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segunda-feira, 22 de setembro de 2014

O Drama Barroco de Haddad: Por que não pôr fim à Operação Delegada?

O Enterro de Cristo -- Roldán
Um camelô morreu atrapalhando o trânsito. No meio do caminho da democracia, havia o corpo morto de um camelô. À bala. Tiro certeiro na cabeça, bem no meio da avenida. Poderia ser eu (e era, por que não?). A rebelião que se instaurou, um pequeno levante, ao mesmo tempo em que é marcado pela névoa de gás (lacrimogêneo, com se precisássemos disso para chorar) que sobe, faz descer, por paradoxo, outras cortinas de fumaça.

Uma pausa, um corte, uma narrativa.

Fernando Haddad, em seu breve governo, se viu em meio ao epicentro do Junho de 2014, ousou políticas inovadoras, esteve no meio de um debate para o bem e para mal. O fato é que sua aprovação -- alta para os padrões paulistanos nos cem primeiros dias -- caiu como ocorreu com todas as autoridades e instituições na esteira das Jornadas de Junho, mas ela não registrou nenhuma recuperação ao contrário do que aconteceu com a presidenta, governadores e demais prefeitos.

Há poucos dias, contudo, a popularidade do prefeito registrou sua primeira recuperação em mais de um ano, animada pelo sucesso da política pró-ciclofaixas: a ampla adesão às faixas de bicicletas somada às faixas de ônibus seriam a "resposta definitiva" no campo da mobilidade e do transporte urbano, o rompimento da barreira que impedira o prefeito de melhorar seus índices. São Paulo, terra do automóvel como elemento de promoção moral e dignificação, se tornou como um delírio anarquista do Provos: autônoma e alegremente pedalante.

Por outro lado, dois eventos bombásticos -- literalmente -- tomaram as ruas e os noticiários: a desocupação do prédio de um antigo Hotel no Centro e a execução de um ambulante na Lapa. Nos dois casos, a polícia militar agiu com sua habitual truculência e despreparo, aumentando um confusão que ela deveria dirimir. A cidade virou uma praça de guerra.

No primeiro caso, a prefeitura não mediou como deveria. Embora, de fato, a reforma do prédio fosse demasiadamente cara, como apurou a prefeitura, com a ordem judicial da reintegração de posse, é de se esperar que a retirada de quase mil pessoas, com presença de contingentes policiais, seria problemática. Não havia um plano de contingência, a truculência veio e um massacre policial durou quase um dia todo no Centro.

No segundo, a polícia militar, agindo sob os auspício da Operação Delegada, um convênio aberrativo entre Prefeitura e Polícia Militar criado na gestão Kassab, acabou executando um camelô de forma vil e covarde. A missão que resultou na execução consistia no exercício, pela PM, de função de repressão ao comércio ambulante.

Acerca do primeiro caso, Haddad acenou com a tese de que os sem-teto foram usados por oportunistas. Sobre o segundo, que a execução foi um caso isolado. É fato que os sem-teto não são oportunistas, ele não têm oportunidades ou opções -- e mesmo que se considere a ação de algum agente provocador, possivelmente não eram os sem-teto ou os seus dirigentes os maiores interessados. No segundo caso, mortes de pobres pelas mãos da polícia não é algo ocasional -- nem pelas mãos do próprio policial, que já respondia a processo por homicídio.

Haddad, com muito pouco, faz e ousa bastante. É um prefeito consideravelmente melhor do que a média -- e um dos melhores que São Paulo já teve. Mas não consegue lidar com crises, porque as crises são imprevisíveis, não cabem em planos ou planejamentos -- nem são solúveis por qualquer política pública, mas por um processo político, um método político. 

Se a gestão não aceitar isso, sobretudo num cenário de profundas crises -- e, pior, de alta complexidade e custos (não só financeiros) para a resolução dos problemas --, fatalmente se pegará frequentemente apostando suas fichas na repressão policial -- o que, em matéria de Brasil, é uma escalada para o desastre.

A ideia de Haddad como seu duplo, o prefeito de esquerda corajoso e competente que anima a todos e, ao mesmo tempo, um tecnocrata frio e insensível toma conta do imaginário e dos debates. O fato é que a aparente quimera -- dizer que Haddad são os dois ao mesmo tempo seria como falar em "bola quadrada" -- esconde a maneira como ele se ajusta: a exemplo da social-democracia alemã, ele põe a concretude das relações materiais abaixo do Plano.

A realidade não se verga ao ideal, salvo à força. O que põe qualquer político de esquerda numa encruzilhada ética (em um sentido). O nazismo não ascendeu na Alemanha por pura ignorância, ou necessidade, daquele povo, mas em parte porque, antes, a social-democracia normalizou determinadas práticas como a suspensão de direitos que, não raro, levaram à repressão de trabalhadores.  A esquerda se colocou numa zona cinzenta onde todos pareciam a "mesma coisa", o que naturalizou seus próprios algozes.

Muitas questões podem ser ponderadas, mas não resta dúvida que passou da hora de pensar em qualquer método cujo plano B seja a polícia. Abolir a Operação Delegada, como se aboliu sem maiores prejuízos o "Nova Luz" de Kassab, é um primeiro passo. Aceitar que as graves demandas da metrópole demandam conselhos de interlocução e negociação é outro ponto. Não é possível fazer política habitacional sem considerar as partes envolvidas. Nem que se aja corretamente na resolução de problemas, em determinados casos, os problemas não deixarão de ocorrer.

A política existe para resolver pacificamente os problemas comuns. A ideia estanque de ordem pública podem levar, aí sim, a uma real ameaça à ordem pública igualmente protagonizada pelas próprias autoridades que deveriam media-la. Haddad precisa, o quanto antes, se desvencilhar disso, senão restará indiferenciado em relação à massa conservadora com a qual concorre.

Foram as bicicletas, e não a overdose policialesca, que colocou Haddad de volta ao jogo. Será a overdose de polícia que poderá lhe criar problemas novamente. É bastante simples.




sexta-feira, 19 de setembro de 2014

O Enigma Político de São Paulo: Não Existe Amor na Avenida São João

São Paulo vive um momento de emergência. A violência policial registra uma escalada terrível, mas o mais assustador é que isso é consequência, ou melhor, a resposta absurda dada pela classe política local para crises sociais bastante agudas. A água já começa a faltar numa crise hídrica que, longe de ser mero acaso da natureza, é efeito de uma certa política errada para o setor. As universidades ardem. O trânsito grassa. Não, não está fácil e muito ainda poderia se dizer nesta noite insone de quase primavera.

Mas antes, um corte narrativo: a capital dos paulistas frequentemente foi bem retratada na música. Duas em especial, Sampa de Caetano Veloso e Não Existe Amor em SP de Criolo, eternizam certos momentos da cidade. Ambas são, pois, pura arte em um sentido deleuziano. Sampa é a São Paulo do final dos anos 1970, uma época absurda, mas de uma esperança justificada como raramente se viu nos momentos históricos em que a esperança veio à tona; Não Existe Amor em SP, por seu turno, é uma das raras elaborações esteticamente exuberantes do nosso tempo, uma poesia lindíssima sobre algo feio -- é uma precisa narração da São Paulo de hoje, um verdadeiro triunfo estético, pois é algo belo sobre um conteúdo trágico e grotesco.

