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domingo, 19 de agosto de 2012

Assange no Equador: O Norte da Democracia Global é o Sul



Há poucos dias, Julian Assange, o criador de Wikileaks, voltou ao foco da mídia global em um episódio chocante, no qual a polícia britânica o tentou capturar com o fim de  extraditá-lo para a Suécia, onde responde a um processo duvidoso e viciado por questões políticas. Chegou-se ao extremo de uma tentativa de invasão da embaixada equatoriana em Londres, onde ele se refugiou por sua proximidade política com o governo Correa - agravado pelo fato de que a missão diplomática equatoriana chegou a ser pressionada para entregá-lo. Em um gesto corajoso, ele não só não foi entregue à polícia, como também recebeu asilo no pequeno Equador, apesar de ter potências como EUA e Reino Unido em seu encalço. O conselho de chanceleres da União Sul-Americana (Unasul), inclusive, ratificou seu apoio à decisão equatoriana.

Assange tornou-se o ícone da nossa época, quase um Che Guevara da pós-modernidade ao revelar ao Mundo em 2010, por meio do seu Wikileaks, o vazamento de telegramas diplomáticos dos EUA em todo o mundo, que comprovaram velhas teses, desmascaram certas figuras e, sobretudo, colocaram Washington em xeque. Depois disso, o fato de Assange passar a ser perseguido mundialmente pelos EUA eram favas contadas - e não tardou a surgir um misterioso processo por estupro contra ele na Suécia, cuja procuradoria passou a exigir paranoicamente sua extradição da Inglaterra para lá, embora ele não tivesse sido condenado e pudesse depor tranquilamente de Londres. 

O grande problema de tudo isso, é que o Estado sueco não deu garantias, em momento algum, de que Assange não sofreria uma segunda extradição, desta vez para os EUA, onde o establishment local já preparava algum julgamento farsesco, à moda do que eles realizam a todo tempo em Guantánamo. O ponto é que a legislação sueca de crimes sexuais é profundamente vaga além do fato de pesar contra Assange uma acusação pouquíssimo clara e com um conjunto de provas confuso. Nada que não pudesse ser esclarecido sem demandar sua extradição imediata, ainda mais considerando que isso aconteceu no calor do momento em que as revelações de Wikileaks abalava o mundo. 

Pior ainda, as movimentações políticas americanas contra Assange só provam mais ainda a natureza do material divulgado e constituem, como pontua Mark Weisbrot, em uma violação clara a tudo que o país de Tio Sam reivindica ser desde o pós-Guerra: o criador de Wikileaks não cometeu crime algum, ele apenas divulgou dados vazados, a exemplo de inúmeros jornais pelo mundo que repercutiram, inclusive mediante acordos direitos com o próprio site. Se alguém cometeu crime, foi quem divulgou dados sigilosos, embora, evidentemente, não se trata de uma questão penal estrita; se o ordenamento jurídico americano entende a revelação desses dados como "crime", o faz como qualquer poder soberano: ele tipifica penalmente a conduta que lhe interessa e, assim, ele torna passível de punição a revelação do seu modo de operar, invasivo e conspiratório, pelo mundo.

As revelações de Wikileaks não são pouca coisa. Se boa parte dos principais pensadores contemporâneos gastaram páginas e páginas dissertando sobre a guinada bélica americana após o atentado de 11 de Setembro de 2001 - e, depois, sobre uma crise econômica dentro da qual não surgiu qualquer alternativa prática radical - foi pelo singelo motivo que nada era capaz de disparar o novo: depois de Assange e sua ousada ofensiva, deflagrou-se, p.ex., movimentos como aquele que conduziu à Revolução dos Jamins na Tunísia - tributário direto dos dados de Wikileaks do funcionamento da ditadura de Ben Ali -, todo o processo da Primavera Árabe e, depois, dos occupy, todos modos de insurgência libertários, inseridos dentro da racionalidade das redes - sendo que até ali, o grande levante contra os EUA e a ordem imperial veio por parte do resmungo reacionário do al-quaedismo e de Bin Laden. 

O abraço que Assange recebe do governo de Rafael Correa, o jovem presidente equatoriano eleito na esteira do vento democratizante produzido na resistência ao privatismo latino-americano, é um símbolo curioso: é a união do maior ícone rebelde do nosso tempo com o que há de virtuoso em termos de movimento político e (des)apropriação do Estado pelo mundo. Um bom encontro alentador neste 2012 que se afigura como um anti-2011, pela envergadura da reação às explosões multitudinárias vistas ano passado. A postura reacionária de EUA, do Reino Unido e, surpreendentemente, da pacata Suécia assusta. Hoje, mais do que nunca, o Norte da democracia global é o Sul. 


domingo, 11 de dezembro de 2011

Sobre Wikileaks e Facebook


A imagem acima já circulou bastante pela Rede. Nela, estão Julian Assange, criador de Wikileaks - a organização transnacional sem fins lucrativos que se prestou a desmascarar as tramoias da diplomacia americana pelo mundo - dizendo "Eu dou informação privada sobre as corporações para você de graça, e eu sou vilão" e Mark Zuckerberg - cabeça da popularíssima rede social Facebook - dizendo "Eu dou sua informação privada para as corporações por dinheiro, e eu sou o homem do ano". 

