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quinta-feira, 27 de março de 2014

São Paulo entre Adoniran e Maluf

Isso era São Paulo

A foto acima tem circulado pelas redes sociais e ilustra um artigo do Marcelo Rubens Paiva. A ilustração corresponde à São Paulo antiga, mais precisamente a uma parte do Centro que hoje é soterrada pelo famigerado "Minhocão", o elevado Costa e Silva. Embora eu pudesse começar pelo absurdo que é o nome do elevado ser uma homenagem a um dos ditadores militares brasileiros, o primeiro general da linha-dura, a verdade é que a obra faz jus ao nome que tem: nem seria o caso de mudar o nome do Minhocão, mas de implodi-lo mesmo só pelo desastre urbanístico que é -- e é justamente isso que o Marcelo propõe no seu artigo.



Para quem não conhece São Paulo, o elevado em questão liga à zona oeste próxima, a Barra Funda, ao Centro, passando por cima disso que vocês estão vendo. O artífice da obra, o ex-prefeito Paulo Maluf, sempre frisou a necessidade da obra: como chegaríamos ao Centro sem ele? A questão, no entanto, sempre foram outras duas: (1) qual Centro? e (2) quem chegaria, cara-pálida? Pois bem, a primeira se explica pela brutal degradação da zona central paulistana, cujo marco inicial foi justamente o elevado pela maneira como ele destruiu a cinelândia local; a outra é também muito mais simples, o "quem chegaria" são os proprietários de automóveis particulares. 

A submissão de São Paulo ao cinza do concreto e ao automóvel no lugar das grandes alamedas e do paisagismo foi o início do fim da Pauliceia. A questão é  que você não constrói uma cidade a partir do carro. São Paulo é péssima para moradores, pedestres, ciclistas, animais e plantas justamente por conta disso -- e objetivamente é pior para os próprios motoristas, mas dentro desse esquema, obviamente eles não percebem o problema, ou só sua exterioridade, o trânsito, o caos dos semáforos etc. O carrocentrismo malufista não construiu uma porcaria de cidade por si só, mas sim um absurdo urbano que é, também, um absurdo social, afetivo, ambiental e assim por diante. 

Interessante é o contraste disso com uma outra São Paulo, que ainda existe um pouco, a São Paulo  que ainda tinha garoa, samba e a figura de um tipo particular de malandro: estético como um italiano, lúdico como um brasileiro. Era o Adoniran Barbosa. O cara que mandava o progresso do Getúlio às favas. Uma espécie de pessoa capaz de desprezar o trabalho, por mais que estivesse na capital do discurso da dignificação via labor. Aquela coisa das cantinas do Bixiga, da Mooca, do samba no Brás, das gentes brancas e mestiças que conviviam mais com os povos dos antigos quilombos urbanos de São Paulo do que com os quatrocentões.

De uns tempos para cá, ou desde Maluf, a única coisa que escapou à destruição desse típico malandro paulistano -- uma destruição que só pode começar  pelo seu habitat -- foi em parte a Rua Augusta -- na parte do Centro -- e, talvez, a Vila Madalena. Isso até a gentrificação, que na Augusta começou tem poucos anos e que na Vila vem dos anos 90, subindo de Pinheiros. A Augusta, aliás, só foi "diferente" no momento em que esteve "abandonada", até ser retomada há pouco pela especulação imobiliária: e a questão não é o moralista, o "que bom que a prostituição está saindo da Augusta", porque, na real, a prostituição saiu de lá para os discretos flats, nos quais a exploração feminina pode ser bem maior, justamente por ser mais invisível.  Na Vila, apenas chegou aquilo que vinha de Pinheiros, capturando o ar autêntico  e genuíno do bairro, enlatando-o e pasteurizando -- enquanto os aluguéis sobem, eliminando lugares legais e expulsando os pobres.

A coisa, é óbvio, não é o Maluf pessoa, mas o Maluf histórico e político, responsável por dar vazão a um projeto nefasto desde muito. A verdade é que, por ora, Maluf venceu, ou venceu politicamente: a rigor, ele conseguiu fazer o que quis e isso prevaleceu por inércia, embora algumas medidas que contradigam sua lógica tenham sido tomadas em determinados momentos. Mas no interior do seu ser, São Paulo permanece malufista. Quem defende uma outra São Paulo, como a esquerda que ocupa e já ocupou a Prefeitura algumas outras vezes, só conseguirá mudar isso no momento em que entender que a saída para essa desgraça está, vejam só, mais na jinga de um Adoniran do que na dureza germânica dos escritos frankfurtianos.


quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

O Crack, A Metrópole, O Deixar Morrer

Pino Daeni -- Desalento
A Internação compulsória de viciados em crack -- que começa no Rio e é copiada em São Paulo -- está na ordem do dia. Questão delicadíssima por sinal. Trata-se de algo que está no cerne da nossa sociedade, no âmago do funcionamento de nossas metrópoles. Uma ferida tão exposta que resta ocultada a cada esquina. É sobre invisibilidade e invisibilização que estamos falando, vontade de morrer, mas também um jogo de omissões bem pontuadas, afinal.

Deixar fazer, deixar passar e deixar ir, eis o singelo lema que iria animar o movimento liberal até hoje. Mas há uma outra parte deste dizer, talvez a mais importante dele, que resta oculta: deixar morrer. O liberalismo de verdade não mata, deixa morrer -- e se você morreu, é responsabilidade sua por ter morrido na contramão atrapalhando o tráfego. 

Os crackeiros carregam um pouco disso: pobres diabos famintos que perambulam pelas ruas, largados à própria sorte, consumindo uma substância que lhes dá, por um instante, um prazer que nunca sentiram (nem sentirão) em uma vida inteira de desgraças. Hoje, eles são protagonistas deste interessante debate, mas sua existência secreta e, ao mesmo tempo, óbvia é chave. 

Pois bem, o vício do crack é algo relativamente novo no Brasil, uma processo que se instalou entre as classes mais precarizadas das áreas urbanas, sobretudo dos anos 90 para cá. O crackeiro, em metrópoles como São Paulo, não é, ou era, alguém simplesmente sem valor, ao contrário, via de regra ele cumpre uma função importante junto à especulação imobiliária: são largados em áreas cujo interesse momentâneo do "mercado imobiliário" é deixar prédios inteiros vazios, a espera de preços melhores. 

A existência do crackeiro é permitida tacitamente pelas forças policiais, o que torna tais áreas inabitáveis, as tirando dos olhos da boa sociedade até (e se) os interesses mudarem, fato do qual resulta a sua retirada -- manu militari se for preciso, como aconteceu na São Paulo de Kassab; o capitalismo não trabalha a partir diretriz de produção para o consumo real, mas sim de produção para consumo em abstrato e com a negociação de expectativas, o que resulta em excedentes vazios ou inutilizados.  

O crack também se trata de uma boa medida, no sentido perverso da gestão da vida, para se livrar de um contingente populacional -- eliminando mesmo ou reduzindo sua durabilidade --, caso ele se torne incômodo. Sua disseminação é deixada solta por aí e populações inteiras morrem, são deixadas para morrer. Evidentemente, o crack não é causa, mas consequência, antes dele há toda a miséria afetiva, econômica e social por detrás das camadas mais pobres da metrópole.

A atual política de internar compulsoriamente viciados em crack -- o que corresponde a maioria dos usuários -- é a típica políticas de bondade que esconde muita coisa. Que nos explica como um sistema supostamente calcado na permissividade precisa, para responder às suas demandas, se contradizer. Ninguém deseja curar o crackeiro, é preciso apenas tira-lo da vista, higienizar as ruas e tocar as coisas nos termos necessários. Ninguém, sejamos francos, está preocupado em curar as chagas sociais que causam isso.