Existem contiguidades narrativas tanto na letra de uma quanto da outra. São Paulo continua sendo São Paulo, é uma terra de feiura bela, mas o que ocorre agora é um momento em si feio. São Paulo sempre foi cheia de emoção na sua frieza, mas hoje há um vazio que cresce. Não Existe Amor em SP não nega as premissas de Sampa, mas as atualiza na forma de um soco no estômago com violino ao fundo. Não como não perceber na profundidade das duas letras os dois momentos, os dois movimentos; alguma coisa acontecia no nosso coração em 1978, quando cruzávamos a Avenida Ipiranga com a São João, mas hoje isso também não deixa de acontecer, só que não é mais de emoção que falamos: não há mais amor na Avenida São João, há bombas. 

Há dois dias, o prédio do Hotel Aquarius, há dez anos abandonado e ocupado há poucos meses pelo movimento de moradia, foi desocupado violentamente pela polícia, com uma ordem judicial absurda. O confronto se alastrou pelo centro da cidade, a polícia foi violentíssima. O confronto começou e recomeçou várias vezes. Uma catástrofe bíblica. Ontem, um camelô foi executado a sangue frio por um policial na Lapa, gerando uma revolta massiva que parou o bairro, conhecido centro de comércio popular da zona oeste da capital paulista.

A política de repressão, mantida às custas da mobilização de uma tropa mal treinada, mal remunerada e maltratada serve como substitutivo da política. Ou da impossibilidade das políticas locais, tal como são concebidas, de responderem as demandas políticas e sociais. A classe política mais mesquinha, limitada e perversa desde a república velha dá as caras, ela é mortal. O país não vai bem, São Paulo, acelerada à velocidade da luz, tampouco. Há várias São Paulos, várias possibilidades de experimentar e pertencer aqui, como qualquer outra capital. A crise de São Paulo é a crise do mundo e do país, a crise do nosso tempo, nas condições históricas e geográficas determinadas daqui: e dói, nossa crise é mais perturbadora mentalmente do que, talvez, crises mais violentas fisicamente como a do Rio.

Nesse contexto, o governador do estado, Geraldo Alckmin, está prestes a se reeleger em primeiro turno. O prefeito da capital, Fernando Haddad, no entanto, está com a popularidade bastante baixa. É de se salientar que a popularidade do governador encontra seu ponto mais baixo na capital. 

Alckmin governa com punho de ferro, a partir de currais eleitorais no interior e na falta de oposição, repetindo no paradoxo (neo)liberal: estado pequeno para fazer reformas sociais, mas incrivelmente grande na hora de reprimir os resultados óbvios da ausência dessas políticas. Mas sua capacidade pairar acima das discussões, deslizando com um réptil, é única.

Haddad, por seu turno, realizou políticas importantes, fez o novo plano diretor, colocou ciclofaixas e faixas exclusivas de ônibus para o horror dos carro-dependentes, mas erra fragorosamente ao relativizar as ações de uma polícia militar que sequer comanda. E repetiu isso agora, em relação ao caso da Avenida São João, depois de momentos ruins ano passado, quando não condenou com dureza a repressão em Junho -- ao contrário, mas pagou e paga por isso. A não articulação para dar conta das crises pontuais que vão emergir será fatal, a via policial é um desastre anunciado -- que, em seu caso, tem um peso negativo redobrado, uma vez que sua base de apoio (felizmente) é menos tolerante a isso do que a do governador. 

Alckmin é popular e Haddad não, pois um agrada as expectativas de seu eleitor e o outro não. Ou melhor, Haddad desagrada em temas sensíveis demais e em ocasiões inoportunas, apesar de políticas públicas reconhecidas -- que, no caso das ciclofaixas ou da faixas de ônibus chegaram a registrar alta adesão, ambas coincidentemente de 88%, sendo políticas de esquerda. Mas o fato é que na metrópole as contradições emergem e se fazem realidade. No caso de São Paulo capital, mais ainda. E para Alckmin, embora seja um item importante, a metrópole e suas agruras é apenas parte de seu ofício.

A situação, evidentemente, é grave. Na cidade do mais universalista dos santos, o evento ocorrido na avenida que leva o nome do mais apocalíptico deles é sintomática. A situação é uma ascendente, na qual os movimentos se veem obrigados pelas condições a se lançarem à luta. E as condições se agravam: os bares cheios de almas tão vazias de Criolo, na prática, são são as tantas habitações vazias para tantas almas deixadas ao relento. O momento exige menos do que "políticas públicas" no sentido clássico e mais um processo político, algo que envolva e dê significado. Não se espante como apesar dos pesares Alckmin se reelegerá: como dizia Benjamin, onde há fascismo é porque uma revolução fracassou -- e acrescentemos, havia revolução, ou propensão à revolução, onde a situação era emergencial.




quarta-feira, 27 de março de 2013

SP: Entre a Crise da Paz da Armada e o Evento Haddad

Portinari: Guerra e Paz
O estado de São Paulo está intranquilo. Depois de anos de diminuição dos índices de criminalidade, de repente, as coisas voltaram a se abalar. Pelo sétimo mês consecutivo, a violência continuou a subir, colocando em xeque o governo de Geraldo Alckmin (PSDB). Por outro lado, uma notícia alvissareira no meio de tantas más notícias veio à tona: Fernando Haddad interveio no que seria uma desastrosa reintegração de posse e, assim, evitou uma catástrofe comparável ao Pinheirinho. São episódios curiosos nesses tempos bicudos em terras bandeirantes: se a pós-modernidade é marcada pelo binômio desespero-segurança, o que resta para a Paz?


Houve uma relativa paz no estado nos anos 00, abalada apenas pelo episódio conhecido como "ataques do PCC" -- em maio de 2006 --, que logo pareceu ser um ponto fora da curva. Com uma política linha dura, fundada no consenso de atuação dura da polícia, judiciário inclemente e um ministério público militante policialesco, São Paulo se orgulhava dos seus ganhos na área. Isso, até agora há pouco. Os dados da própria Secretaria de Segurança Pública não são animadores. 2012 foi, de fato, um corte nessa aparente tendência.

A política de arrocho militar, aplaudida pelas classes abastadas e elogiada pela boa técnica estatística do positivismo tupiniquim, é uma falácia. Ao tentar descrever uma tendência real pela falácia do "aqui praticamos repressão policial-judicial-carcerária, a taxa de homicídios caiu, logo a repressão policial-judicial-carcerária é a responsável pela queda na taxa de homicídios (logo, pela paz)" constrói-se um raciocínio circular, feito de efeitos e não de causas. É como atribuir a um fator que atua no sintoma -- a crise de violência, uma febre -- o desaparecimento do sintoma vendido como cura da doença. O que fazer, se a violência volta a crescer mesmo a mantida a fórmula de reprimir? Como explicar? 


O que é paz? A paz armada da ocupação? Dificilmente. A paz só subsiste como realidade ética de coexistência comum e amorosa. A paz, como historicamente ela veio à tona, é uma falácia. É estar livre para  exercer a minha violência, estar seguro em relação a uma ameaça externa pela coerção fantástica que eu submeto os outros. A paz romana, a paz imperial da ocupação sempre ruiu, pois quando qualquer coisa sai do lugar, os bárbaros invadem. Na São Paulo do século 21º, os bárbaros -- esses doces seres inventados pelos civilizados em todos os tempos e lugares -- corresponde à massa de ex-escravos, imigrantes, brancos pobres, estocados em periferias infectas, sem lazer, sem paz.

Esses bárbaros estão sob a mira de uma arma policial, duplamente punidos nossa sociedade: esmagados pelas forças de repressão como suspeitos -- em um aqui-agora no qual ser suspeito é ser culpado e merecedor, não raro, de suplícios -- e naturalmente expostos à violência epidêmica das áreas densamente povoadas e sem-infraestrutura.

