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domingo, 11 de julho de 2010

Notas da Copa: Espanha campeã

(foto retirada daqui)

A Espanha foi campeã mundial hoje na final contra a Holanda. 1x0. Jogo duro, marcado, parelho como já era de se esperar. Foi o melhor jogo da Holanda na Copa, embora ela tenha batido - e batido muito. A Espanha, novamente, jogou muito bem, desfilando sua excelência técnica e, em muitos momentos, demonstrava uma vontade de vencer sem par neste Mundial. Vontade. Acho que essa foi a palavra chave para o título mundial dos espanhóis, mais do que o equilíbrio do time e sua qualidade técnica. Vontade, fome de vitória, disposição. Isso explica porque mesmo uma defesa com sérias limitações como a sua fez uma copa dessas. Como o meio desfilava em campo. Como o ataque, mesmo longe do brilhantismo da Euro 08, se superava.

No jogo de hoje, a Holanda encaixou perfeitamente a marcação: Van der Wiel marcava Pedro, um Villa, novamente como centroavante, se perdia no meio dos esforçados Heitinga e Mathijsen, Van Bronckhorst marcava de perto Iniesta, De Jong e Van Bommel marcavam Xavi e Xabi Alonso. Tudo isso para deixar Sneijder e os três atacantes jogarem. Mesmo com um bom início espanhol, uma boa defesa de Stekelenburg, a Holanda equilibrou o jogo devagarinho e chegou pouco a pouco perto do gol, demonstrando a inteligência que lhe colocou na final. Se sobrava engenho, lhe faltou arte. O primeiro tempo vira 0x0 sem o dez laranja brilhar, com Robben perdido pela direita, Van Persie perdido em meio aos zagueiros e Sergio Ramos dando tamanho baile em Kuyt que chegava a conseguir subir ao ataque. A Holanda, no entanto, se afobava em lances bobos e tomava amarelos às pencas.

O jogo recomeça no Segundo Tempo com a mesma tônica. Times encurtando o gramado. A Holanda fazendo muito bem linha de impedimento. Navas no lugar de Pedro fazendo às vezes de ponta direita deu novo gás ao jogo espanhol. Iniesta cresceu. Villa continuava mal - talvez o grande erro de Vicente del Bosque foi insistir com ele como comandante de ataque. Sneijder não aparecia muito, mas quando aparecia, era cortante. As duas melhores chances do segundo tempo foi uma enfiada de bola genial de Sneijder para Robben perder - sim, foi ele que perdeu, apesar da boa saída de Casillas, grande Casillas -, depois o ponta-direta perdeu lance parecido, ganhando na correria dos zagueiros espanhóis para perder na cara do gol. Fim do tempo normal, prorrogação. Jogo igual. O técnico holandês resolve ousar botando Van der Vaart e transformando assim seu 4/2-3/1 num 4/1-3/2. Foi a primeira vez que Bert van Marwijk pareceu um técnico holandês na Copa. O time saiu para ganhar, correndo o risco de tudo perder - e foi o que aconteceu: Heitinga tomou o segundo amarelo, arrebentou com o esquema e a Espanha começou a ameaçar mais, até que Iniesta fez, no segundo tempo da prorrogação, o gol do título. Título espanhol.

Honestamente, continuo não achando a Espanha um super-time - ela assim como a Itália de quatro anos atrás não foram melhores do que o Brasil de Felipão, que mesmo não sendo nenhum esquadrão, foi um excelente campeão, nem muito menos que a França de 98, só pra ficar em campeões recentes. Ainda assim, a Espanha é de fato o melhor time do mundo. Não brilhou tanto aqui quanto na Euro, mas venceu com méritos e o título, apesar das dificuldades, nunca saiu muito da sua mão.

sábado, 10 de julho de 2010

Notas da Copa: Análise da Final























Amanhã, às 15:30, horário de Brasília, Holanda e Espanha disputarão a final da Copa do Mundo. Como já dito aqui é uma final inédita em vários sentidos.Tratam-se de duas importantes escolas do futebol europeu que fracassaram em decisões ao longo do tempo. A Espanha, sem dúvida, muito mais que a Holanda. Essa é a primeira final espanhola contra a terceira final holandesa. Ambas fizeram campanhas lapidares nos últimos quatro anos, sendo que a Espanha, inclusive, é a atual campeã europeia, enquanto a Holanda tombou nas quartas-de-final daquele torneio.



A Espanha sempre pagou o preço das suas intempéries  políticas, seja do seu processo de unificação ou, mais especificamente, quando o grau de violência teve uma escalada ímpar a partir da sanguinolenta Guerra Civil dos anos 30 que resultou em décadas de um regime fascista, cuja existência tardia se sustentava em um nacionalismo madrilenho que oprimia as diversas outras etnias que vivem em seu território. As feridas permaneceram e permanecem em aberto, com muitas vezes o futebol servindo para a afirmação política de certos grupos. Durante o fascismo, o único modo dos catalães expressarem sua cultura era torcendo e financiando o Barcelona. O Real Madrid, era o time que simboliza o poder central. A rivalidade entre ambos, superava, certamente, o que havia nas quatro linhas e se refletia na possibilidade de existir um time unificado da Espanha que funcionasse. Ainda que a duras penas e de modo acidentado, a integração entre as várias nacionalidades que vivem em território espanhol evoluíram sob a égide das eleições livres, do europeísmo e de progressos - ainda que questionáveis - nos instrumentos políticos de respeito às culturas locais. A base desse time espanhol é o Barcelona e boa parte desses jogadores são catalães. Nem o Barça, perdeu sua função junto à nação catalã, mas, de modo impensável, anos atrás, serviu de base para a seleção espanhola.


A Holanda, por sua vez, não era um futebol relevante na Europa até os anos 70. Muito embora não se tenha notícias de grandes conflitos internos no país, ele foi um dos que mais sofreram durante a Segunda Guerra Mundial. Sua destruição quase que total marcou o surgimento de um novo país, no qual, antes e mais do que qualquer outro país europeu, cresceu uma cultura laica e progressista - a Holanda foi o primeiro país onde houve algo que se pudesse chamar de tolerância religiosa e muito da sua organização político-social influenciou o que veio a ser os Estados Unidos, essas mudanças nada mais fizeram do que contemplar algo que estava em suas origens. O futebol holandês se destaca quando da revolução tática e física pela qual passou o futebol europeu; mais do que a evolução da medicina esportiva e da tecnologia, esse salto se deu sob o impacto da superioridade técnica que a Seleção Brasileira desfilou nos gramados em 70. A partir dali, o futebol nunca mais foi mesmo. E os holandeses saíram na frente. O time de Rinus Mitchel era algo muito a frente de seu tempo e, infelizmente, perdeu duas decisões contra os dois anfitriões - respecitivamente Alemanha Ocidental em 74 e Argentina em 78.


