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sexta-feira, 6 de julho de 2012

América Latina: Sai o Paraguai, entra a Venezuela, México muda.

O cenário latino-americano agita-se como há tempos não acontecia. O golpe branco no Paraguai, que derrubou Fernando Lugo da Presidência, produziu efeitos pesados - diretos e colaterais - sobre a ordem sul-americana, tanto pela suspensão do país da Unasul e do Mercosul - no caso último, por meio do mesmo protocolo cuja assinatura serviu de pretexto para os golpistas - quanto por isso ter aberto a possibilidade da Venezuela ter ingressado no bloco - o que se confirmou nesta semana, mas não tinha acontecido até hoje pela ação do parlamento paraguaio, cuja agenda, ocidentalista e pró-americana, bloqueava a entrada da República Bolivariana. Mais ao norte, o México viu a contagem e a recontagem dos votos de sua eleição presidencial, com a vitória do conservador Peña Neto do PRI, depois de doze anos de governo do liberal PAN.

A curiosa permuta entre Paraguai suspenso e a Venezuela, patrocinada sobretudo pelo Brasil, é mostra de insatisfação do Brasil contra os congressistas do vizinho, que depois de anos bloqueando movimentos de expansão do Mercosul - que é amarrado de forma bastante rígida, exigindo unanimidade entre os Estados-membro para muitas espécies de decisão -, agora resolveram partir para a ofensiva contra o processo de integração, destituindo Lugo de forma inconstitucional sobretudo pela sua atuação pró-Mercosul. Para Hugo Chávez, que é novamente candidato à Presidência da Venezuela depois de ter se recuperado de um câncer, trata-se de uma vitória importante, porque facilita mais ainda o acesso do país à produção alimentícia de Brasil e Argentina - tendo em vista, ainda, que a economia venezuelana é plenamente complementar a do Mercosul, além de ser uma das principais do continente.

A suspensão do Paraguai do Mercosul, inclusive, abre espaço para mais transformações no bloco, com a possibilidade de uma aproximação maior do bloco da China, coisa que também não aconteceu porque o país vizinho não reconhece a China Popular, mas sim apenas Taiwan, o que impedia negociações do bloco com Pequim. O ponto é que com uma suspensão de algo em torno de um ano do Paraguai, as movimentações em torno de uma aproximação com a China podem ter um ritmo frenético, o que pode aumentar certas diferenças que Brasil e Argentina possuem sobre como lidar com o gigante vermelho do ponto de vista do comércio internacional. 

No mais, os líderes golpistas paraguaios parecem estar dispostos a aumentar a tensão contra a Unasul e o Mercosul, o que pode tornar a suspensão do país em ambas as organizações - por unanimidade, diga-se - em um processo sem volta. O isolamento internacional do governo de facto é, por enquanto, enorme, e nem mesmo Washington o reconheceu - estranhamente ou não, os únicos países a legitimarem o golpe foram a Espanha, a Alemanha e o Vaticano; trata-se de um eixo pouco usual de ratificação a golpes, embora a Espanha, sempre que governada pela direita, tenda a apoiar golpes na América hispânica, mas quanto a Merkel, trata-se de uma decisão surpreendente e estranha (um desagravo ao Brasil?).

Fernando Lugo, por sua vez, resolveu ir para a ofensiva contra e agora entrou com recurso na suprema corte paraguaia contra o golpe, manobra que não deve surtir efeito em si, mas é necessária como meio para levar a questão à Corte Interamericana de Direitos Humanos - onde ele tem grandes chances de piorar mais ainda a situação dos golpistas.

O México, por sua vez, assistiu há quase uma semana o seu processo eleitoral. O país permanece distanciado do resto da América Latina e superdependente dos Estados Unidos e a eleição de Enrique Peña Neto (PRI) não há de mudar substancialmente isso, embora marque um corte importante, uma vez que rompe o ciclo de doze anos de reformismo liberal do PAN e um retorno à tradição da política mexicana. Foi a saída que os mexicanos produziram depois da falência do país por meio da aplicação da agenda do PAN, que não é incomum ao que, por exemplo, a direita brasileira propõe: resolução da questão das drogas ao estilo guerra às drogas, ultra-liberalização da economia e  aproximação visceral com os Estados Unidos.

Embora longe da Presidência há doze anos, o PRI dá as cartas no Congresso local há um bom tempo, possuiu larga maioria na Câmara dos Deputados e foi um importante bloco no Senado durante o governo Calderón (PAN), com uma atuação que passa pela sistemática manutenção do status quo mexicano - isto é, sempre resistente a reformas mais profundas no sistema mexicano, sejam mais à direita ou à esquerda, o que nada mais é a tônica com a qual o partido governou o México por sete décadas, exceto talvez pela guinada ultra-liberal que ele deu no final dos anos 80 no governo Salinas de Gortari, mas que depois reverteu, voltando apenas ao fisiologismo centrista habitual.


A campanha de Peña Neto, bancada por velhos oligarcas desalojados do poder, é um fenômeno de propaganda semelhante ao que elegeu Piñera no Chile, não só na forma como no possível desfecho: o novo presidente mexicano é uma figura fraca e torpe, cujo carisma pessoal dificilmente será suficiente para mudar o fato que é pouco preparado para as demandas que se impõem. Naturalmente, os problemas mexicanos atuais são muito mais graves do que de qualquer outro país importante da América Latina, o que torna tudo pior. 


Novamente, a exemplo de 2006 - quando uma enorme sombra de fraude pairou sobre o processo eleitoral e lhe prejudicou -, a esquerda mexicana obteve uma votação maciça, com López Obrador do PRD obtendo 31% dos votos contra 38% de Peña Neto (no México, não há segundo turno nas eleições majoritárias), mas mesmo a grande capacidade de mobilização e a potência do discurso de transformação não conseguiram furar a barreira eleitoral e suas armadilhas - isso mesmo levando em consideração, inclusive, o tamanho do movimento #YoSoy132, uma verdadeira primavera mexicana, que embora apartidário, confrontou abertamente a velha política mexicana e, talvez por isso, também a figura pessoal de Peña Neto.                                                                                   


Peña Neto começa esgotado sem ter largado, enquanto os movimentos de reivindicação ganham força, mas é preciso acirrar a estratégia e furar o fortíssimo bloqueio imposto por uma das mais resilientes oligarquias do continente.


Elas por elas, a crise mexicana não tem data para terminar, enquanto a aliança de governos de esquerda que fizeram a América do Sul optar pela outra via da bifurcação saiu fortalecida do episódio paraguaio, mas ainda há muita água para rolar e inúmeros problemas para resolver e outros tanto aumentando. A ver.




quarta-feira, 27 de junho de 2012

Paraguai e o Estado de Exceção

Há poucos dias, o Presidente do Paraguai, Fernando Lugo, foi impeachmado de uma forma pouco usual: acusado pelo parlamento por meio deste Libelo, ele foi removido do cargo em algumas horas, sem direito à defesa ou maiores cerimônias. Contra si, foram feitas acusações vagas de improbidade administrativa - cujas provas seriam de "pública notoriedade" para usar os termos do Libelo - e, até mesmo, de ter atentado contra a soberania do país por conta da assinatura do Protocolo de Ushuaia II - que visa à instituição de um Conselho do Mercosul para dar efetividade à cláusula democrática do bloco, constante no Protocolo de Ushuaia I (1992).

Seu recurso junto à Suprema Corte do país foi negado prontamente. A votação do parlamento  foi velocíssima - e nem podemos dizer que uma questão fundamental central como essa foi decidida em rito sumário, uma vez que Lugo não teve, simplesmente, acesso à defesa. O fato da assinatura do Protocolo de Ushuaia II ter feito parte da acusação, por si só, denuncia a intenção dos parlamentares: trata-se de um movimento claro de reação ao processo de integração do continente, intensificado nos últimos anos pela agenda social e democrática das forças que chegaram ao poder em toda a América do Sul - no Paraguai, inclusive. 

Nada mais falso do que afirmar que isso é um assunto interno do Paraguai. Não é, simplesmente. Os países do Mercosul, assim como Chile e Bolívia, estão submetidos a uma cláusula democrática, que é uma forma de controle externa necessária para proteger cada um dos membros da sanha golpista, comum a todos eles - e que jamais se manifestou de forma isolada, consistindo sempre em um efeito dominó. A democracia na América do Sul, é assunto continental, pois nacionalmente é impossível defendê-la, haja vista que as ameaças contra ela, jamais foram isoladamente nacionais.

Essa cláusula surgiu formalmente com o movimento integrador que foi imediatamente posterior à redemocratização do continente - sobretudo com a aliança Sarney-Alfonsín - e ganhou substância com a ascensão eleitoral de forças de esquerda e centro-esquerda, anti-neoliberais, na América do Sul do século 21º - o que resultou em Ushuaia II. Uma vez que todos dependem da integração comercial e política, qualquer um que viole essa cláusula pode ser sancionado.

