| O Belas Artes em 1971 |
No post anterior, discutíamos o problema das enchentes em São Paulo. Ele é gravíssimo, em poucos dias de chuva - para falar a verdade, depois das primeiras chuvas realmente fortes de todo o Verão -, o resultado são bairros inteiros da Capital alagados, represas abrindo suas comportas, cidades da Grande São Paulo na mesma situação - e outras tantas isoladas por conta da inundação das cidades vizinhas -, inúmeros desabrigados e mortos. A cobertura jornalística vista desde a publicação do post anterior até agora é pífia, voltada à isenção dos aliados políticos das empresas de mídia e à espetacularização da tragédia para ganhar audiência - o que, por consequência lógica, esconde as causas. Onde é que estão os bons debates sobre a política urbanística das grandes cidades brasileiras? Ou isso seria arriscado demais porque obrigaria a contar a perigosa história que trata, no fim das contas, da materialização geométrica, concreta e mais visível da política econômica, que é a política urbanística? Certamente.
O outro episódio tão paulistano que reflete a mesma problemática é o fechamento do Cine Belas Artes. Falamos de um cinema de arte com quase sete décadas de vida que está às portas do fechamento por conta de um entrave burocrático quanto à renovação do aluguel, causada pelas dificuldades do dono do cinema em arrumar patrocínio - o que foi resolvido, mas cuja demora provocou a negativa da renovação por parte do dono do prédio. Existem possíveis saídas jurídicas para o caso, mas o cerne da questão é como a atual gestão municipal reproduz essa política urbanísitica tradicional, mostrando um desdém total pela proteção do patrimônio cultural do município - público por excelência e, para além dos locais físicos em que se manifesta, diz respeito a uma construção imaterial e coletiva de afetos (de tão boas lembranças para mim, que assisti ao Segredo de Seus Olhos lá não tem nem um ano...). De repente, o fato desse espaço desaparecer não é encarado, simplesmente, como um problema. Muito embora durante a gestão petista de Marta Suplicy leis de incentivo a esse tipo de atividade tenham sido aprovadas, infelizmente, elas não contemplaram a proteção legal permanente para esses espaços - talvez por não terem antevisto corretamente os riscos de uma velha concepção de cidade retomar o controle da administração pública e simplesmente ignorar a importância da própria cultura, como se vê agora com o inefável Kassab.
Sim, no Brasil leis precisam ser redigidas sempre baseadas na pior expectativa possível de entendimento judicial e execução de políticas públicas futuras.
Há quem tenha uma fé cega no mercado e ache que ele resolverá tudo no fim das contas, o que é completamente falso, o máximo que teremos de retorno são as gigantescas salas de cinema de shoppings e seus blockbusters americanos. Há quem pense, pela esquerda, que os recursos públicos não devam ser mobilizados em prol de uma empresa privada, o que é um equívoco muito grande: Confunde-se, assim, a ficção jurídica da propriedade com a função do empreendido junto à coletividade, compactuando com o fechamento de um espaço localizado em um local de fácil acesso, que cobra preços baratos e cuja existência histórica é parte do patrimônio imaterial do município - falo daquilo que diferencia um monte construções de concreto e aço ordenados de uma cidade.
A ligação entre os dois episódios está, justamente, em um problema que transcende, até mesmo, às críticas aos mandatários tradicionais que ocupam o poder reproduzindo políticas segregativas e desumanas - e forças analogamente reacionárias fora dele -, mas que pode ser definida no seguinte questionamento: Nossas cidades funcionam como e para quem? Essa indagação não é menor nem menos importante do que pensar sobre as abstrações da economia política manifestadas na elaboração da política econômica, mas sim uma forma de enxergar o mesmo processo por outro ângulo. É sair da aritmética para a geometria para falar do mesmo. Pensemos nisso agora.

