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segunda-feira, 23 de julho de 2012

Revisitando a Primavera Árabe

Monet - Lavacourt d'Inverno (daqui)
Há um ano e meio, a Primavera Árabe florescia durante o inverno do hemisfério norte, contudo, em um cruel paradoxo histórico, ela chegou ao seu inverno ainda na última primavera. Mas no inverno,  mesmo em um tão longo e rigoroso, há vida, sempre houve e haverá.

A irrupção na Tunísia da revolta que se espalhou pelo mundo árabe, do Magreb à península arábica, encontrou sua culminância no Egito: de repente, a Praça Tharir se tornou o centro nevrálgico de um mundo árabe que se levantava, catalisando uma segunda onda que se espraiou pelo mundo - da Espanha dos indignados que lotaram a Puerta del Sol até os inúmeros occupy pelos Estados Unidos e pelo mundo (Brasil, inclusive).

Hoje, o que temos? No Egito, a Irmandade Muçulmana capturou (eleitoralmente) a Revolução que não fez - nem faria e jamais fará -, enquanto na Líbia, o Ocidente se aproveitou da balbúrdia geral para estimular uma revolta à la Pancho Villa para derrubar seu pouco confiável Kadafi - justiçado barbaramente pelos rebeldes -, já na Tunísia, ainda que de forma mais moderada, os islâmicos estão no poder e, por fim, o regime baatista da família al Assad está prestes a tombar na Síria, enquanto uma guerra civil sangrenta faz o país arder.

Não, este não é um post sobre a sorte triste das revoluções, mas sobre a realidade histórica e as limitações reais - não objetivas ou subjetivas, reais - das lutas materiais bem como um chamado à urgência da boa estratégia política - coisa que Maquiavel, ao seu tempo, soube captar de forma tão singela e sublime. Lá (tal como cá) temos tensões de força e vetores, o que não faz com que a experiência vista ano passado seja inválida, nem que, por isso, deixemos de enxergar que estar a haver uma reação relativamente efetiva.

Sem sombra de dúvida, não podemos deixar de agir pelo medo da captura ou do fracasso, mas isso não quer dizer que possamos agir sem concebê-los - na alegria da imanência. E foi a Primavera Árabe que deflagrou, em termos práticos, a única experiência política de multitudinária que, durante esta crise mundial, consigo realmente preocupar e perturbar o Poder - ainda que, não nos esqueçamos, Wikileaks, e suas revelações sobre a Tunísia, teve um papel fundamental para disparar seu estopim.

No que toca à experiência subsequente dos occupy, como nos ensina o mestre David Harvey: as metrópoles - ao contrário do que todo o pedantismo dos catastrofistas não cansa de exclamar de forma cansada - são o locus da potência revolucionária contemporânea. A luta segue e os desdobramentos da Síria e, curiosamente, da política interna israelense, são cruciais no que toca ao Oriente Médio, bem como o decorrer da crise na periferia da Europa, sobretudo na Grécia e na Espanha. E onde há resistência não há derrota.

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Europa: a Crise Explode na Espanha, Eleições em Grécia e França

Fila de Desempregados Espanhóis
Desde que a presente crise arrebentou em meados de 2008 - não sem dar sintomas, diga-se -, o noticiário europeu é uma série de tragédias anunciadas. Agora foi a vez da Espanha, às vésperas de novas eleições na Grécia, depois da dissolução do parlamento recém-eleito graças à não formação de governo, e das eleições legislativas na França, que ocorrem sempre um mês após à eleição presidencial, a cada cinco anos. 

Não é preciso, como insistimos por aqui, ser nenhum expert em macroeconomia para antever os desdobramentos da crise na Zona do Euro, uma vez que os resultados de uma partilha de uma moeda comum - ou de uma paridade em torno de uma moeda forte - são amplamente conhecidos por nós brasileiros (sobretudo entre aqueles que tem memórias vivas dos anos 90 e da paridade dólar-real): a economia mais forte passa a exportar mais e as mais fracas passam a importar mais do que conseguem ou mesmo precisam. 

No caso europeu, os déficits infinitos dos países periféricos eram compensados pelo acesso (supostamente) sem fim ao crédito, uma vez que os Estados ricos e exportadores tinham liquidez para bancar o jogo. Ninguém, no entanto, se deu ao trabalho de pensar até que ponto esse contínuo - e inevitável - endividamento poderia chegar, tampouco o que aconteceria em um cenário de crise no sistema financeiro. 

Pois bem, os Estados mais pobres, a exemplo dos mais ricos, tiveram de resgatar os seus bancos - quebrados pela ingerência da festa do sistema financeiro nas últimas décadas -, cometendo a torpeza política de recapitalizar algo que quebrou por conta própria às custas do erário público, mas ao contrário de seus primos ricos, eles não têm capital para bancar essa aventura e, pior ainda, não tiveram qualquer ajuda de seus vizinhos - que continuam a ter sim liquidez, como insiste o próprio presidente do Banco Central Europeu, Mário Draghi.

Essa brincadeira, nos países periféricos da Zona do Euro, não trouxe qualquer compensação para a sociedade, que no fim das contas pagou duplamente: a primeira via tributos gastos, a segunda via cortes de benefícios sociais para o reequilíbrio das contas públicas por meio dos "programas de austeridade". Esses países, além de não disporem de fundos, sempre tiveram uma situação frágil, uma vez que o Euro os tornava permanentemente deficitários na Balança Comercial, tanto que suas contas correntes esteve sempre comprometida. 

A riqueza social produzida pelos europeus, que marcou toda essa bonança do pós-guerra, foi  aparentemente repartida, mas para os países pobres do continente ela o foi como dívida, enquanto para os ricos isso aparece como liquidez - como se essa liquidez transcendental de países como Holanda ou Alemanha não resultasse do acesso aos mercados periféricos europeus. Esse estouro, junto com pequenos problemas internos de países como Portugal e Grécia, acabou por catalisar a presente crise.

A Espanha, que a exemplo de Portugal e Grécia, viu seu pós-guerra ser dominado, justo nas décadas de ouro do estado de bem-estar social, por um regimes fascista - embora os gregos tenham tido um intermezzo democrático -, azeitou uma democracia parlamentar com seu braço direitista e seu braço esquerdista, separados por muito pouco e unidos no projeto de integrar o país à Europa nesses termos.

Detalhe que os primeiros anos da democracia espanhola (1977-1982) foram dominados, ainda, por setores conservadores - que governaram seus cinco primeiros anos democráticos, de forma controversa e atrapalhada - até o longo governo socialista de 14 anos (1982-1996), encabeçado por Felipe González, cuja duração marcou a inserção definitiva do país no projeto europeu. O governo conservador de José Maria Aznar (1996-2004) apenas trouxe uma guinada na política de relações exteriores do país, tornando-se mais pró-americana, o que só causou maiores problemas quando, às vésperas do pleito de 2004,  o país foi vítima de um atentado terrorista de um grupo extremista islâmico em retaliação à participação espanhola nas incursões americanas no Oriente Médio: a irritação dos eleitores veio à tona e os socialistas voltam ao poder com a promessa de tirar as tropas do país do Iraque.

O governo socialista de Zapatero que foi de 2004 até o ano passado, apenas inseriu mais ainda  a Espanha na economia da dívida do projeto europeu e, diante da crise, deu o dinheiro que não tinha aos seus banqueiros, se endividou e compensou tudo com cortes nos investimentos públicos e sociais - além de manter a velha política de enquadramento e cerco às minorias autonomistas pelo país. Sua derrota ano passado, foi a expressão de uma abstenção massiva dos eleitores (32%), seguindo a tendência dos últimos anos, que resulta do desânimo geral do eleitorado com a situação do país e a semelhança (à direita) entre os grandes partidos - o que impacta sobretudo no eleitorado esquerdista, especialmente aquele ligado aos movimentos sociais do país, que vive o impasse de estar cada vez mais distanciado do sistema partidário-parlamentar sem, no entanto, produzir uma alternativa para tanto.

A direita sequer viu seus votos aumentarem substancialmente nessa vitória - eles aumentaram em apenas 600 mil votos - enquanto os socialistas perderam mais de 4 milhões de votos em um universo que variou de pouco mais de 25,7 para 24,6 milhões de votos. O novo premiê, Mariano Rajoy, que passou os sete anos de governo Zapatero como líder da oposição assumiu um país com a maior taxa de desemprego da Zona do Euro - quase um em cada quatro espanhóis incluídos na população economicamente ativa não tem emprego -, mas continua a repetir a mesmíssima política de cortes de investimentos para adequar o orçamento espanhol ao déficit comercial inerente a participar do Euro, repetindo a política insana de fazer o pé caber em um sapato vários números menores, nem que para isso precise amputar os dedos.