Time por time, o retrospecto nos últimos quatro anos é bastante alto: O espanhóis chegaram à Euro 08 com 77% de aproveitamento, foram campeões daquele torneio empatando apenas um jogo - contra Itália, a quem derrotou nos pênaltis -, mas foram eliminados pelos EUA na semi-final da Copa das Confederações, ficando com o terceiro lugar do torneio. Venceram todos os jogos das eliminatórias da Copa. Agora, na África do Sul, sofreram um  revés inesperado logo na primeira rodada, na derrota para a Suíça (1x0), mas venceram os outros cinco jogos - ainda que só um por mais de um gol, contra Honduras (2x0) -, fez 7 gols e tomou 2. A Holanda se classificou para a Euro 08 com 72% de aproveitamento - mas ficou em segundo lugar no seu grupo, atrás da Romênia, a quem superou no seu próprio grupo na Eurocopa -, venceu todos os jogos da primeira fase na Eurocopa, mas sofreu uma inexplicável derrota para a Rússia de Arshavin nas quartas-de-final (3x1). Nesta Copa venceu tudo que disputou, marcando 12 gols e tomando 5.


O time espanhol, na atual Copa jogou todos os jogos no 4/2-3/1, alternando mais para um 4/3/3 do que para  um 4/5/1. Casillas foi o goleiro, perfeito no gol, tomando apenas quando da falha de Piqué contra a Suiça e de um chute de fora da área do Chile - que resvalou ainda na zaga -; Sérgio Ramos e Capdevilla são os laterais e compensam suas limitações jogando para o time e atuando na marcação, no miolo de zaga, Piqué e Puyol fazem o mesmo e ambos têm jogado melhor do que poderia se imaginar. Busquets foi o primeiro-volante de forma sóbria enquanto Xabi Alonso - alternando como um segundo-volante e um meia-armador - e Xavi - o maestro do time - marcaram o compasso da equipe com boa qualidade no passe, disciplina tática e ofensividade. Na frente, tivemos uma configuração consideravelmente mais rotativa, sempre da direita para a esquerda como centroavante no meio, contra a Suíça o ataque foi Silva-Villa-Iniesta, contra Honduras Navas-Torres-Villa, contra o Chile Iniesta-Torres-Villa, nas oitavas no clássico contra Portugal o time alternou um pouco no 4/4/2, mantendo Iniesta-Torres-Villa e recuando o primeiro para o meio de vez em quando, contra o Paraguai novamente Iniesta-Torres-Villa e, por fim, no jogo contra a Alemanha Pedro entrou pela ponta-esquerda para tirar a responsabilidade de Villa acompanhar Lahm, deixando-o no comando de ataque - onde não rende tão bem -, enquanto Iniesta repetiu a função de ponta/exterior-direito do jogo contra Portugal. A experiência mostra que o ataque mutável e mutante da Espanha dependeu demais de Villa, o time cria, cria e cria, mas depende na maior parte das vezes da conclusão ou da assistência do atacante - a exceção à regra é o último jogo - e ele rende bem melhor como ponta-esquerda, vindo de trás e entrando em diagonal. Se Fernando Torres seria uma escolha lógica para centroavante, sua atual fase o desabilita a tanto. Iniesta, ainda que não tão cortante pela direita, traz mais inteligência para o ataque. Fala-se que Vicente del Bosque irá entrar com o mesmo ataque do jogo passado - Iniesta-Villa-Pedro -, mas não me parece muito certo. A equipe, via de regra, está apresentando mais estabilidade defensiva do que poderia se supôr, o meio apresenta um toque de bola refinado, mas o ataque está dependendo demais das atuações individuais de Villa - que, quando não anotou, criou problemas.


A Holanda, inventora do 4/2-3/1 joga nesse sistema como ninguém, só que com que uma proposta muito mais operária do que ofensivista - como ainda era há dois anos atrás. Nada de perder jogando bonito, o objetivo é levar a Taça - essa é proposta de jogo de Bert van Marwijk. Stekelenburg faz uma boa Copa, apesar das falhas do último jogo contra o Uruguai, mas não tem uma defesa tão segura quanto a de Casillas. Pelas laterais, Van der Wiel sempre foi sóbrio na marcação, sem mais ímpetos ofensivos - mas teve sérias dificuldades contra Robinho, no primeiro tempo contra o Brasil - e Boulahrouz é o mesmo, Van Bronckhorst pela esquerda compensa suas limitações com sobriedade e experiência e fez um golaço contra o Uruguai, no miolo de zaga, a velha prática - nem sempre bem-feita - de fazer linha é a marca de defensores baixos, sem muita impulsão e que já falharam bastante neste Mundial: os titulares foram Heitinga e Mathijsen, mas Ooijer jogou contra o Brasil. No meio, De Jong e Van Bommel são os dois cães de guarda e suas atuações tem sido eficientes, mas nada espetaculares. Sneijder é o diferencial do meio - e do time: Meia completo, sabe como ninguém armar o jogo, distribuir a bola, fazer lançamentos e ainda chegar de trás como um meia-atacante. No ataque, Robben voltou, atuando bem pela ponta-direita, mas fazendo lances surpreendentes e gols, junto com ele jogam Van Persie, que faz o mais uma função de pivô do que de centroavante e Kuyt, pela ponta-esquerda, que compensa a falta de técnica com muita entrega em campo.


Ainda que o desempenho holandês nesta Copa seja melhor do que o da Espanha, sinto mais firmeza do time ibérico. Quando ele realmente precisou jogar, ele jogou - e venceu. Isso não quer dizer que a Holanda não tenha jogadores que não possam desequilibrar, mas no conjunto, a Espanha vence. O problema, claro, mora no fato que até agora ninguém parou Sneijder e Robben e que os gols laranjas não dependem apenas dos pés deles - enquanto a Espanha prossegue com seus problemas ofensivos e a dependência do excepcional David Villa. A aposta d'O Descurvo é na Espanha - ainda que o futebol holandês mereça muito um título mundial, não sei se o time atual faça jus a tanto.


P.S.: Decisão de terceiro lugar sempre é complicado, a Alemanha é muito mais time, mas o Uruguai está mais animado. Pela prostração do time alemão ao fim do jogo contra a Espanha, eu fico mais com o Uruguai.

terça-feira, 6 de julho de 2010

Notas da Copa: Holanda na Final

(será?)

Hoje, a Holanda de Bert van Merwijk chegou à final da Copa ao derrotar o bravo Uruguai por 3x2. O futebol da Laranja se mostrou, novamente, mecânico, nem tanto por qualquer referência a certa agressividade kubrickiana, mas sobretudo pela maneira previsível e amarrada que joga. Trata-se de um autômato com pouco originalidade. As mesmas falhas do seis jogos anteriores que não foram bem aproveitadas por nenhum dos seus adversários: Todos derrotados - inclusive o Brasil. O Uruguai de Oscar Tabárez bem que tentou, mas errou mais do que o rival e, muito embora tenha lutado bravamente, caiu.

