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quarta-feira, 22 de julho de 2015

O Syriza Traiu ou Não? Ou Capitu na Ática

Charles Nègre -- o Vampiro (1853)
As últimas semanas foram intensas na Grécia: o Syriza, partido governista, lançou um plebiscito contra os desmandos europeus -- e não só o realizou como o venceu, por larga vantagem, contra tudo e contra todos; contudo, logo após a vitória, o ministro das finanças do país renunciou estranhamente e, em seguida, o governo sinalizou favorável a um acordo horrível com o Eurobloco, o qual contradizia frontalmente o resultado da consulta pública. Um movimento de 180º graus foi feito, resultando em um acordo vergonhoso com a Europa e a votação no Parlamento de mais medidas de austeridade -- com a rebeldia de mais de sessenta parlamentares do próprio Syriza, inclusive do ex-ministro das finanças, Yanis Varoufakis; enquanto isso manifestações tomavam as ruas de Atenas com dura repressão policial. Tudo rápido demais. 

A pergunta que surge, nos meios intelectuais engajados do Brasil, é: o Syriza traiu ou não traiu a esquerda global? Traiu ou não traiu os nossos sonhos, expectativas e fetiches? Uns garantem que não, que é impossível ter havido esta traição. Outros a pranteiam e a dão como certa. A situação mais parece o velho clichê sobre Dom Casmurro, obra imortal do nosso Machado de Assis -- bastaria trocar Syriza por Capitu e lá estaríamos nós.

O debate é colocado nos termos do olhar do paranoico: e por paranoico não tomemos necessariamente aquele que desconfia insistentemente, mas sim aquele que em vez de tentar entender a realidade, a julga, estabelecendo postulados dogmáticos de confiança ou desconfiança. A vida do paranoico é sempre crise, é sempre julgamento, sobre si, sobre o outro e sobre o mundo -- que é sempre mundo-aquém-do-mundo.


Não à toa, a crítica literária contemporânea sobre Dom Casmurro -- de Cândido a Schwarz, passando pelos mais recentes ditos e escritos -- contemplam o que Machado, antecipando na arte a Psicanálise, queria dizer: naquela obra, o que interessa não é a verdade sobre o mundo exterior, que supostamente deveria ser decifrada da narrativa onisciente falha, mas como aquele formidável delírio paranoico conta mais sobre o narrador do que sobre o mundo, ou melhor, como aquilo expressa o seu (mal?) estar-no-mundo. 


O sentimento de traição fala mais sobre uma esquerda global -- e brasileira! -- em crise do que sobre o fato da (suposta) fidelidade/traição. Na medida em que o mundo se torna objeto de permanente crise, o próprio sujeito se põe, dialeticamente, em julgamento, pois o "mundo" nada mais é aquilo que se vive como experiência. 

A esquerda, presa entre a realidade ideal e o ideal de realidade, se escraviza em suas próprias angústias -- naquilo que se expressa nos extremos entre o sectarismo niilista e o pragmatismo vão.


Há um algo muito particular no experimento grego, algo tão particular que se tornar comum: O Syriza, um instrumento político que chega ao poder depois de manifestações de multidão, que enfrenta a direita, os bancos, a esquerda falida é...tudo o que sonhamos, tudo o que precisamos no Brasil de hoje -- e em qualquer lugar! 

De repente, no entanto, Tsipras termina o processo utópico, dá um (aparente) giro na sua estratégia e, aí, temos de julgar qual é a nossa posição; e ela é expressada como nossa crítica em relação ao Syriza, mas é sobre nós e a fidelidade que deveremos ter (e agora precisará ser redobrada) ou não sobre aquele movimento.


O fato é que, não, o Syriza -- ou, melhor, o governo do Syriza -- não traiu ou foi infiel em relação aos seus apoiadores, ao contrário, ele foi fiel até o fim a uma ideia. Pois a fidelidade absoluta, autêntica e pura só pode ser a uma ideia. E as ideias não choram suas vítimas. 


Do mesmo modo, a fidelidade absoluta é sempre em relação ao Um, isto é: importa na traição a todo resto (e a muitas outras coisas). Eis o momento em que fidelidade e traição se confundem e, então, perdem o significado. O governo das ideias, como platonicamente a esquerda sonha, pode não se revelar da melhor maneira -- aliás, ele se realiza muito frequentemente, com resultados muito distantes do que se sonhava.


Podemos discutir idealisticamente se vale ou não a pena ainda defendermos o governo do Syriza, mas materialmente as coisas são inquestionáveis: quem pode dizer que os funcionários públicos gregos, os trabalhadores ou aposentados, que estão prestes a ser mais dilacerados ainda, estão errados em se mobilizar contra o acordo de Tsipras? Ou que os deputados rebeldes estão errados em se opor a tudo isso?  

Por favor, o Syriza é um instrumento político. Ou funciona ou não funciona sob o prisma das lutas materiais -- não de uma grande estratégia, plano ou ideia.

Mas o Syriza precisou aceitar todas as condições que seu próprio povo rejeitou em plebiscito, afinal, entre a dignidade e a Europa, é preciso prevalecer a Europa, pois é a unificação europeia o nome pós-moderno do velho internacionalismo -- e só com a concretização desses ideais poderemos chegar a uma sociedade absoluta e definitivamente digna.


A máquina estatal alemã fez uma aposta infinita e venceu.  Enquanto isso, se ouve a risada das hienas europeias. A Europa se unifica na forma não de um internacionalismo, mas de um estatismo bem Europeu -- como na unificação de todos os modernos Estados modernos, quando uma potência regional subsumiu as unidades políticas menores, como fez a própria Prússia em relação aos pequenos Estados germânicos para, em torno de si, fundar o Império Germânico.

A Europa unificada nascerá não-democrática -- em oposição à realidade conquistada (nem que seja parcial e relativamente) nos planos dos atuais Estados europeus. A Europa, esta Europa, nada tem a ver com democracia como observou com imensa lucidez Giorgio Agamben.


O realismo cínico da direita -- e de burocratas apáticos e apolíticos de bancos e da Europa -- faz com que seu projeto avance, sobretudo quando as forças de oposição colaboram consigo sem querer, movidos a ideias.


Um cadáver insepulto ronda a Europa, é o cadáver de Hegel. Eis a atualização correta para a célebre fala de Marx e Engels neste 2015 -- ano 8 ou 9 da Crise --, quando a bandeira europeia trêmula sobre as ruínas da economia grega.  No Brasil, a síndrome de Bentinho nos toma de assalto e nos imobiliza: se não basta apenas entender o mundo, mas muda-lo, antes é preciso deixar de julga-lo, abandonando a mania de fazer da multidão uma pilha de absolvidos e condenados.

domingo, 3 de junho de 2012

A Alemanha como Epicentro do Terremoto Europeu

No início, havia bárbaros decididamente livres, mas se os gregos colonizaram seus dominadores romanos- o que fez tudo aquilo mais parecer um ardil para enfim realizar, por meio de Roma, o projeto inacabado de Alexandre Magno -, os germânicos se dedicaram, dali em diante, em aprender a declinar como nem mesmo todos os romanos faziam - dada a liberdade sem fim dos seus muitos vulgares, dialetos vira-lata do latim que se tornaram nosso jardim de latinidades -; precisava haver O alemão e era necessário que ele fosse tão rigoroso quanto qualquer língua clássica. Os alemães cometeram o erro de se pretenderem mais realistas do que o rei e, dali em diante, uma série de equívocos foram cometidos. 

A Alemanha contemporânea nasce da cultura burocrática, militarista e universalizante da velha Prússia - que, afinal de contas, subsumiu quase todos os Estados germânicos em seu entorno. Pois então, a história da ideologia alemã, e de seu desdita como Estado-nação, é mais do triplo H do que de Kant: Hegel, Heidegger e Habermas - do culto ao Estado como realização do Homem à transcendência comunicativa, que mascara o conflito social escondendo as assimetrias diversas, passando pelo odioso projeto de refundar a filosofia ocidental reterritorializando-a na pretensão de pureza nacional.

Não que a Alemanha não tenha nos dado dois dos maiores pensadores de todos tempos, dois iconoclastas tão opostos que chegam a se aliar no limiar de sua radicalidade, Marx e Nietzsche,  cada um apontando para determinados aspectos das rachaduras do casco do navio que, quisessem ou não, estavam a bordo - embora um tenha sido para sempre um judeu errante e o outro um inconfessavelmente eslavo. O que me interessa na Alemanha, portanto, é o que há de mais apaixonadamente maldito, resistente e alternativo na sua cultura, não alguma coisa de sua tradição (enquanto ramo principal de seu pensamento e ação) - não que a tradição me apaixone, ao contrário, mas eu já não diria o mesmo nem mesmo dos EUA ou da Rússia, muito menos do Reino Unido ou da França.