Em suma, o fracasso anunciado do governo Rajoy faz a democracia espanhola rumar para algo parecido com o que houve na Grécia: a falência do consenso partidário tradicional, o que não quer dizer que disso vá se produzir uma saída efetiva. Como tratamos recentemente, a Grécia viu a ascensão de uma série de agremiações menores ascenderem ao seu parlamento nas últimas eleições - sete no total, algo incrível para um país praticamente bipartidário há quase quarenta anos -, o que impediu a formação de governo e resultou na dissolução do parlamento recém-eleito. Depois de meses sob um governo técnico, agora a Grécia está nas mãos de um governo provisório, enquanto a tensão chega a níveis máximos, inclusive com um deputado neonazista, do recém-dissolvido parlamento, agredindo uma colega esquerdista na televisão.

Para as novas eleições marcadas para dia 17 deste mês, o partido da esquerda radical Syriza aparece como um dos favoritos - e sua plataforma gira em torno de uma renegociação do pacto de resgate do país, nem que isso signifique sua saída da Zona do Euro -, disputando ponto a ponto com o centro-direitista Nova Democracia a liderança das pesquisas, mas como é de se supor, em uma nova eleição realizada um mês depois da anterior, nenhum partido obterá maioria absoluta e os rachas no campo da direita e da esquerda inviabilizaram a formação de um novo governo - exceto se houver um amplo e plasmoso acordo, o que pode, inclusive, marcar a exclusão do Syriza, ainda que individualmente vencedor, da futura coalizão governista.

Nos dias 10 e 17*, os franceses irão às urnas para eleger sua Assembleia Nacional, a câmara baixa de seu parlamento, fechando o seu ciclo de eleições que começou ano passado com o Senado, vencido pela esquerda, e passou há um mês pela (apertada) vitória socialista nas eleições presidenciais. A tendência, dentro de um sistema eleitoral confuso como o francês, distrital de dois turnos, é que a esquerda reunida vença, inclusive pelo cansaço do eleitorado com a maratona eleitoral: se em média 35 dos 44 milhões de eleitores franceses votam nas presidenciais, esse número cai em pelo menos 10 milhões um mês depois nas eleições legislativas, uma sobre-abstenção que normalmente corresponde aos eleitores do partido derrotado nas presidenciais.

Se há cinco anos atrás, a boa vitória, ainda que em dois turnos, presidencial de Sarkozy deu ao seu partido (UMP) quase 40% dos votos contra reles 24% dos socialistas, mas agora a tendência é que a votação de ambos se aproxime em torno de 32%-35% dos votos, com a votação da esquerda reunida  - contabilizados aqui o Front de Gauche, de Mélenchon, o Partido Radical de Esquerda e os Verdes - beirando os 45%, somando maioria relativa do parlamento frente a conservadores e centristas. Ao que tudo indica, Hollande, apesar da vitória apertada, terá tranquilidade para governar, a questão é saber como e até onde irá sua disposição para confrontar a Troika e o novo Pacto Fiscal proposto por Merkel - e  em relação ao qual ele se opôs publicamente de antemão.

O quadro atual, portanto, aponta para o que pode ser um segundo momento da crise europeia com o reaparecimento da social-democracia e o gradual isolamento da centro-direita - incluindo aí as recentes derrotas da democracia-cristã alemã em estados importantes de sua federação -, além da ascensão de uma esquerda radical que, embora minoritária, força essa centro-esquerda a questionar os pés de barro do projeto europeu, o que se não é suficiente para um lado, marca uma pequena mudança de nuance na direção.


*na verdade, o segundo turno das eleições para a AN é dia 17, o primeiro turno é amanhã mesmo.

domingo, 20 de novembro de 2011

Dia da Consciência Negra, Egito, Espanha

Um dia agitado. Enquanto no Brasil comemora-se o Dia da Consciência Negra, um feriado importantíssimo para resgatar parte fundamental da História - precisamente, a resistência do Quilombo dos Palmares -, o que, mesmo com todas as apropriações toscas e oportunistas, não pode ter seu valor diminuído: ele é parte importante das lutas do movimento negro que, nos últimos anos, conseguiu importantes vitórias, desde aprovar o mecanismo de quotas étnicas em várias universidades até construir a autoestima da população de fenótipo negro que, cada vez mais, se declara negra.

Enquanto isso, várias cenas se sucedem pelo mundo - duas em especial: a Junta Militar que governa o Egito resolveu dispersar os manifestantes - que reivindicam eleições livres - à força, o que dá mais e mais contornos de ditadura militar à anômica situação na qual se encontra o Egito pós-Mubarak; a direita pós-franquista está prestes a levar as (esvaziadas) eleições espanholas - dois episódios que ilustram a profunda tensão no Mundo Árabe e no interior da Europa e nos fazem pensar os rumos que o mundo toma.

O aparente paradoxo entre a reivindicação de eleições de um lado e o esvaziamento delas no outro se esvai rapidamente: em ambas estamos diante da mais intensa luta por liberdade. O problema é que a multidão nas ruas do Cairo compartilha alguma noção tática - é preciso tomar o Estado neste momento -, enquanto a multidão espanhola sabe o que não quer, mas o esvaziamento dessas eleições não deixa de ser preocupante: não, eles não deveriam mesmo apoiar o PSOE, o problema está em não ter construído uma alternativa para ele. E não é questão de salvacionismo, é de prudência mesmo: a aproximação de um horizonte verdadeiramente emancipador para o mundo não poderia vir desacompanhado do fantasma do fascismo - ou mesmo de uma nova (e última?) guerra mundial, como sugerem os tambores de guerra sendo batidos aqui e acolá.

Nada de meios e fins, pensemos nas causas e nos seus efeitos, sem teleologismos - esperancismos - e inconsequências pueris. A luta dos negros no Brasil entra nesse contexto como exemplo de experiência válida: cá, o devir negro veio acompanhado de um enorme devir partisan, é disso que precisamos nos investir quando pegamos as armas durante a nossa fuga: sentir a emoção intensa de resistir ao fascismo, devir táticos, devir estrategistas, construir uma práxis intensa que nos permita produzir alegria mesmo quando o próprio ambiente no qual ela pode ser produzida nos é negado - e o será, cada vez mais de agora em diante: pôr o partisan para sambar com o quilombola e, assim, tocar a bola adiante.


domingo, 3 de julho de 2011

A Europa e os Rumos do FMI pós-Strauss-Kahn

DSK sai da cadeia em companhia de sua esposa - EFE
Dominique Strauss-Kahn, tipico socialista europeu dos dias atuais, poderia ser definido como alguém disposto a dar uma vocação social ao "sonho" europeu, nada mais. Isso talvez não seja novidade alguma, afinal, ao que me conste o termo socialista já andava batido desde os tempos de um certo Manifesto, quando já restava plenamente naturalizado - e domesticado - nos salões da Velho Mundo - talvez depois disso tenha retomado algum tom perigoso até retornar à inofensividade. Pois bem, DSK era até bem pouco dirigente maior do Fundo Monetário Internacional (FMI). Aquele órgão, uma das pernas do sistema financeiro internacional do pós-guerra, instituição gêmea-siamesa do Banco Mundial, normalmente dirigida por europeus, enquanto o outro ficava sob o comando nominal de um americano.

O "até bem pouco" poderia ser traduzido por "até um escândalo sexual de proporções catastróficas" em Nova Iorque, quando ele foi acusado de ter abusado de Nafissatou Diallo, camareira de um hotel da rede francesa Sofitel, o que o obrigou a se demitir do cargo pouco depois - o que além disso, também deve lhe custar a indicação do Partido Socialista para ser seu candidato presidencial no ano que vem. Nos últimos dias, o caso sofreu uma  profunda reviravolta, com incongruências surgindo no depoimento de Diallo, resultando na libertação de DSK que cumpria prisão preventiva. O processo ainda segue. 