A partir daí, a disputa pelo significado da paz torna-se cabal. É possível conquistar a paz pela melhoria da organização da sociedade ou só, e somente só, por meio da imposição da força, de uma ordem coercitiva? Uma paz conquistada pela coerção e pelo policialismo é mesmo paz, haja vista que o outro está sob estado de violência? E tal violência é múltipla, a extra-policial, uma vez que se aloja na própria maneira como se dá a disposição urbana e a duplicação da metrópole. A violência, criminalmente expressa, é apenas uma resposta confusa ao que poderia ser uma resposta política de rebelião face à ordem imperial. No fim das contas, ela é pior, uma vez que há violência em toda parte, sem razão, sem sentido.

O que há é o estado de exceção permanente ao qual está submetida a população oprimida e desabrigada. O gesto de Haddad ontem, por exemplo, é um rompimento nesse ciclo de violência: diante da iminência de uma reintegração de posse violenta, a intervenção que a suspendeu e possibilitou uma interlocução entre as partes. Mas não foi uma intervenção miraculosa ou providencial, Haddad fez apenas e literalmente um gesto comum, desinterdidando o diálogo. O que pode ser o caminho para pensar uma nova política e sua gestão: atuar a partir daí.

Há inúmeras linhas de forças se tensionando nesse momento em São Paulo. Nada é simples como parece, mas há um inequívoco exaurimento político e social do atual modelo. Só há saídas movendo-se para fora dele, reconhecendo a potência criativa dos pobres e suas demandas pelas geração de direitos. A cômoda e sádica paz armada que manteve a violência latente pela última década foi-se -- e não há, para o bem e para mal, mais volta.


segunda-feira, 4 de março de 2013

Os Primeiros Dias de Haddad, a Metrópole.

Fernando Haddad assumiu a prefeitura de São Paulo no início deste ano. Sua eleição, ela mesma, foi decorrência de vários fatores, dentro e fora do PT, mas podemos citar dois fundamentais: Haddad ganhou a eleição por demonstrar o que quão vergonhoso e intolerável é a separação de São Paulo em duas -- uma central, rica e integrada ao mundo, a outra, periférica, pobre e isolada -- e, até mais importante do que isso, que a metrópole bandeirante só se tornará próspera novamente se resolver assumir sua brasilidade. Mais do que a conquista de uma capital, a vitória de Haddad também representa uma luz no fim do túnel da esquerda nacional, uma vez que o jovem prefeito paulistano é das raras cabeças a conseguir articular solidez intelectual com fluidez política.

Depois do agito fundante do governo do PT, tudo pareceu cair, das razões da escolha de Dilma às razões que Dilma escolhe, no culto ao gerencialismo, à técnica e à neutralidade administrativa. Agora seria a hora e a vez de quem faz as coisas acontecerem, objetiva e silenciosamente, sem muita discussão. Tudo com uma pegada popular e trabalhista. Mas Haddad é uma figura diferente. Capaz de raciocinar para além do cotidiano da administração pública, Haddad não deixa de ser pragmático, mas nem por isso deixa de se assumir de esquerda ou fazer uso do léxico marxista -- e não ter medo de falar em "recorte de classe" quando analisa a situação do Centro. O prefeito paulistano, enfim, ascende como a possibilidade de um futuro petista não resumido a ser mero mediador estatal-trabalhista da questão social. 

Não são poucos os desafios que cercaram Haddad hoje: manter o equilíbrio dentro do PT municipal e dentro do PT nacional -- e entre ambos --, compor de uma forma aceitável com a base aliada, dialogar com os movimentos sociais e se relacionar com a iniciativa privada sem se deixar engolir por ela -- ou mesmo tocar os projetos que São Paulo precisa sem se dobrar aos ditames dos credores da enorme dívida (infinita?) pública paulistana. Agora, passados dois meses de sua eleição, o que, efetivamente, aconteceu em São Paulo? É uma pergunta que importa muito, não só pela gravidade da crise em que se encontra a maior metrópole do país, mas também pelos rumos de um projeto de esquerda no país.

Basicamente, o centro de gravidade da conversa é o próprio Centro da cidade, o distrito da Santa Ifigênia, único lugar do centro expandido no qual o atual prefeito paulistano ficou à frente de José Serra. Haddad pôs de lado o projeto Nova Luz de Kassab, que sequer saiu do papel, mas enfrentou forte resistência dos movimentos de moradia por prever uma reconstrução privatizante do Centro -- tanto que acabou interrompido pela própria justiça estadual. Agora, o novo prefeito empreenderá seu próprio (e ambicioso) plano de revitalização da região.

Haddad tem clareza sobre o quer para o Centro e isso é fundamental, conforme expôs em uma entrevista recente: o problema (crônico, gigantesco, aviltante) de congestionamento do trânsito em São Paulo não é meramente viário ou de transporte público, mas sobretudo de habitação, uma vez que os trabalhadores moram a dezenas de quilômetros de distância de onde trabalham (relação centro expandido-periferia), o que resulta em uma sobrecarga das vias. Tudo isso, dentro de um contexto no qual o centro da cidade se encontra desabitado e, em muitos casos, inabitável.

A sobrecarga em questão é tanto mais pelo excesso de deslocamento e não exatamente pela falta de vias ou de transporte. E isso não é questão de moradia, mas de habitação: é preciso que o Centro tenha vida. E nada disso está desvinculado de um "recorte de classe" como o próprio Haddad lembrou. O início de um ciclo virtuoso paulistano demanda a resolução da questão do Centro, isto é, transformando de ponto zero da implosão urbana local em centro irradiador de vida.

Há, no entanto, nuances importantes quanto à execução disso. E resta pouca dúvida de que Haddad prescindirá do apoio do governo Federal e mesmo do governo estadual -- o próprio Alckmin, em busca da reeleiçãom está pouco preocupado em comprar brigas com o Planalto e irá colaborar com a reforma --, uma vez que ele assume uma Prefeitura praticamente falida. A proposta de iniciar a reforma do Centro via Parcerias Público-Privadas (PPP's) não parece, à luz do tesouro municipal tão onerado, a saída mais barata. Porque PPP's exigem um aporte de dinheiro estatal antes de mais nada -- o que foi colocado, recentemente,  pela urbanista Raquel Rolnik em seu blog, pondo dúvidas sobre a reforma do Centro na realidade pós-Nova Luz via PPP's, embora ela mesma tenha se mostrado favorável às linhas gerais do plano de reforma urbana do Centro.

Do outro lado, ainda na habitação, Haddad deu um golpe de mestre em Maluf e no PP, uma aliança que só lhe deu dor de cabeça até agora (em troca de alguns minutos a mais no horário eleitoral gratuito): ele nomeou para a pasta de Habitação um membro do PP, mas, ao mesmo tempo, desidratou a secretaria, ao congelar 98% de sua receita, além de ter passado suas principais atribuições para a Secretaria de Controle Urbano -- que está nas mãos de Paula Motta, arquiteta aliada do deputado federal Paulo Teixeira, um dos maiores articuladores de sua candidatura e das figuras mais ativas da esquerda petista.

Além disso, Haddad promoveu uma reforma importante e pouco observada. As subprefeituras perderam a função política -- ou mesmo militaresca -- que tinham há pouco, com Kassab, para ganhar um aspecto "técnico": arquitetos, urbanistas e engenheiros de carreira foram nomeados subprefeitos, com exceção do centro (Sé), o que marca uma tentativa de dar alguma função prática para a instituição da subprefeitura, um desafio à parte desde sempre. É claro, restam dúvidas importantes quanto à decisão de Haddad.

