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quarta-feira, 17 de outubro de 2012

São Paulo, Haddad, Serra: a Batalha e a Metropóle

Recomeçou esta semana a campanha municipal, agora é a ora e a vez do 2º turno. Em São Paulo, alinham-se na disputa Fernando Haddad (PT) e José Serra (PSDB), representantes das duas forças que disputam, há cinco eleições, a cadeira presidencial -- cada qual capitaneando um lado do espectro político. São Paulo é a maior metrópole do país. E é grande sobretudo onde é pequena, onde é minoritária. Por que São Paulo? Certamente não porque é o umbigo do mundo ou muito menos do Brasil, mas sim porque protagonizou a reação ao projeto que governa o país há anos, nem sempre por seus defeitos.

Uma aliança perfeita: a direção das grandes corporações de mídia e seu jogo panfletário, a burguesia local e seus pruridos -- e setores médios que se prestaram -- o financismo -- na forma da especulação imobiliária, a dívida sem fim para poder habitar -- o jogo oportunista de setores centristas, "social-democráticos", dispostos a tudo para chegar ao poder no governo federal. Oito anos depois e o resultado é que São Paulo, sem risco de ser parcial, desumanizou-se. 

As conquistas dos anos Lula, que bem ou mal chegaram no aspecto macro, não adentraram à vida das pessoas -- ao lado de fora de casa, como diria Haddad -- não somente por falta de um governo que se abrisse para articular políticas públicas em parceria com o governo federal, mas também, e sobretudo, pelo fato dele se fechar transformando São Paulo numa trincheira de uma guerra contra um inimigo que nunca existiu: mas Kassab, enquanto vê sua gestão liquefazer, muda de lado, racha a direita nacional, se fisiologiza -- só não poderia dizer um não ao seu padrinho político, José Serra, quando ele precisou se candidatar.

As UPP's e as remoções no Rio, metrópole-laboratório do governo federal -- embora nas mãos de aliados e não de correligionários propriamente ditos -- são dignas de críticas, mas precisam ser vistas nas suas ambivalências. Favelas pegando fogo durante a calada da noite, não, é um ato puramente inequívoco. Criticar Serra não é paranoia, tampouco exime o PT, municipal ou nacional, de nenhuma crítica, mas isso não quer dizer que ele não tenha a enorme responsabilidade por Kassab e tudo mais que veio junto -- que mais do que empurrar com a barriga os problemas da cidade, instituiu um vazio de ideias uma geleia geral. O que houve com São Paulo durante esses oito anos?

No 1º turno, enquanto o julgamento do mensalão transcorria como espetáculo do moralismo nacional, uma fogueira da inquisição da sociedade do espetáculo -- coincidentemente ocorrida durante as eleições -- Russomanno ascendia com um misto de demagogia religiosa, discurso da segurança pública e quetais. Se Maluf foi assunto das eleições por conta da famosa foto com Lula e Haddad, o malufismo mesmo estava lá. E parecia não arrefecer mesmo com o baixo tempo de TV e recursos dele. Serra caia e depois disputava voto a voto com Haddad para passar ao 2º turno.

Pesquisas a postos, a ascensão de Haddad foi subestimada, assim como sua chegada na hora H, Serra idem e a queda de Russomanno -- cuja figura contestabilíssima começou a ser desconstruída pela própria mídia conservadora, por tirar votos também de Serra -- fim de jogo: Russomanno foi, ainda, bem votado na periferia, quase não teve votos no centro expandido, Chalita apareceu em um quarto lugar constante por todo o município e Haddad venceu na periferia enquanto Serra venceu nos bairros ricos. 

A geografia de São Paulo é a perfeita ilustração da luta de classes e do êxito da burguesia em varrer seus pobres pra longe, embora dependa deles diariamente --  pobres que moram nas bordas e precisam vir de todos os lados para trabalhar no centro expandido todo dia (concentração de gente na periferia, concentração de empregos no centro); daí que a crítica ao modelo urbano-econômico de São Paulo não ser de natureza moral, mas sim pragmática-funcional: não, desse jeito, São Paulo não funciona mesmo, poluída, engarrafada e insuportável.

