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segunda-feira, 23 de julho de 2012

Revisitando a Primavera Árabe

Monet - Lavacourt d'Inverno (daqui)
Há um ano e meio, a Primavera Árabe florescia durante o inverno do hemisfério norte, contudo, em um cruel paradoxo histórico, ela chegou ao seu inverno ainda na última primavera. Mas no inverno,  mesmo em um tão longo e rigoroso, há vida, sempre houve e haverá.

A irrupção na Tunísia da revolta que se espalhou pelo mundo árabe, do Magreb à península arábica, encontrou sua culminância no Egito: de repente, a Praça Tharir se tornou o centro nevrálgico de um mundo árabe que se levantava, catalisando uma segunda onda que se espraiou pelo mundo - da Espanha dos indignados que lotaram a Puerta del Sol até os inúmeros occupy pelos Estados Unidos e pelo mundo (Brasil, inclusive).

Hoje, o que temos? No Egito, a Irmandade Muçulmana capturou (eleitoralmente) a Revolução que não fez - nem faria e jamais fará -, enquanto na Líbia, o Ocidente se aproveitou da balbúrdia geral para estimular uma revolta à la Pancho Villa para derrubar seu pouco confiável Kadafi - justiçado barbaramente pelos rebeldes -, já na Tunísia, ainda que de forma mais moderada, os islâmicos estão no poder e, por fim, o regime baatista da família al Assad está prestes a tombar na Síria, enquanto uma guerra civil sangrenta faz o país arder.

Não, este não é um post sobre a sorte triste das revoluções, mas sobre a realidade histórica e as limitações reais - não objetivas ou subjetivas, reais - das lutas materiais bem como um chamado à urgência da boa estratégia política - coisa que Maquiavel, ao seu tempo, soube captar de forma tão singela e sublime. Lá (tal como cá) temos tensões de força e vetores, o que não faz com que a experiência vista ano passado seja inválida, nem que, por isso, deixemos de enxergar que estar a haver uma reação relativamente efetiva.

Sem sombra de dúvida, não podemos deixar de agir pelo medo da captura ou do fracasso, mas isso não quer dizer que possamos agir sem concebê-los - na alegria da imanência. E foi a Primavera Árabe que deflagrou, em termos práticos, a única experiência política de multitudinária que, durante esta crise mundial, consigo realmente preocupar e perturbar o Poder - ainda que, não nos esqueçamos, Wikileaks, e suas revelações sobre a Tunísia, teve um papel fundamental para disparar seu estopim.

No que toca à experiência subsequente dos occupy, como nos ensina o mestre David Harvey: as metrópoles - ao contrário do que todo o pedantismo dos catastrofistas não cansa de exclamar de forma cansada - são o locus da potência revolucionária contemporânea. A luta segue e os desdobramentos da Síria e, curiosamente, da política interna israelense, são cruciais no que toca ao Oriente Médio, bem como o decorrer da crise na periferia da Europa, sobretudo na Grécia e na Espanha. E onde há resistência não há derrota.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

A Guerra Civil no Império e a Ameaça ao Irã

Primeiro como tragédia, depois como farsa: As guerras médicas.
Neste exato momento, o Irã está cercado. Uma boa quantidade de navios de guerra está estacionada ou se dirigindo ao Golfo Pérsico, enquanto muitos países da União Europeia já não estão comprando petróleo do Irã, seja por retaliações de Teerã ou por decisão própria. Nem preciso dizer que as potências ocidentais estão se movimentando para forçar uma guerra que, aliás, pode arrebentar a qualquer momento com consequências terríveis. Essa situação cabe uma rápida digressão. 

Quando o século 21º estava nascendo, o amanhã à la Jetsons - isto é, uma mistura de comercial de margarina com futurismo - que os americanos desenhavam como o porvir do Globo, dentro da sua hegemonia total, ruía silenciosamente: o estouro da bolha da Internet foi um desastre que pôs em xeque a new economy - mostrando o descompasso entre capitalismo cognitivo e economia do conhecimento - e as apostas de Clinton. Isso produziu uma movimentação de bastidores que trouxe de volta ao jogo os republicanos e seu belicismo, qualquer coisa potencializado com os ataques de 11 de Setembro. 

Dizer que o 11 de Setembro causou a guinada da política externa americana é ingênuo. É esquecer, por exemplo, que um dos primeiros atos do governo Bush foi bombardear o Iraque. O atentado ao World Trade Center, se muito, apenas retardou a segunda guerra contra o Iraque e criou um combate que não existiria, dessa vez, no Afeganistão. Talvez tivéssemos o tão sonhado confronto com o Irã no lugar de algumas dessas guerras, talvez alguma loucura na Coreia do Norte.

A integração dos mercados globais via capitalismo, a afirmação do inglês como língua franca e quetais não trouxeram, comos os americanos esperavam, uma espécie de ordem global onde Washington lideraria acima das próprias regras do jogo, imune às crises. Essa percepção vem muito antes das agências de risco rebaixarem os títulos americanos em Obama, é algo que já aterrorizava os tecnocratas de Bush e o fez ir à guerra. Mas se os EUA, pela força de suas tropas, era livre para fazer o que fez, nem por isso, ele deixaria de arcar com as consequências.

O fato é que, hoje, não há mais guerras, logo não existem mais os ganhos que podem ser extraídos delas. Trata-se de uma impossibilidade. O final das fronteiras transforma toda guerra em uma guerra civil. A semelhança entre os dois termos nas línguas ocidentais de hoje esconde, por sua vez, uma profunda diferença: se a guerra é o confronto armado entre corpos coletivos - seja a cidade antiga, o reino medieval ou Estado moderno -, a guerra civil é um processo destrutivo de confrontação interna, de autofagia - talvez por isso os gregos designavam a primeira como polemós e a segunda como stasis.

As guerras que os americanos promoveram, no Afeganistão e no Iraque, com Irã e Coreia do Norte na mira - quem sabe, a própria Venezuela - não só não trouxeram ganhos para os EUA como desequilibraram o sistema mundo e, por tabela, seu próprio país. O estouro das contas públicas americanas, pelas duas guerras em que se meteu simultaneamente, ainda é subestimado como esse fator de desequilíbrio, mas se esquecem os incautos que o aumento do endividamento da nação emissora de moeda hegemônica não é lá um bom sinal - e que emissão de dinheiro não é exatamente uma saída, ainda mais em larga escala.

Pois bem, não temos nem dois meses que os EUA se retiraram do Iraque, depois de uma vitória militar seguida de uma derrota política: seja pelo desgaste econômico e político interno ou mesmo, vejam só, por ter legado em Bagdá um governo xiita pró-Irã. Enquanto isso, Washington prossegue seu empreendimento no Afeganistão, após a vitória simbólica do assassinato de Osama Bin Laden, mas sem muitos ganhos efetivos - ainda mais pelo fato de que o país passa a depender mais e mais de cessões para a Rússia, aliada estratégica para o trânsito de tropas americanas e aliadas pela Ásia Central.

Somemos isso à atual situação do mundo árabe, onde há um ano revolta multitudinárias puseram em xeque toda sorte de tiranias e temos um cenário interessante. Washington, apesar de todos os recentes fracassos, mantém uma doutrina nacional no mundo global e ignora, inclusive, o quanto a economia da guerra só traz ganhos, hoje, para as próprias corporações bélicas. Washington quer recuperar o terreno perdido à força e acha, ainda, que pode ter retornos econômicos com isso - fora os lobbistas locais, que sabem bem o que estão fazendo dentro de sua atividade parasitária.

Quando falamos em Primavera Árabe, por sinal, falamos de um levante da multidão local contra uma forma de governança, independentemente de sua posição frente aos EUA ou ao globo. Isso explica porque houve levantes contra as ditaduras de Mubarak no Egito e Ben Ali na Tunísia - aliados do Ocidente - e, ao mesmo tempo, derrubou-se Kadafi na Líbia e ameaça-se com violência o clã Al-Assad na Síria.  

