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sábado, 9 de novembro de 2013

Sob o Signo de Libra


Artigo meu, originalmente publicado no site da Uninomade em 04-11 sobre o Leilão de Libra

O Leilão do campo petrolífero de Libra, ironicamente no último dia do signo zodiacal homônimo, realizado pelo Governo de Dilma Rousseff, acirrou o debate político brasileiro. Situada na Bacia de Santos, Libra é considerada a estrela da grande reserva petrolífera do Pré-Sal e sua concessão valeu centenas de bilhões, tendo sido arrematada em lance único por um consórcio encabeçado pela estatal Petrobrás e mais alguns tubarões dos negócios petrolíferos -- incluso aí duas estatais chinesas, cujo simbolismo de sua chegada vai além da geopolítica, além da própria Shell, outrora concessionária do campo de Libra, tendo abandonado há poucos anos sob a alegação de que não havia petróleo por lá.

A exemplo dos velhos leilões de FHC, uma série de ações judiciais choveram contra o processo licitatório e manifestações, turbinadas pela onda atual, se impuseram -- tudo isso, com direito a um forte esquema de repressão montado pelas Forças Armadas em pessoa. Sérgio Gabrielli, presidente da Petrobrás à época da descoberta do Pré-Sal, se opôs ao leilão. Ildo Sauer, ex-diretor da supracitada petrolífera, foi além e bancou uma ação popular contra o processo -- sob a alegação de que o governo brasileiro perderá centenas de bilhões de dólares ao não realizar, por conta própria, a exploração.

A presidenta Dilma, por seu turno, comemorou aquilo que julga um sucesso -- e que alega não se tratar de privatização. O “mercado”, no seu cantinho, resmungou dizendo que o resultado ficou “aquém” para conseguir, como se viu rapidamente, um novo mecanismo de reajuste dos preços de combustíveis -- o qual facilitará aumentos, os quais possivelmente teriam seu impacto sobre o consumo reduzidos por subsídios estatais, isto é, o uso de dinheiro público para manter o preço praticado abaixo do preço formal, às custas de um “bolsa investidor”, que nos “salvaria” de um surto hiperinflacionário decorrente do reajuste da gasolina e do diesel nas bombas dos postos.

Há certos binarismos recorrentes na análise da questão: estatismo x mercadismo, globalismo x nacionalismo, os quais, a rigor não interessam verdadeiramente a ninguém, salvo aos interessados de sempre. É preciso pensar além da cortina de fumaça. Antes de mais nada, a resposta para a sua pergunta é sim: apesar da declaração em rede nacional em sentido contrário, Dilma de fato promoveu uma privatização. O que não é novidade nenhuma em seu governo, basta lembrar dos leilões dos aeroportos, em relação aos quais as esquerdas fizeram vista grossa ou pouco barulho. Mas privatização vai muito além da conversa mole de defesa do capital estatal ou nacional.

Que significa, afinal de contas, privatizar algo? É, certamente, bem mais do que transformar algo em “atividade econômica”, vender patrimônio “público” (estatal, a bem da verdade):  trata-se de retirar um bem comum da esfera coletiva de deliberação para inseri-lo em um regime despótico, isto é, em um sistema de regras e princípios no qual uma lógica transcendental determina o que será usado e desusado, por quem e como. De certa forma, o funcionamento de nossas velhas empresas estatais, já era uma forma de privatização (ao menos, avant la lettre), pois instituia uma forma de produção e circulação alheia às demandas imanentes da coletividade, simplesmente inalcançável pelos reles mortais (isto é, nós).

Como lembramos, invocando Agamben, em outra ocasião, o  nascedouro da ordem privada é do mundo antigo, quando a casa (a oikia de “economia”) era o local por excelência da produção, na qual um dono (de dominus, ou despotes na heláde) ordenava servos, escravos e sua própria família de maneira absolutamente vertical. A ordem pública era exterior à Casa na qual ocorria a circulação da produção, os contratos, e na qual os donos, por força das contingências, eram equiparados na forma de “cidadãos”.

O advento do Capitalismo marcou uma (con)fusão dos dois espaços na forma da economia política. Mas público e privado sempre marcaram dois fatores dialeticamente interligados. A esfera privada só existe porque a esfera pública lhe autoriza, por meio do estatuto conferido pelo instituto jurídico do domínio, enquanto a esfera pública se realiza por meio da existência fática das entidades privadas. Para lembrar Negri, o que escapa ao público-privado é o comum, isto é, o reconhecimento do contiguidade imanente entre as casas e a cidade, a própria plenitude da vida e do desejo.