A Alemanha de hoje é o verdadeiro Estado em crise da Europa; depois de fraturada em duas na esteira da catástrofe da Segunda Guerra, ela se reunificou para ser o motor da Europa universalizada e universalizante na figura da União Europeia: mas sua vida não é fácil, seu capital vive da moeda comum que lhe abre os mercados do continente e está pouco disposto a fugir ao parasitismo disso, sequer assumindo os riscos de financiar seus consumidores em tempos de crise. Quem está em crise, isto é, quem depende de um artificialidade, uma moeda igual para estados desiguais, é a Alemanha, não Portugal, Grécia ou Espanha.

É a forma mansa, solidária e comunicativa do democratismo-cristão erigido nos escombros do pós-guerra - a exemplo de um bem comportada social-democracia - resolver seus problemas. Mesmo tendo a herança de sua antiga banda oriental, que passou quase meio século presa nos dilemas do socialismo real, entre a perversão burocrática e o desejo de democratizar o socialismo, restando-se falida para viabilizar sua absorção pela banda ocidental, em um movimento que teve mais haver com a ponte área Bonn-Moscou do que se supõe - e o leste pobre, apesar de preso ao jogo parlamentar, é a zona ainda mais esquerdista e rebelde do país.

A democracia-cristã governou longamente o país no pós-guerra, até o influxo dos anos 60 que resultou, de 1969 a 1983, no gabinete misto de social-democratas e liberais-democratas, voltou ao poder na reação dos anos 80 até ser substituída pela (torpe) terceira via - verde e social-democrata - durante o governo Schroeder para depois ascender com Merkel em um clima de progressivo desinteresse pela política, esgarçamento social e crescimento de movimentos de extrema-direita - para governar burocrática e cruelmente. Se na Itália havia um velho bordão de que a (falecida) democracia-cristã local invertia o anátema de que se deveria agir "segundo o que o Padre diz, não como ele mesmo age" -  ao agir como ele age e não como ele diz -,  podemos dizer algo parecido de Merkel e os seus.

O que quer Merkel, acossando os países periféricos da Europa por meio da política de austeridade? Até que ponto ela não imagina que isso não vá resvalar na sua Alemanha, seja por meio de um efeito bumerangue econômico ou político? As recentes derrotas políticas que ela sofreu podem ser menos terríveis, para si mesma, do que ela pensa, pior se fossem efeitos econômicos propriamente ditos, o que não está, ao meu pensar, fora de um horizonte de curto ou médio prazo se o arrocho não destruir algum país, por menor e mais pobre do que ele seja. Uma vitória social-democrata em nível nacional seria importante neste momento, apesar de suas torpezas mil, mas a crise alemã é certamente mais profunda e complexa para ser resolvida por uma mera mudança parlamentar.


segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

A França e François

Hollande, pelo gerenciamento da dívida, contra Sarkô e Merkel
Há pouco menos de dois meses, François Hollande venceu as prévias do Partido Socialista Francês. Isso o tornou, imediatamente, o favorito das próximas eleições presidenciais de seu país, a serem disputadas já no primeiro semestre de 2012. Isso é parte do efeito dança das cadeiras, que é sentido em toda Europa, uma vez que os governos do momento estão sendo responsabilizados pela crise, embora tal processo se deva mais às semelhanças entre os partidos do que às suas diferenças.

E o governo Sarkozy, além disso, ainda é um prato cheio para a oposição. Ele possui todos os defeitos do governo Chirac com pouquíssimas de suas virtudes - leia-se: política externa, coisa que os franceses prezam muito, mas que Sarkô afundou com seu alinhamento automático aos Estados Unidos e sua postura tosca, ao lado de Angela Merkel, no gerenciamento da crise europeia.

A vitória de Hollande nas presidenciais poderia mudar a tônica da política europeia, pela possível saída da passividade artificial em que se encontram os franceses na atualidade. Nada indica que os socialistas, apesar de sua agenda rebaixada, irão à reboque dos alemães: aliás, os interessa salvar o Euro e eles sabem que, para tanto, precisam criar mecanismos de gerenciamento da dívida. Um debtfare? 

Sarkozy não consegue vislumbrar isso, enquanto Merkel, em seus rompantes sub-thatcherianos, assume uma posição de austeridade sistemática como se soubesse o que está fazendo, mas não está: a primeira-ministra alemã fica entre a impossibilidade de largar mão do Euro e a paralisia de fugir dele (ambas as hipóteses exigem uma virtù que Merkel não tem). Embora o plano B de retomar o Marco Alemão acalme a líder germânica, os franceses não tem essa opção em relação ao seu finado Franco.

Um outro governo que não seja alinhando a Washington, como Sarkozy é, não interessa a Obama - e o atual mandatário francês é um pássaro raro em seu país, seja à direita ou à esquerda.  Inclusive porque a tradicional política externa francesa é capaz de dizer não aos americanos, o que, caso se refira à desvalorização do Dólar sobre o Euro, pode fazer toda a diferença na crise atual.

Hollande, portanto, pode mudar o jogo não por lhe trazer algo novo, mas sim por ser um típico político francês de centro-esquerda - contando com uma historicamente atípica maioria no Senado para a centro-esquerda. Isso pressionará Merkel a mudar seus planos.

Mas a futurologia acaba no momento em que o Euro pode morrer, mesmo que queiram salva-lo, antes do novo mandato presidencial francês. E um agravamento da conjuntura russa, com severos impactos para o equilíbrio estratégico no Leste Europeu, Ásia Central e Oriente Médio não está descartado, simultaneamente a tudo isso. 

domingo, 27 de março de 2011

Crise Mundial: Reino Unido e Portugal

Manifestação gigantesca em Londres contra política de socialização de prejuízos - The Guardian

Ontem, quatrocentas mil pessoas saíram às ruas de Londres para protestar contra o plano anti-crise elaborado pelo governo britânico. O plano do gabinete do premiê David Cameron não passa de mais uma repetição da manobra mais batida entre manobras batidas do nosso tempo; cortam-se verbas para o financiamento de serviços essenciais como Educação e Saúde para cobrir um rombo cuja origem está nas próprias incongruências do sistema capitalista. Sim, o Capitalismo, como pontificou Marx há séculos, também tem seu movimento de sístole e diástole: O mesmo sistema que privatiza os ganhos socialmente produzidos é também aquele que socializa os prejuízos individualmente gerados - e isso é cíclico. 

No entanto, hoje, mais do que nunca, a Vida está posta em função do Capitalismo, o que só é possível pela existência de um Estado gigantesco que nos envolve a todos com sua política de exceção. Vivemos na era do cinismo em pessoa: O mesmo Governo Britânico, que está em guerra na Líbia por razões essencialmente imperiais - como o faz no Iraque e no Afeganistão há anos - também é o mesmo que alega não ter dinheiro para custear hospitais e escolas. Nada muito diferente da República Portuguesa que assistiu a queda do Governo Sócrates, há seis anos no poder, depois do Parlamento ter rejeitado um plano de recuperação similar ao refutado pelos britânicos nas ruas - embora aquele Parlamento não tenha decidido (e tampouco o fará) sair também da zona do Euro, o que faz com que aquela decisão seja apenas um capítulo do impasse na vida daquela república ibérica.

Se do lado português, a crise suscita a existência de um arranjo delirante do sistema europeu, constituído no fato de que países periféricos compartilham da mesma moeda usada por países como França e Alemanha, podemos dizer algo parecido do lado britânico: A bomba relógio monetária também aparece aqui, mas o faz na forma da superavalorização da Libra Esterlina. Para os países periféricos da Europa, o fato de  pertencerem ao sistema do Euro os torna dependentes de um ciclo de endividamento infinito possibilitado por um sistema de crédito com limites - para não verem suas contas explodirem imediatamente pelo déficit em conta corrente via balança comercial, aqueles Estados foram se endividando massivamente nas últimas décadas, mas pelo jeito a corda estouro. 


Já o Reino Unido, a pátria do eurocetismo, mesmo que não tenha entrado na Zona do Euro, também caiu numa arapuca monetária - aliás, a peculiar arapuca monetária *e cambial* britânica é o que explica o país não ter aderido à moeda comum europeia; falo aqui da maneira como a economia britânica se tornou mais e mais financeirizada, criando uma elefantíase do mercado de seguradoras, o que fez com que seguidos gabinetes mantivessem uma moeda incrivelmente valorizada, fato que somado aos custos das guerras nas quais o país se envolveu, gerou um rombo incontrolável nas contas do país. É preciso cortar em algum lugar, mas o que fazem, diante disso, os líderes britânicos e portugueses? Cortam verbas que iriam para hospitais e escolas. 