A Celeste Olímpica entrou sem o centroavante Suárez, o que levou a uma mudança de esquema: Saiu o 4/2-3/1 entrou o 4/4/2 com duas linhas, onde Gargano reforçou o meio, liberando asim Forlán e Cavani para o ataque. A Holanda manteve exatamente o mesmo esquema de sempre, seu 4/2-3/1, com um novo espírito operário, fruto da filosofia de seu treinador e de uma inquietação de seu país por nunca ter levado a Copa - o que se explica também pela própria composição do elenco: Apesar de equilibrado nos setores, apenas Sneijder e Robben são capazes de brilhar.

A Holanda impôs seu ritmo de jogo sobre um assustado rival e abriu o placar: Chutaço de Van Bronckhorst no ângulo de Muslera. Depois, seguiu o jogo morno, com os holandeses controlando o jogo frente a um rival que ia crescendo a medida que seus nervos iam se assentando, mas que ainda assim não conseguia aproveitar as muitas falhas da defesa adversária. No fim do Primeiro Tempo, Forlán, o craque uruguaio, se viu sem marcação na frente da área assim como viu um Sketenlemburg adiantado: O Uruguai empatou.

Na segunda etapa do jogo, o improvável acontecia com o Uruguai marcando a Holanda sob pressão e tomando a iniciativa do jogo. A Holanda mal conseguia contra-atacar. Mas de chance perdida em chance perdida, a Holanda foi reassumindo o controle do jogo. o 4/4/2 em linha quando confrontado com o 4/2-3/1 produz coisas interessantes, mas acaba reduzindo o meio de campo há dois homens de cada lado, na medida em que os exteriores de um avançam e os pontas do outra fazem o mesmo - restando ainda um volante que faz a sobra -, o que é minimizado com equipes descansadas reduzindo o campo, mas que fica exposto na Segunda Etapa.

O Uruguai não conseguiu virar, mas a Holanda, em um contra-ataque estranho, retomou a dianteira do placar com Sneijder chutando, a bola desviando na zaga e com o impedido Van Persie atrapalhando Muslera. 2x1. A Celeste sente o gol e a Holanda em contra-ataque pela esquerda e o esforçado Kuyt centrou, como um ponta das antigas, para Robben, sem precisar pular, cabecear e fazer 3x1. O jogo seguiu em banho-maria até que nos acréscimos, o Uruguai, que parecia morto, descontou em belo chute de Maxí Pereira. Por incrível que pareça, os últimos cinco minutos de jogo foram incrivelmente disputados, mas não deu, nada de empate. A Holanda chegou a sua terceira final de Copa.

Honestamente, o time de Van Merwijk, ainda que represente uma das melhores escolas da Europa e venha jogando bem há quatro anos, não me encanta muito nesta Copa. Não é uma questão do time jogar um futebol de resultados, muito pelo contrário, já era mesmo da Holanda largar mão do preciosismo e equilibrar mais seu time, o ponto aqui é o quanto a Holanda erra por jogo e depende de algum lance de efeito de Sneijder e Robben que, por ora, deitaram e rolaram sempre em cima da desatenção das defesas adversárias e não por mérito próprio. A defesa erra muito também. Amanhã, Alemanha e Espanha farão o grande jogo das semi-finais - há quem fale em final antecipada e eu não duvidaria disso -, mas será que a injustiça se inverterá e uma das piores holandas que eu vi jogar romperá com a sina dela ser a seleção mais injustiçada da história das Copas?

sábado, 3 de julho de 2010

Notas da Copa: Alemanha e Espanha


(Schweinsteiger e Villa vibram)







A América do Sul colocou quatro equipes nas quartas de final, mas terá apenas um time seu na semi-final. Os três europeus passaram adiante. O único resultado que fugiu à normalidade foi a vitória holandesa diante de um Brasil que apagou no Segundo Tempo e tomou a virada. De resto, hoje assistimos à Argentina tomar uma goleada da Alemanha (4x0) e o Paraguai, valente, sendo eliminado pelo placar mínimo frente à Espanha. Os placares mais parecem ter sido invertidos. De qualquer modo, assistiremos agora à repetição da final da Euro 08 com o jogaço entre Alemanha e Espanha enquanto a Holanda, precocemente eliminada naquela ocasião, pegará o improvável Uruguai - uma boa equipe, mas que necessitará que o espírito do Maracanaço se abata sobre essa Copa.

Pela manhã, prevaleceu a bola cantada: A Alemanha, cuja jogada forte é pelas pontas, pegou uma Argentina, cujo calcanhar-de-aquiles eram as laterais. O conflito pelo domínio do meio, que eu esperava ser mais disputado, resultou numa vitória alemã, com demasiada facilidade. Foi assim que surgiu o lance do primeiro gol. Falta em cima de um ponta Podolski, falta cobrada pelo segundo volante Schweinsteiger e gol do outro ponta, Müller. Tentativa de reação do time argentino durante todo o primeiro, mas a boa zaga alemã salvava, enquanto o quarteto Di Maria, Messi, Higuaín e Tévez abusava da individualidade. Segundo tempo. Ou a Argentina fazia o gol de empate ou tomava o segundo. A Alemanha contra-ataca e faz 2x0. Ali o jogo acabou. O resto foi o desequilíbrio da Argentina resultando em mais dois gols germânicos com Klose se aproveitando para passar Ronaldo na artilharia das Copas. 4x0. Tristeza de Maradona.

Depois, Espanha contra Paraguai. Gerardo Martino, um grande técnico, armou bem a retranca paraguaia, fez seu time marcar sob pressão a Espanha mostrando a deficiência da defesa espanhola em saber sair jogando, chances iguais no primeiro tempo e um gol mal-anulado do seu time. A Espanha parece se restringir a Villa. O resto do time joga bem, mas se o seu camisa 7 não decidir, nada feito. O Paraguai teve a bola do jogo com Cardozo, mas a estrela de Casillas brilhou e ele defendeu o pênalti. Em seguida, pênalti para a Espanha defendido por Justo Villar. As equipes não quiseram administrar para levar para a prorrogação e partiram para fazer o que, na prática, seria um gol de ouro: Num gol chorado, ele, Villa fechou o placar. Passadas chances desesperadas do Paraguai, não convertidas pela falta de categoria dos seus atacantes, acaba o jogo.