A ideia é colocar conhecedores da física urbanística nas subprefeituras, deixando a estratégica política centralizada na própria Prefeitura. Pode ser que, assim, elas finalmente cumpram sua função -- e aproximem a administração pública dos cidadãos -- ou isso resulte em uma nova forma de burocratização, não fisiológica por parte de um establishment partidário, mas de arrogados entendedores urbanísticos sobre cidadãos comuns em um caráter local. Tudo vai depender muito das determinações da Prefeitura e do espaço coletivo que ela, nessas determinações, esteja disposta a abrir para formulação de políticas públicas nas subprefeituras -- ou o quanto esteja disposta a vincular essas técnicos a ouvir as demandas cotidianas, sobretudo na periferia.

Some-se isso tudo à revisão de alguns contratos de serviços firmados pela gestão anterior e a relação com Kassab, e o esquema do PSD no município, azedou de vez. Kassab viu o Nova Luz ser jogado na lata do lixo, não conseguiu bancar o nome de ninguém para as subprefeituras e agora tem muitos contratos -- como o de iluminação pública e também de manutenção das bocas de lobo -- na mira da nova gestão. Isso tudo, depois de ter ensaiado um apoio a Haddad -- a contragosto do mesmo --, ter se aliado novamente ao PSDB em virtude da candidatura Serra e ter promovido uma "transição amigável".

Para a Cultura, Haddad trouxe um peso-pesado como o ex-ministro da Cultura de Lula, Juca Ferreira -- que, de cara, já se mostrou aberto ao diálogo, o que é positivo. A área cultural da cidade, sucateada e resumida quase só ao esquema empresarial da Virada, agradece, mas restam dúvidas também: é preciso pensar além da dicotomia entre uma cultura escrava da indústria cultural e uma reforma cultural; qualquer reforma está aberta a formas 2.0 de exploração da produção cultural. As críticas (aqui e aqui) do Passa Palavra ao coletivo da área cultural Fora do Eixo -- e sua presença gradual e constante na nova Secretaria de Cultura -- merecem atenção, por exemplo.

A crise que a metrópole paulistana é gravíssima. Mas foi a força da resistência viva em curso, da luta pela constituição de direitos que elegeu Haddad. E ele terá de honrar essa tradição. Não há luta mais nacional hoje, do que a constituição de São Paulo novamente em um lugar agradável para se viver -- o que exige o deslocamento local para longe dos (recorrentes) arroubos isolacionistas. É preciso mesmo domar mesmo a formidável máquina administrativa que governa o município, sem se deixar escravizar por ela no processo; a incursão de Haddad no comando da metrópole começa mesmo no gabinete, mas não faz ouvidos moucos para as ruas. Seu andamento é (e será), por certo, motivo de atenção ao longo dos próximos anos.





quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Em Defesa do Lulismo, Contra Russomanno

Embora tenha caído ligeiramente na última pesquisa Datafolha, se existe alguma novidade nesta corrida eleitoral paulistana, ela é Celso Russomanno, o ainda (e controverso) líder das intenções de voto do presente pleito. É uma novidade, mas digamos que não seja exatamente uma boa nova -- porque é fato novo, com personagens velhos, mas certamente não se trata de algo "bom". Russomanno rrata-se, sem dúvida, de uma figura peculiar que tem circulado nas últimas décadas por lugares tão curiosos quanto os bastidores do Palácio dos Bandeirantes na era Maluf -- onde logo depois de entrar, caiu nas graças do ex-governador e de aliados diletos seus --, a assessoria ocasional de Aureliano Chaves -- o vice do nosso último ditador-general, João Bapitsta Figueiredo --, programas de TV popularescos, o PSDB e, agora, o partido da Igreja Universal do Reino de Deus, o pequeno PRB -- se separando e reatando com o malufismo por diversas vezes no período.

Russomanno recebeu boas votações para os cargos que ocupou no Legislativo, nos quais teve atuação obscura e questionável -- a exemplo do que acontece com boa parte das minority celebrities brasileiras que se aventuram na política.  Apresenta-lo como telecandidato da fé, como fez a revista Piauí, em um bom perfil, não é incorreto, ainda que ele se trate de um fenômeno um tanto mais complexo do que isso: Russomanno vai de IURD hoje, à sombra do Lulismo -- com o qual ele se encontra, ironicamente, em uma batalha frontal --, de Maluf para além de Maluf -- o que é mais irônico ainda, uma vez que a maior polêmica do pleito atual foi a aliança entre PT e o PP malufista, mas é fato que a tradição malufista está em (e com) Russomanno, embora ele esteja rompido com o próprio em pessoa -- além de surfar em uma popularidade televisiva que está ancorada menos em tele-evangelismo e mais em programas policialescos -- como o Aqui-Agora -- ou em outros, poucos comportados, como o circuito night and day.

Dizer que se trata de uma candidatura de direita é uma obviedade, mas é curioso anotar como ele esteve com todos e com ninguém nos últimos anos -- algo que só é possível para quem é agudamente convicto de seu programa político, no caso, conservador --, passando por Maluf, o Tucanato e a base aliada do Lulismo. Depois de anos na berlinda, esperando quem sabe conquistar uma vaga de vice de alguém nesse pleito, Russomanno irrompeu agora: quase como um pequeno gêmeo maligno do Lulismo, ele o parasitou e agora se impõe, cordialmente, sobre suas pretensões. A explicação para isso não tem a ver com fé ou conservadorismo ostensivo: se Russomanno está em primeiro nesse pleito, para além da mídia corporativa e dos movimentos sociais, é porque sua retórica (supostamente) pró-consumidor finalmente atingiu, pelas condições históricas, um patamar de relevância que lhe permite estar onde está. 

A questão é: os pobres, os mesmos que assistiam aos seus programas durante a ditadura e a era FHC, agora consomem, não apenas por disporem de recursos para tanto, mas terem sido autorizado a fazê-lo. E ninguém sabe o que fazer com isso. Quando Russomanno fala em direitos do consumidor, ele se equipara a um gêmeo maligno do Lulismo porque se apropria da questão do consumo -- e do processo de sua expansão que aconteceu no governo de Lula e Haddad, afinal -- e a reduz regime dos direitos e das obrigações (o sistema das servidões); se Lula fez os pobres conseguirem consumir pela declaração de um estado de exceção à Lei mais óbvia e evidente da nossa sociedade, de que cada um deve saber o seu lugar, Russomanno faz o inverso, querendo trazer tudo de volta à regra. Tudo se torna uma questão ideal, a materialidade da questão, sua dimensão substancial e produtiva, é nublada pelo regime de direitos. Como se consumir (e produzir) fosse uma questão de ter um direito a, como se isso não fosse causado (ou cerceado como em FHC) por ações políticas bastante reais.

Nem a esquerda mais tacanha, que reclama do consumo a torto e a direito, realmente quer que os pobres não consumam. A questão dessa esquerda, cuja paixão pelo negativa a cega, não é uma deliberação anti-consumo dos mais pobres, mas uma relação problemática com o consumo no campo do inconsciente, pelo qual o consumir é associado à culpa. Mas nem o mais recalcado esquerdista defende medidas que, na prática, reduziriam o consumo -- embora, por conta disso, eles não saibam o que fazer com os pobres uma vez desejantes --,o que não livra seu discurso de assumir uma forma política desastrada: como dizer para os pobres não consumirem se eles precisam? Como dizer isso, se você mesmo é um consumidor (pois, como anota muito bem Homero Santiago, consumidor é sempre o outro)?  Certamente, isso não agrada muito.

