. Escravizados por uma comida cujo gosto simplório só agrada, em verdade, ao paladar infantil ou infantilizado. Combustível perfeito para nos tornar seres bovinos no comportamento e na aparência, embora sem direito à mesma dieta saudável que os bois têm nos pastos. E o que a esquerda da realpolitik tem a dizer senão que é prudente se aliar a isso?

Fiquemos com o caviar, os bons vinhos, a boa comida, a arte, a literatura, o devido processo legal, os direitos civis e os sonhos -- sabendo que tudo isso é bom, mas melhor ainda se repartido. Contra o rebaixamento dos gostos, da estética, da linguagem, enfim, esse mundinho pequeno, kitsch e desprezível no qual nos querem prender -- que no fim das contas, é a verdadeira prisão. Esquerda caviar sim, com muito orgulho: boa comida não entope artérias.



sexta-feira, 6 de abril de 2012

Dilma 77 e o Outono Frio

Folhas de Outono - Millais
77% de aprovação, esse é o número - recorde, por sinal - de Dilma Rousseff depois de 15 meses de governo. Ainda longe da aprovação deixada pelo seu antecessor, Luiz Inácio Lula da Silva, mas à frente dele no mesmo período de governo, Dilma governa de um modo próprio e alheio à tradição petista, como já enfatizamos: busca distender relações com a mídia de massa, deixando de lado a relação com ativistas (alguns históricos aliados do Partido dos Trabalhadores), além de articular com toda sorte de setores, alguns dos quais antagônicos à esquerda. O clima político de normalidade absoluta - e normalização suprema - cria um clima político de outono frio.

Se, por um lado, militantes - ambientalistas, midialivristas ou pró liberdades civis - se encontram na berlinda, a direita parlamentar compõe o governo desde que aceite suas regras - mas não há mais espaço para antagonismos capitais. A (justa) pressão sobre Demóstenes Torres, senador demista e estandarte da oposição desde o primeiro governo Lula, é uma mostra disso: para além das pantomimas que o governo pode ensaiar no parlamento, em nome do consenso, na prática, não há mais espaço para destoar tanto.

E a queda de Demóstenes leva por tabela todo o DEM junto - o mais ressentido e conservador partido anti-lulista, rachado ainda pela manobra do prefeito paulistano Gilberto Kassab que calhou no PSD, fisiológico por natureza. E pelo meio é que se estrutura a governança do Novo Brasil, no qual velhos caciques precisam virar cristãos novos para sobreviver. E Demóstenes é figura para lá de marcada, inclusive pela forma como sua relação com o inefável Carlinhos Cachoeira tem ligação com os ataques iniciais (e pesados) ao governo Lula. 

Nesse ínterim, a oposição está paralisada. Seja ela à esquerda - seja a velha extrema-esquerda  - ou à direita  - o bloco oposicionista além de reduzido nas últimas eleições, está debandando e o que resta está sob ataque e dividido. Dilma tem uma popularidade alta porque seu governo, embora não venha alcançando altas taxas de crescimento, leva a cabo, por inércia, a política de distribuição de renda e ampliação do mercado interno deixada pelo seu antecessor, o que deixa no ar a sensação térmica de empenho na justiça social. Sua origem de classe e sua postura, por sua vez, abranda maiores oposicionismos vindos da classe média.

Não resta dúvida que o campo aberto deixado ao fim do governo Lula lhe dava possibilidades maiores, mas o caminho escolhido é o fogo brando do cordialismo, a moderação sóbria e o inercialismo frente ao legado que herdou - que ela repete dando fôlego ao seu aspecto social-desenvolvimentista. Não existe uma força política com uma agenda sólida, e disposição para fazer incursões na massa, capaz, neste momento, de lhe fazer frente. A postura da esquerda libertária, ainda que tenha em mente como horizonte de atuação a produção de subjetividade, o devir-multidão e a atuação transversal, não consegue pôr isso em prática, seja pela falta de densidade no seu próprio campo ou por suas dificuldades estratégicas. 