Repeteco da final europeia. Para mim, os espanhois precisaram jogar tudo que não jogaram até agora. Os alemães denotam uma certa dificuldade contra times que sabem encaixar a marcação e ter volume de jogo, mas não contra equipes que se lançam ao ataque e, ao meu ver, eles têm tudo para conseguirem a desforra. Do lado de lá, a brava celeste, sem Lugano e Suárez, terá um confronto quase impossível contra a Holanda. Dois germânicos contra dois latinos, três europeus e um intruso sul-americano. As três melhores equipes da Europa contra o mais improvável sul-americano.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Notas da Copa: Julho e a Análise das Quartas de Final

Primeiro de Julho. Estamos por volta da metade do primeiro dia da metade final do ano. Mês passado, em ritmo alucinante, estivemos diletando sobre a Copa sem tirar o olho das movimentações eleitorais - ou eleitoreiras, sabe-se lá, mas que elas foram um tanto mais agitadas do que supunha, isso sim. As férias e um ligeiro - porém gratificante - sacrifício da minha vida social contribuíram para que eu achasse tempo. Agora a Copa desacelera e se adensa, o que já não era sem tempo, seja pela qualidade do torneio que aumenta ou porque a overdose de jogos já deu; ontem e hoje foram os dois primeiros dias sem jogos desde que o torneio quadrienal começou, amanhã, começam as quartas de final. Acertei sete dos oito palpites das oitavas. errei só a classificação de Gana sobre os EUA - enfim, Milovan Rajevac pegou a mim e aos gringos de supresa, modificou a forma de sua equipe jogar e despachou o escrete americano e o pé-frio do Clinton de volta para os states.


Agora, o jogo muda. Se antes estava relativamente fácil para acertar os jogos, agora, longe disso. Tirando Espanha x Paraguai, partida na qual a diferença entre as equipes é relativamente grande, acertar pelo menos um dos outros três confrontos é tarefa para quem entende de bola. Ainda que se deva comemorar as quatro vagas sul-americanas nas quartas, é bom abrir o olho, porque os europeus que continuam no torneio são justamente os três melhores times daquele continente. Vamos às análises:


Uruguai x Gana


Pois bem, os uruguaios são a grande supresa da Copa, seja pela eliminatória que fizeram, os resultados na Copa América e demais amistosos - a previsão mais otimista em relação ao time de Oscar Tabárez era de que chegasse, com algum esforço, às oitavas. Pois bem, chegou às quartas em plenas condições de avançar mais. Muslera, apesar das falhas contra a Coreia do Sul, faz uma boa Copa,  Máxí Pereira é um dos três melhores laterais-direitos, Lugano e Godín estão em grande fase, Fucile tem se esforçado, os Areválo e Pérez marcam muito no meio, os dois Álvaros (o Pereira e o Fernández) sabem articular o jogo e, no ataque, o time se segura bem: Como Forlán pela esquerda, Cavani pela direita e Luís Suárez no comando de ataque, a equipe segue marcando gols - normalmente, Forlán volta e complementa o meio de campo, mas Cavani também pode fazer isso. Em suma, trata-se de um time que alcançou se ápice no momento exato em precisa fazê-lo. Pelo seu lado, Gana é o único time africano que restou no torneio, faz sua segunda Copa e avançou em relação à primeira: Se em 2006 o time parou nas oitavas de final frente ao Brasil de Parreira, agora a seleção avança uma casa e disputa as quartas. Para mim, Milovan Rajevac é, até o presente momento, melhor técnico da Copa - em uma competição marcada pela mesmíce tática e pela incapacidade dos treinadores trocarem algo um pouco diferente de seis por meia dúzia, Rajevac foi um dos poucos a conseguir adaptar a forma de sua equipe jogar às necessidades, saindo do seu habituall 4/2-3/1 para enfiar um 3/4/3 em e assim dar um nó tático em Bob Bradley, o hábil treinador americano. A seleção africana tem um bom goleiro, Kingson, e deve voltar ao seu esquema habitual frente a um Uruguai que joga com três na frente: Pantsil que quando necessário vira zagueiro volta para a lateral-direita, os dois Mansah formam uma zaga forte, Sarpei marca bem pela esquerda, embora não apóie e, no meio, encontramos os destaques do time: Annan é fundamental para o time jogando na marcação, Boateng marca e chega de trás, Asamoah arma e sabe atacar pela ponta-direita. Na frente, Ayew, pela esquerda, é a revelação do time, Gyan é preciso no comando de ataque e Tagoe, eventualmente, quebra o galho pela ponta-direita. No duro, o ataque uruguaio leva vantagem sobre a defesa de Gana, mas a briga pelo controle do meio promete ser boa e nela, fisica e até tecnicamente, os africanos são um pouco superiores - enquanto na briga entre o ataque de Gana e a defesa uruguaia, a celeste leva ligeira vantagem. Há quem diga que ser capaz de controlar o meio é o diferencial para a vitória, mas veremos no que dá num jogo onde a equipe que perde no meio é superior nos dois extremos. Honestamente, é jogo para triplo, a ligeira superioridade técnica da celeste é compensada pela motivação do adversário - que deve contar com a torcida a seu favor. Para não ficar em cima do muro, aposto no Uruguai, na dureza, nem sei se no tempo regulamentar.


Brasil x Holanda


Falamos aqui do confronto de duas das melhores seleções dos últimos quatro anos. O Brasil venceu tudo. A Holanda, pos sua vez, teve o quadriênio que só não foi perfeito pelo desastre frente a uma imprevisível Rússia nas quartas da Euro 08 - o time liderado por Arshavin jogou tudo o que jamais jogou (nem voltou a jogar) contra a Laranja e a despachou de forma doída. Na Copa, o Brasil chegou com dois dos seus melhores longe da excelência fisíca - casos de Júlio César e Kaká -, enquanto outros jogadores tiveram problemas ao longo da competição - casos de Robinho, Felipe Melo e Júlio Bapstista, além de Elano, criminosamente vitimado por um jogador marfinense dois minutos depois de feito seu gol na vitória brasileira por 3x1. Apesar disso, Dunga consegue fazer um bom trabalho, com alguns eventuais deslizes, mas que, até agora, funcionou nos momentos decisivos: Seu time joga num 4/2-3/1 como a maior parte dos times já a algum tempo, Júlio tem pegado bem no gol, Maicon é o melhor lateral-direito da Copa, Lúcio e Juan formam uma dupla de zaga primorosa - que teve algumas desatenções na primeira fase, mas tecnicamente é mais capaz do que qualquer miolo de zaga nesta Copa -, Michel Bastos é o ponto fraco da equipe pela lateral-esquerda; no meio, Gilberto Silva compensa com inteligência as sus limitações físicas - e rendeu melhor quando no lugar do travado Felipe Melo atuou ao seu lado Ramires, o que infelizmente não pode se repetir pela suspensão do bom camisa 18 do Brasil - e Kaká, ainda que pareça não estar 100%, sempre que entra no jogo, faz toda diferença; na frente, Elano era um peça essencial ao esquema, atacando pela direita e voltando para compor o meio, sua saída foi suprida por Daniel Alves, que apesar da partida razoável contra o Chile não correspondeu contra Portugal - nem quando entrou antes -, Luís Fabiano não estourou, mas soube marcar gols nos momentos decisivos e Robinho finalmente desencantou na última rodada, mas tem feito partidas taticamente corretas. A Holanda de Bert Van Marwijk não tem o brilho de outrora, tentando jogar de forma mais eficiente do que bela para ganhar o título que sua bela tradição de jogo bonito nunca foi capaz de levar - ainda que muito do futebol opaco da equipe nesta Copa se deva menos a alga tática em especial do que ao desempenho dos seus jogadores; o o mal dessa equipe está numa disposição morna dos atletas que alternam entre o feijão-com-arroz e alguns lampejos. A equipe venceu os três jogos da fase inicial sem muito esforço - o primeiro contra uma Dinamarca pesada, o segundo com a ajuda da Jabulani contra o Japão e o terceiro contra um já eliminado Camarões - e sofreu mais do que o esperado frente a Eslováquia nas oitavas.  Stekelemburg é bom nome no gol, Van der Wiel é sóbrio, mas lhe falta um tanto de arte pela lateral-direita, a zaga é baixa e se não compromete também não acrescenta, Van Bronckhorst é aquele velho poço de vontade;  no meio, De Jong e Van Bommel marcam bastante e tocam rápido a bola, mas não tem grande qualidade, dedicando-se a carregar o piano para Sneijder jogar - o meia, ainda que não tenha estourado nesta Copa, é o maestro do time, com seus passes precisos, belos lançamentos e boas chegadas; na frente, Robben voltou ao time pela ponta-direita e é o outro destaque, Van Persie no comando de ataque e Kuyt pela direita são bons jogadores, mas longe de ser craques. Diante de seus enormes desfalques, Dunga deve manter Daniel pela direita até para liberar Maicon para o ataque, o que aumenta a responsabilidade de Kaká pelo meio e Robinho pela esquerda, o problema está mesmo com o fato de Robben atacar pelo setor que Michel Bastos defende e do time, depois de ter arrumado Ramires pelo meio, tê-lo perdido, restando poucas opções no elenco. Setor por setor, o defesa brasileira leva vantagem sobre o ataque holandês - apesar desse pequeno detalhe que pode acabar decidindo o jogo -, a meia-cancha de ambos se equivalem - pelas contingências - e o ataque brasileiro é melhor que a defesa laranja. Jogo duro, aposta numa vitória apertada do Brasil. 