Por outro lado, se Russomanno fala sem parar em consumo há tempos, embora de forma torta, sem perceber que seu público, ele mesmo, não podia consumir -- o que tornava pouco efetiva sua conversa --, é ele um dos maiores inimigos do consumo: foi e a ditadura militar, seus sucessores, ou mesmo o PSDB que tocaram políticas de arrocho cujo efeito, na prática, afastava boa parte dos pobres do consumo.Não resta dúvida que é Russomanno, ao desvincular o consumo da produção e do concreto por meio do argumento juridico, que é o maior inimigo do consumo, muito mais do que um PSOL e seus recalques discursivos em relação ao consumo: a produção é colocada em um plano ideal desvinculado da questão da produção.

Mas é ele, mais do que ninguém, que consegue perceber o momento histórico em que vivemos, que consegue compreender como é falso o antagonismo que a esquerda estabelece entre uma sociedade de direitos e uma sociedade de consumo: como se pudéssemos ser livres sem consumir (o que, afinal, produzimos), como se o direito não fosse ele mesmo escravizador -- e que vivêssemos em uma sociedade com tantos direitos que nos sobram -- e que uma sociedade de direitos implica, ela mesma, em uma sociedade de direito(s) do consumidor (o que não é bom).  O consumo, e o consumo do consumo, só são possíveis pela suspensão do funcionamento regular e da própria sociedade, mas a esquerda brasileira, em grande parte, continua a sonhar com uma sociedade de direitos que, nos termos exatos em que ela sonha, é impossível de se realizar: falamos de uma grande bola quadrada.
 
É besteira, portanto, associar o fenômeno Russomanno ao Lulismo ou à nova classe média como faz, por exemplo, Leonardo Sakamoto. É besteira pelo simples motivo de que, a bem da verdade, essa nova classe média é uma mera ideia, um projeto, nada empiricamente existente -- o que existe é o povão que melhorou de vida, devindo excedente, cuja decisão eleitoral determinou, diga-se de passagem, a derrota dos conservadores no último pleito nacional. É besteira, também, pois antes (ou mesmo) durante o governo Lula, a direita já venceu eleições em São Paulo, todas as vezes disputando contra o próprio PT (como agora), levando ao comando da cidade, inclusive, figuras pífias como Pitta e Kassab -- com os votos da classe média, aliás. É besteira, por fim, na media em que que se existe uma possibilidade de mudar o quadro atual, é o PT pela sua capacidade de se agenciar com esse mesmo povão, essa classe sem nome, ao contrário de, p.ex., o PSOL que corre o risco de não registrar nem 1% dos votos (isso é sério, ou melhor, é verdadeiro).

Se parte da esquerda continua a insistir que o consumo é um problema e que ascensão social no Brasil dos últimos anos é, necessariamente, conservadora, ela não está fazendo outra coisa senão jogar o povão para o colo da direita como ela não cansou de fazer ao longo da recente era democrática. Ela não será ouvida e se for, prejudicará bastante quem ela apoia. Foi precisamente esse pensamento tacanho que causou as três derrotas de Lula para a presidência -- o que se reverteu quando o próprio, em pessoa, parou de ouvir certos setores e, por mais problemática que tenha sido a Carta ao Povo Brasileiro em alguns aspectos, é isso que realmente importa nela. Curiosamente, é Lula, muito mais do que FHC, que está envolvido de corpo e alma na presente campanha eleitoral de Haddad, sendo mentor de uma candidatura em um campo de batalha duríssimo.  Porque o Lulismo -- não o Lula pessoa, ou pessoa política, mas o Lula evento -- apesar de seus problemas todos, foi o primeiro vez em nossa história no qual as coisas saíram (realmente) do lugar e, por isso, ele precisa ser defendido.

Hoje, defender esse Lulismo é (muito) mais defender a candidatura de Fernando Haddad do que racionalizar as políticas gerenciais de Dilma no plano federal -- muito menos fazê-lo acriticamente, como se vê aos borbotões. E não há ameaça maior para o Lulismo do que Russomano, justamente, pela maneira como ele se apropria do que aconteceu no Brasil nos últimos anos -- e tanto menos por ele estar em primeiro. Serra não é uma ameaça menor porque sua rejeição é alta e suas chances de se eleger -- ou mesmo de passar ao segundo turno -- são menores a cada dia, mas porque nenhum governo tucano é capaz de realmente afetar o Lulismo, pois todos eles o atacam de fora: a maior ameaça da Revolução Francesa -- e seu algoz, afinal -- foi a burguesia e não o velho regime, foi aquele que veio de dentro do seio revolucionário e o engoliu, não o que foi derrubado por ele. Nenhum eventual retorno ao absolutismo, como aconteceu em vários momentos no século 19º, foi capaz de deter a afirmação da ordem do capitalista. Do mesmo modo, dizemos que não é o velho PSDB, mas sim o novo-velho Russomanno, por dentro da base aliada, a ameaça real.


O que aconteceu neste país nos últimos anos foi revolucionário. E como toda Revolução, estamos diante sempre dos riscos da termidorização: de tal modo, as lições da França são bastante válidas; se a ignorância disso custou muito caro aos russos, não pode nos custar o mesmo. Não que na História se repita o mesmo, mas os padrões se repetem ainda que com seus desvios-padrão: é preciso escapar à fatalidade das transformações, constituir uma exceção à regra ao destino triste das revoluções, opondo a antropofagia à autofagia, devorar os inimigos em vez de se deixar devorar a si mesmo. Não é questão de nos tornarmos Lula (pessoa ou pessoa-política), mas sim de devir-Lula, o evento Lula, e escapar à sorte triste das revoluções e da nossa vida política.


quinta-feira, 21 de junho de 2012

Sucessão Paulistana: o Impossível não Existe

As movimentações e as reviravoltas da campanha eleitoral para a Prefeitura de São Paulo, a principal disputa municipal deste ano - tanto menos pelo tamanho e importância da Pauliceia e tanto mais pela nacionalização da corrida - tornaram o post anterior desatualizado rapidamente. Para uma campanha quase paralisada até a semana passada, é algo digno de nota - e que me atropelou em uma semana incrivelmente corrida. Pois bem, vamos aos pontos.

O primeiro, e certamente mais bombástico, é a aliança entre PP e PT, em prol da candidatura Haddad, marcado pelo encontro entre Lula e Maluf na própria residência do último. Certamente, isso entra para a História como algo equivalente à união entre Prestes - o maior líder comunista brasileiro da primeira metade do século 20º - e Vargas - o reformador positivista do Estado Brasileiro em cuja ditadura a companheira de Prestes, Olga Benário, foi deportada grávida para uma campo de concentração nazista. E digo isso seja pelo caráter tão inusitado quanto ofensivo do evento ou pelo seu tamanho.

Se Lula é o grande ícone da esquerda do pós-ditadura, líder do governo mais bem aprovado da história brasileira, Maluf foi o último grande nome da direita brasileira, até ser atropelado pela maré de eventos dos anos 90, que não só o arrasou pessoalmente, quanto fez com os setores mais conservadores passassem a optar por estratégias mais indiretas - mas não menos funcionais - de tentar conquistar o poder. Trata-se, portanto, de um outro fato incrível, e negativamente, chocante e histórico - principalmente se considerarmos que a discrepância aqui é maior do que entre Prestes e Vargas, porque Lula é maior do que o primeiro e Maluf é muito menor do que o segundo.

Seja como for, o PT e Lula erraram. Não por qualquer questão moralista - e se você partilha de uma perspectiva moralista de política, pare de ler este post agora, por favor - , mas sim porque  o PP é um partido eleitoralmente inútil, o tempo de Televisão conquistado não vale o custo da vinculação da imagem a Maluf, e politicamente trata-se de uma aliança estúpida - não porque o PP represente programaticamente qualquer perigo, mas sim porque trata-se de um partido que não acrescenta absolutamente nada de positivo. 