Recentemente, eu vi essa imagem no blog do Bruno Cava, usada por ele para demonstrar o que é "capitalismo cognitivo" - sim, uma imagem vale mais do que mil palavras, e esse chiste poupa algum tempo de explicação sobre as formas de exploração contemporâneas. Se o pós-fordismo é marcado pela virada do capitalismo ocidental em desenvolver sistemas de comunicação - e reproduzir nas suas redes, sua forma particular de exploração-, pensar sobre Wikileaks e Facebook, e seu papel nisso tudo, é fundamental.

A Internet, aliás, nunca esteve tão "social" quanto agora. As redes sociais engoliram a velha rede baseada na navegação livre e anônima, nos prendendo a uma territorialidade, que é o nosso próprio "perfil real", isto é, à nossa identidade fora da rede, o que traz junto, por tabela, chefes, contatos, amigos, colegas de trabalho e escola/faculdade, além dos parentes - é a partir desse perfil que as pessoas passam a navegar, compartilhando links e fotos (suas vidas..), de tal modo que a navegação torna-se ancorada e identificada por definição.

Sempre se levantou a possibilidade de que os Estados, de repente, quisessem passar a identificar sistematicamente os usuários da Internet. Um temor com a sociedade disciplinar um tanto equivocado, uma vez que medidas desse tipo, quando aparecem, só o fazem como farsa - e nem possuem tanta efetividade assim, a julgar pela China. A sociedade de controle possui outros meios para regular o agir dos sujeitos, certamente, mais açucarados e sutis do que qualquer AI-5 Digital, embora elas devam ser combatidos também.

As redes sociais, de forma simpática e utilitária, colocam fim a necessidade do sistema identificar os usuários da rede de forma policialesca. E o Facebook é o top do top nesse esquema. Cada vez mais pessoas aderem à rede social de Zuckerberg e, diferentemente do fenômeno Orkut, não são apenas os mais jovens que estão usando o serviço, mas sim gente de todo o tipo.

O modo de exploração de Facebook volta-se à vida pessoal de seus usuários, seus afetos mais banais - aquilo que elas curtem, o que elas fizeram, quem elas amam etc -, tudo transferido para as corporações que, a partir de um perfil de consumo ultrafiltrado, vendem suas bugigangas. De repente, todas essas trocas de afetos desapareceriam se o site fechasse ou resolvesse apagar o que quisesse. Não existe produção explorada em um sentido clássico, mas a própria autoprodução do vivente em sua mais elementar sociabilidade.

Como qualquer mecanismo contemporâneo de exploração, até pela sua natureza de dispositivo de tecnologia de informação e de comunicação - como este blog, caro leitor -,  é possível explorar sua natureza, escapar às suas finalidades e subverter-lhe com muito mais facilidade do que um bem de capital industrial. Talvez por isso, a disciplina, enquanto representação, não tenha desaparecido por completo - nem o Facebook se escuse de fornecer o nome de seus usuários "incômodos" para os governos.

Aí, entramos em Wikileaks, grande novidade de um ano atrás. O papel desempenhado por Assange vai em um sentido precisamente oposto, divulgando informações privadamente tratadas pelos Estados acerca da vida e dos destinos comuns. O financiamento? Meras doações para a sobrevivência da organização. O empoderamento gerado foi enormíssimo. 

Não, não foi por conta de Wikileaks que aconteceu a Revolução dos Jasmins - faísca da Primavera Árabe -, mas por meio dele - do mesmo modo que o homem passou a andar a mais de 5 km por hora, não dependendo mais de carroças, não por conta da locomotiva, mas por meio dela e  por conta da necessidade de se deslocar. Isso, a velha esquerda não compreende - ou não quer compreender, frustrada como está por conta do declínio do vanguardismo.

Combater as formas de exploração contemporâneas passa pela fuga dos mecanismos de identificação do sistema, mas também por sua sobrecarga, voltando suas lanternas insistentes contra as faces dos perseguidores paranoicos com espelhos, como fez Wikileaks - é preciso esvaziar e saturar a identificação ao mesmo tempo. Se Zuckerberg, derrotado no voto popular por Assange, foi eleito, ainda assim, homem do ano pela Time em 2011, certamente, 2012 é o ano do homem Assange com as corporações e os Estados postos em xeque - de Moscou até Washington.