O que muda é a atitude americana frente a revoltas com motivações parecidas: enquanto na Tunísia e no Egito o processo revolucionário foi procrastinado - ou mesmo, no caso egipício, chegamos ao ponto de ver o apoio descarado a uma ditadura militar que serve, por sua vez, para tutelar o andamento das coisas -, na Líbia e na Síria, financiou-se mercenários contra os ditadores locais. 
   
Um fator importantíssimo que atravessa essa confusão toda é Israel. Quando falo em Israel aqui, não me refiro a judaísmo, sionismo ou nada do tipo, mas antes de mais nada ao complexo bélico-industrial local que capturou a política daquele país desde a primeira guerra do Líbano. O país é parasitado por aquele setor e essa percepção, finalmente, chegou à população israelense que se manifestou, massivamente, nas ruas há poucos meses, à moda de seus vizinhos árabes e dos europeus. 

Esse mesmo complexo-militar israelense encontra-se em xeque desde que foi contido, na última guerra do Líbano, por um estranho consórcio no qual as tropas do Hezbollah, apoiadas pela ditadura laica dos alauítas sírios e da teocracia xiita do Irã, conteve o exército de Israel impondo um limite para seu expansionismo. 

É o mesmo complexo bélico-industrial que, como nos prova Wikileaks, move mais os EUA do que lhe serve de tentáculo avançado no Oriente Médio. Ele precisa de uma guerra para dissolver tensões internas, a exemplo das potências mundiais pré-Primeira Guerra, e precisa parar o Irã que ameaça tirar seu monopólio nuclear na região - o que criaria uma paz armada que afetaria seus negócios. 

O clero de Teerã, quanto mais pressionado, mais avançará. Primeiro porque mesmo quando foi eleito um governo moderado, há poucos anos, liderado pelo reformista Mohhamad Khatami o Ocidente não demonstrou qualquer boa vontade em negociar. Depois, porque se ele parar agora com seu programa nuclear, não existe garantia alguma que o Ocidente cesse as hostilidades - onde estão as armas de destruição em massa de Saddam Hussein?

Aos russos a guerra assusta bastante. Não obstante seus problemas internos, a maior ameaça à estabilidade russa nos últimos vinte anos tem sido o Cáucaso e proximidades, seja a dura guerra na Tchechênia ou mesmo a perigosa aliança que a Geórgia fez com Ocidente - o que causou um confronto pesado, porém rápido, durantes os Jogos Olímpicos de 2008, com êxito para Moscou. Sem a presença de um governo confiável no Irã, a região fica mais exposta. Por mais que Teerã tenha uma posição ambígua, os persas não são aliados para se jogar fora, coisa que não poderia se dizer de um governo fantoche, naturalmente.

Tanto pela limitação de recursos humanos do lado de Israel, quanto pelos limitados recursos bélicos do Irã, é possível que uma guerra muito cruel seja deflagrada rápida e abruptamente na região. Ambos os lados precisam lançar mão de ataques duros que causem danos consideráveis no adversário. Com  a situação ainda nada estável do Iraque e, sobretudo, da Síria, não é exagero dizer que o conflito possa se espalhar pela região inteira.

Se em 2010, o Brasil de Lula e Amorim foi responsável, junto à Turquia, por adiar o conflito no Irã. Agora, o recuo da política externa de Dilma em relação a Teerã abre espaço para que o processo bélico avanço. Sem um esforço conjunto e transversal dos movimentos de indignados que lotam as praças do Globo - passando até mesmo pelos cadavéricos Estados-nação -, assistiremos a uma carnificina que sequer trará o lucro esperado para os seus idealizadores. 

O mundo globalizado não admite mais vitoriosos em guerras, pois nas guerras civis só há derrotados. O custo dessa farsa nos será muito caro.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

O Corpo, a Mulher, o Egito

Recentemente, a Revolução Egípcia se viu em meio a um furor que não tem necessariamente a ver com tanques na rua ou milhões de pessoas lotando uma praça: falo do gesto nada covarde de uma jovem ativista em postar uma foto sua, nua, em seu blog. Em cima disso, veio uma reação pesada de vários setores da sociedade egípcia; conservadores islâmicos atirando pedras, democratas dizendo que isso era danoso para a Causa e quetais. Isso ilustra muito bem a dinâmica das coisas no Egito e o tamanho dos problemas que vivem o país, para muito além de uma discussão sobre falta de eleições livres: é como se dá a constituição das relações de poder e sujeição lá dentro.

Em um primeiro momento é importante tentar ser, pelo menos, um não-hipócrita: cá no nosso Brasil, dito libertário e carnvalizado, se alguma blogueira fizer isso, certamente não passará por poucos problemas. Não dispomos autonomamentete dos nossos corpos, as mulheres (muito) menos do que os homens, certamente. O papel da mulher está menos  pior neste canto do mundo em relação às arábias? Talvez, como já esteve pior em certa parte da história, não somos especiais, a conjuntura que desfavorece menos as mulheres ocidentais tem pouco a ver com alguma práxis social iluminada, mas sim com muita luta e algumas contingências históricas que o Poder certamente não controla, nem é capaz de controlar.

Considerando, ainda, que apontar toda a problemática religiosa e/ou moralista no Egito não é, pelo apontamento dessas ambivalências, causa de qualquer desencanto: não há espaço para encantamentos e mistificações em relação a processos revolucionários, o problema é ser contra eles pelos motivos errados - o que é frequente. Só  uma mente torpe é possível imaginar uma revolução de contos de fada, revoluções são feitas de ambiguidades porque as pessoas de verdade são assim. Por fim, também não é o caso de dizer que transformações sociais para melhor só sejam possíveis no Ocidente, basta pegar o mesmo exemplo da participação da mulher em revoluções, e Olympe de Gouges não me deixa mentir, para saber que a conversa é outra.

Voltemos, pois, a Aliaa Elmahdy, a moça em questão. Uma jovem de vinte anos, com seus  olhos grandes e assustados, longos cabelos cacheados, de uma beleza comum. A nudez que ela compartilha é espontânea - e é perfeitamente a espontaneidade e a partilha que o poder, cá e lá,  não pode tolerar. O corpo não pode estar livre, não pode ser mostrado, se se rompe a ilusão de que realmente podemos fazer o quiser com ele - atearmos nele fogo, em uma situação limite, que seja, como no caso de Mohamed Bouazizi e seu providencial suicídio, do eventos chave da Revolução dos Jasmins na Tunísia.

A questão que a Revolução Egípcia, uma revolução de multidões no contexto de uma multidão de revoluções, é mais complexo que a mola mestra dos acontecimentos, a Tunísia: muito mais pobre do que a vizinha, o Egito possui menos organizações no qual uma revolução poderia se apoiar; enquanto tunisianos possuem, bem ou mal, sindicatos fortes, organizações estudantis capazes e um movimento hacker potente, os egípcios vivem às voltas com a ambiguidade das suas forças armadas (a mais poderosa organização do país), movimento islâmicos mais ou menos radicalizados em maior profusão - como forma de apassivamento da massa de explorados - e um cenário mais degradado.

Quem fez a Revolução no Egito? Jovens como Aliaa. Com menos apoio do que na Tunísia e vivendo lado a lado com organizações até ontem anti-Mubarak, mas que eram incapazes de articular qualquer reforma que fosse; todos partilhavam de tamanho imobilismo conservador que aderiram  à Revolução apenas no seu curso, felizes pela oportunidade e desesperados pela caixa de pandora libertária aberta - sobretudo em relação à condição da mulher. Nesse sentido, gestos libertários como esse marcam um corte importante: o Egito que alguns pretendem construir é o mesmo, só que com eles no comando. Mubarak é e sempre foi um títere, um Berlusconi árabe, o que se enfrenta realmente não é uma pessoa, muito menos a dele, mas um sistema.

