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quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Algumas Reflexões sobre a "Blogosfera Progressista"

A Blogosfera, nossa musa
Em Agosto deste ano que está às vésperas de se encerrar, aconteceu o primeiro encontro de blogueiros progressistas. Sim, eu estive lá. Apesar das minhas ressalvas a certos itens da organização e ao próprio nome do evento - como eu ressaltei à época e anotei aqui mesmo -, eu não deixei de ir porque considerei importante um encontro de porte entre blogueiros do país inteiro. Isso fazia parte daquilo que esse blog se propõe, de ser um instrumento crítico à avalanche de informações que nos soterra e, ao mesmo tempo, tentar dar uma utilidade prática a essa pequena máquina no sentido de produzir alguma intervenção social útil, em meio a essas tristes tempos que testemunhamos - embora, claro, soubesse das limitações objetivas óbvias do evento. Agora, com o caso de Luís Nassif e as feministas - narrado nesse bom post da Cynthia Semíramis - algumas contradições vieram à tona e é necessário pontuar algumas outras coisas por aqui.

Antes, cabe uma recapitulação. Este meio no qual escrevo era, no nosso país, um espaço profundamente incipiente há menos de dez anos. A pequena Internet brasileira, quando debatia, o fazia em listas de e-mails, fóruns e alguns poucos blogs, enquanto o grande debate transcorria na grande mídia tradicional. A expansão da Internet por meio do crescimento econômico dos últimos anos proporcionou um ingresso massivo de público na rede. Gente ciosa pela informação em tempo real e por interatividade que, no caso nacional, também gente que não aguentava mais uma mídia que deixava cada vez mais o jornalismo de lado para se pôr no papel de oposição. Nesse momento, alguns jornalistões copiam o modelo de blog americano, não mais como um diário virtual qualquer, mas algo que tem uma função clara no debate público.

Ainda assim, os blogs que aparecem nessa época ainda tinha fortes ares de artigos de periódicos apesar do meio virtual, até mesmo na linha editorial que seguiam em seu conteúdo - um Noblat, por exemplo. Para além de pequenos blogs, passam a surgir blogs de jornalistas famosos, muitos dos quais defenestrados da grande mídia por não seguirem a linha oficial. Paralelamente, acadêmicos e intelectuais começam a escrever um material de bom nível, independente e crítico pela rede. Tudo muito embrionário, antes do grande boom do segundo mandato de Lula. Essa blogosfera da intelectualidade, em muitos momentos, concorda com essa blogosfera jornalística "não-alinhada" - até pelo fato de ambos os espaços ser majoritariamente esquerdista, ainda que não apenas -, embora não se misture com ela, seja em linguagem, perspectivas ou mesmo em propósitos. 

Ambos, no entanto, são simpáticos a Lula - ou pelo menos não o perseguem com tochas - em um momento em que a mídia nacional, na contramão da sociedade e até da comunidade internacional, assume uma posição amplamente negativa. A aproximação entre ambos os espaços se dá com a aproximação do processo eleitoral. É mais ou menos nesse clima que sai o encontro de "blogueiros progressistas", organizada pelo núcleo duro da blogosfera jornalística pró-Dilma, por um Nassif, Azenha, Rodrigo Vianna e um Paulo Henrique Amorim. Gente com boa quantidade de acessos fruto da popularidade obtida na grande mídia que facilitou o (bom) trabalho que fizeram na rede - e aqui não entro no mérito do trabalho, mas na sua eficiência de difundir notícias e atrair público. Em seus defeitos e virtudes, esses jornalistas não se confundem com acadêmicos que construíram suas carreiras na blogosfera e ainda que defendam o voto no PT - e até militem em favor disso como fizeram na campanha -, exercem uma função crítica como é o caso do Idelber Avelar ou do Celso de Barros. 

O nome, na verdade, foi uma saída política dentro do próprio comitê organizador para manter gente como PHA que, como todos sabem, não é homem de esquerda nem dado a esquerdismos - ao mesmo tempo em que, na costura vertical de sua organização buscava ser mais plural possível, o que, convenhamos, destoa da esquerda, mas não deixa de ilustrar um pouco do que o governo de Lula, em seu amplo arco que vai da direita popular evangélica - e da direita nacional-desenvolvimentista - até as alas esquerdas do PT. Nesse sentido, o encontro foi positivo porque ele foge ao modo como se estabelece a hegemonia midiática - patrimonialista e oligárquica - em um novo meio que está, econômica e politicamente ainda em disputa, e com limitações sérias quanto ao grau de mudanças que esse acordo é capaz de estabelecer (sobretudo aquilo que ele pode ceder).