Atualização de 13/12/12 às 21:39: E mestre Bruno continuou a tabelinha lá no QdL, no pertinente e preciso Gentrificaram a Internet.

sábado, 15 de janeiro de 2011

A Revolução Tunisiana

retirado daqui
A Tunísia, uma república árabe do norte da África, está passando por um processo revolucionário. Falamos de terras cuja  história é simplesmente fantástica: Sua aparição na História Universal começa com a expansão fenícia para o norte da África, o que resulta na construção de um importante entreposto comercial sobre o qual é edificada Cartago, das mais poderosas cidades da Antiguidade. Durante séculos a fio, cartagineses disputaram com as cidades-estado helênicas e com os romanos a hegemonia do Mediterrâneo. Sua derrota definitiva para os romanos foi dos maiores eventos da Antiguidade e seus ecos sentimos até hoje, o centro do mundo conhecido passou irremediavelmente para a Europa de onde a cultura ocidental (europeia ou, se muito, euro-originária) se projetou continuamente, num processo ainda em curso - o obstinado Delenda Carthago est de Catão, pelo jeito, surtiu efeitos. O que hoje é a Tunísia passou de colônia romana para o domínio árabe, depois otomano e, por fim, francês, até sua independência nos anos cinquenta. Sua independência foi parte do grande movimento nacionalista e anti-imperialista que, ao fim da Segunda Mundial, agitou o mundo - em especial África e Ásia, onde França e Portugal ainda mantinham uma decrépita estrutura imperial. Mas nem tudo são flores e a História nos ensina que irrupções revolucionárias nem sempre se traduzem em libertação real. Não, o problema não são os romanos, os árabes, os turcos ou os franceses - nem mesmo o colonialismo -, mas sim os velhos mecanismos de dominação que eles puseram em prática; mantenha-os e você apenas estará trocando os atores, mas a peça encenada ainda será a mesma. Cinquenta e quatro anos de autoritarismo nacionalista - e apenas dois presidentes em sua existência independente - somados a muita corrupção e exploração depois, irrompem revoltas populares e o velho Estado entra em colapso - com direito até ao habitual, e ensurdecedor, silêncio da mídia ocidental, o que é a praxe quando das quedas de tiranias amigas. Mas há algo de novo aqui: Como bem observa Elizabeth Dickinson na Foreign Policy (aqui, em português), essa pode ser a primeira Revolução Wikileaks, afinal de contas, um dos grandes deflagradores da revolta foi, justamente, o conteúdo dos telegramas da  diplomacia americana sobre a Tunísia revelados por aquele site (movimento?), seguido por uma medida atabalhoada do regime local em tentar censurar a rede e perseguir ciberativistas. Ainda é cedo para dizer o que pode acontecer com a Tunísia, as coisas estão em plena ebulição, mas esperemos que elas se encaminhem bem desta vez. Seja como for, as informações do Wikileaks não são tão inofensivas quanto alguns gostariam que fossem.*


*fiz algumas pequenas correções e alterações no texto, mas nada que tenha mudado o sentido dele. A maldita pressa, sempre ela.


Atualização de 16/01 às 00:25: Interessante ler o post do embaixador português na França (sim, ele tem um blog) sobre o caso - ele exprime bem uma visão, não muito incomum, da diplomacia europeia sobre a questão: Os europeus perderam uma ditadura amiga bruscamente e estão temerosos enquanto resmungam.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Feliz Natal

Os bichinhos de Natal na Avenida Paulista
Foi um ano tão intenso para mim que mais parece ter sido uma década, mas não nego a minha surpresa de acordar hoje e me lembrar que já é véspera da Natal; é uma impressão é paradoxal, se o ano parecia quase sem fim de tão denso, por outro lado, quando olho para um ano atrás, mais parece que o Natal passado foi ontem. E Dezembro - mesmo o bom Dezembro, sempre tão fugaz - foi tão longo com a explosão do caso Wikileaks - de um Julian Assange que deve passar o Natal livre, felizmente - e todo o (acalourado) debate que ocorreu na blogosfera nas últimas semanas que eu até titubeio sobre o que dizer. Repetindo o que eu falei ano passado, não sou religioso, mas isso não me faz desprezar o Natal, mudam-se os credos ele continua, como continuará, a ser comemorado; seja do paganismo ao consumismo, passando pelo cristianismo, e seja lá o que virá em seguida, se é que virá. Isso é o que importa no fim das contas, a função que o dia cumpre. Ainda estou por montar as reflexões finais sobre muito do que se passou ao longo do ano, mas estejamos atentos pelos próximos dias, a História não pára, agora mais do que nunca, turbinada pela Internet. Um Feliz Natal para todos os leitores/comentaristas do blog. 