O crackeiro é conduzido a uma cura impossível -- uma vez que a dificílima cura para seu vício depende da vontade do viciado. Ele está deixado para morrer longe dos nossos olhos.  E passa a adquirir nova importância econômica, como objeto internável, coisa que certamente não é gratuita e envolve uma economia médica -- afinal de contas, alguém há de ganhar com isso. Argumentar pela  resolução das causas é prontamente desqualificado em nosso meio. E até lá, o que faremos? Dirão alguns. No entanto, a questão verdadeira é: e como as coisas conseguiram chegar até aqui?

Destruição e criação (de um ser humano, inclusive), embora frequentemente pareados na forma de um binarismo, são elementos de natureza diversa: é muito, muito, mais fácil destruir setores inteiros a ponto deles consumirem crack a fazer o contrário. Os confinamentos de viciados estão para a cura desse vício como as sangrias medievais estão para a cura de qualquer mal. A cura para tanto é psicológica mas é social, sem a última, a hemorragia não terá fim.

Atualização das 16:50: segue aqui um belo texto de Lucas Portela sobre a presente questão e a política de confinamento em geral.

sábado, 15 de setembro de 2012

Sublime


Café Terraço à noite -- Van Gogh
Buzinas prepotentes, gargalhadas ébrias, violão assanhado. Sonhava durante toda a adolescência em me enraizar nessa dinâmica efervescente, paisagem colorida por todos meus sentidos infantis. Me escondia nas  próprias certezas incertas, à espera de um prazer que só se revelaria inatingível com os dissabores dos anos posteriores.

Depressão? Não sabia que amadurecimento tinha esse nome. Quanto mais fantasias se  tornam fantasiosas, os momentos de alegria viram mais reais. Consigo tocá-los com as mãos, ao recordá-los enquanto deitada no recanto de meu quarto. Sapateiam sobre meu peito, quando corro por cima do concreto paulistano na segunda-feira. Fecham meus olhos, gentilmente, quando  a rotina decide me golpear.


Álbuns velhos...Fotos indesejáveis... Memórias espalhadas pela rua, pelo bairro, pela cidade. Nem tive o trabalho de varrê-las para longe. Brotaram-se  sorrisos, expelindo-as dos meus sonhos durante madrugadas egoístas. Parece que nasci para  vê-las  morrerem. Quão sublime se tornaram os dias singelos. Conversas sobre livros favoritos, poemas, histórias de infância, amarguinho de café, lágrimas delicadas, almoços em um quilo, Yakisobas da liberdade, melodias esfuziantes, trilhas na Paulista, expedições no centro, cinemas de rua, pequenas grandes  vitórias, grandes pequenos fracassos.


Finalmente, a vista daquele mar de edifícios art decó desnudou sua beleza mediante meus olhos tímidos. A saudade de um passado inexistente foi substituída pela melancolia, devido à possibilidade do futuro desvirtuar o presente. Saudades de um presente concreto, digno  de um tema para um romance de Clarice Lispector. Deficiente, se comparado com uma idealização vitoriana sobre a vida.  A fumaça , abraçada com uma névoa tênue, embala a cidade ao anoitecer. Escura, gelada... Incomoda. Mas só o faz por que se pode senti-la. Faz o menino vestir o moletom ao retornar da escola, louco para assistir ao desenho de final da tarde enquanto janta, a contragosto da mãe. Faz o casal urbano relembrar, por algumas horas,  que amam mais um ao outro do que o trabalho.


Sentir, tocar, acariciar, cantar, rir, chorar, soluçar, suspirar, berrar, correr, beijar,  brigar, estudar, trabalhar, escrever, recitar...


Respirar o imperfeito... Perfeito.
Isabella Martinho Eid

terça-feira, 20 de março de 2012

Sobre o Direito ao Corpo

Blond Girl On a Bed (1987) -- Lucien Freud
No presente momento, uma série de debates fundamentais - como aquele sobre a descriminalização do uso das drogas, sobre a permissão do aborto ou sobre a eutanásia  - gira em torno do que se convém chamar de direito ao corpo. A grande questão, que se desdobra em tantas e se espraia na praça pública é o seguinte: sob o ponto de vista jurídico, até que ponto é possível gozar de autonomia sobre o próprio corpo e até que ponto se pode intervir no corpo de outrem pelo bem comum? Antes de mais nada, façamos um breve digressão.

Os positivistas e demais ideólogos da modernidade, por evidentes razões estratégicas, dirão que um direito existe quando ele é reconhecido no ordenamento jurídico, grafado na forma de norma constitucional ou legal. A eles interessa dizer isso porque o discurso jurídico precisa parecer monopólio do Estado,  isto é, não pode haver espaço para polifonia alguma - e, por tabela, toda mudança legal que ceda anéis para os desvalidos e minorias precisa parecer uma outorga, um ato de bondade e superioridade do Poder Soberano.

Com efeito, diremos aqui que um direito existe quando ele é reivindicado, é válido quando o dever - correlato, simultâneo e imediato - que disso decorre consegue identificar um objeto para imputar-lhe uma obrigação  e, por fim, é efetivo quando produz uma prática relacional contínua de coexistência. Não há, nunca houve e, possivelmente, jamais haverá outorga: o soberano não é piedoso, ele é apenas e tão somente prudente. Os direitos são forjados na luta e é isso que a História, e a análise de como se constrói um discurso jurídico, nos ensinam.

O discurso jurídico cinde a realidade que enuncia em duas, criando relações que pouco tem a ver com liberação, pois cada direito conquistado remete a um dever para algo ou alguém, isto é, a uma relação de dívida na qual - temporariamente ou não, infinitamente ou não, flexivelmente ou não - haverá sujeição. Não à toa, o cristianismo e o marxismo - os dois projetos mais profundos de renovação do Homem já concebidos - se viram diante do dilema de como abolir o Direito, embora eles mesmos tenham terminado se quedando à linguagem jurídica.

Mas é usando a linguagem jurídica que clamam as multidões desde muito tempo, como nos prova a tragédia de Antígona, inadvertidamente usada para provar um direito natural - como se pudesse haver  um direito antinatural -, os gritos da plebe romana ou os prantos dos desalojados do Pinheirinho. De lá para cá, pouco mudou, revoluções vieram e se foram, a política continuou não conseguindo se realizar por si própria: e talvez essa disfuncionalidade explique como o Direito resistiu e se desenvolveu até hoje.

Voltemos ao direito ao corpo: o presente debate decorre de uma concepção de que o Estado possui prerrogativas assentadas em uma pretenso domínio de uma dita realidade objetiva para, assim, regular como os sujeitos dispõem sobre seus próprios corpos. Mas ao afirmar esse direito, imputa-se um dever difuso: não apenas em relação ao próprio Estado, mas também para a dita sociedade. Como todo direito, aquele de dispor sobre o próprio corpo não deixa, ironicamente, de implicar  na disposição sobre outros corpos - para que esses não disponham de si de modo a, por meio disso,  não disporem de outrem.

Uma aplicação unilateral desse direito reivindicado repete o que havia no Velho Regime: o senhor  é intocável, mas pode tocar em outrem que, por tabela, assume a posição eterna de escravo. Supor uma via dupla de tanto - de forma constitucional e social, portanto - termina sempre próximo ao centro de gravidade da cidadania hegeliana: o cidadão como senhor dos seus direitos e escravo de seus deveres, logo, como dono de seu corpo e, contraditoriamente, sujeito a ter nele inscrito as ordens do sistema, o que remete a uma mediação por uma ordem superior que lhe transcende e, ao mesmo tempo, na  qual ele se realiza, o Estado.

