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segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Tudo que é Bolsonaro Desmacha no Ar?

Outdoor simpático a Bsolnaro pichado em Lavras-MG (retriado daqui)



Bolsonaro. O que dizer disso? Vivemos em tempos distópicos no mundo, e o Brasil não é uma ilha. A implosão da ordem normal das coisas cria uma vertigem, um efeito pelo qual o chão se desfaz, abalando nossas mais elementares crenças na realidade. Essa realidade, esse regime de símbolos que supúnhamos ser sólido como o chão sob os nossos pés, sempre foi isso: um dos muito sistemas, ou modos do sistema, possíveis, mas nem por isso a sensação deixa de ser menos nauseante, pois nem mesmo a consciência dessa abstração nos livra dos efeitos materiais e concretos desse processo. Tudo que é sólido desmancha no ar. E como desmancha. 

A distopia vem quando esse rompimento não cria nem a liberdade nem um novo simulacro, uma nova matrix, dando vazão à incerteza e a emergência de seres apocalípticos. Jair Messias Bolsonaro expressa bem isso: para uns ele é o messias retornado e necessário enquanto juiz, ou possível, para outros ele é o anticristo -- duas fantasias apocalípticas recorrentes e, também, simétricas, que ilustram o esforço trascendente do velho mundo em encarar seu limiar, seu desmanche.

O que Marx e Engels inovaram, captando a fina ironia de um outro grande dialético, Shakespeare, sobre a insustentável leveza dos planos de representação é que o capitalismo, como qualquer sistema despótico, não só constrói seu planos ideológico e simbólico de realidade pela destruição do antigo como, igualmente, destrói o que cria progressivamente e como regra, instituindo novos planos e novos modos de planos. 

A novidade capitalista é que seu funcionamento, e sua sobrevivência, gira em torno de uma norma na qual a excepcionalidade da ruptura se torna regra geral -- não à toa, o pensamento nazista girou em torno do aperfeiçoamento da destruição por meio de sua domesticação, da sua sujeição à praxe e à política de governo, de como fazer comandar racionalmente a destruição. Bolsonaro é esse ser que emerge -- no mundo que o novo não nasceu e o velho se encontra às turras com à sua morte, para recorrer à imagem clássica de Gramsci.

Mas as rupturas necessárias, são, ao mesmo tempo, brechas, mesmo na sua hipótese apocalíptica de distopia e crise profunda. Estamos em um desses momentos no Brasil. O vento é forte e a tempestade no horizonte se anuncia com nuvens escuras e densas. O sistema se esforça para uma recomposição de normalidade, um novo simulacro, que pode se utilizar da pulsão de morte, e suicídio, e precisa se esquivar das pulsões de vida. O risco sempre está presente.

A capacidade romper consigo mesmo, trair às suas criações sempre foi o mistério e a feitiçaria que permitiu ao capitalismo sobreviver, mas sempre foi a maldição que não o faz viver jamais em paz. Nenhum operador seu está seguro na sua tarefa: o perigo que ameaçava o senhor feudal ou os aristocratas do mundo antigo eram exteriores ao sistema que operavam.

Bolsonaro, como a maioria dos deputados brasileiros, atende ao modelo de cidadão do sistema moribundo, mas é quem mais violentamento o defende: é branco, homem, cisgênero, heterossexual, bem-sucedido. Essa constituição do discurso, e de imaginário, evidentemente é uma expressão tardia e sólida do velho fascismo, que apenas sistematizou chavões, superstições e distúrbios psicossociais da Europa do século 19º. 

Em um primeiro lugar, Bolsonaro é visto paradoxalmente como alguém de fora da política tradicional e, por outro lado, como alguém próximo da nossa realidade social e de um desejo de restauração e conservação como forma de resistir ao estado de coisas atual -- seu discurso é bastante impressionante, em termos de agressividade, para um político, mas não para as pessoas, as pessoas sempre têm um tio, um pai ou um avô como ele. 

No mais,  a onda de renascimento de um extrema-direita, por conseguinte, não é estranha a essas terras. Do mesmo modo que o fato da extrema-direita ter ficado hibernando, mas não morta, desde o final da Segunda Guerra Mundial também não nos é alheio. Bolsonaro é o símbolo desse ressurgimento no Brasil, para quem o ama, para quem o odeia.

