Mostrando postagens com marcador Presidenta Dilma Rousseff. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Presidenta Dilma Rousseff. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Wikileaks, o Destino Manifesto dos EUA e o Brasil


Enquanto a guerra civilizatória prossegue no Rio de Janeiro - e o que é a civilização e seus interesses superiores, não? -, estoura de forma definitiva, no mundo já civilizado, o caso Wikileaks: Aproximadamente 250 mil documentos de embaixadas americanas pelo mundo foram* serão tornados públicos na Internet, no site da organização. Aqui, mais do que nunca, seria necessário inverter o anátema, posto que isso tudo seria trágico se não fosse cômico. O conteúdo já revelado apenas comprova aquilo que - como diria o velho Carta - até o mundo mineral já sabia, seja o fato da diplomacia americana realmente fazer intensa espionagem de outros governos, corpos diplomáticos e da própria ONU ou como seus diplomatas-espiões enxergam de forma limítrofe o mundo que deveriam, ao menos, entender tão bem. Nada de novo sob o Sol, mas agora algumas horas de argumentação com americanófilos cegos (ou nem tanto) pode ser resolvido com um link com uma foto de satélite provando que a terra é redonda mesmo.


A reação de especialistas ocidentais - os de verdade, por favor - não poderia ser muito diferente daquela que teve o lendário jornalista britânico Robert Fisk: Uma boa dose de sarcasmo e uma conclusão perfeita, "não que os diplomatas americanos não entendam o Oriente Médio; é que eles já não sabem ver a injustiça". De fato, não é uma mera questão dos dados que eles têm em mãos - cujas fontes são tão precárias quanto de um jornalista ocidental médio, portanto, certamente piores do que as de Fisk -, mas como sua forma de pensar está de tal forma poluída pela ideologia e pelo discurso hegemônico, que já não há mais capacidade crítica, tampouco desejo, que lhes faça tentar enxergar a situação por outros ângulos e, muito menos, fazer uma crítica moral do que estão fazendo. Nem todos os melhores dados do mundo lhes seria suficiente.

Eu iria até mais longe, a natureza de certas informações parecem responder ao que deseja que seja dito e descoberto pelo Departamento de Estado americano, tal como pesquisas sociológicas em comunidades oprimidas, na quais os entrevistados tentam responder ao entrevistador perguntas sobre si mesmos como se devessem responder a pergunta certa - uma consequência óbvia pela maneira como as relações sociais são postas e como, não raro, o entrevistador se põe acima do entrevistado, tratando-o como uma cobaia. Na sua função atípica de espiões, os diplomatas americanos tentam "responder" as questões do jeito certo. 

Impossível não remeter ao Nosso Homem em Havana de Greene: Como um pacato inglês radicado em Cuba chamado Wormold,  dedicado ao humilde ofício de vendedor de aspiradores de pó, acaba aceitando uma proposta irrecusável do serviço secreto de seu país natal para espionar a efervescência da Ilha nos anos 50. Da paranoia da Guerra Fria à comédia, Wormold precisa criar uma boa dose de factóides a todo momento para vender o seu peixe, chegando ao cúmulo de enviar para seus sinistros chefes uma planta de aspirador de pó como se fosse uma instalação nuclear. Nada muito diferente daqui. Temos desde textos que falam o óbvio até outros que levantam balões de ensaio. Há coisas sérias, como a divulgação de reuniões, lobbies, mas sobretudo resta a revelação de como o sistema imperial americano se tornou insuficiente em si mesmo, uma verdadeira Sátira - o que, desde Spinoza, sabemos que é o inverso da Ética.

Chegamos ao Governo Obama. Se o atual presidente, primeiro negro a assumir a liderança daquele país, mesmo que tenha assumido numa das piores crises de seu país, o fez numa das conjuntura favoráveis da história para um presidente americano: Poderia, perfeitamente, ter levado a cabo um processo de distensão e integração no continente americano e da construção, no plano global, da multilateralidade. Dada a crescente diminuição dos EUA em relação à economia mundial, seus problemas econômicos e o próprio esgotamento de seu modelo, o atual posicionamento do país enquanto mandatário global só favorece a certos grupos de interesse específico, notadamente a indústria bélica e petroquímica, fora isso, são os trabalhadores que estão arcando com tudo. Obama e seus aliados no partido democrata, no entanto, estão mais preocupados a se deixar pautar por qualquer rumor pautado pela direita local e a nortear sua política externa nesse sentido, o que é não apenas catastrófico como insustentável. Aquele Estado é como um corpo sem cabeça, andando por aí, não muito diferente da União Soviética dos anos 70.  Também aí, nada de novo. 