Alemanha x Argentina


Único jogo que envolve dois campeões mundiais, trata-se da maior atração das quartas. O time alemão dirigido por Joachim Löw é um dos melhores do quadriênio, a equipe, depois de uma das suas maiores crises de renovação da história, usou o mundial passado, o qual sediou, como forma de projetar jovens jogadores e começar a seleção do zero. Deu certo. O time arrancou uma terceira colocação e depois fez um bom quadriênio - sendo vice da última Euro - e fazendo boas campanhas nas últimas duas eliminatórias. Nesta Copa, a Alemanha caiu num grupo bem disputado, surpreendeu a todos jogando o fino da bola contra a Austrália, depois, mais surpreendemente ainda, foi anulada pela Sérvia que lhe derrotou para depois, num jogo tenso, vencer por 1x0 Gana e se classificar - nas oitavas, eliminou a Inglaterra sendo superior em campo, embora tenha sido favorecida pela arbitragem. A Argentina, já há muito se ressente da falta de títulos, sendo que na última Copa foi eliminada, nos pênaltis, por essa mesma Alemanha, iniciando um ciclo doloroso, onde Alfie Basile fracassou no comando da equipe, cedendo lugar para que o astro maior do seu futebol assumisse o time: Maradona voltou e conseguiu contornar momentos difíceis, emplacando uma classificação dura em quarto lugar nas eliminatórias - para uma Copa onde foi premiado com um grupo relativamente simples, onde venceu os três jogos sem muita pressão dos adversários e, quando finalmente topou com um desafio, também acabou ajudada pela arbitragem que validou um gol ilegal de Tevez contra o México - o que além da vantagem no marcador, desestruturou o time adversário. Equipe por equipe, a Alemanha joga num 4/2-3/1 muito parecido com o Brasil: Neuer, seguro, é o goleiro, a defesa tem Lahm pela lateral-direita - disputando com Maicon o título de melhor jogador da posição -, Mertesacker e Friederich formando uma zaga bem concisa, Boateng (o alemão) marcando bem esquerda, ainda que não seja nenhuma virtuose; no meio, Khedira e Schweinsteiger são os volantes - combinando força física, bom toque de bola e inteligência tática - enquanto Özil é o maestro do time - forte candidato a melhor armador da Copa; pelas pontas, Müller, técnico e veloz, é presença forte pela direita e Podolski, com sua categoria e precisão, domina a esquerda e, no comando de ataque, Klose continua sendo matador, eficiente por baixo e muito bom por cima. Já a Argentina, atua também num 4/2-3/1, com algumas peculiaridades: Romero, não muito seguro é o goleiro, Otamendi quebra o galho pela lateral-direita e o mesmo faz Heinze pela esquerda, enquanto Demichelis e Burdisso formam a zaga depois da contusão de Samuel; no meio, Mascherano faz uma excepcional Copa como primeiro volante e Maxí Rodríguez disputa a outra vaga na marcação com o experiente Verón; mais adiante, Tévez joga mais fixo na ponta-esquerda, mas Messi e Di María  se alternam entre o meio e a direita, abastecendo Higuaín. O ataque ainda não jogou o (muito) que pode, mas a defesa dá sustos e faltam laterais. No confronto, o ataque alemão leva vantagem ampla sobre a zaga argentina, no meio, será travado uma das mais qualificadas disputas dessa Copa, o ataque argentino é capaz de infringir dor a qualquer defesa desse torneio e isso vale também para a boa defesa alemã. Em suma, o time germânico parece mais equilibrado, enquanto a Argentina é superior nas individualidades - e no carisma de Maradona -, falamos de duas seleções vencedoras que há muito amargam um jejum em Copas, jogo para quádruplo - um palpite para cada possibilidade, outro para o improvável -, mas já que estamos no inferno, então que ousemos dar uma tapa no diabo: Ainda que eu torça para a Argentina , a Alemanha é favorita por um fiozinho de cabelo, mas não duvide de prorrogação ou pênaltis aqui.