No nosso sistema legal não deixa de existir direito à dispor sobre o próprio corpo, porém, como isso é exercido se dá dentro de uma escala de mediação jurídico-estatal que determina o modo como se dará essa disposição - dentro dessa via de mão dupla constitucional. A presente reivindicação ateste certa insatisfação quanto a isso, suscitando, por meio de discurso jurídico que volta-se à transformação da lei, que os termos nos quais se dá esse exercício precisam ser reajustados.

Mas ainda que a luta por mudanças legais na direção de uma coexistência para melhor seja perfeitamente válida, a questão é que dentro da perspectiva do Estado não há liberdade porque aquilo que é inerente ao Direito, sobretudo quando traduzido em um sistema legal e pretensamente monista, hierarquizante e centralizador, implica sempre em uma teia de servidões interdependentes. 

Por mais que seja importante e, até mesmo, premente lutar por mudanças legais nesses termos, ao fazê-lo dentro de uma perspectiva na qual o Estado é premissa do raciocínio é atestar a constatação de é permitido fazer apenas aquilo que o poder soberano não objeta - pois o mandamento de inspiração iluminista de que é permitido fazer tudo que não é vedado tem pés de barro, já que a matriz do Estado é precisamente sua capacidade de dividir, segregar, deixar de fora. 

Positivistas mais sofisticados como Bobbio chegaram a admitir isso na medida em que, dentro de sua teoria da supremacia constitucional, afirmava que se é próprio da lei civil permitir  fazer tudo que ela  não proíba, por outro lado, a norma da Constituição [do Estado] contém normas cujo cumprimento é estritamente obrigatório  - isto é, tudo que está nelas é dever e nada que esteja nela há de se cumprido, aprioristicamente o que serve como explicação lógica da hierarquia piramidal delas sobre as primeiras: a matriz do sistema é a sua capacidade axiomática, o que determina o que fica de fora ou simplesmente é incluído como excluído.

Ainda que se possa argumentar que é possível, e talvez necessário para escapar à captura estatal, construir uma jurisprudência - no sentido romano - fundada no pluralismo jurídico e alheia ao Estado - o que é sim possível pela natureza da linguagem jurídica -, ainda assim, a capacidade de realizar a potência do próprio corpo ainda estará condicionada à dívida - e ao desejo de transgressão bem como os recalques causados pela escala de vedações e obrigações mútuas, isto é, na negação da integridade do corpo.

Como dispor do próprio corpo se ele está alienado de si, partido e duplicado pelas relações jurídicas? E por que pretender falar em disposição do próprio corpo traduzido na forma de linguagem jurídica? O fato é que a linguagem jurídica particiona o corpo a começar pelo deslocamento do desejo, em outras palavras, trazer o debate da livre disposição ao próprio corpo - isto é, da autonomia mais elementar que pode existir - para o campo do direito é quimérico: o direito de livre disposição do próprio corpo esbarra no fato de que onde há linguagem jurídica - pior ainda, um Estado que produz um intrincado sistema legal -. a indisponibilidade dos corpos é condição necessária. 


O constitucionalismo moderno - ou pós - esbarrará sempre no fato de que a ordem que ele instaurou no passado - e que sustenta hoje em dia - é e sempre será uma forma de diluição da polaridade senhor-escravo em uma universalização da segunda condição com a passagem do mando para um sistema sem nome - e o capitalismo contemporâneo não poderia ser outra coisa senão a forma concreta mais semelhante ao deus sem nome dos antigos hebreus.

Uma autonomia dos corpos demanda irmos para além do Estado e, também, de qualquer forma de organização que faça uso da forma jurídica como linguagem: é preciso caminhar para o campo da afirmação pura - algo que Paulo sintetizou de um modo particularmente feliz no "amai a todos como a si próprio", pois subverte a linguagem da lei eliminando seu pólo prescritivo -, as relações ancilares inerentes ao Direito serão sempre inimigas da realização plena da potência dos homens.










terça-feira, 31 de maio de 2011

Terras Bandeirantes: Crises, Greves etc

Greve dos transportes na Paris de 1891
Há muito o que se falar nesses dias sobre o que se passa cá  em terras bandeirantes - e pouco tempo para tanto. Sim, foi muito bem sucedida a Marcha da Liberdade, realizada no último sábado na Avenida Paulista, enquanto os dois grandes partidos políticos ruminavam suas discórdias internas; de um lado, o PT segue arcando com a tragédia anunciada de Palocci, do outro, o PSDB em sua catastrófica convenção nacional, no qual pela enésima vez não conseguiu enterrar Serra  - e ambos os problemas, como sacou de maneira agudamente perspicaz Rudá Ricci, se relacionam com a fissura central do Brasil, a saber, o velho problema da integração de São Paulo com o resto do país, o que não raro, por uma série de motivos, produz belos solavancos; e isso porque  mesmo que os dois grandes sejam partidos paulistas, eles possuem a mais forte tendência modernizadora vista em partidos importantes na nossa história, mas que por uma série de motivos não conseguiram superar essa problemática que chegou a extremos como em 1932 (do lado tucano, paulistas não conseguem dialogar com mineiros e nordestinos; do lado petista, os velhos políticos bandeirantes do partido da estrela esbarram em velhas práticas políticas locais). Pior ainda, os tucanos paulistas seguem divididos entre o grupo de Serra e Alckmin, sendo que a ala do último, que detém o controle do governo do estado atualmente, sonha com 2014, à sombra da megalomania de seu rival local e dos eternos problemas de Aécio Neves - ora fortalecido pela Convenção Nacional, mas longe de ser aclamado ainda -; enquanto isso, o governo Alckmin, que conta com uma leniência considerável da mídia - algo que certamente nenhum governo petista dispõe ou disporá tão cedo -, encontra-se imerso na mais profunda letargia em seus primeiros cinco meses: agora, a falta de flexibilidade e o gerenciamento pífio dos serviços públicos - sobretudo a inércia na reposição salarial dos funcionários públicos ligados a áreas essenciais -, pode levar a uma temporada de greves em massa com paralisação do metrô, da linha de trens metropolitanos e da Sabesp (companhia de tratamento de água). Em suma, um governo que já nasceu morto como o de Alckmin pode descambar para uma crise gravíssima rapidamente, ainda mais no que toca ao transporte público, gerido aqui por outro secretário-tragédia-anunciada, um velho conhecido, Saulo de Castro Abreu Filho, secretário de segurança pública nos tempos da crise do PCC. Olho em São Paulo, olho do furacão.


P.S.: Aos incautos: os ferroviários cessarão suas atividades na zero hora de amanhã. Preparam-se.


atualização de 01/06 às 21:15: hoje, pararam os trens que vão para a zona leste - e rolará amanhã assembleia geral dos metroviários, o que vai ser fundamental; embora os trens de subúrbio percorram áreas maiores, o metrô é essencial para o funcionamento do núcleo duro da metrópole, se ele parar, pára a cidade. Também arrebentou uma greve nas empresas de ônibus do ABC.


atualização de 02/06 às 15:55: hoje parou tudo em São Paulo. Chega a ser inacreditável a incapacidade negocial do governo Alckmin. E essa gente ainda pensa que consegue governar o Brasil.