Se Serra teve menos votos que Kassab na periferia é porque o terceiro candidato, Russomanno, mantinha o apelo popular lá, embora tivesse poucos votos no centro expandido -- onde Serra foi mais bem votado do que Kassab --, caso exatamente oposto ao de Alckmin, terceiro mais votado em 2008. Haddad, por sua vez, foi mais bem votado do que Marta no centro expandido, mas teve menos votos na periferia justamente pelo fator Russomanno.

Haddad é a construção do Novo Brasil em São Paulo, um tornar-se novo Brasil da pauliceia por meio do Lulismo, nas suas ambivalências e, sim, sua potência. Serra é o tornar São Paulo o Brasil -- trazer São Paulo, não a intensidade da São Paulo viva, mas fazer, forçosamente, do Brasil aquilo aquilo que São Paulo é, ou está. 

Nas pesquisas de 2º turno, Haddad iniciou na frente, entre dez a onze pontos percentuais válidos, de Serra. Nada de novo sob o Sol: candidato mais rejeitado entre todos, e com o eleitorado de Russomanno, pelo menos aquele que restou com o candidato do PRB até o dia da votação do 1º turno, mais propenso a votar no candidato petista, Serra não poderia registrar nada diferente que não isso. 

Nada que não motivasse um ataque duro. E novamente Serra apela para o discurso moral e para a violência oportunista com as minorias ao se usar do kit homofobia contra Haddad -- projeto educacional do MEC contra o ódio aos homossexuais, mas barrado pela bancada da direita evangélica (e não bancada evangélica, não vamos colocar todos os evangélicos na mesma canoa, por favor). Irresponsabilidade que não foi poupada nem mesmo por um editorial da Folha, serrista de tempos e de carteirinha. 

Uma minoria inteira exposta por oportunismo eleitoral, por uma pesquisa desagradável -- embora o governo Serra tem distribuído um material parecido ao kit anti-homofobia nas escolas públicas de seu estado, o que torna tudo mais cruel do que seria preconceito puro. Nada muito diferente de 2010, quando valeu literalmente tudo para impedir a ascensão de Dilma.

E de lá para cá, o debate político tem sido pautado por superstições morais: o preconceito do o tom da chantagem parlamentar no Congresso, e fora dele, e o governo petista não sabe o que fazer, se responde, se contemporiza. São absolutamente injustas as críticas de homofobia por parte de Dilma, mas é certo que o governo atual tem medo -- quando precisávamos do contrário. E o PSDB surfa na onda contra o PT, o que, pelo visto, não tem lhe ajudado a vencer eleições, mas prejudica o rival e torna o jogo político um tanto pior.

Nada está decidido em São Paulo. É possível que Serra eleve o tom e atire para todos os lados. Precisa sobreviver na política. Não sabemos quem mais, depois dos homossexuais, irá se tornar refém eleitoral. Haddad precisará ser preciso e duro sem perder a ternura -- tem a seu favor uma rejeição menor e a capacidade disputar votos na periferia próxima, nos bairros que são limítrofes, por fora, com o centro expandido, onde venceu em alguns e perdeu, só por conta de Russomanno, em outros.

Há muito o que discutir, há muito o que fazer. Não adianta supor que isso é uma batalha do bem contra o mal, onde Haddad seria o mocinho e Serra o bandido, mas também não é qualquer jogo onde ambos são o mesmo, ou niveláveis pela mesma régua: o longo governo Serra/Kassab não está em crise, ele é a crise, mas não a crise para os especuladores do setor imobiliário e outros parasitas tantos, mas sim a de nós outros, os cidadãos comuns que tentam, e até precisam, habitar e viver a cidade, incorporando e sendo incorporados. 

Portanto, não é hora, nem o caso, de não tomar partido, é preciso fazê-lo e tudo mais: tomar partido, tomar o partido, lutar pela desinterdição afetiva à qual estamos sujeitos há muito. Pode ser ingênuo, mas é, e precisa ser, corajoso.

Atualização de 18/10 às 03:05: Leiam Algo de Novo na Geografia do Voto Paulistano? de Raquel Rolnik, um post excepcional sobre distribuição do voto nos espaços físicos da capital. E também, Haddad amplia mais ainda a diferença de Serra no Ibope: de 11 para 16 pontos.









quarta-feira, 13 de junho de 2012

Sucessão Paulistana: Erundina vice de Haddad

As negociações entre PT e PSB para as eleições paulistanas parecem ter confluído para algo bom: Luiza Erundina possivelmente será a candidata a vice na chapa de Fernando Haddad para a Prefeitura. Erundina é uma figura importantíssima na história política paulistana, pois foi a gestão, para além de todos os problemas que enfrentou, a deixar o legado político mais relevante - antes de mais nada, porque no governo, Erundina não foi governista, ela se desfez do pedestal estatista e procurou, junto à associações de moradores e movimentos sociais, fazer a boa política, focando na questão da moradia (sem dúvida, a questão central da política local) e no diálogo franco com a sociedade.