Aliás, Lugo é vítima desse processo por suas virtudes e não por seus defeitos: é ele o homem que rompeu com décadas de governo do Partido Colorado, a expressão máxima do parasitismo oligárquico do país, e agora ensejava fazer a reforma agrária no país, cuja situação no campo consegue ser pior do que nos demais países da América do Sul - somado ao fato de que o Paraguai é um Estado praticamente do século 19º, como se vê pela própria arrecadação estatal, que sequer chega a 15% do PIB.

Por mais sutil que pareça o movimento, com sua aura de legitimidade digna de um pastiche, é óbvio que um chefe de Estado não está submetido a um juízo de conveniência do Parlamento em parte alguma. Contra ele, se submete um processo atípico, que é o Impeachment, cuja competência para julgar embora caiba ao Parlamento, deve seguir o rito de um processo judicial ordinário - e constitui-se o Impeachment contemporâneo em um processo híbrido, judicial e político, cujo exercício sempre força o Direito ao seu limiar. Enfim, é sobre um golpe de Estado que estamos falando.

O problema não está simplesmente em uma violação da Lei, mas sim no problema definitivo do Direito, que é a decisão final. A tradição moderna institui, para neutralizar leis e decisões (administrativas e judiciais) incorretas, o controle de constitucionalidade, ainda assim, caberá a alguém decidir o que é constitucional ou não - e, como bem sabemos, um juízo formal pode aceitar rigorosamente tudo, até o pior dos absurdos. A questão central não se trata daquilo que deve ou não ser ratificado pela Autoridade Suprema, mas sim aquilo que ela pode ratificar como constitucional  - não se trata, por óbvio, de um problema de cumprimento ou não da Lei (ou das leis democráticas ou anti-democráticas) como ingenuamente propôs o filósofo uspiano Vladimir Safatle em recente artigo.

Como neutralizar uma decisão inconstitucional chancelada que, na prática, institui, sem sangue ou barulho, um golpe de Estado? A conjuntura sul-americana atual, como descrito, permite que haja um controle superior, por parte dos demais Estados signatários de Ushuaia II, mas só a atuação real dos governos do continente, quase todos apoiados pelos movimentos sociais de seus países,  é que  pode alterar essa situação - tal como a atuação da multidão nas ruas paraguaias e sul-americanas. E não basta apenas garantir a reversão do golpe, é preciso empenho interno e externo pela democratização do Paraguai, o que demanda, por exemplo, o Desbloqueio das Listas eleitorais - algo equivalente às Diretas Já no Brasil.

P.S.: Agradecimentos à minha amiga e militante Giuliana Bonilla pela ajuda inestimável na produção deste post - e, também, pelo envio deste vídeo.

P.S. II.: A postura dos governos de Venezuela e Argentina no episódio é lapidar, mas o governo brasileiro segue titubeante. 


P.S. (d.b.): O Apoio do PSDB ao golpe de Estado paraguaio só demonstra que pior do que está, fica. 




domingo, 24 de julho de 2011

Copa América: Uruguai Campeão

Suárez, o craque da Copa América 11 - Reuters
Agora há pouco, o Uruguai venceu o Paraguai por 3x0 e se sagrou não apenas campeão da Copa América como também ultrapassou a Argentina em número de títulos daquele torneio: A Celeste Olímpica tem, agora, 15 títulos contra 14 dos argentinos. Desde que o torneio assumiu o formato atual, com sede fixa, em 1987, os uruguaios venceram pela terceira vez, contra uma vitória da Colômbia, duas da Argentina e cinco do Brasil. O título uruguaio, com três vitórias e dois empates - eliminando ainda a dona da casa Argentina -, foi a consagração da geração de Forlán e Suárez, responsáveis por tirar o futebol do seu país do atoleiro; depois de uma suada classificação para o mundial da África do Sul, Forlán foi o craque da última Copa e ainda levou sua seleção à melhor classificação dentre os times sul-americanos. Agora, foi a vez da Celeste ratificar isso numa disputa regional. E que não se diga que a Copa América não tem importância: é o maior torneio de seleções da América do Sul e, nesta edição, todos os sul-americanos participantes levaram seus times principais. Sim, o futebol de Brasil e Argentina ainda tem mais diversidade que o do Uruguai, mas nenhum dos dois tem onze jogadores para montar um time tão equilibrado nem um grupo tão unido e funcional. Óscar Tabárez é o melhor treinador do continente, manuseia o que tem nas mãos com muito mais naturalidade e habilidade do que seus rivais diretos, Mano Menezes e Sergio Batista, que tropeçam nas próprias pernas. Desta vez, Suárez superou Forlán e foi o craque do torneio - um centroavante como há muito o Brasil não forma. O Paraguai, um vice que não venceu - foram quatro empates e uma derrota -, espanta pela superação; é um time ciente de suas deficiências e capaz de marcar durante os noventa minutos, modo pelo qual quase eliminou a campeão mundial Espanha nas quartas da última Copa do Mundo e como eliminou o Brasil este ano. A Copa América encerrada prova que o futebol mundial atual, no qual a profissionalização está universalizada e todos se encontram na arena global da Europa, não dá mais espaços para campeões de véspera: vence quem é mais determinado e coeso e, hoje, ninguém é mais do que o Uruguai na América do Sul.

P.S.: No que toca ao jogo em si, foi uma atuação de gala do Uruguai, não transmitida pela ignóbil TV aberta em prol de um Brasileirão que nem deveria ter datas em Julho. Os três gols da Celeste foram lindíssimos: Suárez costurando a zaga do Paraguai num rebote para, depois, chutar cruzado e tirar do ótimo goleiro guarani Villar; Arévalo desarmando Ortigoza para achar Forlán que chutou com perfeição; contra-ataque com Suárez enfiando de cabeça para Forlán matar o jogo.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Copa América: Uruguai e Paraguai Decidem

Pois nem só de Villar vive o Paraguai.
Ontem, a Seleção Paraguaia eliminou, nos pênaltis, a Venezuela - que dominou o jogo, meteu bolas na trave, mas terminou eliminada graças ao goleiro adversário, Justo Villar, que agarrou uma de suas penalidades. Seu adversário é o Uruguai, que depois de ter eliminado a dona da casa Argentina, venceu o Peru por 2x0. Uma final justíssima e que já se desenhava no horizonte  devido ao atual momento de Brasil e Argentina. A atual geração do futebol uruguaio, sob o comando do excepcional  Óscar Tabárez,  conseguiu tirar a tradicional camisa da celeste de um limbo de frustrações e mediocridade à qual parecia estar condenado eternamente. O Paraguai, por sua vez, tem demonstrado há anos uma seriedade ímpar na montagem do seu time nacional e nas disputas em que se envolve: nenhuma outra nação sofreu tamanha violência de seus vizinhos quanto aquela, nenhum outro país do continente é tão achincalhado quanto, mas as últimas décadas tem reservado ao futebol paraguaio melhor sorte com classificações para a Copa do Mundo e boas campanhas lá - resultados, a bem da verdade, que se devem menos à roda da fortuna e muito mais a trabalho e vontade. O Uruguai, hoje, é o time nacional mais técnico do continente, só que o Paraguai é o time mais copeiro. Eu apostaria na Celeste, embora com Justo Villar nessa fase - e com Larissa Riquelme a inspirar o time -, não descarte um título paraguaio.   