Atualização das 21:28: Subi o post.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

O Wikileaks e o Brasil

O Mapa da Mina
O caso Wikileaks continuou repercutindo fortemente, seja pela prisão contestável de Assange quanto pela repercussão dos cables, cuja divulgação segue a todo vapor ou mesmo pela repercussão do assunto junto à Ordem Internacional. Se Assange continua preso na Inglaterra com futuro incerto e apesar dos boicotes ao site do Wikileaks propriamente dito, fato contornado por uma ação conjunta sem precedentes na qual hackers do mundo todo têm se desdobrado para manter canais de divulgações das informações. Ainda, líderes importantes do mundo em desenvolvimento com Putin - sarcasticamente, como lhe é peculiar - e Lula se pronunciaram contra a prisão do fundador do Wikileaks - e, claro, das duas falas a de Lula é que se sobressaiu, seja porque falamos de um líder que termina seu segundo mandato extremamente popular, depois de ter vencido eleições limpas ou pelo fato de que o seu Governo tenha respeitado firmemente as liberdades individuais, embora tenha sido alvo de uma campanha dura de certos setores da mídia corporativa em sentido contrário, numa contradição que ele soube explorar bem em sua fala (ver na quebra de página):

Em suma, Lula, em sua melhor forma política, traz à baila o calcanhar-de-aquiles da mídia corporativa que lhe fez, ao longo dos últimos oito anos uma verdadeira oposição canina, ao mesmo tempo em que também pega seus colegas líderes do mundo desenvolvido, arautos da civilização, no contrapé. Essa fala tem mais peso do que se pode supor no que concerne o que será o futuro Governo Dilma e isso tem pouco a ver com política externa, dado que Lula apenas referenda a linha adotada pelo Ministério das Relações Exteriores nos últimos anos; a questão aqui é a política de comunicação: A pauta passou a ser levada a sério depois de anos cedendo o Ministério para um homem do sistema como Hélio Costa sem ganhar nada em troca - de bom, claro.

Seja a primeira entrevista de Dilma não sendo dada para a Globo, a indicação de Paulo Bernardo para o Ministério das Comunicações ou mesmo a entrevista de Lula para os blogueiros e essa sua fala apontam para um horizonte claro: Os petistas perceberam que sua própria - e elementar - sobrevivência eleitoral demanda a expansão da Internet e das opções em meios de comunicação em massa e, mais ainda, que é quase impossível conceber um cenário de trégua por parte do grande establishment midiático, capaz até de transformar bolinha de papel em rolos de fita - na falta de chance de surgir, quem sabe, com uma bigorna.  Mais até do que isso

Por outro lado, a  jornalista Natalia Vianna continua divulgando os cables que dizem respeito ao Brasil - ao todo, eles chegam a mais de 5 mil - em blog recém-lançado em parceria com a CartaCapital. O que chega até agora é o incômodo americano com a política articuladora de Lula que põe a estratégia de Washington em xeque: Ao mesmo tempo que não rompeu os EUA, a política externa altiva e ativa de Amorim rompeu com o atlantismo , negociando com interlocutores do mundo inteiro, mesmo adversário estratégicos americanos,  o que exige do Departamento de Estado um grau de sofisticação no trato com o Brasil que ele nunca precisou ter. As notícias que chegam pelos cables sobre o Brasil se dividem em três eixos centrais: O detalhamento da articulação política americana em torno das nossas reservas minerais (sobretudo, energéticas), o lobby para a venda de caças para a Força Áerea e as análises do processo eleitoral.

Se no terceiro caso esbarramos com o já sabido desconhecimento crônico dos americanos sobre a política nacional mais alguma especulação sobre a doença de Dilma, a sutil preferência por Serra e quetais, no segundo e primeiro caso temos informações mais relevantes; se na questão da venda dos caças se manifesta o incômodo claro com a política externa e a proximidade brasileira com os franceses - assim como o nome dos ministros amigos, o que traz à luz de forma cada vez mais clara a face de Jobim e seu papel de contra-ministro, seja nas relações internas ou externas -, no primeiro caso, topamos com detalhes cada vez mais claros de um jogo no qual converge a política estratégica dos EUA para cima dos nossos recursos naturais e o jogo eleitoral brasileiro, o que revela a grande diferença entre PT e PSDB hoje: Os lados que cada um deles ocupa no grande tabuleiro internacional.