São Paulo é uma cidade politicamente complexa e profundamente problemática. Todas as gestões, exceto a de Paulo Maluf (1993-96), terminaram com um desgaste altíssimo - e Maluf, mesmo tendo feito sucessor, o falecido Celso Pitta (1997-2000), sofreu um pesado desgaste posterior, seja pela revelação de escândalos seus quando na Prefeitura ou pelos efeitos do desastre da gestão Pitta. Tanto é verdade, que Maluf, depois de ter refeito sua carreira política com certo êxito no pós-ditadura, não só jamais conseguiu vencer uma eleição majoritária novamente, como também viu seu tamanho político severamente diminuído: mesmo eleito com boas votações para a Câmara dos Deputados, sua influência é pequena e sua figura é condenada a uma representação quase tragicômica, mesmo entre os meios conservadores que lhe sustentavam.

Erundina, por motivos outros e na outra ponta do espectro político, não deixaria também de sofrer um processo de fritura, mas ao contrário de Jânio, do já referido Maluf, de Marta ou Kassab, ela deixou linhas gerais de como fazer política na capital, que persistem até hoje. Não só, Erundina saiu pessoalmente incólume dos escândalos e absurdos mil comuns à política local. Hoje, ela persiste sendo reeleita como deputada federal - não mais pelo PT, onde sempre teve problemas com a direção, mas sim pelo PSB - e exerce um mandato bem avaliado, sustentada por um eleitorado cativo, focando sobretudo em questões como a comunicação social e apresentando bom trânsito na política nacional.

Trata-se, sem dúvida, de um bom norte para a candidatura do jovem Fernando Haddad. A reaproximação de Erundina com o PT não deixa de ser um bom sinal, uma vez que o partido da estrela, sem dúvida a mais relevante legenda de esquerda do país e da capital, anda em círculos desde o fim da gestão Marta, que embora tenha implementado boas políticas públicas, fragmentou o partido e o deixou em um permanente tensão interna nos últimos anos. Também faz bem para o PSB de Erundina, pois fortalece a ala não-fisiológica e com a alguma disposição social do partido, minoritária em relação a uma direção estadual alinhada com o governo Alckmin.

Haddad precisa disso em uma campanha na qual, ainda que venha garimpando um espaço razoável na mídia, é desconhecido pelo eleitorado e precisa não só de um impulso eleitoral como, também, de uma ancoragem política que lhe dê mais densidade no nível municipal. Ainda que José Serra seja um líder de pesquisas anômalo, por ser também o candidato com a mais alta rejeição - tanto por questões pessoais como por ser o sucessor de uma gestão fracassada como a de Kassab -, é fato que ele é o candidato a ser batido pelo franco apoio do establishment local. Em termos propriamente políticos, a presença de Erundina na chapa, a norteia na posição em que ela precisa estar para ter razão de ser. Seja como for, trata-se de uma boa notícia.

quinta-feira, 1 de março de 2012

Sucessão Paulistana: Serra está lá, e Daí?

Há poucos dias, José Serra foi anunciado candidato a prefeito de São Paulo. Isso, a despeito do estardalhaço todo da mídia, não é novidade alguma, muito pelo contrário, novo é agir como se isso fosse algo surpreendente: os candidatos do PSDB à prefeitura de São Paulo se resumem a Serra e Alckmin - assim mesmo, alternadamente - desde 1996. 

Aliás, pulando 1998 - quando o falecido governador Mário Covas disputou e conseguiu sua reeleição - são Serra e Alckmin os únicos dois nomes que se revezam na disputa da prefeitura de São Paulo, do governo paulista e da Presidência da República. Tirando o governo do estado, onde os tucanos sempre têm vencido, os fracassos se somam em nível federal e, na capital bandeirante, só houve sucesso em 2004, com o próprio Serra.