Nada muito diferente de líderes alemães e franceses que, enquanto motores do sistema monetário europeu, se acham profundamente espertos ao jogarem todo o ônus da crise sobre os seus vizinhos mais pobres, fechando as torneiras do sistema de crédito que eles próprios apresentaram aos portugais e grécias da vida como a garantia inabalável - e inesgotável - de viabilidade do Euro  - como se isso pudesse evitar uma contaminação sistêmica, via Euro, causada pela provável quebradeira geral que se avizinha no horizonte.

Isso, claro, sem falar em como a crise social e política na periferia da Europa irá lhes afetar. Não à toa podemos dizer que essa é, seguramente, a mais limitada geração de líderes europeus desde os anos 3o, algo sintomático em um momento no qual os partidos estão engessados na mais pura falta de criatividade e desconexão com a realidade social - a crise da esquerda partidária europeia está aí para nos provar isso. Ou a Europa produz novas saídas políticas - e Ed Miliband é uma esperança no Reino Unido - ou irá ser engolida pela crise. A implosão da União Europeia que se desenha é dos mais graves eventos que se pode conceber.

sábado, 10 de julho de 2010

Notas da Copa: Análise da Final























Amanhã, às 15:30, horário de Brasília, Holanda e Espanha disputarão a final da Copa do Mundo. Como já dito aqui é uma final inédita em vários sentidos.Tratam-se de duas importantes escolas do futebol europeu que fracassaram em decisões ao longo do tempo. A Espanha, sem dúvida, muito mais que a Holanda. Essa é a primeira final espanhola contra a terceira final holandesa. Ambas fizeram campanhas lapidares nos últimos quatro anos, sendo que a Espanha, inclusive, é a atual campeã europeia, enquanto a Holanda tombou nas quartas-de-final daquele torneio.



A Espanha sempre pagou o preço das suas intempéries  políticas, seja do seu processo de unificação ou, mais especificamente, quando o grau de violência teve uma escalada ímpar a partir da sanguinolenta Guerra Civil dos anos 30 que resultou em décadas de um regime fascista, cuja existência tardia se sustentava em um nacionalismo madrilenho que oprimia as diversas outras etnias que vivem em seu território. As feridas permaneceram e permanecem em aberto, com muitas vezes o futebol servindo para a afirmação política de certos grupos. Durante o fascismo, o único modo dos catalães expressarem sua cultura era torcendo e financiando o Barcelona. O Real Madrid, era o time que simboliza o poder central. A rivalidade entre ambos, superava, certamente, o que havia nas quatro linhas e se refletia na possibilidade de existir um time unificado da Espanha que funcionasse. Ainda que a duras penas e de modo acidentado, a integração entre as várias nacionalidades que vivem em território espanhol evoluíram sob a égide das eleições livres, do europeísmo e de progressos - ainda que questionáveis - nos instrumentos políticos de respeito às culturas locais. A base desse time espanhol é o Barcelona e boa parte desses jogadores são catalães. Nem o Barça, perdeu sua função junto à nação catalã, mas, de modo impensável, anos atrás, serviu de base para a seleção espanhola.


A Holanda, por sua vez, não era um futebol relevante na Europa até os anos 70. Muito embora não se tenha notícias de grandes conflitos internos no país, ele foi um dos que mais sofreram durante a Segunda Guerra Mundial. Sua destruição quase que total marcou o surgimento de um novo país, no qual, antes e mais do que qualquer outro país europeu, cresceu uma cultura laica e progressista - a Holanda foi o primeiro país onde houve algo que se pudesse chamar de tolerância religiosa e muito da sua organização político-social influenciou o que veio a ser os Estados Unidos, essas mudanças nada mais fizeram do que contemplar algo que estava em suas origens. O futebol holandês se destaca quando da revolução tática e física pela qual passou o futebol europeu; mais do que a evolução da medicina esportiva e da tecnologia, esse salto se deu sob o impacto da superioridade técnica que a Seleção Brasileira desfilou nos gramados em 70. A partir dali, o futebol nunca mais foi mesmo. E os holandeses saíram na frente. O time de Rinus Mitchel era algo muito a frente de seu tempo e, infelizmente, perdeu duas decisões contra os dois anfitriões - respecitivamente Alemanha Ocidental em 74 e Argentina em 78.


Time por time, o retrospecto nos últimos quatro anos é bastante alto: O espanhóis chegaram à Euro 08 com 77% de aproveitamento, foram campeões daquele torneio empatando apenas um jogo - contra Itália, a quem derrotou nos pênaltis -, mas foram eliminados pelos EUA na semi-final da Copa das Confederações, ficando com o terceiro lugar do torneio. Venceram todos os jogos das eliminatórias da Copa. Agora, na África do Sul, sofreram um  revés inesperado logo na primeira rodada, na derrota para a Suíça (1x0), mas venceram os outros cinco jogos - ainda que só um por mais de um gol, contra Honduras (2x0) -, fez 7 gols e tomou 2. A Holanda se classificou para a Euro 08 com 72% de aproveitamento - mas ficou em segundo lugar no seu grupo, atrás da Romênia, a quem superou no seu próprio grupo na Eurocopa -, venceu todos os jogos da primeira fase na Eurocopa, mas sofreu uma inexplicável derrota para a Rússia de Arshavin nas quartas-de-final (3x1). Nesta Copa venceu tudo que disputou, marcando 12 gols e tomando 5.


O time espanhol, na atual Copa jogou todos os jogos no 4/2-3/1, alternando mais para um 4/3/3 do que para  um 4/5/1. Casillas foi o goleiro, perfeito no gol, tomando apenas quando da falha de Piqué contra a Suiça e de um chute de fora da área do Chile - que resvalou ainda na zaga -; Sérgio Ramos e Capdevilla são os laterais e compensam suas limitações jogando para o time e atuando na marcação, no miolo de zaga, Piqué e Puyol fazem o mesmo e ambos têm jogado melhor do que poderia se imaginar. Busquets foi o primeiro-volante de forma sóbria enquanto Xabi Alonso - alternando como um segundo-volante e um meia-armador - e Xavi - o maestro do time - marcaram o compasso da equipe com boa qualidade no passe, disciplina tática e ofensividade. Na frente, tivemos uma configuração consideravelmente mais rotativa, sempre da direita para a esquerda como centroavante no meio, contra a Suíça o ataque foi Silva-Villa-Iniesta, contra Honduras Navas-Torres-Villa, contra o Chile Iniesta-Torres-Villa, nas oitavas no clássico contra Portugal o time alternou um pouco no 4/4/2, mantendo Iniesta-Torres-Villa e recuando o primeiro para o meio de vez em quando, contra o Paraguai novamente Iniesta-Torres-Villa e, por fim, no jogo contra a Alemanha Pedro entrou pela ponta-esquerda para tirar a responsabilidade de Villa acompanhar Lahm, deixando-o no comando de ataque - onde não rende tão bem -, enquanto Iniesta repetiu a função de ponta/exterior-direito do jogo contra Portugal. A experiência mostra que o ataque mutável e mutante da Espanha dependeu demais de Villa, o time cria, cria e cria, mas depende na maior parte das vezes da conclusão ou da assistência do atacante - a exceção à regra é o último jogo - e ele rende bem melhor como ponta-esquerda, vindo de trás e entrando em diagonal. Se Fernando Torres seria uma escolha lógica para centroavante, sua atual fase o desabilita a tanto. Iniesta, ainda que não tão cortante pela direita, traz mais inteligência para o ataque. Fala-se que Vicente del Bosque irá entrar com o mesmo ataque do jogo passado - Iniesta-Villa-Pedro -, mas não me parece muito certo. A equipe, via de regra, está apresentando mais estabilidade defensiva do que poderia se supôr, o meio apresenta um toque de bola refinado, mas o ataque está dependendo demais das atuações individuais de Villa - que, quando não anotou, criou problemas.