Bolsonaro, no entanto, vem de um tipo de direita radical que, por seu turno, não vingou exatamente pelo mundo. O atual revival da direita fundamentalista passa, também, por um pós-fascismo pelo qual lideranças incorporam uma estética pós-moderna conjugada com uma agenda semelhante a do velho fascismo; Bolsonaro, contudo, é um fio desencapado do neoliberalismo: se Pinochet foi o precursor disso, como "mal necessário" desse projeto, Bolsonaro é uma reprodução tardia, que aconteceu quando já estava velho.

A nova direita constitui seu imaginário sendo estaticamente (pós)moderna e politicamente retrô: voltamos aos anos 1920, na qual a resposta para o presente está num passado ideal e seguro, o que exige  uma aliança contra minorias sociais, mas com um sistema de proteção social para as maiorias agrupadas na forma de nação -- é assim com Marine Le Pen e, também, com Trump, o Alternativa para a Alemanha ou o Partido Independentista Britânico.

Bolsonaro, torno a dizer, no fundo não têm isso a oferecer aos seus eleitores, talvez os mais crentes e engajados. Bolsonaro é o fundamentalismo de mercado associado ao Estado grande enquanto máquina de repressão, aprisionamento e morte. As dúvidas quanto isso giram em torno muito mais do que Bolsonaro poderia ser obrigado a se tornar em um governo do que, vejamos só, o que ele seja hoje.

As três gerações de extrema-direita expressam, contudo, um mesmo desespero das oligarquias dominantes em sistema capitalistas. No frigir dos ovos, o que as une é a percepção das elites econômicas proprietárias capitalistas perderem o controle -- ou até mesmo terem um fim trágico, que elas supõem que as pessoas lhes dariam caso soubessem como o sistema funciona.  O efeito geral da extrema-direita sobre a sociedade é de um suicídio coletivo como bem observam Deleuze e Guattari, começado pela prática de morte -- é como se o interesse em matar, e não só deixar morrer, para sobreviver escondesse um desejo suicida.

Bolsonaro, entretanto, passou a sofrer ataques pesados da grande mídia. Por sinal, ele está sofrendo ataques como nunca. Denúncias de corrupção passaram a explodir depois que o deputado, finalmente, conseguiu partido para poder se candidatar. Até então, Bolsonaro era uma figura execrada porém tolerada. 

A questão central é que a realização do fenômeno global do renascimento da extrema-direita no Brasil, ironicamente, vem acompanhada de um cruel paradoxo. Enquanto na Europa, o fenômeno se conecta à massa de trabalhadores da etnia majoritária, mas gradualmente excluídos do status que passaram a ter no século 20º pela decadência dos mecanismos do bem-estar social -- seja o salário ou os serviços públicos --, no Brasil, o fenômeno da extrema-direita é um fenômeno da elite ou, ao menos, da clientela da elite, dos estratos médios.

A contiguidade do desespero de uma parcela da elite e o elemento racial, mas também de gênero são comuns, mas no aspecto do substrato de classe, as pesquisas brasileiras surpreendem: é entre jovens e mais altamente escolarizados que Bolsonaro encontra seus eleitores. São as classes médias urbanas do sul que apoiam o radicalismo de direita, não trabalhadores pobres -- nem que fossem os trabalhadores pobres e brancos.

Em termos eleitorais, enquanto na Europa são setores que antes poderiam votar nos partidos à esquerda do centro que rumam para a extrema-direita, no Brasil, são eleitores que tenderiam a votar na centro-direita ou mesmo na direita clássica que cogitam em votar em Bolsonaro. 

Nos EUA, digamos que o sistema praticamente bipartidário tenha ajudado a Trump crescer tomando espaço de políticos tradicionais de direita, mas os países europeus, multipartidários por natureza, tivessem um sistema como o americano, possivelmente, o mesmo teria acontecido por lá.

Seja na Alemanha, na França ou nos EUA, o eleitor da extrema-direita é da etnia majoritária, mas pertence aos setores excluídos da educação superior e acertado em cheio pela dinâmica de precarização econômica. Aqui não. É o branco que quase chegou lá se aliando com setores radicais da oligarquia e com o estamento militar, pronto a conservar seus privilégios.

A aliança, aqui, é entre a parte mais desesperada da oligarquia e setores médios, seja pelas peculiaridades do Brasil -- como a existência prologanda e massiva de uma escravidão colonial afetou a composição de classe -- ou, talvez, porque a possibilidade de adesão a esse discurso de extremista encontre repouso entre setores que sintam, por alguma razão, que estão a perder seu status social -- e se isso, no Brasil, vem de setores que não são os mais afetados pela crise ou pela pobreza do país, logo, voltamos à primeira questão: somos uma nação fragmentada pela herança colonial e escravagista não resolvida.