O PSDB perdeu a oportunidade de se renovar, que fosse, pelo menos em seus nomes. Tudo seguiu o mesmo enredo, Aécio segue sem fazer oposição, a conversa em São Paulo continua a passar pelas duras negociações de bastidores entre Serra e Alckmin - e, no fim das contas, FHC precisa sair do descanso para resolver a confusão de alguma (ou qualquer) forma.

E Serra sai para disputa com sentimentos conflitantes. Já declarou, à boca pequena, que sua candidatura é um problema - uma bifurcação que aponta para uma derrota vergonhosa ou uma vitória de pirro que o afastaria de Brasília -, às vezes se anima com a possibilidade de que, com uma eventual vitória, possa tomar impulso para disputar com Aécio a indicação presidencial para 2014 e, não raro, solta que pode terminar no PSD de Kassab, caso vença e não lhe apoiem dentro do PSDB na disputa pela Presidência.

Talvez esse seja um dos casos mais emblemáticos do exaurimento do arranjo política do pós ditadura - ou melhor, daquele nascido de sua oposição e afirmado com sua queda. Sobre esse processo, basta ver todo o protagonismo, nas negociações pré-candidatura, de uma figura torpe como Kassab - um prefeito que não conseguiu cumprir metas elementares de governo - para se ter ideia do estado de coisas em que vivemos.

Existe, no caso paulistano, um jogo de fundo muito mais interessante do que as curiosas composições, recomposições e decomposições partidárias: é a questão da gestão dos espaços públicos e a relação da especulação imobiliária com isso. Uma candidatura, em um cenário hipercompetitivo como esse, custa caro. E qual o preço que cobrarão esses prestativos financiadores?

Nesse jogo, a figura de Serra, um sujeito marcado pelo gosto de destruir correligionários e a ambição sem limites, só torna mais desagradável o que já não era bom. Criticar Serra não pode ser um subterfúgio para uma crítica a esse processo em geral, mas não pode deixar de ser feito. 

P.S.: Serra tecnicamente ainda não é o candidato do partido. Ele passará por uma prévia para legitimar seu nome, mas já sabemos o resultado disso.



terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Sucessão Paulistana: A Guerra no Ninho Tucano

Andrea Matarazzo confronta manifestante pró-Pinheirinho/ Paulo Libert/AE

Os confrontos no interior do Partido da Social Democracia Brasileira seguem homéricos. Uma declaração um tanto forte, atribuída ao ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, "vazou" na imprensa: “A minha cota de Serra deu. Ele foi duas vezes meu ministro, duas vezes candidato a presidente, candidato a governador e a prefeito. Chega, não tenho mais paciência com ele”. Há poucos dias, em outro "vazamento" atribuído a Serra, o ex-presidenciável dizia a íntimos que FHC "está gagá" ao comentar a declaração do ex-presidente de que Aécio seria o candidato natural do partido para a eleição presidencial de 2014.

Na prática, são declarações citadas por conta e risco de jornalistas, não há nada oficial, mas também não há nenhum desmentido público de nenhuma das partes - nem interesse em fazê-lo, que quer dizer muita coisa. É certo que sempre houve uma disputa pessoal e ideológica entre ambos, Serra foi uma voz independente no governo de FHC e, depois, como candidato à sucessão do projeto tucano - mesmo sem ser o favorito de Cardoso - nunca se preocupou em defender o legado de seu antecessor - e à boca pequena, FHC sempre se queixou disso.


Agora, o negócio esquentou de vez. Serra perdeu as eleições presidenciais em 2010, mas falou ainda como líder da oposição no discurso da derrota, enquanto Aécio, o aclamado - pela mídia tradicional e outros simpatizantes da oposição federal - candidato tucano para 2014, se colocou em uma posição de superioridade que, no entanto, lhe custou caro: Serra articulou duramente ao longo de 2011, destruiu o DEM - principal sócio do PSDB e fiador animado de Aécio para dar lugar ao PSD de Kassab - e, assim, conseguiu permanecer no páreo - exatamente como prevíamos aqui há pouco mais de um ano. 

Mas 2012 reservou uma encruzilhada para o ex-governador paulista: a proximidade das eleições municipais e a falta de um candidato competitivo do PSDB, segundo ele próprio admite, o obriga a assumir a tarefa. Isso é uma armadilha na medida em que se aceitar o desafio, Serra terá uma vitória de pirro para suas pretensões - ganhar a Prefeitura, o que ele considera pouco, é abrir mão da Presidência - ou encerrar sua carreira com uma derrota - o que não deixa de ser possível, uma vez que, segundo pesquisa recente, sua intenção de voto é baixa para um nome tão conhecido (21%) e sua rejeição é a maior dentre os  possíveis candidatos (33%).