A Holanda, inventora do 4/2-3/1 joga nesse sistema como ninguém, só que com que uma proposta muito mais operária do que ofensivista - como ainda era há dois anos atrás. Nada de perder jogando bonito, o objetivo é levar a Taça - essa é proposta de jogo de Bert van Marwijk. Stekelenburg faz uma boa Copa, apesar das falhas do último jogo contra o Uruguai, mas não tem uma defesa tão segura quanto a de Casillas. Pelas laterais, Van der Wiel sempre foi sóbrio na marcação, sem mais ímpetos ofensivos - mas teve sérias dificuldades contra Robinho, no primeiro tempo contra o Brasil - e Boulahrouz é o mesmo, Van Bronckhorst pela esquerda compensa suas limitações com sobriedade e experiência e fez um golaço contra o Uruguai, no miolo de zaga, a velha prática - nem sempre bem-feita - de fazer linha é a marca de defensores baixos, sem muita impulsão e que já falharam bastante neste Mundial: os titulares foram Heitinga e Mathijsen, mas Ooijer jogou contra o Brasil. No meio, De Jong e Van Bommel são os dois cães de guarda e suas atuações tem sido eficientes, mas nada espetaculares. Sneijder é o diferencial do meio - e do time: Meia completo, sabe como ninguém armar o jogo, distribuir a bola, fazer lançamentos e ainda chegar de trás como um meia-atacante. No ataque, Robben voltou, atuando bem pela ponta-direita, mas fazendo lances surpreendentes e gols, junto com ele jogam Van Persie, que faz o mais uma função de pivô do que de centroavante e Kuyt, pela ponta-esquerda, que compensa a falta de técnica com muita entrega em campo.


Ainda que o desempenho holandês nesta Copa seja melhor do que o da Espanha, sinto mais firmeza do time ibérico. Quando ele realmente precisou jogar, ele jogou - e venceu. Isso não quer dizer que a Holanda não tenha jogadores que não possam desequilibrar, mas no conjunto, a Espanha vence. O problema, claro, mora no fato que até agora ninguém parou Sneijder e Robben e que os gols laranjas não dependem apenas dos pés deles - enquanto a Espanha prossegue com seus problemas ofensivos e a dependência do excepcional David Villa. A aposta d'O Descurvo é na Espanha - ainda que o futebol holandês mereça muito um título mundial, não sei se o time atual faça jus a tanto.


P.S.: Decisão de terceiro lugar sempre é complicado, a Alemanha é muito mais time, mas o Uruguai está mais animado. Pela prostração do time alemão ao fim do jogo contra a Espanha, eu fico mais com o Uruguai.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Notas da Copa: Espanha e a Final Inédita

(Puyol vibra - Marca)

A Espanha se classificou à final da Copa. Será uma final inédita que nos dará um campeão mundial inédito. Nenhuma novidade quantos aos dois classificados, afinal de contas, são duas das quatro equipes do grupo de seleções que mais se destacou nos últimos quatro anos - junto com a Alemanha e o Brasil, eliminados, certamente não à toa, pelos dois finalistas, muito embora o prognóstico apontasse para um ligeiro favoritismo dos dois derrotados. Não, eu não julgava a Espanha favorita para o jogo de hoje e o mesmo - em maior grau, é verdade - da Holanda em relação ao Brasil. Mas a graça do futebol é essa.

A Espanha, vitoriosa hoje, estreou com derrota para o potente ferrolho suíço, recuperou-se sem brilho contra Honduras, sofreu para derrotar o Chile e bateu Portugal e Paraguai mais apertado do que poderia se supor - o time mostrou brilho, leveza, elasticidade, mas sua defesa assustava e seu ataque mostra pouca qualidade de concretização. Hoje, as coisas foram diferentes, ainda que o placar mínimo frente à Alemanha iluda, a Fúria fez seu melhor jogo na Copa, encaixou a marcação em cima de um time que sabe atacar e soube articular jogadas contra um time que sabe se defender. Até o jogo de hoje, a Espanha parecia mais uma equipe que joga um belo futebol, mas depois, se afirmou como um time campeão.

No entanto, a Alemanha, sem Müller, suspenso, teve uma perda maior do que a ausência de seu ponta-direita: A mudança do seu esquema para o 4/4/2 lhe fez mal, tirando boa parte da força ofensiva com a qual ela marchou sobre a Inglaterra e a Argentina. Hoje, foi diferente. Mesmo a boa marcação sobre a Espanha no primeiro tempo esbarrava numa incrível ausência de jogadas pelas pontas, justamente onde morava sua força. Por outro lado, a estrela de Casillas brilhou novamente, a defesa espanhola jogou bem. Xavi e Xabi Alonso brilharam especialmente hoje. O mesmo se pode dizer de Iniesta. Villa esteve um pouco abaixo da média, Pedro estava nervoso. Mas Puyol foi heroico com sua planada no escanteio perfeitamente batido por Xavi. Foi o diferencial de um jogo profundamente equilibrado.

Na decisão, pegamos uma Espanha que vinha derrapando, mas quando precisou, mostrou firmeza.Muita firmeza. Do outro, uma Holanda que entre erros e acertos, venceu todos os jogos com suas falhas passando batido - e, sobretudo, suas jogadas de ataque acertando, cirurgicamente, o calcanhar de Aquiles do rival. A Espanha me parece mais inteira, mas futurologia e prognósticos não são comigo, mas com esse polvo-profeta que dizem que existe por aí - hoje, ele me venceu, não tenho esperança alguma em vencer caso ele diga o contrário.

sábado, 3 de julho de 2010

Notas da Copa: Alemanha e Espanha


(Schweinsteiger e Villa vibram)







A América do Sul colocou quatro equipes nas quartas de final, mas terá apenas um time seu na semi-final. Os três europeus passaram adiante. O único resultado que fugiu à normalidade foi a vitória holandesa diante de um Brasil que apagou no Segundo Tempo e tomou a virada. De resto, hoje assistimos à Argentina tomar uma goleada da Alemanha (4x0) e o Paraguai, valente, sendo eliminado pelo placar mínimo frente à Espanha. Os placares mais parecem ter sido invertidos. De qualquer modo, assistiremos agora à repetição da final da Euro 08 com o jogaço entre Alemanha e Espanha enquanto a Holanda, precocemente eliminada naquela ocasião, pegará o improvável Uruguai - uma boa equipe, mas que necessitará que o espírito do Maracanaço se abata sobre essa Copa.

Pela manhã, prevaleceu a bola cantada: A Alemanha, cuja jogada forte é pelas pontas, pegou uma Argentina, cujo calcanhar-de-aquiles eram as laterais. O conflito pelo domínio do meio, que eu esperava ser mais disputado, resultou numa vitória alemã, com demasiada facilidade. Foi assim que surgiu o lance do primeiro gol. Falta em cima de um ponta Podolski, falta cobrada pelo segundo volante Schweinsteiger e gol do outro ponta, Müller. Tentativa de reação do time argentino durante todo o primeiro, mas a boa zaga alemã salvava, enquanto o quarteto Di Maria, Messi, Higuaín e Tévez abusava da individualidade. Segundo tempo. Ou a Argentina fazia o gol de empate ou tomava o segundo. A Alemanha contra-ataca e faz 2x0. Ali o jogo acabou. O resto foi o desequilíbrio da Argentina resultando em mais dois gols germânicos com Klose se aproveitando para passar Ronaldo na artilharia das Copas. 4x0. Tristeza de Maradona.

Depois, Espanha contra Paraguai. Gerardo Martino, um grande técnico, armou bem a retranca paraguaia, fez seu time marcar sob pressão a Espanha mostrando a deficiência da defesa espanhola em saber sair jogando, chances iguais no primeiro tempo e um gol mal-anulado do seu time. A Espanha parece se restringir a Villa. O resto do time joga bem, mas se o seu camisa 7 não decidir, nada feito. O Paraguai teve a bola do jogo com Cardozo, mas a estrela de Casillas brilhou e ele defendeu o pênalti. Em seguida, pênalti para a Espanha defendido por Justo Villar. As equipes não quiseram administrar para levar para a prorrogação e partiram para fazer o que, na prática, seria um gol de ouro: Num gol chorado, ele, Villa fechou o placar. Passadas chances desesperadas do Paraguai, não convertidas pela falta de categoria dos seus atacantes, acaba o jogo.

Repeteco da final europeia. Para mim, os espanhois precisaram jogar tudo que não jogaram até agora. Os alemães denotam uma certa dificuldade contra times que sabem encaixar a marcação e ter volume de jogo, mas não contra equipes que se lançam ao ataque e, ao meu ver, eles têm tudo para conseguirem a desforra. Do lado de lá, a brava celeste, sem Lugano e Suárez, terá um confronto quase impossível contra a Holanda. Dois germânicos contra dois latinos, três europeus e um intruso sul-americano. As três melhores equipes da Europa contra o mais improvável sul-americano.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Notas da Copa: Julho e a Análise das Quartas de Final

Primeiro de Julho. Estamos por volta da metade do primeiro dia da metade final do ano. Mês passado, em ritmo alucinante, estivemos diletando sobre a Copa sem tirar o olho das movimentações eleitorais - ou eleitoreiras, sabe-se lá, mas que elas foram um tanto mais agitadas do que supunha, isso sim. As férias e um ligeiro - porém gratificante - sacrifício da minha vida social contribuíram para que eu achasse tempo. Agora a Copa desacelera e se adensa, o que já não era sem tempo, seja pela qualidade do torneio que aumenta ou porque a overdose de jogos já deu; ontem e hoje foram os dois primeiros dias sem jogos desde que o torneio quadrienal começou, amanhã, começam as quartas de final. Acertei sete dos oito palpites das oitavas. errei só a classificação de Gana sobre os EUA - enfim, Milovan Rajevac pegou a mim e aos gringos de supresa, modificou a forma de sua equipe jogar e despachou o escrete americano e o pé-frio do Clinton de volta para os states.