Espanha x Paraguai


A Espanha é o segundo melhor time do mundo dos últimos quatro anos. Venceu a Euro para a qual se classificou depois de boa eliminatória, fez uma boa eliminatória para a Copa, mas rodou na Copa das Confederações contra o time americano. Na atual Copa, tomou um susto logo de cara ao ser neutralizada pelo ferrolho suíço - e derrotada por um gol de contra-ataque -, mas recuperou-se ganhando de Honduras - outra gloriosa retranca, em relação a qual não conseguia golear apesar do amplo domínio - e depois venceu o Chile, em jogo duro, que garantiu sua classificação em primeiro no grupo para confrontar seu arqui-rival Portugal nas oitavas - jogo que venceu como nos demais: Amplo domínio, mas poucos gols, placar magro de 1x0. O Paraguai é, desde os anos 90, um futebol em franca ascensão, joga defensivamente, marca muito é organizado em campo e, mesmo não formando meias criativos, tem lá seus atacantes -  time do técnico argentino Gerardo Martino liderou o início das Eliminatórias Sul-Americanas, mas depois perdeu duas posições, para Brasil e Chile, ainda que tenha ficado apenas um ponto abaixo do líder. Time por time, a Espanha de Vicente del Bosque joga num 4/3/3, com Casillas no gol - grande goleiro, ainda que não esteja no auge -, uma defesa modesta porém esforçada formada por Sergio Ramos pela lateral-direita, Puyol e Piqué pela zaga, Capdevilla pela lateral-esquerda; no meio, Busquets é volante, Xabi Alonso é o segundo volante - homem das saídas rápidas - e Xavi é o armador; pela frente já jogara Navas, como um legítimo ponta-direita, e Iniesta, fazendo um misto de ponta e exterior-direito, David Villa é o craque do time pela ponta-esquerda - e, por ora, é ele quem tem efetivamente feito o ataque espanhol funcionar - e Fernando Torres no comando de ataque = contestado e em má fase, o que abre espaço para Llorente na frente. O Paraguai joga num 4/4/2 que se torna 4/3/3, mas que no jogo em questão deve se resumir às duas linhas de quatro mesmo - para tentar fazer com que o raio caia duas vezes no mesmo lugar, depois da vitória suíça -, com Justo Villar, muito bem, no gol, dois excepcionais laterais defensivos que apóiam mal - Bonet pela direita e Morel Rodríguez pela esquerda -, uma zaga tecnicamente qualificada e bem postada - formada por Alcaraz e Da Silva -, um meio com Cárceres fazendo o primeiro volante e Riveros mais adiante, Vera fazendo um extremo-direito - meia-armador aberto dos 4/4/2 europeus - recuado, Barreto ou Benítez fazendo o mesmo, só que mais avançados, pela esquerda e um ataque variante, com a figura de Lucas Barrios enfiado na zaga adversária e algum outro nome por fora da área, seja ele Cardozo, Roque Santa Cruz ou Haedo Váldez. No duro, será mais um jogo de ataque contra defesa, onde a Espanha se manda para o ataque e o adversário planta duas linhas de quatro para se defender e achar o contra-ataque salvador. Três das quatro equipes que enfrentaram a Espanha fizeram o mesmo, mas  só a Suíça levou a melhor. Por mais que um milagre paraguaio fosse um espetáculo, é difícil que ocorra.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Notas da Copa: Brasil 3x0 Chile

(Juan comemora o primeiro gol com Lúcio e L. Fabiano - Der Spiegel)

Agora há pouco, o Brasil venceu por 3x0 a Seleção Chilena. Foi o melhor jogo do Brasil na Copa, superando a má atuação contra Portugal - em um jogo onde, apesar de qualificado, o time brasileiro poderia ter atuado muito melhor. Como essa vitória, Dunga coloca a Seleção nas quartas-de-final, onde ela travará um jogo contra a poderosa Holanda, em um dos melhores confrontos já agendados. A Seleção venceu com propriedade e sem qualquer ajuda da arbitragem, chegando bem firme na reta final da Copa, justificando porque foi a melhor seleção nacional do último quadriênio.

O Brasil entrou em campo no seu esquema 4/2-3/1 que se transmutou para um 4/4/2 no decorrer da partida: Júlio César foi o goleiro, Maicon foi o lateral-direito, Lúcio pela direita e Juan pela esqurda formaram o miolo de zaga, Michel Bastos foi o lateral esquerda; no meio de campo, Gilberto Silva e Ramires atuaram como volantes e Kaká foi armador central - mais adiante, Daniel Alves foi um pseudo-ponta-direita que depois retraiu e virou aquilo que os espanhóis chamam de "exterior-direito" -; no ataque, Luís Fabiano jogou como centroavante e Robinho atuou pela ponta-esquerda, com alguma liberdade para se movimentar.

O Chile de Marcelo Bielsa entrou com ousadia em campo, jogando num invocado 4/3/3 para intimidar o Brasil: Bravo era o goleiro, enquanto Isla pela lateral-direita, Contreras e Jara pelo miolo de zaga e Fuentes na lateral-esquerda formavam a defesa para pegar os respectivos pontas e conter Luís Fabiano pelo centro; pelo meio de campo, Carmona e Vidal marcavam e Gozález armava; no ataque, da direita para esquerda, víamos Sánches, Suázo e Beusejour - Suázo como centroavante batendo de frente com os dois zagueiros brasileiros, enquanto os dois outros atuavam pelas pontas, jogando em cima dos laterais.

No início de jogo, o Chile fazia uma intensa marcação sob pressão, tentava lances e jogava o Brasil para trás,  mas rapidamente, o esquema de marcação brasileiro reverteu o quadro: Maicon acabou com Beausejour pelo seu setor, Lúcio e Juan, em sua melhor partida, anularam Suázo, e Michel Bastos conseguiu marcar Sánchez, Gilberto Silva encaixou bem a marcação e Ramires conseguia fazer o que Felipe Melo não fez durante toda a Copa: Marcar e fazer a saída de bola.

O primeiro lance de ataque, um bom lançamento de Daniel Alves para Luís Fabiano frustrou-se por incompetência do avante brasileiro. Gilberto Silva logo depois experimentou de fora da área para bela defesa de Bravo. A partir dali, o Brasil tenha total domínio do jogo. Faltava encaixar uma jogada de ataque: Robinho parecia não estar bem fisicamente e o mesmo podia se dizer de Kaká. Em cobrança de falta perfeita de Maicon, Juan, em linda cabeçada, abriu o placar para o Brasil aos 34 minutos. O Chile se desesperou, foi para o ataque e tomou um contra-ataque fatal, lance de Robinho para Kaká que, molemente, enfiou para Luís Fabiano concluir com facilidade. Fim do primeiro tempo.

Na segunda etapa, o Brasil prosseguiu dominando absurdamente o jogo. Dunga mexeu no esquema e o time ficou definitivamente no 4/4/2, com um meio-de-campo onde Kaká estava aberto pela esquerda, Daniel Alves pela direita, os volantes pelo meio e Robinho e Luís Fabiano ficavam mais a frente. Marcelo Bielsa fez o óbvio ao tirar um zagueiro para pôr um meia e botar Valdivia no lugar do apagado González, passando seu time para um 3/4/3, mas os buracos na marcação eram abissais, o que é fatal contra o Brasil: Aos 14, Ramires, puxando belo contra-ataque, entregou para Robinho que, de chapa, mandou a jabulani para o fundo das redes no seu primeiro gol.