P.S.: E cá no Brasil, como nos conta o sempre atento André Egg, o Brasileirão entra numa fase de definições. A vitória do Corinthians sobre o Botafogo no Rio é bem relevante: o time alvinegro crava uma marca espetacular de mais de 90% de aproveitamento em 10 jogos, o que é o equivalente a dar uma volta nos seus adversários. Isso dá um conforto imenso à equipe e pode fazer com que, se mantida a mera estabilidade nas próximas rodadas, a equipe de Parque São Jorge passe a administrar o torneio como fizeram Cruzeiro em 2003 e São Paulo em 2006. São Paulo, Flamengo (ainda invicto) e Palmeiras seguem na perseguição direta, mas estão longe.


domingo, 17 de julho de 2011

Seleção Avícola Depenada nos Pênaltis (Ou "É Tudo Culpa do Dunga")

Elano isola  (M. Sayão/EFE) assim como fizeram André Santos e Fred
Agora há pouco, o Brasil foi eliminado da Copa América, nos pênaltis, pelo Paraguai. E foi grotesco. A seleção canarinho perdeu os quatro pênaltis que bateu - um, vamos dar o devido desconto, o ótimo goleiro paraguaio Villar pegou. Isso tudo depois de um jogo amarrado, no qual o Brasil dominava, mas finalizava com o desdém, a falta de firmeza e a despreocupação que caracterizam esse time. Neste blog, sempre buscamos escapar da patriotada no que toca à cobertura da Seleção, mas o viés, é claro, sempre foi de apoio - apesar de todos os pesares - ao time nacional. No entanto, dessa vez foi difícil: na campanha de três empates e uma única (e pouco convincente) vitória, o Brasil de Mano Menezes não apenas não conseguiu jogar bem como não atraía a mínima simpatia; é um time pretensioso demais para muito pouco, em grande parte porque seu treinador se dobra aos consensos da imprensa esportiva - sobretudo da Globo - em vez de montar um time competitivo - ao contrário do que fazia Dunga, dono de um aproveitamento espetacular à frente da Seleção, mas que jamais se vergou aos achismos dos pitaqueiros de plantão, o que lhe valeu um verdadeiro apedrejamento midiático - ainda mais quando cortou privilégios da poderosa rede de televisão que monopoliza a cobertura do escrete canarinho. Mano, a melhor revelação no comando técnico do futebol brasileiro nos últimos anos, preferiu fazer o caminho inverso do seu antecessor e deu com os burros na água: depois de um breve período sendo incensado pela mídia, agora assistirá ao desembarque dos seus "apoiadores", uma vez que não deu resultado mesmo fazendo o que eles achavam certo. Essa eliminação, como a de ontem da Argentina frente ao Uruguai, demonstra a decadência do futebol das duas maiores escolas sul-americanas, fato sobre o qual alertamos lá atrás, no  post sobre o começo da Copa América. Não que o futebol uruguaio não viva um renascimento ou o Paraguai, sempre menosprezado pelos seus vizinhos, há tempos não venha fazendo boas campanhas, mas é preciso ponderar que esse fenômeno se trata do encontro de duas curvas: uma, a das duas potências decadentes, a outra, a do crescimento de Uruguai e Paraguai junto à profissionalização das demais seleções. Esses resultados, portanto, foram tão justos quanto Justo é Villar, o melhor jogador em campo hoje.

P.S.: O Chile pode ter um time que joga um futebol alegre - foi o melhor da primeira fase -, mas seria interessantíssimo se a Venezuela levasse a outra partida das quartas (ora em disputa).

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Brasil: Apesar dos Frangos, a Vitória

Um dos frangos de Julio Cesar
Enfrentando um Equador bem longe do brilho de alguns anos atrás, quando conseguiu se classificar por duas vezes consecutivas para a Copa do Mundo (2002 e 2006), a Seleção Brasileira venceu por 4x2 e se classificou para a 2ª fase da Copa América. A única coisa que chamou a atenção em um jogo estranho como esse foi, sem dúvida, os dois frangos sofridos por Julio Cesar - sempre incensado, mas apenas um bom goleiro (e um ótimo político, convenhamos). Dessa vez, pelo menos, o time de Mano Menezes conseguiu executar jogadas de ataque de forma mais ou menos coerente, embora a marcação adversária tenha ajudado bastante. Maicon, que não sei por quais cargas d'água estava no banco, voltou à titularidade e mostrou o quanto Daniel Alves está longe de ser tudo isso. Que a torcida não se engane: o Brasil se classificou vencendo apenas e tão somente o pior time do grupo e só empatando - na bacia das almas - contra Venezuela e Paraguai. Agora, terá pela frente novamente a seleção paraguaia num confronto no qual só é ligeiramente favorito. A Copa América está completamente em aberto, Brasil, Argentina e Uruguai, as três forças do continente, tiveram uma primeira fase igualmente ruim, vencendo apenas as piores equipes dos seus grupos. Mesmo com uma avenida de oportunidades pela frente, seleções como Chile e Colômbia não aproveitaram tão bem assim a falta de concorrência. A Venezuela, cujo futebol se profissionalizou há pouquíssimos anos, conseguiu a classificação e é a sensação do torneio - agora pega o Chile, elas por elas dono do melhor futebol da primeira fase, e o vencedor desse jogo enfrentará quem levar de Brasil e Paraguai. Argentina e Uruguai, pelas contingências do destino, se enfrentam já nas quartas de final próximo sábado com tênue favoritismo para os donos da casa - e o vencedor enfrenta quem levar Colômbia x Peru, com favoritismo dos colombianos. Nada de animador para o futebol brasileiro. Bem longe de quem terá (a pressão) de sediar um Mundial em Casa.

P.S.: Das poucas atrações da Copa América, a cobertura feita pelo convalescente Hugo Chávez, via twitter, da seleção de seu país é das coisas mais engraçadas de um torneio tão mal resolvido como esse.

sábado, 9 de julho de 2011

Acorda, Mano Menezes

Fred se prepara para fazer o gol de empate -- lancenet
O Brasil empatou, na bacia das almas, agora há pouco por 2x2 contra o Paraguai. Tudo tedioso e previsível. Vejamos o caso de Robinho, por exemplo: a imprensa esportiva o linchou ao longo de toda a semana e, adivinhem só o que o treinador do time nacional, o Sr. Mano Menezes, fez? Sacou Robinho do time. Dá até depressão a maneira como o promissor Mano Menezes, das grandes revelações do futebol brasileiro para comando técnico, se apequenou na Seleção Brasileira, tornando-se um mero escravo dos holofotes do sistema Globo/CBF/Patrocinadores. A questão que resta é saber se é possível ser diferente hoje em dia, com Ricardo Teixeira, o chefão da CBF, se achando uma entidade intangível, na medida em que se aproxima a Copa do Mundo no Brasil e que mesmo com a revelação de um sem número de escândalos seus, as autoridades nada façam contra ele. E Teixeira é, no final das contas, a pedra de toque disso tudo. O jogo em si, portanto, é o que menos importa. Um treinador brasileiro inseguro, uma boa porém arrogante seleção e o Paraguai que mesmo sendo inferior, compensa isso jogando de forma aplicada - e Brasil e Paraguai hoje, não se esqueçam, são equipes no mesmo nível; ambos chegaram até às quartas de final da última Copa do Mundo e pararam diante dos dois finalistas daquela competição. Os paraguaios, espertos, falam em guarani para confundirem seus rivais e em tempos em que todos reproduzem o 4/2-3/1 como esquema, eles vão lá, enfiam duas linhas de 4 para anularem seus rivais e posicionam dois (bons) atacantes fechados para apanharem o contra-ataque quebrando a sobra de bola do rival. Uma boa jogada, mas única boa jogada ofensiva que o Brasil caiu por duas vezes.  Quando a derrota brasileira parecia certa, até a Globo desembarcava do seu fiel Mano Menezes - com Casagrande mudando de opinião sobre a boa entrada de Elano; Casão, pelo menos, se manteve na mudança, mas Galvão mudou de lado de novo, lançando rapidamente o "Copa América é assim mesmo, gente". Mas como sabemos, é tudo culpa do Dunga, aquele técnico ranheta.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Hoje Começa a Copa América

Há quem diga que a Copa América, cuja 43ª edição começa hoje na Argentina, é um torneio sem importância. Bobagem. Seleções nacionais jogam poucos torneios oficiais e os que existem sempre são importantes. Dizer que só a Copa do Mundo vale algo é o tipo de argumento que só dura até o momento em que o Brasil perca, ou perigue não ganhar, alguma dessas competições. E temos vencido com frequência, apesar dos vexames nos dois últimos mundiais, somos os bicampeões da Copa América e da Copa das Confederações - e ai se não fossemos. Agora, é claro que disputar um título na casa do maior rival futebolístico dá um tempero interessante à competição. 

Brasil e Argentina são duas das principais escolas de futebol do mundo, senão as principais, e possuem um histórico equilibradíssimo de confronto entre si. O problema é que o enquanto o primeiro se livrou da síndrome de vira-lata frente aos grandes da Europa há muito - até antes de 58, se pensarmos bem -, a Argentina, embora dominasse as competições continentais de clube e de seleções, tremia diante de camisas italianas, inglesas ou alemãs. É verdade que isso muda um pouco nos últimos anos, pouco a pouco o Brasil passou a se impor no cenário continental, vencendo seguidas copas américa e levando boas taças libertadores, enquanto os argentinos mirraram. 

Embora tenham vencido 14 das 42 edições da Copa América, a última vitória argentina - e último título da seleção profissional - foi em 1993, enquanto de lá para cá o Brasil venceu cinco edições. Se considerarmos a Copa América em sentido estrito, desconsiderando os antigos campeonatos sul-americanos, o Brasil bate a Argentina por 5 a 2 - e o próprio Uruguai aparece com 3 títulos. No futebol clubístico, embora a Argentina tenha vencido 22 edições da Libertadores contra 15 do Brasil, nas últimas dez edições, o Brasil venceu 4 torneios contra 3 da Argentina - e enquanto times brasileiros diferentes levaram a Libertadores nos últimos anos, boa parte dos trunfos argentinos se deve ao fenômeno Boca Juniors, ora arrefecido.