A isso se soma à radicalização discursiva que a direita moderada adotou nos últimos anos: desde as eleições e o confronto ao petismo, muitas vezes recorrendo a expedientes morais, seja no processo de destituição bárbaro de Dilma Rousseff, na qual setores radicais foram arregimentados, financiados e apoiados para tanto.

Se a queda de Dilma gerou uma volta da centro-direita ao poder, para executar um programa de austeridade radical ao sabor do mercado financeiro, ele não colocou esses grupos necessariamente no comando, embora lhes tenha cedido cargos e algum espaço. Todavia, as inúmeras redes com discurso de ódio acabaram por ganhar autonomia e relevância eleitoral ao apoiarem Bolsonaro. 

A decepção com o governo Temer, em vez de gerar qualquer autocrítica, resultou em uma radicalização desses grupos a procura de uma solução autêntica e orgânica aos seus anseios. De repente, isso tornou um deputado de inúmeros mandatos em alguém de fora do jogo político -- a estratégia do establishment político brasileiro, de isolar e tolerar Bolsonaro, lhe deu, no nosso atual contexto, a visibilidade necessária para ser presidente, blindando-lhe da percepção negativa que se abate contra a classe dirigente.

Por outro lado, Bolsonaro não é líder de nada, não tem um entourage preparado, mas é apenas a face pública que se permitiu ser o pára-raio dessa onda grande -- apoiada, ainda, por estamentos como as forças armadas, em sua base e mesmo entre hierarcas. Em outras palavras, o número que Bolsonaro soma é relevante, embora não suficiente para vencer uma eleição.

Do ponto de vista dos grandes números, ele está simplesmente impedindo que um candidato da direita tradicional, encabeçada até segunda ordem pelo PSDB, vá ao segundo turno. A questão é: os grandes polos de apoio dessa direita estão nos grandes meios de comunicação e eles, por meio de denúncias de corrupção, esperam minar uma candidatura que eles julgavam ser, até outro dia, uma bolha bastante frágil.

Esses ataques podem minar Bolsonaro, mas não passarão uma borracha nas forças sociais que ele representa, uma onda poderosa que pode ser organizada dentro de alguns anos por figuras e organizações políticas mais sofisticadas e perigosas, caso a política tradicional ou transformadora não apresentem soluções.

É um dilema que resta uma questão em aberto que é o fato das pessoas mais instruídas estarem dando vazão a essa "solução". Se as instituições que deveriam, minimamente, formar os cidadãos mais aptos a pensar estão falhando em sua missão, a profundidade e complexidade do problema brasileira é consideravelmente maior.

Se Bolsonaro também desmanchará no ar, tal e qual a ordem que lhe impedia de ser um político relevante, é algo ainda não definido embora provável. O movimento que lhe origina, no entanto, é mais complexo e difícil de combater. Retirar a antena que fez convergir esses setores não necessariamente evitará sua convergência em outra ocasião próxima, de forma mais agressiva e inteligente. A única certeza é que nossas certezas são vãos e se desfazem com muita facilidade.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

A Chacina do Charlie Hebdo e os Ecos de Camus

A redação do jornal satírico francês Charlie Hebdo foi chacinada. Dois atiradores fortemente armados ceifaram a vida de uma dúzia de pessoas, ferindo outras tantas outras. Os assassinos seriam muçulmanos se vingando do Charlie pela publicação das polêmicas charges de Maomé em 2011. Como o atentado, o mundo entrou em choque, os franceses saíram às ruas, os líderes mundiais condenaram o atentado com veemência e, para completar a praxe, tags de solidariedade invadiram as redes sociais. Enfim, um péssimo cartão de visitas para 2015. 

Obviamente, matar pessoas dessa maneira é um absurdo total e completo, mas é fundamental observar os desdobramentos disso à luz de um contexto no mínimo delicado: a crise econômica persiste e, por tabela, o espectro do neonazismo, e outras formas de fascismo histórico, voltam a mostrar suas garras. A exemplo dos anos 1930, eles também têm uma cortina de fumaça central na forma de inimigo público:  para os novos fascistas não é mais a "ameaça judaica", mas sim os muçulmanos, os imigrantes e o Islã. Agora, eles têm o seu factóide como os nazistas tiveram o incêndio do Parlamento.