Embora as eleições municipais não sejam determinantes no plano federal - o PT ganhou a Presidência da República em 2002 com pouquíssima prefeituras -, um mau resultado da oposição pode fazer toda a diferença para sua sobrevivência - mas se há uma disputa realmente pungente é a de São Paulo, na qual José Serra enfrenta o ex-ministro da educação Fernando Haddad, enquanto o agora governista Gabriel Chalita também tem uma candidatura competitiva (em outras palavras, é o que resta da oposição contra o PT e também contra o governismo não-petista).

No mais, em uma das melhores sacadas da blogosfera este ano, o Sensho fez uma belíssima observação do que a esquerda deveria aprender com os evangélicos: sim, baixemos a bola da nossa petulância, a esquerda que tanto fala em plebe, reclama das desditas da história e fala em becos-sem-saída esquece o fenômeno espantoso de crescimento da religião evangélica pelo país nos últimos anos; será que é tão impossível assim chegar às massas e trabalhar junto com elas? Por que há tantas igrejas evangélicas e tão pouca esquerda pelas periferias?  É essa a condição necessária seja para uma mudança de rumos do governo Dilma ou para estabelecimento de uma alternativa para ela no médio prazo.



quarta-feira, 13 de outubro de 2010

A Esquerda e o Tempo



Recapitulemos
. Quem tem seus sessenta anos, hoje, recorda sua juventude dura sob o anos de chumbo. Quem tem seus cinquenta, lembra da distensão e da abertura lentas - quase inalcançáveis -, talvez uma fagulha de liberdade no horizonte expresso na beleza das Diretas que logo se desmanchou no ar. Quem tem seus quarenta anos assistiu a dureza que foram os anos Collor, quando todo o esforço por democratizar este país - que milagrosamente deu em algo como a Constituição de 88 - viu-se estatelar-se na parede após uma eleição direta que elegeu um fantasma do meio-dia, títere entre títeres, destinado a ser o instrumento - com a face simpática que os tempos novos exigiam - do grupo abjeto que governava esse país pelo menos desde 64. Quem tem seus trinta, lembra-se do que foi entrar na fase adulta em uma época na qual a exploração dava lugar à pura e simples exclusão em um país que se desmanchava. Quem tem seus vinte, como eu, está a viver em um momentos duros do início do Governo Lula, nos quais, a realidade se impunha de maneira dura frente ao recém-eleito governo democrático e popular, forçando-o a tomar atitudes duras, que ora eram é o remédio amargo que a situação demandava e ora eram o mero exercício de surrealismo político de estrategistas que passaram tempo demais em seus ideais.

A minha geração é a primeira na história deste país que assiste ao choque do que seria a tentativa de implementar um governo de esquerda. O impacto desse choque, já sentido na Europa e mesmo em alguns lugares da América Latina há tempos atrás, é o de experimentar o real e sua violência avassaladora no campo da Política. Não falamos mais do que poderia ser, mas do imediato do que pode ser. É ver as forças do poder instituído, que não são neutras - como pouca coisa é, aliás -, interferindo com todas as suas forças sobre o projeto que precisa ser consolidado, ora roubando-lhe as forças, ora o conduzindo para direções intoleráveis. A juventude do PT enquanto partido e, sobretudo, a ética idealista, de fundo católico progressista, que o envolvia tornou o processo particularmente mais duro - assim como a ansiedade por séculos de demandas não realizadas em decorrência de um sem número de movimentos transformadores derrotados. A história da reivindicação social no Brasil, é uma história de derrotas, gloriosas, mas ainda assim derrotas.


