As especulações, claro, passaram imediatamente a girar em torno do nome de Luís Felipe Scolari, seguramente o melhor treinador brasileiro em exercício e comandante brasileiro do Penta. Agora há pouco, Felipão, que está de retorno ao Brasil para treinar o Palmeiras, declarou que está focado no time paulista e que, pelo menos até 2012, não pensa na Seleção Brasileira. A decisão é óbvia. Primeiro, Felipão jamais descumpriria sua palavra com a direção do Palmeiras, isso nunca foi do seu feitio. Segundo, dividir-se enquanto técnico da Seleção e, ao mesmo tempo, de um clube seria uma tarefa esquizofrênica e insuportável - a experiência de Vanderlei Luxemburgo, em 1999, no Corinthians e na Seleção nos prova disso bem.
Outro aspecto da negativa é que Felipão pensará bem em aceitar o convite da Seleção. O treinador tem uma experiência no mínimo radical com o time nacional: Quando o assumiu, no distante ano de 2001, a equipe vivia a fase mais negra de sua história, arriscado a não conseguir, sequer, a vaga para a Copa da Ásia. Nada funcionava, a ferida causada pela derrota na final de 98 ainda estava aberta, o trauma pelas desditas nos dois anos anteriores estava bloqueando qualquer iniciativa, o modelo de gestão da CBF - disfuncional até na bonança - colapsava diante do impasse - e o futebol do país, ainda por cima, vivia um período de entre-safra.
A pressão que pesa sob a cabeça do treinador do escrete canarinho estava potencializada e as derrotas no início tornaram a situação insustentável. A imprensa esportiva nativa, limítrofe e presunçosa como só ela, já acendia suas tochas numa tentativa prévia de racionalização de um fracasso - que sequer havia acontecido -, escolhendo a via da caça aos bodes-expiatórios - no caso, de um grande e único bode-expiatório: Felipão, que, ainda por cima, tomou duas decisões racionais que serviram para botar mais lenha na fogueira ao colocar o time para jogar no 3/5/2 - tendo em vista a inexperiência dos zagueiros do time e a aptidão dos laterais para apoiar e criar jogadas - e não convocar Romário, ídolo e responsável pelo Tetra que vivia uma crise aguda-extrema de marra, que o tornava fator de desestabilização.
Como apanhou Felipão.O que Dunga passou não foi nada perto daquilo. Pelo menos uma coisa ele teve de vantagem: A crise era tamanha na seleção que sua autonomia como treinador foi uma das maiores desde que o Regime Militar tirar João Saldanha do comando do time nacional nos idos dos anos 70. Suas apostas deram rigorosamente certo. O único erro, a marcação do meio-de-campo, foi acertado durante a própria Copa com a troca de Juninho Paulista por Kléberson. Ganhamos a Copa. Felipão não continuou. Seu último jogo, aliás, foi um amistoso que perdemos para o Paraguai. As exigências da CBF e o modo como o trabalho deveria continuar dali em diante não lhe pareciam incentivos para continuar. Foi o que aconteceu e para seu lugar veio Carlos Alberto Parreira, homem de confiança do poder.
Felipão conhece muito bem os interesses que gravitam em torno do time nacional e de como tudo que ele construiu pode ir por água abaixo facilmente. Sua volta é possível no prazo em que ele estipulou, mas apenas numa situação minimamente digna, o que eu tenho minhas dúvidas se essa CBF será capaz de - ou estará disposta a - produzir.