Pior ainda, com isso o PT perdeu Luiza Erundina (PSB), sua vice recém-escolhida que desistiu de participar da chapa por conta da aliança com o PPA rigor, Haddad não perde nada nas periferias e talvez com isso atraía um eleitorado que hoje ratifique o nome de Celso Russomano (PRB) - o grande azarão dessas eleições, que entrou para negociar um carguinho de vice na chapa de Chalita, mas está há tempos na segunda colocação e crescendo de popularidade -, mas se a estratégia petista era disputar as camadas médias, foi cometido um engano aí. 

Ironicamente ou não, a aliança entre PP e PSDB só não saiu porque o governador paulista Geraldo Alckmin, que também tem Maluf na sua base de apoio local, não se empenhou em fechar o apoio daquele partido à candidatura Serra - que ficou furioso em tê-lo perdido (?). Mas esse sequer é maior problema de Serra, supondo que seja um problema, já que sua candidatura vive às voltas com duas belas crises: sua intenção de voto parece ter se estagnado e existe uma crise na sua base de apoio, que exige repetir a coligação que valerá para o Executivo na disputa da Câmara, o que tiraria cadeiras propriamente do PSDB graças ao sistema eleitoral que temos.

Gabriel Chalita, do PMDB,  não está em melhor situação. Ele segue estagnado nas pesquisas, muito longe de conseguir emplacar seu nome como a terceira via ao serrismo e ao petismo. Para uma candidatura que surgiu com tanto alarde, até agora pouco se fez. Nomes como Russomano ou Soninha, que sequer pensam em ganhar essa disputa, seguem à frente de Chalita, o que dá a tônica do problema.

É claro que é tudo questão de analisar as próximas pesquisas de opinião. A última do Datafolha, por exemplo, aponta para um crescimento expressivo da candidatura Haddad, o que o coloca na terceira colocação. Determina essa estagnação de Chalita e Serra - que segue sendo o primeiro colocado tanto em intenção de votos quanto em rejeição, o que é curioso. Em resumo, as três grandes candidaturas patinam feio, mas só Haddad teve algum motivo para comemorar os dados. Mas não se sabe o que virá.

Se antes fugíamos do paradigma da opinião  para analisar o processo eleitoral, certamente não cometeremos esse erro. É de doxa, isto é, da opinião, da glória ou da aclamação, que se trata um processo eleitoral, tanto quanto qualquer tirania. É esse jogo de imagens e de alegrias imaginárias em decorrência de certos consensos, e da própria ambição, que se trata o jogo político. A questão que está em pauta, para uma perspectiva libertária, é menos quem vence as eleições e mais como isso faz diferença nas nossas vidas e de como isso incidirá sobre o exercício do controle. Uma esquerda nômade precisa adotar uma estratégia transversal, como a direita já aprendeu a usar há tempos, para enfrentar os problemas da Metrópole.

P.S.: Vale sublinhar que se tanto se fala na conversão da política brasileira em Fla x Flu, tese que sempre refutamos, o mais correto seria falar na sua telenovelização. 


P.S.B.: E a metrópole assiste tudo, ansiosa, em crise.

domingo, 12 de fevereiro de 2012

PT: Entre Aeroportos e o PSD

Ribbentrop-Molotov deu errado. A História ensina, mas não perdoa
Durante a semana, dois temas fundamentais atravessaram o Partidos dos Trabalhadores: o primeiro é a polêmica sobre a concessão, feita pelo governo federal, de três aeroportos de grande porte, o segundo é a possibilidade de aliança do PT com o PSD nas eleições de São Paulo capital, este ano. Diretamente e indiretamente, os dois movimentos têm o dedo de Dilma Rousseff, são contraditórios com a História do PT e são significativos quanto aos rumos do partido.

Sobre as concessões, não, isso não é o mesmo que "privatizar", mas nem por isso trata-se de um processo defensável. Dizer que os aeroportos estão ruins porque o Poder Público é incapaz de lidar com eles é falso, uma vez que eles ficaram ruins justamente porque as autoridades que os largaram de lado são as mesmas que, agora, os estão concedendo para a iniciativa privada - não falta proatividade para nada, mas sim sobra na omissão e na ação.

Meu problema com concessões não é que eu vejo como negativo a diminuição do Estado, mas  sim exatamente o contrário: Conceder para a iniciativa privada, ou privatizar algum bem estatal, não diminui o Estado, apenas o tira das mãos dos representantes eleitos e dos funcionários concursados e indicados para dar-lhe para uma tecnocracia terceirizada, imune diretamente aos interesses sociais.

Quando FHC diz que o Estado não diminuiu no seu governo, ele não está mentindo: o Estado só passou de mãos, ele não foi substituído por outra coisa - pois uma coisa é determinada pelo que ela faz, não existe um "ser" num sentido essencial, portanto a forma-Estado (eu prefiro falar em "função-Estado") continua lá. Usar a ineficiência tradicional do Estado brasileiro é um mau argumento, pois ela remota a ditadura e ao que veio antes, estando intrinsecamente ligada a falta de participação social concreta na política.

Nada mais cômodo do que isso. Se o Estado brasileiro durante a ditadura estava nas mãos de técnicos a serviço de uma oligarquia, com a democracia (mesmo representativa), velhos interesses de classe precisavam ser garantidos, tirando, assim, empresas públicas e demais organismos estatais do raio de alcance legal que os cidadãos passaram a ter com a democracia.

Esse tipo de processo acontece de todas as formas no Brasil de Collor para cá - com mais ou menos velocidade -, seja por meio de leilões mais ou menos legais ou, de forma obscura e tácita: o que dizer da relação promíscua do poder público carioca (municípios e governo estadual) com as milícias - que fazem às vezes da polícia, só que bem longe dos direitos e garantias da democracia - ou das autoridades paulistas com a forma como o PCC, na prática, administra seus presídios?

Naturalmente, aqui não segue nenhuma defesa de que o sistema de 1988 por si só, é politicamente suficiente, o que está em jogo aqui é precisamente as sementes de democracia participativa contidas naquela carta, que podem trazer, por elas mesmas, a efetiva superação do Estado pela construção de um novo modo de organização político.

Conceder aeroportos - o que já estava posto no debate público há tempos, pois nunca foi segredo por parte de Dilma - não é diminuir o Estado, mas apenas apenas mudar sua relação na administração daqueles espaços, concedendo a execução das políticas públicas naqueles espaços para a iniciativa privada conforme seus interesses (de classe) - ainda que balizados pelo poder público. 

Isso destoa da tradição petista de, na prática, fortalecer o poder estatal para esvazia-lo: o projeto democrático-popular sempre girou em torno da adoção de mecanismos de participação direta para a formulação de políticas públicas - como visto em questões como o orçamento participativo em várias prefeituras petistas. Dilma, petista recente, esteve alheia dessa construção e assim permanece. 

No caso (ou ocaso) das eleições paulistanas, a crise da esquerda local - liderada e quase monopolizada pelo PT - parece não ter fim desde o governo Marta (2000-04). O jogo para  as eleições de 2012, que envolveu a esquerda do partido - que pautava Haddad em sua maioria -, os governistas - que preferiam o comodismo de apoiar um candidato "da base" - e os grupos dos eternos candidatos - Marta e Mercadante - não poderia ser menos duro. Ganhou Haddad, um híbrido que sempre transitou entre a esquerda do partido e a cúpula do poder petista com singular habilidade, mas não sem atritos. 

O que impressiona, agora, é a articulação do governo federal, sobretudo da parte de Dilma, em forçar a formação de uma chapa de Haddad com o PSD. Isso atende ao interesse do impopular prefeito paulistano - também criador e ideólogo-mór da sigla - Gilberto Kassab, que viu sua jogada brilhante de rachar o DEM fazer água graças aos rumos dos confrontos internos PSDB - ele sonhava em compor chapa com Serra ou sair apoiado pelo PSDB sob o comando dele, mas nada disso deu certo, pois o ex-candidato presidencial tucano está afundando.