Curiosos mesmo são os cables sobre o Brasil. Um deles, certamente o mais intrigante, foi a pressão americana para que aprovássemos uma lei antiterror. Um excremento, sem dúvida. A ideia não vingou por pressão, inclusive, de Dilma Rousseff, atual chefe de estado e de governo. O argumento usado por ela é bem simples, como isso poderia ser usado para criminalizar movimentos sociais e, quem sabe, políticos. Interessante também o vazamento do nome do "analista" da Escola Superior de Guerra, André Luís Woloszyn**, que dizia que era impossível uma lei antiterror sem incluir o nome do MST - o que é revelador do que ainda é a ESG, uma centro de estudos estratégicos brasileiros, mais alinhado com os interesses americanos do que, talvez, West Point (como a nosso ditadura nos prova), o que apenas comprova o afã da direita nacional, ela sim, de incluir aquele movimento no rol de "grupos terroristas" a todo custo. Novamente, o PT, ele mesmo, acaba sendo, em seus defeitos e contradições, a última linha de defesa do país em relação ao descalabro generalizado.

A maneira como é narrada o aparente descaso do governo brasileiro com o "terrorismo" é uma peça antropológica, sem dúvida. Os americanos e os analistas nacionais - mais gringos que os próprios -, na verdade, não entendem como o Governo brasileiro ainda não descobriu o potencial de como controlar os seus, por meio do potencial de subjetivação dos seus cidadãos como "terroristas", mas a maneira como isso é narrado é deliciosamente cínica, os tecnocratas apontam o governo como "imaturo" do mesmo modo como se fazia com os países que não queriam aderir ao livre-mercadismo nos anos 90: A nossa vontade é tamanha que quem não se dobra a ela, só pode ser um idiota. Uma forma de idealismo perversa, na qual os próprios ideólogos começam a acreditar nas mentiras que repetem - e aí, caríssimos, só o inferno é o limite.

Atualização das 13:48: *segundo me informa o nosso Idelber, nem todos os 250.000 documentos foram tornados públicos ainda, e **o sobrenome do analista da ESG é Woloszyn e não Soloszyn (sim, o nome dele foi grafado errado no cable como vocês poderão notar a seguir). 

P.S.: Segue a íntegra, na quebra de página, do cable sobre a lei antiterrorismo, antes que alguém a tire do ar:

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Cúpula do G-20 de Seul -- Início

Teve início hoje a Quinta Cúpula do G-20 realizada na capital sul-coreana, Seul. Em um primeiro momento, a simples realização de uma cúpula envolvendo as vinte maiores economias do mundo já ilustra um novo mundo em emergência (e de emergentes também): O arranjo internacional pós-Guerra Fria que apresentava a liderança estratégica incontestável dos EUA com a presença subsidiária das potências econômicas da Europa, o Japão e o Canadá - somados à Rússia pelo seu poder militar residual da URSS - caiu mesmo por terra. Mais do que esse processo, que já se avizinhava de maneira clara nos anos 90, a Crise Econômica Mundial, que eclodiu nos EUA e contaminou todo o sistema mundo, catalisou o processo de transformação de maneira aguda. No atual momento, a conjuntura mundial se expressa pela grave crise político-econômica dos EUA e o questionamento em relação ao futuro da União Europeia, ao passo que China, Índia e Brasil se impõem cada vez mais neste cenário - e de forma mais específica, o principal tópico da cúpula será a guerra cambial em curso, na qual os EUA, para manter sua política fiscal irresponsável, desvaloriza sua moeda (por sinal, ainda a principal moeda do Globo), o que traz junto o Yuan chinês, ameaçando de maneira grave o equilíbrio da balança comercial europeia e, inclusive, da brasileira. Trata-se de uma reunião tensa que irá trazer à baila de um dos problemas mais complexos do nosso, a construção de um arranjo político econômico internacional para uma realidade na qual o Dólar Americano se inviabiliza enquanto moeda hegemônica por conta dos próprios rumos do país que lhe emite. 


