
Enquanto a guerra civilizatória prossegue no Rio de Janeiro - e o que é a civilização e seus interesses superiores, não? -, estoura de forma definitiva, no mundo já civilizado, o caso Wikileaks: Aproximadamente 250 mil documentos de embaixadas americanas pelo mundo foram* serão tornados públicos na Internet, no site da organização. Aqui, mais do que nunca, seria necessário inverter o anátema, posto que isso tudo seria trágico se não fosse cômico. O conteúdo já revelado apenas comprova aquilo que - como diria o velho Carta - até o mundo mineral já sabia, seja o fato da diplomacia americana realmente fazer intensa espionagem de outros governos, corpos diplomáticos e da própria ONU ou como seus diplomatas-espiões enxergam de forma limítrofe o mundo que deveriam, ao menos, entender tão bem. Nada de novo sob o Sol, mas agora algumas horas de argumentação com americanófilos cegos (ou nem tanto) pode ser resolvido com um link com uma foto de satélite provando que a terra é redonda mesmo.
A reação de especialistas ocidentais - os de verdade, por favor - não poderia ser muito diferente daquela que teve o lendário jornalista britânico Robert Fisk: Uma boa dose de sarcasmo e uma conclusão perfeita, "não que os diplomatas americanos não entendam o Oriente Médio; é que eles já não sabem ver a injustiça". De fato, não é uma mera questão dos dados que eles têm em mãos - cujas fontes são tão precárias quanto de um jornalista ocidental médio, portanto, certamente piores do que as de Fisk -, mas como sua forma de pensar está de tal forma poluída pela ideologia e pelo discurso hegemônico, que já não há mais capacidade crítica, tampouco desejo, que lhes faça tentar enxergar a situação por outros ângulos e, muito menos, fazer uma crítica moral do que estão fazendo. Nem todos os melhores dados do mundo lhes seria suficiente.
Eu iria até mais longe, a natureza de certas informações parecem responder ao que deseja que seja dito e descoberto pelo Departamento de Estado americano, tal como pesquisas sociológicas em comunidades oprimidas, na quais os entrevistados tentam responder ao entrevistador perguntas sobre si mesmos como se devessem responder a pergunta certa - uma consequência óbvia pela maneira como as relações sociais são postas e como, não raro, o entrevistador se põe acima do entrevistado, tratando-o como uma cobaia. Na sua função atípica de espiões, os diplomatas americanos tentam "responder" as questões do jeito certo.
Impossível não remeter ao Nosso Homem em Havana de Greene: Como um pacato inglês radicado em Cuba chamado Wormold, dedicado ao humilde ofício de vendedor de aspiradores de pó, acaba aceitando uma proposta irrecusável do serviço secreto de seu país natal para espionar a efervescência da Ilha nos anos 50. Da paranoia da Guerra Fria à comédia, Wormold precisa criar uma boa dose de factóides a todo momento para vender o seu peixe, chegando ao cúmulo de enviar para seus sinistros chefes uma planta de aspirador de pó como se fosse uma instalação nuclear. Nada muito diferente daqui. Temos desde textos que falam o óbvio até outros que levantam balões de ensaio. Há coisas sérias, como a divulgação de reuniões, lobbies, mas sobretudo resta a revelação de como o sistema imperial americano se tornou insuficiente em si mesmo, uma verdadeira Sátira - o que, desde Spinoza, sabemos que é o inverso da Ética.
Chegamos ao Governo Obama. Se o atual presidente, primeiro negro a assumir a liderança daquele país, mesmo que tenha assumido numa das piores crises de seu país, o fez numa das conjuntura favoráveis da história para um presidente americano: Poderia, perfeitamente, ter levado a cabo um processo de distensão e integração no continente americano e da construção, no plano global, da multilateralidade. Dada a crescente diminuição dos EUA em relação à economia mundial, seus problemas econômicos e o próprio esgotamento de seu modelo, o atual posicionamento do país enquanto mandatário global só favorece a certos grupos de interesse específico, notadamente a indústria bélica e petroquímica, fora isso, são os trabalhadores que estão arcando com tudo. Obama e seus aliados no partido democrata, no entanto, estão mais preocupados a se deixar pautar por qualquer rumor pautado pela direita local e a nortear sua política externa nesse sentido, o que é não apenas catastrófico como insustentável. Aquele Estado é como um corpo sem cabeça, andando por aí, não muito diferente da União Soviética dos anos 70. Também aí, nada de novo.
Curiosos mesmo são os cables sobre o Brasil. Um deles, certamente o mais intrigante, foi a pressão americana para que aprovássemos uma lei antiterror. Um excremento, sem dúvida. A ideia não vingou por pressão, inclusive, de Dilma Rousseff, atual chefe de estado e de governo. O argumento usado por ela é bem simples, como isso poderia ser usado para criminalizar movimentos sociais e, quem sabe, políticos. Interessante também o vazamento do nome do "analista" da Escola Superior de Guerra, André Luís Woloszyn**, que dizia que era impossível uma lei antiterror sem incluir o nome do MST - o que é revelador do que ainda é a ESG, uma centro de estudos estratégicos brasileiros, mais alinhado com os interesses americanos do que, talvez, West Point (como a nosso ditadura nos prova), o que apenas comprova o afã da direita nacional, ela sim, de incluir aquele movimento no rol de "grupos terroristas" a todo custo. Novamente, o PT, ele mesmo, acaba sendo, em seus defeitos e contradições, a última linha de defesa do país em relação ao descalabro generalizado.
A maneira como é narrada o aparente descaso do governo brasileiro com o "terrorismo" é uma peça antropológica, sem dúvida. Os americanos e os analistas nacionais - mais gringos que os próprios -, na verdade, não entendem como o Governo brasileiro ainda não descobriu o potencial de como controlar os seus, por meio do potencial de subjetivação dos seus cidadãos como "terroristas", mas a maneira como isso é narrado é deliciosamente cínica, os tecnocratas apontam o governo como "imaturo" do mesmo modo como se fazia com os países que não queriam aderir ao livre-mercadismo nos anos 90: A nossa vontade é tamanha que quem não se dobra a ela, só pode ser um idiota. Uma forma de idealismo perversa, na qual os próprios ideólogos começam a acreditar nas mentiras que repetem - e aí, caríssimos, só o inferno é o limite.
Atualização das 13:48: *segundo me informa o nosso Idelber, nem todos os 250.000 documentos foram tornados públicos ainda, e **o sobrenome do analista da ESG é Woloszyn e não Soloszyn (sim, o nome dele foi grafado errado no cable como vocês poderão notar a seguir).
P.S.: Segue a íntegra, na quebra de página, do cable sobre a lei antiterrorismo, antes que alguém a tire do ar:
