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quinta-feira, 25 de novembro de 2010

A Violência para muito além do Rio de Janeiro

foto ap
Ao longo de toda a quinta-feira, a operação militar realizada em algumas favelas cariocas com a finalidade de "combater o tráfico de drogas", com direito a confrontos semelhantes aos de uma guerra civil e uma boa quantidade de mortos e feridos, foi destaque nos telejornais - alguns, como o Jornal Nacional, narravam com demasiado entusiasmo o uso de alguns blindados da Marinha -, movimentou o Twitter, virou assunto na blogosfera e na imprensa mundial. Apesar das singularidades da situação carioca, não falamos de nada que destoe muito de como se estrutura a violência no mundo contemporâneo e do resto do Brasil. 


O impasse, no que toca às drogas, é claro: Proibições, sejam elas legais ou não, não neutralizam desejos, mas sim os desloca como nos ensina o velho Deleuze. Se existe um desejo por parte da sociedade, especialmente jovens, de consumi-las e - e isso é o que importa aqui - se no fim das contas disso resulta uma alta quantidade de viciados, a questão não se vincula de uma questão objetiva - apenas a natureza de tais substâncias -, mas também de uma questão subjetiva, por que tantos jovens estariam viciados em drogas? Porque desejam usa-las e desejam muito - e são os desejos que produzem nossas necessidades e não o contrário, pois se assim fosse, não teríamos como desejar o nosso próprio mal.


Não adianta surgir com argumentos racionalistas que apontam esse desejo como algo absurdo, posto que usar drogas não seria fruto da real necessidade humana, o que faria com que caíssemos num vazio no qual quem consome compulsivamente drogas é iludido, ignorante ou imoral - em suma, eu sugiro que abramos mão de Kant uma vez mais, camaradas. Deseja-se muito consumir certas substâncias porque vivemos numa sociedade cuja dinâmica impele grupos imensos de nossa sociedade a tanto, do mesmo modo que grandes quantidades de pessoas estão viciadas em comida, álcool, tabaco, internet e outras drogas perfeitamente lícitas. 


Portanto, não é sequer o escapismo o cerne da questão, mas sim como o Capitalismo, em sua particular forma de nos disciplinar física, psicológica e socialmente, faz com que as pessoas construam válvulas de escape na qual externam, de forma violenta, seu desejo reprimido, o que por vezes equivale a um vício, a um comportamento compulsivo. Em alguns casos, chegamos à fuga da realidade, no qual o consumo de álcool, maconha, cocaína e outras substâncias mais, acabam se tornando objeto dessa compulsão. No caso das drogas ilícitas, isso move um mercado, ou melhor, um compartimento seu, que articula tais demandas. O Mercado depende da lei, mas pode funcionar a despeito dela. Surge o tráfico e ele abastece tais usuários, movimentando uma boa quantidade de recursos, envolvendo os aneis burocráticos e movimentando, vejam só, até o mercado de armas de forma residual à sua atividade principal.


Em um país como o Brasil, onde suas grandes cidades são a expressão perfeita e acabada, em termos urbanísticos mesmo, da enorme desigualdade social - que opera enquanto processo dinâmico - reinante, essa conjuntura chega a um estado alarmante. Num lugar como o Rio de Janeiro, cuja história e geografia colaboram para piorar a situação, a coisa pega fogo. As favelas ficam nos morros, o tráfico mantém o controle dessas regiões e o Mercado - sempre ele - articula uma nova situação, a demanda de segurança nessas comunidades é suprida pelo surgimento das milícias - na península itálica do início do século 19º foi o mesmo: Os soldados desgarrados do exército napoleônico roubavam, estupravam e matavam, até que homens de bem se organizaram e passaram a vender serviços de segurança privada, foram-se os soldados, e a futura Máfia passou a vender serviços de proteção...de si mesma. 


Por outro lado, a erosão não só do controle do Estado como do próprio espaço público, por forças privadas completamente imprevisíveis, criam uma situação preocupante nas favelas, em relação a qual não se pode raciocinar com maniqueísmos vários. O fato é que o tráfico só é confrontável por meio de ações de inteligência no que toca a lavagem de dinheiro, ainda que ele só seria derrotado realmente no dia em que as drogas fossem liberadas mesmo, por, digamos, perda total do objeto.


A questão em tela, portanto, não pode ser vista como confronto ao tráfico, isso não passa de um álibi: Estamos diante de uma batalha pela retomada de certo espaço territorial perdido pelo Estado, em relação ao qual ele não prescinde por conta das Olimpíadas - não é, portanto, sequer criminalização da pobreza no combate ao tráfico, posto que não é combate ao tráfico, é luta pela hegemonia territorial pura e simples. Isso não necessariamente é ruim, mas evidentemente não é a solução do problema - nem o maior deles que envolvem essa questão -, assim como não é menos perigosa a maneira como o militarismo pode ser usado no imaginário das pessoas. De todo modo, que fique claro: o abismo aqui é muito maior e já foi aberto bem antes e diz respeito ao esgotamento social e psicológico que o nosso sistema econômico produz. 

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Reflexões sobre as Olimpíadas no Rio de Janeiro

Como vocês já devem ter tomado conhecimento, o Rio de Janeiro sediará os Jogos Olímpicos de 2016. Evidentemente, essa conquista tem um peso muito grande e reflete o avanço da importância política brasileira no cenário internacional nos últimos anos - além de ter sido uma baita vitória do Governo Lula. No entanto, se as causas são essas, por outro lado, não consigo ver consequências tão positivas assim.

Em um primeiro momento, pelo que se transformou os Jogos Olímpicos do fim da Guerra Fria para cá; se eles foram retomados pelo Barão Pierre de Coubertin em um movimento assentado na importância do esporte como forma do engrandecimento humano - algo perfeitamente legítimo e interessante -, o avanço dos regimes totalitários os transformou em uma das arenas de disputa ideológica, o que perdurou durante a Guerra Fria com as Olímpiadas sendo um dos muitos campos onde os blocos socialista e capitalista se confrontavam.

Ainda assim, até aí o ideal de Coubertain não havia sido de um todo deformado, mas o fim da Guerra Fria se encarregou disso; mais e mais o esporte olímpico foi sendo descaracterizado pela escalada do capitalismo em uma versão não muito aprazível ao mesmo tempo em que assistimos o próprio fato dos Estados-nação passarem por um exaurimento ontológico. É nesse cenário, talvez um pouco pior, talvez um pouco melhor, que os Jogos Olímpicos serão realizados no Rio.

Em um segundo momento, temos a própria problemática brasileira; os jogos Pan-Americanos no Rio em 07 foram um fracasso; desde o gasto absurdo e misterioso até o resultado, más instalações, confusão etc não são o tipo da coisa que credenciam o Rio para realizar as Olimpíadas - no sentido técnico da coisa, já tendo em vista o próprio exaurimento do significado das Olimpíadas.

Para além da esfera esportiva brasileira, não há também como esquecer a questão urbanística; quais são os indicativos de que os Jogos Olímpicos não vão gerar políticas higienistas? Tenho bons amigos que militam em movimentos de moradia aqui em São Paulo e posso dizer, sem medo de errar, que a Copa do Mundo de 2014, por si só, já está tendo um impacto profundo no processo de gentrificação - desde a expulsão de pobres do centro até a ameaça à população favelada passando pelo fortalecimento da especulação imobiliária -, imagine só uma Olimpíada que, por definição, é um evento focado em uma única cidade - e a cidade em questão é, justamente, o Rio que pelo que me consta consegue ser um caos urbano pior até do que São Paulo.

Por essas e por outras, mantenho minhas barbas de molho.