Lula chega fortalecido à Cúpula, seja pela situação do Brasil diante do mundo ou pela vitória que seu projeto político novamente obteve nas urnas - e seu trófeu, Dilma Rousseff, sua sucessora feita, marca sua presença no último grande evento internacional com Lula na chefia de Estado do Brasil. Não há pouco o que negociar e o assunto chave da cúpula, como dito, nos interessa direta e profundamente. Um Real sobrevalorizado resulta, irremediavelmente, em uma balança comercial menos favorável e, consequentemente, em menos espaço de manobra para o Estado induzir o crescimento econômico ou mesmo bancar projetos sociais essenciais. É inegável que o ajuste que o Brasil necessita passa por uma série de ajustes internos que o Governo não pode mais protelar, mas o componente externo também representa uma parte fundamental da história. Os chineses, fortalecidos pela crise e, ao mesmo tempo. em um período de alteração na correlação de forças interna - com a ascensão do grupo de Xangai - são figuras essenciais na reunião. Obama estará em xeque, tanto pelo resultado amplamente desfavorável nas eleições legislativas quanto pela posição dos EUA no Mundo - que ele contribui em manter em fragilização, dada a total inércia com a qual o seu Governo conduz a política externa, tornando-se cada vez mais incapaz de ser o protagonista da reconstrução do sistema mundial, posição que parecia irremediavelmente sua quando derrotou os republicanos há dois anos. É questão de manter os olhos bem fixos no que se desenrolará pelos próximos dias na capital sul-coreana.

sábado, 6 de novembro de 2010

O Novo Congresso Nacional

Para além da fragmentariedade e do esvaziamento habituais do nosso sistema eleitoral, as eleições legislativas deste ano produziram pelo menos três fenômenos interessantes: O aumento da bancada governista, o aumento da bancada evangélica e a mais profunda mudança de perfil da história do nosso Senado. Trocando em miúdos, a Presidenta eleita terá a maioria confortável que Lula não teve, questões de direitos civis devem ser tratadas com mais mal-vontade ainda - sim, o terrorismo da campanha serrista teve ainda o mérito de produzir um aumento sem muita qualidade da base governista, favorecendo os pequenos partidos evangélicos pró-Lula -, mas teremos um Senado bem melhor do que o anterior - talvez o melhor da nossa história...

Sobre o primeiro ponto, ainda que não haja uma correspondência exata entre os partidos e os parlamentares, 310 dos 513 deputados federais eleitos são de partidos que participaram da coligação que elegeu Dilma Rousseff - enquanto apenas 136 são de partidos que estiveram na coligação de Serra, ainda que se ressalve o fato de que nessa conta entra o PTB de Roberto Jefferson, que teve uma participação controversa do início ao fim dessa campanha, sem ele, estaríamos falando de apenas 115 deputados.  Tirando os 15 deputados verdes - que não têm posição clara nessa história toda - e os 3 do PSOL - que farão oposição ao Governo pela esquerda -, vemos algo entre 70 e 49 deputados de partidos (a variável aqui diz respeito ao PTB) que não integraram nenhuma coligação presidencial (ou nenhuma relevante) e representam o que há de mais fisiológico na política nacional, tendendo a votar com o governo em troca de emendas parlamentares. No Senado, o PMDB fez 16 cadeiras e se manteve com 20 na dianteira da casa; o PT fez 11 senadores e terá 13 no total, são as duas maiores bancadas daquela Casa. No total, são 2 senadores do PSOL, 49 senadores governistas, 20 da oposição e 10 de outros partidos (na verdade, as bancadas do PP e do PTB) que deve se dividir.

