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| A bela líder estudantil Camila Vallejo |
Se o mundo vive tempos particularmente agitados, o Chile, pauta frequente por aqui, deve ser o ponto culminante do continente hoje. Dono de riquezas minerais incalculáveis nos Andes, o país conseguiu construir a partir disso uma sociedade bastante desenvolvida para os padrões sul-americanos sob um marco essencialmente liberal - ao contrário do Brasil moderno, apesar dos governos Collor e FHC tenham tentado subverter o ethos social-democrático da Constituição de 1988 em sua infância. Tornamos a repetir aqui: isso chegou ao seu limite. O liberalismo chileno está posto como política de Estado e nasceu do golpe que instituiu a Ditadura Pinochet - e dentro desse campo, trata-se de um experimento sofisticado; o ponto é que a funcionalidade de uma dada política só pode ser verdadeiramente mensurada na época da crise: e sistemas muito liberais padecem justamente pela falta de medidas de contingências quando as crises vêm, algo perfeitamente normal dentro do Capitalismo (que, em si, é uma crise social e, embora sua racionalidade econômica possa ser duradoura como prática, ela sempre estará exposta a crises cíclicas). O que nos interessa aqui hoje é um ponto específico desse momento: as revoltas estudantis que estão a parar as escolas e universidades do país, angariando franca adesão dos estudantes, professores, reitores e diretores bem como de toda a sociedade civil - para o horror do governo Piñera que vê sua aprovação desabar. Para colocar a cereja no bolo, enquanto as autoridades chilenas tropeçam como amadoras ao enfrentar a situação com dura repressão policial, do outro lado ascende Camila Vallejo Dowling, presidenta da Federação dos Estudantes da Universidade do Chile (FECH), um verdadeiro fenômeno político na forma de uma belíssima estudante de geografia de 23 anos, comunista, inteligentíssima, articulada, apaixonada e apaixonante - o pior dos mundos para a direita chilena. A questão central da problemática educacional chilena é simples: lá, a educação é praticamente toda privada, mercantilizada e bastante cara. Isto é, quem não pode pagar precisa se endividar para poder estudar e, ainda, a transformação da educação em negócio produz um óbvio desvio de finalidade no qual a formação dos estudantes torna-se um mero detalhe em um jogo voltado para o lucro - e, por favor, não confunda "lucro" com "entradas", é evidente que não há almoço grátis, mas a educação depende de um financiamento que sustente sua existência e lhe permita realizar a finalidade de formar cidadãos, o que é bem diferente de usar escolas e universidades como meio de ganhar dinheiro, pois aí, a finalidade torna-se tirar excedentes monetários (usados livremente pelo capitalista, a despeito das demandas estudantis ao mesmo tempo em que mensalidades são fixadas voltadas para esse fim, o que ainda reproduz desigualdades sociais) e não usar um patrimônio para educar crianças e jovens. Esse é um problema não muito estranho aos nossos ouvidos brasileiros, pois o passivo de universidades mercantis legado pelos anos FHC é o grande nó górdio da educação superior do Governo Dilma - o que não se resolve apenas com a retomada de investimentos nas universidades federais - ao mesmo tempo em que, ainda por cima, vivemos às voltas com a desgraça da Escola Pública. Por outro lado, o êxito das mobilizações estudantis chilenas - que envolveram toda a sociedade - são um tapa na cara do movimento estudantil brasileiro, que há muito tempo está preso em práticas herméticas, tornando-se incapaz de dialogar com os próprios corpos estudantis que representam, imagine só com a sociedade. Se o futuro da esquerda chilena é fundamental para o continente, os rumos do movimento estudantil são a pedra de toque do processo.