A geração de Messi, que ficou aquém do esperado no mundial africano, tem, em seus gramados, mais do que um mero desafio de autoafirmação geracional, mas uma responsabilidade tremenda de fazer a Seleção Argentina voltar a ser vitoriosa e, quem sabe, reverter a curva que aponta para a decadência do futebol daquele país. Não que a situação brasileira seja fácil; também com uma jovem geração em campo, o país se vê às voltas com a obrigação de montar um time forte para disputar o mundial que sediará em 2014, um desafio tremendamente árduo, não resta dúvida.

E o Brasil se vê às voltas com a sombra de uma decadência em seu futebol não muito diferente do que passe a Argentina há quase vinte anos. Desde a globalização, clubes brasileiros largaram atrás dos europeus - e continuam se distanciando, apesar da grave crise econômica europeia -, os jogadores saem cada vez mais cedo do país e a reposição já começa a não ser tão fácil. O mundial de 2002 foi vencido por um time que era, em sua metade, formado por jogadores que atuavam no Brasil. Nas duas (fracassadas) copas seguintes, o time era integralmente de jogadores que atuavam na Europa, podemos dizer que foi a campo uma seleção de brasileiros e não uma Seleção Brasileira - nas duas edições, chegamos apenas nas quartas de final.

Se o Brasil passou a ocupar no cenário local a hegemonia, certamente isso se deve aos espaços deixados pela própria Argentina e por um força inercial. A redução da força verde-amarela começa a ser sentida no cenário mundial. Pior, o que se projeta é cada vez menos animador, faltam jogadores para posições importantes, o que pode se tornar um problema sério, tendo em vista que o próximo mundial será disputa aqui: a vitória será vista como obrigação, uma derrota, será uma tragédia de proporções inimagináveis.

É nesse clima que a Copa América será travada em gramados argentinos, tendo o adendo do renascimento do futebol uruguaio, que levará a campo o melhor time sul-americano do último mundial, sob o comando de Forlán e Cavani - equipe perigosíssima e sem maiores problemas para derrotar Brasil ou Argentina como a própria história prova. Os paraguaios seguem sob o comando de Gerardo Martino e, como nos lembra a Copa da África, podem muito bem criar belos problemas. 

No papel, o Brasil tem o melhor time, ainda que lhe falte um grande goleiro - Julio Cesar, me desculpem, é só um bom goleiro -, um lateral-esquerdo e um centroavante - de repente, Pato pode aproveitar a chance de ficar com a abandonada 9, embora não seja um goleador. A defesa verde-amarela, no entanto, é bem melhor do que a Argentina. Agora, o Uruguai me parece a equipe mais funcional. Se tivesse de apostar, apostaria no Brasil, ainda que com uma pulga atrás da orelha.

P.S.: A Partida inaugural será hoje entre Argentina e Bolívia, o Brasil estreia no domingo contra a Venezuela.

sábado, 3 de julho de 2010

Notas da Copa: Alemanha e Espanha


(Schweinsteiger e Villa vibram)







A América do Sul colocou quatro equipes nas quartas de final, mas terá apenas um time seu na semi-final. Os três europeus passaram adiante. O único resultado que fugiu à normalidade foi a vitória holandesa diante de um Brasil que apagou no Segundo Tempo e tomou a virada. De resto, hoje assistimos à Argentina tomar uma goleada da Alemanha (4x0) e o Paraguai, valente, sendo eliminado pelo placar mínimo frente à Espanha. Os placares mais parecem ter sido invertidos. De qualquer modo, assistiremos agora à repetição da final da Euro 08 com o jogaço entre Alemanha e Espanha enquanto a Holanda, precocemente eliminada naquela ocasião, pegará o improvável Uruguai - uma boa equipe, mas que necessitará que o espírito do Maracanaço se abata sobre essa Copa.

Pela manhã, prevaleceu a bola cantada: A Alemanha, cuja jogada forte é pelas pontas, pegou uma Argentina, cujo calcanhar-de-aquiles eram as laterais. O conflito pelo domínio do meio, que eu esperava ser mais disputado, resultou numa vitória alemã, com demasiada facilidade. Foi assim que surgiu o lance do primeiro gol. Falta em cima de um ponta Podolski, falta cobrada pelo segundo volante Schweinsteiger e gol do outro ponta, Müller. Tentativa de reação do time argentino durante todo o primeiro, mas a boa zaga alemã salvava, enquanto o quarteto Di Maria, Messi, Higuaín e Tévez abusava da individualidade. Segundo tempo. Ou a Argentina fazia o gol de empate ou tomava o segundo. A Alemanha contra-ataca e faz 2x0. Ali o jogo acabou. O resto foi o desequilíbrio da Argentina resultando em mais dois gols germânicos com Klose se aproveitando para passar Ronaldo na artilharia das Copas. 4x0. Tristeza de Maradona.

Depois, Espanha contra Paraguai. Gerardo Martino, um grande técnico, armou bem a retranca paraguaia, fez seu time marcar sob pressão a Espanha mostrando a deficiência da defesa espanhola em saber sair jogando, chances iguais no primeiro tempo e um gol mal-anulado do seu time. A Espanha parece se restringir a Villa. O resto do time joga bem, mas se o seu camisa 7 não decidir, nada feito. O Paraguai teve a bola do jogo com Cardozo, mas a estrela de Casillas brilhou e ele defendeu o pênalti. Em seguida, pênalti para a Espanha defendido por Justo Villar. As equipes não quiseram administrar para levar para a prorrogação e partiram para fazer o que, na prática, seria um gol de ouro: Num gol chorado, ele, Villa fechou o placar. Passadas chances desesperadas do Paraguai, não convertidas pela falta de categoria dos seus atacantes, acaba o jogo.

Repeteco da final europeia. Para mim, os espanhois precisaram jogar tudo que não jogaram até agora. Os alemães denotam uma certa dificuldade contra times que sabem encaixar a marcação e ter volume de jogo, mas não contra equipes que se lançam ao ataque e, ao meu ver, eles têm tudo para conseguirem a desforra. Do lado de lá, a brava celeste, sem Lugano e Suárez, terá um confronto quase impossível contra a Holanda. Dois germânicos contra dois latinos, três europeus e um intruso sul-americano. As três melhores equipes da Europa contra o mais improvável sul-americano.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Notas da Copa: Julho e a Análise das Quartas de Final

Primeiro de Julho. Estamos por volta da metade do primeiro dia da metade final do ano. Mês passado, em ritmo alucinante, estivemos diletando sobre a Copa sem tirar o olho das movimentações eleitorais - ou eleitoreiras, sabe-se lá, mas que elas foram um tanto mais agitadas do que supunha, isso sim. As férias e um ligeiro - porém gratificante - sacrifício da minha vida social contribuíram para que eu achasse tempo. Agora a Copa desacelera e se adensa, o que já não era sem tempo, seja pela qualidade do torneio que aumenta ou porque a overdose de jogos já deu; ontem e hoje foram os dois primeiros dias sem jogos desde que o torneio quadrienal começou, amanhã, começam as quartas de final. Acertei sete dos oito palpites das oitavas. errei só a classificação de Gana sobre os EUA - enfim, Milovan Rajevac pegou a mim e aos gringos de supresa, modificou a forma de sua equipe jogar e despachou o escrete americano e o pé-frio do Clinton de volta para os states.


Agora, o jogo muda. Se antes estava relativamente fácil para acertar os jogos, agora, longe disso. Tirando Espanha x Paraguai, partida na qual a diferença entre as equipes é relativamente grande, acertar pelo menos um dos outros três confrontos é tarefa para quem entende de bola. Ainda que se deva comemorar as quatro vagas sul-americanas nas quartas, é bom abrir o olho, porque os europeus que continuam no torneio são justamente os três melhores times daquele continente. Vamos às análises:


Uruguai x Gana


Pois bem, os uruguaios são a grande supresa da Copa, seja pela eliminatória que fizeram, os resultados na Copa América e demais amistosos - a previsão mais otimista em relação ao time de Oscar Tabárez era de que chegasse, com algum esforço, às oitavas. Pois bem, chegou às quartas em plenas condições de avançar mais. Muslera, apesar das falhas contra a Coreia do Sul, faz uma boa Copa,  Máxí Pereira é um dos três melhores laterais-direitos, Lugano e Godín estão em grande fase, Fucile tem se esforçado, os Areválo e Pérez marcam muito no meio, os dois Álvaros (o Pereira e o Fernández) sabem articular o jogo e, no ataque, o time se segura bem: Como Forlán pela esquerda, Cavani pela direita e Luís Suárez no comando de ataque, a equipe segue marcando gols - normalmente, Forlán volta e complementa o meio de campo, mas Cavani também pode fazer isso. Em suma, trata-se de um time que alcançou se ápice no momento exato em precisa fazê-lo. Pelo seu lado, Gana é o único time africano que restou no torneio, faz sua segunda Copa e avançou em relação à primeira: Se em 2006 o time parou nas oitavas de final frente ao Brasil de Parreira, agora a seleção avança uma casa e disputa as quartas. Para mim, Milovan Rajevac é, até o presente momento, melhor técnico da Copa - em uma competição marcada pela mesmíce tática e pela incapacidade dos treinadores trocarem algo um pouco diferente de seis por meia dúzia, Rajevac foi um dos poucos a conseguir adaptar a forma de sua equipe jogar às necessidades, saindo do seu habituall 4/2-3/1 para enfiar um 3/4/3 em e assim dar um nó tático em Bob Bradley, o hábil treinador americano. A seleção africana tem um bom goleiro, Kingson, e deve voltar ao seu esquema habitual frente a um Uruguai que joga com três na frente: Pantsil que quando necessário vira zagueiro volta para a lateral-direita, os dois Mansah formam uma zaga forte, Sarpei marca bem pela esquerda, embora não apóie e, no meio, encontramos os destaques do time: Annan é fundamental para o time jogando na marcação, Boateng marca e chega de trás, Asamoah arma e sabe atacar pela ponta-direita. Na frente, Ayew, pela esquerda, é a revelação do time, Gyan é preciso no comando de ataque e Tagoe, eventualmente, quebra o galho pela ponta-direita. No duro, o ataque uruguaio leva vantagem sobre a defesa de Gana, mas a briga pelo controle do meio promete ser boa e nela, fisica e até tecnicamente, os africanos são um pouco superiores - enquanto na briga entre o ataque de Gana e a defesa uruguaia, a celeste leva ligeira vantagem. Há quem diga que ser capaz de controlar o meio é o diferencial para a vitória, mas veremos no que dá num jogo onde a equipe que perde no meio é superior nos dois extremos. Honestamente, é jogo para triplo, a ligeira superioridade técnica da celeste é compensada pela motivação do adversário - que deve contar com a torcida a seu favor. Para não ficar em cima do muro, aposto no Uruguai, na dureza, nem sei se no tempo regulamentar.


Brasil x Holanda


Falamos aqui do confronto de duas das melhores seleções dos últimos quatro anos. O Brasil venceu tudo. A Holanda, pos sua vez, teve o quadriênio que só não foi perfeito pelo desastre frente a uma imprevisível Rússia nas quartas da Euro 08 - o time liderado por Arshavin jogou tudo o que jamais jogou (nem voltou a jogar) contra a Laranja e a despachou de forma doída. Na Copa, o Brasil chegou com dois dos seus melhores longe da excelência fisíca - casos de Júlio César e Kaká -, enquanto outros jogadores tiveram problemas ao longo da competição - casos de Robinho, Felipe Melo e Júlio Bapstista, além de Elano, criminosamente vitimado por um jogador marfinense dois minutos depois de feito seu gol na vitória brasileira por 3x1. Apesar disso, Dunga consegue fazer um bom trabalho, com alguns eventuais deslizes, mas que, até agora, funcionou nos momentos decisivos: Seu time joga num 4/2-3/1 como a maior parte dos times já a algum tempo, Júlio tem pegado bem no gol, Maicon é o melhor lateral-direito da Copa, Lúcio e Juan formam uma dupla de zaga primorosa - que teve algumas desatenções na primeira fase, mas tecnicamente é mais capaz do que qualquer miolo de zaga nesta Copa -, Michel Bastos é o ponto fraco da equipe pela lateral-esquerda; no meio, Gilberto Silva compensa com inteligência as sus limitações físicas - e rendeu melhor quando no lugar do travado Felipe Melo atuou ao seu lado Ramires, o que infelizmente não pode se repetir pela suspensão do bom camisa 18 do Brasil - e Kaká, ainda que pareça não estar 100%, sempre que entra no jogo, faz toda diferença; na frente, Elano era um peça essencial ao esquema, atacando pela direita e voltando para compor o meio, sua saída foi suprida por Daniel Alves, que apesar da partida razoável contra o Chile não correspondeu contra Portugal - nem quando entrou antes -, Luís Fabiano não estourou, mas soube marcar gols nos momentos decisivos e Robinho finalmente desencantou na última rodada, mas tem feito partidas taticamente corretas. A Holanda de Bert Van Marwijk não tem o brilho de outrora, tentando jogar de forma mais eficiente do que bela para ganhar o título que sua bela tradição de jogo bonito nunca foi capaz de levar - ainda que muito do futebol opaco da equipe nesta Copa se deva menos a alga tática em especial do que ao desempenho dos seus jogadores; o o mal dessa equipe está numa disposição morna dos atletas que alternam entre o feijão-com-arroz e alguns lampejos. A equipe venceu os três jogos da fase inicial sem muito esforço - o primeiro contra uma Dinamarca pesada, o segundo com a ajuda da Jabulani contra o Japão e o terceiro contra um já eliminado Camarões - e sofreu mais do que o esperado frente a Eslováquia nas oitavas.  Stekelemburg é bom nome no gol, Van der Wiel é sóbrio, mas lhe falta um tanto de arte pela lateral-direita, a zaga é baixa e se não compromete também não acrescenta, Van Bronckhorst é aquele velho poço de vontade;  no meio, De Jong e Van Bommel marcam bastante e tocam rápido a bola, mas não tem grande qualidade, dedicando-se a carregar o piano para Sneijder jogar - o meia, ainda que não tenha estourado nesta Copa, é o maestro do time, com seus passes precisos, belos lançamentos e boas chegadas; na frente, Robben voltou ao time pela ponta-direita e é o outro destaque, Van Persie no comando de ataque e Kuyt pela direita são bons jogadores, mas longe de ser craques. Diante de seus enormes desfalques, Dunga deve manter Daniel pela direita até para liberar Maicon para o ataque, o que aumenta a responsabilidade de Kaká pelo meio e Robinho pela esquerda, o problema está mesmo com o fato de Robben atacar pelo setor que Michel Bastos defende e do time, depois de ter arrumado Ramires pelo meio, tê-lo perdido, restando poucas opções no elenco. Setor por setor, o defesa brasileira leva vantagem sobre o ataque holandês - apesar desse pequeno detalhe que pode acabar decidindo o jogo -, a meia-cancha de ambos se equivalem - pelas contingências - e o ataque brasileiro é melhor que a defesa laranja. Jogo duro, aposta numa vitória apertada do Brasil. 


Alemanha x Argentina


Único jogo que envolve dois campeões mundiais, trata-se da maior atração das quartas. O time alemão dirigido por Joachim Löw é um dos melhores do quadriênio, a equipe, depois de uma das suas maiores crises de renovação da história, usou o mundial passado, o qual sediou, como forma de projetar jovens jogadores e começar a seleção do zero. Deu certo. O time arrancou uma terceira colocação e depois fez um bom quadriênio - sendo vice da última Euro - e fazendo boas campanhas nas últimas duas eliminatórias. Nesta Copa, a Alemanha caiu num grupo bem disputado, surpreendeu a todos jogando o fino da bola contra a Austrália, depois, mais surpreendemente ainda, foi anulada pela Sérvia que lhe derrotou para depois, num jogo tenso, vencer por 1x0 Gana e se classificar - nas oitavas, eliminou a Inglaterra sendo superior em campo, embora tenha sido favorecida pela arbitragem. A Argentina, já há muito se ressente da falta de títulos, sendo que na última Copa foi eliminada, nos pênaltis, por essa mesma Alemanha, iniciando um ciclo doloroso, onde Alfie Basile fracassou no comando da equipe, cedendo lugar para que o astro maior do seu futebol assumisse o time: Maradona voltou e conseguiu contornar momentos difíceis, emplacando uma classificação dura em quarto lugar nas eliminatórias - para uma Copa onde foi premiado com um grupo relativamente simples, onde venceu os três jogos sem muita pressão dos adversários e, quando finalmente topou com um desafio, também acabou ajudada pela arbitragem que validou um gol ilegal de Tevez contra o México - o que além da vantagem no marcador, desestruturou o time adversário. Equipe por equipe, a Alemanha joga num 4/2-3/1 muito parecido com o Brasil: Neuer, seguro, é o goleiro, a defesa tem Lahm pela lateral-direita - disputando com Maicon o título de melhor jogador da posição -, Mertesacker e Friederich formando uma zaga bem concisa, Boateng (o alemão) marcando bem esquerda, ainda que não seja nenhuma virtuose; no meio, Khedira e Schweinsteiger são os volantes - combinando força física, bom toque de bola e inteligência tática - enquanto Özil é o maestro do time - forte candidato a melhor armador da Copa; pelas pontas, Müller, técnico e veloz, é presença forte pela direita e Podolski, com sua categoria e precisão, domina a esquerda e, no comando de ataque, Klose continua sendo matador, eficiente por baixo e muito bom por cima. Já a Argentina, atua também num 4/2-3/1, com algumas peculiaridades: Romero, não muito seguro é o goleiro, Otamendi quebra o galho pela lateral-direita e o mesmo faz Heinze pela esquerda, enquanto Demichelis e Burdisso formam a zaga depois da contusão de Samuel; no meio, Mascherano faz uma excepcional Copa como primeiro volante e Maxí Rodríguez disputa a outra vaga na marcação com o experiente Verón; mais adiante, Tévez joga mais fixo na ponta-esquerda, mas Messi e Di María  se alternam entre o meio e a direita, abastecendo Higuaín. O ataque ainda não jogou o (muito) que pode, mas a defesa dá sustos e faltam laterais. No confronto, o ataque alemão leva vantagem ampla sobre a zaga argentina, no meio, será travado uma das mais qualificadas disputas dessa Copa, o ataque argentino é capaz de infringir dor a qualquer defesa desse torneio e isso vale também para a boa defesa alemã. Em suma, o time germânico parece mais equilibrado, enquanto a Argentina é superior nas individualidades - e no carisma de Maradona -, falamos de duas seleções vencedoras que há muito amargam um jejum em Copas, jogo para quádruplo - um palpite para cada possibilidade, outro para o improvável -, mas já que estamos no inferno, então que ousemos dar uma tapa no diabo: Ainda que eu torça para a Argentina , a Alemanha é favorita por um fiozinho de cabelo, mas não duvide de prorrogação ou pênaltis aqui.