Nesse sentido, não é de se estranhar que as Forças Armadas, sorrateiramente, tenham se apoderado do Estado e, como se nada estivesse acontecendo, começaram a pôr em prática uma ditadura militar. O exército de Tantawi, tão anti-sionista quanto consumidor voraz de armas americanas, segue na sua arrogância, produzindo mortes sobretudo nos últimos e agitados dias: com dezenas de mortos na Praça Tahrir, caíram os ministros civis do regime e agora pesa sobre os líderes do país o peso de realizar eleições.

As relações de poder que os revolucionários precisam desconstituir são poderosas e complexas ao extremo. Com ou sem as necessárias eleições. O pode que eles enfrentam só caiu porque foi surpreendido, seu tapete foi puxado de forma magnífica, deixando seus próceres e apoiadores mundo adentro em pânico. Mas a capacidade de reconstituição e rearticulação dessas forças é imenso, vide a situação atual. Em uma sociedade que pode nos investigar e encontrar em qualquer parte e de qualquer forma, o devir partisan passa por se mostrar mais ainda: como Wikileaks, ou o começa dessa história toda, prova, o sistema contemporâneo é tanto mais um vampiro do que qualquer outra coisa, incapaz de lidar com a luz sobre si mesmo ou sobre os nossos corpos e mentes.



domingo, 20 de novembro de 2011

Dia da Consciência Negra, Egito, Espanha

Um dia agitado. Enquanto no Brasil comemora-se o Dia da Consciência Negra, um feriado importantíssimo para resgatar parte fundamental da História - precisamente, a resistência do Quilombo dos Palmares -, o que, mesmo com todas as apropriações toscas e oportunistas, não pode ter seu valor diminuído: ele é parte importante das lutas do movimento negro que, nos últimos anos, conseguiu importantes vitórias, desde aprovar o mecanismo de quotas étnicas em várias universidades até construir a autoestima da população de fenótipo negro que, cada vez mais, se declara negra.

Enquanto isso, várias cenas se sucedem pelo mundo - duas em especial: a Junta Militar que governa o Egito resolveu dispersar os manifestantes - que reivindicam eleições livres - à força, o que dá mais e mais contornos de ditadura militar à anômica situação na qual se encontra o Egito pós-Mubarak; a direita pós-franquista está prestes a levar as (esvaziadas) eleições espanholas - dois episódios que ilustram a profunda tensão no Mundo Árabe e no interior da Europa e nos fazem pensar os rumos que o mundo toma.

O aparente paradoxo entre a reivindicação de eleições de um lado e o esvaziamento delas no outro se esvai rapidamente: em ambas estamos diante da mais intensa luta por liberdade. O problema é que a multidão nas ruas do Cairo compartilha alguma noção tática - é preciso tomar o Estado neste momento -, enquanto a multidão espanhola sabe o que não quer, mas o esvaziamento dessas eleições não deixa de ser preocupante: não, eles não deveriam mesmo apoiar o PSOE, o problema está em não ter construído uma alternativa para ele. E não é questão de salvacionismo, é de prudência mesmo: a aproximação de um horizonte verdadeiramente emancipador para o mundo não poderia vir desacompanhado do fantasma do fascismo - ou mesmo de uma nova (e última?) guerra mundial, como sugerem os tambores de guerra sendo batidos aqui e acolá.

Nada de meios e fins, pensemos nas causas e nos seus efeitos, sem teleologismos - esperancismos - e inconsequências pueris. A luta dos negros no Brasil entra nesse contexto como exemplo de experiência válida: cá, o devir negro veio acompanhado de um enorme devir partisan, é disso que precisamos nos investir quando pegamos as armas durante a nossa fuga: sentir a emoção intensa de resistir ao fascismo, devir táticos, devir estrategistas, construir uma práxis intensa que nos permita produzir alegria mesmo quando o próprio ambiente no qual ela pode ser produzida nos é negado - e o será, cada vez mais de agora em diante: pôr o partisan para sambar com o quilombola e, assim, tocar a bola adiante.


quinta-feira, 5 de maio de 2011

Osama, Kadafi e o Xadrez do Mundo Islâmico

Não é preciso ser muito perspicaz para perceber que há algo que não se encaixa nas versões da morte de Osama Bin Laden. De todo modo, o que importa é o ar farsesco do discurso do presidente americano Barack Obama sobre um episódio cujas cenas podem até ser incertas e duvidosas, mas o mesmo não se pode dizer sobre os excessos narrativos, uma clara hollywoodianização dos fatos com fins eleitorais. Dias antes, o assassinato do filho e de três netos do ditador líbio Muamar Kadafi, em mais um bombardeio da Otan sobre aquele país, não ganhou a devida cobertura.

Ambas as ações - perfeitamente conectadas quando se observa o desenvolver do jogo geopolítico no Mundo Árabe - são atos nos quais a superpotência americana, em sua decadência, agoniza desrespeitando as conquistas mais elementares do Iluminismo. Sim, mesmo os nazistas foram levados a julgamento ao final de Segunda Guerra Mundial e o assassinato de Bin Laden, em território estrangeiro e a mando do líder americano sem qualquer julgamento, foi um crime inequívoco, tanto quanto os que ele cometeu - muitos dos quais, aliás, graças ao treinamento e ao financiamento americano nos tempos da Guerra Fria quando eles eram aliados. 

No caso líbio, antes mesmo do assassinato brutal do filho e dos netos (todos crianças) de Kadafi, é bom lembrar que aquela própria guerra é, como nos lembra o sempre atento Tsavkko, uma ofensa à ordem internacional, na medida em que a resolução n. 1973 da ONU voltava-se para a criação de uma zona de exclusão aérea sobre o território líbio e a proibição de entrada de armas no país - ela jamais foi uma autorização para bombardeios massivos sobre a população civil tampouco disse respeito ao armamento dos revoltosos. 

Estamos diante de um retorno a Schmitt na medida em que, malandramente, o contrato foi suspenso e o soberano achou a desculpa que precisava para voltar a mandar e desmandar. A tentativa de construção de uma ordem internacional pacífica e cada vez mais integrada, mesmo com todos os seus percalços e falhas evidentes, neutralizou uma marcha rumo ao abismo que se desenhava claramente no século 20º. Uma vez implodido o poderoso Estado soviético e agonizante a tentativa de pax americana, os EUA se lançaram numa jornada tirânica que desequilibrou a geopolítica e a economia mundial.

O colapso das ditaduras da Tunísia e do Egito e o processo revolucionário em ambos os países neste ano esvaziaram, bruscamente, a relação de retroalimentação entre o imperialismo ocidental - e suas pequenas tiranias satélites - e os grupos terroristas que serviam de álibi para aquela forma de dominação - e vice-versa, pois esses próprios grupos também sempre se alimentaram das circunstâncias causadas por aquela forma de dominação -; de repente, surgiu uma multidão que já não mais se sujeitava ao discurso do déspota e os EUA viu-se sem chão - e o mesmo se pode dizer da própria e sempre superestimada Al-Qaeda.

Produzir uma guerra na Líbia foi a saída malandramente encontrada para que tudo mude sem nada mudar; derrubar uma ditadura agora amiga, mas pouco confiável serviu para construir um posto avançado para manter tropas capazes de suprimir desdobramentos mais libertários que os processos tunisianos e egípcios possam ter.  O assassinato de Bin Laden, nas condições ainda pouco claras e cercada pela nuvem pirotécnica obamista, trata-se tanto mais de um golpe de marketing eleitoral contra um adversário praticamente irrelevante para as pretensões americanas - mas não para as pretensões eleitorais democratas.

