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quarta-feira, 22 de julho de 2015

O Syriza Traiu ou Não? Ou Capitu na Ática

Charles Nègre -- o Vampiro (1853)
As últimas semanas foram intensas na Grécia: o Syriza, partido governista, lançou um plebiscito contra os desmandos europeus -- e não só o realizou como o venceu, por larga vantagem, contra tudo e contra todos; contudo, logo após a vitória, o ministro das finanças do país renunciou estranhamente e, em seguida, o governo sinalizou favorável a um acordo horrível com o Eurobloco, o qual contradizia frontalmente o resultado da consulta pública. Um movimento de 180º graus foi feito, resultando em um acordo vergonhoso com a Europa e a votação no Parlamento de mais medidas de austeridade -- com a rebeldia de mais de sessenta parlamentares do próprio Syriza, inclusive do ex-ministro das finanças, Yanis Varoufakis; enquanto isso manifestações tomavam as ruas de Atenas com dura repressão policial. Tudo rápido demais. 

A pergunta que surge, nos meios intelectuais engajados do Brasil, é: o Syriza traiu ou não traiu a esquerda global? Traiu ou não traiu os nossos sonhos, expectativas e fetiches? Uns garantem que não, que é impossível ter havido esta traição. Outros a pranteiam e a dão como certa. A situação mais parece o velho clichê sobre Dom Casmurro, obra imortal do nosso Machado de Assis -- bastaria trocar Syriza por Capitu e lá estaríamos nós.

O debate é colocado nos termos do olhar do paranoico: e por paranoico não tomemos necessariamente aquele que desconfia insistentemente, mas sim aquele que em vez de tentar entender a realidade, a julga, estabelecendo postulados dogmáticos de confiança ou desconfiança. A vida do paranoico é sempre crise, é sempre julgamento, sobre si, sobre o outro e sobre o mundo -- que é sempre mundo-aquém-do-mundo.


Não à toa, a crítica literária contemporânea sobre Dom Casmurro -- de Cândido a Schwarz, passando pelos mais recentes ditos e escritos -- contemplam o que Machado, antecipando na arte a Psicanálise, queria dizer: naquela obra, o que interessa não é a verdade sobre o mundo exterior, que supostamente deveria ser decifrada da narrativa onisciente falha, mas como aquele formidável delírio paranoico conta mais sobre o narrador do que sobre o mundo, ou melhor, como aquilo expressa o seu (mal?) estar-no-mundo. 


O sentimento de traição fala mais sobre uma esquerda global -- e brasileira! -- em crise do que sobre o fato da (suposta) fidelidade/traição. Na medida em que o mundo se torna objeto de permanente crise, o próprio sujeito se põe, dialeticamente, em julgamento, pois o "mundo" nada mais é aquilo que se vive como experiência. 

A esquerda, presa entre a realidade ideal e o ideal de realidade, se escraviza em suas próprias angústias -- naquilo que se expressa nos extremos entre o sectarismo niilista e o pragmatismo vão.


Há um algo muito particular no experimento grego, algo tão particular que se tornar comum: O Syriza, um instrumento político que chega ao poder depois de manifestações de multidão, que enfrenta a direita, os bancos, a esquerda falida é...tudo o que sonhamos, tudo o que precisamos no Brasil de hoje -- e em qualquer lugar! 

De repente, no entanto, Tsipras termina o processo utópico, dá um (aparente) giro na sua estratégia e, aí, temos de julgar qual é a nossa posição; e ela é expressada como nossa crítica em relação ao Syriza, mas é sobre nós e a fidelidade que deveremos ter (e agora precisará ser redobrada) ou não sobre aquele movimento.


O fato é que, não, o Syriza -- ou, melhor, o governo do Syriza -- não traiu ou foi infiel em relação aos seus apoiadores, ao contrário, ele foi fiel até o fim a uma ideia. Pois a fidelidade absoluta, autêntica e pura só pode ser a uma ideia. E as ideias não choram suas vítimas. 


Do mesmo modo, a fidelidade absoluta é sempre em relação ao Um, isto é: importa na traição a todo resto (e a muitas outras coisas). Eis o momento em que fidelidade e traição se confundem e, então, perdem o significado. O governo das ideias, como platonicamente a esquerda sonha, pode não se revelar da melhor maneira -- aliás, ele se realiza muito frequentemente, com resultados muito distantes do que se sonhava.


Podemos discutir idealisticamente se vale ou não a pena ainda defendermos o governo do Syriza, mas materialmente as coisas são inquestionáveis: quem pode dizer que os funcionários públicos gregos, os trabalhadores ou aposentados, que estão prestes a ser mais dilacerados ainda, estão errados em se mobilizar contra o acordo de Tsipras? Ou que os deputados rebeldes estão errados em se opor a tudo isso?  

Por favor, o Syriza é um instrumento político. Ou funciona ou não funciona sob o prisma das lutas materiais -- não de uma grande estratégia, plano ou ideia.

Mas o Syriza precisou aceitar todas as condições que seu próprio povo rejeitou em plebiscito, afinal, entre a dignidade e a Europa, é preciso prevalecer a Europa, pois é a unificação europeia o nome pós-moderno do velho internacionalismo -- e só com a concretização desses ideais poderemos chegar a uma sociedade absoluta e definitivamente digna.


A máquina estatal alemã fez uma aposta infinita e venceu.  Enquanto isso, se ouve a risada das hienas europeias. A Europa se unifica na forma não de um internacionalismo, mas de um estatismo bem Europeu -- como na unificação de todos os modernos Estados modernos, quando uma potência regional subsumiu as unidades políticas menores, como fez a própria Prússia em relação aos pequenos Estados germânicos para, em torno de si, fundar o Império Germânico.

A Europa unificada nascerá não-democrática -- em oposição à realidade conquistada (nem que seja parcial e relativamente) nos planos dos atuais Estados europeus. A Europa, esta Europa, nada tem a ver com democracia como observou com imensa lucidez Giorgio Agamben.


O realismo cínico da direita -- e de burocratas apáticos e apolíticos de bancos e da Europa -- faz com que seu projeto avance, sobretudo quando as forças de oposição colaboram consigo sem querer, movidos a ideias.


Um cadáver insepulto ronda a Europa, é o cadáver de Hegel. Eis a atualização correta para a célebre fala de Marx e Engels neste 2015 -- ano 8 ou 9 da Crise --, quando a bandeira europeia trêmula sobre as ruínas da economia grega.  No Brasil, a síndrome de Bentinho nos toma de assalto e nos imobiliza: se não basta apenas entender o mundo, mas muda-lo, antes é preciso deixar de julga-lo, abandonando a mania de fazer da multidão uma pilha de absolvidos e condenados.

segunda-feira, 6 de julho de 2015

Grécia: A Vitória do Não, a Renúncia de Varoufakis e a Falácia Europeia


Manifestantes comemoram a vitória na Praça Syntagma (Via Principa Marsupia)
Durante todo dia de ontem, o mundo manteve os olhos fixos no plebiscito grego. Os gregos diriam Oxi (Não) ou Nai (Sim) para a "proposta" da Europa -- na verdade, uma ordem transformada em proposta quando os líderes gregos, em um momento de inspiração, resolveram, fazer desta objeto de uma consulta popular. E o Não ganhou por larga margem, mais de 61%, em um pleito cuja participação foi semelhante à das eleições parlamentares do início do ano.