Com 3x0 no placar e o time chileno - que habitualmente joga duro, mas não é desleal - se comportando com dignidade em campo, o Brasil adminstrava. Teve a Seleção outras oportunidades, mas não aproveitou. Entraram ainda Nilmar no lugar de Luís Fabiano e depois Kléberson e Gilberto para segurar o jogo. Infelizmente, Ramires tomou outro cartão e está suspenso. Brasil vai para uma bela disputa contra a Holanda, em um jogo de onde eu suspeito que sairá um dos finalistas.

Atuações do Chile

Bravo: Sem culpa nos gols, defendeu o que pôde. 6,0
Isla: Perdeu o confronto para Robinho. 4,0
Millar: Pouco produziu. 5,0
Contreras: Não conseguiu antecipar Luís Fabiano nos lances cabais. 4,0
(Tello): Entrou para modificar o esquema, mas não melhorou a marcação no meio nem o jogo. 4,0
Jara: Igual á Contreras. 4,0
Fuentes: O mesmo que o resto da zaga. 4,0
Carmona: Não conseguiu encaixar a marcação, apesar do esforço. 5,0
Vidal: Esforçado na marcação, ainda tentou sair pro jogo. 5,5
Mark González: Não conseguiu armar a equipe. Não era pra ter entrado como titular. 3,5
(Valdivia): Deu mais vida à armação chilena, poderia ser titular. 6,0
Sánchez: Não soube aproveitar-se da fragilidade da marcação brasileira pela direita. 4,0
Suázo: O melhor do time chileno. Lutou bastante contra uma zaga adversária praticamente perfeita. 6,5
Beausejour: Foi anulado por Maicon. 5,0
Nota Média: 4,75
T. Marcelo Bielsa: Errou feio ao querer encarar uma equipe bem superior à sua com três atacantes, quando deveria ter privilegiado fortalecer o meio-de-campo. Valdivia poderia ter sido escalado para explorar a esquerda brasileira. 3,5

 Atuações do Brasil

1. Júlio César: Pouco exigido, quando foi, mostrou muita segurança. 6,5
2. Maicon: O grande lateral-direito da Copa, bateu um escanteio perfeito no lance do primeiro gol e foi preciso na marcação. 8,0
3. Lúcio: Sua melhor partida na Copa, sem desatenções. 8,0
4. Juan: O mesmo que Lúcio, ainda fez um belo gol, 8,0
6. Michel Bastos: Demonstrou a velha fragilidade de sempre, mas se saiu relativamente bem. 6,0
8. Gilberto Silva: Fazendo dupla com um volante que complementa seu estilo de jogo, fez sua melhor partida na Copa. 6,5
18. Ramires: O melhor do Brasil hoje, correu, marcou, armou e ainda fez a assistência do terceiro gol. Infelizmente, está fora do jogo que vem por um cartão bobo. 8,5
13. Daniel Alves: Voluntarioso, hoje errou bem menos do que no jogo passado e ajudou na marcação. 6,0
10. Kaká: Coordenou e articulou o time bem, deu o passe para o segundo gol. 7,0
(20. Kleberson): Entrou para segurar o jogo. sem nota.
11. Robinho: Não estava muito bem fisicamente, mas deu a arrancada que originou o segundo gol e fez o terceiro. Foi sua melhor partida na Copa. 7,5
(16. Gilberto): Entrou no fim para segurar o jogo também. sem nota.
9. Luís Fabiano: Errou alguns lances bobos, mas fez o segundo gol. 7,0
(21. Nilmar): Entrou para correr e puxar contra-ataques, mas não obteve êxito. 5,0
Nota Média: 6,46
T. Dunga: Postou bem a equipe para se aproveitar do ofensivismo de Bielsa e deu um nó tático no técnico rival. Mexeu para segurar o jogo e poupar alguns jogadores. 7,5


A Rival: Não gostei da Holanda hoje contra a Eslováquia, como não gostei dela nos outros jogos da Copa. O time jogou num 4/2-3/1 - afinal, ela inventou essa joça -, onde os laterais ficavam presos e os volantes, sincronicamente, voltavam para marcar. Sneijder era o único meia, de um baita lançamento para Robben - de longe o melhor do time pela ponta-direita -, mas ficou só nisso. Ainda teve um belo lance de Kuyt, que pouco fez, que resultou no segundo gol. Não tenho dúvidas que eles vão crescer para cima do Brasil, mas como o próprio Robben admitiu, eles terão de jogar muito melhor - e como mais seriedade, acrescento.



sexta-feira, 25 de junho de 2010

Notas da Copa: Definição dos Grupos E e F


(Dois azuis, dois destinos - fotos da AP)







Com certo atraso, mas com igual disposição, comento aqui as surpresas de ontem: A vergonha da desclassificação italiana frente a gloriosa Seleção da Eslováquia e a pancada que o Japão deu na Dinamarca. Sim, eu queimei a língua, no entanto, não por ter negado, algum dia, que a Itália é uma fraude ou que o Japão - e o futebol do extremo-oriente - estão em processo de evolução, mas por ter subestimado os dois fenômenos. Acertei, no entanto, quanto ao Paraguai, que confirmou a tendência de ascenção do futebol sul-americano na esfera global de seleções - tome outra classificação em primeiro, fenômeno que se manifestou no Grupo A e B e agora se repete agora no Grupo E. A Holanda confirmou o favoritismo e manteve a primeira colocação do Grupo F.

A desclassificação italiana se deu num jogo dramático, com cinco gols - algo raro numa Copa que não fosse pela bola teríamos batido o recorde de placares em zero -, o que demonstrou as graves limitações do futebol italiano, escravo de uma mentalidade defensivista que veda a formação de jogadores ofensivos - em especial para a armação de jogo - e que só é capaz de produzir times campeões em situações atípicas, o que é decepcionante - e também alentador, se visto pelo lado bom -, pois não resta dúvida que falamos de um futebol tradicional e com know-how para fazer mais do que isso. O Paraguai, por sua vez, controlou a fraca Nova Zelândia, garantiu a primeira colocação e demonstrou seu bom e velho pragmatismo - dessa vez amadurecido.

Claro, de longe o melhor jogo foi entre japoneses e dinamarqueses na disputa pela última vaga do Grupo F: Um jogaço no qual a seleção do país do sol nascente dominou o adversário, soube aproveitar as idiossincrasias da jabulani e, sob o comando do técnico Takeshi Okada, desenvolveu uma forma de jogar própria às suas necessidades - além do contar com jogadores como um Honda. Foi a melhor partida do Japão numa Copa do Mundo e, depois da surpresa, eles travaram um confronto duro - e igualmente inesperado - contra o também surpreendente Paraguai. A Holanda, que teve ontem a volta de Robben, venceu o já eliminado Camarões e passou em primeiro com 100% de aproveitamento, ainda que sem lá muito brilho.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Notas da Copa: Véspera da Estreia Brasileira