É verdade que o Brasil não está tão bom quanto poderia, mas também é verdade que ele nunca esteve tão bem quanto neste momento. O crescimento econômico, a distribuição de renda, os empregos, uma política externa que não se perde na vergonha da submissão nem nos desvarios do nacionalismo e, sobretudo, a quebra de certos dogmas sobre os quais se assentavam o modo de vida insustentável e excludente que alguns impunham como a miserável mão única são conquistas inegáveis - não diria, infelizmente, indeléveis, posto que as cortinas de fumaça da ideologia são capazes de tudo. Os ajustes finos, isto é, a consolidação dos direitos civis, a regulamentação da mídia - que está na Constituição de 88 por regulamentar -, a construção de uma doutrina firme que assegure a laicidade do Estado e até mesmo ajustes grossos como a questão da política agrária - em relação a qual a questão ecológica é imperativa neste momento - não foram mesmo feitos. O Governo do PT, seu aparente fracasso de início e seu renascimento como Fênix na forma de um nunca antes visto social-desenvolvimentismo, ainda que os ajustes dos quais pode se esquivar, não sejam mais possíveis - se é que em algum momento, foram. É uma história curiosa e bonita.


No ínterim entre esse movimento no interior do PT - e por causa dele - surge o PSOL, Partido Socialismo e Liberdade, que teve uma importância muito grande na minha vida, embora nunca tenha militado nele. Ele nasce no período da minha entrada na vida adulta e teve para mim - assim como provavelmente para toda uma geração de jovens esquerdistas que amadureciam sob o impacto do início do Governo Lula - um significado muito forte. Unir Socialismo e Liberdade, esses dois gêmeos siameses que a História - e o Poder - insistiu em separar impedindo que nem um, nem o outro se concretizassem, ser um modelo que superasse o sectarismo dos pequenos partidos da esquerda - "revolucionária" - que não dialogavam com os setores reais da sociedade e, ao mesmo tempo, não cair nos descaminhos do projeto petista frente ao poder hegemônico e, sobretudo, gritar - isso mesmo, fazer catarse - contra o estado de coisas da política nacional que parecia inamovível - o eterno entulho autoritário. 


A roda da História, entretanto, não pára e tampouco não deixa de nos pregar peças; Heloísa Helena, de uma Olympia de Gouges extemporânea - fiel a uma Revolução que não foi fiel a si mesma - torna-se apenas mais um dos ecos desconexos da cacofonia reinante naquele partido. De repente, a crítica à esquerda do caminho seguido pelo PT tornou-se uma obsessão em relação à figura pessoal de Lula, ao passo em que se mantinha inerte a direita que se reorganizava, seja na sua versão liberal-burguesa ou na sua versão popular, orgânica e obscurantista - esta sim, muito mais do que primeira, debaixo do nariz de Lula, o que passou desapercebido -, o que estranhamente conflui na candidatura do senhor Serra. Toda essa confusão, por óbvio, acabou por afastar-me dele. O PSOL repete os erros que surgiu para combater e nem mesmo a candidatura de Plínio de Arruda Sampaio, respeitável ancião e guerreiro da esquerda, muda essa trajetória. O PT prossegue como o partido de massas, o único partido a se pôr à esquerda do centro em nossa história a ter apelo popular, com ampla votação nas periferias. O projeto petista, cujo implementação produziu uma transformação real - e longe de ser pequena - nos últimos anos ainda segue como o mais efetivo nesse campo.


A despeito de toda confrontação, dissonâncias e a violência fratricida comum à esquerda - não apenas entre seus vários grupos, mas acima de tudo dentro deles mesmos. - não pode dar lugar, mais ainda, ao desprezo pelas nuvens negras que trovejam no horizonte. Os erros que conduziram a uma eleição discutida nesses termos - entre o continuísmo e o retrocesso - não podem ser repetidos e a esquerda não pode repetir o erro de se unir apenas na desdita, seja por ignorar os aspectos positivos desse momento ou por subestimar o que se avizinha. Um convite ao real não equivale a aceitar sucumbir à pasmaceira conservadora, mas um chamado a compreender os obstáculos - bem como as possibilidades - concretas do que está posto para não terminarmos numa bifurcação cujas saídas possíveis são apenas o Sonho ou, aí sim, a conversão definitiva ao estabelecido. E do surrealismo, só aceitemos a paranoia crítica.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Reflexões sobre o Partido dos Trabalhadores