Os rearranjos da dialética público-privado que marcam as mudanças no Estado brasileiro nas últimas décadas, de Capitalismo de Estado para Capitalismo Neoliberal, são facilmente explicáveis: a introjeção da noção atual de democracia na máquina estatal local, por força dos levantes multitudinários brasileiros dos anos 70, trouxeram a possibilidade da reivindicação de uso comum das empresas estatais, as quais precisam ser liquidadas para, no âmbito de mercado, estarem apartadas da “política”, ou da política que desinteressa a classe dominante. A defesa de um capital estatal e nacional, atende apenas uma casta de burocratas e\ou uma burguesia nacional. A defesa de um capital privado e internacional, por seu turno, há de favorecer outro tipo de matilha. Mas os oprimidos, em uma situação e na outra, serão sempre os mesmos.

O leilão em questão, é verdade, trouxe dinheiro rápido e fácil para o Estado brasileiro, o que servirá para ele financiar, realizando, assim, os ditâmes de seus credores gerais e, sobretudo, para satisfazer a particular estirpe dos especuladores da Petrobrás. Em uma política de boa vizinhança, o desejo dos acionistas de receber mais pelo combustível será realizado, enquanto preços se manterão estáveis para os reles mortais graças ao emprego de uma ainda desconhecida quantia de dinheiro público recompando o valor extra.

Algo há de sobrar para o investimento no welfare, tão old-fashioned, idealizado pela esquerda de Estado, mas estaremos mais distantes de qualquer deliberação sobre os negócios do petróleo -- inclusive sobre seus usos e desusos como matriz energética, em tempos de esgotamento ambiental: a pretensa construção do bem-estar social às custas, ironicamente, de uma fonte de energia suja terá, no entanto, caminhos mais tortuosos do que se supunha, uma vez que o emprego de seus recursos econômicos nos serviços públicos será, pelo visto, mitigada. Por outro lado, a direita partidária talvez deseje até menos do que isso, inclusive porque o discurso ambiental só entra em seu léxico à la Bardot, isto é, como uma construção esotérica na qual da defesa de ursos polares chegamos à suspensão dos direitos humanos dos muçulmanos globais.

O custo maior do Leilão de Libra, no entanto, ficará por conta do impacto simbólico-político, tão incontornável e insustentável que mais parece uma tentativa deliberada de aprofundar esta crise que já chega às raias da loucura. A imagem de um grande consenso político, de uma enorme centro-direita indiferente, garantida à base da baioneta, edifica-se como a realidade desesperadora de uma geração inteira de jovens. Indigno e desnecessário para uma presidenta que, em seus melhores anos, sofreu o que sofreu na pele.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

O Wikileaks e o Brasil

O Mapa da Mina
O caso Wikileaks continuou repercutindo fortemente, seja pela prisão contestável de Assange quanto pela repercussão dos cables, cuja divulgação segue a todo vapor ou mesmo pela repercussão do assunto junto à Ordem Internacional. Se Assange continua preso na Inglaterra com futuro incerto e apesar dos boicotes ao site do Wikileaks propriamente dito, fato contornado por uma ação conjunta sem precedentes na qual hackers do mundo todo têm se desdobrado para manter canais de divulgações das informações. Ainda, líderes importantes do mundo em desenvolvimento com Putin - sarcasticamente, como lhe é peculiar - e Lula se pronunciaram contra a prisão do fundador do Wikileaks - e, claro, das duas falas a de Lula é que se sobressaiu, seja porque falamos de um líder que termina seu segundo mandato extremamente popular, depois de ter vencido eleições limpas ou pelo fato de que o seu Governo tenha respeitado firmemente as liberdades individuais, embora tenha sido alvo de uma campanha dura de certos setores da mídia corporativa em sentido contrário, numa contradição que ele soube explorar bem em sua fala (ver na quebra de página):

Em suma, Lula, em sua melhor forma política, traz à baila o calcanhar-de-aquiles da mídia corporativa que lhe fez, ao longo dos últimos oito anos uma verdadeira oposição canina, ao mesmo tempo em que também pega seus colegas líderes do mundo desenvolvido, arautos da civilização, no contrapé. Essa fala tem mais peso do que se pode supor no que concerne o que será o futuro Governo Dilma e isso tem pouco a ver com política externa, dado que Lula apenas referenda a linha adotada pelo Ministério das Relações Exteriores nos últimos anos; a questão aqui é a política de comunicação: A pauta passou a ser levada a sério depois de anos cedendo o Ministério para um homem do sistema como Hélio Costa sem ganhar nada em troca - de bom, claro.

