É uma questão bastante complexa, pois goste-se ou não, o Governo Cubano mantém sim presos políticos bem como uma repressão à liberdade de expressão na ilha - e é bom não confundirmos alhos com bugalhos: Essa questão não se mistura ao fato da ilha ser vítima de um embargo comercial criminoso por parte da maior potência econômica do planeta ou, muito menos, se relaciona às conquistas sociais (e a manutenção delas) ali registradas desde a Revolução de 59.
Teoricamente, a manifestação em favor das damas de branco, toca num tabu de grande parte da esquerda brasileira que é a defesa integral de tudo que vem do sistema cubano - e ainda, inteligentemente, ataca a questão do embargo. Claro, pesam a profunda contradição de uma central sindical conservadora, ligada sim ao bloquinho PSDB-DEM-PPS, resolvendo tomar partido de uma questão ligada aos direitos humanos, basta ver a vista grossa em relação a toda a questão humanitária que tais partidos, na prática, façam - basta ver a própria ligação do bloquinho com organizações como a União Democrática Ruralista, defensora do velho direitos humanos para humanos para humanos direitos (ou nem isso). Isso aqui sem falar na proposta do seu presidente, Ricardo Patah de que Cuba merece uma perestroika: Ninguém merece, seja troika ou perestroika, tudo aquilo foi um grande desastre por ser, no fim das contas, uma forma de construir um país, e depois de reconstruir um país. mediante decisões verticais e altamente centralizadas.
O ato resposta, dito "em defesa de Cuba", por outro lado, se mostra um tanto confuso, pois não é exatamente a defesa da ilha que está em jogo, mas uma opção política de seu governo. As pautas da manifestação serão a defesa da Revolução Cubana, do princípio da auto-determinação dos povos, do fim do bloqueio midiático à Cuba e, por último, direitos humanos praticados em Cuba. A confusão é enorme:
1. Há uma diferença crucial entre ato em defesa de Cuba e ato em defesa do Governo de Cuba;
2. A questão da defesa do princípio da auto-determinação dos povos não vem ao caso aqui, o país não está tendo sua soberania ameaçada, mas sim está tendo políticas suas criticadas - há um caminho enorme entre ambos bem como não há princípios absolutos. Temos, inclusive de ponderar que sem a devida liberdade expressão e eleições livres, é difícil imaginar como o povo cubano esteja se determinando. Isso, sem falar que é uma muleta retórica cômoda silenciar o debate acerca de um problema interno usando-se desse truísmo;
3. Criticar o bloqueio midiático à Cuba é perfeitamente válido, mas também só uma parte da verdade, pois é necessário que se critique também o bloqueio que o próprio governo cubano impõe ao seu povo;
4. Não é possível defender direitos humanos defendidos em nenhum lugar em específico, direitos humanos não pertencem à nações, eles se estabelecem como um imperativo ético mínimo que implica em uma prática de proteção à vida de todos os seres humanos. Em Cuba, essa defesa é mais complicada ainda, porque a humanidade" parece estar sendo determinada de acordo com o lado que você está do governo.
Tais posições, em uma primeira vista perfeitamente nobres, as são parciais e expressam a profunda confusão da direita e da esquerda brasileira sobre Cuba que se extende há mais de cinquenta anos: Grande parte da direita brasileira, longe de defender uma forma de liberalismo ou de democracia-cristã dignos, sempre se viu como mero alto-falante de setores atrasados que viam na forma como a Revolução Cubana se deu um precedente que ameaçava seus interesses direitos assentados em práticas arcaicas, demonizando a ilha. Por outro lado, a esquerda sempre errou em santificar o modelo cubano, realizando uma análise romântica ao invés de extrarir suas conquistas e ser dura com seus equívocos.