Obama que poderia representar o reestabelecimento de uma ordem contratual na comunidade internacional - que é tirânica também à sua maneira, mas não se iguala ao que vemos hoje -, simplesmente jogou pela janela as oportunidades que teve, uma consequência clara da chegada ao poder de um político jovem, sem o devido controle da sua máquina partidária e que, por sua vez, parecer desconhecer a verdadeira natureza dos problemas que deve responder. Sua reeleição, hoje, está praticamente garantida, uma vez que a retórica barulhenta e oca de Sarah Palin e do Tea Party foi abafada pelo acaso - o atentado contra a congressista democrata Gabrielle Giffords, alvo do mapa de Palin e vítima de um franco-atirador lunático, contagiado pela radicalização política local - e pelos efeitos da encenação da morte do vilão-mór - o que surtiu efeito junto ao eleitorado que ele precisa disputar.

No entanto, a governabilidade do país está cada vez mais ameaçada, seja pela maneira como a estratégia imperial americana tropeça nas próprias pernas ou pela forma como as causas da crise econômica não são enfrentadas - e ambos os problemas, curiosamente, se entrelaçam, a indústria parasitária da guerra está junto dos problemas econômicos do país, embora ambos aludam para um modelo de produção e consumo insustentáveis. A questão é que os EUA podem mesmo implodir levando o mundo junto ou não. 



sábado, 19 de março de 2011

Três Debates Estratégicos: Líbia, Comissão da Verdade e a Visita de Obama

Dilma e Obama em Brasília -- foto: Agência Brasil

Assim mesmo, tudo junto e misturado. Na última quinta-feirao Conselho de Segurança da ONU aprovou a Resolução nº 1.973 que, por sua vez, aprova o uso da força contra a Líbia, em virtude da violenta repressão da Ditadura Kadafi contra as forças rebeldes - o Brasil, enquanto membro eleito desse Conselho, se absteve junto com Rússia, China, Alemanha e Índia, sendo que os dois primeiros não utilizaram do poder de veto (que dispõem na medida em que são membros permanentes). Na última sexta-feira, o TUCA (Teatro da PUC-SP) recebeu a 48ª Caravana da Anistia, a primeira do atual Governo, contando, inclusive, com a presença do Ministro da Justiça José Eduardo Cardozo - também professor da Casa - que, após o evento, declarou à imprensa que o Governo está unido em relação à implementação da Comissão da Verdade - como este humilde redator testemunhou a alguns metros de distância. Hoje, o Presidente Americano Barack Obama, em visita ao Brasil desde ontem, discursou em Brasília ao lado da Presidenta Dilma Rousseff.

São três itens centrais que se relacionam entre si e dizem respeito ao novo momento do Brasil no mundo. Sim, o Brasil depois de Lula é um país importante, diferentemente do que era no fim dos anos 80 - quando México e Argentina ainda eram os países mais relevantes da América Latina - ou do que ele poderia já ter se tornado nos anos 90. Isso não quer dizer que nosso país não tenha problemas graves ainda: O fato de estarmos já na 48ª Caravana da Anistia e o legado da Ditadura não ter sido superado - diferentemente do que houve no Chile e na Argentina - é gravíssimo. Ainda assim, é preciso considerar que a fala de Cardozo durante sua exposição e, depois, na entrevista para os órgãos da mídia corporativa foi contundente e alentadora - além de suscitar certo respaldo do Palácio da Alvorada. Não, o Brasil não poderá ser o país importante que ele quer ser - e que o próprio mundo, neste momento crítico, demanda com urgência - se não superar de vez o legado presente de sua Ditadura, isto é, o que resta neste exato momento do refluxo reacionário que produziu o 1º de Abril de 1964 - tudo de ruim que a Ditadura poderia ter feito já passou, o que interesse são os efeitos presentes, a negação de abrir arquivos históricos, de punir torturadores etc. Isso não é revanchismo, dado que se refere a problemas que existem em ato. O mundo precisa de um Brasil forte, mas não de um Brasil covarde que se autoanistia de crimes contra a humanidade, é condenado pela Corte Interamericana de Direitos Humanos por conta disso e permanece inerte.

Por que o mundo precisaria tanto de um Brasil forte? Vejamos, a atual Crise Econômica Mundial expôs que o sistema econômico global é, na verdade, um gigantesco parque de diversões construído sob um pântano tenebroso, enquanto o fenômeno Wikileaks trouxe à luz, por sua vez, o fato de que o sistema político global, como não poderia ser diferente, é o Estado de Exceção de Agamben dito e feito. A União Europeia é um fracasso  - e a Rússia pós-soviética não é muito diferente, só que piorada -, o Japão se vê diante da iminência de uma hecatombe nuclear. O que resta ao mundo? Os EUA em crise, mas ainda imponentes com seu arsenal nuclear e sua presença imperial pelos quatro cantos - com algum eco libertário soterrado sobre os escombros do Iraque e preso entre as grandes de Guantánamo -, uma ascendente - e ditatorial - China, quem sabe a Índia e...o Brasil.

A humanidade, depois do Governo Bush Filho e da inércia de Obama vive a situação mais assustadora desde os anos 30. Ainda que se possa questionar bastante a atuação americana ao longo da segunda metade do século 20º, as atitudes tomadas nos últimos dez anos foram particularmente temerárias. A China, se muito, oferece apenas soluções para si mesma. O Brasil, portanto, é chave nesse processo em virtude de sua proposta de atuação não-belicista, favorável ao fortalecimento do sistema multilateral e cética em relação à gestão da economia mundial nos últimos trinta anos - o que produziu essa terrível crise econômica. Claro, a visita de Obama tem mais a ver com a necessidade dos EUA se apoiarem em um novo parceiro de peso - para sobreviverem - e, digo mais, com as próprias ambições político-eleitorais do Presidente americano - em suma, transformar essa aproximação com o Brasil em um fato político positivo para 2012, coisa que ele não foi capaz de fazer até agora por pura incompetência, sobretudo pela atuação ambígua de Washington no que se refere ao golpe hondurenho.

O Brasil precisa ser colocar como o fiel da balança da nova ordem, manter o diálogo produtivo e em posição de igualdade com os EUA - que não vai deixar de ser uma nação importante -, mas ao mesmo tempo manter a aliança com a China. O que nos interessa, enquanto brasileiros e seres humanos, é ver o Brasil contrabalanceando a China com o manutenção do diálogo com Washington e neutralizando os EUA com a manutenção da aliança com Pequim. Nesse sentido, a posição brasileira diante da invasão da Líbia - favas contadas desde que a insurgência contra Kadafi tomou corpo e ele preferiu destruir o próprio país a renunciar - foi correta; sim, Kadafi é um ditador insano e precisa cair; não, infelizmente, a intenção das potências que aprovaram o "uso da força" contra a Líbia são as mesmas que passaram os últimos anos alimentando toda sorte de ditaduras naquela região e, por sua vez, procuram neutralizar a todo custo as vitórias das mobilizações populares, grandiosas e intensas, que derrubaram as ditaduras de Ben Ali na Tunísia e a de Mubarak no Egito. Menos do que uma apologia à democracia, o Ocidente pretende estacionar tropas no Magreb para, digamos, negociar melhor a democratização da região. Nesse aspecto, refaço apenas as minhas críticas à posição tímida do Brasil frente à revolução tunisiana e egípcia. Agora, o álibi para a invasão ocidental na Tunísia é inevitável, o que resta é procurar a evitar que a futura presença militar da OTAN na Líbia não frustre a democratização de Tunísia e Egito.