Em outras palavras, o governo conseguirá passar tudo aquilo que ele entende por correto no âmbito da gestão formal do Estado, mas certamente esbarrará em limitações no que toca reforma agrária - que só sai de acordo a demanda atual caso a Presidência chame para si a responsabilidade do jogo - ou questões de direitos civis. Grosso modo, as igrejas evangélicas têm se organizado cada vez mais partidariamente e foi também com a aliança desses então micropartidos que Lula em 2002; uma figura como Crivella, debaixo do guarda-chuva do Governo Lula, apoiou medidas de desenvolvimento econômico e de incorporação de direitos sociais ao passo que se manteve - naturalmente - numa posição conservadora aos direitos individuais, em suma, tudo leva a crer que o combate a fome e a miséria deve continuar avançando ao passo que temas como casamento gay e descriminalização do aborto devem ficar mais distantes.

O crescimento de PR, PRB e PSC nessas eleições são, em grande parte, fruto da propaganda desastrada de Serra, que ao tentar desconstruir a figura pessoal de Dilma e do PT por meio de uma retórica fundamentalista, pode ter tirado votos também do PT no legislativo, mas não tirou da base lulista, em outras palavras, Serra provavelmente colaborou para o aumento da base situacionista - às custas até mesmo de seu partido, cuja base parlamentar diminuiu, apesar de ter chegado ao segundo turno da eleição presidencial - fortalecendo os partidos evangélicos; Dilma assim terá uma base parlamentar grande, mas heterogênea, que acompanhará a pauta do Governo - que dita, na prática, o ritmo do Legislativo  -no âmbito social, mas tenderá a vetar pautas no âmbito individual. O desempenho petista, muito embora tenha lhe valido o primeiro lugar na Câmara, foi bem abaixo do que se esperava, em parte pelo clima das eleições, em parte por falhas na campanha mesmo e em outra parte pela falta de palanques fortes nas disputas para governador. Eu me surpreendi também com a perda de deputados por parte do PSDB, esperava a estabilidade da bancada em torno dos 65 cadeiras anteriores, mas a perda de quase 20% delas foi espantoso - o mesmo não se pode dizer do DEM, cuja decadência já é favas contadas eleição a eleição.

Sobre o Senado, em um primeiro lugar, temos muito a comemorar e isso diz respeito a quem saiu de lá. Mais do que uma casa de oligarcas que pouco ou nada colaborou para o desenvolvimento do país, a nossa Câmara Alta tornou-se nos últimos anos um reduto de figuras folclóricas, grotescas e ciosas por aparecer na mídia a qualquer custo, geralmente batendo no Governo Lula. Enquanto figuras como Heráclito Fortes, Mão Santa, Arthur Virgílio, Sérgio Guerra e quetais (todos derrotados, menos o último que estrategicamente se candidatou a deputado) se utilizavam dos holofotes de maneira bisonha, outros como Eduardo Azeredo articulavam nas sombras coisas como o AI-5 digital (Azeredo acabou não sendo indicado ao Senado, em seu lugar entre Aécio Neves...). Outros, como um Romeu Tuma (falecido recentemente não sem antes ser derrotado nas urnas) apoiava taticamente um Governo que não representava sua forma de ver o mundo. Bons nomes continuam por lá, como Paulo Paim do PT-RS - que conseguiu a reeleição -, enquanto Gleisi Hoffmann foi a primeira senadora eleita do Paraná, Marta Suplicy, ex-prefeita de São Paulo e ícone na luta pelos direitos civis venceu em São Paulo, enquanto no Nordeste, praticamente todos os estados elegeram senadores de esquerda ou progressistas - exceto pela reeleição do inefável Agripino Maia. No Norte do país, a eleição de Vanessa Grazziotin sobre Artur Virgílio foi, sem dúvida, o fato mais relevante.