Nós sabemos que em casos de crimes sexuais, não raro, a defesa tenta transformar o acusado em vítima - às vezes com a complacência do próprio Judiciário -, mas também sabemos que usar de escândalos sexuais para desacreditar figuras de relevo também não é prática estranha ao jogo pesado da grande política - Julian Assange que o diga. E DSK era um alvo considerável, seja por ser um possível (e forte) adversário do atual Presidente Nicolas Sarkozy ano que vem, quanto por poder ser uma pedra no sapato no comando do FMI - agora que essa instituição ganha importância estratégica para o continente europeu com a crise na sua periferia. No meio tempo, eleições foram realizadas para a direção do FMI, com a vitória, vejam só que coincidência, de uma ministra e correligionária de Sarkozy, Christine Lagarde.

Não é possível de nossa parte afirmar se DSK cometeu ou não o ato criminoso do qual ele é acusado, mas é fato que o episódio marca uma virada política substancial. Longe dele ser alternativa para qualquer coisa, mas a direita francesa que o sucede no comando do FMI, o é: sua posição - alinhada a de alemães, holandeses e demais vencedores do sonho europeu - é clara em esquivar a União Europeia de suas responsabilidades para com sua periferia e fazer com que países como Grécia, Portugal, Espanha e Irlanda arquem sozinhos com uma crise estrutural do bloco - tendo de se virar com empréstimos do FMI, cujas condições de pagamento, nós bem conhecemos cá em terras brasileiras. Isso serviria para o capital franco-germânico passar pela tempestade sem se molhar.

Tudo em política é uma questão de custo-benefício e de limites. A direita dos grandes países da Europa aposta que passar toda conta da crise para a sociedade civil grega - e mais tarde para algumas outras - é viável; a corda ficaria tensa, mas não estouraria e o custo da crise política e social interna seria não só suportável como também apontaria para a reprodução da prática, logo mais, em Portugal e Espanha. Para realizar isso, ela terá o comando do FMI agora perfeitamente alinhado. Pode até ser que a corda não estoure mesmo, ainda que as dúvidas sobre a viabilidade disso sejam cada vez maiores, mas mesmo assim o Euro e toda a estrutura podre do capitalismo financeiro continuarão lá: portanto, estamos diante de medidas de austeridade para, apenas e tão somente, chegar a uma saída paliativa na manutenção do status quo. 

O exaurimento de legitimidade da UE é uma realidade. Ora, o plano de resolver as contradições do sistema por meio de uma terapia de choque, que tem avançado como uma divisão de blindados, se assenta na expectativa da postura torpe dos partidos social-democratas se manter e, ainda, nada surgir das pressões nas ruas. O suspeito caso DSK caiu como uma luva para tudo isso poder ser levando a cabo, agora é preciso combinar com os russos...digo, com os gregos para tudo dar certo.



domingo, 19 de junho de 2011

A Crise Grega como Ponta do Iceberg para a Crise Europeia

Resistência na Acrópole
O mundo foi atingido por uma verdadeira onda de choque entre meados de 2008 e início de 2009. Passado o susto inicial, começou a ficar claro quais eram os reais problemas da economia mundial: longe de ser ela mesma a crise, o abalo do mercado imobiliário americano foi apenas um gatilho financeiro que expôs os pés de barro da economia globalizada. A União Europeia, o grande projeto do capital europeu desde o pós-guerra - e um dos maiores pilares dessa nova ordem -, foi aquele que teve mais fissuras expostas e agravadas. Um dos casos mais taxativos da atual crise foi o dos periféricos da Europa Ocidental, sobretudo, o caso grego: em um primeiro momento, a relutância do Consenso em admitir o que realmente aconteceu, colocando tudo na conta da corrupção local e do caso cavalar de sonegação fiscal que se viu ali; no máximo, falava-se que "o país acumulou dívidas demais" - como se pudesse não tê-las contraído -, mas sempre passávamos batido por eventuais causas daqueles problemas, é como se as coisas, de repente, tivessem brotado do nada. Trata-se, como bem sabem os leitores deste blog, de uma tragédia anunciada.

Pois bem, o arguto leitor deste blog deve estar se perguntando qual a importância de um país tão pequeno para toda a estrutura da Europa e do Mundo e de que modo - e por qual motivo - ele  contraiu tantas dívidas. O primeiro ponto diz respeito como a União Europeia já era um projeto concebido desde o fim da Segunda Guerra: o que restou do Capitalismo na Europa precisava não apenas de políticas de emergência internas para frear a expansão do socialismo soviético - o que deu na social-democracia do pós-guerra - como também de integração e cooperação direta, entre os Estados, no plano externo. Um primeiro passo foi a integração dos grandes mercados - França, Alemanha Ocidental, Itália, BeNeLux, Reino Unido -, depois a absorção dos periféricos - Portugal, Espanha, Grécia e Irlanda -; por menores que fossem a economia dos pequenos, era da ausência de um processo de rejeição deles que dependia - como depende - a expansão do bloco. Eis aí que chagamos ao segundo ponto: se tudo corre bem com a integração de mercados e a política de acesso ao crédito e programas de equiparação regionais, dos anos 70 aos 90, com a adoção do Euro surge um problema, as contas dos países começam a não fechar, pois eles não estão nem de longe de condições de igualdade com a Alemanha ou a França.

Aparentemente, isso não era um problema: os gigantescos déficits comerciais de Portugal, Grécia ou Espanha - e os déficits públicos para bancarem essa equiparação - eram cobertos por vultuosos empréstimos que resolviam o problema de caixa, engordavam a receita de bancos alemães e franceses e, de quebra, movimentava a indústria dos grandes países - naturalmente mais competitiva que a dos seus vizinhos periféricos.  Um país como a Grécia enriquecia de um modo estranho, sem desenvolver devidamente sua cadeia produtiva, mas recebendo funções adjacentes da administração do Capitalismo Europeu; pátrias de consumidores de produtos dos seus vizinhos, abastecidos pela (aparentemente) infinita máquina de crédito europeia. Como em matéria de economia não há intervenção que não tenha, ao mesmo tempo, ônus e bônus e nada que não tenha limite, a corda do endividamento dos pequenos esticou demais e, com o choque da crise financeira americana, acabou por estourar: a estrutura financeira de Alemanha e França entenderam por bem não correr riscos, cortaram linhas de crédito e os periféricos foram deixados a própria sorte, precisando de empréstimos do FMI e expostos a "´planos de austeridade".

No que toca ao caso grego: é fato que a alta sonegação fiscal e o fato que as contas públicas, de fato, estavam numa situação pior do que a alegada, agravaram a situação, mas ela não é causa da problemática grega. Do contrário, seria um fenômeno meramente grego. Infelizmente, não é o caso. O endividamento atual, está para além de 150% do PIB decadente e, simplesmente, não há condições de paga-lo. De acordo com os dados do Eurostat, a situação do país não é nada animadora e o problema não é apenas o déficit de 10,5% do PIB nas contas públicas: A Grécia também está arcando com um déficit comercial de quase 9% do PIB. O déficit em conta corrente, que é o que realmente interessa, portanto, é gigantesco. O ponto é que justamente por não ter mais um moeda própria - e, pior, fazer parte de uma homogeneidade monetária com países muito mais competitivos -, que o Estado grego precisa arcar com um pesado custo dessa integração. O Euro gera um custo altíssimo para a Grécia, que precisaria trabalhar com superávits nas contas públicas na casa de 8% ou 9% para manter o equilíbrio sistêmico. Concretamente, isso é impossível, ainda mais graças às fraudes fiscais e aos resgates do Estado junto ao seu mercado financeiro interno devido a crise, o que fez com que o erário público local foi mais pressionado mais ainda, extrapolando seus limites. Não há como cortar quase 20% do PIB em gastos públicos do nada  no curto ou médio prazo, sem um plano de reequilíbrio acompanhado pela comunidade internacional.

Não existe, dentro desse contexto, "plano de austeridade fiscal" - eufemismo para cortes de programas sociais para o pagamento de dívidas - que seja social ou politicamente sustentável na Grécia. A moratória da dívida é a única saída possível para os gregos, mas não só: por mais que seja altíssimo o ônus de arcar com a saída da Zona do Euro, é nesse sentido que as autoridades gregas deveriam, ao menos, discursar para criarem uma pressão sobre o motor franco-germânico; é preciso que ele também arque com os prejuízos do bloco, depois de tanto tempo apenas ganhando com ele. Tivessem uma moeda própria, os gregos não apenas não teriam entrado em uma situação tão greve como também teriam como, da desvalorização monetária, conseguir fazer ajustes nas contas de uma forma um tanto menos pesada - basta lembrar do Brasil dos anos 90 que, depois da rotunda trapalhada da paridade com o Dólar, pôde desvalorizar sua moeda e, assim, garantir um ajuste sustentável nas suas contas. Claro que isso tornaria a Grécia a pequena pedra que, uma vez movida, derrubaria todo o monte, gerando um soterramento; isso teria consequências que iriam para muito além do econômico e do diplomático, mas é a saída.