Estamos a menos de um dia da estreia brasileira. Até este momento, vinte e duas seleções já estrearam assim como seis campeões mundiais, só restando ainda o Brasil. A Seleça joga contra um adversário fraco, cuja classificação para a Copa surpreendeu a todos e que ninguém, a rigor, conhece bem - dado o fato de vinte dos vinte e três convocados norte-coreanos atuarem no futebol local, isolados do mundo, portanto. Dos problemas brasileiros, temos Kaká e Júlio César que não estão 100% fisicamente e o problema pela esquerda, onde Michel Bastos e Felipe Mello precisam urgentemente se ajustarem. Uma vantagem que teremos é que, apesar de toda a névoa que envolve o time da Coreia do Norte, sua campanha nas eliminatórias sugere que se trata de uma Seleção com certas, digamos, limitações, o que, para uma estreia, dá uma mão. Outro ponto é que é positivo estrear depois de quase todo mundo, até mesmo fazendo o segundo jogo do próprio grupo, porque dá para fazer um balanço geral e tirar certos parâmetros - mesmo que um vitória elástica amanhã possa ser enganadora, isso é facilmente superável se ponderarmos o peso real da Coreia do Norte e projetarmos comparativamente com o que fizeram as demais seleções. Por ora, dos campeões mundiais, apenas a Alemanha preocupa - e muito -, os demais estão jogando todos num futebol mais ou menos derrotável - aliás, a maior quase-campeã mundial, a gloriosa Holanda, apesar da estreia abaixo de sua potencialidade, está melhor que boa parte dos campeões. Também entraremos em campo depois de assistir o jogo duro entre Portugal e Costa do Marfim. Vamo que vamo.

Notas da Copa: Itália 1x1 Paraguai e a Estreia da Holanda



Começando pela estreia da Itália, a atual campeã, o que se viu agora há pouco contra o Paraguai foi mais um jogo triste. A Itália não joga um futebol de resultados, ela joga um anti-futebol, onde a defesa e a marcação funcionam efetivamente ao contrário do ataque, uma engrenagem travada. Foi assim, é verdade, que o time venceu a última Copa, mas não há como não relembrar o quanto a Copa de quatro anos atrás foi igualmente disfuncional e sem opções, com o retumbante fracasso da única equipe capaz de encantar, justo a nossa, sobrou  para decidirem o título a Azurra tal como ela é hoje e um time sub-50 da França.


Do jogo de hoje, a Itália começou num 4/2-3/1, com Buffon; Zambrotta, Canavarro, Chiellini e Criscito; De Rossi, Montolivo, Pepe, Marchisio e Iaquinta. Gillardino - treinada por Marcello Lippi. O Paraguai, num 4/4/2, entrou com Villar; Bonet, Da Silva, Alcaraz e Rodríguez; Vera, Cáceres, Torres e Riveros; Lucas Barrios e Valdez - treinada por Gerardo Martino.


No começo, a Itália marcava sob pressão e sufocava os paraguaios, no que prática era um 4/3/3, mas o time sulamericano, apesar de inferior, se defendia bem ao mesmo tempo que de seus desarmes só resultassem chutões tentando alcançar seus dois atacantes enfiados. Foi essa a dinâmica de boa parte do Primeiro Tempo , italianos acossando paraguaios, sem criatividade ou mera ousadia, e paraguaios incapazes de encaixar contra-ataques - isso até o fim da primeira etapa, quando Torres bateu falta cometida por Chiellini sobre Valdez para Alcaraz, no meio de De Rossi e Canavarro, cabecear para abrir o placar em favor do time paraguaio. O jogo italiano não funcionava, seus pontas (Pepe e Iaquinta) eram perfeitamente neutralizados pelos laterais paraguaios (Bonet e Rodríguez), Marchisio não armava e Gillardino permanecia como permaneceu o jogo inteiro: Anulado pela zaga adversária. Muito embora o Paraguai não conseguisse construir jogadas ofensivas, se o jogo seguisse aquela tônica no Segundo Tempo, fatalmente, acabaria com vitória por 1x0 para os paraguios.


Na segunda etapa, o Paraguai começou melhor, mas depois de desperdiçar uma chance emblemática: Vera isolou uma bola que deveria ter convertido e a partir dali, a Itália recuperou o terreno que lhe daria o empate - especialmente depois de Marcelo Lippi ter modificado a forma da equipe jogar, colocando Iaquinta junto com Gillardino no ataque (depois colocando Di Natale no seu lugar) e colocando Camoronesi no lugar de Marchisio para ser o extremo-direito do meio, em suma saiu, o 4/2-3/1 para entrar o 4/4/2. O lance do empate só saiu mesmo depois de escanteio bem batido por Pepe, má saída do goleiro paraguaio, e conclusão, na raça, de De Rossi. Daí até o final, os italianos pressionaram ainda bastante, mas não conseguiram virar.


Nada animador de lado a lado, ainda que imaginar a desclassificação das duas seleções num grupo com Nova Zelândia e Eslováquia seja duro. Ainda assim, a sobrevivência de ambos no torneio vai demandar uma melhora aprofundada. A Itália foi o sexto time campeão mundial a estreiar num mundial que reúne todos os campeões mundiais, agora falta apenas o Brasil entrar em campo - até agora, ninguém perdeu, mas só a Alemanha não só encantou como goleou. 


Holanda e Grupo E


A Laranja Mecânica estreou hoje atuando ofensivamente, mas muito travada; faltou leveza no ataque e um cadinho de criatividade para jogar em cima da defesa dinamarquesa, pesada toda vida, que assim como o resto do time me surpreendeu negativamente. Ainda assim, ela soube manter a posse de bola e conseguiu o domínio suficiente para marcar dois gols - um deles, aliás, contra da dinamarca. Fim de jogo 2x0. O Japão e Camarões fizeram o outro jogo do grupo e a seleção nipônica, num lance de oportunismo, venceu os africanos - com a derrota de hoje, Camarões se junta à Nigéria e à Argélia entre os africanos derrotados na primeira rodada, o que depois do empate de África do Sul e México, torna Gana o único time do continente a ter vencido. Futebol por futebol, depois da estreia de 22 seleções, a única que jogou bola mesmo foi a Alemanha e não tem conversa.

domingo, 13 de junho de 2010

Notas da Copa: Segunda, Grupo E e a Itália

Amanhã estreiará a Itália, atual campeã mundial, contra o bom time do Paraguai pelo Grupo F. Será, sem dúvida, um bom jogo, ainda que os italianos sejam favoritos, é bom não desprezar os paraguaios, que fizeram uma boa eliminatória. O jogão de amanhã será mesmo aquele que abre o dia, Holanda e Dinamarca, pelo Grupo E, mesmo que a seleção laranja historicamente jogue um futebol mais estético do efetivo, nunca faz mal vê-la jogar - e mesmo que enfrente um bom time, creio que a Holanda seja favorita mesmo. Japão e Camarões, também pelo Grupo E, podem fazer um jogo melhor do que aqueles que vimos hoje de manhã - e será uma partida disputada, destinada ao empate, suponho. Em suma, é uma merda que a tabela de segunda não foi a do domingo.