No que toca o período imediatamente posterior à abertura da Ditadura Militar - lenta, gradual e segura como diriam seus artífices -, um ator fundamental começa a se delinear no horizonte político brasileiro: O Partido dos Trabalhadores. De debates entre variados setores da esquerda, resultou, em poucos anos, uma agremiação política que unia elementos das estruturas dos sindicatos do ABC, dos movimentos de chão de fábrica de São Paulo, das comunidades eclesiais de base, da intelectualidade, de pequenos grupos socialistas - vanguardistas ou não - e afins que constituíram o primeiro partido de esquerda com vínculos efetivos com a sociedade.

O primeiro grande debate que permeia esse partido é se ele deveria ser tático ou estratégico. Sobre isso, nunca se chegou por meio dos debates internos a uma conclusão clara. A resposta para tanto está em um dos pontos de virada na história petista que se desenha na esteira da derrota de Lula na campanha para governador do estado de São Paulo em 82; o sindicalista que parou o ABC no fim dos anos 70, sofre uma fragorosa derrota eleitoral e movimentações em torno da dissolução do PT no PMDB - ou mesmo no PDT - ganham força: O coro dos defensores da tese do PT enquanto partido meramente tático cresce e o ano que se segue é duro para o partido. Mas em 83 é escrito o documento que muda a história do PT e define os seus rumos: A Articulação dos 113, texto assinado pelo referente número de membros do partido - dentre eles, Lula - defendendo a continuidade da existência do PT manifestando-se contra a dissolução dele em "uma frente oposicionista liberal como o PMDB" ou àqueles que se deixam "seduzir por uma proposta 'socialista' sem trabalhadores, como o PDT"

Esse documento muda o funcionamento do partido ao longo dos anos 80; os signatários dele se tornam uma corrente dentro do partido assumindo-se como os petistas puros e surge aí um antagonismo com as correntes com identidade mais forte; a Articulação, por motivos óbvios, passa a controlar aos poucos as estruturas de um partido que a cada dia que passa vai se institucionalizando mais e mais. As causas para isso não se limitam às práticas políticas internas do partido, mas também ao próprio arrefecimento da Teologia da Libertação, o que atinge as alas católicas do PT, responsáveis principais pela política de base do Partido. Setores vanguadistas em sentido estrito são adestrados ou expulsos, mas lateralmente à sua organização enquanto partido de massas, vai se estruturando organismo burocráticos que trazem em seu cerne certa medida do vanguardismo e do dirigismo que alegavam combater.

Já no fim dos anos 80, quem dá as cartas no jogo na esquerda brasileira é o PT. O Antagonismo entre a Articulação e o resto do partido está resolvido com a hegemonia do primeiro; a questão agora é decidir quais os rumos que o partido seguirá; o PT, enquanto partido de massas, seguirá o caminho da revolução ou do reformismo? É nesse clima de intenso debate interno que o partido vence as eleições em uma série de municípios importantes e que disputa a Presidência da República com reais chances de vencer. Enfim, Trata-se daquilo que o velho Maurício chamou de o Dilema da Estrela: Branca ou Vermelha.

Obviamente, alguns fatores colaboram para a resolução dessa contradição; o fim do bloco socialista serve de impulso para os setores que ainda alimentavam ilusões quanto ao leninismo aderirem a um discurso social-democrata; a esquerda católica enfraquece, mas mesmo assim, ela sempre foi inercialmente social-democrata; a Articulação, com seu pesado núcleo sindicalista sempre tendeu para esse lado, ainda mais com o seu fortalecimento eleitoral nas duas últimas eleições dos fins dos anos 80. Esse é o quadro que estava no ar nos anos 90, mas não havia uma definição clara.