sábado, 30 de abril de 2011

A Semi Final do Paulistão

Depois de uma longa primeira fase com suas dezenove rodadas e oito classificados, os quatro grandes do estado confirmaram sua força e se garantiram nas semi-finais. Na maior parte dos estados, ver os grandes decidindo o campeonato é praticamente certo, mas em São Paulo, não. Apesar dos quatro grandes terem se perfilado na semi-final em 2009, isso tinha acontecido pela última vez apenas em 2000. As equipes do interior investem dinheiro, tempo e  todo o seu foco, tratando o torneio como o principal da temporada, o que leva a boas surpresas. E, frise-se, há muito isso não acontece com tamanha vantagem do quatro grandes em relação aos demais - e mesmo que nenhum time do interior tenha montado um elenco verdadeiramente forte desta vez, é bom lembrar que o rendimento dos grandes não deixou mesmo brecha, apesar de algumas oscilações. Hoje, São Paulo e Santos se confrontam no duelo dos melhores ataques, amanhã, Palmeiras e Corinthians no das melhores defesas. Serão bons jogos, sem dúvida. No primeiro, o tricolor leva a vantagem de não só jogar em casa como estar mais inteiro na temporada, enquanto o Santos tenta se equilibrar depois de toda as turbulências internas ou quanto à comissão técnica - e ainda tem um jogo da Libertadores pela frente. No segundo, o duelo entre o verde o alvinegro é mais equilibrado - na primeira fase, o Palmeiras, jogando melhor, foi derrotado com um gol num contra-ataque fatal no fim do segundo tempo -, mas no limite, o time de Felipão parece mais forte em mata-mata como é de praxe.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

O Consenso Brasileiro: Kassab e São Paulo

Na quinta-feira última, ocorreu o sétimo grande ato pela redução das tarifas de ônibus em São Paulo. Trata-se de um intenso processo de mobilização contra a política de transporte do atual governo municipal da capital paulista, o que invariavelmente resvala em um embate direto contra toda lógica do projeto que há quase oito anos dita os rumos da maior cidade do Brasil. O atual mandatário de São Paulo, Gilberto Kassab, surge como o improvável vice de José Serra nas eleições de 2004, assume como vice e, após um ano, ascende à chefia da principal Prefeitura do país, com a esperada saída de cena de Serra para disputar o Governo do estado em 2006 - dentro de uma estratégia que visava à Presidência da República em 2010, projeto que, como sabemos, fracassou há alguns meses. O Kassabismo, como já debatido exaustivamente por aqui, é a reterritorialização definitiva de São Paulo, afinal, não é possível conceber uma amálgama de projetos conservadores maior do que ele: Um pouco da direita "empresarial" ao estilo Afif, o velho Malufismo, o espectro do demismo e a frieza gerencial tucana.

Em São Paulo, ergueu-se um modelo desumano de cidade durante a segunda metade do século 20º, a mais perfeita e acabada expressão urbana do Regime Militar: Uma urbe centrada no transporte individual, no isolamento da massa trabalhadora mal-paga nas periferias e entristecida em tons cinzas e duros. As tentativas humanizadoras de dois governos de esquerda na era democrática tombaram diante da insuficiência dos projetos frente à complexidade do consenso político do núcleo duro local. A cidade, neste exato momento, está esgotada, vítima dessa camisa-de-força urbanística, na ausência de projetos à altura de suas demandas e na obstinação em manter tal projeto em curso. O aumento das passagens de ônibus para R$ 3,00 só segue uma trajetória de reajustes altos de um serviço que está esgotado há alguns anos, mas que no Kassabismo chega a um nível considerável de sucateamento, o que levou à onda de protestos em questão. Esse ato em específico narrado aqui atraiu quase cinco mil manifestantes para a frente da Prefeitura, o que marca um fortalecimento do movimento, um marco importante depois da dura repressão promovida pela Polícia Militar paulista e a Guarda Civil Metropolitana - devidamente coberta neste post lapidar do Tsavkko sobre o 17 de Fevereiro.

A grande questão que se impõe diante dos nossos olhos, para além da manutenção paranoica de um modelo de urbano insustentável - ou mesmo das agruras da repressão e do policialismo - é o consenso que se constrói no país e que tem, pelo seu lado, normalizado variadas formas de relação e convivência francamente opressivas que encontram lastro histórico seja na Ditadura ou em algum ponto mais longínquo da nossa vida enquanto coletividade: Não há indignação, Kassab é, hoje, um quadro disputado a tapas pelas principais forças políticas do país. Em vez de falarmos nesse consenso como elemento de manutenção de algum entulho histórico, equívoco elementar entre equívocos elementares dentre os decorrentes de uma compreensão linear do tempo - que posiciona, por sua vez, a História como uma espécie de marcha forçada -, é preciso trazer essa questão para o terreno da imanência, para o inescapável aqui-agora; não é de manutenção de nada que falamos, mas de um produtor atual de autoritarismo, logo, de obstrução ou mesmo captura da vida por meio do esvaziamento da politicidade - e da possibilidade de problematização e questionamento das coisas inerentes à vida comum, reduzidas cada vez mais a um gerencialismo tacanho.

Essa grande contemporização que se viu, há pouco, com o aprofundamento da aliança entre PT e PMDB e se adensou nos primeiros meses do Governo Dilma ascendem uma luz amarela relevante em relação a uma bola que temos levantado por aqui: O PT produziu mudanças incontestáveis nos últimos anos, mas um dos desfechos possíveis para essa história é ele ser engolido pela situação que criou e padecer esvaziado de seu potencial. A tentativa de aproximar Kassab da base aliada - seja no PMDB, no PSB ou no novo PDB - para desestabilizar o esquema demo-tucano faz algum sentido, mas ele não esgota o direitismo, ao contrário, apenas atinge um de seus tentáculos externos, sem deixar de trazer, paradoxalmente, para dentro do intrincado sistema governista um elemento ele mesmo direitista. Isso é parte da conversa que eu iniciei aqui no post anterior e que rendeu este belo post do Bruno Cava, em relação ao qual eu concordo com grande parte das assertivas e das preocupações, embora não seja tão pessimista quanto à situação atual (o que não quer dizer que eu esteja otimista também) e seja mais cético quanto ao peso da responsabilidade de Lula nisso: A proposta de Governo atual, sob a égide da Carta ao Povo Brasileiro, já é, em si, marcada por uma articulação complexa que caminha no limite entre a contemporização total e  a negociação com variados setores, item  que Lula, apesar de vários arranhões, conseguiu administrar sem cair em uma conciliação geral, embora não tenha conseguido afastá-la por completo também, o que não torna menores suas responsabilidades sobre o que se passa agora.

Apesar dessas nuvens negras no horizonte, o posicionamento de inúmeros parlamentares petistas nas mobilizações contra o aumento das passagens e suas declarações públicas contra o Governo Kassab são relevantes e, esperamos, conseguirão frutificar daqui a um ano na construção de uma alternativa eleitoral verdadeira ao projeto atual - em uma briga dura que passa, aliás, pela superação do coro de contentes dentro do próprio partido. O papel de ativistas das mais variadas espécies precisa, é claro, ser alheio a todo o jogo político-institucional, o qual deve ser reduzido a mero instrumento: É necessário se voltar ao que realmente interessa, a saber, mobilização, atuação, problematização. É preciso pôr o altar do consenso abaixo e isso só é possível de se fazer atuando nas ruas e nas diversas (info)vias da vida.

P.S.: As fotos que ilustram este post são do meu grande amigo Bruno Pegorari que fez essa bela cobertura fotográfica especialmente para O Descurvo. 
* um agradecimento ao Paulo Paiva pela revisão ortográfica.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Feliz Aniversário, São Paulo?