É evidente que de qualquer ponto que se veja essa aliança, ela só faz sentido para o interesse imediatista do governo federal em ter mais um partido, o PSD, na base aliada do Congresso. Nem mesmo do ponto de vista mais eleitoreiro isso faz sentido: Kassab derrotou os petistas de forma brutal há quatro anos, mas fez um governo horrível cujas implicações poderiam perfeitamente (e com justiça) serem usadas como arma de campanha do PT ou de qualquer partido governista. Da perspectiva de projeto político, nem preciso falar o que Kassab representa.

Enquanto Dilma tecia loas a Kassab no 25 de Janeiro, o fatídico aniversário de São Paulo logo em cima do massacre da comunidade do Pinheirinho - pelo governo estadual do qual Kassab e seu grupo fazem parte, diga-se de passagem -, Haddad sequer fez questão de comparecer à cerimônia, mas a sombra dessa aliança continuou a pairar sobre sua candidatura de lá para cá

Para Dilma, tudo é muito cômodo, uma vez que ela não vê importância em uma mudança de política em São Paulo ou de fortalecimento do PT - o que é preocupante -, não é ela a candidata e sua preocupação só parece dizer respeito a votos no Congresso para aprovação de projetos imediatos. Se ela ignora os impactos disso entre os petistas de São Paulo, ou  está muito mal-informada ou é isso que ela quer. Porque, dentro da política paulistana, aliar-se a Kassab é como colocar um gato morto debaixo do seu chapéu para vê se dá sorte: além de não ajudar, você ainda paga por um mau cheiro que não é seu.

Isso tudo fecha o quadro tenebroso da política nacional atual. Enquanto o PSDB chafurda em uma briga interna lamentável e se move para a extrema-direta, Dilma, embora não seja uma liderança propriamente partidária, não deixa de interferir diretamente nos rumos do PT e tem feito isso mau. Por outro lado, as demais forças de esquerda parecem torcer para que esse tipo de interesse prevaleça na briga interna para, assim, poderem denunciar o partido com mais força - quando deveriam estar trabalhando para construir um projeto efetivo.

E as coisas na política brasileira, cada vez mais, se passam nos bastidores e em pequenas conspirações com uma Presidenta que insiste em agir como o Stalin de Isaac Deutscher: envolta em uma junção de mistério e autoridade, ela se move pelas sombras, tecendo alianças em nome de uma realpolitik, a bem da verdade, muito pouco real, enquanto tem, mais do que qualquer líder recente, o espaço de manobra para fazer muito mais e melhor.  





terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Sucessão Paulistana: A Guerra no Ninho Tucano

Andrea Matarazzo confronta manifestante pró-Pinheirinho/ Paulo Libert/AE

Os confrontos no interior do Partido da Social Democracia Brasileira seguem homéricos. Uma declaração um tanto forte, atribuída ao ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, "vazou" na imprensa: “A minha cota de Serra deu. Ele foi duas vezes meu ministro, duas vezes candidato a presidente, candidato a governador e a prefeito. Chega, não tenho mais paciência com ele”. Há poucos dias, em outro "vazamento" atribuído a Serra, o ex-presidenciável dizia a íntimos que FHC "está gagá" ao comentar a declaração do ex-presidente de que Aécio seria o candidato natural do partido para a eleição presidencial de 2014.

Na prática, são declarações citadas por conta e risco de jornalistas, não há nada oficial, mas também não há nenhum desmentido público de nenhuma das partes - nem interesse em fazê-lo, que quer dizer muita coisa. É certo que sempre houve uma disputa pessoal e ideológica entre ambos, Serra foi uma voz independente no governo de FHC e, depois, como candidato à sucessão do projeto tucano - mesmo sem ser o favorito de Cardoso - nunca se preocupou em defender o legado de seu antecessor - e à boca pequena, FHC sempre se queixou disso.


Agora, o negócio esquentou de vez. Serra perdeu as eleições presidenciais em 2010, mas falou ainda como líder da oposição no discurso da derrota, enquanto Aécio, o aclamado - pela mídia tradicional e outros simpatizantes da oposição federal - candidato tucano para 2014, se colocou em uma posição de superioridade que, no entanto, lhe custou caro: Serra articulou duramente ao longo de 2011, destruiu o DEM - principal sócio do PSDB e fiador animado de Aécio para dar lugar ao PSD de Kassab - e, assim, conseguiu permanecer no páreo - exatamente como prevíamos aqui há pouco mais de um ano

Mas 2012 reservou uma encruzilhada para o ex-governador paulista: a proximidade das eleições municipais e a falta de um candidato competitivo do PSDB, segundo ele próprio admite, o obriga a assumir a tarefa. Isso é uma armadilha na medida em que se aceitar o desafio, Serra terá uma vitória de pirro para suas pretensões - ganhar a Prefeitura, o que ele considera pouco, é abrir mão da Presidência - ou encerrar sua carreira com uma derrota - o que não deixa de ser possível, uma vez que, segundo pesquisa recente, sua intenção de voto é baixa para um nome tão conhecido (21%) e sua rejeição é a maior dentre os  possíveis candidatos (33%).

Há quem no PSDB municipal de São Paulo queira sua candidatura realmente. Seria um longo mandato como encerramento digno de carreira e a manutenção da Prefeitura nas suas mãos - o que nunca realmente saiu de suas mãos com Kassab, talvez só no final de seu mandato, embora o Prefeito paulistano não deixe de declarar abertamente apoio a uma eventual candidatura Serra (e ele, por seu turno, apóie publicamente um candidato do PSD, o que faria o PSDB abrir mão de sua candidatura própria).

Ainda assim, como até as pedrinhas da rua sabem, muitos daqueles que defendem a candidatura Serra, o fazem para vê-lo fora da disputa presidencial de 2014. Até mesmo seu desafeto local, o governador Geraldo Alckmin, herdeiro do esquema de Mário Covas, que mantém equidistância tanto de Serra quanto de FHC - que o veem como um provinciano desqualificado. Enquanto publicamente Alckmin defende prévias no partido - que, no entanto, estão condicionadas à decisão de Serra -, nos bastidores ele insiste para que Serra seja o candidato a prefeito.

Nas possíveis prévias, Bruno Covas e Ricardo Tripoli disputam com nomes historicamente mais próximos a Serra como Andrea Matarazzo e José Aníbal - dos quatro, apenas Tripoli, deputado federal, não é secretário do governo Alckmin. O governador, por óbvio, preferiria Serra na disputa, sem ele, prefere posar como o fiador das prévias e fortalecedor do partido. Seja como for, Alckmin é o único nome nacional a realmente defender uma candidatura própria, ou Serra ou alguém das prévias - tendo, nessa última hipótese, leve preferência por Bruno Covas, por considerar que tem uma dívida de gratidão com o avô dele, seu mentor político, o falecido governador Mário Covas.

Andrea Matarazzo, atual secretário estadual de cultura e ex-subprefeito da Sé,  que jamais teve proximidade com Alckmin - muitíssimo pelo contrário - enxergou o peso do governador no processo das prévias e agora passou a defendê-lo com unhas e dentes, seja em redes sociais como o Twitter ou publicamente - o que lhe valeu um bate-boca homérico com manifestantes do PSTU que protestavam contra a violenta ação policial no Pinheirinho. Em um momento em que Alckmin está em posição de defesa, sob pressão intensa dos movimentos sociais, Matarazzo está disposto a correr riscos para apagar um passado inteiro de inimizades com Alckmin.