Sim, estou falando das posições de bastidores do candidato Serra que vieram à tona hoje, inclusive, repercutindo na grande mídia; como eu coloquei aqui durante a campanha eleitoral, um dos grandes itens dessa campanha presidencial era o Pré-Sal, posto que não havia mesmo concordância entre os dois candidatos e os dois projetos: Se o PT postulou um modelo de soberania energética e distribuição dos lucros da exploração, o PSDB insiste num modelo privatista, cujos lucros gerados invariavelmente tendem a ficar por cima e, mais do que isso, nem por dentro, para além do que aponta toda a parafernália retórico-tecnocrática ou, mesmo, os ensurdecedores silêncios de Serra na campanha passada, em relação a esse tema, inclusive. E volto a dizer, o Wikileaks cumpre nesse tema aquilo que é a sua grande utilidade prática, colocar definitivamente certos assuntos fora do campo da teoria da conspiração: Sim, há provas de que o interesse americano sobre a exploração Pré-Sal num regime de concessões é claro e envolveu manobras nos bastidores, inclusive, para frustrar modelo de partilha proposto pelo Governo Lula, com a anuência do nosso Serra.

Sim, isso também revela que estamos em um patamar primário de debate da política energética, onde basicamente tudo gira em torno em como explorar o modelo posto - com suas deficiências e problemas vários que, no entanto, passam batido -, mas existe um diferencial aí que são os interesses que se articulam em torno de um projeto e outro e o que isso pode efetivamente retornar para a sociedade; em um, temos um modelo nacional e socializante, no outro,  o enquadramento no jogo do Capitalismo Internacional e suas grandes empresas no comando. Isso faz muita diferença. Tudo isso, aliás, ajuda a descortinar grande parte do jogo que está em disputa neste exato momento e que teve um capítulo importante durante Setembro e Outubro. Mantenhamos os nossos olhos abertos.

Atualização das 19:29: Passei o vídeo para a quebra de página para não atrapalhar os arquivos (a mudança de formato do Youtube ficou uma droga mesmo), mas ele está linkado na citação de todo modo.

Atualização II 14/12 às 16:46: Seguem os links para os cables sobre a questão petrolífera e sua íntegra copiada e colocada abaixo da quebra de página: 28/01/08, 15/04/08,  30/06/08, 21/01/09, 27/08/09, 02/12/2009 e 21/12/09 (caso você não saiba inglês, jogue os textos no tradutor do Google e salve as informações.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Wikileaks: A Prisão de Assange e os Próximos Passos

Assange no Tribunal de Westminster
E, hoje, Assange foi preso e já teve a fiança negada na Inglaterra, depois de ter tido sua conta bancária bloqueada na Suiça ontem por erro de endereço, em um dos episódios mais tragicômicos da história. A polícia metropolitana de Londres cumpriu mandado de prisão expedido pela Justiça Sueca em relação a um obscuro processo de assédio sexual contra o fundador da Wikileaks que, coincidentemente, veio à baila apenas com a explosão das denúncias daquele site contra as desventuras em série da diplomacia americana. Há pouco, o Judiciário Britânico afirmou que as provas contra ele são sérias e que há grandes chances que ele fuja. Além da fragilidade da acusação, é óbvio como ela está sendo usada numa tentativa de deslegitimar as denúncias feitas pelo site, na medida em que não há nenhum nexo causal ou relacional entre os episódios. Nada de novo sob o Sol, o que aconteceu é uma mera consequência do que já debatíamos aqui há alguns dias, a confirmação pura e simples do recrudescimento dos mecanismos de controle do capitalismo global - administrado por uma superpotência em decadência que, atolada em guerras sem sentido, orquestra atitudes precipitadas para mascarar efeitos e manter posições. Nesse jogo, o Governo Bush foi catalisador e o Governo Obama é apenas figurante na representação, sem desejo, consciência ou força para mudar a direção das velas. A potência ascendente China que, certamente, está pouco disposta a arcar com o ônus de administrar o mundo sozinha, seguiu o seu procedimento padrão e censurou o site, especialmente devido as revelações sobre o jogo chinês em relação à península coreana, sempre ambíguo no discurso, mas bastante claro nas ações. Esperemos os próximos movimentos nesse fim de ano, mas tudo leva a crer que a ação de violenta de abafa em relação ao Wikileaks caminha em direção do surgimento de um wikileakismo na rede, o que tenderá a manter a tensão alta por essas bandas (nem tão largas).