Espanha x Paraguai


A Espanha é o segundo melhor time do mundo dos últimos quatro anos. Venceu a Euro para a qual se classificou depois de boa eliminatória, fez uma boa eliminatória para a Copa, mas rodou na Copa das Confederações contra o time americano. Na atual Copa, tomou um susto logo de cara ao ser neutralizada pelo ferrolho suíço - e derrotada por um gol de contra-ataque -, mas recuperou-se ganhando de Honduras - outra gloriosa retranca, em relação a qual não conseguia golear apesar do amplo domínio - e depois venceu o Chile, em jogo duro, que garantiu sua classificação em primeiro no grupo para confrontar seu arqui-rival Portugal nas oitavas - jogo que venceu como nos demais: Amplo domínio, mas poucos gols, placar magro de 1x0. O Paraguai é, desde os anos 90, um futebol em franca ascensão, joga defensivamente, marca muito é organizado em campo e, mesmo não formando meias criativos, tem lá seus atacantes -  time do técnico argentino Gerardo Martino liderou o início das Eliminatórias Sul-Americanas, mas depois perdeu duas posições, para Brasil e Chile, ainda que tenha ficado apenas um ponto abaixo do líder. Time por time, a Espanha de Vicente del Bosque joga num 4/3/3, com Casillas no gol - grande goleiro, ainda que não esteja no auge -, uma defesa modesta porém esforçada formada por Sergio Ramos pela lateral-direita, Puyol e Piqué pela zaga, Capdevilla pela lateral-esquerda; no meio, Busquets é volante, Xabi Alonso é o segundo volante - homem das saídas rápidas - e Xavi é o armador; pela frente já jogara Navas, como um legítimo ponta-direita, e Iniesta, fazendo um misto de ponta e exterior-direito, David Villa é o craque do time pela ponta-esquerda - e, por ora, é ele quem tem efetivamente feito o ataque espanhol funcionar - e Fernando Torres no comando de ataque = contestado e em má fase, o que abre espaço para Llorente na frente. O Paraguai joga num 4/4/2 que se torna 4/3/3, mas que no jogo em questão deve se resumir às duas linhas de quatro mesmo - para tentar fazer com que o raio caia duas vezes no mesmo lugar, depois da vitória suíça -, com Justo Villar, muito bem, no gol, dois excepcionais laterais defensivos que apóiam mal - Bonet pela direita e Morel Rodríguez pela esquerda -, uma zaga tecnicamente qualificada e bem postada - formada por Alcaraz e Da Silva -, um meio com Cárceres fazendo o primeiro volante e Riveros mais adiante, Vera fazendo um extremo-direito - meia-armador aberto dos 4/4/2 europeus - recuado, Barreto ou Benítez fazendo o mesmo, só que mais avançados, pela esquerda e um ataque variante, com a figura de Lucas Barrios enfiado na zaga adversária e algum outro nome por fora da área, seja ele Cardozo, Roque Santa Cruz ou Haedo Váldez. No duro, será mais um jogo de ataque contra defesa, onde a Espanha se manda para o ataque e o adversário planta duas linhas de quatro para se defender e achar o contra-ataque salvador. Três das quatro equipes que enfrentaram a Espanha fizeram o mesmo, mas  só a Suíça levou a melhor. Por mais que um milagre paraguaio fosse um espetáculo, é difícil que ocorra.

terça-feira, 29 de junho de 2010

Notas da Copa: Paraguai e Espanha

Hoje, as quartas de final da Copa foram encerradas. Paraguai, nos pênaltis, eliminou o Japão. A Espanha, pelo placar mínimo eliminou Portugal. Com esses resultados, das equipes que se classificaram em primeiro lugar nas suas chaves, apenas os EUA foram eliminados. Ademais, a América do Sul colocou quatro times entre os oito melhores do mundo e sua quinta equipe, o Chile, foi eliminado pelo também sul-americano Brasil nas oitavas. A África, muito embora seja o continente sede da Copa, só emplacou Gana, terceira seleção africana na História a chegar nas quartas-de-final - na esteira de Camarões (90) e Senegal (02) -, repetindo a boa atuação da última Copa, quando parou nas oitavas, vitima do Brasil. A Europa decaiu, mas as três equipes que o Velho Mundo emplacou entre as oito não foram fruto de nenhum acidente: A Espanha é a atual campeã europeia e fez uma grande campanha nas eliminatórias, Alemanha e Holanda foram regulares ao longo de todo quadriênio. O que muda no mapa da bola é que a seleções médias da América do Sul - incluso aí o bicampeão Uruguai que há quarenta anos era simplesmente um zero à esquerda - são capazes de jogar de igual para igual com as médias e até os bons times nacionais da Europa. Brasil e Argentina sempre foram potências do futebol mundial.


Pela tarde, o Paraguai enfrentou um time animado do Japão. Ambas as seleções chegaram com méritos nas oitavas, mas jogaram pouco. Os paraguaios conseguiram cravar a primeira colocação no grupo da atual campeã, a Itália, os japoneses caíram no complicado grupo da Holanda e conseguiram superar os bons times de Camarões e da Dinamarca - mostrando uma obstinada trajetória de evolução ao longo das quatro copas consecutivas que disputaram. O time do Paraguai marca muito, tem um bom goleiro, Villar, dois laterais que no papel defensivo são ótimos, Bonet e Morel Rodríguez, uma boa zaga, Da Silva e Alcaraz, mas seu meio-de-campo, ainda que marque bem se ressente de uma crônica falta de criatividade, enquanto seus atacantes, Barrios e Santa Cruz, jogam por característica enfiados, o que resume seu jogo ofensivo à bola parada e aos lançamentos. O Japão, nesse sentido, já tem um leque de opções melhor: Pontas rápidos, Okubo e Matsui (alternando com Hasebe) e um bom centroavante, Honda, além de chutar bem de fora da área. As equipes, no entanto, se anularam o jogo inteiro e o jogo foi para a prorrogação, onde o Paraguai foi ligeiramente melhor, mas não definiu. Nos pênaltis, vitória paraguaia no gol de Cardozo (foto:AP).