Pois bem, mal foram abertas as urnas e a suposta vitória do Sim, apontada pelos principais institutos de pesquisa gregos ao longo da semana, se desmanchou no ar; antes, os mesmos institutos já falavam, em "vitória apertada" do Não nas suas pesquisas de boca de urna, algo entre 54% e 52%, coisa que não se confirmou. Depois de uma semana de blitz midiática, terror bancário e pesquisas no mínimo falhas, os gregos deram um retumbante não contra a opressão Europeia. 
A vitória, apurada às 2:51 desta segunda-feira em Atenas (21:51 de domingo no horário de Brasília), está muito além dos 36% de votos que o Syriza obteve nas eleições de Janeiro ou dos pouco mais de 40% que sua coalizão recebeu. Mesmo somados os votos obtidos em Janeiro por todos os partidos que apoiaram o Não, eles não chegam a 50%, o que determina que houve um acréscimo substancial de apoio popular à causa antiausteridade -- tanto que Antonis Samaras, ex-premiê e líder da oposição, renunciou ao seu posto.

Ocorre que pela manhã de hoje em Atenas, madrugada no Brasil, surge uma novidade quando os partidário do Não mal haviam se retirado das comemorações na Praça Syntagma, um fato surpreendente aconteceu: Yanis Varoufakis, o superministro da economia do Syriza, renunciou. 

Varoufakis, literalmente um grego entre romanos, perturbava os euroburocratas, seja por sua formação mais próxima da heresia anglo-americana de esquerda (e seus think tanks) ou por sua figura protagonista na mídia. Há pouco mais de uma semana, ele foi expulso pelos seus pares da reunião dos ministros da economia do bloco, quando as normas costumeiras determinam que deve haver unanimidade sobre certas decisões e presença de todos os pares, gerando assim parte do imbróglio que motivou a convocação de consulta popular.

Trata-se, pois, de uma renúncia bastante estranha e inesperada, uma vez que segundo o agora ex-ministro -- que chegou a dar coletiva de imprensa depois da vitória do Não -- sua decisão se deu porque o premiê grego, Alex Tsipras, aceitou que ele não estaria presente na reabertura das negociações, uma vez que havia indisposição com seu nome.

Na prática, o "gesto de boa vontade" para com a Europa de Tsipras parece ilógico: depois de ter vencido o plebiscito, ele aceitou um dos vetos europeus que causaram a própria convocação da consulta.

Será que o gesto de Tsipras dará certo? Ou melhor, a forma como o Syriza significa a importância dessa atual União Europeia faz sentido? Será que a negociação que Tsipras imagina irá mesmo ocorrer? Será que diante da vitória de ontem, não sustentar seu corpo ministerial, sobretudo seu principal ministro, faz algum sentido?

O ponto é que o Syriza supõe que venceu o plebiscito de ontem -- com uma votação muito acima da que o levou ao poder em Janeiro -- com uma promessa de reforma da Europa, promessa da qual não pode se desvencilhar, o que é mais uma autoilusão do que uma ilusão que o eleitorado nutre a respeito dele: as pessoas querem emprego, dinheiro para se alimentar etc. 

Se existe alguma preferência pelo Euro e pela ideia de europeísmo, isto se dá pragmaticamente pela forma como isso poderia melhorar a vida dos gregos. Se hoje a Grécia abrisse mão do Euro e as coisas melhorassem, obviamente, ninguém iria se opor a isso.

Entre a Europa ideal e o que é a Europa hoje há, pois, um profundo abismo. E a crise econômica, que levou os governos a gastarem o que não tinham para resgatar os bancos sem garantias, apenas revelou, e não transformou, o rosto verdadeiro do comando europeu: tecnocrático, desumano e implacável.

Se com o tempo, os Estados nação europeus foram democratizados à força -- e muitas instituições multitudinárias e se cristalizaram no funcionamento da máquina --, quando o "sonho europeu" foi edificado, com sua bela bandeira e seu lindo hino, tomando aos poucos atribuições nacionais, as novas instituições europeias já nasceram imunizadas das reivindicação plebeia.

Se para um Rancière, os nossos sistemas são um misto de democracia com oligarquia, a estrutura de Estado europeia, ao contrário do que as lutas determinaram nos planos nacionais, já nascia com sobrepeso para as castas burocráticas, financeiras e afins. 

O processo desencadeado na Europa ruma, pois, não para um pós-Estado, mas para uma forma de Estado plurinacional, coisa que a Espanha, Bélgica ou Reino Unido já são, mas certamente dando mais voz às suas sociedades civis e às suas minorias nacionais. 

Não há novidade alguma nesse "projeto europeu" -- e menos ainda quando os tecnocratas continentais se aliam com banqueiros para se retroalimentarem, fazendo com que o futuro Estado europeu se pareça mais com uma União Soviética, só que sem qualquer conteúdo revolucionário.

O gesto de Varoufakis sobre Tsipras é mais simples, embora potente: fora do governo, depois de sair de cena em uma condição vitoriosa, ele joga luz e peso sobre a decisão pragmática de seu premiê. Varoufakis sai fortalecido e Tsipras resta sob pressão do que ele está disposto a fazer nessas negociações -- e já não é a primeira vez que Tsipras se mostra pronto a vacilar. Existe aí  uma disputa sobre métodos e formas para se chegar ao mesmo objetivo. 

Varoufakis, como um cavalheiro, abre espaço em prol do coletivo, mas também obriga que essa mesma coletividade assuma seus compromissos. Um gesto de (auto)entrega sacrificial semelhante ao da proposição do plebiscito. E de fato, até agora, o Syriza ganha de 7x1 no desmonte dos mitos construídos pelos oligarcas europeus.

De todo modo, entre a posição de um e outro, existe a armadilha entre a Europa que é, a que deveria ser e a que é possível. Todos os gestos éticos do governo grego são golpes duros contra uma estrutura de poder que, contudo, ciente da derrota nesse âmbito, aposta na estratégia do medo quase que exclusivamente para atender propósitos transcendentais -- ou menos até do que isso, interesses pequenos que vão desde um cargo até o pequeno poder.

Como já alertou o Nobel de Economia Joseph Stiglitz, há vida se houver ruptura com o Euro, fato que é muito mais um tabu para o próprio Syriza do que para a população grega ou para a ciência econômica. 

Se o Syriza se mantiver forte, usar com sabedoria a vitória de ontem e souber que a Europa unificada é um meio, e não o fim, das lutas democráticas, ele poderá vencer ou, no seu sacrifício, reverter um quadro que parecia certo -- mas para isso precisará adotar planos de contingência certamente muito mais duros do que os atuais. Os próximos dias serão decisivos.


sábado, 4 de julho de 2015

Grécia: Quando o Não Afirma


foto estilizada do ministro grego Varoufakis em página em sua homenagem
No domingo, será realizado um plebiscito na Grécia, após convocação do próprio governo e votação do parlamento, no qual será avaliada a proposta da Troika (FMI, União Europeia e Banco Central Europeu) de aprofundamento da política de austeridade, com mais cortes sociais. Trata-se, pois, do capítulo decisivo de uma novela que se estende há anos -- e que temos acompanhado aqui desde seus primórdios.