Atualização das 18:33: O último artigo de Assange, antes de ter sido preso.


domingo, 5 de dezembro de 2010

Os Ecos do Wikileaks, Assange e Keynes

Agamben nunca pareceu tão certo: O funcionamento dos mecanismos de dominação e controle de hoje parecem claramente superar os que existiam nos países fascistas da Europa dos anos 30. A reação contra Julian  Assange, diretor do Wikileaks, é uma prova difícil de refutar, nesse sentido:  Não foram poucos os políticos americanos que defenderam que ele fosse caçado ou simplesmente fuzilado - como fizeram a presidenciável republicana (deusmeu) Sarah Palin e o ex-presidenciável republicano Mike Huckabee; republicanos de todas as matizes, e até alguns democratas, vociferam insanidades nas quais o australiano Assange é acusado de traição aos EUA enquanto a administração Obama, sequestrada por um Departamento de Estado incontrolável, age de forma inequívoca para censurar o Wikileaks e, pasmem, até mesmo para intimidar seus universitários que ousarem postar algum cable no Twitter ou no Facebook.  

Em um primeiro momento, não há nada ali - nada -, enquanto prática de jornalismo, que já não tenha sido feito nos anos 60 e 70 nos EUA, durante toda efervescência da Guerra do Vietnã. A única coisa de nova que poderia ser apontada aqui é, mais até do que a quantidade de material, o alcance da difusão de sua publicação (e o modo como isso dá), fenômeno possível apenas com o uso da Internet. Não poderia ter sido mais feliz Antônio Luiz Costa, na reportagem de capa da última CartaCapital, ao lembrar do famoso caso dos "Papéis do Pentágono" no qual o analista militar Daniel Ellsberg vazou 14 mil páginas de relatórios sobre as atrocidades americanas no Vietnã. O mesmo jornais americanos que hoje se calam em relação ao Wikileaks, foram os mesmos que lutaram no judiciário americano pelo direito de publicar os relatórios - e venceram. Os agentes a mando de Nixon que tentaram vasculhar a vida de Ellsberg foram punidos enquanto ele mesmo foi absolvido judicialmente da acusação de traição. Isso foi no longínquo ano de 1971. Em menos de quarenta anos, a superpotência americana virou de cabeça para baixo, acusando definitivamente o golpe de sua decadência.

Não, meus caros, Julian Assange não faz parte de nenhuma conspiração comunista ou anti-capitalista. Ele mesmo se identifica como um libertário americano, isto é, uma espécie radical liberal, defensor de uma mercadificação total da economia como forma de garantir a liberdade. Em seu idealismo extremo, Assange beira o niilismo, construindo uma oposição entre empresas fechadas e corruptas e empresas abertas e honestas, numa busca por um capitalismo "ético" e "humano", o que, sem embargo, não passa de uma miragem no deserto, mercados articulam relações sociais e até políticas, não dirimem contradições - e tal afirmação só é possível se formos esquecer do fato de como dentro dos mercados se estruturam relações de poder sobre a população. Nada mais comum no nosso mundo internético, fundado sobre ideais não tão diferentes.

Assange é um Keynes às avessas. Se os meios escolhidos os separa, algo central os une, a saber, os fins: Em suas respectivas épocas, ambos estão tentando desesperadamente salvar o Capitalismo - que, no limite, eles nunca compreenderam bem - dele mesmo, ignorando  o quão inerente ao seu funcionamento são as próprias contradições que os ameaça. A compreensão do problema da realização do valor em Keynes, o fez elaborar uma teoria na qual o Estado, enquanto expressão legítima do poder público, acabaria por ter de intervir na economia para absorver o impacto das crises cíclicas, o que, na prática, acabou por instituir mecanismos de controle coletivo sobre o funcionamento do Capital - prática que levada ao extremo ameaçava sim o Capitalismo enquanto sistema, pois inibiria os mecanismos de reprodução incessante, o que, no fundo, é o que lhe dá identidade. 

Por meios opostos, Assange identifica como o Estado e empresas não éticas necessitam do encobrimento  de certas informações para exercerem seu mando, mas ele se perder onde se encontra, qualquer empresa, dentro de um sistema capitalista, está sujeita ao exercício do poder para poder realizar seu fim de permanente auto-reprodução, o que em outras palavras, as obriga a produzir um discurso no qual sempre é mais importante o que foi encoberto - e o mesmo vale na interconexão das mesmas no plano do Mercado. A construção de um mecanismo que tornam públicas informações estratégicas sobre a vida de todos, na prática seria uma ameaça a toda e qualquer unidade de produção capitalista ou do referente Mercado, pois instituiria um controle público sobre o que fazem ou deixam de fazer as empresas, submetendo ao interesse público o seu funcionamento.