(Espanha comemora - Marca)

No outro jogo, Espanha e Portugal fizeram o clássico ibérico, jogo que não se repetia desde 2004 quando o time lusitano treinado por Felipão eliminava a Espanha pela Euro. A Espanha jogou num 4/4/2 contra o 4/3/3 luso. Depois de um bombardeio espanhol durante os primeiros dez minutos - nos quais a fúria, comandada por Villa, só não chegou ao gol pelas intervenções de ótimo goleiro português Eduardo -, Portugal equilibrou o jogo na marcação, mas só conseguia criar algo com nas subidas de Fábio Coentrão pela lateral-esquerda - suprindo a nulidade que atuava pela ponta-esquerda chamada Cristiano Ronaldo - e mais nada. Os espanhóis, com a entrada de Iniesta não se aproveitavam das constantes subidas do lateral português, pois com a entrada de Iniesta, não tinham jogava por aquele setor. A zaga portuguesa anulava Fernando Torres e não houve como o placar sair do zero. Na segunda etapa, o jogo da Espanha melhorou, sempre pelos pés de Villa enquanto Portugal restava travado. O miolo de zaga português falha por duas vezes e Llorente que entrara no lugar de Torres cabeceia para Eduardo fazer um milagre e depois, na base da linha-burra - que não falhou, mas sim milimetricamente o bandeirinha - Villa fez no sufoco o gol da vitória. Amargaram os portugueses a dura realidade de jogar fazendo linha, afinal, como já dissemos por aqui, não basta acertar, mas rezar para que os bandeirinhas também o façam. Os lusos, mesmo com a queda de produção do time espanhol não foram capazes de empatar e caíram eliminados. Foram embora tendo enfiado uma ilusória goleada na Coreia do Norte - a maior diga-se - e sem ter feito gol em ninguém. A Espanha provou qualidade, mas precisa de solidez, sua sorte é que só precisará mostrar isso na semi, pois no jogo contra o Paraguai será um novo jogo de ataque contra defesa - o que tem lá os seus riscos como nos lembra a Suiça.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Notas da Copa: Enfim, definidas as Oitavas de Final

Agora há pouco, a Espanha meteu 2x1 no Chile atuando com um jogador a mais. Foi um bom início de jogo do time espanhol frente a um Chile afobado que, ainda por cima, acabou prejudicado pela arbitragem. Os dois gols tomados puseram dúvidas quanto à classificação chilena, mas depois o time diminuiu e equilibrou o jogo - enquanto no conflito de retrancas, Suíça e Honduras acabaram terminando no previsível e justo 0x0. Sim, Honduras merece um prêmio da FIFA por ter deixado a Suiça de fora das oitavas, até porque isso implicou na classificação de duas equipes que jogam um futebol ofensivo, leve e veloz, coisa rara na Copa sul-africana. Pena o Chile não ter ficado em primeiro, mas de qualquer modo, sua classificação já se constitui numa grande vitória para o futebol sul-americano, cujas cinco seleções se encontram nas oitavas.

A melhor seleção da primeira fase foi a Argentina de Maradona e Messi, seguida da Holanda - a outra equipe a fechar com 100% de aproveitamento -, Uruguai e Brasil. Vamos à análise dos confrontos:

Uruguai x Coreia do Sul
A Copa que os uruguaios estão fazendo surpreende (positivamente) a todos; o time marca com firmeza e tem um belo poder de fogo nos contra-ataques com Forlán. Os sul-coreanos caíram num grupo onde a Argentina sobrou e a Nigéria sumiu, souberam jogar com inteligência, mostrando um futebol veloz e disciplinado, mas lhes falta muita coisa ainda. Aqui, para o Uruguai não se classifica não basta a carruagem virar abóbora, mas também um milagre do lado de lá.

EUA x Gana
O time americano é bom: Joga há muito tempo junto, tem jogadores experientes, um bom condicionamento físico e até certa qualificação técnica - com jogadores como Donovan, Dempsey e Bradley. A equipe encarou bem a Inglaterra, arrancando um empate e depois, mesmo sendo vítima de erros de arbitragem, empatou com a Eslovênia e venceu a Argélia demonstrando superioridade. Gana estreou mal contra a Sérvia, mas foi beneficiada pelos erros do rival e venceu o jogo, depois empatou com a Austrália jogando pouco e perdeu para a Alemanha em seu melhor jogo no campeonato - sim, é o único time africano que restou no torneio; trata-se de uma equipe forte fisicamente e com boa técnica. O confronto será parelho. A vantagem está como os americanos, mas ela é pequena.

Holanda x Eslováquia
A Laranja Mecânica não encantou, mas venceu todos os jogos da primeira fase e foi a segunda melhor equipe naquela fase. O time está junto há algum tempo, Robben está voltando, Sneijder está jogando, Van Persie está por aí. Em outros tempos, o time holandês voava em campo e era surpreendido logo mais, será que dessa vez a falta de brilho esconda finalmente o prenúncio de uma chegada firme? Os eslovacos são a maior surpresa da Copa, ainda mais depois de terem eliminado a Itália, atual campeã mundial. Não os vi jogando grande coisa, sofreram empatando com a Nova Zelândia, perderam para o Paraguai e ganharam de um time esgotado que não sabe atacar - apesar de sua grandeza. Aposto firme na Holanda.

Brasil x Chile
No confronto entre sul-americanos, o Brasil vem de uma campanha oscilante na primeira fase, embora tenha jogado quando realmente precisou. Kaká, Elano, Maicon e Robinho dão a tônica do time nacional que ainda tem Júlio César no gol e Luís Fabiano no ataque, mas ainda persistem problemas graves no setor de marcação do meio-de-campo e na esquerda da defesa. O Chile atual é a melhor geração do futebol daquele país desde Salas e Zamorano, conta com jogadores como Suazo, Valdivia, Beausejour, Sánchez e Paredes além do técnico argentino Marcelo Bielsa, ao meu ver, o melhor treinador da primeira fase - a equipe joga bem e joga para frente como já adiantei. Será um belo jogo, mas o Brasil é favorito sim.

Argentina x México
A Argentina foi o melhor time da primeira fase devido à estrela de Maradona no banco, às estrelas do setor ofensivo - Messi, Higuaín, Tévez e Di Maria - e ao banco privilegiado, tudo isso somado a um sorteio que lhe  jogou num grupo fraco o suficiente para não saber explorar o seu calcanhar de aquiles: A defesa. O México pode até ser superior a qualquer equipe que a Argentina já enfrentou no torneio, mas demonstra problemas no meio de campo - falta gente para executar a saída de bola e a armação não funciona bem - assim como o seu ataque não encanta - sua classificação, a rigor, se deve a um bom segundo tempo contra a morta-viva França. É pouco e los hermanos devem seguir aqui também.

Alemanha x Inglaterra
A Alemanha teve uma estreia arrebatadora ao enfiar uma goleada com propriedade na Austrália, mas depois foi imprudente demais para um time que quer ser campeão contra a Sérvia, protagonizando um dos jogos mais estranhos dessa Copa. Depois, veio a classificação suada e sem brilho contra Gana. A Inglaterra empatou com os EUA jogando melhor que o adversário, foi horrorosa contra a Argélia e melhorou contra a Eslovênia. Por ora, o time alemão mostra mais consistência tática - seja pela variabilidade ou pela disposição em campo -, capacidade técnica - Gerrard e Lampard estão bem na Inglaterra, mas o resto do time ou não é bom ou está quebrado, enquanto a Alemanha tem Ozil, Podolski, Muller, Klose - e até mesmo banco. Não será fácil, mas eu creio que a Alemanha é favorita.

Paraguai x Japão
Os paraguaios são outra boa surpresa do torneio ao se classificarem em primeiro no grupo da atual campeã - e veja só, eliminada - Itália. O time mantém as linhas-gerais do futebol de seu país, a precisão defensiva e a robustez na marcação somada, dessa vez, com um poder de fogo razoável na frente, com Lucas Barrios e outros bons atacantes. O Japão, por sua vez, prossegue crescendo. O time atual fez partidas táticas contra Camarões e Holanda - ganhando o primeiro por 1x0 e perdendo o segundo pelo mesmo placar - e teve um jogo simplesmente luminoso contra a Dinamarca, na última rodada. Se a trajetória de crescimento do time nipônico se mantiver no torneio, ele deve se classificar, mas o Paraguai é inteligente o suficiente para anula-lo. Situação complicada, mas eu aposto nos sul-americanos.

Espanha x Portugal
A Espanha era apontada como uma das favoritas ao título, mas não teve um desempenho lapidar: Perdeu para o glorioso ferrolho suíço na estreia, sofreu para furar a retranca hondurenha e teve lampejos contra o Chile - muito embora deva se considerar que administrou o placar em vários momentos. O ataque, especialmente David Villa, se destacou assim como a dupla de meias de criação, formada por Xavi e Xabi Alonso - a defesa, assusta. Portugal, por sua vez, se classificou em segundo sem ter um jogado nem levado um gol sequer - o que não significa que tenha jogado bem, pois foi pior do que Costa do Marfim, pegou uma Coreia do Norte arrasada e um Brasil desfalcado e acomodado. Clássico é clássico como diz a máxima do futebol, mas a Espanha me parece favorita aqui.





 

Notas da Copa: Definição dos Grupos E e F


(Dois azuis, dois destinos - fotos da AP)







Com certo atraso, mas com igual disposição, comento aqui as surpresas de ontem: A vergonha da desclassificação italiana frente a gloriosa Seleção da Eslováquia e a pancada que o Japão deu na Dinamarca. Sim, eu queimei a língua, no entanto, não por ter negado, algum dia, que a Itália é uma fraude ou que o Japão - e o futebol do extremo-oriente - estão em processo de evolução, mas por ter subestimado os dois fenômenos. Acertei, no entanto, quanto ao Paraguai, que confirmou a tendência de ascenção do futebol sul-americano na esfera global de seleções - tome outra classificação em primeiro, fenômeno que se manifestou no Grupo A e B e agora se repete agora no Grupo E. A Holanda confirmou o favoritismo e manteve a primeira colocação do Grupo F.