O governo do Syriza, encabeçado por Alex Tsipras e seu superministro da economia, Yanis Varoufakis (qual ministro da economia do mundo é capaz de andar no meio deste jeito?), se elegeu com uma agenda moderada e serena questionando um "plano de resgate" que, na verdade, não só não teve nenhum resultado econômico algum como, ainda, agravou a situação com graves consequências para a sociedade e a política da Grécia.

Ainda assim, o poder europeu, depois de conceder alguns meses para a Grécia, não recuou em nada e, não só, ainda voltou com a carga toda. Com a expulsão de Varoufakis da reunião entre os ministros da economia do bloco, a situação chegou ao limite. Os líderes gregos, pois, não aceitaram a imposição e propuseram uma surpreendente consulta popular, à qual as autoridades europeias se opuseram de pronto, dizendo-se "traídas" (como um Juncker).

Eis que consulta popular foi convocada pelo próprio governo, nos termos do art. 44 da Constituição da Grécia, apesar de protestos da oposição que não consideraram a atual situação como "matéria social relevante" ou "questão crucial para a nação", mas sim uma mera questão fiscal -- matéria cuja proposição de consultas populares é vedada por aquela Lei Maior. 

A declaração dos partidos pró Europa -- que hoje equivale simplesmente a se dizer pró Troika -- revelou não apenas o tamanho, mas o exato tipo da perversidade que os domina -- e, por extensão, seus pares em cargos no Eurobloco --; é preciso normalizar a situação, o que se parece uma grave crise deve parecer uma questão fiscal -- ao mesmo tempo que vendem o caos como resultado do plebiscito.

No fim, o Syriza fez valer sua maioria parlamentar, aprovou a consulta no parlamento -- contra os partidos europeístas e, ainda, sem a ajuda dos comunistas -- e, depois, a tentativa de barrar na justiça a sua realização foi rejeitada.
 
Erradamente chamado de "referendo" pela mídia brasileira, o termo técnico correto para a votação que ocorrerá é plebiscito, uma vez que o povo grego tomará a decisão -- e não ratificará ou vetará uma decisão ou lei já tomada ou feita, o que seria um referendo. 

Em grego, sublinhe-se, o termo é δημοψήφισμα (demopsifisma, literalmente, "resolução popular"), o que serve tanto para plebiscito quanto para referendo, muito embora não haja hipóteses de referendo na Lei Maior da Grécia (no sentido da Constituição brasileira).

Se a oposição pró Europa tentou normalizar a ebulição, e dilui-la em boas doses de medo, por outro lado, o Syriza conseguiu transformar uma imposição europeia em uma escolha para os gregos. Mesmo que responder sim -- no caso concordar com o "plano europeu" -- venha a ser a decisão autônoma de cometer suicídio.

Multidão se aglomera na frente do parlamento grego para apoiar o Syriza
Nada disso, é óbvio, interessa aos líderes europeus, que esperavam cooptar ou obrigar o Syriza a aplicar seu maravilhoso plano. Na falta disso, parecem dispostos a simplesmente pôr o governo grego de joelhos e, assim, forçar uma mudança de governo. 

Não à toa, uma vez convocado o plebiscito, a Europa produziu uma blitz sobre os bancos gregos, o que forçou o governo a decretar uma semana inteira de feriados bancários, na qual os gregos só poderiam sacar, de forma igualitária, 60 euros por dia.

Assombrar os gregos com um colapso bancário, às vésperas da votação, obviamente é quase um ato de guerra. E, assim, se joga um peso enorme sobre a decisão grega. Em resumo, o gesto acrobático de Tsipras foi duramente retaliado. A Troika não é feita de amadores.

Agora, o Syriza terá de tocar uma campanha à base do corpo a copo, do sacrifício e da entrega. A seu favor, ele tem a desmoralização dos líderes pró-Europa e de seus partidos na Grécia, contra, o medo que toma a população grega.

Votar Oxí (não) é assumir, a partir da negação, um começo de afirmação de si mesmo.O "não" como sombra ontológica da afirmação das diferenças pode ser, ao menos, um começo, um começo que sempre vem com dificuldade: nestes momentos, ele se torna um potencial sim à outra coisa.

Para os gregos, a exclamação político Não, inclusive, tem um significado histórico salutar, tendo a data comemorativa. 28 de Outubro é Dia do Não na Grécia em referência a um célebre episódio da Segunda Guerra Mundial, quando o ditador grego Ioánnis Metaxás se negou a abrir suas fronteiras para as tropas fascistas de Mussolini. A resposta ao pedido indecente foi um lacônico não.

O resto da história se sabe: Os italianos tentaram invadir a Grécia, foram surpreendentemente rechaçados, e só depois, com envolvimento direto das tropas alemãs, as forças do Eixo conseguiram se estabelecer na península grega -- não sem enfrentar a resistência de destemidos partisans.

Aquele episódio serviu para ilustrar uma certa constância na história do atual Estado grego, um país com quase a mesma idade do Brasil desde sua independência do Império Otomano: Se o povo e românticos como Byron lutaram pela independência grega face aos turcos, depois só se repetiu, por parte da Europa e seus aliados nas elites gregas, o misto de covardia e intervenção. 

Monarcas estranhos aos gregos foram nomeados, golpes foram dados, guerras civis deflagradas e, hoje, estamos diante de um sufocamento de novo tipo.  A civilizada Europa se repete: entre a covardia e um instinto muito suspeito de destruição contra o que é, aliás, seu berço cultural -- o que se esconderia sob a vontade de arrasar justo a Grécia? O vazio histórico dos líderes europeístas se revela com tal gesto nada sutil.

O fato é que há uma união dos interesses do setor financeiro, e sua fome insaciável, a pior geração de líderes políticos europeus desde os anos 1930 e a afirmação, cada vez mais acentuada, de que a União Europeia é só um arranjo tecnocrático; tal união está minando mais do que economias, mas sim a própria possibilidade de democracia no continente.

Ainda que a superação do Estado nação seja devida e esperada, e o ideal de Europa belíssimo, o fato é que, na prática, a estrutura europeia real não é democrática como, ainda, é refratária a esta ideia fantástica. O que há de democrático está nos Estados de cada país europeu, em virtude do que a larga tradição de lutas impôs a cada Estado europeu, sobretudo no seu oeste. 

A União Europeia já nasce, entretanto, livre de tudo isso. Caso a Europa se tornasse hoje uma federação em torno da estrutura de poder de Bruxelas, o resultado seria um regime muito mais fechado do que o americano e, por certo, socialmente mais inclemente do que o chinês ou o russo. 

De todo modo, não é só sobre a Grécia ou a Europa que este processo trata, mas sobre o mundo. A capitulação grega -- que se vier, virá sublime na forma de um sereníssimo suicídio -- diz respeito ao mundo todo, a uma intrincada rede global erigida, inclusive, sobre muitos paradigmas, termos e invenções gregas.  

Não à toa, a Europa se organiza a favor do não grego bem como intelectuais do porte dos Prêmio de Nobel de economia Paul Krugman e Joseph Stiglitz e, pasmem, até um Habermas, o eterno cândido do europeísmo também classificou a política europeia para a Grécia como escandalosa.
 