Agora, o jogo muda. Se antes estava relativamente fácil para acertar os jogos, agora, longe disso. Tirando Espanha x Paraguai, partida na qual a diferença entre as equipes é relativamente grande, acertar pelo menos um dos outros três confrontos é tarefa para quem entende de bola. Ainda que se deva comemorar as quatro vagas sul-americanas nas quartas, é bom abrir o olho, porque os europeus que continuam no torneio são justamente os três melhores times daquele continente. Vamos às análises:


Uruguai x Gana


Pois bem, os uruguaios são a grande supresa da Copa, seja pela eliminatória que fizeram, os resultados na Copa América e demais amistosos - a previsão mais otimista em relação ao time de Oscar Tabárez era de que chegasse, com algum esforço, às oitavas. Pois bem, chegou às quartas em plenas condições de avançar mais. Muslera, apesar das falhas contra a Coreia do Sul, faz uma boa Copa,  Máxí Pereira é um dos três melhores laterais-direitos, Lugano e Godín estão em grande fase, Fucile tem se esforçado, os Areválo e Pérez marcam muito no meio, os dois Álvaros (o Pereira e o Fernández) sabem articular o jogo e, no ataque, o time se segura bem: Como Forlán pela esquerda, Cavani pela direita e Luís Suárez no comando de ataque, a equipe segue marcando gols - normalmente, Forlán volta e complementa o meio de campo, mas Cavani também pode fazer isso. Em suma, trata-se de um time que alcançou se ápice no momento exato em precisa fazê-lo. Pelo seu lado, Gana é o único time africano que restou no torneio, faz sua segunda Copa e avançou em relação à primeira: Se em 2006 o time parou nas oitavas de final frente ao Brasil de Parreira, agora a seleção avança uma casa e disputa as quartas. Para mim, Milovan Rajevac é, até o presente momento, melhor técnico da Copa - em uma competição marcada pela mesmíce tática e pela incapacidade dos treinadores trocarem algo um pouco diferente de seis por meia dúzia, Rajevac foi um dos poucos a conseguir adaptar a forma de sua equipe jogar às necessidades, saindo do seu habituall 4/2-3/1 para enfiar um 3/4/3 em e assim dar um nó tático em Bob Bradley, o hábil treinador americano. A seleção africana tem um bom goleiro, Kingson, e deve voltar ao seu esquema habitual frente a um Uruguai que joga com três na frente: Pantsil que quando necessário vira zagueiro volta para a lateral-direita, os dois Mansah formam uma zaga forte, Sarpei marca bem pela esquerda, embora não apóie e, no meio, encontramos os destaques do time: Annan é fundamental para o time jogando na marcação, Boateng marca e chega de trás, Asamoah arma e sabe atacar pela ponta-direita. Na frente, Ayew, pela esquerda, é a revelação do time, Gyan é preciso no comando de ataque e Tagoe, eventualmente, quebra o galho pela ponta-direita. No duro, o ataque uruguaio leva vantagem sobre a defesa de Gana, mas a briga pelo controle do meio promete ser boa e nela, fisica e até tecnicamente, os africanos são um pouco superiores - enquanto na briga entre o ataque de Gana e a defesa uruguaia, a celeste leva ligeira vantagem. Há quem diga que ser capaz de controlar o meio é o diferencial para a vitória, mas veremos no que dá num jogo onde a equipe que perde no meio é superior nos dois extremos. Honestamente, é jogo para triplo, a ligeira superioridade técnica da celeste é compensada pela motivação do adversário - que deve contar com a torcida a seu favor. Para não ficar em cima do muro, aposto no Uruguai, na dureza, nem sei se no tempo regulamentar.


Brasil x Holanda


Falamos aqui do confronto de duas das melhores seleções dos últimos quatro anos. O Brasil venceu tudo. A Holanda, pos sua vez, teve o quadriênio que só não foi perfeito pelo desastre frente a uma imprevisível Rússia nas quartas da Euro 08 - o time liderado por Arshavin jogou tudo o que jamais jogou (nem voltou a jogar) contra a Laranja e a despachou de forma doída. Na Copa, o Brasil chegou com dois dos seus melhores longe da excelência fisíca - casos de Júlio César e Kaká -, enquanto outros jogadores tiveram problemas ao longo da competição - casos de Robinho, Felipe Melo e Júlio Bapstista, além de Elano, criminosamente vitimado por um jogador marfinense dois minutos depois de feito seu gol na vitória brasileira por 3x1. Apesar disso, Dunga consegue fazer um bom trabalho, com alguns eventuais deslizes, mas que, até agora, funcionou nos momentos decisivos: Seu time joga num 4/2-3/1 como a maior parte dos times já a algum tempo, Júlio tem pegado bem no gol, Maicon é o melhor lateral-direito da Copa, Lúcio e Juan formam uma dupla de zaga primorosa - que teve algumas desatenções na primeira fase, mas tecnicamente é mais capaz do que qualquer miolo de zaga nesta Copa -, Michel Bastos é o ponto fraco da equipe pela lateral-esquerda; no meio, Gilberto Silva compensa com inteligência as sus limitações físicas - e rendeu melhor quando no lugar do travado Felipe Melo atuou ao seu lado Ramires, o que infelizmente não pode se repetir pela suspensão do bom camisa 18 do Brasil - e Kaká, ainda que pareça não estar 100%, sempre que entra no jogo, faz toda diferença; na frente, Elano era um peça essencial ao esquema, atacando pela direita e voltando para compor o meio, sua saída foi suprida por Daniel Alves, que apesar da partida razoável contra o Chile não correspondeu contra Portugal - nem quando entrou antes -, Luís Fabiano não estourou, mas soube marcar gols nos momentos decisivos e Robinho finalmente desencantou na última rodada, mas tem feito partidas taticamente corretas. A Holanda de Bert Van Marwijk não tem o brilho de outrora, tentando jogar de forma mais eficiente do que bela para ganhar o título que sua bela tradição de jogo bonito nunca foi capaz de levar - ainda que muito do futebol opaco da equipe nesta Copa se deva menos a alga tática em especial do que ao desempenho dos seus jogadores; o o mal dessa equipe está numa disposição morna dos atletas que alternam entre o feijão-com-arroz e alguns lampejos. A equipe venceu os três jogos da fase inicial sem muito esforço - o primeiro contra uma Dinamarca pesada, o segundo com a ajuda da Jabulani contra o Japão e o terceiro contra um já eliminado Camarões - e sofreu mais do que o esperado frente a Eslováquia nas oitavas.  Stekelemburg é bom nome no gol, Van der Wiel é sóbrio, mas lhe falta um tanto de arte pela lateral-direita, a zaga é baixa e se não compromete também não acrescenta, Van Bronckhorst é aquele velho poço de vontade;  no meio, De Jong e Van Bommel marcam bastante e tocam rápido a bola, mas não tem grande qualidade, dedicando-se a carregar o piano para Sneijder jogar - o meia, ainda que não tenha estourado nesta Copa, é o maestro do time, com seus passes precisos, belos lançamentos e boas chegadas; na frente, Robben voltou ao time pela ponta-direita e é o outro destaque, Van Persie no comando de ataque e Kuyt pela direita são bons jogadores, mas longe de ser craques. Diante de seus enormes desfalques, Dunga deve manter Daniel pela direita até para liberar Maicon para o ataque, o que aumenta a responsabilidade de Kaká pelo meio e Robinho pela esquerda, o problema está mesmo com o fato de Robben atacar pelo setor que Michel Bastos defende e do time, depois de ter arrumado Ramires pelo meio, tê-lo perdido, restando poucas opções no elenco. Setor por setor, o defesa brasileira leva vantagem sobre o ataque holandês - apesar desse pequeno detalhe que pode acabar decidindo o jogo -, a meia-cancha de ambos se equivalem - pelas contingências - e o ataque brasileiro é melhor que a defesa laranja. Jogo duro, aposta numa vitória apertada do Brasil. 