É essa sensibilidade histórica que o Governo Dilma precisará ter: A luta pelo Brasil dar certo já não é mais apenas problema nosso, a humanidade toda depende disso.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

A Revolução Árabe: Líbia

Condolezza e Kadafi: A reabilitação (AFP)
Desde que esse processo revolucionário multitudinário tomou conta do Mundo Árabe com a Revolução dos Jasmins, insistimos por aqui que se referir aos atuais acontecimentos como fruto de mera degradação na condição de vida das pessoas, quem sabe uma consequência direta dos efeitos da Crise Mundial, trata-se de um equívoco fortíssimo. Não, nem a Tunísia, tampouco os países afetados pelo efeito dominó, são os mais pobres, desiguais ou politicamente opressivos do continente africano ou do mundo, embora eles sejam pobres, desiguais e opressivos. Antes de mais nada, é preciso ponderar o que disparou essa fantástica explosão do desejo e entender como ele interferiu no campo social - enfim, uma economia política formalista, incapaz de considerar o desejo, jamais será capaz de produzir uma análise precisa da questão. O fato é que mesmo que a Crise Mundial tenha agravado as condições de vida da região, fatores demográficos - que propiciam uma enorme quantidade de jovens naqueles países, por exemplo - e políticos - a irrupção, finalmente, de um modelo de militância capaz de fazer multidão, alternativo ao enferrujado nacionalismo árabe ou ao fundamentalismo islâmico e suas ambiguidades - conseguiram reverter um quadro que, há pouco menos de um ano, era de mais perfeita servidão. A Bola da vez é a Líbia: País com as melhores taxas de qualidade de vida da África - iguais aos dos melhores países latino-americanos -,  onde o extremismo religioso amarga a insignificância e, em relação ao qual os analistas internacionais supunham que jamais seria afetada pelas circunstâncias, agora se vê diante de uma revolução que vem a se unir com a multiplicidade de revoluções do continente. A tirania local, sob o comando do controverso Coronel Kadafi - ou Gaddafi, dependendo da transliteração -, é uma mistura do socialismo autoritário do Leste Europeu em moldes árabes com um bocado do nacionalismo nasserista e boas doses de histrionices que, neste exato momento, tem protagonizado a mais dura reação vista em relação à Revolução Árabe até o presente momento - ao mesmo tempo em que desmistifica a lenda da viabilidade da "boa ditadura", o regime opressivo que produz boas "condições objetivas" de vida. Se a História nos ensina que nenhuma forma de socialismo autoritário é sustentável - se é que podemos considera-las como um socialismo, haja vista que não são os trabalhadores que controlam os meios de produção nelas -, o caso em questão suscita reforça a natureza libertária do processo em curso: Embora a Ditadura de Kadafi tenha sido reabilitada pelo Ocidente - seja por ter aderido à Guerra ao Terror americana ou à repressão à imigração no Mediterrâneo ao lado dos europeus -, a revolta contra sua autocracia reforça que os árabes não estão mais dispostos a tolerarem nem o Imperialismo, nem as degenerações autoritárias "contra-hegemônicas" que surgiram em sua decorrência - reconciliadas ou não com o Ocidente. Se a situação de submissão real daqueles países no sistema internacional não será mais tolerada, também não há espaço para um novo Nasser (muito menos para um novo Sadat) naqueles países, o que é maravilhoso. Aqui, no entanto, o desafio dos revolucionários é enorme pela violência da repressão. Seja como for, nada será como antes e é isso que importa. 


domingo, 13 de fevereiro de 2011

Uma Revolução de Multidões dentro de uma Multidão de Revoluções

Um ramalhete, não uma flor*
é o que está acontecendo agora no Egito e pode acontecer na Argélia, mas também no Iêmen ou, quem sabe, em mais lugares do mundo árabe. A onda começou na Tunísia, como anotamos, onde alguns ciberativistas fizeram multidão e o gesto de sacrifício do vendedor de rua Bouazizi - também enfatizado por Diego Viana no Amálgama -, ao pôr fogo no próprio corpo, trouxeram à tona a nudez do Regime, cuja consequência não foi apenas a queda do ditador - seguida da luta que agora se trava pela democratização -, mas também um efeito que ecoou pelos seus vizinhos árabes: Mais importante do que a mensagem dos tunisianos para seus vizinhos, de que a ditadura e a submissão ao imperialismo não são mais aceitáveis, é o sentimento que partiu da Tunísia que realmente conta; tanto o sacrifício de Bouazizi quanto a ação dos ciberativistas produziram uma faísca que restituiu parte da vida daquelas pessoas, o suficiente para aqueles tiranos perderem a capacidade de entristecerem seus súditos, o que, como Spinoza nos ensinou, é fatal. Os eventos em tela colocam em xeque a Filosofia da Consciência - mesmo a libertária - na qual estivemos embebidos durante tanto tempo; embora pobres, aqueles países não são os mais pobres - nem os mais desiguais - da África, tampouco o que deflagrou o processo foi alguma massiva campanha de esclarecimento popular - como se a opressão já não fosse sentida nos corpos -, o que muda aqui, reitero, é o desejo revolucionário e como ele foi despertado aqui.

Como sabemos desde Platão, a Política é uma técnica no sentido antigo da palavra, o que, trocando em miúdos, trata-se de uma espécie de intervenção criativa do homem no seu ambiente - cujo fim atende à sua sobrevivência imediata ou não - por meio da qual ele amplia sua própria força, realizando necessidades suas que, no entanto, sozinho ele não conseguiria. A Política permite que nosso corpo se articule com tantos outros corpos e crie um corpo maior no qual o individual e o coletivo são as suas duas dimensões; A multidão feita na Tunísia produziu uma vibração que pôs o corpo da Tunísia em contato com os demais corpos próximos, afetando-os inexoravelmente. Aquilo que era uma Revolução de multidões na Tunísia deveio uma Multidão de revoluções, onde corpos gigantescos - co-habitados por corpos humanos - estão em ebulição, é o "Nós somos Um" gritado por muçulmanos e cristãos, unidos, no Egito. A esse respeito, cabe um mea-culpa da nossa parte: Tratamos a Revolução Tunisiana, a princípio, como Revolução do Jasmim, um equívoco, sem dúvida; não é uma flor, mas sim um ramalhete - como era um ossário e não um osso aquilo Jung viu no sonho, embora Freud insistisse no contrário -, falemos, portanto, em Revolução dos Jasmins a partir de agora. Compreender a multiplicidade aqui e a articulação da parte com o todo, é fundamental

O desafio tunisiano não será nada pequeno; sobre isso é importante ler o belíssimo Carta a um Amigo Tunisiano, onde o filósofo italiano Antonio Negri escreve a um ex-aluno, relembrando as conversas que eles tiveram, há vinte anos, sobre o país natal do segundo, suas dificuldades, suas potencialidades e a tarefa enormíssima de democratizar a Tunísia que se impõe no aqui e agora. Todavia, existe um vento que sopra a favor dos tunisianos e que corresponde à ausência de organizações políticas que se assentam sobre o extremismo religioso e, por outro lado, a força das organizações de estudantes universitários e de trabalhadores, cuja participação nesse processo foi decisivo. É verdade que o ditador foi-se, mas a velha elite segue dentro e às voltas do Poder e é forte, não nos iludamos, mas é bastante positivo que as organizações que se insurgem contra a Ordem sejam como são - sim, o processo tunisiano demorará anos e não será feito apenas de vitórias, ainda mais dentro dessa conjuntura mundial, mas ele caminha bem. Isso é um pouco diferente do Egito, onde o movimento revolucionário local conseguiu expulsar o ditador Mubarak há dois dias, como noticiado neste blog, mas apesar da força dos manifestantes, a presença de organizações fundamentalistas - logo, reacionárias e meramente golpistas, que se aproveitam desse momento enquanto parasitas para se apoderarem do Poder consiste em um desafio extra para a Revolução em curso, seja porque isso é vendido enquanto fantasma fora do país ou porque é, de fato, problema objetivo para os libertários do Egito.