Se Keynes, a seu tempo, tornou-se inimigo número um dos liberais, embora ele mesmo se afirmasse como liberal, isso não foi à toa: O ocaso do keynesianismo nos anos 70, aliás,  é um expressão da contradição elementar de sua teoria, enquanto ele via uma conciliação entre seu projeto de política econômica, o funcionamento do capitalismo e o bem-estar social, empiricamente demonstrou-se que havia uma contradição em termos aí, o que forçou os ideólogos capitalistas a projetarem algo para substituir seu próprio projeto: E esse projeto pôs o bem-estar social em função do Capitalismo de forma definitiva e clara, invertendo a premissa Keynesiana. Esse movimento estratégico simplesmente afirmou a noção de que o Capitalismo é mesmo anômico - e que qualquer tentativa de racionaliza-lo, salvando-o de si mesmo, vai produzir qualquer forma de socialismo porque, em último caso, ruma para o desaparecimento das relações que justificam a existência do próprio Estado como nós o conhecemos hoje.

Já Assange, por sua vez, entende que suas medidas estão implodindo esse Capitalismo ainda de Estado, no qual ainda reside a lógica de uma "costura vertical", evento pelo qual alcançaremos um "Capitalismo ético e livre", mas ele se esquece que todo Capitalismo é, no fundo, Capitalismo de Estado. Isso não parece claro devido ao discurso recorrente da própria esquerda não-anarquista de que vivemos sob a égide de qualquer tipo de "neoliberalismo", quando no máximo prática e instrumentais a serviço do próprio liberalismo são postas em prática pelos ideólogos e tecnocratas do Capitalismo - cuja relação com o Estado, desculpem, é um pleonasmo. Implodir o Estado, nesse sentido, levaria a dois caminhos: O primeiro, e mais provável deles, seria aquele que aponta para a construção de outro Estado pelos atores mais fortes - justamente os mais proeminentes agentes de Mercado -, que implodiriam os próprios mecanismos de difusão de informação e de transparência que acabaram com a velha ordem, ou a implosão do próprio Capitalismo, com redes colaborativas de produção se formando e substituindo o próprio Estado, posto que isso basicamente colocaria o modo de produção e troca a serviço do interesse coletivo. 

Não há como fugir disso, Assange pode não entender o que está acontecendo, mas se ele se tornou um verdadeiro homo sacer, isso não foi à toa: Que a intenção de sua crítica ao sistema é inofensiva para as linhas gerais da ordem, isso ninguém tem dúvidas, mas o ponto aqui são como as medidas que ele tomou via Wikileaks, colateralmente, acertam no alvo que certamente ele não gostaria de ter acertado. É por essa responsabilidade objetiva que ele está sendo caçado e, venhamos e convenhamos, não existe incoerência nisso, a menos que sejamos tão cândidos a ponto de não conseguir reconhecer, ainda, a relação entre esquizofrenia e Capitalismo.  

*imagem -- R7.com/tirada daqui

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Wikileaks, o Destino Manifesto dos EUA e o Brasil


Enquanto a guerra civilizatória prossegue no Rio de Janeiro - e o que é a civilização e seus interesses superiores, não? -, estoura de forma definitiva, no mundo já civilizado, o caso Wikileaks: Aproximadamente 250 mil documentos de embaixadas americanas pelo mundo foram* serão tornados públicos na Internet, no site da organização. Aqui, mais do que nunca, seria necessário inverter o anátema, posto que isso tudo seria trágico se não fosse cômico. O conteúdo já revelado apenas comprova aquilo que - como diria o velho Carta - até o mundo mineral já sabia, seja o fato da diplomacia americana realmente fazer intensa espionagem de outros governos, corpos diplomáticos e da própria ONU ou como seus diplomatas-espiões enxergam de forma limítrofe o mundo que deveriam, ao menos, entender tão bem. Nada de novo sob o Sol, mas agora algumas horas de argumentação com americanófilos cegos (ou nem tanto) pode ser resolvido com um link com uma foto de satélite provando que a terra é redonda mesmo.


A reação de especialistas ocidentais - os de verdade, por favor - não poderia ser muito diferente daquela que teve o lendário jornalista britânico Robert Fisk: Uma boa dose de sarcasmo e uma conclusão perfeita, "não que os diplomatas americanos não entendam o Oriente Médio; é que eles já não sabem ver a injustiça". De fato, não é uma mera questão dos dados que eles têm em mãos - cujas fontes são tão precárias quanto de um jornalista ocidental médio, portanto, certamente piores do que as de Fisk -, mas como sua forma de pensar está de tal forma poluída pela ideologia e pelo discurso hegemônico, que já não há mais capacidade crítica, tampouco desejo, que lhes faça tentar enxergar a situação por outros ângulos e, muito menos, fazer uma crítica moral do que estão fazendo. Nem todos os melhores dados do mundo lhes seria suficiente.