Alemanha x Argentina


Único jogo que envolve dois campeões mundiais, trata-se da maior atração das quartas. O time alemão dirigido por Joachim Löw é um dos melhores do quadriênio, a equipe, depois de uma das suas maiores crises de renovação da história, usou o mundial passado, o qual sediou, como forma de projetar jovens jogadores e começar a seleção do zero. Deu certo. O time arrancou uma terceira colocação e depois fez um bom quadriênio - sendo vice da última Euro - e fazendo boas campanhas nas últimas duas eliminatórias. Nesta Copa, a Alemanha caiu num grupo bem disputado, surpreendeu a todos jogando o fino da bola contra a Austrália, depois, mais surpreendemente ainda, foi anulada pela Sérvia que lhe derrotou para depois, num jogo tenso, vencer por 1x0 Gana e se classificar - nas oitavas, eliminou a Inglaterra sendo superior em campo, embora tenha sido favorecida pela arbitragem. A Argentina, já há muito se ressente da falta de títulos, sendo que na última Copa foi eliminada, nos pênaltis, por essa mesma Alemanha, iniciando um ciclo doloroso, onde Alfie Basile fracassou no comando da equipe, cedendo lugar para que o astro maior do seu futebol assumisse o time: Maradona voltou e conseguiu contornar momentos difíceis, emplacando uma classificação dura em quarto lugar nas eliminatórias - para uma Copa onde foi premiado com um grupo relativamente simples, onde venceu os três jogos sem muita pressão dos adversários e, quando finalmente topou com um desafio, também acabou ajudada pela arbitragem que validou um gol ilegal de Tevez contra o México - o que além da vantagem no marcador, desestruturou o time adversário. Equipe por equipe, a Alemanha joga num 4/2-3/1 muito parecido com o Brasil: Neuer, seguro, é o goleiro, a defesa tem Lahm pela lateral-direita - disputando com Maicon o título de melhor jogador da posição -, Mertesacker e Friederich formando uma zaga bem concisa, Boateng (o alemão) marcando bem esquerda, ainda que não seja nenhuma virtuose; no meio, Khedira e Schweinsteiger são os volantes - combinando força física, bom toque de bola e inteligência tática - enquanto Özil é o maestro do time - forte candidato a melhor armador da Copa; pelas pontas, Müller, técnico e veloz, é presença forte pela direita e Podolski, com sua categoria e precisão, domina a esquerda e, no comando de ataque, Klose continua sendo matador, eficiente por baixo e muito bom por cima. Já a Argentina, atua também num 4/2-3/1, com algumas peculiaridades: Romero, não muito seguro é o goleiro, Otamendi quebra o galho pela lateral-direita e o mesmo faz Heinze pela esquerda, enquanto Demichelis e Burdisso formam a zaga depois da contusão de Samuel; no meio, Mascherano faz uma excepcional Copa como primeiro volante e Maxí Rodríguez disputa a outra vaga na marcação com o experiente Verón; mais adiante, Tévez joga mais fixo na ponta-esquerda, mas Messi e Di María  se alternam entre o meio e a direita, abastecendo Higuaín. O ataque ainda não jogou o (muito) que pode, mas a defesa dá sustos e faltam laterais. No confronto, o ataque alemão leva vantagem ampla sobre a zaga argentina, no meio, será travado uma das mais qualificadas disputas dessa Copa, o ataque argentino é capaz de infringir dor a qualquer defesa desse torneio e isso vale também para a boa defesa alemã. Em suma, o time germânico parece mais equilibrado, enquanto a Argentina é superior nas individualidades - e no carisma de Maradona -, falamos de duas seleções vencedoras que há muito amargam um jejum em Copas, jogo para quádruplo - um palpite para cada possibilidade, outro para o improvável -, mas já que estamos no inferno, então que ousemos dar uma tapa no diabo: Ainda que eu torça para a Argentina , a Alemanha é favorita por um fiozinho de cabelo, mas não duvide de prorrogação ou pênaltis aqui.


Espanha x Paraguai


A Espanha é o segundo melhor time do mundo dos últimos quatro anos. Venceu a Euro para a qual se classificou depois de boa eliminatória, fez uma boa eliminatória para a Copa, mas rodou na Copa das Confederações contra o time americano. Na atual Copa, tomou um susto logo de cara ao ser neutralizada pelo ferrolho suíço - e derrotada por um gol de contra-ataque -, mas recuperou-se ganhando de Honduras - outra gloriosa retranca, em relação a qual não conseguia golear apesar do amplo domínio - e depois venceu o Chile, em jogo duro, que garantiu sua classificação em primeiro no grupo para confrontar seu arqui-rival Portugal nas oitavas - jogo que venceu como nos demais: Amplo domínio, mas poucos gols, placar magro de 1x0. O Paraguai é, desde os anos 90, um futebol em franca ascensão, joga defensivamente, marca muito é organizado em campo e, mesmo não formando meias criativos, tem lá seus atacantes -  time do técnico argentino Gerardo Martino liderou o início das Eliminatórias Sul-Americanas, mas depois perdeu duas posições, para Brasil e Chile, ainda que tenha ficado apenas um ponto abaixo do líder. Time por time, a Espanha de Vicente del Bosque joga num 4/3/3, com Casillas no gol - grande goleiro, ainda que não esteja no auge -, uma defesa modesta porém esforçada formada por Sergio Ramos pela lateral-direita, Puyol e Piqué pela zaga, Capdevilla pela lateral-esquerda; no meio, Busquets é volante, Xabi Alonso é o segundo volante - homem das saídas rápidas - e Xavi é o armador; pela frente já jogara Navas, como um legítimo ponta-direita, e Iniesta, fazendo um misto de ponta e exterior-direito, David Villa é o craque do time pela ponta-esquerda - e, por ora, é ele quem tem efetivamente feito o ataque espanhol funcionar - e Fernando Torres no comando de ataque = contestado e em má fase, o que abre espaço para Llorente na frente. O Paraguai joga num 4/4/2 que se torna 4/3/3, mas que no jogo em questão deve se resumir às duas linhas de quatro mesmo - para tentar fazer com que o raio caia duas vezes no mesmo lugar, depois da vitória suíça -, com Justo Villar, muito bem, no gol, dois excepcionais laterais defensivos que apóiam mal - Bonet pela direita e Morel Rodríguez pela esquerda -, uma zaga tecnicamente qualificada e bem postada - formada por Alcaraz e Da Silva -, um meio com Cárceres fazendo o primeiro volante e Riveros mais adiante, Vera fazendo um extremo-direito - meia-armador aberto dos 4/4/2 europeus - recuado, Barreto ou Benítez fazendo o mesmo, só que mais avançados, pela esquerda e um ataque variante, com a figura de Lucas Barrios enfiado na zaga adversária e algum outro nome por fora da área, seja ele Cardozo, Roque Santa Cruz ou Haedo Váldez. No duro, será mais um jogo de ataque contra defesa, onde a Espanha se manda para o ataque e o adversário planta duas linhas de quatro para se defender e achar o contra-ataque salvador. Três das quatro equipes que enfrentaram a Espanha fizeram o mesmo, mas  só a Suíça levou a melhor. Por mais que um milagre paraguaio fosse um espetáculo, é difícil que ocorra.

domingo, 27 de junho de 2010

Notas da Copa: Alemanha e Argentina, em Tarde Negra da Arbitragem

Alemanha e Argentina confirmaram seu favoritismo e chegaram às quartas da Copa. O que surpreendeu foram os erros de arbitragem que os beneficiou, algo bem triste numa Copa onde os erros de arbitragem foram raros e, infelizmente, começam a pipocar justamente quando não poderia acontecer - e aqui falo do gol não marcado de Lampard, que bateu na trave e depois entrou meio metro, e depois do gol absurdo de Tévez contra o México, justamente o primeiro, no qual o jogador estava mais de meio a frente dos zagueiros adversários. Apesar das vitórias largas - respectivamente 4x1 e 3x1 -, os erros serviram para desequilibrar os adversários - que abriram a porteira depois disso. Pode-se argumentar que o erro faz parte do jogo e que é preciso saber se comportar diante dele, Inglaterra e México ficaram com a cabeça fora do lugar, mas não é fácil correr atrás do placar.

No jogo da manhã, Fábio Capello armou a Inglaterra no velho e repetitivo 4/4/2 de sempre: Duas linhas com quatro jogadores, enquanto na frente Rooney se movimentava um pouco e Defoe ficava preso na área; o time alemão jogava no seu 4/2-3/1. O confronto, pela perspectiva alemã era o seguinte: Neuer era o goleiro, Lahm era lateral tendo de marcar Milner - que fazia o extremo-direito no meio inglês -, Mertesacker e Friedrich eram os zagueiros e enfrentavam Defoe - Rooney se movia por fora da área enquanto Khedira ficava como volante pela esquerda e também voltava para fazer a sobra -, Boateng era lateral-esquerda e deveria marcar Gerrard -; no meio Schweinsteiger era volante pela direita - saindo mais para o jogo - enquanto Khedira ficava pela esquerda e voltava às vezes para a sobra, o que os fazia bater de frente com Lampard e Barry no time inglês - e o que segurava Özil mais pelo meio mesmo; no ataque três atacantes alemães, Müller (foto: Reuters) pela direita - contra Cole na esquerda -, Klose como centrovante - contra a dupla Upson/Terry - e Podolki pela esquerda - contra Johnson lateral-direita. James era o goleiro inglês.