Se faltou realismo para o Syriza para, desde o início de seu governo adotar uma estratégia mais dura, que concebesse a possibilidade de saída do Euro, ou se sobrou ingenuidade e voluntarismo em propor esse plebiscito não sabemos, mas hoje o futuro de todos nós está lá.

A crise, termo jurídico para julgamento em grego clássico, foi incorporado como metáfora na medicina: a hora em que o médico pode, ou deve, saber se o paciente vai morrer -- e como intervir. E essas metáforas, dando voltas, se fazem verdadeiras agora.

Quis o destino que o caminhar das coisas não só se agravasse como, ainda, caminhasse para uma trilha de variadas formas de sacrifício cristão (em sua potência forte e sua potência fraca): o da entrega da carne à multidão, como fez o Syriza, ou da mortificação pura e simples como propõem seus adversários. Mas como já dizia um poeta russo:

Enquanto isso, o destino seguia nossa trilha
Como um louco com uma navalha na mão.







quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

O Cerco à Grécia

A Manobra de Missolonghi -- Vryzakis
O recém-eleito governo grego liderado pelo Syriza surpreende, pior, ele chega a nos chocar. Essa estranha comoção é resultante do que deveria ser praxe, mas não é: o governo do jovem premiê Alex Tsipras, segure-se firme na poltrona meu bom leitor, resolveu cumprir suas promessas eleitorais. E tais promessas não são nada banais. A Grécia está simplesmente soterrada pelas condições de pagamento de sua dívida, o que exige uma firme resistência, coisa que o governo atual está disposto a levar adiante.

A chamada Troika -- a reunião do Banco Central Europeu, da Comissão Europeia e do Fundo Montário Internacional -- insiste em impor condições austeras, quase sobre-humanas para que a dívida seja paga. É preciso cortar a verba dos serviços públicos, demitir funcionários do Estado, arrecadar mais, privatizar o patrimônio público. 

Não importa, para a Troika, se o povo fique sem emprego ou sem luz elétrica em casa. Tudo isso com o poderoso Estado alemão à frente. É a dívida infinita de Nietzsche bem diante dos nossos olhos.

É de uma crueldade -- e de uma burrice! -- semelhante ao que se viu no Tratado de Versalhes, como bem observou o nobel de economia Paul Krugman em sua coluna no The New York Times: na ocasião, não eram os gregos, mas, ironicamente, os alemães os obrigados a pagar uma dívida sem fim, uma vez que foram derrotados na Primeira Guerra e, por isso, foram responsabilizados por todo o custo do conflito pelos "vencedores".

Se a comunidade internacional errou ao impôr um ônus, na verdade, punitivo e irracional à Alemanha após a Primeira Guerra, por outro lado, os governos locais, muitos dos quais de esquerda, erraram ao abaixar a cabeça e sacrificar seus compatriotas pagando o que impagável.

Adentrando um pouco mais a oportuna lembrança de Krugman, é preciso frisar que quando os gabinetes social-democratas germânicos usaram de medidas de exceção para silenciar revoltas populares ou trabalhistas nos anos 20, eles se desmoralizaram diante da opinião pública de tal modo que abriram a janela para o nazismo. 

Para os desesperados, desempregados e esfomeados alemães não parecia mais haver diferença entre seus antigos "defensores"  e a direita ou qualquer solução bisonha. Não é que votar naquele contexto era questão de sobrevivência, mas que os próprios símbolos e compromissos haviam sido rompidos. Tudo parecia "mais do mesmo" e os nazistas surgiram como a diferença nisso tudo para, daí, executar seu projeto assassino.

As condições estabelecidas pela Troika são tão, ou menos, viáveis que as de Versalhes. Se cumpridas, mais fácil a Grécia sumir do mapa do que pagar a dívida. Hoje, depois de anos de política de austeridade, a economia grega mirrou, as pessoas empobreceram e, justamente por isso, a dívida só aumentou.

Que não se fale em irresponsabilidade dos gregos. A crise foi precipitada pela crise econômica mundial, mas cedo ou tarde aconteceria pelos problemas sistêmicos do Euro. Moeda comum à maior dos países europeus, o Euro significa uma unidade monetária transnacional, mas do ponto de vista fiscal, cada país ainda funciona separadamente.

Vista globalmente, a Zona do Euro tem superávits. Mas pelo desnível das economias compartilhando a mesma moeda, o que favorece as mais fortes e competitivas, que passam a exportar bastante para dentro do bloco. 

Enquanto uns tem déficits comerciais, outros não, o que faz com que uns tenham déficits fiscais e outros não -- e as dívidas públicas de uns, como a Alemanha, são pagáveis enquanto as da Grécia, não em condições reais.

Ter uma unidade fiscal seria um elemento central de estabilidade do Euro, pois tornaria as dívidas públicas coletivamente geradas em dívidas europeias, não mais gregas ou portuguesas. As dívidas geradas pela existência do Euro seriam, pois, europeias. Nada mais justo.

É exatamente isto que o Syriza, na voz firme e grave de seu ministro das finanças, Yanis Varoufakis, está propondo, em consonância com propostas razoáveis de figuras do mercado financeiro como George Soros. 

Os gregos, portanto, não querem um calote nem o fim do Euro ou da União Europeia, mas uma negociação internacional para que ambos, a moeda e a união continental, possam ser viáveis.

A postura de Berlim, e do neurastênico gabinete de Angela Merkel, é de insistir numa via que levará a Grécia a optar por sair da Zona do Euro por opção ou por uma hecatombe social. O efeito dominó, aliás, implode a moeda única e prejudica a Alemanha, enormemente favorecida com o comércio livre da Europa. 

O punitivismo alemão se assemelha, ironicamente, ao dos países vencedores da Primeira Guerra Mundial, os quais acabaram pagando em dobro por terem semeado as condições para uma Segunda Guerra estourar. 

Agora, enquanto pressionam de todas as formas Atenas, Berlim ameaça cortar o financiamento aos bancos gregos. Se asfixiarem mesmo o sistema financeiro grego, a quem interessa isto? Na Europa, a ninguém.

Como sublinhou Varoufakis, também ao NYT, não há escolha para o Syriza e nenhuma pressão os fará recuar. É uma questão ética como ele bem demonstrou, muito embora seja pragmática também: se o gabinete de Tsipras fizer tal loucura, os membros do governo grego ficarão desmoralizados de tal modo a permitir a ascensão em seu país de, por exemplo, partidos nazistas locais como o Aurora Dourada. Qualquer semelhança com os anos 20 não é mera coincidência.

Mas o Syriza, para o bem da Grécia e da humanidade, não parece ser a social-democracia alemã dos anos 1920, embora os social-democracias alemães e europeus parecem não ter aprendido nada com o episódio e continuem a apoiar as medidas de "austeridade" em nível continental -- inclusive a partir da Alemanha, onde o Partido Social-Democrata faz parte da coalizão de Merkel com 6 dos 15 membros do gabinete ministerial. 



domingo, 25 de janeiro de 2015

Grécia: A Vitória do Syriza será o Fim da Austeridade?

"Mantenha a Calma e Vá para o Inferno" (o amor dos gregos à Troika):
Aris Messinis/AFP/Getty Images
Há pouco, o Syriza, Coalizão de Esquerda Radical, venceu as eleições parlamentares gregas. Embora a Grécia atual esteja longe de ser uma economia relevante na Zona da Euro, sua mais recente eleição é o tipo de pequena batalha que pode fazer toda a diferença numa guerra: ela manda um recado claro para todas as outras partes do front, uma mensagem que mostra como vencer a guerra. É como a batalha de Stalingrado, quando o exército vermelho despachou as hordas nazistas: parecia impossível derrota-los até, mas só até ali.

O discurso dos vitoriosos gregos, sob o comando de Alex Tsipras, é simples: resistência absoluta contra a austeridade, isto é, as medidas que a Troika -- FMI, Banco Central Europeu e a Comissão Europeia -- impuseram restritivas aos países da periferia da Europa na presente crise.

A velha fórmula da Troika, segundo a qual as contas públicas só serão salvas pela redução de direitos sociais, arrocho salarial e desemprego, virou dogma. A realidade grega atual, portanto, não é muito diferente daquela vista no Brasil dos anos 90, ou da que, bisonhamente, começa a se desenhar de novo por aqui.

Na Europa, para além de todas as variáveis da explosão global de um sistema financeiro desregulado -- de normas democráticas, obviamente --, além de dinheiro público ter sido usado aos montes para salvar bancos privados, a sanidade das economias menores foi duramente afetada pela inviabilidade do Euro. 

Países como Grécia, Portugal e Espanha já tomavam empréstimos pesados para fecharem suas contas, uma vez que acumulavam déficits monumentais por conta de uma balança comercial desfavorável. A coisa piorou quando seus déficits públicos pioraram com os resgates e com a secura do crédito europeu. 

Com uma literal hemorragia monetária, esses países dependeram da concessão de empréstimos sob condições mefistofélicas: sua vida renovada em troca da sua alma. 

Em toda a periferia da Europa, em troca de empréstimos, direitos foram esmagados: pensões ou aposentadorias cortadas ou diminuídas, o funcionalismo e o serviço público público arrochados, política de desemprego em massa.  Uma multidão de desempregados e desamparados foi criada para pagar uma dívida infinita. 

Esse empobrecimento planejado, ao contrário do que ele prometia, não teria fim. Os gregos continuariam correndo como um cão atrás de sua cauda, sem jamais sair do lugar -- a exemplo do Brasil dos anos 1980 e 90.

Essas políticas tiveram o apoio tanto da centro-direita quanto, vejamos nós, dos partidos da centro-esquerda socialista. A degradação social europeia tinha a mão de sua "esquerda". O equilíbrio político europeu ocidental do pós-guerra teria de ser posto abaixo. 

A velha disputa mais ou menos previsível entre partidos democratas cristãos/populares, de direita moderada, e social-democratas chegava ao seu grau zero: com eles juntos para executar um sistema de exploração social, algum força deveria surgir. 

A direita moderada, que colaborou com a civilização enquanto existiu o bloco soviético, se degenerou. A esquerda social-democrata, com um horizonte de reformismo socioeconômico cada vez mais achatado se esvaiu. Assim, por óbvio, o espaço para uma nova geração de partidos surgiu.

O Syriza, a rigor montado entre dissidentes pouco ouvidos das bases das esquerdas tradicionais, incorpora um discurso renovado que incorpora a questão ambiental, os direitos civis e, sobretudo, a busca por uma alternativa à estrutura socioeconômica capitalista -- algo que a esquerda europeia, a rigor, não ousa fazer desde os anos 1980.

A exemplo dele, temos também o Podemos, favorito a vencer as eleições parlamentares espanholas que se avizinham em 2015. Não é estranho que tenham surgido onde, precisamente, as políticas da velha Europa mais foram mais cruéis nos últimos anos.

A vitória de Tsiripas, a despeito de seus inegáveis méritos, não terá um caminho fácil. Seu discurso de adequação da Europa à Grécia, com a racionalização da dívida pública, ou saída da Zona do Euro,  é forte, mas encontrará reação.

O desafio não é só resistir à reação dos perpetradores da política de austeridade como, também, a constituição de novas saídas. Menos do que vítima de políticas pontuais, o fato é que o Euro não funciona e isto consiste em um problema sistêmico. 

Como ensinam as experiência de dolarização das economias latino-americanas -- inclusive a política de paridade com dólar, vista no Brasil dos anos 1990 --, jamais a adesão de uma economia pobre a uma moeda forte irá produzir prosperidade: ao contrário, as importações explodem, as contas se degeneram.

Por outro lado, se a união da Europa nos termos atuais é um horror, qualquer medida que a enfraqueça também tem seus riscos -- como bem o sabe Tsipras e seu partido.

Não há dúvidas de que a receita de bolo vendida para a Grécia, nos últimos tempos, não era saída, mas ao mesmo tempo é preciso pensar que ela era uma má resposta para um problema objetivo.

Ainda que a realidade não seja propriamente dialética, os processos econômicos capitalistas são sim: a objetividade da crise do Euro gera efeitos subjetivos, nos quais se incluem as políticas de austeridade, e, assim, surge uma nova problemática também com dimensão objetiva, a degeneração social.

Hoje, reinventar uma subjetividade é fundamental, pois é preciso fugir à ideia da "culpa sem fim dos gregos", aquela que justifica o sujeito suicidário da austeridade para, em seu lugar, constituir o sujeito da praça pública [e, por que não, comum]; contudo, é preciso também uma dose de objetividade -- o que vulgarmente se diz "realismo" -- nas reformas, sobretudo em uma atuação continental para a necessária reconstrução do sistema monetário europeu.

P.S.: pelas regras do sistema eleitoral grego, 250 das 300 cadeiras do parlamento se dividem proporcionalmente entre os partidos que tiveram mais de 3% dos votos, enquanto as outras 50 cadeiras são dadas ao partido vencedor. Com isso, um partido governa sozinho se tiver 40% dos votos. Nesse sentido, ainda não se o Syriza governará sozinho ou precisará de algum parceiro para governar. De todo modo, será por muito pouco.

P.S. 2: A vitória da esquerda grega manda um recado para a Europa, mas também ao Brasil e sua recente inflexão na política econômica.



sexta-feira, 8 de junho de 2012

Europa: a Crise Explode na Espanha, Eleições em Grécia e França

Fila de Desempregados Espanhóis
Desde que a presente crise arrebentou em meados de 2008 - não sem dar sintomas, diga-se -, o noticiário europeu é uma série de tragédias anunciadas. Agora foi a vez da Espanha, às vésperas de novas eleições na Grécia, depois da dissolução do parlamento recém-eleito graças à não formação de governo, e das eleições legislativas na França, que ocorrem sempre um mês após à eleição presidencial, a cada cinco anos. 

Não é preciso, como insistimos por aqui, ser nenhum expert em macroeconomia para antever os desdobramentos da crise na Zona do Euro, uma vez que os resultados de uma partilha de uma moeda comum - ou de uma paridade em torno de uma moeda forte - são amplamente conhecidos por nós brasileiros (sobretudo entre aqueles que tem memórias vivas dos anos 90 e da paridade dólar-real): a economia mais forte passa a exportar mais e as mais fracas passam a importar mais do que conseguem ou mesmo precisam. 

No caso europeu, os déficits infinitos dos países periféricos eram compensados pelo acesso (supostamente) sem fim ao crédito, uma vez que os Estados ricos e exportadores tinham liquidez para bancar o jogo. Ninguém, no entanto, se deu ao trabalho de pensar até que ponto esse contínuo - e inevitável - endividamento poderia chegar, tampouco o que aconteceria em um cenário de crise no sistema financeiro. 

Pois bem, os Estados mais pobres, a exemplo dos mais ricos, tiveram de resgatar os seus bancos - quebrados pela ingerência da festa do sistema financeiro nas últimas décadas -, cometendo a torpeza política de recapitalizar algo que quebrou por conta própria às custas do erário público, mas ao contrário de seus primos ricos, eles não têm capital para bancar essa aventura e, pior ainda, não tiveram qualquer ajuda de seus vizinhos - que continuam a ter sim liquidez, como insiste o próprio presidente do Banco Central Europeu, Mário Draghi.

Essa brincadeira, nos países periféricos da Zona do Euro, não trouxe qualquer compensação para a sociedade, que no fim das contas pagou duplamente: a primeira via tributos gastos, a segunda via cortes de benefícios sociais para o reequilíbrio das contas públicas por meio dos "programas de austeridade". Esses países, além de não disporem de fundos, sempre tiveram uma situação frágil, uma vez que o Euro os tornava permanentemente deficitários na Balança Comercial, tanto que suas contas correntes esteve sempre comprometida. 

A riqueza social produzida pelos europeus, que marcou toda essa bonança do pós-guerra, foi  aparentemente repartida, mas para os países pobres do continente ela o foi como dívida, enquanto para os ricos isso aparece como liquidez - como se essa liquidez transcendental de países como Holanda ou Alemanha não resultasse do acesso aos mercados periféricos europeus. Esse estouro, junto com pequenos problemas internos de países como Portugal e Grécia, acabou por catalisar a presente crise.

A Espanha, que a exemplo de Portugal e Grécia, viu seu pós-guerra ser dominado, justo nas décadas de ouro do estado de bem-estar social, por um regimes fascista - embora os gregos tenham tido um intermezzo democrático -, azeitou uma democracia parlamentar com seu braço direitista e seu braço esquerdista, separados por muito pouco e unidos no projeto de integrar o país à Europa nesses termos.

Detalhe que os primeiros anos da democracia espanhola (1977-1982) foram dominados, ainda, por setores conservadores - que governaram seus cinco primeiros anos democráticos, de forma controversa e atrapalhada - até o longo governo socialista de 14 anos (1982-1996), encabeçado por Felipe González, cuja duração marcou a inserção definitiva do país no projeto europeu. O governo conservador de José Maria Aznar (1996-2004) apenas trouxe uma guinada na política de relações exteriores do país, tornando-se mais pró-americana, o que só causou maiores problemas quando, às vésperas do pleito de 2004,  o país foi vítima de um atentado terrorista de um grupo extremista islâmico em retaliação à participação espanhola nas incursões americanas no Oriente Médio: a irritação dos eleitores veio à tona e os socialistas voltam ao poder com a promessa de tirar as tropas do país do Iraque.

O governo socialista de Zapatero que foi de 2004 até o ano passado, apenas inseriu mais ainda  a Espanha na economia da dívida do projeto europeu e, diante da crise, deu o dinheiro que não tinha aos seus banqueiros, se endividou e compensou tudo com cortes nos investimentos públicos e sociais - além de manter a velha política de enquadramento e cerco às minorias autonomistas pelo país. Sua derrota ano passado, foi a expressão de uma abstenção massiva dos eleitores (32%), seguindo a tendência dos últimos anos, que resulta do desânimo geral do eleitorado com a situação do país e a semelhança (à direita) entre os grandes partidos - o que impacta sobretudo no eleitorado esquerdista, especialmente aquele ligado aos movimentos sociais do país, que vive o impasse de estar cada vez mais distanciado do sistema partidário-parlamentar sem, no entanto, produzir uma alternativa para tanto.

A direita sequer viu seus votos aumentarem substancialmente nessa vitória - eles aumentaram em apenas 600 mil votos - enquanto os socialistas perderam mais de 4 milhões de votos em um universo que variou de pouco mais de 25,7 para 24,6 milhões de votos. O novo premiê, Mariano Rajoy, que passou os sete anos de governo Zapatero como líder da oposição assumiu um país com a maior taxa de desemprego da Zona do Euro - quase um em cada quatro espanhóis incluídos na população economicamente ativa não tem emprego -, mas continua a repetir a mesmíssima política de cortes de investimentos para adequar o orçamento espanhol ao déficit comercial inerente a participar do Euro, repetindo a política insana de fazer o pé caber em um sapato vários números menores, nem que para isso precise amputar os dedos.

Em suma, o fracasso anunciado do governo Rajoy faz a democracia espanhola rumar para algo parecido com o que houve na Grécia: a falência do consenso partidário tradicional, o que não quer dizer que disso vá se produzir uma saída efetiva. Como tratamos recentemente, a Grécia viu a ascensão de uma série de agremiações menores ascenderem ao seu parlamento nas últimas eleições - sete no total, algo incrível para um país praticamente bipartidário há quase quarenta anos -, o que impediu a formação de governo e resultou na dissolução do parlamento recém-eleito. Depois de meses sob um governo técnico, agora a Grécia está nas mãos de um governo provisório, enquanto a tensão chega a níveis máximos, inclusive com um deputado neonazista, do recém-dissolvido parlamento, agredindo uma colega esquerdista na televisão.

Para as novas eleições marcadas para dia 17 deste mês, o partido da esquerda radical Syriza aparece como um dos favoritos - e sua plataforma gira em torno de uma renegociação do pacto de resgate do país, nem que isso signifique sua saída da Zona do Euro -, disputando ponto a ponto com o centro-direitista Nova Democracia a liderança das pesquisas, mas como é de se supor, em uma nova eleição realizada um mês depois da anterior, nenhum partido obterá maioria absoluta e os rachas no campo da direita e da esquerda inviabilizaram a formação de um novo governo - exceto se houver um amplo e plasmoso acordo, o que pode, inclusive, marcar a exclusão do Syriza, ainda que individualmente vencedor, da futura coalizão governista.

Nos dias 10 e 17*, os franceses irão às urnas para eleger sua Assembleia Nacional, a câmara baixa de seu parlamento, fechando o seu ciclo de eleições que começou ano passado com o Senado, vencido pela esquerda, e passou há um mês pela (apertada) vitória socialista nas eleições presidenciais. A tendência, dentro de um sistema eleitoral confuso como o francês, distrital de dois turnos, é que a esquerda reunida vença, inclusive pelo cansaço do eleitorado com a maratona eleitoral: se em média 35 dos 44 milhões de eleitores franceses votam nas presidenciais, esse número cai em pelo menos 10 milhões um mês depois nas eleições legislativas, uma sobre-abstenção que normalmente corresponde aos eleitores do partido derrotado nas presidenciais.

Se há cinco anos atrás, a boa vitória, ainda que em dois turnos, presidencial de Sarkozy deu ao seu partido (UMP) quase 40% dos votos contra reles 24% dos socialistas, mas agora a tendência é que a votação de ambos se aproxime em torno de 32%-35% dos votos, com a votação da esquerda reunida  - contabilizados aqui o Front de Gauche, de Mélenchon, o Partido Radical de Esquerda e os Verdes - beirando os 45%, somando maioria relativa do parlamento frente a conservadores e centristas. Ao que tudo indica, Hollande, apesar da vitória apertada, terá tranquilidade para governar, a questão é saber como e até onde irá sua disposição para confrontar a Troika e o novo Pacto Fiscal proposto por Merkel - e  em relação ao qual ele se opôs publicamente de antemão.

O quadro atual, portanto, aponta para o que pode ser um segundo momento da crise europeia com o reaparecimento da social-democracia e o gradual isolamento da centro-direita - incluindo aí as recentes derrotas da democracia-cristã alemã em estados importantes de sua federação -, além da ascensão de uma esquerda radical que, embora minoritária, força essa centro-esquerda a questionar os pés de barro do projeto europeu, o que se não é suficiente para um lado, marca uma pequena mudança de nuance na direção.


*na verdade, o segundo turno das eleições para a AN é dia 17, o primeiro turno é amanhã mesmo.

domingo, 13 de maio de 2012

Grécia Desgovernada: Por uma Práxis do Anti-Governo

Aurora Dourada: Por que não uma suástica de vez?
O resultado das eleições gregas ocorridas há uma semana foi claro: a Grécia está desgovernada no sentido em que dizemos que um carro está desgovernado. Evidentemente, isso não é à toa: o país, mais do que nenhum outro no Velho Mundo, foi atingido pela crise no Euro. Também, pouquíssimos países da Europa são tão problemáticos quanto a Grécia contemporânea em termos políticos: o rescaldo da independência do Império Otomano no século 19º, passando pelas constantes intervenções das potências europeias e incluindo a tragédia da Segunda Guerra Mundial e seus ecos no país - uma guerra civil entre fascistas e libertadores, um intermezzo democrático e uma ditadura militar - deixaram de legado um sistema político oligarquizado, controlado por famílias e prestes a explodir.

Há várias explicações para a crise grega. Os credores do país preferem aquela versão que culpa os gregos pela sua própria desgraça, restando apenas a resignação e o sacrifício do pagamento da dívida sem fim. Há outros mitos, como aquele que credita a crise à realização das Olimpíadas de 2004 em Atenas é causa do processo. O fato é que o Euro prejudica a economia grega desde o momento que a faz compartilhar do mesmo padrão monetário que um país como a Alemanha. Então, temos uma questão que vai para além de "equilíbrio fiscal": a conta corrente do país fica desequilibrada porque ele importa demais, suas cadeias produtivas tornam-se meras maquiadoras - viciadas, ainda, em empréstimos a juros baixos no mercado europeu (e o Estado se ancorou nisso para tomar dívidas e financiar algumas estruturas públicas).

É claro que o velho fisiologismo da política grega, o que resulta desde a vista grossa para a sonegação fiscal dos mais ricos - enquanto pessoas físicas - até o desvio de verbas públicas nas Olimpíadas contam, mas certamente não explicam tudo. Porque, do contrário, Espanha e Portugal não estariam em crise. Muito menos a Irlanda. E não há como exigir um arrocho fiscal desses países que seja capaz de equilibrar as contas: seja pelo fato da paridade absoluta entre desiguais ser aberrante ou, não percam isso de vista, a supervalorização internacional da moeda comum europeia - negociada por Merkel e Sarkozy para passar a mão na cabeça de Washington com sua demente irresponsabilidade fiscal - ajudar a asfixiar mais ainda as pequenas economias da Europa via comércio extra-europeu.

E a disputa política na Grécia moderna não é diferente do resto da Europa: um pastiche do que era o velho Sacro-Império Romano Germânico, onde papistas e defensores do imperador   eram os dois pólos em nível geral e em ramificações partidárias locais - o que só serviu para alimentar a desgraça de homens brilhantes como Dante Alighieri. Prevalece na Grécia o mesmo que no resto da Europa, seja internamente ou na política europeia: um partido de centro-direita (alinhado ao Partido Popular europeu, no caso o Nova Democracia) e outro de centro-esquerda (adequado ao Partido Socialista Europeu, no caso o PASOK) se alternando no poder com suas matizes. 

Na Grécia, essa ópera bufa sempre teve contornos piores, uma vez que os establishments partidários giravam em torno de famílias e oligarcas. Os socialistas sempre foram tributários da família Papandreou, enquanto entre os conservadores, podemos dizer o mesmo da família Karamanlis. E desde de 1974 são eles que se alternam no poder, com algumas crises tópicas, como aquele que resultou num grande governo de solidariedade nacional no fim dos ano 80 - que incluiu mesmo os comunistas - além de uma queda dolorosa de governo para a centro-direita, há pouco tempo, que trouxe o PASOK de volta ao poder para ter uma posição ambígua  com as políticas de austeridade que a Europa lhe obrigou; fenômeno que resultou no gabinete do governo técnico de Lucas Papademos (apoiado por uma coalizão ampla, a exemplo do governo Monti, na Itália), implodido pelas circunstâncias.

O cenário atual, passados sete dias das eleições nacionais, é o rescaldo de uma tempestade: com uma abstenção relevante (na casa de 35%), a pulverização total dos votos - com a pior votação da história do Nova Democracia e a pior, desde que se tornou um partido relevante, do PASOK -, a ascensão de um partido nazista ao parlamento - o Aurora Dourada, cujo símbolo, uma suástica disfarçada, indica bem a que ele veio - e a impossibilidade de se formar governo imediatamente, fecham o quadro de desgoverno. A vantagem relativa que o Nova Democracia possui no parlamento é fruto, inclusive, de uma distorção pró-governabilidade no sistema eleitoral grego: se 250 das 300 cadeiras do parlamento são divididas conforme o voto proporcional, as outras 50 são um bônus para o partido que ficou em primeiro lugar (relativamente, que seja).

O ponto é que a vantagem do Nova Democracia de Antonis Samaras - 108 cadeiras contra o Syriza, uma coalizão de vários grupos da esquerda radical, que fez 52 deputados - se explica unicamente pelo bônus eleitoral. Se isso foi criado para construir uma vantagem para o vencedor das eleições em um país politicamente complexo, no cenário atual, apenas se torna um fator de distorção que constrói uma maioria abstrata e quase ilegítima. Mesmo com isso, um governo de direita na Grécia só seria possível caso Samaras resolvesse fechar com os Gregos Independentes (uma cisão de seu próprio partido) e com os nazistas do Aurora Dourada (sobre essa última opção, ela foi aparentemente descartada). Sem o Aurora, Samaras está em um mato sem cachorro. E existe a possibilidade que o PASOK consiga, apesar da terceira colocação, fazer o governo.

O atual estado de coisas do Estado grego é de pura indeterminação: a perda de crédito na política parlamentar - fundada na representação partidária com interface nas instâncias da União Europeia - além dos confrontos campais e quotidianos entre manifestantes e a polícia nas praças públicas geram uma pressão suficientemente grande para que haja uma crise no sistema, mas também não resultaram na construção transversal de uma nova organização. 