A nova extrema-direita vende a ideia de que ela, e somente ela, tem a solução para a desgraça da Europa -- a qual, de fato, esta afundada no neoliberalismo torpe mantido pelas forças de centro-direita e centro-esquerda, em consenso. Seu objetivo, contudo, é salvar o capitalismo dele mesmo, não importa como. E para salva-lo, é preciso apagar o antagonismo real -- a exploração da multidão de precários pelo sistema financeiro -- pela via da construção de um antagonismo falso, no qual os problema é, na verdade, um confronto de culturas: em vez de capital vs. trabalho, temos uma ópera bufa na qual lá estão os franceses contra os imigrantes/não-cristãos/não-franceses étnicos.

O episódio em questão seria, pois, a prova cabal que o Front National, e seus congêneres de extrema-direita na Europa, teriam pois "razão" quanto ao seu discurso. Agora, sua líder Marine Le Pen sugere um plebiscito para reintroduzir a pena de morte na França, além de propor fechar as fronteiras do país e outras asneiras autoritárias.

Assim, mesmo sem uma investigação sólida, o crime já tinha um culpado: qualquer muçulmano (que possivelmente é também árabe e "imigrante").  Pouco importa quem, de qual organização e o por qual motivo: os culpados já foram achados (e condenados!), são milhões de pessoas, quase um décimo da população da França! Triste ironia, quis o destino que um policial morto ao tentar deter os terroristas fosse, ironicamente, muçulmano. 

Não custa lembrar que no famoso massacre na ilha norueguesa de Utoya, na qual dezenas de membros da juventude socialista local foram mortos por um atirador, logo se desconfiou de que o culpado fosse um radical islâmico, o que não se confirmou: o assassino era Anders Breveik,  um norueguês étnico, cristão e de extrema-direita. Ele foi julgado na forma da lei,  terminou condenado por um tribunal legítimo, sendo condenado para uma pena já prevista. Nem o cristianismo, tampouco a extrema-direita foram estigmatizados (embora a última merecesse). 

A Noruega deu um exemplo para mundo na forma como lidou com o assunto, mas frise-se que a Europa não cobrou nenhuma medida de exceção assim que se conheceu a identidade, e as motivações, do terrorista.  Fosse ele um muçulmano, teria sido igual?

Longe de haver um mundo preto-e-branco, na França, o atual governo "socialista" de François Hollande apoiou fundamentalistas islâmicos na Síria para, em aliança com Estados Unidos e Reino Unido, derrubar o regime local. Nem é questão de dizer que a França, ecoando o velho colonialismo que a fez cometer crimes contra humanidade aos borbotões, provoque indiretamente o extremismo entre muçulmanos, mas que ela, num jogo de poder absolutamente cínico, chega a diretamente cria-los, sustenta-los e apoia-los.

No jogo pela hegemonia do Império, elites burocráticas dos velhos Estados nação se aliam e fazem o que for necessário para manter ou alcançar o poder. O Ocidente, apesar do seu discurso maniqueísta de se arrogar como arauto das liberdades é quem, contraditoriamente, mais apoia o fundamentalismo islâmico -- e teocracias como a Arábia Saudita.

Quando os americanos justificam, agora com a França lhes sendo absolutamente subserviente, sua política de intervenção e domínio pela desculpa do confronto entre civilização (o Ocidente) e a barbárie (o Islã), ela mente copiosamente: existe uma aliança entre as elites ocidentais e parte das elites islâmicas (como há entre a China e a Rússia com a outra parte das oligarquias do Oriente Médio e Mundo Islâmico), e ela é necessariamente contra a multidão de pobres e oprimidos que, embora não saiba, têm o mesmo interesse seja na península arábica ou na Europa.

Enxergar esse caso como uma disputa entre liberdade de expressão e fundamentalismo ou, pior, como um choque cultural -- no qual explícita ou implicitamente se afirme a superioridade dos valores "iluministas ocidentais" face às outras culturas -- é fazer o jogo da extrema-direita que, à base do preconceito, está a à espreita na esquina para tomar o poder -- ou, no mínimo, para evitar que a nova esquerda vença as eleições. 

Não custa lembrar de O Estrangeiro, clássico de Albert Camus, no qual o personagem principal foi condenado à morte (!) por não ter chorado no enterro da mãe, mas não por ter matado um árabe na então colônia francesa da Argélia. Camus não foi um visionário apenas por profetizar o agravamento da situação na Argélia, e as causas tanto disso quanto da futura derrota francesa, nem por antever um futuro como um colonialismo interno (dentro da própria França e contra os imigrantes) , mas por ter entendido o que fundamentou tudo isso: uma indiferença radical como forma de eliminar aquilo que não se enquadra à universalidade do republicanismo francês.