Cristãos protegem muçulmanos na ora da prece
Como anota Slavoj Zizek, em recente artigo no Guardian - cuja versão traduzida pode ser encontrada aqui no Diário Liberdade -, o caso egípcio não se compara ao caso iraniano de trinta anos atrás: Enquanto lá o levante tinha um caráter islâmico com a participação de forças laicas - não custa lembrar que em 1978, comunistas e nacionalistas laicos eram minoria frente aos setores puramente religiosos e nacionalistas islâmicos -, no Egito, assistimos a um levante laico com a participação de grupos islâmicos radicais - e a presença de cristãos protegendo muçulmanos enquanto eles rezam nos parece um argumento razoável nesse sentido. Ademais, o pensador esloveno acerta belas provocações na sua fala, a primeira sobre a intraquilidade dos conservadores ocidentais, os arautos da civilização, diante dos protestos é marcante. Cá da nossa parte, acompanhamos Zizek e ainda acrescentamos: A situação atual chega a ser um golpe mais contundente para neoconservadores - e mesmo liberais - do que a Crise Econômica Mundial na medida em que a derrubada  de líderes "do tipo monarca" - e não os párias que eles forjam por meio do grande Consenso - somada aos seu temor inescondível em relação às reivindicações econômicas concretas dos manifestações produzem, irremediavelmente, um impacto maior do que a falência de intrincados programas econômicos. 

Comemoração da denúncia de Mubarak - Pedro Ugarte
Os setores americanófilos, seja na civilização ou por aqui, deliram até uma participação americana no bom andamento da Revolução - como se não estivéssemos falando de um regime como o de Mubarak, sustentado há trinta anos por subsídios bilionários vindos de Washington - ou como se essas preocupações com os rumos da "democracia" fossem críveis, como se o Egito não fosse uma Ditadura (como Zizek acentua) e, ainda, como se não fosse ridículo usar a existência da Fraternidade Muçulmana enquanto fantasma como se, olhem só que ironia, os Estados Unidos jamais a tivessem financiado para combater o nacionalismo laico de Nasser. As únicas pessoas interessados em vender a Revolução Egípcia como uma nova Revolução Iraniana, salvo equívocos de compreensão, são o próprio regime iraniano tentando se legitimar e os setores hegemônicos do ocidente tentando deslegitima-lo. Por ora, as forças revolucionárias estão em vantagem e algo novo e bom está em curso, como nos lembra o nosso amigo Bruno Cava.



*imagem retirada daqui


Atualização das 19:58: Segundo nos informa Juan Cole por meio do seu blog, a Constituição Egípcia foi suspensa pela Junta Militar que neste exato momento governa o país. Um ponto fundamental para se compreender os próximos desdobramentos da Revolução Egípcia é manter os olhos nos militares do país: Poderosa instituição política, destino de boa parte dos bilhões de dólares dos subsídios americanos, as Forças Armadas do Egito não reprimiram com força os manifestantes, mantendo sua popularidade alta enquanto Mubarak desabava por si só. Isso não chega, ao nosso ver, a ser uma ditadura militar; um golpe militar propriamente dito aconteceria se Mubarak tivesse sido derrubado por uma intriga palaciana com o apoio dos militares locais, não por milhões de pessoas nas rua. A questão aqui é outra, se o processo revolucionário será abortado pelos militares envolvidos no comando do país ou se eles apenas assumiram o controle da máquina respeitando a vontade da multidão, enquanto eleições livres não ocorram. Portanto, esqueça os fantasmas, a instituição que pode sabotar a democratização do Egito é as Forças Armadas.


sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

O Debate sobre Deus na Blogosfera e as Arábias

Manifestantes oram para Ala no dia da derrubada de Mubarak -- Pedro Ugarte/AFP

Recentemente, um debate interessantíssimo voltou a ser travado pela blogosfera sobre a questão religiosa e o ateísmo. O André Egg, por exemplo, tem publicado uma série de posts sobre isso que tem me chamado a atenção. Embora discorde de algumas colocações dele - algo perfeitamente compreensível pela nossa diferença de formação, André vem de um lar batista enquanto eu tive uma educação laica e não sou religioso -, eu concordo com a perspectiva que ele adota nesse debate: Calma gente, ninguém é dono da verdade nessa conversa toda. Não, os ateus não estão na mesma condição de pessoas que têm religião, eles são uma minoria oprimida, mas do mesmo modo que os eles não são inferiores aos religiosos pelo simples fato de não crerem em Deus, a recíproca também é verdadeira. Usar o cientificismo - e é assim que se chama a Ciência quando passa a ser usada como instrumento de veridicção e afirmação do Poder - como forma de atestar a "ignorância religiosa" é um erro grave e perigoso - por isso eu discordo da linha que um Dawkins assume como expus lá no próprio André, ela não apenas soa arrogante como passa batido pela questão central do extremismo religioso e promove um debate que é tão metafísico quanto o que condena, é evidente que por uma perspectiva materialista, a questão da religião não passa pela afirmação ou negação de Deus (o que Dawkins faz, inclusive, é afirmar pela negação). Em suma, a minha linha nessa conversa toda é mais ou menos a linha de um post que o NPTO escreveu há um tempo atrás - em relação ao qual eu concordo sobre a perspectiva em relação ao debate entre religiosos ou não religiosos, mas discordo quanto à avaliação que ele faz da participação dos religiosos na política, acho que o buraco é mais embaixo, afinal, o Estado é laico (o que não se confunde com ateu, mas também não significa religioso), o que é uma grande ficção, claro, mas tem uma utilidade prática importante. Por outro lado, alguns intelectuais ateus, de influência iluminista, não raro se amparam em certas muletas kantistas (que mal sabem eles, mas são mais teístas do que o Papa), assumindo uma concepção de tempo em linha reta onde a religião pertenceria ao velho, ao "atraso", o que é falso: A religião é fenômeno social e político que existe em ato, mesmo o religioso mais radical e aparentemente atrasado é um fenômeno atual, ou seja, um amish é um amish de 2011, sua identidade religiosa é determinada pelas relações econômicas e sociais que atuam no aqui e agora - atribuir ao amish uma identidade um anômala em relação à História é, sobretudo, conceber a possibilidade de uma identidade cultural transcendental, em outras palavras, é quase beijar a religião que aparentemente se renega. A minha posição pessoal nessa conversa toda, claro, é de que não existe mesmo um Deus pessoal como na Bíblia, o que não quer dizer que Deus não exista: Existe, enquanto alguma coisa, real ou abstrata - a própria natureza, uma personagem ficcional etc - e que, de algum modo, produz transformações práticas. Mas não é apenas isso que me faz não me declarar como ateu, mas o fato de não aceitar a maneira como aparato institucional monoteísta põe a questão - desproblematizando-a, aliás -, em suma, eu me recuso solenemente em ser uma negativa de uma dicotomia que eu não considero como válida. É essa linha que uso quando eu analiso questões como a do extremismo religioso no Maghreb por aqui - por isso, inclusive, eu entrei nessa polêmica com o Daniel Lopes -: Religião - e seu eventual extremismo -, ao meu ver, trata-se de um fenômeno social e político atual, cuja relação com o sistema econômico e político vigente deve ser analisada, o que, a julgar pelos números de crescimento do extremismo islâmico junto da penetração do Capitalismo por lá ao longo do século 20º, não apontam para uma oposição entre o Capitalismo - e a esquizofrenia que parte do centro para a periferia, de um modo que hoje em dia nem se sabe mais o que é centro ou periferia -, mas o exato inverso; como ordens políticas ditatoriais a serviço do sistema capitalista internacional usaram a religião como instrumento de "pacificação" da classe trabalhadora local e, no fim das contas, acabaram perdendo o controle (o Irã que o diga) da situação. Também não podemos confundir  os religiosos não-extremistas articulados na sociedade civil - isto é, a grande maioria das pessoas religiosas - com defensores da teocracia, ou melhor, podemos fazê-lo tanto quanto  acusamos os democratas-cristãos europeus de defenderem uma Teocracia quando vão às urnas.

