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segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Cunhal, Saramago e a Política de Portugal




Todas as vezes que eu leio O Caderno de Saramago, eu tenho uma sensação estranha. É mais ou menos como se você estivesse navegando pela blogosfera e topasse com o blog de um Dostoievsky ou de um Machado de Assis. Isso gera um estranhamento duplo: Em uma época tão distosa quanto a nossa, é surpreendente saber que ainda existem gênios como Saramago entre nós ao mesmo tempo em que é assustador para nós, blogonautas, que ele ainda escreva um blog. Pois bem, estava eu a ler esse estandarte da língua portuguesa quando me deparo com um post sobre Álvaro Cunhal. Escreveu Saramago:



"Não foi o santo que alguns louvavam nem o demónio que outros aborreciam, foi, ainda que não simplesmente, um homem. Chamou-se Álvaro Cunhal e o seu nome foi, durante anos, para muitos portugueses, sinónimo de uma certa esperança. Encarnou convicções a que guardou inabalável fidelidade, foi testemunha e agente dos tempos em que elas prosperaram, assistiu ao declínio dos conceitos, à dissolução dos juízos, à perversão das práticas."



Álvaro Cunhal, para quem não o conhece, foi um histórico militante comunista português. Participou da resistência ao Salazarismo além de ter sido homem de confiança de Moscou - não só em Portugal como na Europa Ocidental - nos anos 60 e 70. Foi romancista e pintor; assinava suas obras sob o pseudonimo de Manuel Tiago, o que foi revelado apenas em 1995, dez anos antes de sua morte. Viveu longa e intensamente, sendo um dos atores políticos mais importantes daquele país no século 20º. Muito do que Portugal é hoje, para o bem e para o mal, ou foi em virtude ou contra ele.

Falamos de um país com o qual temos inequívocos laços culturais e que viveu décadas sob a égide de um regime fascista, o Estado Novo, também conhecido como o Salazarismo. Ele nasce do caos em que se encontrava o decadente Portugal do início do século 20º e dá a cola administrativa que a burguesia local precisava para prolongar a vida do imperialismo do país. Também serviu para manter Portugal atrasado e isolado da Europa.

Frente a isso, os comunistas portugueses fizeram dura oposição e foram perseguidas. Cunhal chegou a estar preso várias vezes, chegando a protagonizar espisódio celébre denominado como a
Fuga de Peniche. Nunca se desgrudou de Moscou, muito pelo contrário. Diante do agravamento da crise portuguesa nos anos 60, quando a Guerra Colonial ceifava vidas e criava cisões irreconciliáveis nas Forças Armadas, o Estado Novo se via às portas da queda e o PCP de Cunhal era uma possibilidade concreta de vir a tomar o poder.

Ironia das ironias, é na esquerda que vai surgir a oposição ao PCP: É nos arrededores de Bonn, capital da antiga Alemanha Ocidental, em 19 de Abril de 73, que inúmeros intelectuais social-democratas, trabalhistas e trotskystas em exílio são reunidos sob as bençãos - e o financiamento - do SPD para fazer frente ao PCP numa realidade pós-salazarista.

A Revolução dos Cravos acontece em 25 de abril de 74 e a direita portuguesa é varrida; o sistema político partidário é reconstruído e nenhum partido se identifica como sendo coisa mais do que centro - mesmo o direitista CDS/PP se posicionava enquanto "centro". Estão organizados o PS, firmado no contexto já explicado, o PCP de Cunhal e no mês seguinte o curioso AD, doravante PSD - a social-democracia portuguesa que nasce dos corredores das Faculdade de Direito de Coimbra e Lisboa inspirada na Social-Democracia Alemã que estava no seu auge, olvidando-se de combinar com os alemães do SPD que criaram o PS e sempre o enxergaram como seu congênere em Lusitânia.

O PCP tem sua importância denunciando e combatendo tentativas contra-revolucionário ao mesmo tempo em que tenta trazer Portugal para a esfera do Socialismo Soviético - ao qual Cunhal, reitero, manteve fidelidade canina, mesmo na Primavera de Praga. No xadrez da Guerra Fria, claro, seria impossível imaginar um país socialista no extremo-oeste da Europa e a saída se dá pelo meio com o PS de
Mário Soares.

Cunhal e o seu PCP foram neutralizados. Portugal promulga a Constituição de 76, de inspiração Social-Democrata, e se torna República Parlamentarista. A debilidade decorrente do verdadeiro balaio de gatos em que se materializara o PS de Soares levam o partido a perder as eleições no início dos anos 80, dando oportunidade para o improvável PSD, que dentre os partidos assumidamente social-democratas no mundo, só encontra rival do mesmo nível no que toca o quesito esquizofrenia ideológica na figura do glorioso Partido da Social-Democracia Brasileira.

Os socialistas ainda voltam ao poder, mas fracassam e o PSD vence novamente se assumindo como defensor daquilo que é chamado como "Liberalismo Social". Dessa vitória decorre o mais longo Governo da história da III República Portuguesa, na figura do social-democrata Cavaco Silva, o que na prática coloca o PSD na centro-direita. Cavaco Silva dá a cola administrativa que o Governo nunca encontrou ao mesmo tempo em que se beneficiou duramente da entrada de Portugal na UE, alimentando-se politicamente do desenvolvimento social inercial que decorreu desse processo.

De lá pra cá, os portugueses assitem a uma alternância entre PS e PSD e atualmente se deparam com o Governo de
José Socrates, entusiasta das fileiras trabalhistas do PS, já no poder há cinco anos fazendo o estilo "terceira via" à la Blair, um centrismo onde a boa arrumação do topete conta mais do que qualquer outra coisa. Os socialistas dominam a cena política local, detendo 121 cadeiras das 230 da Assembleia Nacional. Enquanto isso, seus rivais encontram-se isolados na direita (com as 87 cadeiras do CDS/PP e do PSD) e na esquerda (as 22 cadeiras dos comunistas, dos verdes e do bloco de esquerda, que para variar não se entendem entre si) - isso na prática, em tese ninguém é direitista.O PCP - que tem como filiado mais ilustre o mesmo Saramago que deu início a essa divagação - concorreu em coligação com os verdes e teve 7,56% dos votos, fazendo 12 cadeiras.

O país vive num beco sem saída que se materializa numa economia travada, um modelo europeu esgotado, uma direita que apesar de pequena é barulhenta e agressiva. Na esquerda, de um lado, o socialismo à la URSS, que alimentou os sonhos do PCP durante anos, se foi (felizmente, como diria um certo Chomsky); do outro, a nova divisão internacional do trabalho pós-URSS matou muitas das ilusões social-democratas. Entre esses dois modelos, um fracassado e o outro às portas do fracasso, ronda o espectro do Fascismo, a noite das noites, o abismo gélido e escuro que encara toda a Europa nesse exato momento.

Dificilmente a resolução para esses problemas estará em Portugal, mas o país é, pelo menos, um exemplo emblemático do enigma que nós somos obrigados a resolver - sob pena de assistirmos a vida nesse mundo pequeno e azul ser devorada junto conosco.