Esses imigrantes, e os tantos cidadãos franceses (muçulmanos ou árabes) cuja cidadania é negada por "uma falta de identidade étnica", vivem no limbo de um estatuto jurídico -- e ontológico -- causado por essa indiferença: se os valores do humanismo caracterizam a boa república, há aqueles que são humanos piores (ou nem isso), os quais jamais serão cidadãos reais (mesmo que o sejam), condenados a trabalhar muito e reclamar pouco.

Foi talvez por essa indiferença que o Charlie não percebeu a gravidade do que fez quanto às charges de Maomé. Sim, aquelas charges reforçaram sim a islamofobia na França -- e a islamofobia é a melhor e maior fábrica para gerar terroristas. E não há que dizer que o satírico era assim para todos: há poucos anos, ele demitiu, com toda razão, um cartunista que cometeu ofensas semelhantes contra o judaísmo. Os muçulmanos, e em menor grau árabes e africanos cristãos, são menos cidadãos, menos humanos naquele país.

Enfim, o atentado não muda o fato de que o Charlie errou, e errou feio, na ocasião das charges de Maomé, mas, também, não torna agora as vítimas menos vítimas. Isso não é um debate sobre culpa, mas a análise de um processo histórico bem complexo. Do ponto de vista político, é questão da França fazer uma reflexão profunda sobre si mesma. Basta ver as retaliações contra a comunidade islâmica, que já começaram a acontecer.

Não resta dúvida que os assassinos devem, na forma da lei e na medida de sua culpabilidade, pagar individualmente pelos seus crimes, mas isso não pode ser vendido jamais como uma questão cultural, como "fascismo islâmico" ou outras superstições, que só alimentam a real ameaça: o maior avanço da extrema-direita desde os anos 1930. E se algo realmente ameaçou a Europa, e a existência de uma cultura europeia, foi um fascismo bem europeu.




quarta-feira, 27 de julho de 2011

Utoya: a Noruega, o Brasil e o Multiculturalismo

Vista de Utoya -- flores em homenagem aos mortos
A língua norueguesa - em suas variantes dialetais - guarda vínculo próximo com os demais idiomas do norte da Europa - exceção feita ao que resta das línguas gaélicas na Grã-Bretanha e Irlanda e ao misterioso finlandês. Devido a isso, a Utoya onde houve o recente massacre, no qual quase uma centena de integrantes da juventude trabalhista norueguesa foi morta por um extremista de direita, compartilha os mesmos radicais que a língua inglesa, que nos é tão familiar, usa para expressar seu curioso significado: out island, A ilha de fora - como também é de fora que vêm os imigrantes que o atirador Anders Breivik odeia e que, por conseguinte, serviram de justificativa para sua audaciosa ação; um atentado contra a juventude de um partido que, na cabeça do governo de seu país, ousa comungar com o multiculturalismo e ainda se nega a se render à intolerância, mesmo quando foi mais tentado nos últimos dias - com as constantes negativas do premiê Stoltenberg em usar da supressão de direitos e garantias individuais para combater o fantasma do "terrorismo". O manifesto deixado por Brevik, por sua vez, com confusas condenações ao multiculturalismo, ao "marxismo cultural" e ao islamismo ao mesmo tempo - além da narrativa fantástica de guerras purificadoras que se estenderiam na Europa ao longo do século -  são a expressão da paranoia fascista: não falamos de uma crise, mas de uma perturbação na normalidade convencionada que leva a uma psicopatologia coletiva, escolhe-se o fantasma do momento e se executa o grande plano. Nunca houve prumo no fascismo europeu; o mesmo Breivik que hoje apóia Israel bebe na fonte de uma doutrina que jogou os judeus no campo de concentração, o bode expiatório, portanto, é de ocasião: o fundamento axiológico do fascismo é, como sempre foi, o desejo de transformar o futuro no mesmo que um passado que jamais existiu - nem poderia ter existido , fazendo os ponteiros do tempo voltarem a uma idealístico pré-Revolução, quando tudo era belo, puro e uno. Uma ideia delirante, que só é capaz de ganhar força em momentos dramáticos, mas que não está longe do nosso alcance, nem mesmo da civilizada Noruega - as práticas da imunização e a estetização da política estão ao nosso redor para não me deixar mentir. A disfuncionalidade do nosso país que Breivik credita à miscigenação soa tristemente irônico,  quando ele mesmo, loiro e de olhos azuis, parte para matar dezenas dos seus e romper a paz em que vive a Noruega desde a Segunda Grande Guerra. Um inferno que anuncia as nuvens negras como as da foto, mas que pode ser um tiro no pé da extrema-direita: a violência que ela produz é bem real, o que talvez desperte a potência das massas de bem-nascidos jovens ou trabalhadores revoltados que a seguem como zumbis.