Por fim, elas por elas, o resultado das eleições foi positivo, ainda que estejamos bem longe de resolver a problemática do funcionamento do Legislativo e do vício de sua relação com o Executivo. A Reforma Política que se avizinha pode melhorar o sistema eleitoral, mas pouco importa se não houver, antes de mais nada, uma reforma do sistema político-partidário, obrigando que o princípio democrático seja cumprido internamente, exigindo prévias e processos de escolha de candidatos de forma transparente. O Senado segue sendo, em si, um problema, embora materialmente ele tenha dado um considerável salto de qualidade - em um país onde os municípios são considerados entes federados, é equívoco supor que precise existir uma Câmara Alta com representantes dos estados e do Distrito Federal, o que além de ser um má justificativa, também só produz mais burocracia no Processo Legislativo. Dilma terá uma relativa tranquilidade para governar, mas olhemos para os limites disso.










segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Dilma Rousseff


foi eleita ontem, com mais de 55 milhões de votos, a primeira presidenta do Brasil, derrotando o candidato oposicionista José Serra. Foi eleita, aliás, na mais dura, covarde e tensa eleição vista desde 1989, quando artimanhas de toda sorte foram utilizadas contra o então candidato petista Lula, custando a vitória do PT e gerando ainda algumas boas décadas de atraso no processo de democratização material e da luta social. Foram, ainda, mais duas derrotas de Lula para que ele pudesse vencer em 2002, reeleger-se em 2006 e depois de um segundo mandato mais bem sucedido até mesmo do que o primeiro, bancar a eleição da grande gerente do seu projeto.


Frente a iminência da responsabilidade de substituir Lula, Dilma não foi submetida a um debate duro de ideias, muito pelo contrário: A resposta da direita aos últimos quatro anos em especial, quando o Brasil finalmente retomou os rumos do crescimento econômico conjugado com o advento do desenvolvimento social foi esquizofrênico, variava entre a simplificação grosseira e perigosa do "bolsa-esmola" - o fantasma no qual foi transformado o carro-chefe dos programas de assistência criados pelo atual governo - à demagogia que prometia sua manutenção - com o candidato oposicionista chegando às raias da insanidade total na reta final da campanha ao propor um aumento insustentável do salário-mínimo e dos mesmos programas sociais que eram hostilizados por sua base.


O histórico da participação da direita nos últimos anos tem menos a ver com a participação irracional de seus partidos na oposição do que a intervenção da mídia corporativa - setor historicamente dominado por um oligopólio de famílias tradicionais no Brasil -, que assumiu as rédeas do comando de campanha anti-lulista, pautando o discurso anti-governo, adequando redações inteiras a pautas que tinham muito pouco a ver com jornalismo e partiam de premissas essencialmente político-partidárias. A rearticulação da direita em 2009 tem por marco o editorial da Ditabranda, na qual o editorialista da Folha de São Paulo reescrevia a História com o único fim que esse tipo de movimento pode ter: Escrever o futuro, já mirando na possibilidade do governo lançar como candidata uma ex-combatente armada contra a Ditadura Militar.


A tag "Eleições 2010", portanto, não começou a ser usado neste blog apenas nos últimos dois meses, mas sim há quase um ano e nove meses atrás, rendendo 70 posts, cujo artigo inicial foi, justamente, uma análise da mola propulsora dessa rearticulação direitista, início fático do processo eleitoral - cujo fim, se operava como reação ao tripé central do atual governo, em suma, na oposição à política externa independente e de integração sul-americana (retratando o ânimo colonizado e interesses diretos de parte da nossa elite), uma guerra da velha "classe-média" e da burguesia frente ao novo estatuto social da classe trabalhadora - e o desaparecimento progressivo da miséria - e uma resposta dos partidos tradicionais (e do próprio PSDB) frente ao avanço do PT.


O resultado disso foi uma construção discursivo-ideológica, por parte da miscelânea dos setores oposicionistas, que foi para além do fantasma do "presidente analfabeto" e do mito do partido de aloprados para a construção incessante de fantasmas, construindo um verdadeiro mundo imaginário no qual os mais elementares dados sobre a a verdadeira situação do país eram obliterados e, de repente, qualquer ataque pessoal, qualquer espécie de desconstrução do ethos do adversário se justificava. O PSDB, que apesar de não ter nascido com o espírito de um partido firmemente transformador, também não abria mão de se opor ao direitismo autoritário da política nacional, cruzou todas as linhas possíveis que se admitiria um partido "social-democrata" cruzar, variando do ridículo ao abjeto o tempo inteiro. 


Se a campanha de José Serra em 2002 era a de que tudo que foi feito nos oito anos anteriores era bom e só precisava de ajustes, se a de Geraldo Alckmin é de que a "política" - na verdade, a democracia - não funcionava e que o Brasil deveria ser administrado como um empresa - o que concorde-se ou não, estava ainda dentro do campo da racionalidade, diferentemente da campanha de José Serra em 2010, na qual inexistia sequer uma coerência discursiva. Por que precisaria se candidatar o ex-governador bandeirante a essa sucessão, se ele mesmo dizia que iria continuar o que está posto? Como iria continuar isso, se esse era para muda-lo que seus apoiadores e financiadores lhe bancavam? A candidatura Serra foi o ocaso de uma candidatura sequestrada pela direita brasileira tradicional que não tinha como se assumir  nem como renunciar publicamente a tal estatuto, sendo que a expressão de tal ocaso foi uma radicalização que brincava com as superstições e preconceitos ainda existentes na nossa sociedade, afigurando-se como a mais dramática e desesperada anti-candidatura já vista por essas terras.


Dilma, por sua vez, nasce de um estado de emergência levantado pela direção nacional do PT, Lula no comando, que já traçava a estratégia eleitoral bem antes. Não só: Traçava um plano de hegemonia dentro do próprio PT - para quem não conhece o PT por dentro, qualquer movimento dele parece um mero lance eleitoral ou contra a direita, mas o fato é que cada mexida de peça petista é também um movimento tático relativo à efervescência de sua luta interna. Todo movimento petista, portanto, é um movimento duplo que diz respeito a fins internos do partido - a manutenção de uma posição de liderança ou que vise à liderança dentro de sua estrutura particularmente instável, sem abalar suas estruturas - e fora dele - o avanço do desenvolvimento social. É necessário que haja correspondência efetiva entre os dois movimentos, senão o desastre está feito  -aliás, as grandes derrotas petistas (em especial, as paulistanas) se explicam por um descompasso nesse ponto, cujo resultado, a autofagia e fratricídio, foram a porta aberta para o malufismo voltar ao poder nos anos 90 e para Serra ressuscitar politicamente em 2004 (com um ânimo voraz parado apenas na noite de ontem).


Essa estratégia consistia em manter o atual modelo de desenvolvimento - negociado e fundado no realismo político, muito embora seja, em vários momentos, mais realista do que o rei - e atual correlação de forças internas, o que se daria bancando a candidatura de alguém com suficiente prestígio no comando do atual Governo e junto à atual cúpula do partido, com capacidades administrativas ímpares e credenciais junto à esquerda que combateu a ditadura - o que Dilma tem: Muito embora ela não seja uma petista fundadora, sua atuação nos anos de chumbo faz com que ela seja respeitada para algo que transcende o próprio PT e, na verdade, o antecede; a solidariedade entre todos aqueles velhos que lutaram contra a Ditadura, para quem a figura de uma companheira que foi torturada por três anos sem "abrir" o nome de ninguém não é pouca coisa, acreditem.


Evidentemente, sua capacidade política reside na administração - na qual tem um histórico respeitável desde o governo municipal porto-alegrense de Alceu Collares nos fins dos anos 80 -, não no campo eleitoral, o que lhe causou dificuldades imensas, especialmente no momento efetivo da disputa, quando a ritualística da democracia de representação exige o domínio da retórica, da oratória e das artes dramáticas. Ainda por cima, seu comando de campanha, especialmente o seu tentáculo poético-militar - seus marqueteiros - que falhou em não saber usar suas habilidades, moldando-as de um jeito mais palatável - como Duda Mendonça fez com Lula em 2002 ao ter tornado sua imagem pública aquilo que ele era, mas não parecia ser -, colocando-a frequentemente numa posição desconfortável e artificial. 


A candidata petista teve de, por si só, quase como que por tática de guerrilha, salvar sua candidatura, o que aconteceu quando ela fugiu ao script no debate da Bandeirantes do Segundo Turno e jogou Serra contra a parede, em um momento em que o candidato adversário conseguia esvaziar as monumentais conquistas sociais do governo por meio do terrorismo fundado superstição - incorporando de vez o rótulo de candidato do Medo, em um sentido spinozano da coisa mesmo. Aquilo foi o ponto de inflexão de uma candidatura em crise, que depois de meses de crescimento nas pesquisas via sua vantagem perigosamente virar vapor num movimento que vinha desde Setembro, seja pelo marasmo de sua campanha ou da atuação eficiente da mídia em desconstruir sua figura pessoal, usando a candidatura Marina como escada para tanto, em um momento em que Serra sequer conseguia captar os dividendos dos temores que ele próprio produzia - com isso não digo que Marina fez o jogo de Serra, isso não existe, candidatos fazem sempre o seu próprio jogo, mas ela serviu de instrumento para tanto sim. 


A importância histórica da vitória de ontem se assenta em um tripé: [i] eleição de alguém com esse histórico de combate à ditadura - muito embora FHC e Lula também tenham resistido à Ditadura, o simbolismo e a intensidade da forma como Dilma realizou isso é diferente porque importou objetivamente em martírio; [ii] ter chegado poder de uma pessoa que cujo histórico é uma ponte entre o a luta socialista e a trabalhista no Brasil como nos lembra Idelber Avelar - ainda que isso tenha, institucionalmente, se realizado na Carta ao Povo Brasileiro, resultando em realizações práticas que expressam essa intersecção, o simbolismo da chegada ao poder de uma figura pessoal que representa isso, é fundamental; [iii] Por fim - e principalmente - na importância da chegada de uma mulher ao cargo mais importante da República. Machismo não é uma problema unicamente brasileiro, ele é mais do que isso, a nossa própria forma de organização, cujo embrião está na antiguidade clássica ocidental se assenta sobre a vedação da participação feminina nos assuntos da coletividade, portanto, o significado da eleição de uma mulher na maior unidade política latina de todos os tempos vai para muito além de qualquer raciocínio mais ingênuo sobre igualdade entre os gêneros: Ele se situa no ponto nevrálgico de um dos maiores cortes sobre o qual foi construído o próprio conceito de política.


Esse ponto último, explica a dificuldade das mulheres ascenderem a cargos eletivos ou, uma vez conquistados, se manterem neles. Dilma é uma guerreira do povo brasileiro e terá pela frente uma batalha tão dura quanto a luta contra a Ditadura ou contra o câncer, que é se afirmar sua figura pessoal na condução de um projeto de desenvolvimento social que é obrigado a fazer uso de um aparato instrumental essencialmente patriarcal e machista, que tenderá a mitigar seus acertos e maximizar seus erros, embora conte com uma boa linha de frente no Congresso e tenha quadros suficientemente bons para montar uma grande equipe ministerial. O desafio que terá pela frente será duro. Seu governo estará sob o fogo cerrado da rearticulação da direita tradicional que, como qualquer fera acuada, é particularmente perigosa; a questão é saber organizar as ferramentas que terá em mãos, não se curvando a conciliação - mas sim mantendo e fortalecendo uma postura de negociação -, para lidar com um fenômeno inédito em nossa história: Hoje, nosso grande problema é quebrar a cabeça para saber como lidar de forma sustentável com os recursos que estão entrando em abundância no nosso país e não mais lidar com a escassez, o que é sintomático em relação aos oito anos de Governo Lula - Governo que a nossa presidenta foi das maiores protagonistas, sem dúvida.


P.S.: A foto que ilustra o post é da queima de fogos na Avenida Paulista, onde aconteceu a principal comemoração da vitória de Dilma aqui em São Paulo. Fui correndo para lá depois que vi que o resultado das urnas estava consolidado. Foi uma festa belíssima, especialmente, o show de Alceu Valença, de uma poesia encantadora, o ponto alto foi Anunciação.


P.S. 2: Se vocês acharem pela Internet algum vídeo da TV Estatal Chinesa com um carinha muito parecido comigo ligeiramente alcoolizado e falando algo sobre eleição de Dilma e a  importância de conjugar desenvolvimento econômico com liberdade, não era eu, só alguém muito parecido comigo mesmo que estava com quase todos os meus amigos - mas sim, ele tinha razão :-)








Atualização das 19:38: Lindíssimo o post do Murilo no indispensável A Navalha de Dalí, Dilma: fazer rescender o perfume do tempo.