P.S.: Finalmente o ditador Mubarak renunciou e foi-se embora do Egito. Sua figura pessoal simplesmente implodia qualquer possibilidade de negociação pelo alto, com fins gatopardianos, como pretendiam os setores situacionistas do Egito e os EUA: Algo precisava mudar para que nada mudasse, esse algo não poderia ser apenas Mubarak no fim do ano, mas, quem sabe, logo agora. Evidentemente, não deixa de ser uma vitória do movimento revolucionário, mas trata-se de uma batalha vencida, não da própria guerra. Agora, mais do que nunca, é preciso se mobilizar, pois a falácia de que não há mais problemas porque o ditador foi embora certamente será usada para operar uma saída "razoável": Foi-se o ditador, mas ficou a ditadura (nos aparelhos e respirando com ajuda, mas ficou), ainda nem começou a transição e há muito o que se fazer tanto lá quanto na Tunísia.

Atualização de 13/02 às 01:10: Interessante - e estarrecedor - este texto sobre a relação entre a Fraternidade Muçulmana e os Estados Unidos - que eu pesquei lá no excepcional Outras Palavras. Só confirma aquilo que temos sustentado por aqui: A relação causal entre a atuação do sistema global e o crescimento do fundamentalismo islâmico, às vezes de uma forma até mais direta do que pensamos.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

A Posição do Brasil diante da Revolução Árabe

O Chanceler Patriota em Caracas/ Reuters
É certo que a cautela, em matéria de relações internacionais, é o seu princípio primeiro, mas isso não se confunde com omissão. A posição da diplomacia brasileira quanto à confusão no Mundo Árabe não é boa, ela é terrivelmente evasiva. Uma coisa é não interferir na política interna alheia, outra é silenciar diante do descalabro. É uma linha tênue, mas é preciso saber diferenciar as coisas. Não, antes que se diga, não há simetria alguma entre este momento com a questão do Irã, quando o Brasil se eximiu de tomar posição nos protestos que tomaram o país diante do fato de Mir Moussavi ater alegado que a vitória de seu rival, Mahmoud Ahmedinejad, tinha sido fraudulenta: Por mais provável que fosse aquela afirmação, como dizíamos à época por aquiqualquer uma das variáveis não era boa, haja vista que qualquer um dos desdobramentos possíveis daquela situação não resultaria em uma democracia efetiva no Irã, sendo ambos favoráveis à Teocracia - uma aristocracia, na prática. Não havia motivo para tomar partido, ainda mais com Moussavi manipulando a seu favor interesses imperialistas do Ocidente. O momento atual é delicadíssimo, mas a eclosão das revoltas na Tunísia, cujo resultado foi a Revolução do Jasmim, surgiu de uma onda que é, frise-se, o maior movimento libertário e secular já visto no Mundo Árabe. O quadro atual naqueles países é de pobreza e opressão agudas, causadas por tiranias particularmente ineficientes e cruéis, todas a soldo do Ocidente, cujo destino é, cedo ou tarde, serem derrubadas por religiosos extremistas - os mesmo que se multiplicam a partir do messianismo religioso alimentado por aqueles mesmos regimes para, vejam só, pacificar as populações locais e não se confundem com a sociedade civil organizada nas ruas nesse momento. Grande parte do esquema europeu e, sobretudo, americano passam por aquelas ditaduras, fenômeno que se deve à incapacidade e covardia dos representantes do mundo civilizado em negociarem uma nova ordem mundial - o que fatalmente acontecerá, seja para melhor ou para pior -; falamos de um pilar de uma ordem que, a bem da verdade, não nos parece muito favorável, tampouco para o desenvolvimento da humanidade. Sim, o Brasil deve ser cauteloso, mas isso não se confunde com deixar de tomar posições mais claras e assertivas em apoio àqueles manifestantes que estão testemunhando com seus próprios corpos suas convicções libertárias.

Atualização das 00:03: Como o Guilhermé nos lembra lá embaixo, o Brasil recentemente reconheceu o Estado Palestino, um ato ímpar de grandeza e coragem que provocou um efeito dominó no continente - gerando reconhecimentos vários, inclusive do governado conservador do Chile -; não me venham dizer que isso não é uma declaração delicada, porque ela é - na mesma intensidade que é justa. Isso só torna mais incompreensível ainda uma posição mais clara no caso magrebino.

domingo, 30 de janeiro de 2011

Egito: ElBaradei, os EUA e a Ordem Global

El Baradei na Praça da Libertação - Al Jazeera, tirada do live bloggin do Guardian

O Egito segue agitado, milhares de manifestantes continuam, neste exato momento, na Praça Tahrir - curiosamente, a Praça da Libertação -, o centro nevrálgico do Cairo, onde ficam o Museu Egípcio - que foi depredado no tumulto -, a sede do partido da ditadura - agora, felizmente, os destroços dele - e a sede da Liga Árabe, entre outros edifícios proeminentes. Eles exigem a renúncia do Ditador Hosni Mubarak, passo essencial para a democratização do país - e Mubarak, aliás, é alguém que está no poder desde que o General Figueiredo era nosso Presidente, portanto, muito antes deste humilde redator nascer e o mesmo, suponho, vale para a maior dos leitores deste blog. Na noite de sexta, Mubarak praticamente coordenou seu pronunciamento oficial com o de Obama em Washington (e o "praticamente", aqui, é um eufemismo diante de toda essa farsa): Sua fala, diversionista, defende seu governo, traz a promessa de endurecer com os manifestantes - como se isso já não estivesse acontecendo -, enquanto o discurso de seu aliado, Obama, passou por genéricas reformas democráticas e pela defesa dos direitos humanos (tudo isso em relação a uma Ditadura esclerosada que ele não deixou de conceder uma ajuda militar bilionária durante os  mais de dois anos de seu governo). 

Até agora, a única reforma democrática que vimos foi a risível nomeação de Omar Suleiman para vice-presidente (cargo até então inexistente), a típica coisa que por qualquer lado que se olhe é completamente absurda: Como bem anota Robert Fisk, trata-se do septuagenário chefe do serviço secreto egípcio, contato-mor com Israel, em suma, uma atitude que além de não ajudar a Ditadura em nada, ainda põe mais lenha na fogueira das manifestações, dado o fato dele ser uma figura naturalmente odiada no país. Por outro lado, aportou no Cairo, Mohammed ElBaradei, Prêmio Nobel da Paz em 2005 e ex-diretor geral da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), cuja atuação naquela organização  foi marcada por ter denunciado que os documentos que diziam que o Iraque adquiriu armas nucleares eram falsos - o que, naturalmente, causou toda uma animosidade com a administração Bush, embora suas posições passem ao largo de serem anti-ocidentais. Sua presença na própria Praça Tahrir conclamando as massas a continuarem o que começaram é mais um importante fator de pressão - ElBaradei é uma voz respeitada dentro do Egito -, o que, junto com a presença de veteranos da Guerra de 67 contra Israel nos protestos, gera um clima de pressão enorme, sucedido inclusive pela convocação de uma greve geral no país. Apesar dos riscos todos e da imprevisibilidade dos eventos, é fato que a ditadura Mubarak foi ferida de morte, a questão é que sua queda o mais breve possível é importante para a concretização de um regime verdadeiramente democrático ao contrário de uma saída gatopardiana - que deve estar na cabeça dos estrategistas de Washington e que estava na fala de Obama. A julgar pelo engajamento massivo da sociedade egípcia, as chances de uma saída secular e, ao mesmo tempo, autônoma aumentam consideravelmente - nesse sentido, ElBaradei pode ser uma chave importante.