Essa é a nada confortável situação tucana em São Paulo. E não custa lembrar que embora o eleitorado paulistano opte por candidatos do PSDB no plano estadual e nacional, no plano municipal as eleições normalmente ficam entre alguém da direita orgânica e o PT. A única vitória tucana em São Paulo foi com Serra em 2004 em uma eleição nacionalizada. Aliás, falando em nacionalização, nem isso é favorável ao PSDB, porque o"grande eleitor" dessas eleições é Lula, cuja indicação de voto é a principal opinião para metade do eleitorado e seu candidato é Fernando Haddad.

Diante dos problemas, o PSDB, que absorveu relativamente bem o choque petista nas eleições gerais de 2010 - mas sentiu o golpe no day after - está disposto a radicalizar à direita para vencer e não perder São Paulo. O que explica em grande parte as recentes operações policiais bancadas pelo governo do estado, conveniado com prefeituras próximas, na Cracolândia, USP e no Pinheirinho. 

O discurso da tolerância zero em segurança pública, não esqueçam, rende muitos votos, embora sempre esteja no fio da navalha, pois é possível que uma hora a minoria atingida, de alguma forma, se identifique com a população. Isso explica grande parte da repercussão negativa do Pinheirinho; para além da resistência firme dos movimentos sociais, o ataque aos "favelados" acabou soando como ataque "a famílias pobres" e se existe um resultado prático dos anos de lulismo, é a construção de auto-identificação do eleitorado com os pobres.

Portanto, Andrea Matarazzo fez uma aposta arriscada ao defender pública e enfaticamente a ação, tanto que Tripoli e Bruno Covas se esquivaram de fazer isso e passaram a semana pregando contra a crueldade contra os animais (o que é sintomático, aliás). Depois do choque frontal entre FHC e Serra, é difícil antever o que pode acontecer dentro do ninho tucano.

Para além das intrigas palacianas - exacerbadas no PSDB mas presentes de canto a canto dessa eleição -, muita coisa está em jogo nessa eleição, embora isso esteja posto nas questões de fundo. O modelo de governança urbana - a união de imobiliárias, bancos, seguradoras e a polícia - que se pretende implementar em São Paulo não é questão meramente local, é laboratório para o país como já tem sido em partes - e arrisco em dizer, para o mundo -, uma política (des)habitacional fundada na guerra civil permanente. O impacto nacional sobre o alinhamento das forças partidárias também não significam pouca coisa. O PSDB disputa, hoje, a gerência dessa forma de governança, embora tenha reais dificuldades de admitir isso.

É a decisão que sairá do confuso ninho tucano que, invariavelmente, deflagará a eleição municipal paulistana mais importante da história, repleta de candidatos novos e com mais forte repercussão na cena nacional.












quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Sucessão Paulistana: O Processo Interno do PT

Lula e Haddad (foto: Alan Marques/Folhapress)


O Partido dos Trabalhadores chegou ao seu auge na capital paulista no início deste século: Detinha a Prefeitura da cidade com Marta Suplicy, o que resultou em dividendos eleitorais no plano das eleições gerais, como se pode ver pelos resultados de 2002. Mas já ali, alguma coisa não estava certa, o que veio a ficar exposto na reeleição fracassada de Marta.

Era evidente o racha do partido assim como o afastamento dele da intelectualidade e, ainda, um relacionamento problemático com os movimentos sociais - sobre o último ponto, saía a atuação direta e orgânica na periferia, sobretudo com os movimentos de moradia, e surgiu um estranho fisiologismo. 

A difícil relação de Marta com os outros setores do partido não apenas lhe custou a reeleição como ressuscitou Serra em 2004. Sua candidatura equivocada em 2008 custou bem mais do que isso, ajudando a dar sobrevida ao DEM e ainda protelando a (necessária) renovação do partido em São Paulo.

O quadro que se desenhava até bem pouco não era nada animador. As velhas lideranças petistas construíram uma estrutura poderosa e começavam a monopolizar as candidaturas para o governo do estado e para a Prefeitura da Capital. De repente, as coisas começaram a tomar um tom curioso, que se resumia no "Marta ou Mercadante".

O velho Lula, que sempre apostou no campo majoritário na politica paulista e paulistana, viu o tamanho do seu erro quando ele foi exposto violentamente este ano: a indicação de Palocci para a Casa Civil de Dilma foi, de longe, sua pior aposta em anos.

Nesse sentido, a aposta em Haddad foi uma (grata) surpresa. Por um lado, seu ministro da educação é um verdadeiro encantador de serpentes: consegue se manter à esquerda no partido sem se isolar, coisa que José Eduardo Cardozo não conseguiu. Por outro lado, Lula ousou e apostou alto e certo.

Lula se deu conta do enorme potencial desperdiçado do PT paulistano. Por mais que o país venha se descentralizando, São Paulo não só é - como continuará a ser - a maior cidade brasileira por muitas décadas ainda. O preço de adular velhos aliados não competitivos eleitoralmente  é ser complacente com uma decadência que pode, é claro, atingir o partido em escala nacional.

A insistência de Marta em pautar sua candidatura é um erro. A bem da verdade não é bom para sua própria carreira nem para o partido. Ela é uma figura importante no Senado, mas que tem uma grande rejeição junto ao eleitorado paulistano - pelos motivos certos e errados - e não é capaz de aglutinar o partido e o eleitorado dele, nem mesmo sua própria corrente, em torno de si.

É bom recapitular uma coisa, as duas gestões petistas na pauliceia se encaminharam de formas diferentes: é verdade que ambas colocaram em prática bons projetos e não conseguiram ter um fecho administrativo que desse coesão à gestão, só que Erundina deixou sementes, Marta não.

Explico-me: a periferia, por conta de Erundina, ficou menos distante socialmente da urbe; a resultante daquela tensão de forças foi que aquelas regiões pobres passaram a ser vistas enquanto parte da Capital, embora como um parte menor - coisa que não eram até ali.

E grande parte da resistência contra o Malufismo nasceu das sementes plantadas por Erundina. Com Marta não, o partido saiu menor e mais desunido, passivo diante da escalada de Serra.  

As demais candidaturas, as de Zarattini e Tatto - ambos ex-aliados de Marta - não são viáveis seja em qual aspecto for. Por isso, meu ânimo com a candidatura Haddad. Não apenas porque as outras opções não são boas neste momento, mas porque, ainda por cima, ele agrega muita coisa.

Haddad é, hoje, o nome petistas mais competitivo para as próximas eleições e, mais importante do que isso, de fazer uma campanha programática da qual será possível plantar novas sementes. E caso vingue, de conseguir fazer a gestão que São Paulo precisa, dando o fecho que faltou às gestões de Erundina e Marta.

O atual ministro da educação tem Lula e Dilma juntos a seu favor. Terá, por conta disso, uma votação expressiva na periferia - que não à toa deu um voto de confiança para o petismo -, mas tem condições de ganhar votos nos bairros mais ricos porque é capaz de animar a intelectualidade de esquerda - e reaproximar muita gente importante.

Dos outros partidos, infelizmente, nada de animador aparece, confirmando a triste sina da política paulistana dos últimos anos. Um PSDB sem projeto nem prumo, um Chalita neo-governista, um PSOL distante demais do debate público e preso a disputas intestinas dignas de Movimento Estudantil.

Nesse sentido, resta torcer pelo bom senso no processo interno de escolha do PT mais do que nunca. Que se reconheça a necessidade de renovação - que atende pelo nome de Fernando Haddad agora - e que se coloque o bem do partido -e, afinal de contas, da cidade - à frente de vaidades pessoais.