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domingo, 21 de agosto de 2011

A Queda de Kadafi

As notícias que chegam agora pelas agências internacionais - e TV's de todo mundo - é de que a (longeva) tirania de Kadafi está prestes a cair na Líbia. Não há como não comemorar a queda de um despotismo como aquele, mas aqui, as coisas não são tão simples quanto no Egito ou na Tunísia.

O primeiro ponto é como a revolta tunisiana se espalhou por todo mundo árabe, sobretudo o gigantesco Egito, derrubando a ditadura Mubarak. Revoltas multitudinárias, espontâneas e surpreendentes, que botaram abaixo uma série de regimes autoritários, cuja existência e persistência no poder era inacreditavelmente duradoura.

Nem na Tunísia, nem no Egito, as potências ocidentais mostraram-se muito animadas com os ventos revolucionários - o que certamente não era à toa, uma vez que eram seus aliados a cair. 

Em um primeiro instante, houve uma tentativa de deslegitimar os movimentos. Depois,  houve aceitava com ressalvas. Mas não resta dúvida que aqueles movimentos representavam uma derrota para americanos e europeus.

Já no caso líbio, estranhamente, o Ocidente não apenas se mostrou favorável ao movimento anti-despotismo local como lhe deu armas e o ajudou militarmente - de forma direta, inclusive. Não só, o movimento que se opôs a Kadafi, longe de lotar praças, tinha um caráter claramente militar e elitizado.

Com o cerco da Otan e o numeroso - e bem armado, embora amador - exército rebelde, era questão de tempo para o excêntrico Kadafi cair mesmo. A questão não é, portanto, uma avaliação moral do regime que cai, que não deixa muitas dúvidas quanto ao seu caráter, mas sobre o que se esconde por detrás de sua queda. 

E as evidências que temos não são muito animadoras. Os rebeldes locais, com suas conexões duvidosas e a Otan nas fronteiras - possivelmente em seu território - não significam nada muito alentador para as massas revoltosas do mundo árabe. 

As multidões rejeitam ao mesmo tempo o imperialismo e a tirania (seja de que tipo for), entretanto, tais tiranias, pró ou anti-americanas, são tributárias das condições políticas produzidas pelo primeiro fenômeno.  Essa relação nem sempre está clara e é nesse flanco que  Estados Unidos e Europa operam nesse movimento.

Portanto, levando em consideração os desdobramentos possíveis, a ingovernabilidade da nova Líbia ou mesmo a construção de um cavalo de tróia, temos o primeiro lance efetivo das potências na reação à onda revolucionária. Torçamos para que a Líbia pós-Kadafi escape à sanha da Otan, mas isso é um problema objetivo e imediato agora.

domingo, 20 de março de 2011

Quando Estamos Sós: Líbia

Retirado do excepcional Fractal Ontology
O filósofo lituano-francês Emmanuel Lévinas construiu sua vasta obra a partir de um diálogo permanente com a Tradição do pensamento ocidental, embora o fizesse construindo uma nova perspectiva segundo a qual a Filosofia Primeira foi reposicionada na Ética: A Filosofia - nascida enquanto discurso de dominação e fundada no Ser, uma unidade totalizante que desvaloriza as diversidades - deveria estar fundada na Ética, pois só assim a abertura em direção ao Outro seria possível e a vida poderia ser garantida. Reflexão natural de um homem que, como ele, sofreu na pele as agruras dos totalitarismos do Século 20º, seja quando vai para a França poucos anos depois da Revolução Russa - e as nuvens negras que se anunciavam para os judeus ainda não tinham precipitado, mas já se anunciavam no horizonte com o Stalinismo em gestação - ou mesmo quando é enviado como prisioneiro para um campo de concentração nazista na Alemanha depois da ocupação francesa - onde se depara com a expressão máxima da degeneração da máquina social humana, um sistema que além de opressor já tem como sua diretriz básica a eliminação prévia de determinados grupos como forma de atingir uma purificação geral.

Eu discordo de uma série de pontos da filosofia de Levinas, seja no que toca à influência da fenomenologia em sua obra ou sua concepção de infinito notadamente cartesiana, mas suas reflexões sobre a condição do homem diante da desdita, quando ele se vê abandonado diante da morte, me encantam - e o mesmo eu poderia dizer em relação à proposta central de seu pensamento. Existe uma passagem sua que me faz refletir profundamente à luz do clarão dos bombardeios que a OTAN promove, neste exato momento, sobre a Líbia"Deus que vela sua face não é, pensamos, uma abstração de teólogo nem uma imagem de poeta. É a hora em que o indivíduo justo não encontra nenhum recurso exterior, em que nenhuma instituição o protegeem que a consolação da presença divina no sentimento religioso infantil se nega também, em que o indivíduo apenas pode triunfar em sua consciência, ou seja, necessariamente no sofrimento" - sim, agora mesmo, essa é a situação na qual se encontra a multidão líbia, só a imagem de um Deus ausente lhes consola em meio ao fogo cruzado entre uma ditadura clinicamente paranoica e entre uma coalizão bélica com um senso de oportunidade único. A loucura do coronel Kadafi usada como trampolim da guerra justa que, em último caso, servirá para estacionar tropas no Magreb e frear manu militari o processo revolucionário que eclodiu na região. 

Dessa vez, não é o Stalinismo nem o Nazismo, apenas mais daquilo que assistimos reiteradas vezes desde 2001: O Estado contemporâneo, máquina de hemodiálise suprema e triunfante do Capitalismo atual - em relação ao qual a própria Vida está posta em função - e cuja face é um certo universal profundo; o sorriso largo de Obama esconde a formidável miragem na qual se constitui o Universal, posto como realidade apriorística, quando, concretamente, não passa do fruto de uma síntese passiva na qual certa força tornou um modo universalizável em um modo universalizado. O Universal que Obama ostenta enquanto hegemon é uma forma vazia na medida em que sua existência no discurso só serve para apontar o que ela mesma esconde, ou seja, sua própria causa determinante - isto é, a própria força causante. Para além desse raciocínio spinozano, basta voltarmos a Levinas e estamos diante de outro exemplo de Ser Totalizante. Nesse vazio cabe tudo exceto a diferença. Desde a reabilitação de Kadafi há poucos anos até sua nova transformação em tirano global - que ele nunca deixou de ser, ressalte-se.  Como se fará a Paz Universal das potências globais? Esse é o problema.

Em um situação onde os rebeldes se viam massacrados pela longeva ditadura Kadafi, quem se apresentou em sua defesa foram, ironicamente, aqueles que nos últimos anos financiaram e apoiaram aquela tirania - e fizeram o mesmo com todas as ditaduras vizinhas -, portanto, o alvo não poderia ser aquele regime, mas a própria mobilização contra sua existência moribunda. Não há salvação nem saídas fáceis. É provável que Kadafi - um peão nesse jogo todo - matasse todos rebeldes de forma cruel, portanto, não é possível torcer por nenhuma saída que não seja a sua derrubada - e dessa forma, eu não me ponho contra a resolução formal da ONU, cujo conteúdo material, claro, nada mais é do que a vontade e o poder da OTAN -, mas também não é possível ser favorável a ela de modo algum - nem ao que está acontecendo e, mais importante, ao que ainda vai acontecer. A luta agora é impedir mais mortes e garantir que a democracia não seja freada na Tunísia e no Egito ao menos. Quem o fará? Resta a questão. Em um mundo onde a anestesiado e em transe como o nosso, é difícil saber.