Seja a primeira entrevista de Dilma não sendo dada para a Globo, a indicação de Paulo Bernardo para o Ministério das Comunicações ou mesmo a entrevista de Lula para os blogueiros e essa sua fala apontam para um horizonte claro: Os petistas perceberam que sua própria - e elementar - sobrevivência eleitoral demanda a expansão da Internet e das opções em meios de comunicação em massa e, mais ainda, que é quase impossível conceber um cenário de trégua por parte do grande establishment midiático, capaz até de transformar bolinha de papel em rolos de fita - na falta de chance de surgir, quem sabe, com uma bigorna.  Mais até do que isso

Por outro lado, a  jornalista Natalia Vianna continua divulgando os cables que dizem respeito ao Brasil - ao todo, eles chegam a mais de 5 mil - em blog recém-lançado em parceria com a CartaCapital. O que chega até agora é o incômodo americano com a política articuladora de Lula que põe a estratégia de Washington em xeque: Ao mesmo tempo que não rompeu os EUA, a política externa altiva e ativa de Amorim rompeu com o atlantismo , negociando com interlocutores do mundo inteiro, mesmo adversário estratégicos americanos,  o que exige do Departamento de Estado um grau de sofisticação no trato com o Brasil que ele nunca precisou ter. As notícias que chegam pelos cables sobre o Brasil se dividem em três eixos centrais: O detalhamento da articulação política americana em torno das nossas reservas minerais (sobretudo, energéticas), o lobby para a venda de caças para a Força Áerea e as análises do processo eleitoral.

Se no terceiro caso esbarramos com o já sabido desconhecimento crônico dos americanos sobre a política nacional mais alguma especulação sobre a doença de Dilma, a sutil preferência por Serra e quetais, no segundo e primeiro caso temos informações mais relevantes; se na questão da venda dos caças se manifesta o incômodo claro com a política externa e a proximidade brasileira com os franceses - assim como o nome dos ministros amigos, o que traz à luz de forma cada vez mais clara a face de Jobim e seu papel de contra-ministro, seja nas relações internas ou externas -, no primeiro caso, topamos com detalhes cada vez mais claros de um jogo no qual converge a política estratégica dos EUA para cima dos nossos recursos naturais e o jogo eleitoral brasileiro, o que revela a grande diferença entre PT e PSDB hoje: Os lados que cada um deles ocupa no grande tabuleiro internacional.

Sim, estou falando das posições de bastidores do candidato Serra que vieram à tona hoje, inclusive, repercutindo na grande mídia; como eu coloquei aqui durante a campanha eleitoral, um dos grandes itens dessa campanha presidencial era o Pré-Sal, posto que não havia mesmo concordância entre os dois candidatos e os dois projetos: Se o PT postulou um modelo de soberania energética e distribuição dos lucros da exploração, o PSDB insiste num modelo privatista, cujos lucros gerados invariavelmente tendem a ficar por cima e, mais do que isso, nem por dentro, para além do que aponta toda a parafernália retórico-tecnocrática ou, mesmo, os ensurdecedores silêncios de Serra na campanha passada, em relação a esse tema, inclusive. E volto a dizer, o Wikileaks cumpre nesse tema aquilo que é a sua grande utilidade prática, colocar definitivamente certos assuntos fora do campo da teoria da conspiração: Sim, há provas de que o interesse americano sobre a exploração Pré-Sal num regime de concessões é claro e envolveu manobras nos bastidores, inclusive, para frustrar modelo de partilha proposto pelo Governo Lula, com a anuência do nosso Serra.

Sim, isso também revela que estamos em um patamar primário de debate da política energética, onde basicamente tudo gira em torno em como explorar o modelo posto - com suas deficiências e problemas vários que, no entanto, passam batido -, mas existe um diferencial aí que são os interesses que se articulam em torno de um projeto e outro e o que isso pode efetivamente retornar para a sociedade; em um, temos um modelo nacional e socializante, no outro,  o enquadramento no jogo do Capitalismo Internacional e suas grandes empresas no comando. Isso faz muita diferença. Tudo isso, aliás, ajuda a descortinar grande parte do jogo que está em disputa neste exato momento e que teve um capítulo importante durante Setembro e Outubro. Mantenhamos os nossos olhos abertos.

Atualização das 19:29: Passei o vídeo para a quebra de página para não atrapalhar os arquivos (a mudança de formato do Youtube ficou uma droga mesmo), mas ele está linkado na citação de todo modo.

Atualização II 14/12 às 16:46: Seguem os links para os cables sobre a questão petrolífera e sua íntegra copiada e colocada abaixo da quebra de página: 28/01/08, 15/04/08,  30/06/08, 21/01/09, 27/08/09, 02/12/2009 e 21/12/09 (caso você não saiba inglês, jogue os textos no tradutor do Google e salve as informações.