Atualização das 12:22 29/07: O sempre atento The Big Picture publicou um álbum de fotos sobre a tragédia de Utoya. Uma bela mostra que captou tão bem o trágico que alcançou aquele sublime que se segue imediatamente ao choque. 

quarta-feira, 30 de março de 2011

Bolsonaro, ainda



O vídeo acima é do humorístico CQC. Ainda que não seja o meu humorístico favorito - ao contrário, me parece mais um exemplo da decadência do humor brasileiro -, ele vez ou outra, acidentalmente, cumpre algum papel - como nessa entrevista com o deputado de extrema-direita Jair Bolsonaro, alguém suficientemente polêmico para "dar ibope" e que acabou até soltando uma manifestação racista no final dela, gerando grande repercussão na mídia. Bolsonaro, para quem não conhece, é ex-militar e construiu sua carreira política em cima de uma retórica agressiva que apela para todos os clichês possíveis que um político de extrema-direita poderia pensar em usar: Defesa da pena de morte, da Ditadura Militar - e, por tabela, da "moral", dos "bons costumes" e da "família" -, do policialismo como forma de combater a violência e o desrespeito permanente às minorias são itens presentes em seus discursos. Em entrevista nos anos 90, ele chegou até a sugerir o fuzilamento do então Presidente da República Fernando Henrique Cardoso. 

Na resposta à cantora Preta Gil, nessa edição do CQC, ele chegou a se referir à possibilidade de um relacionamento entre um filho seu e uma negra como "promiscuidade", o que provocou um massivo repúdio e deu início a uma mobilização intensa para cassá-lo. Não me surpreende que alguém como Bolsonaro seja deputado, afinal, ele explora muito bem um senso comum extremista muito presente na nossa sociedade. O fato é que no Brasil, diferentemente de muitas democracias mais antigas e melhores do que a nossa, não existe uma extrema-direita organizada porque o atual equilíbrio de forças partidário tem neutralizado isso com certo êxito, o que relega a defesa dessa linha a algumas poucas figurinhas carimbadas - de forma atomizada ainda por cima. 

A primeira vez, em anos, que isso pareceu ser abalado foi na última eleição presidencial, quando  o candidato presidencial José Serra - um intelectual de porte oriundo da centro-esquerda - surfou na onda de uma pauta ultraconservadora - e agressiva - quando se viu derrotado, criando uma atmosfera irrespirável que arranhou irremediavelmente sua biografia. Por isso, mais do que nunca, a manifestação de Bolsonaro ganha uma conotação perigosa. Também não é o caso de ignorarmos que suas falas têm se radicalizado mais e mais - assim como voltou a ganhar certo espaço na mídia -, principalmente, porque estamos na iminência de um duro debate sobre o desarquivamento dos arquivos da Ditadura e da instituição de uma Comissão da Verdade. 

Seja como for, essa fala de Bolsonaro no CQC, por si só, já é das coisas mais graves que ele disse. Liberdade de expressão tem limites, ainda mais quando alguém exerce mandato eletivo e se usa disso para incitar o ódio. Ainda que o deputado seja muito mais alguém dotado de um senso de oportunidade único do que um ideólogo de qualquer coisa, esse tipo de comportamento não é admissível e não pode ser tolerado. É demais pagarmos o salário de alguém que se usa da democracia para ser eleito, mas usa de seu mandato para atacá-la ou mesmo que, vejam só, lança pesados ataques às minorias, mas é (acredite se quiser) membro da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara. Ainda que a democracia seja dos poucos sistemas que admita a crítica a si mesmo de dentro de suas instituições, há limites para o cinismo alheio e para o grau de ameaça que seguidas e sistemática declarações irresponsáveis podem representar. Espero não estar postando por aqui algo como este "Bolsonaro, ainda" - pelo menos não sobre ele como deputado -, acho que já deu e um ato racista é um bom limite.