Eu iria até mais longe, a natureza de certas informações parecem responder ao que deseja que seja dito e descoberto pelo Departamento de Estado americano, tal como pesquisas sociológicas em comunidades oprimidas, na quais os entrevistados tentam responder ao entrevistador perguntas sobre si mesmos como se devessem responder a pergunta certa - uma consequência óbvia pela maneira como as relações sociais são postas e como, não raro, o entrevistador se põe acima do entrevistado, tratando-o como uma cobaia. Na sua função atípica de espiões, os diplomatas americanos tentam "responder" as questões do jeito certo. 

Impossível não remeter ao Nosso Homem em Havana de Greene: Como um pacato inglês radicado em Cuba chamado Wormold,  dedicado ao humilde ofício de vendedor de aspiradores de pó, acaba aceitando uma proposta irrecusável do serviço secreto de seu país natal para espionar a efervescência da Ilha nos anos 50. Da paranoia da Guerra Fria à comédia, Wormold precisa criar uma boa dose de factóides a todo momento para vender o seu peixe, chegando ao cúmulo de enviar para seus sinistros chefes uma planta de aspirador de pó como se fosse uma instalação nuclear. Nada muito diferente daqui. Temos desde textos que falam o óbvio até outros que levantam balões de ensaio. Há coisas sérias, como a divulgação de reuniões, lobbies, mas sobretudo resta a revelação de como o sistema imperial americano se tornou insuficiente em si mesmo, uma verdadeira Sátira - o que, desde Spinoza, sabemos que é o inverso da Ética.

Chegamos ao Governo Obama. Se o atual presidente, primeiro negro a assumir a liderança daquele país, mesmo que tenha assumido numa das piores crises de seu país, o fez numa das conjuntura favoráveis da história para um presidente americano: Poderia, perfeitamente, ter levado a cabo um processo de distensão e integração no continente americano e da construção, no plano global, da multilateralidade. Dada a crescente diminuição dos EUA em relação à economia mundial, seus problemas econômicos e o próprio esgotamento de seu modelo, o atual posicionamento do país enquanto mandatário global só favorece a certos grupos de interesse específico, notadamente a indústria bélica e petroquímica, fora isso, são os trabalhadores que estão arcando com tudo. Obama e seus aliados no partido democrata, no entanto, estão mais preocupados a se deixar pautar por qualquer rumor pautado pela direita local e a nortear sua política externa nesse sentido, o que é não apenas catastrófico como insustentável. Aquele Estado é como um corpo sem cabeça, andando por aí, não muito diferente da União Soviética dos anos 70.  Também aí, nada de novo. 

Curiosos mesmo são os cables sobre o Brasil. Um deles, certamente o mais intrigante, foi a pressão americana para que aprovássemos uma lei antiterror. Um excremento, sem dúvida. A ideia não vingou por pressão, inclusive, de Dilma Rousseff, atual chefe de estado e de governo. O argumento usado por ela é bem simples, como isso poderia ser usado para criminalizar movimentos sociais e, quem sabe, políticos. Interessante também o vazamento do nome do "analista" da Escola Superior de Guerra, André Luís Woloszyn**, que dizia que era impossível uma lei antiterror sem incluir o nome do MST - o que é revelador do que ainda é a ESG, uma centro de estudos estratégicos brasileiros, mais alinhado com os interesses americanos do que, talvez, West Point (como a nosso ditadura nos prova), o que apenas comprova o afã da direita nacional, ela sim, de incluir aquele movimento no rol de "grupos terroristas" a todo custo. Novamente, o PT, ele mesmo, acaba sendo, em seus defeitos e contradições, a última linha de defesa do país em relação ao descalabro generalizado.

A maneira como é narrada o aparente descaso do governo brasileiro com o "terrorismo" é uma peça antropológica, sem dúvida. Os americanos e os analistas nacionais - mais gringos que os próprios -, na verdade, não entendem como o Governo brasileiro ainda não descobriu o potencial de como controlar os seus, por meio do potencial de subjetivação dos seus cidadãos como "terroristas", mas a maneira como isso é narrado é deliciosamente cínica, os tecnocratas apontam o governo como "imaturo" do mesmo modo como se fazia com os países que não queriam aderir ao livre-mercadismo nos anos 90: A nossa vontade é tamanha que quem não se dobra a ela, só pode ser um idiota. Uma forma de idealismo perversa, na qual os próprios ideólogos começam a acreditar nas mentiras que repetem - e aí, caríssimos, só o inferno é o limite.

Atualização das 13:48: *segundo me informa o nosso Idelber, nem todos os 250.000 documentos foram tornados públicos ainda, e **o sobrenome do analista da ESG é Woloszyn e não Soloszyn (sim, o nome dele foi grafado errado no cable como vocês poderão notar a seguir). 

P.S.: Segue a íntegra, na quebra de página, do cable sobre a lei antiterrorismo, antes que alguém a tire do ar: