Mostrando postagens com marcador Israel. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Israel. Mostrar todas as postagens

domingo, 18 de novembro de 2012

Pela Palestina

"Como os palestinos poderiam ser “parceiros legítimos” em conversações de paz, se não têm país? Mas como teriam país, se seu país lhes foi roubado? Os palestinos jamais tiveram escolha, além da rendição incondicional. Só lhes ofereceram a morte. No conflito Israel-Palestina, as ações dos israelenses são consideradas retaliação legítima (mesmo que seus ataques sejam desproporcionais); e as ações dos palestinos são, sem exceção, tratadas como crimes terroristas. Um palestino morto jamais interessa tanto, nem tem o mesmo impacto, que um israelense morto (...) O conflito Israel-Palestina é um modelo que determinará como o ocidente enfrentará, doravante, os problemas do terrorismo, também na Europa (...) Esse conflito é uma estranha espécie de chantagem, da qual o mundo jamais escapará, a menos que todos lutemos para que os palestinos sejam reconhecidos pelo que são: “parceiros genuínos” para conversações de paz. De fato, estão em guerra. Numa guerra que não escolheram".
(Gilles Deleuze, artigo publicado no Le Monde de 7 de Abril de 1978, tradução do inglês de Caia Fittipaldi -- retirado daqui)



O artigo em questão tem mais de 34 anos, no entanto, ele se mantém incrivelmente atual, o que afirma seu tom profético: e a profecia, em verdade, nada tem a ver com a transcendência, mas com a capacidade de descrever os movimentos reais e, portanto, suas tendências. Pouco mudou naquela região: aquele estágio do massacre sofrido pelos palestinos determinou, de fato, o modo que o Ocidente enfrenta o "terrorismo". Nestes momentos de crise, nos quais a problemática contínua da questão Israel-Palestina vem à tona, é natural que os trechos deste artigo rodem a rede, o que deixa tudo claro: não, nunca foi um conflito, sempre foi Israel sobre e contra a Palestina.

A forma como se estrutura a atual contenda entre israelenses e palestinos não é mesmo conflitual: agora, a exemplo da violência de três anos atrás, trata-se de um massacre. A Palestina não detém força aérea, marinha de guerra ou tropas regulares. Gaza é praticamente um gueto. Israel tem o que de mais moderno existe no mundo em termos bélicos. A proeminência do complexo bélico-industrial israelense é tamanha que consome os recursos do próprio país. O saldo de mortos palestinos é uma evidência clara: o bebê de onze meses morto recentemente em um ataque da força aérea de Israel a Gaza é prova cabal. 

Desta vez, outro item também não é diferente: a indiferença da cobertura midiática ocidental é proporcional a indiferença israelense pela vida dos palestinos. Mas a Palestina é resistência. Para além da catástrofe e do romantismo: se o "índio" era, para muito além da Índia real, a definição genérica para "homem colonizável" dos europeus, "palestino" é muito mais do que uma nacionalidade ou uma etnia, mas uma subjetividade decorrente da resistência à colonização incessante da máquina ocidental -- e sua fantástica desconsideração em relação ao outro. Não é que somos todos palestinos, mas devimos palestinos quando resistimos a esse processo de avanço incivilizado da civilização.

Sem dúvida, este é o paradoxo israelense: Israel é o avanço e o auge da civilização no Oriente Médio e, portanto, é seu antagonista, pois eleva as contradições daquela noção romana -- que mais tarde engrossou o caldo do que seria a cultura ocidental e, em último caso, a cultura global -- ao extremo. Ser civilizado é ser oposto a selvagem, é estar para lá do acaso da vida natural, ou em ligação com a natureza, para habitar tecnologicamente e, portanto, estar sujeito a uma Lei.

Israel é o auge da tecnologia porque, dentre outras coisas, se estrutura em torno de uma língua morta recriada tecnologicamente, por ambientes tecnologicamente viabilizados pelo melhor que a tecnologicamente pode oferecer e, também, por tudo o que há de mais moderno em tecnologias sociais, políticas e informacionais -- mas o corte principal está entre o eu e o outro, a maneira como a tecnologia aparta por ser incapaz de criar critérios para distinguir o molar do molecular (como diria o próprio Deleuze), o que pertence ao mundo dos grandes números, das multidões reduzidas a estatísticas, ao mundo das singularidades, de nós mesmos enquanto humanos.

O rompimento pretenso que a civilização sempre promoveu do homem em relação à natureza -- que jamais resta superada mas estará sempre bem ali, atualíssima -- é inviável, seja das relações do homem com o homem ou dele próprio com o ecossistema (o que se tornou tragicamente claro nos últimos anos). A civilização, como os próprios Estados nação que ela forjou, é inimiga de si própria por não reconhecer a alteridade: é sempre nós (civilizados) e os outros (selvagens), mas enquanto os últimos se bastam a si próprios, os civilizados vivem às custas deles. O selvagem simplesmente é, livre e sem rótulos, ele só passa a ser selvagem por obra e graça da civilização.


Justamente por ser tão civilizado é que Israel é ele mesmo inimigo da civilização, uma vez que sua estratégia sempre girou em torno da destruição das instituições alheias, financiamento de grupos religiosos para minar grupos árabes laicos (como no caso do Hamas, financiado para enfraquecer a laica Fatah) e pela destruição física da civilização ou bolsões civilizacionais dos seus adversários (como o caso do Líbano). 

O paradoxo de Israel é o paradoxo da civilização ele mesmo, de sua insustentável leveza que o faz tender contra si mesmo a se devorar. Israel engendra seus inimigos, não é que ele crie inimigos selvagens, mas que ele traz um paradigma civilizatório -- copiável até como forma de resistência a ele mesmo -- que ele devora e não aceita -- nem pode aceitar -- sua universalização pelos outros: ele engendra, assim, inimigos irracionais que servem ao seu discurso, mas que podem liquida-lo tal como fizeram os romanos com os "bárbaros".

Há quem diga que os palestinos não existiam antes de Israel. Fale que eles não passavam de gentes dispersas, de forma selvagem, por aquelas terras. Há quem veja algo de mal nisso, afirmando ou rebatendo tal afirmação, mas o fato é que essa afirmação é verdadeira: os palestinos simplesmente viviam ali e pouco importava qualquer palestinidade. Sua existência é fruto da resistência ao poder, ao déspota que veio de longe, e engendrou pela negação da vida vivida naquelas terras uma subjetividade: eis aí que emerge o palestino, do mau encontro com a colonização no seu auge tecnológico, trazida de maneira tão irônica quanto cruel justamente pelo povo que foi a maior vítima dela, cuja chegada negou-lhes a vida.

Do mesmo modo que o índio não era índio antes do mau encontro com os europeus -- portanto, os índios sempre foram minoria e, por isso, índio é ontologicamente minoritário -- o palestino só é palestino depois do mau encontro com Israel, isto é, só aí que a territorialidade da Palestina é fixada, não antes. A Palestina não desaparece, apesar de todos os poderosos esforços para tanto, pois ela, ironicamente, nasceu de uma invasão. E os judeus, trazidos pelas mãos do sionismo em fuga, encontram-se diante de uma outra encruzilhada: a saída sempre esteve em reconhecerem a sua própria orientalidade no processo de retorno -- como diria Uri Avnery -- não em reafirmarem a identidade com o fenômeno que os vitimou, qual seja, o ocidentalismo; enquanto o fizerem, serão os romanos ou gregos voltando, mas jamais os judeus.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

A Guerra Civil no Império e a Ameaça ao Irã

Primeiro como tragédia, depois como farsa: As guerras médicas.
Neste exato momento, o Irã está cercado. Uma boa quantidade de navios de guerra está estacionada ou se dirigindo ao Golfo Pérsico, enquanto muitos países da União Europeia já não estão comprando petróleo do Irã, seja por retaliações de Teerã ou por decisão própria. Nem preciso dizer que as potências ocidentais estão se movimentando para forçar uma guerra que, aliás, pode arrebentar a qualquer momento com consequências terríveis. Essa situação cabe uma rápida digressão. 

Quando o século 21º estava nascendo, o amanhã à la Jetsons - isto é, uma mistura de comercial de margarina com futurismo - que os americanos desenhavam como o porvir do Globo, dentro da sua hegemonia total, ruía silenciosamente: o estouro da bolha da Internet foi um desastre que pôs em xeque a new economy - mostrando o descompasso entre capitalismo cognitivo e economia do conhecimento - e as apostas de Clinton. Isso produziu uma movimentação de bastidores que trouxe de volta ao jogo os republicanos e seu belicismo, qualquer coisa potencializado com os ataques de 11 de Setembro. 

Dizer que o 11 de Setembro causou a guinada da política externa americana é ingênuo. É esquecer, por exemplo, que um dos primeiros atos do governo Bush foi bombardear o Iraque. O atentado ao World Trade Center, se muito, apenas retardou a segunda guerra contra o Iraque e criou um combate que não existiria, dessa vez, no Afeganistão. Talvez tivéssemos o tão sonhado confronto com o Irã no lugar de algumas dessas guerras, talvez alguma loucura na Coreia do Norte.

A integração dos mercados globais via capitalismo, a afirmação do inglês como língua franca e quetais não trouxeram, comos os americanos esperavam, uma espécie de ordem global onde Washington lideraria acima das próprias regras do jogo, imune às crises. Essa percepção vem muito antes das agências de risco rebaixarem os títulos americanos em Obama, é algo que já aterrorizava os tecnocratas de Bush e o fez ir à guerra. Mas se os EUA, pela força de suas tropas, era livre para fazer o que fez, nem por isso, ele deixaria de arcar com as consequências.

O fato é que, hoje, não há mais guerras, logo não existem mais os ganhos que podem ser extraídos delas. Trata-se de uma impossibilidade. O final das fronteiras transforma toda guerra em uma guerra civil. A semelhança entre os dois termos nas línguas ocidentais de hoje esconde, por sua vez, uma profunda diferença: se a guerra é o confronto armado entre corpos coletivos - seja a cidade antiga, o reino medieval ou Estado moderno -, a guerra civil é um processo destrutivo de confrontação interna, de autofagia - talvez por isso os gregos designavam a primeira como polemós e a segunda como stasis.

As guerras que os americanos promoveram, no Afeganistão e no Iraque, com Irã e Coreia do Norte na mira - quem sabe, a própria Venezuela - não só não trouxeram ganhos para os EUA como desequilibraram o sistema mundo e, por tabela, seu próprio país. O estouro das contas públicas americanas, pelas duas guerras em que se meteu simultaneamente, ainda é subestimado como esse fator de desequilíbrio, mas se esquecem os incautos que o aumento do endividamento da nação emissora de moeda hegemônica não é lá um bom sinal - e que emissão de dinheiro não é exatamente uma saída, ainda mais em larga escala.

Pois bem, não temos nem dois meses que os EUA se retiraram do Iraque, depois de uma vitória militar seguida de uma derrota política: seja pelo desgaste econômico e político interno ou mesmo, vejam só, por ter legado em Bagdá um governo xiita pró-Irã. Enquanto isso, Washington prossegue seu empreendimento no Afeganistão, após a vitória simbólica do assassinato de Osama Bin Laden, mas sem muitos ganhos efetivos - ainda mais pelo fato de que o país passa a depender mais e mais de cessões para a Rússia, aliada estratégica para o trânsito de tropas americanas e aliadas pela Ásia Central.

Somemos isso à atual situação do mundo árabe, onde há um ano revolta multitudinárias puseram em xeque toda sorte de tiranias e temos um cenário interessante. Washington, apesar de todos os recentes fracassos, mantém uma doutrina nacional no mundo global e ignora, inclusive, o quanto a economia da guerra só traz ganhos, hoje, para as próprias corporações bélicas. Washington quer recuperar o terreno perdido à força e acha, ainda, que pode ter retornos econômicos com isso - fora os lobbistas locais, que sabem bem o que estão fazendo dentro de sua atividade parasitária.

Quando falamos em Primavera Árabe, por sinal, falamos de um levante da multidão local contra uma forma de governança, independentemente de sua posição frente aos EUA ou ao globo. Isso explica porque houve levantes contra as ditaduras de Mubarak no Egito e Ben Ali na Tunísia - aliados do Ocidente - e, ao mesmo tempo, derrubou-se Kadafi na Líbia e ameaça-se com violência o clã Al-Assad na Síria.  

O que muda é a atitude americana frente a revoltas com motivações parecidas: enquanto na Tunísia e no Egito o processo revolucionário foi procrastinado - ou mesmo, no caso egipício, chegamos ao ponto de ver o apoio descarado a uma ditadura militar que serve, por sua vez, para tutelar o andamento das coisas -, na Líbia e na Síria, financiou-se mercenários contra os ditadores locais. 
   
Um fator importantíssimo que atravessa essa confusão toda é Israel. Quando falo em Israel aqui, não me refiro a judaísmo, sionismo ou nada do tipo, mas antes de mais nada ao complexo bélico-industrial local que capturou a política daquele país desde a primeira guerra do Líbano. O país é parasitado por aquele setor e essa percepção, finalmente, chegou à população israelense que se manifestou, massivamente, nas ruas há poucos meses, à moda de seus vizinhos árabes e dos europeus. 

Esse mesmo complexo-militar israelense encontra-se em xeque desde que foi contido, na última guerra do Líbano, por um estranho consórcio no qual as tropas do Hezbollah, apoiadas pela ditadura laica dos alauítas sírios e da teocracia xiita do Irã, conteve o exército de Israel impondo um limite para seu expansionismo. 

É o mesmo complexo bélico-industrial que, como nos prova Wikileaks, move mais os EUA do que lhe serve de tentáculo avançado no Oriente Médio. Ele precisa de uma guerra para dissolver tensões internas, a exemplo das potências mundiais pré-Primeira Guerra, e precisa parar o Irã que ameaça tirar seu monopólio nuclear na região - o que criaria uma paz armada que afetaria seus negócios. 

O clero de Teerã, quanto mais pressionado, mais avançará. Primeiro porque mesmo quando foi eleito um governo moderado, há poucos anos, liderado pelo reformista Mohhamad Khatami o Ocidente não demonstrou qualquer boa vontade em negociar. Depois, porque se ele parar agora com seu programa nuclear, não existe garantia alguma que o Ocidente cesse as hostilidades - onde estão as armas de destruição em massa de Saddam Hussein?

Aos russos a guerra assusta bastante. Não obstante seus problemas internos, a maior ameaça à estabilidade russa nos últimos vinte anos tem sido o Cáucaso e proximidades, seja a dura guerra na Tchechênia ou mesmo a perigosa aliança que a Geórgia fez com Ocidente - o que causou um confronto pesado, porém rápido, durantes os Jogos Olímpicos de 2008, com êxito para Moscou. Sem a presença de um governo confiável no Irã, a região fica mais exposta. Por mais que Teerã tenha uma posição ambígua, os persas não são aliados para se jogar fora, coisa que não poderia se dizer de um governo fantoche, naturalmente.

Tanto pela limitação de recursos humanos do lado de Israel, quanto pelos limitados recursos bélicos do Irã, é possível que uma guerra muito cruel seja deflagrada rápida e abruptamente na região. Ambos os lados precisam lançar mão de ataques duros que causem danos consideráveis no adversário. Com  a situação ainda nada estável do Iraque e, sobretudo, da Síria, não é exagero dizer que o conflito possa se espalhar pela região inteira.

Se em 2010, o Brasil de Lula e Amorim foi responsável, junto à Turquia, por adiar o conflito no Irã. Agora, o recuo da política externa de Dilma em relação a Teerã abre espaço para que o processo bélico avanço. Sem um esforço conjunto e transversal dos movimentos de indignados que lotam as praças do Globo - passando até mesmo pelos cadavéricos Estados-nação -, assistiremos a uma carnificina que sequer trará o lucro esperado para os seus idealizadores. 

O mundo globalizado não admite mais vitoriosos em guerras, pois nas guerras civis só há derrotados. O custo dessa farsa nos será muito caro.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Israel e a Escalada do Terror de Estado

 (protestos em Londres - Luke MacGregor/reuters, retirado do Guardian)

Pois bem, o principal tema no noticiário internacional até ontem era a questão do programa nuclear iraniano, o que passava pelo acordo trilateral que o Brasil junto com a Turquia travaram com aquele país. Em cima disso, os debates, análises e conjecturas sobre os problemas do Irã e o que se esconderia (ou não) sob o véu de seu Programa Nuclear eram abundantes e soltavam faíscas - e o blog trouxe algumas análises sobre o assunto.

Um dos eventos mais estarrecedores divulgados por esses dias, como registrado,  a comprovação de que Israel tentou vender armamento nuclear para o regime do apartheid nos anos 80.  Pesado isso, mas é real. Que Israel tem armas nucleares, até as pedrinhas da rua sabem. Que Israel apoiou o apartheid na Áfica do Sul, é público e notório. Agora, o Guardian - não um pasquim qualquer, mas um dos maiores jornais do Reino Unido - aparecer com provas de que Israel tem mesmo armas nucleares - e que quase forneceu isso para o regime do apartheid, é um negócio chocante, coisa de desacreditar na humanidade mesmo, mas foi o que aconteceu.

Quando ainda tentava racionalizar o impacto, me deparo, hoje, com a notícia do que Israel fez com os navios que levavam ajuda humanitária para Gaza: Depois de passar alguns dias tentando bloquear seu, avanço, acabaram atacando a pequena frota, matando, até as informações que eu tenho agora, dezenove ativistas e prendendo mais de oitenta. É inacreditável a ação. Ela é totalmente desproporcional, fora de qualquer norma de direito internacional e, sobretudo, de uma desumanidade ímpar.

Não creio que seja fora de contexto debater a questão da opressão histórica contra os judeus pela História ou, especialmente, a política genocida em massa engendrada pelos ideólogos da eugenia das sociedades industriais europeias já do século 19º quando se fala de Israel, o problema é como isso entra na conversa: O meu ponto é que, odiosamente, isso tem servido de álibi para setores de interesse específico de Israel e do Ocidente - que usa aquele Estado como uma espécie de proxy no Oriente Médio -justificarem toda sorte de políticas, portanto, isso nada tem a ver com judaísmo, proteção dos judeus ou com tudo que os judeus já sofreram. Simples assim.

Comparações entre o regime nazista e o modus operandi dos dirigentes israelenses são um tanto descabidas, ao meu ver. A conjuntura histórica é diferente, não há nazismo em Israel e, ao fazê-la, bate-se por bater, usando um ponto particularmente - e justamente - doloroso para os judeus de todo o mundo - pró e contra as políticas de Israel -, o que ao mesmo tempo que é cruel, também ajuda a alimentar a ideologia que a classe dominante local usa para justificar sua megalomania e incompetência. A grande questão aqui é a questão do Estado de Exceção, fenômeno recorrente nos Estados de inspiração greco-romana e cujas raízes, suspeito, são o calcanhar de aquiles dessa forma de organizar politicamente, seja há dois mil atrás ou nos dias de hoje, talvez uma falha intrínseca ao modelo, talvez algo mais profundo, de fundo antropológico, não sei dizer.

Israel tornou-se um Estado bélico no qual a regra é afastada à exaustão internamente de tal forma que passou a ser afastada no plano externo também, provocando um esgarçamento não apenas da sua legitimidade enquanto Estado - aqui no plano formal - quanto na reiteração de decisões cada vez mais irracionais - e perigosas, no plano material. No atual momento, tomar uma atitude como a de matar ativistas que levavam ajuda humanitária aos palestinos e estavam desarmados é, sobretudo, um sinal de loucura. 

Além da tragédia em si, ela enfraquece Israel perante a comunidade internacional e fortalece a posição do Irã por contraste. Em suma, Israel não ganhou nada com isso, nem mesmo aqueles dirigentes aos quais eu me referia, muito menos seu povo, o que é uma ilustração dessa insanidade - por fim, uma expressão da contradição do Estado de Exceção estourando. Há quem diga que isso caiu como uma luva para, no momento atual, bloquear a escalada contra o Irã, trata-se de um ledo engano, esse é apenas mais um fio desencapado do Oriente Mèdio - o maior e mais perigoso deles, é verdade - soltando faíscas e se mostrando fora de controle. Isso é um problema para o Irã, para seus vizinhos e para toda comunidade internacional. No duro, em que pesem todos os riscos que o regime dos aiatolás represente para o mundo - ele representa -, nada se compara à Israel atualmente e se ele não for neutralizado pela comunidade internacional, provocará, cedo ou tarde, um desastre incontrolável.



quarta-feira, 26 de maio de 2010

Questão Iraniana: O Jogo Segue


(Revolução Iraniana- O retorno de Khomeini)

As peças estão no tabuleiro e o jogo segue na questão do programa nuclear iraniano. Segunda, o Irã apresentou o acordo de troca de combustível nuclear à Agência Internacional de Energia Nuclear (AIEA), cumprindo, portanto a primeira das obrigações assumidas com Brasil e Turquia. Trocando em miúdos, o Irã, cujo programa nuclear foi iniciado ainda na época do Xá - muito embora ele tenha sido alavancado nos últimos anos -, se compromete a enviar o urânio não enriquecido para a Turquia, recebendo em troca Urânio enriquecido a 20% do seu vizinho otomano - mais do que o suficiente para o uso pacífico, ainda insuficiente para fins militares, além de outras implicações.

O ponto central é que, como já colocado aqui, o Irã é uma potência energética. Portanto, em tese, ele não precisaria desenvolver tecnologia nuclear para suprir sua demanda por energia - que, ainda por cima, é razoavelmente baixa -, fato que suscitou sérias dúvidas na comunidade internacional. Evidentemente, dominar tal tecnologia é estratégico e pode tornar o país que o fizer em uma potência, seja pelas implicações pacíficas ou militares que decorre disso. As alegações do regime local sobre o assunto, sempre sinalizaram para que tal desenvolvimento seria voltado para fins pacíficos, o que nunca realmente ficou claro, ainda que a possibilidade de emprego militar da tecnologia nuclear sempre permaneceu como uma conjectura - uma boa conjectura, mas ainda uma conjectura.


A Revolução Islâmica de 1979 foi um momento de ruptura radical com os privilégios que o ocidente gozava naquele país, onde um movimento nacionalista, de inspiração fortemente religiosa, assumiu o poder depois do colapso de um regime autoritário com laços estreitos com as potências ocidentais. O ponto-chave é que, apesar dos americanos, historicamente, não serem o alvo preferido do furor nacionalista local - posto ocupado com certa folga pelos britânicos -, a invasão da embaixada americana, um evento particularmente doloroso no modo que seu deu - foram feitos reféns e o sequstrou durou 444 dias - faz com que a recíproca não seja verdadeira, em especial dos tecnocratas do Departamento de Estado em relação à Teerã.


Esse evento pôs a perder, de forma irrevogável, não apenas o Governo Carter, suas boas intenções e seus diplomatas liberais -, como também provocou mudanças profundas na forma dos EUA se relacionarem com o Oriente Médio, passando, desde então, a intervir mais diretamente, algo que ganhou um estímulo considerável com o aumento da demanda por petróleo, provocado pela manutenção de padrões de consumo insustentáveis da potência americana. Isso fez, por exemplo, com que o Governo Americano, descaradamente, apoiasse o regime totalitário de Saddam Hussein, dando-lhe apoio político e armas para que invadisse o vizinho, resultando numa guerra que ceifou mais de um milhão de vidas humanas ao longo de oito anos - ainda que Saddam tenha tido o claro apoio de outras nações, inclusive da União Soviética.


Também pesa o interesse estratégico de Israel. Àquele país, pouco interessa a existência de um Estado islâmico forte no Oriente Médio - seja num aspecto defensivo ou mesmo ofensivo, pois até as pedrinhas daquela região sabem que para o Estado de Israel, a melhor defesa sempre foi o ataque, seja nos momentos em que isso foi ou não necessário. O País sempre teve interesse não apenas em se manter, a despeito da vantajosa decisão da ONU que lhe criou e ainda dividiu de modo mais favorável para ele as terras da Palestina, como também em se expandir, como se percebe pela maneira como as vitórias nas seguidas guerras que se travaram naquela região provam.


É evidente que pesam inúmeras outras questões sobre esse assunto, que eu pretendo explanar melhor mais adiante - a necessidade de sobrevivência dos judeus, a validade ou não da via sionista, as ameças e ataques que ele já sofreram etc -, mas o ponto que é Israel nunca deixou de ser uma nação beligerante e nos momentos em que não esteve travando combates pelo seu interesse, esteve defendendo claramente os interesses americanos na região - e no mundo, como recentemente provado pelo diário britânico The Guardian, Israel além de ser a maior potência militar da região, ainda possui armas nucleares e sua participação na Guerra Fria do lado dos americanos foi tão intensa que ele quase vendeu armas nucleares para o regime do Apartheid.


Não há qualquer "equilíbrio de forças" no Oriente Médio e não interessa nem para os americanos, ciosos pelo controle das poderosas reservas energéticas da região, nem para Israel, que algum novo agente se fortaleça. Interessa muito menos que esse agente seja o Irã, justamente, o maior país da região. Por outro lado, para as demais potências, se não interessa para ninguém que o Irã construa armas nucleares - ou tenha a possibilidade de -, também é de valia que o país esteja suficientemente fraco para que seja invadido pelos EUA ou por Israel ou que uma nova guerra seja deflagrada na região.


O problema, claro, é a legitimidade na interlocução, os russos tentaram, mas a política do Kremlin peca no movimento pendular, variando entre a paranóia de ver a disseminação de armamento nuclear no seu quintal e o de assistir uma nova invasão americana na região. Os chineses, que, por ora, fazem o mesmo e não querem bater de frente com o interesse americano. Eis aí que entrou o Brasil, um agente economicamente poderoso, militarmente inofensivo e com um complexo de relações ao redor do mundo ao mesmo tempo ampla e profunda - fortalecido durante o atual Governo. Entra também a Turquia, um gigantesco país islâmico com um economia relevante e forças armadas modernas.


Ademais, existe outro aspecto do programa nuclear iraniano muito pouco explorado: Ele é o elemento de união de um país politicamente fraturado, no qual boa parte dos habitantes se ressente da falta de liberdades individuais imposta pelo regime dos aiatolás, mas, ao mesmo tempo, ainda expõe a ferida causada por anos de ingerência das potências ocidentais - e o trauma da guerra contra o Iraque - em seu território, portanto, é consensual na sociedade iraniana que o Governo não deve interromper seu programa nuclear.


A crise provocada pelas tensões internas e externas, deixam o Governo de Teerã num verdadeiro impasse. No momento, aceitar a proposta otomano-brasileira é conveniente porque ao mesmo tempo em que enfraquece Washington, que fez uma proposta parecida, refutada de imediato, dá força a turcos e brasileiros, ex-títeres da política externa americana, legitimando-os como interlocutores de alto-nível - especialmente o Brasil, uma das peças-chave nos planos de reforma do sistema mundo que visam a construção de uma ordem multipolar. O discurso brasileiro pela paz é poderosíssimo, pois ele apela ao pathos de uma humanidade desejosa de tranquilidade e pega o discurso belicoso no contra-pé na medida em que ele usa a prerrogativa da luta pela paz como elemento legitimador - como percebemos claramente no discurso americano, onde a guerra é vendida sempre como um mal necessário para a conquista da paz. Em suma, além de Lula ser legitimado pelos seus admiradores europeus, seja por princípios ou interesses imediatos, por outro, ele se torna um interlocutor difícil de deslegitimar, afinal, como e por qual motivo alguém iria bater em um arauto da paz?


O ponto é que tanto os aiatolás quanto os americanos estão em xeque. Se os primeiros terão de dar provas de confiança para a comunidade internacional, sob pena de ficarem definitivamente isolados e caírem, os segundos perderam o álibi tão cômodo para os interesses que sequestraram o seu Departamento de Estado, fazendo com que a mandatária daquele órgão, que disputou prévias tão acirradas com o atual Presidente daquele país a ponto de mais parecerem rivais de partidos opostos, mostre sua verdadeira face e exponha a política externa contraditória e renitente do seu suposto chefe, o atual Nobel da Paz, Barack Obama.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Dia da Confraternização Universal

(A barca de Dante - Delacroix)

Primeiro de Janeiro de 2010. Teremos um ano (muito) quente pela frente. O Mundo, não nos enganemos, ainda ferve com os efeitos da crise econômica e disso emergirá uma nova ordem, uma nova correlação de forças que dificilmente será estável - o capitalismo global não deixa de ser Capitalismo, portanto, ele não perdeu suas principais características como seu caráter contraditório e sua natureza assentada numa forma de exploração permanente.


O que está em jogo agora é que não há mais contradições nacionais, elas são globais - assim como não há exploração circunscrita ao espaço nacional - elas estão integradas a um teia global, a uma divisão global do trabalho - e não mais internacional, o Estado-nação perdeu sua centralidade e de estrutura necessária para sustentar os diversos sistemas capitalistas, ele se tornou apenas um instrumento para sustentar o sistema capitalista.

Nesse contexto, boas perguntas podem ser feitas, antes de pensar onde estamos - duvido muito que em terra firme -, por que não perguntar onde estávamos e porque estávamos? Situar-se é uma tarefa difícil dentro de um sistema no qual onde tudo é precário e provisório. Ainda assim, é uma tarefa necessária e possível, na qual recorrer ao exame da História nunca é demais.

Onde nós estávamos há um ano atrás? Não seria na época em Israel bombardeava de maneira inclemente a Faixa de Gaza? A guerra como o negócio que sustenta um poderoso oligopólio, a guerra como meio de sustentação para grupos políticos, a guerra real virtualizada e tornada um produto da indústria midiática global. O imperialismo cultural do ocidente em forma bélica disfarçado de cosmopolitismo.

Onde nós estávamos há dez anos atrás? Na posse de Vladimir Putin na Rússia, quando o controverso político russo - a ponte entre a antiga KGB, os oligarcas e o Estado - teve sua liderança outorgada pelo seu desastroso sucessor. Aliás, em 2009, foi-se o tragicômico Yegor Gaidar, ministro de Estado catastrófico de catástrofes mil da Rússia, papagaiador da escola austríaca - convertido depois de ter largado o métier de burocrata por força dos fatos.

Que fazíamos há um ano no Brasil? Não se contorciam as nossas vísceras de medo sobre o que a Crise Mundial nos provocaria? E não é que a tal divisão global do trabalho somada às políticas do atual governo superaram tudo tão estranhamente rápido? Onde estávamos há dez anos? Por certo, quebrados por uma crise muito menor do que essa.

De um modo ou de outro, certas contradições ainda envolvem o nosso meio, afinal, há mais de vinte anos nos vemos às voltas com a construção de uma síntese decorrente da tensão dialética entre a ordem jurídica modernosa de 88 e o nosso caquético sistema político. Em suma, uma coisa não anulou a outra, talvez tenhamos mudado tudo sem mudar nada com momentos de mais ou menos aperto, somente.

Em 2010 a História continuará a rolar - ao contrário do que diziam aqueles que espalhafatosa e prematuramente anunciavam sua morte - talvez de um modo mais agitado: O que será do mundo pelos próximos dez ou quinze anos se desenhará com a poeira que baixará este ano da crise mundial e o que será do contraditório Brasil sairá da escolha popular, ao final do ano, entre o partido da ordem e o partido do progresso - e creio que Benjamin tremeria diante de um cardápio desses.