O termo "progressista", em um país de forte influência positivista como o nosso, é antes de tudo agregador.  Quem é contra o progresso, afinal? Eu duvido que até mesmo a direita atual se diga contra - talvez essa tenha sido uma das poucas brigas ganhas na história do debate político brasileiro, afinal, pelo menos parte da direita monarquista do século 19º era contra (os conservadores), depois isso virou tema superado. A doutrina de progresso e desenvolvimento nacional foram de tal forma inseridas no inconsciente brasileiro que isso contaminou a própria esquerda nascente; se uma leitura vulgar no materialismo já leva ao desenvolvimentismo, como advertiu Marx na Crítica ao Programa de Gotha e Benjamin em suas Teses sobre o Conceito de História, o viés positivista, a marcha incessante pelo caminho reto da História  em direção à evolução, nunca deixou de ser um fantasma presente na história, até mesmo, da nossa esquerda.  Trata-se de uma concepção naturalizada em nossa ideário que marca uma oposição ao Atraso - à inércia do Brasil coronelístico que não consegue pensar a economia para além da escravidão ou similares. A questão do Progresso continua posta porque esse Atraso continua a existir, embora o primeiro seja apenas uma linha de fuga em relação ao segundo, com seus problemas todos como bem sabemos. O enorme desafio da esquerda brasileira é resolver essa questão e, ao mesmo tempo, se livrar da tradição do progressivismo, o que passa antes de mais nada, pela sua reflexão.

O problema aqui não é que o comitê organizador deliberou conscientemente em favor desse equívoco histórico, mas é que ele só referendou algo que está inscrito no desejo,  no inconsciente de nossa sociedade, e, ao mesmo tempo, constitui-se em um equívoco histórico em relação ao qual já pagamos um preço alto. É justamente a inconsciência do gesto o fato que constitui o grande erro da questão em específico, é ainda estar sujeito a esse desejo e alheio a essa reflexão, o que mostra que o projeto em questão não reconhece a natureza e o tamanho do desafio real que se apresenta. No fim das contas, não há um blogosfera progressista, existe um grande arco de blogs cujos editores, no calor causado pela maneira como o debate político foi estabelecido nos últimos anos - sobretudo o último debate eleitoral -, tenderam a um apoio à continuidade do projeto do PT por meio da eleição de Dilma Rousseff, mas isso é um acordo político, o que cria aliados, mas não faz companheiros; talvez isso seja a expressão de uma faceta do projeto lulista sobre a sociedade civil. A própria falta de identidade entre os atores levou a isso, a uma representação de algo tão natural quanto o símbolo do progressivismo. 

Chegando ao caso concreto, temos a peleja de Nassif com as feministas. Antes de mais nada, repito aqui o que disse no Twitter, ele está errado e ponto final. Ainda que tenha recuado no fim das contas, fez mal, deu desculpas ruins e sai manchado dessa conversa toda. A questão aqui não está em criticar o feminismo - ou ter transformado em post o comentário de um leitor que o fazia -, mas de fazê-lo em bases infantis, leigas e ofensivas como o post em questão e ter reagido mal às críticas, seja pelo Twitter ou no blog. Isso não é novidade em certos temas que Nassif tenha posições fixas em matérias que ele não tem conhecimento de causa. Basta relembrar como ele polemiza em questões das cotas raciais ou em relação à revisão da Lei de Anistia - temas que, ao contrário da maioria de seus leitores, ele é contra. Sobre esse seu modo de polemizar, aliás, o caso em tela não é nenhuma novidade, como já tratei aqui mesmo há quase um ano. É uma falta de conhecimento de causa, somado a problemas estruturais do blog - transformar comentários de leitores, em meio a polêmicas, em post sem publicar um contraponto, publicar muito material de fora, às vezes sem link etc etc - e sua profunda incapacidade autocrítica.

A questão despertou uma série de outras tantas, a inquietação quanto ao significado dessa blogosfera progressista e gerou críticas para quem é contra ela - pelos motivos certos ou errados. O que, convenhamos, é um debate bizantino. Não existe essa unidade e mesmo que existisse, Nassif responde pelo que faz e não uma hipotética rede de blogs. O fato ocorrido também não me causa muito espanto, quem chegou na blogosfera ontem deve imaginar que Nassif é algum petista histórico, quando, na verdade, ele é um jornalista da área econômica que nutre posições historicamente centristas e se afastou do PSDB na medida em que esse se afastou do próprio centro político - enquanto o PT preenchia também esse espaço. Isso não justifica as atitudes dele de modo algum, mas ajuda a entender como se desenrola o jogo pela análise de suas matizes. Desse modo, há quem esteja usando-se da oportunidade para atacar o "bloguismo progressista" e há quem em nome desse fantasma esteja blindando o Nassif. Ambos estão errados. Enquanto os primeiros devem tentar entender do que se trata a conversa toda, os segundos tem de entender que a crítica é central nesta atividade aqui. Nassif não é um personagem sem suas matizes e contradições e seu papel histórico na blogosfera não se confunde com os erros que comete - e vice-versa. Neste meio, não divinização que resista, nem demonização que persista. Critica-lo aqui é, antes de mais nada, saudável, mas é preciso determinar o campo. Eu, da minha parte, espero que todo o potencial da Internet sirva para a construção de movimentos mais orgânicos e colaborativos, mas é uma luta difícil.