Elas por elas, a Alemanha, mesmo sem muito esforço, dominou a Inglaterra de maneira absurda na primeira metade do Primeiro Tempo: Bastava tocar um pouco a bola e a defesa inglesa já entrava em pane. Não à toa, o gol alemão saiu de um lançamento feio em um tiro de meta, que Klose apanhou contra uma zaga incapaz de antecipar o lance desses; depois, tome domínio - muito embora a zaga alemã tenha dado espaço para Defoe, ligeiramente a frente, cabeçar com perigo -, depois veio um contra-ataque bom e Podolski - que até ali pouco tinha feito - arrematar. O que parecia uma barbada para o a seleção germânica começou a complicar: O time inglês foi para cima e a sua defesa passou a falhar. Em cobrança de falta, Gerrard colocou na cabeça de Upson. Isso deu velocidade no jogo, a Alemanha sentiu o gol e ficou desorientada até que Lampard chutou de fora, a bola bateu na trave entrou, mas o assistente Mauricio Espinosa não viu e não validou o gol. O time inglês entrou no segundo tempo desesperado e desequilibrado emocionalmente pelo gol e tomou mais dois em contra-ataques: O comezinho do esquema alemão, Müller vindo da ponta-direita entrando em diagonal na área, o primeiro com passe de Klose, o segundo, com passe de Özil. Fim de papo. A Alemanha foi mesmo melhor - a Inglaterra fica pelo caminho com uma má campanha nas costas e uma postura de time arrogante e exageradamente festejado -, mas o erro da arbitragem não sai da cabeça de ninguém.

(Verón comemorando com o resto do time ao fim do jogo - reuters)

No outro jogo, Javier Aguirre modificou consideravelmente a forma do México jogar: Entrou no 4/3/3 com Perez no gol, passou Osório da lateral-direita para a zaga e Juárez do meio para essa lateral, colocou Rodríguez na zaga pela esquerda e manteve Salcido no esquerda; no meio emplacou Rafa Márquez, Torrado e Guardado; no ataque colocou Dos Santos pela direita, Hernández pela esquerda e Bautista pelo meio - voltando para dar o combate; a Argentina seguiu no seu 4/2-3/1 com Romero no gol, uma linha com Otamendi, Demichelis, Burdisso e Heinze; o meio com Mascherano na cabeça de área - um pouco mais pela esquerda - e Maxí Rodríguez pela direita saindo e um trio de armadores que se movimentava bastante: Tévez pela esquerda enquanto DiMaria e Messi se alternavam entre a direita e o meio; na frente, Híguaín ficava isolado.

A verdade é que o México anulou o meio argentino, encaixando a marcação e só não abriu logo o placar diante de um nervoso time argentino porque não acertava o último passe - ainda assim, os mexicanos colocaram uma bola na trave em falha de Romero. Eis que num contra-ataque, em lance armado por Messi, deu um bate e rebate na área em que Tévez, cm flagrante impedimento, empurrou para o fundo das redes. O assistente Stefano Ayroldi ao ver o lance pelo telão, muito embora não tenha erguido a bandeirinha também não correu para o meio e travou, o árbitro italiano Roberto Rosseti conversou com ele e tomando pressão de ambos os lados, validou o gol. O México perdeu o jogo naquele momento. A equipe ficou com os nervos à flor da pele e Osório falhou feio, em lance que Higuaín aproveitou. No Segundo Tempo, Tévez aproveitou-se bem das peculiaridades da Jabulani e enfiou a bola no ângulo. 3x0 e mesmo que os mexicanos, com a entrada de um monte de atacantes, tenham pressionado muito, e até achado um golzinho depois, era tarde demais para qualquer coisa.

Enfim, tivemos outro jogo marcado pela sombra negra de um erro crasso de arbitragem. Aqui o erro teve mais influência sobre o resultado do que no jogo anterior. Os argentinos saíram amplamente beneficiados naquele que seria o seu maior desafio até agora. As quartas de final entre Argentina e Alemanha prometem. Os alemães tiveram dificuldades sérias quando foram marcados e os argentinos até agora, sempre quando iam se complicando, foram beneficiados - o gol de Heinze, na estreia, também foi ilegal -, resta saber, agora que se enfrentam, o que dará. A priori o equilíbrio impera. Nos últimos quatro últimos anos os alemães foram mais regulares, mas os argentinos chegaram com um astral acima da média nesta Copa. Esperemos que essa igualdade seja resolvida no campo de forma legítima.

sábado, 26 de junho de 2010

Notas da Copa: Uruguai e Gana

Hoje, o Uruguai bateu a Coreia do Sul por 2x1 no tempo normal e, logo depois, Gana bateu os EUA pelo mesmo placar só que na prorrogação. O Uruguai, com mais dificuldade do que eu supunha inicialmente, confirmou seu favoritismo, já Gana reverteu a pequena vantagem americana - seja vantagem em termos de qualidade técnica ou de ânimo - e manteve o continente africano vivo na competição.


Do jogo uruguaio, uma grande atuação do centro-avante Suárez (foto: Getty Images) com dois gols e outra bela atuação do trio de ataque como um todo, também formado por Forlán - hoje abaixo da sua média nesta Copa - pela esquerda e Cavani pela direita. O time do Uruguai, em uma falha da defesa sul-coreana, abriu o placar aos oito minutos do primeiro tempo, o ataque funcionava, o meio mesmo sem muita criatividade atuava bem - Pérez e Arévalo na marcação e Álvaro Pereira armando -, a zaga formada por Lugano e Godin continuava firme, Maxi Pereira voava pela latera-direita apesar de Fucile ir mal pela esquerda. A Coreia do Sul buscava compensar sua fragilidade técnica com lances de velocidade em seu 4/4/2, mas só levou vantagem no Segundo Tempo, quando a celeste além de ter recuado, demonstrava cansaço físico;  Chu Yung comandava bem o ataque, os laterais funcionavam e o meio tocava bem a bola. De repente, a Coreia do Sul passou a apresentar o seu melhor futebol na Copa e o gol era iminente. Lugano, matando contra-ataque, fez falta e na falha de Muslera, que saiu mal do gol, a Coreia empatou. Aí, o Uruguai resolveu voltar para o jogo, Oscar Tabárez mexeu bem ao tirar Álvaro Pereira para colocar Lodeiro e o time foi para o ataque. Suárez fez mais um em lindo lance de ataque. Quando tudo parecia definido, Muslera não segurou e Lugano salvou em cima da linha. Mas fim de jogo. O Uruguai chega às quartas de final numa Copa que marca seu renascimento bem como a ascenção do futebol sul-americano. Vitória merecida.

No outro jogo, os EUA vinham com toda a empolgação de uma primeira fase muito bem jogada, um grupo unido e entrosado contra Gana, única equipe africana no torneio, treinada pelo sérvio Milovan Rajevac. Enquanto os americanos desfilavam seu clássico 4/4/2 à inglesa - com duas linhas de 4 jogadores e armação sendo feita por meias abertos -, Rajevac armou seu time para anular esse jogo: Kingson era goleiro e junto aos dois Mansah, Pantsil atuou como zagueiro pela direita (ao invés de lateral-direito) para pegar os dois atacantes americanos, Altidore e Findley; no meio, Inkoom era ala-direito e marcava Dempsey - que jogava invertido pela esquerda - e Sarpei era ala-esquerda para pegar Donovan - invertido pela direita -, enquanto Boateng e Annan ficavam pelo meio batendo de frente com Clark e Bradley; na frente Ayew e Asamoah eram pontas e batiam de frente com os laterais Cherundolo e Bornstein enquanto Gian era o centro-avante brigando contra De Merit e Bocanegra (hoje, zagueiro-esquerdo). O pulo do gato do esquema é que Boateng (foto: Reuters) marcava e  vinha de trás quebrando a sobra de bola americana. Foi assim que Gana fez o primeiro gol logo no começo do jogo.