Fundação de São Paulo -- Parreiras
São Paulo é uma das raras cidades da História cuja fundação se deveu à edificação de uma escola - que servia, por sua vez, ao projeto jesuíta, isto é: À expansão do império católico pelos confins do planeta. Nesse projeto, a catequese cumpre sua função de universalizar a figura do sujeito católico, o homem de bem temente a Deus, aquele que está eternamente endividado em relação ao grande Pai Eterno, divino e transcendente, que, por sua vez, descansava nas alturas enquanto era devidamente representado, nesses brasis de meu deus, pelos doutores da Igreja. O genocídio cultural - ou assimilação forçada, se você for dado a eufemismos - enquanto mal necessário na luta pela salvação de almas. Subjetivar para delimitar a capacidade de agir. É em torno dessa invenção aterradoramente genial dos jesuítas que, mais tarde, se organizará um estado do tamanho de um país. Mas São Paulo não é só isso, ele é também o território a ser desterritorializado pelos agentes do despotismo colonizador, bandeirantes que não veem potenciais sujeitos nos nativos, mas apenas objetos - instrumentos úteis ou obstáculos a destruir; ambos os projetos se unem enquanto se contradizem - catequese e pilhagem juntos como causas ambíguas da origem da maior metrópole brasileira. Um corte: A cidade completa 457 anos hoje, perdida entre enchentes, crises políticas e culturais várias - tornou-se tão grande, mas parece tão pequena. Com um potencial maravilhoso, caldeirão de gentes que é, mas tão refém da pequenez do pensamento segregacionista, reterrorializante de uns poucos. São Paulo foi a estandarte de tempos outros, quando se apresentava como modelo para a modernização nacional - numa época em que o moderno ainda era tão sedutor e a nação ainda estava adormecida -, enquanto hoje, procura seu lugar no novo Brasil. A minha São Paulo é aquela que apesar de tudo isso, ainda carrega as sementes de um cosmopolitismo verdadeiro, cujo cultivo pode ser delicado e difícil, mas caso vingue, valerá a pena.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Por um Projeto de Urbanidade: As Enchentes e o Belas Artes

O Belas Artes em 1971
No post anterior, discutíamos o problema das enchentes em São Paulo. Ele é gravíssimo, em poucos dias de chuva - para falar a verdade, depois das primeiras chuvas realmente fortes de todo o Verão -, o resultado são bairros inteiros da Capital alagados, represas abrindo suas comportas, cidades da Grande São Paulo na mesma situação - e outras tantas isoladas por conta da inundação das cidades vizinhas -, inúmeros desabrigados e mortos.  A cobertura jornalística vista desde a publicação do post anterior até agora é pífia, voltada à isenção dos aliados políticos das empresas de mídia e à espetacularização da tragédia para ganhar audiência - o que, por consequência lógica, esconde as causas. Onde é que estão os bons debates sobre a política urbanística das grandes cidades brasileiras? Ou isso seria arriscado demais porque obrigaria a contar a perigosa história que trata, no fim das contas, da materialização geométrica, concreta e mais visível da política econômica, que é a política urbanística? Certamente. 

O outro episódio tão paulistano que reflete a mesma problemática é o fechamento do Cine Belas Artes. Falamos de um cinema de arte com quase sete décadas de vida que está às portas do fechamento por conta de um entrave burocrático quanto à renovação do aluguel, causada pelas dificuldades do dono do cinema em arrumar patrocínio - o que foi resolvido, mas cuja demora provocou a negativa da renovação por parte do dono do prédio. Existem possíveis saídas jurídicas para o caso, mas o cerne da questão é como a atual gestão municipal reproduz essa política urbanísitica tradicional, mostrando um desdém total pela proteção do patrimônio cultural do município - público por excelência e, para além dos locais físicos em que se manifesta, diz respeito a uma construção imaterial e coletiva de afetos (de tão boas lembranças para mim, que assisti ao Segredo de Seus Olhos lá não tem nem um ano...). De repente, o fato desse espaço desaparecer não é encarado, simplesmente, como um problema. Muito embora durante a gestão petista de Marta Suplicy leis de incentivo a esse tipo de atividade tenham sido aprovadas, infelizmente, elas não contemplaram a proteção legal permanente para esses espaços - talvez por não terem antevisto corretamente os riscos de uma velha concepção de cidade retomar o controle da administração pública e simplesmente ignorar a importância da própria cultura, como se vê agora com o inefável Kassab. 

Sim, no Brasil leis precisam ser redigidas sempre baseadas na pior expectativa possível de entendimento judicial e execução de políticas públicas futuras. 

Há quem tenha uma fé cega no mercado e ache que ele resolverá tudo no fim das contas, o que é completamente falso, o máximo que teremos de retorno são as gigantescas salas de cinema de shoppings e seus blockbusters americanos. Há quem pense, pela esquerda, que os recursos públicos não devam ser mobilizados em prol de uma empresa privada, o que é um equívoco muito grande: Confunde-se, assim, a ficção jurídica da propriedade com a função do empreendido junto à coletividade, compactuando com o fechamento de um espaço localizado em um local de fácil acesso, que cobra preços baratos e cuja existência histórica é parte do patrimônio imaterial do município - falo daquilo que diferencia um monte construções de concreto e aço ordenados de uma cidade. 

A ligação entre os dois episódios está, justamente, em um problema que transcende, até mesmo, às críticas aos mandatários tradicionais que ocupam o poder reproduzindo políticas segregativas e desumanas - e forças analogamente reacionárias fora dele -, mas que pode ser definida no seguinte questionamento: Nossas cidades funcionam como e para quem? Essa indagação não é menor nem menos importante do que pensar sobre as abstrações da economia política manifestadas na elaboração da política econômica, mas sim uma forma de enxergar o mesmo processo por outro ângulo. É sair da aritmética para a geometria para falar  do mesmo. Pensemos nisso agora.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

As Enchentes de São Paulo


Foto retirada daqui
São Paulo é o maior município brasileiro e, junto com a população de sua região metropolitana, soma um total de moradores semelhante a um país como a Austrália. Como qualquer metrópole brasileira, os problemas são vários, causados em grande parte pelos anos do desenvolvimento incessante e autoritário dos militares - que, entretanto, surge mesmo com feições mais simpáticas já no Governo Juscelino -, onde assistimos a um esquema que misturava a institucionalização da irresponsabilidade em política econômica, ausência de política social e liberdades políticas e uma industrialização inclemente que unia o capital estrangeiro ao estatal e privado nacional num certo tripé - com os dois últimos dando suporte ao primeiro - na qual o capitão da indústria se uniu definitivamente ao coronel extemporâneo: Enquanto o primeiro dependia de mão-de-obra em larga escala, o segundo precisa se livrar de excedentes populacionais que em poucas décadas levariam a uma pressão insuportável por Reforma Agrária. Os resultados disso tudo são vários, mas do ponto de vista da questão urbana, temos a superlotação das grandes cidades, com verdadeiros anéis de miséria e pobreza se formando em seu entorno, alterando definitivamente a dinâmica da vida urbana brasileira. São Paulo, que nesse período toma o protagonismo nacional do Rio, torna-se um laboratório particular das experiências de política urbana que irão influenciar o país inteiro: Mas é só sob a égide de Maluf, no início dos anos 70, que o projeto será definitivamente delineado; uma cidade construída para automóveis e indivíduos, dentro de uma perspectiva de atomização, cujo propósito é o de reproduzir o jogo do grande capital. Se contra isso se levanta a oposição institucional e pequeno-burguesa por parte do MDB - justo a ala que irá se tornar mais tarde o PSDB -, por outro, os movimentos sociais organizados em torno do PT tentam produzir uma saída contra-hegemônica. As desventuras são imensas, depois da primeira gestão petista - que produziu bons planos e deu frutos, mas não conseguiu construir um projeto transformador à altura da empreitada - vimos o retorno dramático do malufismo, sucedido por mais quatro anos de PT - novamente nos mesmos termos - até ver a transformação do PSDB em um partido cada vez mais tradicional, o que gerou, por vias oblíquas, a ascensão de um político "aliado" como Gilberto Kassab do DEM - herdeiro da tradição malufista e fruto das guerras internas do PSDB entre Alckmin e Serra -, uma figura dotada de um senso de oportunidade e de uma consciência de suas limitações incomuns entre os políticos nacionais. Depois de herdar três quartos do mandato de Serra e vencer uma eleição com enredo de tragédia, o barco segue à deriva, com uma política de moradia sendo traçada para o setor imobiliário, a despeito dos soberbos problemas habitacionais e ambientais do município. A tragédia das enchentes agora é parte disso, o esgotamento físico da cidade causado por uma política que não considera a variável humana ou ambiental, somado às chuvas normais que caem em São Paulo durante o mês de Janeiro. O enredo da trama é o mesmo que vimos nas enchentes da Zona Leste no ano passado. A cobertura seguirá o tom do que o consenso hegemônico imagina que seja mais apropriado para sua auto-preservação e, por conta disso, talvez ainda vejamos matérias lenientes, que  atribuam a São Pedro a desdita, embora a tendência é que os próximos anos sejam mais difíceis para Kassab do que se pensa, principalmente se ele realmente quiser levar a cabo seu sonho de ser o fiel da balança da política paulista, o que pode pôr em risco a atual correlação de forças da política bandeirante.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Brasileirão 2010: Fluminense Campeão