A cartada final mesmo é a Carta ao Povo Brasileiro. Ela inicia essa quarta fase do partido e é o marco da escalada que conduz Lula à Presidência da República. Se antes o processo de institucionalização petista era interno, agora, o partido já institucionalizado se integra perfeitamente ao sistema político-partidário nacional e disputa a hegemonia dessa maneira. O problema petista passa a ser o mesmo dos partidos social-democratas pelo mundo: Se a estratégia é ocupar as instituições burguesas para subvertê-las, obviamente, passa a existir uma demanda pela criação de uma tecno-burocracia interna capaz de permitir que o partido atinja essa finalidade - e aqui falo de uma social-democracia do pós-guerra, sem a emancipação humana no horizonte visual, apenas pensando em administrar melhor as coisas e arrefecer a miséria capitalista.

Isso nos conduz a um problema objetivo: As instituições burguesas não são neutras; elas são passíveis de tranformação, mas também transformam quem as ocupa. Levando em consideração o que realmente são as instituições brasileiras, explica-se o que houve com o PT nos anos do Governo Lula. O Governo atual não significa pouca coisa; ele conseguiu preservar o avanço dos direitos individuais e trouxe avanços relevantes no que toca ao desenvolvimento econômico e social do país, mas em contrapartida as instituições corroeram consideravelmente o potencial transformador do PT.

Outro ponto não menos relevante, é que com isso, o PT caiu na arapuca-mór do Estado brasileiro: Se perdeu em meio à relação antagônica entre uma ordem jurídica moderna instituída verticalmente - e sem a construção dos devidos espaços políticos correspondentes para recepcionar essas mudanças na base da sociedade brasileira - e uma ordem política arcaica em certa medida também anacrônica - e e esse equívoco, notem, é uma espécie de herança maldita do positivismo, afinal, algo não muito diferente ocorreu quando da instauração da República. Essa evolução social do país vista nos últimos anos, por si só, não resolve essa questão, ao contrário, ela vai até onde essa contradição permite que ela vá.

O PT hoje é uma das maiores agremiações políticas do país caso pensemos no peso que ele tem nas instituições e as posições que ele ocupa, mas sua importância em meio à sociedade civil diminuiu: O partido da estrela sempre foi uma aguda singularidade na nossa história política justamente por ter sido o único partido brasileiro a ter vínculos reais com a sociedade, mas isso está se perdendo de maneira severa e de um modo muito rápido. Faltam grandes teóricos de política e economia e a porosidade para intelligentsia se estreita na medida em que o próprio espaço para a reflexão diminui - diante da afirmação de um pragmaticismo que sempre existiu lá dentro e decorre de certos vícios da esquerda mundial pós-Revolução de Outubro, mas que agora se acirra. Isso se revela, por exemplo, na forma como as escolhas são tomadas internamente, como escreveu recentemente Alexandre Nodari - em um texto que eu tenho lá as minhas discordâncias, mas que tem ótimos momentos, principalmente quando cutuca certas feridas que precisam ser cutucadas.

Sobremais, a tentativa de superação do PT por meio da fundação do PSOL, por sua vez, também se mostra um equívoco; o novo partido não consegue se livrar de certos vícios que remontam ao PT e ainda os reproduz com acentuada velocidade; ele também não consegue se colocar como uma antítese capaz de superar o projeto lulista - por sua vez, é preciso ressaltar que ele nasce de uma racha verticalmente realizado por uma série de quadros petistas que não conseguiram, ao longo desses últimos quatro anos, se aproximar da sociedade, caindo no hermetismo pequeno-burguês que durante décadas marcou a esquerda nacional.

Hoje, o reformismo petista, mesmo com a queda gradual e decidida do seu potencial transformador, ainda é o único pólo real capaz de produzir avanços sociais no país - e continuará o sendo até quando (e se) surgirem opções efetivas à esquerda e até quando (e se) a sua marcha atual lhe permitir produzir qualquer avanço que seja. Se acontecer a pior das hipóteses do segundo ponto conjugada a pior do primeiro, estaremos em um processo de exaustão da política nacional com consequências catastróficas. Resta ponderar o quanto os avanços sociais produzidos nos últimos anos poderá servir para oxigenar esse quadro. É hora da esquerda parar para pensar e largar mão da atitude binarista em relação ao momento histórico que estamos vivendo.