Os atuais eventos no Egito e no Mundo Árabe, aliás, são um atestado de que a ofensiva imperialista americana iniciada por Bush Filho em 2001 - e mantida inercialmente por Obama - entrou em colapso. Se  a  política externa americana estreada no Congresso Berlim-África (foto) de 1884 - primeiro fórum internacional de relevo do qual os americanos participaram - era caracterizada por feições peculiares - o controle de pontos estratégicos de acesso para mercados no lugar do controle de enormes territórios e populações e, também, a dominação indireta por meio de aliados -, isso não quer dizer que ela deixava de ser uma espécie de Imperialismo, embora isso também não seja igual ao que é tocado há dez anos: Essa política externa americana tradicional só foi reforçada por Roosevelt, mas é Bush Filho que irá altera-la, lançando-se em uma ofensiva direta e belicosa pelo Oriente Médio - talvez ressentido pela forma como o imperialismo americano tradicional não conseguia reverter uma curva onde a economia americana perdia importância relativa ao Globo. Isso pouco tem a ver com o 11 de Setembro, não custa lembrar que das primeiras atitudes de Bush foi bombardear o Iraque ainda em 20 de Janeiro daquele ano, portanto, bem antes do atentado em Nova Iorque. Seja como for, Bush e o establishment americano subestimaram a capacidade econômica do país e desequilibraram o sistema econômico mundial com esse movimento, o que, junto com a farra de desregulamentação do sistema financeiro e certas idiossincrasias do Capitalismo - a saber, o velho problema da realização do valor - causaram a atual guerra. A ascensão chinesa, a desvinculação da maior parte dos países latino-americanos da sua esfera de controle e, por fim, o desabamento das ditaduras mediante as quais ele controla o mundo árabe são sinais claros de que ou essa insanidade é cessada agora - em prol da construção de mecanismo multilaterais efetivos - ou os EUA assistirão ao agravamento de seus problemas econômicos e políticos nos próximos anos - quem sabe, levando todo o mundo junto.

P.S.: A Internet segue controlada no Egito, enquanto isso, a Al Jazeera (que está dando um show de cobertura) teve seu sinal cortado no Egito assim como repórteres da Telesur foram expulsos do país.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Depois da Tunísia, o Egito

A Multidão e a Polícia no Cairo 

O processo de descolonização do Norte da África e do Oriente Médio, coincide, a grosso modo, com um período de desmonte do Império Otomano e a ascensão dos Estados Unidos enquanto a grande potência econômica mundial. Washington opta por uma política de interferência permanente naqueles jovens Estados, geralmente por meio de aliados locais - quase sempre ditadores - e do controle direto de pontos estratégicos, com direito a incursões militares, em suma, imperialismo à americana em profusão por conta da localização estratégica de vários daqueles países e, claro, da existência de petróleo neles - o ouro negro, combustível da máquina capitalista americana. Instituições frágeis são subornadas, corrompidas ou simplesmente derrubadas por meio de golpes de aliados seus, autoritarismos amigos são erigidos e omissões honrosas escondem párias ou buscam justificações perversas para seus regimes. 


No entanto, algo está mudando no mundo e muito rápido: Se por um lado, a decadência gradual dos Estados Unidos - que se verificava pela queda da importância relativa do seu PIB em relação ao mundo - foi mascarada pelo colapso soviético, por outro lado, os Governo de Bush Filho e o de Obama trataram de acelerar o processo, às custas de irresponsabilidade econômica e decisões geopolíticas desastrosas. Isso muda completamente o jogo da geopolítica internacional e a hegemonia americana é abalada; se tivemos mudanças importantes na América Latina na última década, hoje, a grande região que inclui o Magheb e o Oriente Médio sente novos e bons ventos soprando: Somada à decadência dos americanos, a degeneração dos regimes que lhes são fiéis, o avanço tecnológico e o aumento da organização dos movimentos sociais naqueles países estão minando o esquema de Washington. 

Tunísia
Os eventos de Dezembro do ano passado colocaram abaixo o Ditador Ben Ali na Tunísia na chamada Revolução do Jasmim afetam todo Norte da África. O processo revolucionário tunisiano, aliás, em muito lembra a Revolução dos Cravos no Portugal nos anos 70, seja pela derrubada de um regime obtuso que era tratado com eufemismos pelas potências ocidentais devido à sua lealdade, quanto pela complexidade do processo - é provável que ele demore anos - e até por certas coincidências como, por exemplo, os insistentes boatos ecoados sobre os riscos do fundamentalismo islâmico tomar o controle da situação - algo parecido com o que se fazia no Portugal dos anos 70 em relação ao Comunismo -, quando, na verdade, o grande risco é mesmo dos integrantes do Velho Regime conseguirem neutralizar os efeitos da insurgência. Outro paralelo importante, é o quanto essa Revolução refletiu a realidade de uma região inteira, uma reivindicação que mais do que política, é geopolítica - e em certa medida, até cosmopolítica. Como dito, os efeitos da Tunísia se espalharam pelos seus vizinhos - e aqui, falo de Egito e Argélia fundamentalmente, mas isso tem desdobramentos agora sobre o Iémen e o Líbano.

Pois bem, hoje, o Cairo segue em plena ebulição, enquanto as coisas estão quentes na Argélia também. Como o Tsavkko lembrou bem, embora estejam no mesmo plano e sejam vizinhos, é necessário pontuar que as sociedades egípcia e argelina não são laicas com a da Tunísia. De fato, existem grupos religiosos importantes e beligerantes como a Irmandade Muçulmana no Egito e a Frente Islâmica de Salvação na Argélia, o que é um considerável combustível de risco - e o que pode, de fato, dar um caráter diferente para eventuais derrubadas dos regimes locais. Claro, isso não esgota, de modo algum, a legitimidade das reivindicações contra os regimes de Mubarak no Egito ou de Bouteflika na Argélia, mas apenas apresentam sim um fator de risco real inerente à sua eventual  (e quem sabe necessária) derrubada. 

A batalha campal do Cairo (Tahrir Square) 
O que estamos vivendo exatamente agora é um verdadeiro clima revolucionário no Egito: Dezenas de milhares de pessoas estão nas ruas do Cairo, o toque de recolher foi decreto, há violência policial, a sede do partido do governo foi saqueada e há um risco claro e iminente de queda do regime de Mubarak, o que deixa Washington em polvorosa: Não falamos de um país relativamente pequeno como a Tunísia, mas de um aliado estratégico de grande porte que recebe uma ajuda militar enorme. Palavrinhas como Canal de Suez e Israel devem estar tilintando na cabeça das lideranças americanas neste exato momento. O fato é que a multidão está nas ruas e ninguém tem controle da situação, mas pelo menos graças a cobertura da Al Jazeera - para variar - não estamos completamente cegos em relação ao que realmente se passa agora no Cairo, embora a torrente de informações que chega até nós seja fabulosa e enebriante.

Cairo -- Tahrir Square
Trata-se, com efeito, de um momento espetacular: A História pulsa intensamente viva depois de a terem declarado morta, tesa e dura, não tem nem um quarto de século. Os desdobramentos desse eventos são surpreendentes e se projetam para o Leste e também para o Sul. A hesitação de Obama em aceitar a nova - e desfavorável - situação geopolítica americana para, assim, poder negociar uma nova ordem mundial multipolar não evitou, naturalmente, que as mudanças necessárias se operassem por vias outras. O resultado é semelhante - e em larga escala - ao que se viu no Leste Europeu nos anos 80, só que em larga escala: Uma potência hegemônica que perdeu a sensatez e o substrato moral assistindo à derrocada do seu controle do espaço por conta da multidão nas ruas. É um momento revolucionário e, como tal, nos reserva uma miríade de desdobramentos possíveis para tão logo. Fiquemos à espreita.

*imagens de Fethi Belaid/AFP (foto 1)  Mohamed Abd El-Ghany/Reuters (foto 2) e Mohammed Abed (AFP) (fotos 3 e 4) -- retirado do álbum do Boston Big Picture sobre o Cairo e a insurgência no Maghreb e no Oriente Médio onde você pode encontrar outras belas fotos dos fatos.

Atualização (19:02): Assistam à Al Jazerra em inglês. O bicho tá pegando.