A postura autista da chancelar alemã Angela Merkel e do presidente francês Nicolas Sarkozy denota, na verdade, desespero: esperam eles que os contribuintes dos países periféricos arquem sozinhos com o custo (como se pudessem!) da crise atual para fazerem seus países atravessarem a tempestade sem se molhar, mas esquecem que se isso der errado, e o arrocho derreter aquelas economias, tratar-se-á não mais de um efeito dominó financeiro como também político e social, cujas consequências são assombrosas. Logicamente, é preciso rediscutir o pacto monetário europeu, o que tem implicações profundas. Seriam capazes as atuais lideranças europeias, sobretudo dos grandes países, assumirem realmente os encargos da manutenção do sistema de "solidariedade continental", peça-chave que tem garantido a paz desde o final da Segunda Guerra? Claro que esse é um questionamento cínico da minha parte, essa problemática não está, nem pode ser, posta pelas atuais forças políticas dominantes no Velho Mundo: a organização da UE nesses moldes não é fruto do mero acaso do destino, mas das necessidades [de universalização] do grande capital local. A questão atual é saber se o movimento multitudinária que está a invadir as praças públicas, como visto na Espanha mês passado, ganhará força e esvaziará, por falta de público, a farsa encenada nos parlamentos europeus ou se, uma vez mais, a máquina tirânica catalisará a xenofobia continental e assim irá sobreviver.


quinta-feira, 26 de maio de 2011

Por uma Era de (Verdadeiro) Cinismo: Espanha e a Democracia Real

Puerta del Sol em Madrid lotada de manifestantes do Democracia Real Já
O mundo vive uma crise gravíssima. Se após a Segunda Guerra Mundial modelos políticos surgiam aos montes como saídas para realizar o sonho de uma humanidade livre, igualitária e feliz, o cenário atual é aterrador: o "socialismo" - que mobilizou um sem número de intelectuais pelo mundo - desabou, se auto-implodiu deixando um mar de escombros e poeira no Leste Europeu - salvo a China que readaptou o seu sistema para cumprir uma função na economia global capitalista e assim manter o sistema, mas terminou por ser um estranho cruzamento de capitalismo selvagem com socialismo burocrático -; por outro lado, a crença no liberalismo à la americana parece ter desabado de maneira inequívoca, seja pela desmoralização definitiva do país com suas atitudes desde Bush ou pela própria crise do modelo, seja em um sentido político ou propriamente econômico como vemos atualmente - bem como as fracassadas tentativas de reprodução do modelo americano em qualquer parte do mundo -; por fim, a própria social-democracia europeia do pós-guerra, a utopia de domar o Capitalismo e usar sua força incomensurável de produzir riqueza para servir à vida, também se desgastou e foi corroído na medida em que o leviatã soviético desapareceu - e com ele o temor da elite capitalista em ser derrubada por alguma Revolução, o que os autorizou a pôr as coisas de novo no lugar...

Antístenes, discípulo de Socrátes e fundador da Escola cínica
Uma juventude sem esperança se amontoa pelo mundo, passiva e descrente em assumir postura crítica frente à desdita cotidiana. Não raro, intelectuais de porte dizem que vivemos uma "era de cinismo" - nada mais falso, pelo menos à luz do que foi o movimento cínico na Heláde do século 4º a.C.; os cínicos, ao contrário do equivocado termo pejorativo contemporâneo com o qual estão associados, se afirmavam na Pólis como um poderoso movimento de crítica, lançando violentos ataques às convenções morais dos seus contemporâneos por meio de inserções chocantes no espaço público. Portanto, não há nada mais anti-cínico do que o modo de vida atual, onde frente à implosão das grandiloquentes narrativas pós-platônicas, a postura é justamente de acatar acriticamente o mesmismo reinante, abraçar o modo de vida dado e  se retirar do espaço público. Precisamos de um retorno ao cinismo tal como nos tempos de Antístenes e Diógenes. Um retorno a uma vertente nascida do socratismo e que, curiosamente, seguiu o caminho oposto da linhagem dominante, a saber, o próprio platonismo reinante, que se impôs como a linha tradicional do pensamento do Ocidente. 

O evento que ora se passa na Espanha, no qual o sistema político do país - uma construção astuciosa do Poder para mudar tudo sem mudar nada na imediata queda do Franquismo - é posto em xeque, trata-se, a exemplo do Revolução Árabe, do que pode ser um novo meio de atuação, um devir cínico na medida em que se constitui crítico, surpreendente e multitudinário. Não poderia ser mais equivocado o temor de que o movimento colocaria a "direita no poder" como se o ("direitista") PP e o ("esquerdista") PSOE não fizessem exatamente o mesmo jogo há anos, protagonizando uma polaridade conservadora que, para além da imagem dos debates duros no parlamento, não fez outra coisa senão conduzir a Espanha mais e mais para um projeto europeu obtuso - que transformou o país em uma colônia de consumo, destinado a um endividamento crônico, que, uma vez que o eixo franco-germânico se viu ameaçado pela Crise Mundial, acabou por ser rifado, obrigado a cortar salários e aceitar arrochos para pagar as dívidas de um crédito que até ontem lhe era dado incondicionalmente. Isso sem falar na própria opressão às minorias étnicas - como os bascos -, coisa que os "esquerdistas" do PSOE sempre conviveram muito bem.

Da mesma forma que o argumento da via única é falso - nada mais tolo do que a redução de todas as possibilidades políticas a um caminho necessário ditado, quem sabe, por um racional superior desconhecido que só se comunica com os sábios -, o maniqueísmo que se insurge contra ele é igualmente perigoso, pois a alternativa que ele busca ser - esse "ou" capcioso - traz em seu interior, no fim das contas, um autorizativo moral que pode justificar muita coisa em nome da Causa, na medida em que não exclui a lógica do caminho único, apenas se apresenta como o caminho correto, o qual poderia fazer qualquer coisa contra seus adversários, o que exclui também toda e qualquer outra possibilidade de insurgência e, uma vez no poder, toda e qualquer outra possibilidade de fazer política - a nossa moral e a deles. Se tanto a direita quanto a esquerda parlamentar da Espanha estão presos na armadilha da via única, também não será um falso alternativismo que servirá lá - ou em qualquer lugar do nosso tempo -; é necessário mais do que isso, uma nova esquerda, uma esquerda para o aqui-agora, precisa sair do mundo do moralismo-maniqueísta e entrar no reino das possibilidades (e da Liberdade); Puerta del Sol é alentadora nesse sentido assim como as experiências no Mundo Árabe. É isso que precisamos cá no Brasil.


domingo, 11 de julho de 2010

Notas da Copa: Espanha campeã

(foto retirada daqui)

A Espanha foi campeã mundial hoje na final contra a Holanda. 1x0. Jogo duro, marcado, parelho como já era de se esperar. Foi o melhor jogo da Holanda na Copa, embora ela tenha batido - e batido muito. A Espanha, novamente, jogou muito bem, desfilando sua excelência técnica e, em muitos momentos, demonstrava uma vontade de vencer sem par neste Mundial. Vontade. Acho que essa foi a palavra chave para o título mundial dos espanhóis, mais do que o equilíbrio do time e sua qualidade técnica. Vontade, fome de vitória, disposição. Isso explica porque mesmo uma defesa com sérias limitações como a sua fez uma copa dessas. Como o meio desfilava em campo. Como o ataque, mesmo longe do brilhantismo da Euro 08, se superava.

No jogo de hoje, a Holanda encaixou perfeitamente a marcação: Van der Wiel marcava Pedro, um Villa, novamente como centroavante, se perdia no meio dos esforçados Heitinga e Mathijsen, Van Bronckhorst marcava de perto Iniesta, De Jong e Van Bommel marcavam Xavi e Xabi Alonso. Tudo isso para deixar Sneijder e os três atacantes jogarem. Mesmo com um bom início espanhol, uma boa defesa de Stekelenburg, a Holanda equilibrou o jogo devagarinho e chegou pouco a pouco perto do gol, demonstrando a inteligência que lhe colocou na final. Se sobrava engenho, lhe faltou arte. O primeiro tempo vira 0x0 sem o dez laranja brilhar, com Robben perdido pela direita, Van Persie perdido em meio aos zagueiros e Sergio Ramos dando tamanho baile em Kuyt que chegava a conseguir subir ao ataque. A Holanda, no entanto, se afobava em lances bobos e tomava amarelos às pencas.

O jogo recomeça no Segundo Tempo com a mesma tônica. Times encurtando o gramado. A Holanda fazendo muito bem linha de impedimento. Navas no lugar de Pedro fazendo às vezes de ponta direita deu novo gás ao jogo espanhol. Iniesta cresceu. Villa continuava mal - talvez o grande erro de Vicente del Bosque foi insistir com ele como comandante de ataque. Sneijder não aparecia muito, mas quando aparecia, era cortante. As duas melhores chances do segundo tempo foi uma enfiada de bola genial de Sneijder para Robben perder - sim, foi ele que perdeu, apesar da boa saída de Casillas, grande Casillas -, depois o ponta-direta perdeu lance parecido, ganhando na correria dos zagueiros espanhóis para perder na cara do gol. Fim do tempo normal, prorrogação. Jogo igual. O técnico holandês resolve ousar botando Van der Vaart e transformando assim seu 4/2-3/1 num 4/1-3/2. Foi a primeira vez que Bert van Marwijk pareceu um técnico holandês na Copa. O time saiu para ganhar, correndo o risco de tudo perder - e foi o que aconteceu: Heitinga tomou o segundo amarelo, arrebentou com o esquema e a Espanha começou a ameaçar mais, até que Iniesta fez, no segundo tempo da prorrogação, o gol do título. Título espanhol.

Honestamente, continuo não achando a Espanha um super-time - ela assim como a Itália de quatro anos atrás não foram melhores do que o Brasil de Felipão, que mesmo não sendo nenhum esquadrão, foi um excelente campeão, nem muito menos que a França de 98, só pra ficar em campeões recentes. Ainda assim, a Espanha é de fato o melhor time do mundo. Não brilhou tanto aqui quanto na Euro, mas venceu com méritos e o título, apesar das dificuldades, nunca saiu muito da sua mão.

sábado, 10 de julho de 2010

Notas da Copa: Análise da Final























Amanhã, às 15:30, horário de Brasília, Holanda e Espanha disputarão a final da Copa do Mundo. Como já dito aqui é uma final inédita em vários sentidos.Tratam-se de duas importantes escolas do futebol europeu que fracassaram em decisões ao longo do tempo. A Espanha, sem dúvida, muito mais que a Holanda. Essa é a primeira final espanhola contra a terceira final holandesa. Ambas fizeram campanhas lapidares nos últimos quatro anos, sendo que a Espanha, inclusive, é a atual campeã europeia, enquanto a Holanda tombou nas quartas-de-final daquele torneio.



A Espanha sempre pagou o preço das suas intempéries  políticas, seja do seu processo de unificação ou, mais especificamente, quando o grau de violência teve uma escalada ímpar a partir da sanguinolenta Guerra Civil dos anos 30 que resultou em décadas de um regime fascista, cuja existência tardia se sustentava em um nacionalismo madrilenho que oprimia as diversas outras etnias que vivem em seu território. As feridas permaneceram e permanecem em aberto, com muitas vezes o futebol servindo para a afirmação política de certos grupos. Durante o fascismo, o único modo dos catalães expressarem sua cultura era torcendo e financiando o Barcelona. O Real Madrid, era o time que simboliza o poder central. A rivalidade entre ambos, superava, certamente, o que havia nas quatro linhas e se refletia na possibilidade de existir um time unificado da Espanha que funcionasse. Ainda que a duras penas e de modo acidentado, a integração entre as várias nacionalidades que vivem em território espanhol evoluíram sob a égide das eleições livres, do europeísmo e de progressos - ainda que questionáveis - nos instrumentos políticos de respeito às culturas locais. A base desse time espanhol é o Barcelona e boa parte desses jogadores são catalães. Nem o Barça, perdeu sua função junto à nação catalã, mas, de modo impensável, anos atrás, serviu de base para a seleção espanhola.


A Holanda, por sua vez, não era um futebol relevante na Europa até os anos 70. Muito embora não se tenha notícias de grandes conflitos internos no país, ele foi um dos que mais sofreram durante a Segunda Guerra Mundial. Sua destruição quase que total marcou o surgimento de um novo país, no qual, antes e mais do que qualquer outro país europeu, cresceu uma cultura laica e progressista - a Holanda foi o primeiro país onde houve algo que se pudesse chamar de tolerância religiosa e muito da sua organização político-social influenciou o que veio a ser os Estados Unidos, essas mudanças nada mais fizeram do que contemplar algo que estava em suas origens. O futebol holandês se destaca quando da revolução tática e física pela qual passou o futebol europeu; mais do que a evolução da medicina esportiva e da tecnologia, esse salto se deu sob o impacto da superioridade técnica que a Seleção Brasileira desfilou nos gramados em 70. A partir dali, o futebol nunca mais foi mesmo. E os holandeses saíram na frente. O time de Rinus Mitchel era algo muito a frente de seu tempo e, infelizmente, perdeu duas decisões contra os dois anfitriões - respecitivamente Alemanha Ocidental em 74 e Argentina em 78.


Time por time, o retrospecto nos últimos quatro anos é bastante alto: O espanhóis chegaram à Euro 08 com 77% de aproveitamento, foram campeões daquele torneio empatando apenas um jogo - contra Itália, a quem derrotou nos pênaltis -, mas foram eliminados pelos EUA na semi-final da Copa das Confederações, ficando com o terceiro lugar do torneio. Venceram todos os jogos das eliminatórias da Copa. Agora, na África do Sul, sofreram um  revés inesperado logo na primeira rodada, na derrota para a Suíça (1x0), mas venceram os outros cinco jogos - ainda que só um por mais de um gol, contra Honduras (2x0) -, fez 7 gols e tomou 2. A Holanda se classificou para a Euro 08 com 72% de aproveitamento - mas ficou em segundo lugar no seu grupo, atrás da Romênia, a quem superou no seu próprio grupo na Eurocopa -, venceu todos os jogos da primeira fase na Eurocopa, mas sofreu uma inexplicável derrota para a Rússia de Arshavin nas quartas-de-final (3x1). Nesta Copa venceu tudo que disputou, marcando 12 gols e tomando 5.


O time espanhol, na atual Copa jogou todos os jogos no 4/2-3/1, alternando mais para um 4/3/3 do que para  um 4/5/1. Casillas foi o goleiro, perfeito no gol, tomando apenas quando da falha de Piqué contra a Suiça e de um chute de fora da área do Chile - que resvalou ainda na zaga -; Sérgio Ramos e Capdevilla são os laterais e compensam suas limitações jogando para o time e atuando na marcação, no miolo de zaga, Piqué e Puyol fazem o mesmo e ambos têm jogado melhor do que poderia se imaginar. Busquets foi o primeiro-volante de forma sóbria enquanto Xabi Alonso - alternando como um segundo-volante e um meia-armador - e Xavi - o maestro do time - marcaram o compasso da equipe com boa qualidade no passe, disciplina tática e ofensividade. Na frente, tivemos uma configuração consideravelmente mais rotativa, sempre da direita para a esquerda como centroavante no meio, contra a Suíça o ataque foi Silva-Villa-Iniesta, contra Honduras Navas-Torres-Villa, contra o Chile Iniesta-Torres-Villa, nas oitavas no clássico contra Portugal o time alternou um pouco no 4/4/2, mantendo Iniesta-Torres-Villa e recuando o primeiro para o meio de vez em quando, contra o Paraguai novamente Iniesta-Torres-Villa e, por fim, no jogo contra a Alemanha Pedro entrou pela ponta-esquerda para tirar a responsabilidade de Villa acompanhar Lahm, deixando-o no comando de ataque - onde não rende tão bem -, enquanto Iniesta repetiu a função de ponta/exterior-direito do jogo contra Portugal. A experiência mostra que o ataque mutável e mutante da Espanha dependeu demais de Villa, o time cria, cria e cria, mas depende na maior parte das vezes da conclusão ou da assistência do atacante - a exceção à regra é o último jogo - e ele rende bem melhor como ponta-esquerda, vindo de trás e entrando em diagonal. Se Fernando Torres seria uma escolha lógica para centroavante, sua atual fase o desabilita a tanto. Iniesta, ainda que não tão cortante pela direita, traz mais inteligência para o ataque. Fala-se que Vicente del Bosque irá entrar com o mesmo ataque do jogo passado - Iniesta-Villa-Pedro -, mas não me parece muito certo. A equipe, via de regra, está apresentando mais estabilidade defensiva do que poderia se supôr, o meio apresenta um toque de bola refinado, mas o ataque está dependendo demais das atuações individuais de Villa - que, quando não anotou, criou problemas.


A Holanda, inventora do 4/2-3/1 joga nesse sistema como ninguém, só que com que uma proposta muito mais operária do que ofensivista - como ainda era há dois anos atrás. Nada de perder jogando bonito, o objetivo é levar a Taça - essa é proposta de jogo de Bert van Marwijk. Stekelenburg faz uma boa Copa, apesar das falhas do último jogo contra o Uruguai, mas não tem uma defesa tão segura quanto a de Casillas. Pelas laterais, Van der Wiel sempre foi sóbrio na marcação, sem mais ímpetos ofensivos - mas teve sérias dificuldades contra Robinho, no primeiro tempo contra o Brasil - e Boulahrouz é o mesmo, Van Bronckhorst pela esquerda compensa suas limitações com sobriedade e experiência e fez um golaço contra o Uruguai, no miolo de zaga, a velha prática - nem sempre bem-feita - de fazer linha é a marca de defensores baixos, sem muita impulsão e que já falharam bastante neste Mundial: os titulares foram Heitinga e Mathijsen, mas Ooijer jogou contra o Brasil. No meio, De Jong e Van Bommel são os dois cães de guarda e suas atuações tem sido eficientes, mas nada espetaculares. Sneijder é o diferencial do meio - e do time: Meia completo, sabe como ninguém armar o jogo, distribuir a bola, fazer lançamentos e ainda chegar de trás como um meia-atacante. No ataque, Robben voltou, atuando bem pela ponta-direita, mas fazendo lances surpreendentes e gols, junto com ele jogam Van Persie, que faz o mais uma função de pivô do que de centroavante e Kuyt, pela ponta-esquerda, que compensa a falta de técnica com muita entrega em campo.


Ainda que o desempenho holandês nesta Copa seja melhor do que o da Espanha, sinto mais firmeza do time ibérico. Quando ele realmente precisou jogar, ele jogou - e venceu. Isso não quer dizer que a Holanda não tenha jogadores que não possam desequilibrar, mas no conjunto, a Espanha vence. O problema, claro, mora no fato que até agora ninguém parou Sneijder e Robben e que os gols laranjas não dependem apenas dos pés deles - enquanto a Espanha prossegue com seus problemas ofensivos e a dependência do excepcional David Villa. A aposta d'O Descurvo é na Espanha - ainda que o futebol holandês mereça muito um título mundial, não sei se o time atual faça jus a tanto.


P.S.: Decisão de terceiro lugar sempre é complicado, a Alemanha é muito mais time, mas o Uruguai está mais animado. Pela prostração do time alemão ao fim do jogo contra a Espanha, eu fico mais com o Uruguai.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Notas da Copa: Espanha e a Final Inédita

(Puyol vibra - Marca)

A Espanha se classificou à final da Copa. Será uma final inédita que nos dará um campeão mundial inédito. Nenhuma novidade quantos aos dois classificados, afinal de contas, são duas das quatro equipes do grupo de seleções que mais se destacou nos últimos quatro anos - junto com a Alemanha e o Brasil, eliminados, certamente não à toa, pelos dois finalistas, muito embora o prognóstico apontasse para um ligeiro favoritismo dos dois derrotados. Não, eu não julgava a Espanha favorita para o jogo de hoje e o mesmo - em maior grau, é verdade - da Holanda em relação ao Brasil. Mas a graça do futebol é essa.

A Espanha, vitoriosa hoje, estreou com derrota para o potente ferrolho suíço, recuperou-se sem brilho contra Honduras, sofreu para derrotar o Chile e bateu Portugal e Paraguai mais apertado do que poderia se supor - o time mostrou brilho, leveza, elasticidade, mas sua defesa assustava e seu ataque mostra pouca qualidade de concretização. Hoje, as coisas foram diferentes, ainda que o placar mínimo frente à Alemanha iluda, a Fúria fez seu melhor jogo na Copa, encaixou a marcação em cima de um time que sabe atacar e soube articular jogadas contra um time que sabe se defender. Até o jogo de hoje, a Espanha parecia mais uma equipe que joga um belo futebol, mas depois, se afirmou como um time campeão.

No entanto, a Alemanha, sem Müller, suspenso, teve uma perda maior do que a ausência de seu ponta-direita: A mudança do seu esquema para o 4/4/2 lhe fez mal, tirando boa parte da força ofensiva com a qual ela marchou sobre a Inglaterra e a Argentina. Hoje, foi diferente. Mesmo a boa marcação sobre a Espanha no primeiro tempo esbarrava numa incrível ausência de jogadas pelas pontas, justamente onde morava sua força. Por outro lado, a estrela de Casillas brilhou novamente, a defesa espanhola jogou bem. Xavi e Xabi Alonso brilharam especialmente hoje. O mesmo se pode dizer de Iniesta. Villa esteve um pouco abaixo da média, Pedro estava nervoso. Mas Puyol foi heroico com sua planada no escanteio perfeitamente batido por Xavi. Foi o diferencial de um jogo profundamente equilibrado.

Na decisão, pegamos uma Espanha que vinha derrapando, mas quando precisou, mostrou firmeza.Muita firmeza. Do outro, uma Holanda que entre erros e acertos, venceu todos os jogos com suas falhas passando batido - e, sobretudo, suas jogadas de ataque acertando, cirurgicamente, o calcanhar de Aquiles do rival. A Espanha me parece mais inteira, mas futurologia e prognósticos não são comigo, mas com esse polvo-profeta que dizem que existe por aí - hoje, ele me venceu, não tenho esperança alguma em vencer caso ele diga o contrário.

sábado, 3 de julho de 2010

Notas da Copa: Alemanha e Espanha


(Schweinsteiger e Villa vibram)







A América do Sul colocou quatro equipes nas quartas de final, mas terá apenas um time seu na semi-final. Os três europeus passaram adiante. O único resultado que fugiu à normalidade foi a vitória holandesa diante de um Brasil que apagou no Segundo Tempo e tomou a virada. De resto, hoje assistimos à Argentina tomar uma goleada da Alemanha (4x0) e o Paraguai, valente, sendo eliminado pelo placar mínimo frente à Espanha. Os placares mais parecem ter sido invertidos. De qualquer modo, assistiremos agora à repetição da final da Euro 08 com o jogaço entre Alemanha e Espanha enquanto a Holanda, precocemente eliminada naquela ocasião, pegará o improvável Uruguai - uma boa equipe, mas que necessitará que o espírito do Maracanaço se abata sobre essa Copa.

Pela manhã, prevaleceu a bola cantada: A Alemanha, cuja jogada forte é pelas pontas, pegou uma Argentina, cujo calcanhar-de-aquiles eram as laterais. O conflito pelo domínio do meio, que eu esperava ser mais disputado, resultou numa vitória alemã, com demasiada facilidade. Foi assim que surgiu o lance do primeiro gol. Falta em cima de um ponta Podolski, falta cobrada pelo segundo volante Schweinsteiger e gol do outro ponta, Müller. Tentativa de reação do time argentino durante todo o primeiro, mas a boa zaga alemã salvava, enquanto o quarteto Di Maria, Messi, Higuaín e Tévez abusava da individualidade. Segundo tempo. Ou a Argentina fazia o gol de empate ou tomava o segundo. A Alemanha contra-ataca e faz 2x0. Ali o jogo acabou. O resto foi o desequilíbrio da Argentina resultando em mais dois gols germânicos com Klose se aproveitando para passar Ronaldo na artilharia das Copas. 4x0. Tristeza de Maradona.

Depois, Espanha contra Paraguai. Gerardo Martino, um grande técnico, armou bem a retranca paraguaia, fez seu time marcar sob pressão a Espanha mostrando a deficiência da defesa espanhola em saber sair jogando, chances iguais no primeiro tempo e um gol mal-anulado do seu time. A Espanha parece se restringir a Villa. O resto do time joga bem, mas se o seu camisa 7 não decidir, nada feito. O Paraguai teve a bola do jogo com Cardozo, mas a estrela de Casillas brilhou e ele defendeu o pênalti. Em seguida, pênalti para a Espanha defendido por Justo Villar. As equipes não quiseram administrar para levar para a prorrogação e partiram para fazer o que, na prática, seria um gol de ouro: Num gol chorado, ele, Villa fechou o placar. Passadas chances desesperadas do Paraguai, não convertidas pela falta de categoria dos seus atacantes, acaba o jogo.

Repeteco da final europeia. Para mim, os espanhois precisaram jogar tudo que não jogaram até agora. Os alemães denotam uma certa dificuldade contra times que sabem encaixar a marcação e ter volume de jogo, mas não contra equipes que se lançam ao ataque e, ao meu ver, eles têm tudo para conseguirem a desforra. Do lado de lá, a brava celeste, sem Lugano e Suárez, terá um confronto quase impossível contra a Holanda. Dois germânicos contra dois latinos, três europeus e um intruso sul-americano. As três melhores equipes da Europa contra o mais improvável sul-americano.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Notas da Copa: Julho e a Análise das Quartas de Final

Primeiro de Julho. Estamos por volta da metade do primeiro dia da metade final do ano. Mês passado, em ritmo alucinante, estivemos diletando sobre a Copa sem tirar o olho das movimentações eleitorais - ou eleitoreiras, sabe-se lá, mas que elas foram um tanto mais agitadas do que supunha, isso sim. As férias e um ligeiro - porém gratificante - sacrifício da minha vida social contribuíram para que eu achasse tempo. Agora a Copa desacelera e se adensa, o que já não era sem tempo, seja pela qualidade do torneio que aumenta ou porque a overdose de jogos já deu; ontem e hoje foram os dois primeiros dias sem jogos desde que o torneio quadrienal começou, amanhã, começam as quartas de final. Acertei sete dos oito palpites das oitavas. errei só a classificação de Gana sobre os EUA - enfim, Milovan Rajevac pegou a mim e aos gringos de supresa, modificou a forma de sua equipe jogar e despachou o escrete americano e o pé-frio do Clinton de volta para os states.


Agora, o jogo muda. Se antes estava relativamente fácil para acertar os jogos, agora, longe disso. Tirando Espanha x Paraguai, partida na qual a diferença entre as equipes é relativamente grande, acertar pelo menos um dos outros três confrontos é tarefa para quem entende de bola. Ainda que se deva comemorar as quatro vagas sul-americanas nas quartas, é bom abrir o olho, porque os europeus que continuam no torneio são justamente os três melhores times daquele continente. Vamos às análises:


Uruguai x Gana


Pois bem, os uruguaios são a grande supresa da Copa, seja pela eliminatória que fizeram, os resultados na Copa América e demais amistosos - a previsão mais otimista em relação ao time de Oscar Tabárez era de que chegasse, com algum esforço, às oitavas. Pois bem, chegou às quartas em plenas condições de avançar mais. Muslera, apesar das falhas contra a Coreia do Sul, faz uma boa Copa,  Máxí Pereira é um dos três melhores laterais-direitos, Lugano e Godín estão em grande fase, Fucile tem se esforçado, os Areválo e Pérez marcam muito no meio, os dois Álvaros (o Pereira e o Fernández) sabem articular o jogo e, no ataque, o time se segura bem: Como Forlán pela esquerda, Cavani pela direita e Luís Suárez no comando de ataque, a equipe segue marcando gols - normalmente, Forlán volta e complementa o meio de campo, mas Cavani também pode fazer isso. Em suma, trata-se de um time que alcançou se ápice no momento exato em precisa fazê-lo. Pelo seu lado, Gana é o único time africano que restou no torneio, faz sua segunda Copa e avançou em relação à primeira: Se em 2006 o time parou nas oitavas de final frente ao Brasil de Parreira, agora a seleção avança uma casa e disputa as quartas. Para mim, Milovan Rajevac é, até o presente momento, melhor técnico da Copa - em uma competição marcada pela mesmíce tática e pela incapacidade dos treinadores trocarem algo um pouco diferente de seis por meia dúzia, Rajevac foi um dos poucos a conseguir adaptar a forma de sua equipe jogar às necessidades, saindo do seu habituall 4/2-3/1 para enfiar um 3/4/3 em e assim dar um nó tático em Bob Bradley, o hábil treinador americano. A seleção africana tem um bom goleiro, Kingson, e deve voltar ao seu esquema habitual frente a um Uruguai que joga com três na frente: Pantsil que quando necessário vira zagueiro volta para a lateral-direita, os dois Mansah formam uma zaga forte, Sarpei marca bem pela esquerda, embora não apóie e, no meio, encontramos os destaques do time: Annan é fundamental para o time jogando na marcação, Boateng marca e chega de trás, Asamoah arma e sabe atacar pela ponta-direita. Na frente, Ayew, pela esquerda, é a revelação do time, Gyan é preciso no comando de ataque e Tagoe, eventualmente, quebra o galho pela ponta-direita. No duro, o ataque uruguaio leva vantagem sobre a defesa de Gana, mas a briga pelo controle do meio promete ser boa e nela, fisica e até tecnicamente, os africanos são um pouco superiores - enquanto na briga entre o ataque de Gana e a defesa uruguaia, a celeste leva ligeira vantagem. Há quem diga que ser capaz de controlar o meio é o diferencial para a vitória, mas veremos no que dá num jogo onde a equipe que perde no meio é superior nos dois extremos. Honestamente, é jogo para triplo, a ligeira superioridade técnica da celeste é compensada pela motivação do adversário - que deve contar com a torcida a seu favor. Para não ficar em cima do muro, aposto no Uruguai, na dureza, nem sei se no tempo regulamentar.


Brasil x Holanda


Falamos aqui do confronto de duas das melhores seleções dos últimos quatro anos. O Brasil venceu tudo. A Holanda, pos sua vez, teve o quadriênio que só não foi perfeito pelo desastre frente a uma imprevisível Rússia nas quartas da Euro 08 - o time liderado por Arshavin jogou tudo o que jamais jogou (nem voltou a jogar) contra a Laranja e a despachou de forma doída. Na Copa, o Brasil chegou com dois dos seus melhores longe da excelência fisíca - casos de Júlio César e Kaká -, enquanto outros jogadores tiveram problemas ao longo da competição - casos de Robinho, Felipe Melo e Júlio Bapstista, além de Elano, criminosamente vitimado por um jogador marfinense dois minutos depois de feito seu gol na vitória brasileira por 3x1. Apesar disso, Dunga consegue fazer um bom trabalho, com alguns eventuais deslizes, mas que, até agora, funcionou nos momentos decisivos: Seu time joga num 4/2-3/1 como a maior parte dos times já a algum tempo, Júlio tem pegado bem no gol, Maicon é o melhor lateral-direito da Copa, Lúcio e Juan formam uma dupla de zaga primorosa - que teve algumas desatenções na primeira fase, mas tecnicamente é mais capaz do que qualquer miolo de zaga nesta Copa -, Michel Bastos é o ponto fraco da equipe pela lateral-esquerda; no meio, Gilberto Silva compensa com inteligência as sus limitações físicas - e rendeu melhor quando no lugar do travado Felipe Melo atuou ao seu lado Ramires, o que infelizmente não pode se repetir pela suspensão do bom camisa 18 do Brasil - e Kaká, ainda que pareça não estar 100%, sempre que entra no jogo, faz toda diferença; na frente, Elano era um peça essencial ao esquema, atacando pela direita e voltando para compor o meio, sua saída foi suprida por Daniel Alves, que apesar da partida razoável contra o Chile não correspondeu contra Portugal - nem quando entrou antes -, Luís Fabiano não estourou, mas soube marcar gols nos momentos decisivos e Robinho finalmente desencantou na última rodada, mas tem feito partidas taticamente corretas. A Holanda de Bert Van Marwijk não tem o brilho de outrora, tentando jogar de forma mais eficiente do que bela para ganhar o título que sua bela tradição de jogo bonito nunca foi capaz de levar - ainda que muito do futebol opaco da equipe nesta Copa se deva menos a alga tática em especial do que ao desempenho dos seus jogadores; o o mal dessa equipe está numa disposição morna dos atletas que alternam entre o feijão-com-arroz e alguns lampejos. A equipe venceu os três jogos da fase inicial sem muito esforço - o primeiro contra uma Dinamarca pesada, o segundo com a ajuda da Jabulani contra o Japão e o terceiro contra um já eliminado Camarões - e sofreu mais do que o esperado frente a Eslováquia nas oitavas.  Stekelemburg é bom nome no gol, Van der Wiel é sóbrio, mas lhe falta um tanto de arte pela lateral-direita, a zaga é baixa e se não compromete também não acrescenta, Van Bronckhorst é aquele velho poço de vontade;  no meio, De Jong e Van Bommel marcam bastante e tocam rápido a bola, mas não tem grande qualidade, dedicando-se a carregar o piano para Sneijder jogar - o meia, ainda que não tenha estourado nesta Copa, é o maestro do time, com seus passes precisos, belos lançamentos e boas chegadas; na frente, Robben voltou ao time pela ponta-direita e é o outro destaque, Van Persie no comando de ataque e Kuyt pela direita são bons jogadores, mas longe de ser craques. Diante de seus enormes desfalques, Dunga deve manter Daniel pela direita até para liberar Maicon para o ataque, o que aumenta a responsabilidade de Kaká pelo meio e Robinho pela esquerda, o problema está mesmo com o fato de Robben atacar pelo setor que Michel Bastos defende e do time, depois de ter arrumado Ramires pelo meio, tê-lo perdido, restando poucas opções no elenco. Setor por setor, o defesa brasileira leva vantagem sobre o ataque holandês - apesar desse pequeno detalhe que pode acabar decidindo o jogo -, a meia-cancha de ambos se equivalem - pelas contingências - e o ataque brasileiro é melhor que a defesa laranja. Jogo duro, aposta numa vitória apertada do Brasil. 


Alemanha x Argentina


Único jogo que envolve dois campeões mundiais, trata-se da maior atração das quartas. O time alemão dirigido por Joachim Löw é um dos melhores do quadriênio, a equipe, depois de uma das suas maiores crises de renovação da história, usou o mundial passado, o qual sediou, como forma de projetar jovens jogadores e começar a seleção do zero. Deu certo. O time arrancou uma terceira colocação e depois fez um bom quadriênio - sendo vice da última Euro - e fazendo boas campanhas nas últimas duas eliminatórias. Nesta Copa, a Alemanha caiu num grupo bem disputado, surpreendeu a todos jogando o fino da bola contra a Austrália, depois, mais surpreendemente ainda, foi anulada pela Sérvia que lhe derrotou para depois, num jogo tenso, vencer por 1x0 Gana e se classificar - nas oitavas, eliminou a Inglaterra sendo superior em campo, embora tenha sido favorecida pela arbitragem. A Argentina, já há muito se ressente da falta de títulos, sendo que na última Copa foi eliminada, nos pênaltis, por essa mesma Alemanha, iniciando um ciclo doloroso, onde Alfie Basile fracassou no comando da equipe, cedendo lugar para que o astro maior do seu futebol assumisse o time: Maradona voltou e conseguiu contornar momentos difíceis, emplacando uma classificação dura em quarto lugar nas eliminatórias - para uma Copa onde foi premiado com um grupo relativamente simples, onde venceu os três jogos sem muita pressão dos adversários e, quando finalmente topou com um desafio, também acabou ajudada pela arbitragem que validou um gol ilegal de Tevez contra o México - o que além da vantagem no marcador, desestruturou o time adversário. Equipe por equipe, a Alemanha joga num 4/2-3/1 muito parecido com o Brasil: Neuer, seguro, é o goleiro, a defesa tem Lahm pela lateral-direita - disputando com Maicon o título de melhor jogador da posição -, Mertesacker e Friederich formando uma zaga bem concisa, Boateng (o alemão) marcando bem esquerda, ainda que não seja nenhuma virtuose; no meio, Khedira e Schweinsteiger são os volantes - combinando força física, bom toque de bola e inteligência tática - enquanto Özil é o maestro do time - forte candidato a melhor armador da Copa; pelas pontas, Müller, técnico e veloz, é presença forte pela direita e Podolski, com sua categoria e precisão, domina a esquerda e, no comando de ataque, Klose continua sendo matador, eficiente por baixo e muito bom por cima. Já a Argentina, atua também num 4/2-3/1, com algumas peculiaridades: Romero, não muito seguro é o goleiro, Otamendi quebra o galho pela lateral-direita e o mesmo faz Heinze pela esquerda, enquanto Demichelis e Burdisso formam a zaga depois da contusão de Samuel; no meio, Mascherano faz uma excepcional Copa como primeiro volante e Maxí Rodríguez disputa a outra vaga na marcação com o experiente Verón; mais adiante, Tévez joga mais fixo na ponta-esquerda, mas Messi e Di María  se alternam entre o meio e a direita, abastecendo Higuaín. O ataque ainda não jogou o (muito) que pode, mas a defesa dá sustos e faltam laterais. No confronto, o ataque alemão leva vantagem ampla sobre a zaga argentina, no meio, será travado uma das mais qualificadas disputas dessa Copa, o ataque argentino é capaz de infringir dor a qualquer defesa desse torneio e isso vale também para a boa defesa alemã. Em suma, o time germânico parece mais equilibrado, enquanto a Argentina é superior nas individualidades - e no carisma de Maradona -, falamos de duas seleções vencedoras que há muito amargam um jejum em Copas, jogo para quádruplo - um palpite para cada possibilidade, outro para o improvável -, mas já que estamos no inferno, então que ousemos dar uma tapa no diabo: Ainda que eu torça para a Argentina , a Alemanha é favorita por um fiozinho de cabelo, mas não duvide de prorrogação ou pênaltis aqui.


Espanha x Paraguai


A Espanha é o segundo melhor time do mundo dos últimos quatro anos. Venceu a Euro para a qual se classificou depois de boa eliminatória, fez uma boa eliminatória para a Copa, mas rodou na Copa das Confederações contra o time americano. Na atual Copa, tomou um susto logo de cara ao ser neutralizada pelo ferrolho suíço - e derrotada por um gol de contra-ataque -, mas recuperou-se ganhando de Honduras - outra gloriosa retranca, em relação a qual não conseguia golear apesar do amplo domínio - e depois venceu o Chile, em jogo duro, que garantiu sua classificação em primeiro no grupo para confrontar seu arqui-rival Portugal nas oitavas - jogo que venceu como nos demais: Amplo domínio, mas poucos gols, placar magro de 1x0. O Paraguai é, desde os anos 90, um futebol em franca ascensão, joga defensivamente, marca muito é organizado em campo e, mesmo não formando meias criativos, tem lá seus atacantes -  time do técnico argentino Gerardo Martino liderou o início das Eliminatórias Sul-Americanas, mas depois perdeu duas posições, para Brasil e Chile, ainda que tenha ficado apenas um ponto abaixo do líder. Time por time, a Espanha de Vicente del Bosque joga num 4/3/3, com Casillas no gol - grande goleiro, ainda que não esteja no auge -, uma defesa modesta porém esforçada formada por Sergio Ramos pela lateral-direita, Puyol e Piqué pela zaga, Capdevilla pela lateral-esquerda; no meio, Busquets é volante, Xabi Alonso é o segundo volante - homem das saídas rápidas - e Xavi é o armador; pela frente já jogara Navas, como um legítimo ponta-direita, e Iniesta, fazendo um misto de ponta e exterior-direito, David Villa é o craque do time pela ponta-esquerda - e, por ora, é ele quem tem efetivamente feito o ataque espanhol funcionar - e Fernando Torres no comando de ataque = contestado e em má fase, o que abre espaço para Llorente na frente. O Paraguai joga num 4/4/2 que se torna 4/3/3, mas que no jogo em questão deve se resumir às duas linhas de quatro mesmo - para tentar fazer com que o raio caia duas vezes no mesmo lugar, depois da vitória suíça -, com Justo Villar, muito bem, no gol, dois excepcionais laterais defensivos que apóiam mal - Bonet pela direita e Morel Rodríguez pela esquerda -, uma zaga tecnicamente qualificada e bem postada - formada por Alcaraz e Da Silva -, um meio com Cárceres fazendo o primeiro volante e Riveros mais adiante, Vera fazendo um extremo-direito - meia-armador aberto dos 4/4/2 europeus - recuado, Barreto ou Benítez fazendo o mesmo, só que mais avançados, pela esquerda e um ataque variante, com a figura de Lucas Barrios enfiado na zaga adversária e algum outro nome por fora da área, seja ele Cardozo, Roque Santa Cruz ou Haedo Váldez. No duro, será mais um jogo de ataque contra defesa, onde a Espanha se manda para o ataque e o adversário planta duas linhas de quatro para se defender e achar o contra-ataque salvador. Três das quatro equipes que enfrentaram a Espanha fizeram o mesmo, mas  só a Suíça levou a melhor. Por mais que um milagre paraguaio fosse um espetáculo, é difícil que ocorra.