Se por um lado a esquerda venceu nas urnas (dentre os partidos que superaram a cláusula de barreira de 5%, que juntos representaram 80,97% dos votos válidos, a esquerda venceu por 57,5% a 42,5%) , por outro, a divisão dos vários partidos fez com que nenhum partido dela recebesse o bônus de 50 deputados, o que caiu no colo do Nova Democracia, garantindo a vantagem em cadeiras que, no voto, a direita não teve (162 a 138). Pior ainda, não há, entre os partidos organizados, um programa - ou uma disposição - suficientemente clara e forte para resistir às "políticas de austeridade", um eufemismo para o estrangulamento financeiro ao qual a Grécia é submetida neste exato momento.

O naufrágio está desenhado e o quadro grego é uma versão extremada do que não deixa de ser o de toda a Europa. O crescimento da extrema-direita - minando os velhos partidos de centro-direita, seja em versões mais moderadas, como o Front National da França ou, sem máscaras ou eufemismos, na forma do nazismo praticamente declarado como no caso do Aurora Dourada -, o desinteresse pela política partidária e a dificuldade dos movimentos sociais em constituírem alternativas concretas, produzindo um efeito pendular entre velhos modos de governismo (ou alternativas de esquerda que variam entre a velha social-democracia, o eurocomunismo e um suposto novo-esquerdismo) e o desgovernismo. 

Deleuze, por certo, tinha razão ao dizer que não havia governos de esquerda, mas também acertou quando colocou que não era possível encontrar uma saída apenas desconstituindo o posto: é preciso constituir o novo, a negação permanente do velho, por si só, é uma sombra, uma versão do Mesmo (um anti-governismo de desafortunados pelas urnas ou pela política, no caso). Esse é o desafio grego no momento, como também não deixa de ser dos franceses, é preciso trabalhar maquiavelicamente com o que está posto sem perder de vista o horizonte histórico - porque é lá para onde vão as linhas de fuga. Um desgoverno - uma "crise de governabilidade" - é apenas um governo às avessas, é preciso um anti-governismo obstinado, o que passa pelo enfrentamento positivo do Estado.

P.S.: Existe a possibilidade do PASOK formar o governo, apesar dos pesares, a única vantagem disso, em si, é que Berlim sofreria o segundo golpe duro em poucas semanas, o que freia a política de estrangulamento da Troika. Seria uma vitória no sentido de um recuo, ainda que não alente uma transformação tal como necessária.


Atualização de domingo, 20/05: Sem governo, novas eleições foram marcadas para Junho, mas as pesquisas tornam a dar vantagem para o Nova Democracia, levando pequena vantagem sobre o Syriza. O impasse está longe, bem longe de ser resolvido.

domingo, 3 de julho de 2011

A Europa e os Rumos do FMI pós-Strauss-Kahn

DSK sai da cadeia em companhia de sua esposa - EFE
Dominique Strauss-Kahn, tipico socialista europeu dos dias atuais, poderia ser definido como alguém disposto a dar uma vocação social ao "sonho" europeu, nada mais. Isso talvez não seja novidade alguma, afinal, ao que me conste o termo socialista já andava batido desde os tempos de um certo Manifesto, quando já restava plenamente naturalizado - e domesticado - nos salões da Velho Mundo - talvez depois disso tenha retomado algum tom perigoso até retornar à inofensividade. Pois bem, DSK era até bem pouco dirigente maior do Fundo Monetário Internacional (FMI). Aquele órgão, uma das pernas do sistema financeiro internacional do pós-guerra, instituição gêmea-siamesa do Banco Mundial, normalmente dirigida por europeus, enquanto o outro ficava sob o comando nominal de um americano.

O "até bem pouco" poderia ser traduzido por "até um escândalo sexual de proporções catastróficas" em Nova Iorque, quando ele foi acusado de ter abusado de Nafissatou Diallo, camareira de um hotel da rede francesa Sofitel, o que o obrigou a se demitir do cargo pouco depois - o que além disso, também deve lhe custar a indicação do Partido Socialista para ser seu candidato presidencial no ano que vem. Nos últimos dias, o caso sofreu uma  profunda reviravolta, com incongruências surgindo no depoimento de Diallo, resultando na libertação de DSK que cumpria prisão preventiva. O processo ainda segue. 

Nós sabemos que em casos de crimes sexuais, não raro, a defesa tenta transformar o acusado em vítima - às vezes com a complacência do próprio Judiciário -, mas também sabemos que usar de escândalos sexuais para desacreditar figuras de relevo também não é prática estranha ao jogo pesado da grande política - Julian Assange que o diga. E DSK era um alvo considerável, seja por ser um possível (e forte) adversário do atual Presidente Nicolas Sarkozy ano que vem, quanto por poder ser uma pedra no sapato no comando do FMI - agora que essa instituição ganha importância estratégica para o continente europeu com a crise na sua periferia. No meio tempo, eleições foram realizadas para a direção do FMI, com a vitória, vejam só que coincidência, de uma ministra e correligionária de Sarkozy, Christine Lagarde.

Não é possível de nossa parte afirmar se DSK cometeu ou não o ato criminoso do qual ele é acusado, mas é fato que o episódio marca uma virada política substancial. Longe dele ser alternativa para qualquer coisa, mas a direita francesa que o sucede no comando do FMI, o é: sua posição - alinhada a de alemães, holandeses e demais vencedores do sonho europeu - é clara em esquivar a União Europeia de suas responsabilidades para com sua periferia e fazer com que países como Grécia, Portugal, Espanha e Irlanda arquem sozinhos com uma crise estrutural do bloco - tendo de se virar com empréstimos do FMI, cujas condições de pagamento, nós bem conhecemos cá em terras brasileiras. Isso serviria para o capital franco-germânico passar pela tempestade sem se molhar.

Tudo em política é uma questão de custo-benefício e de limites. A direita dos grandes países da Europa aposta que passar toda conta da crise para a sociedade civil grega - e mais tarde para algumas outras - é viável; a corda ficaria tensa, mas não estouraria e o custo da crise política e social interna seria não só suportável como também apontaria para a reprodução da prática, logo mais, em Portugal e Espanha. Para realizar isso, ela terá o comando do FMI agora perfeitamente alinhado. Pode até ser que a corda não estoure mesmo, ainda que as dúvidas sobre a viabilidade disso sejam cada vez maiores, mas mesmo assim o Euro e toda a estrutura podre do capitalismo financeiro continuarão lá: portanto, estamos diante de medidas de austeridade para, apenas e tão somente, chegar a uma saída paliativa na manutenção do status quo. 

O exaurimento de legitimidade da UE é uma realidade. Ora, o plano de resolver as contradições do sistema por meio de uma terapia de choque, que tem avançado como uma divisão de blindados, se assenta na expectativa da postura torpe dos partidos social-democratas se manter e, ainda, nada surgir das pressões nas ruas. O suspeito caso DSK caiu como uma luva para tudo isso poder ser levando a cabo, agora é preciso combinar com os russos...digo, com os gregos para tudo dar certo.