Na segunda etapa, os americanos melhoraram, Feilhaber, atacante nascido no Brasil, entrou no lugar de Findley e deu mais velocidade ao ataque. Donovan e Dempsey cresceram e a entrada de Edu no lugar de Clark, realizada ainda no primeiro tempo, surtiu efeito. Os americanos passaram a mandar no jogo e empataram em cobrança de pênalti, realizado por Jonathan Mansah sobre Dempsey, batida por Donovan. O problema é que chegada metade do Segundo Tempo e as equipes passaram a administrar o placar, mais preocupadas em não tomar gol do que em definir o jogo. Deu prorrogação, claro. No comecinho dela, Gyan recebeu lançamento longo de Ayew, entrou em profundidade, a zaga não alcançou e ele definiu. Bem que os EUA tentaram empatar em lances de desespero, mas não criaram nada de produtivo enquanto os ganenses se defendiam com destreza. Vitória merecida.

Amanhã

A Argentina é favorita diante do México. O time treinado por Maradona vem contagiado pela força de vontade e alegria de seu treinador, tem um leque de opções absurdo para o ataque e, apesar dos defeitos defensivos, enfrenta uma equipe que se ressente da falta de criatividade no meio-de-campo - seja para armar ou para fazer a transição. Alemães e ingleses já fazem um confronto bem mais complicado; a Alemanha foi o único grande a estrear bem e depois comeu bola na derrota para a Sérvia e não me convenceu contra Gana, enquanto isso a Inglaterra jogou apenas um tempo convincente em toda Copa - o primeiro, contra a Eslovênia -, mas elas por elas vem crescendo. Aposto na Alemanha, mas por um placar apertado num jogo desgastante - o que seria ótimo para a Argentina.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Notas da Copa: Enfim, definidas as Oitavas de Final

Agora há pouco, a Espanha meteu 2x1 no Chile atuando com um jogador a mais. Foi um bom início de jogo do time espanhol frente a um Chile afobado que, ainda por cima, acabou prejudicado pela arbitragem. Os dois gols tomados puseram dúvidas quanto à classificação chilena, mas depois o time diminuiu e equilibrou o jogo - enquanto no conflito de retrancas, Suíça e Honduras acabaram terminando no previsível e justo 0x0. Sim, Honduras merece um prêmio da FIFA por ter deixado a Suiça de fora das oitavas, até porque isso implicou na classificação de duas equipes que jogam um futebol ofensivo, leve e veloz, coisa rara na Copa sul-africana. Pena o Chile não ter ficado em primeiro, mas de qualquer modo, sua classificação já se constitui numa grande vitória para o futebol sul-americano, cujas cinco seleções se encontram nas oitavas.

A melhor seleção da primeira fase foi a Argentina de Maradona e Messi, seguida da Holanda - a outra equipe a fechar com 100% de aproveitamento -, Uruguai e Brasil. Vamos à análise dos confrontos:

Uruguai x Coreia do Sul
A Copa que os uruguaios estão fazendo surpreende (positivamente) a todos; o time marca com firmeza e tem um belo poder de fogo nos contra-ataques com Forlán. Os sul-coreanos caíram num grupo onde a Argentina sobrou e a Nigéria sumiu, souberam jogar com inteligência, mostrando um futebol veloz e disciplinado, mas lhes falta muita coisa ainda. Aqui, para o Uruguai não se classifica não basta a carruagem virar abóbora, mas também um milagre do lado de lá.

EUA x Gana
O time americano é bom: Joga há muito tempo junto, tem jogadores experientes, um bom condicionamento físico e até certa qualificação técnica - com jogadores como Donovan, Dempsey e Bradley. A equipe encarou bem a Inglaterra, arrancando um empate e depois, mesmo sendo vítima de erros de arbitragem, empatou com a Eslovênia e venceu a Argélia demonstrando superioridade. Gana estreou mal contra a Sérvia, mas foi beneficiada pelos erros do rival e venceu o jogo, depois empatou com a Austrália jogando pouco e perdeu para a Alemanha em seu melhor jogo no campeonato - sim, é o único time africano que restou no torneio; trata-se de uma equipe forte fisicamente e com boa técnica. O confronto será parelho. A vantagem está como os americanos, mas ela é pequena.

Holanda x Eslováquia
A Laranja Mecânica não encantou, mas venceu todos os jogos da primeira fase e foi a segunda melhor equipe naquela fase. O time está junto há algum tempo, Robben está voltando, Sneijder está jogando, Van Persie está por aí. Em outros tempos, o time holandês voava em campo e era surpreendido logo mais, será que dessa vez a falta de brilho esconda finalmente o prenúncio de uma chegada firme? Os eslovacos são a maior surpresa da Copa, ainda mais depois de terem eliminado a Itália, atual campeã mundial. Não os vi jogando grande coisa, sofreram empatando com a Nova Zelândia, perderam para o Paraguai e ganharam de um time esgotado que não sabe atacar - apesar de sua grandeza. Aposto firme na Holanda.

Brasil x Chile
No confronto entre sul-americanos, o Brasil vem de uma campanha oscilante na primeira fase, embora tenha jogado quando realmente precisou. Kaká, Elano, Maicon e Robinho dão a tônica do time nacional que ainda tem Júlio César no gol e Luís Fabiano no ataque, mas ainda persistem problemas graves no setor de marcação do meio-de-campo e na esquerda da defesa. O Chile atual é a melhor geração do futebol daquele país desde Salas e Zamorano, conta com jogadores como Suazo, Valdivia, Beausejour, Sánchez e Paredes além do técnico argentino Marcelo Bielsa, ao meu ver, o melhor treinador da primeira fase - a equipe joga bem e joga para frente como já adiantei. Será um belo jogo, mas o Brasil é favorito sim.

Argentina x México
A Argentina foi o melhor time da primeira fase devido à estrela de Maradona no banco, às estrelas do setor ofensivo - Messi, Higuaín, Tévez e Di Maria - e ao banco privilegiado, tudo isso somado a um sorteio que lhe  jogou num grupo fraco o suficiente para não saber explorar o seu calcanhar de aquiles: A defesa. O México pode até ser superior a qualquer equipe que a Argentina já enfrentou no torneio, mas demonstra problemas no meio de campo - falta gente para executar a saída de bola e a armação não funciona bem - assim como o seu ataque não encanta - sua classificação, a rigor, se deve a um bom segundo tempo contra a morta-viva França. É pouco e los hermanos devem seguir aqui também.

Alemanha x Inglaterra
A Alemanha teve uma estreia arrebatadora ao enfiar uma goleada com propriedade na Austrália, mas depois foi imprudente demais para um time que quer ser campeão contra a Sérvia, protagonizando um dos jogos mais estranhos dessa Copa. Depois, veio a classificação suada e sem brilho contra Gana. A Inglaterra empatou com os EUA jogando melhor que o adversário, foi horrorosa contra a Argélia e melhorou contra a Eslovênia. Por ora, o time alemão mostra mais consistência tática - seja pela variabilidade ou pela disposição em campo -, capacidade técnica - Gerrard e Lampard estão bem na Inglaterra, mas o resto do time ou não é bom ou está quebrado, enquanto a Alemanha tem Ozil, Podolski, Muller, Klose - e até mesmo banco. Não será fácil, mas eu creio que a Alemanha é favorita.

Paraguai x Japão
Os paraguaios são outra boa surpresa do torneio ao se classificarem em primeiro no grupo da atual campeã - e veja só, eliminada - Itália. O time mantém as linhas-gerais do futebol de seu país, a precisão defensiva e a robustez na marcação somada, dessa vez, com um poder de fogo razoável na frente, com Lucas Barrios e outros bons atacantes. O Japão, por sua vez, prossegue crescendo. O time atual fez partidas táticas contra Camarões e Holanda - ganhando o primeiro por 1x0 e perdendo o segundo pelo mesmo placar - e teve um jogo simplesmente luminoso contra a Dinamarca, na última rodada. Se a trajetória de crescimento do time nipônico se mantiver no torneio, ele deve se classificar, mas o Paraguai é inteligente o suficiente para anula-lo. Situação complicada, mas eu aposto nos sul-americanos.

Espanha x Portugal
A Espanha era apontada como uma das favoritas ao título, mas não teve um desempenho lapidar: Perdeu para o glorioso ferrolho suíço na estreia, sofreu para furar a retranca hondurenha e teve lampejos contra o Chile - muito embora deva se considerar que administrou o placar em vários momentos. O ataque, especialmente David Villa, se destacou assim como a dupla de meias de criação, formada por Xavi e Xabi Alonso - a defesa, assusta. Portugal, por sua vez, se classificou em segundo sem ter um jogado nem levado um gol sequer - o que não significa que tenha jogado bem, pois foi pior do que Costa do Marfim, pegou uma Coreia do Norte arrasada e um Brasil desfalcado e acomodado. Clássico é clássico como diz a máxima do futebol, mas a Espanha me parece favorita aqui.