Fluminense campeão -- retirada daqui

Em sua oitava edição no sistema de pontos corridos, o Fluminense sagrou-se campeão ontem na última rodada do torneio. Foi o segundo título brasileiro do time, que só havia vencido em 84, mas que, entretanto, se coaduna com os últimos - e particularmente produtivos - anos do tricolor carioca: Depois do título da Copa do Brasil em 2007, se seguiram vice-campeonatos da Libertadores (08) e da Sul-Americana (09) e, agora essa nova vitória, o que coloca o time das laranjeiras entre os melhores do país nos últimos anos. No papel, com jogadores como Conca, Deco, Fred e Washington e companhia, o Fluminense era mesmo o melhor, muito embora, não tenha conseguido engrenar a ponto de definir logo o título, ao contrário, precisou de todas as rodadas para isso, enquanto se via perseguido pelo Cruzeiro e pelo centenário Corinthians.

O Brasileirão, novamente, teve uma tônica de rali, as rodadas iniciais em um clima de ajustes seja pelas melhores equipes estarem disputando as finais da Libertadores e da Copa do Brasil e início de projetos - o que agravou-se este ano, ainda, pela disputa da Copa do Mundo -, onde quem desviou contornou melhor os buracos e desviou dos abismos se deu bem. E Muricy soube, à sua maneira, fazer seu time aproveitar as rodadas pré-Copa do Mundo e depois administrar o torneio, ajustando a defesa - a melhor do torneio - em um esquema fechado e de certo modo burocrático,  deixando os jogadores de frente livres para definir. O centenário Corinthians acabou prejudicado pelas últimas rodadas, nas quais o Fluminense pegou seus rivais Palmeiras e o São Paulo sem mais pretensões de chegar a lugar algum no torneio.

Dos meus favoritos iniciais, Cruzeiro e Grêmio, depois de uma início particularmente preocupante, se recuperaram, mas não deu - no caso do Cruzeiro, diria que faltou força em um dado momento do Segundo Turno, ao Grêmio, sobraram problemas no elenco, só resolvidos com a tardia chegada de Renato Gaúcho ao comando do time. O Santos já classificado pela Copa do Brasil e desmontado ao longo do ano apenas administrou o torneio e o mesmo vale para o Inter, surpreendentemente campeão da Libertadores e classificado para o Mundial. O Atlético-MG viveu o inferno na terra e quase caiu. Dos rebaixados, a surpresa fica por conta do Vitória, vice da Copa do Brasil, que perdeu o prumo. Goiás, Guarani e Grêmio-SP eram candidatos desde o início.

Aliás, outro destaque fica pela queda de dois paulistas para a Séria B, nenhuma ascensão da Séria B para a A e um mal campeonato de Palmeiras e São Paulo somado a uma participação desinteressada do Santos. Os cariocas, além de levarem com o Fluminense, ainda tiveram o Botafogo disputando com dignidade, apesar do mau desempenho de Vasco e Flamengo. A surpresa positiva mesmo ficou pela boa campanha do Atlético-PR que capengou bastante no início do campeonato.  E o pontos corridos segue como sistema de disputa. Eu, particularmente, não gosto muito. Claro, detalhes como o calendário atravessado atrapalham, mas não me resta dúvida que o Brasileirão era mais empolgante nos tempos em que era disputado em turno único e play-offs. Agora, o campeonato é letárgico como uma palestra chata.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

O Aniversário de São Paulo

Hoje, São Paulo completa 456 anos de idade e não há o que comemorar. Choveu e, para variar, inúmeros bairros ficaram debaixo d'água, aconteceram desabamentos, o transporte público parou ou ficou lento e o trânsito ficou um caos. O problema não é apenas o ridículo de uma cidade desse porte simplesmente parar quando chove forte, mas sim o singelo fato de que pessoas de verdade vão morrer e outras tantas ficaram desabrigadas.

A cidade é um caos urbano. O crescimento maluco do pós-guerra movido à política econômica pau-na-máquina dos militares se concretizou por uma industrialização anormal, a doutrina de privilegiar o transporte individual em detrimento do público e no acúmulo dos trabalhadores em verdadeiros anéis de pobreza estabelecidos na pereferia do município. Some-se isso a intrincada rede de corrupção enraizada na administração pública e temos a expressão do caos.

Se até os anos 80, ainda residia a ilusão de uma vida digna no coração dos milhões de trabalhadores imigrantes que ajudaram a construir a cidade, depois disso, a desagregação social atingiu patamares inacreditáveis. A favela deixou de ser um local de moradia precário, porém temporário para se tornar uma campo de concentração perpétuo. Os aluguéis nos bairros proletários se tornaram impagáveis. Quando a desindustrialização precoce decorrência lógica do processo de industrialização anormal, os políticos ainda vendiam a ilusão de "trazer mais indústrias".

Nesse sentido, setores da esquerda paulistana foram fundamentais na organização de movimentos de moradia. Em geral, falávamos daqueles setores que giravam em torno da esquerda católica que ajudou a fundar o PT e, em menor grau, setores da esquerda uspiana. Mesmo sendo pouco, foi com o apoio desses setores que Luiza Erundina venceu as prévias do PT, contra os interesses da cúpula do partido, derrotando, vejam só, o hoje psolista Plínio de Arruda Sampaio, então candidato da Articulação - numa época em que as bases do PT ainda tinham forças para peitar a cúpula do partido, logo mais, isso mudaria. Erundina ainda venceria Paulo Maluf, a encarnação da direita paulistana, nas eleições municipais.

Claro, Erundina nunca foi perdoada por setores importantes do seu partido. Isso fez uma diferença muito grande quando ela era massacrada pela direita paulistana durante o seu governo - e muitos dos seus correligionários simplesmente não descruzavam os braços, exceto quando era para brigar internamente. A falta de cola administrativa de sua gestão, o jogo baixo dos seus adversários e a falta de coesão interna do partido abriu espaço para a volta da direita no poder, mais especificamente do malufismo - com efeito, um desastre.

Os anos 90 foram um desastre. Sob a égide de Maluf, a corrupção grassava na prefeitura enquanto um modelo urbanista fracassado e já ultrapassado - mas interessante para alguns oligopólios - era mantido. Some isso ao desmonte promovido pelo Governo FHC e por Covas no Governo Estadual - que diagnosticava bem os problemas de São Paulo, mas fracassava nas medidas - e o PIB da maior cidade do país, inclusive, caiu em números absolutos, o desemprego cresceu exponencialmente junto com a pobreza, a miséria e a violência. O terror só piora quando Maluf ainda faz sucessor e elege Celso Pitta na esteira da inépcia da esquerda local. Durante o Governo Pitta, a tragédia ganhou aspectos de comédia.

O PT municipal só ressucitou à luz do descalabro. A atuação corajosa de um José Eduardo Cardozo na Câmara foi fundamental na confrontação que resultou na derrota do malufismo, a duras penas no ano 2000, quando uma certa Marta Suplicy passa para o Segundo Turno contra Maluf e o derrota com o apoio do PSDB covista - talvez no último gesto político de relevo de Covas, que viria a morrer meses mais tarde em 2001.

O Governo Marta foi um misto de boas políticas sociais, a velha falta de coesão administrativa do PT paulistano e certos exageros e imprudências. Isso custou a derrota petista em 2004 para um Serra, disposto a usar aquela eleição como um trampolim para seu renascimento político - o que implicaria na sua volta ao jogo da disputa pela Presidência da República, o que se confirmou.

Curiosamente, Serra vence com um vice desconhecido, um obtuso deputado do ex-PFL chamado Gilberto Kassab que herda quase que um mandato inteiro, quando Serra, naturalmente, pula do barco e vai disputar o Governo do estado - saindo-se bem-sucedido novamente, pelo menos do ponto de vista eleitoral. Kassab toca mantém certas características do Governo Marta, pára outras e as contradições essenciais do município continuam sendo mais do que empurradas com a barriga: Elas são acirradas.

Kassab derrota uma desgastada Marta e um decrépito Alckimin graças a mais um jogada de mestre de Serra que assim afirmou sua liderança dentro do partido. A história daí em diante, você já deve conhecer. Enquanto os confrontos eleitorais entre os partidos burgueses se segue, a população vive mal. Hoje, 57% da população gostaria de se mudar. Só agora, tanto tempo depois, as pessoas descobrem que Kassab é um mal prefeito.

A cidade é isso, uma pequena quantidade de bairros burgueses e pequeno-burgueses, mantidos pelos trabalhadores que moram em bairros decadentes na periferia - ou mesmo na hiperperiferia da região metropolitana. A cultura é uma cópia do mass culture global e uma tentativa de réplica da erudição europeia. São Paulo incomoda porque ainda tem potencial de ser algo melhor, mas não é e só será quando a ideologia bandeirante - o processo bárbaro, incessante e imoral de civilização - for superada.



 

sábado, 26 de setembro de 2009

São Paulo: A Terra dos Intelectuais Silenciosos

(Um retrato ilustrativo do que é a São Paulo de hoje)

São Paulo é o mais populoso e rico estado da nossa federação. Ele Responde por 30% da nossa riqueza e por pouco mais de 20% da nossa população. No entanto, para além dos devaneios provincianos que ainda alimentam os espíritos pueris, o estado tem uma série de problemas e sim, eles são culpa dos próprios governantes do estado e não do Brasil - que exploraria o estado, afinal, de acordo com uma opinião não rara, especialmente entre os paulistanos, é de que só aqui se trabalha enquanto o resto do país é habitado por indolentes (e perdulários) apedeutas. Por detrás desses governantes, claro, há todo um fenômenos social e político com origens estruturais e com implicações equivalentes.

O estado em questão, por mais importante que seja, não tem como viver só, isolado do resto do país - é de um provincianismo morbidamente ingênuo; para cá aportam matérias-primas de todo país, aqui se processa e se remete para o mercado consumidor nacional;também se concentram inúmeras empresas do setor de serviços que trabalham com logística em relação à atividades de todo o país; em suma, acreditar em asneiras separatistas bandeirantes é tão genial quanto acreditar que o seu fígado, por mais importante que seja, possa sobreviver fora do seu corpo para sempre.

Se o tivesse de citar os maiores problemas de São Paulo hoje resumidamente, levantaria as questões do mórbido provincianismo que se vê nas cidades pequenas e médias do interior - que vêm puxando o desenvolvimento do estado sozinhas há muito tempo, mas não sei até quando -, enquanto na capital, que sozinha representa mais de um quarto da populalação e une em seu entorno uma região metropolitana que representa mais da metade da população e do PIB estadual, se sente um certo ar de putrefação proliferar em virtude de uma burguesia e uma pequena-burguesia profundamente tecnicista e inculta que não enxerga o processo de lumpenização voraz nas periferias - essa decadência cultural é refreada apenas por alguns bolsões de resistência intelectual que ainda restam, enquanto o fenômeno de degradação da classe trabalhadora só foi arrefecido pelos programas sociais do Governo Federal.

Para além de uma juventude que participa de movimentos sociais - sejam universitários ou não -, a crítica está morta no estado. Um modo de vida meramente mimetizador do american way of life mesmo no bairro operário de outrora. A vida nos condomínios e nos prédios de classe média para cima adquire cada vez mais o é tocado adiante; A periferia da região metropolitana, por exemplo, se expande; nos anos 90, boa parte dos operários que se viram sem empregos se viram obrigados a, literalmente, construir favelas no entorno da capital porque não havia mais dinheiro para pagar aluguel, mesmo nos bairros tradicionalmente proletários. Os condomínios onde vive a classe média ganhar cada vez mais, caráter de bolha, de afastamento do espaço público - e a distancia entre os jovens que são criados nesse sistema, por assim dizer, de confinamento, se torna anos-luz de distância aos seus pares nas periferias, mesmo que apenas alguns quilômetros os separe de fato.

As famílias nucleares patriarcais centralizadas na figura do pai operário profissional que bancava a educação dos filhos, entrou em colapso não por sua superação, mas sim por uma profunda crise de valores decorrente do esmagamento do trabalho pelo Capital naquela década maldita; o alcoolismo entre os pais de família desonrados, na medida em que foram criados numa cultura de dignificação pessoal por meio do trabalho - explodiu e implodiu milhares de famílias, gerando como decorrência lógica, o aumento da prática de crimes pelos jovens, um no consumo de drogas por parte da juventude pobre e o crescimento violento de casos de gravidez na adolescência. A Escola Pública, falida pelos sucessivos governos tucanos, se mostra incapaz de resolver os seus próprios problemas, sendo lar de uma classe magisterial cabisbaixa, sufocada economicamente pelos péssimos salários e pelas humilhações nas mãos da tropa de choque a cada greve.

A chamada classe média, por sua vez, se cala. Os setores conservadores preferem se fechar num autismo social jocoso e colocar a culpa no Brasil, nos favelados, nos negros, no Lula-aquele-presidente-analfabeto e em quem mais vier - afinal, sempre é cômodo pôr a culpa em minorias, não é mesmo? Por outro lado, a problemática local é ignorada até mesmo pelos setores da esquerda; de repente, os problemas da escola pública e da saúde são considerados como problemas nacionais ao invés de padrões nacionais - e a problemática constitucional dos governos estaduais em relação a essas áreas se esvai -; a esquerda paulista pensa sempre em patamares nacionais, mesmo que também desconheça bastante o país sobre o qual tenta falar - pelo menos não o ignora ou o acusa como faz a direita -, mas o aspecto local da problemática social nunca enfatizado, não podemos admitir os problemas estruturais do nosso estado, pega mal.

Dentre os poucos espaços de resistência cultural e de pensamento contra-hegemônico, como em boa parte das faculdades da UNICAMP, nas federais, nos campi da UNESP e, mais emblematicamente, na gloriosa FFLCH, a Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, vê-se um estranho distanciamento e alienação do debate entre marxistas x pós-estruturalistas em relação à realidade da periferia logo ali do lado. O único meio intelectual que tradicionalmente sempre esteve menos alheio à realidade que pretendeu mudar foi, de fato, a esquerda católica, situada na PUC-SP, mas que hoje se encontra em frangalhos graças a atuação da Igreja - e a intervenção na PUC é uma prova suficientemente clara disso.

Mesmo sendo um dos estados onde mais se enraizou algo parecido com uma cultura burguesa, eu vejo em São Paulo, mais até do que em muitos estados agrários, uma obsessão contra o debate público; não se pode se discordar de ideias sob pena de ser considerado ofensivo ou você se cala ou assente; também não é possível ser irônico, pois corre-se o risco de pensarem que você fala a verdade. Colocar essa foto aí em cima para ilustrar o que é São Paulo, meus caros, gera uma celeuma não apenas entre os setores que se dizem de direita, mas entre a própria esquerda - de quem eu já ouvi coisas do mesmo naipe de um "ame o Brasil ou deixo-o"; vejam vocês que eu mesmo tirei essa foto no norte Região Metropolitana de São Paulo; é tão São Paulo quanto a Avenida Paulista é, no entanto, é mais fácil dizer que isso é exceção enquanto ela é regra - quando, na verdade, é exatamente o contrário. Sejamos honestos no momento de criticar São Paulo, chega de tapar o sol com a peneira e de fingir que isso daqui é Primeiro Mundo, basta de achar que pega mal criticar tudo isso; é o silêncio dos intelectuais que projetou toda essa monstruosidade que por ora se manifesta na forma do serrismo, não nos calemos, por favor.


terça-feira, 28 de julho de 2009

Reflexões sobre a Política de São Paulo

Pegando o período de 88 para cá, temos um quadro interessante no estado. Paralelamente ao processo de redemocratização - pelo menos no aspecto formal -, São Paulo prossegue no seu ritmo alucinante de transformações econômicas, mas desta vez, o viés é oblíquo na região metropolitana: Se a região se tornou superpopulosa principalmente nos anos do regime militar a desindustrialização dela resulta numa hecatombe social.

Por outro lado, o interior, depois de passar anos vendo sua população emigrar para a Capital, acaba não padecendo dos problemas urbanos dela - ou não na mesma intensidade -, movido pelo crescimento da agroindústria e recebendo muitos investimentos que fogem da Metrópole, ele passa a ser o motor do crescimento do estado, o que, no entanto, não significa muito: Em um período em que o país se encontra no refluxo do modelo desenvolvimentista, com baixas taxas de crescimento e altos índices de inflação, o estado cresce menos do que a média nacional.

Nesse quadro, tivemos a divisão das forças políticas quase de maneira perfeita entre direita, centro e esquerda:

1.Um terço se alinha no campo conservador, saudoso dos tempos da ditadura e ainda crente de que é o modelo industrialista que vá salvar a economia local. Esse grupo se alinha com o Malufismo, corrente demagógica personificada na figura de Paulo Maluf, o herdeiro político da ditadura no estado assim como ACM no nordeste.
2.Polarizando com esse grupo, temos a esquerda, que finalmente sai do campo restrito da Academia com o advento do novo sindicalismo nos fins dos anos 70 - que já refletia a preocupação dos trabalhadores com o fenômeno de desindustrialização. São um grupo heterogêneo que por vezes briga entre si, mas é unido pela repulsa à Ditadura Militar e a preocupação com os direitos sociais. O PT, naquele momento, é o grande catalisador dessas forças.
3.Temos, por fim, o centro. Ele é formado por pessoas que são céticas demais em relação ao que foi a Ditadura, mas que por outro lado, não são socialistas. Nesse momento histórico, o PMDB, histórico representante dessa ala já começa a ser aparelhado pelo Quercismo e o PSDB já se forma, vindo a ser herdeiro dessa tradição nos anos 90.

Enfim, são essas três forças que vão se equilibrar no poder dali em diante: O Malufismo, o Tucanismo (ao centro com o Covismo) e o Petismo. É esse equilíbrio político-partidário tênue conjugado com os ditâmes da desindustrialização da região metropolitana, avanço do interior e favelização urbana que, a via de regra, explica os resultados das eleições de lá pra cá.

Pegando especificamente a capital, temos um vitória inesperada de Luiza Erundina em 88. É o momento em que se afirma o terço esquerdista - e mesmo que o eleitorado de centro ainda não considerasse votar em um candidato de esquerda, a ausência de segundo turno favoreceu a candidata do PT. O governo Erundina é um emaranhado de boas intenções, traz um secretariado de peso (com figuras como Marilena Chauí e Paulo Freire), mas esbarra nas brigas internas dos campos do PT e numa inoperância interna. Os efeitos disso são desastrosos: Maluf é eleito prefeito em 92 e faz sucessor em 00. A decadência econômica da cidade que não é contida pelo Governo Erundina é catalisada pela administração Malufista: A cidade encolhe e empobrece nos anos 90.

Paralelamente a isso, o Quercismo deixa um estado em frangalhos e Mário Covas vence e inicia o aquele que seria o longo período do PSDB no estado. Se elege e reelege em meio a tensão Malufismo x Petismo e em 1998, vence com o apoio providencial de Marta Suplicy que disputou voto a voto com ele a vaga no Segundo Turno contra um ainda poderoso Maluf. Essa aliança se repete em 00 nas eleições municipais na Capital, quando Marta passa pelo candidato tucano Geraldo Alckmin e vai disputar com Maluf o Segundo Turno - do qual sai vitoriosa.

As vitórias de Marta e Covas jogam a direita paulista na maior crise de sua história: Graças a elas, o Malufismo implodiu. Eis que a grande mudança de rumo acontece e muda o panorama: Covas morre e os caciques tucanos manobram o partido para a direita pra abraçar o antigo eleitorado malufista. O vice de Covas, Alckmin, é manobrado pelos oligarcas do interior e o PSDB rapidamente se torna o partido conservador do estado. É nessa condição que ele entra nas eleições de 2002 e que o partido se estabelece desde então - e marca a vitória de Alckmin contra Genoíno no estado. Marta perde em 2004 para um Serra que foi varrido por Lula nesse clima. 2006 é o ano em que Suplicy é o único petista a vencer no estado, frente as derrotas de Mercadante e Lula no estado para Serra (agora como governador) e Alckmin (na presidencial que Lula acaba vencendo). Em 2008, Marta perde para Kassab numa eleição estranha, onde o Serrismo começa a se autonomizar em relação ao Tucanismo.

Teses como as de Chico Oliveira que falam em um certo teto em São Paulo são um engano. A desindustrialização da capital não podem ser o início do fim da esquerda no município, pois esse campo político se afirma politicamente devido a iminência desse fenômeno. Mas ela exige um novo modo agir para os mais variados setores da esquerda, haja vista que estamos uma realidade que não é mais industrial e dificilmente voltará a ser. Eleitoralmente falando, o que hoje é o eleitorado tucano mais raivoso e extremista era justamente aquela ala que votava em Maluf nos anos 90 - e não necessariamente o eleitorado covista clássico -, portanto, a explicação de um conservadorismo crônico do estado que muitas vezes é levantado por alguns petistas, nada mais é que uma cortina de fumaça para campanhas mal-feitas, brigas internas intermináveis e a falta de elaboração de políticas públicas voltadas para o estado - ou uma crítica mais decisiva sobre os (muitos) problemas do estado gerados ou não resolvidos no longo governo tucano. Também é um paradoxo, porque aponta que o eleitorado mais antigo do PSDB é justamente aquele que é mais propenso a votar no PT numa eleição e é o mais volátil - o que também diz muito sobre a fragilidade do partido azul e amarelo.

Por ora, os três campos permanecem emparelhados.