A desclassificação italiana se deu num jogo dramático, com cinco gols - algo raro numa Copa que não fosse pela bola teríamos batido o recorde de placares em zero -, o que demonstrou as graves limitações do futebol italiano, escravo de uma mentalidade defensivista que veda a formação de jogadores ofensivos - em especial para a armação de jogo - e que só é capaz de produzir times campeões em situações atípicas, o que é decepcionante - e também alentador, se visto pelo lado bom -, pois não resta dúvida que falamos de um futebol tradicional e com know-how para fazer mais do que isso. O Paraguai, por sua vez, controlou a fraca Nova Zelândia, garantiu a primeira colocação e demonstrou seu bom e velho pragmatismo - dessa vez amadurecido.

Claro, de longe o melhor jogo foi entre japoneses e dinamarqueses na disputa pela última vaga do Grupo F: Um jogaço no qual a seleção do país do sol nascente dominou o adversário, soube aproveitar as idiossincrasias da jabulani e, sob o comando do técnico Takeshi Okada, desenvolveu uma forma de jogar própria às suas necessidades - além do contar com jogadores como um Honda. Foi a melhor partida do Japão numa Copa do Mundo e, depois da surpresa, eles travaram um confronto duro - e igualmente inesperado - contra o também surpreendente Paraguai. A Holanda, que teve ontem a volta de Robben, venceu o já eliminado Camarões e passou em primeiro com 100% de aproveitamento, ainda que sem lá muito brilho.

domingo, 20 de junho de 2010

Notas da Copa: Brasil 3x1 Costa do Marfim


(Batalha campal, imagem retirada daqui)

Agora há pouco, a Seleção Brasileira derrotou por 3x1 a Costa do Marfim. Foi o melhor jogo de uma grande seleção mundial nesta Copa. Um belíssima resposta de Dunga para uma imprensa esportiva que pouco - ou nada - entende de futebol e fica batendo em treinadores que não satisfazem sua communis opinio degenerada e idiota - e se possuem algum mérito, é o de provocar efeitos manada usando-se na mentes ingênuas que acompanham futebol de 4 em 4 anos. Foi também a pior arbitragem de uma Copa de boas arbitragens - e a mais flagrante postura antidesportiva de uma seleção nessa Copa, como comprova a postura dos marfinenses que bateram a rodo e tiraram Elano do jogo, oxalá, não da Copa. Mais do que isso, a Seleção Brasileira, se classificou antecipadamente para a segunda fase da Copa do Mundo - repetindo a Holanda e confirmando um ciclo quadrienal virtuoso, iniciado com uma vitória por 3x0 sobre a Argentina, e que esteve abaixo, em aproveitamento, apenas da seleça no ciclo 58/62, treinada por Feola, e da média de Zagallo.

O Brasil entrou em campo no 4/2-3/1, o 4/3/3 falso, com Julio Cesar onde Maicon era lateral-direito, Lúcio (pela direita) e Juan (pela esquerda) faziam o miolo de zaga e Michel Bastos era lateral-direito; Gilberto Silva e Felipe Melo eram os volantes, o trio de criadores foi Elano (ponta pela direita), Kaká (armador central) e Robinho (ponta-esquerda) e, na frente, Luís Fabiano era o centro-avante. Em suma, o mesmo que o jogo passado. A Costa do Marfim, fez o mesmo, como os esquemas se anulam, eram quatro zagueiros marcando três atacantes de lado a lado e três meias se batendo. Drogba jogou. Sven-Göran Eriksson armou o time para empatar e tirar o Brasil na base do saldo contra a Coreia do Norte - e provou pela centésima nonagésima vez que não sabe fazer outra coisa senão falar javanês.

O jogo começa tenso, com os marfinenses recuados em seu campo defesa com Kalou e Dindane fazendo marcação sob pressão nos laterais e dando bem o bote. Drogba ficava entre os dois zagueiros. O jogadores de meio marfinenses corriam bastante, Kaká sentia a parte física e não corria, Gliberto Silva e Felipe Melo não saiam para o jogo. Maicon era quem, apesar dos pesares, tentava sair com a bola e Robinho mostrava a maior fome de jogo, enquanto Elano pouco aparecia e Luís Fabiano estava desabastecido no comando de ataque. Era um jogo de xadrez com nervosos saltados, mas Kaká foi entrando no jogo e junto com ele veio Elano. Numa jogada individual do nosso dez, Luís Fabiano entrou na área e fez um baita gol, recebeu na direita e chutou sem ângulo. Costa do Marfim ainda reequilibrou no fim do Primeiro Tempo que terminou equilibrado, execeto pela posse de bola, ligeiramente maior por parte do time brasileiro.

Veio o Segundo Tempo. O Brasil começa bem. Logo no comecinho, a bola sobra para Luís Fabiano que dá um chapéu, dá outro e conclui de primeira. Golaço. Brasil 2x0. O time fica eufórico e a defesa dá sua primeira navalhada: Drogba, livre, cabeceia para fora - dentro fosse e o deslocado Júlio César teria levado. O Brasil segue melhor e Kaká vai à linha de fundo cruzar para Elano, vindo de trás, só empurrar e fechar a fatura, Brasil 3x0 - lance trágico de dois jogadores que encontrariam sua sorte (ou falta dela) logo mais. Num contra-ataque marfinense, dois minutos depois do gol, Elano antecipa, é inocente ao entrar de carrinho de frente, Tioté entra por cima o tira de campo. O árbitro nada faz e Costa do Marfim começa a bater - e muito. Daniel Alves substitui Elano pela ponta-direita e a pancadaria come solta Kaká é provocado, toma cartão. Um contra-ataque que deveria ter sido morto logo no meio resulta no gol de Drogba frente uma zaga brasileira distraída e mal posicionada. As provocações continuam e Dunga erra em não tirar Kaká. Aos 44, um jogador marfinense simula ter sido agredido por Kaká e provoca a expulsão do jogador. O jogo termina, Brasil nas oitavas.

Valeu Dunga. Torçamos por Elano.

Atuação do Brasil

1. Júlio César: Sem culpa no gol, mostrou elasticidade e boa colocação - só errou em um lance que Drogba errou. 7,0
2. Maicon: Marcou em cima, apoiou menos do que no primeiro jogo. 6.5
3. Lúcio: Foi bem, mas deu espaços no segundo tempo. 6,0
4. Juan: O mesmo que Lúcio. 6,0
6. Michel Bastos: Apesar do erro ter sido coletivo, foi o maior culpado pelo gol e novamente foi mal. 3,5
8. Gilberto Silva: Bem na marcação, mas parece fora de ritmo. 5,5
5. Felipe Melo: Muito mal no começo, depois se recuperou e engrossou o caldo na marcação. 5,5
7. Elano: Entrou nervoso, depois se recuperou, coordenou as jogadas pelo meio, fez seu gol e foi vítima de uma entrada criminosa. 7,0
(13. Daniel Alves): Entrou numa verdadeira fogueira e se complicou em lances simples. 4,5
10. Kaká: Quando entra no jogo, mostra que é o principal jogador brasileiro. Foi vítima da arbitragem. 8,0
11. Robinho: Mostrou vontade, moveu-se bem, mas faltou um pouquinho de calma. 6,5
(18. Ramires): Deveria ter entrado bem antes no lugar de Kaká, não teve tempo. sem nota.
9. Luís Fabiano: Dois golaços. É um baita centro-avante. 9,0
Nota Média: 6,25

Dunga: Armou magnificamente bem para um dos jogos mais complicados da Copa, seja no que toca a disposição tática ou a de espírito. Errou no segundo tempo ao não ter tirado Kaká para poupa-lo das pancadas e da arbitragem esquizofrênica, mas fora isso foi muito bem. Não entendo porque leva tanta pedrada 7,5

Outras

A Itália é um time que em dez anos foi vice da Euro - em 2000, por covardia na final - e campeã mundial - num campeonato incrivelmente fraco, onde Parreira fez as escolhas erradas (veja só, as da imprensa esportiva!) e afundou o único time capaz de fazer algo naquele mundial. Fora isso, o time é bisonho, não exatamente pela qualidade, mas pelo anti-futebol que pratica. Não há como não torcer contra. Hoje empatou com a Nova Zelândia. Já o Paraguai venceu a Eslováquia e está a um empate da classificação para as oitavas. Uma maravilha para quem fica exaltando o futebol europeu e fazendo piada da América do Sul.