Há quem no PSDB municipal de São Paulo queira sua candidatura realmente. Seria um longo mandato como encerramento digno de carreira e a manutenção da Prefeitura nas suas mãos - o que nunca realmente saiu de suas mãos com Kassab, talvez só no final de seu mandato, embora o Prefeito paulistano não deixe de declarar abertamente apoio a uma eventual candidatura Serra (e ele, por seu turno, apóie publicamente um candidato do PSD, o que faria o PSDB abrir mão de sua candidatura própria).

Ainda assim, como até as pedrinhas da rua sabem, muitos daqueles que defendem a candidatura Serra, o fazem para vê-lo fora da disputa presidencial de 2014. Até mesmo seu desafeto local, o governador Geraldo Alckmin, herdeiro do esquema de Mário Covas, que mantém equidistância tanto de Serra quanto de FHC - que o veem como um provinciano desqualificado. Enquanto publicamente Alckmin defende prévias no partido - que, no entanto, estão condicionadas à decisão de Serra -, nos bastidores ele insiste para que Serra seja o candidato a prefeito.

Nas possíveis prévias, Bruno Covas e Ricardo Tripoli disputam com nomes historicamente mais próximos a Serra como Andrea Matarazzo e José Aníbal - dos quatro, apenas Tripoli, deputado federal, não é secretário do governo Alckmin. O governador, por óbvio, preferiria Serra na disputa, sem ele, prefere posar como o fiador das prévias e fortalecedor do partido. Seja como for, Alckmin é o único nome nacional a realmente defender uma candidatura própria, ou Serra ou alguém das prévias - tendo, nessa última hipótese, leve preferência por Bruno Covas, por considerar que tem uma dívida de gratidão com o avô dele, seu mentor político, o falecido governador Mário Covas.

Andrea Matarazzo, atual secretário estadual de cultura e ex-subprefeito da Sé,  que jamais teve proximidade com Alckmin - muitíssimo pelo contrário - enxergou o peso do governador no processo das prévias e agora passou a defendê-lo com unhas e dentes, seja em redes sociais como o Twitter ou publicamente - o que lhe valeu um bate-boca homérico com manifestantes do PSTU que protestavam contra a violenta ação policial no Pinheirinho. Em um momento em que Alckmin está em posição de defesa, sob pressão intensa dos movimentos sociais, Matarazzo está disposto a correr riscos para apagar um passado inteiro de inimizades com Alckmin.

Essa é a nada confortável situação tucana em São Paulo. E não custa lembrar que embora o eleitorado paulistano opte por candidatos do PSDB no plano estadual e nacional, no plano municipal as eleições normalmente ficam entre alguém da direita orgânica e o PT. A única vitória tucana em São Paulo foi com Serra em 2004 em uma eleição nacionalizada. Aliás, falando em nacionalização, nem isso é favorável ao PSDB, porque o"grande eleitor" dessas eleições é Lula, cuja indicação de voto é a principal opinião para metade do eleitorado e seu candidato é Fernando Haddad.

Diante dos problemas, o PSDB, que absorveu relativamente bem o choque petista nas eleições gerais de 2010 - mas sentiu o golpe no day after - está disposto a radicalizar à direita para vencer e não perder São Paulo. O que explica em grande parte as recentes operações policiais bancadas pelo governo do estado, conveniado com prefeituras próximas, na Cracolândia, USP e no Pinheirinho. 

O discurso da tolerância zero em segurança pública, não esqueçam, rende muitos votos, embora sempre esteja no fio da navalha, pois é possível que uma hora a minoria atingida, de alguma forma, se identifique com a população. Isso explica grande parte da repercussão negativa do Pinheirinho; para além da resistência firme dos movimentos sociais, o ataque aos "favelados" acabou soando como ataque "a famílias pobres" e se existe um resultado prático dos anos de lulismo, é a construção de auto-identificação do eleitorado com os pobres.

Portanto, Andrea Matarazzo fez uma aposta arriscada ao defender pública e enfaticamente a ação, tanto que Tripoli e Bruno Covas se esquivaram de fazer isso e passaram a semana pregando contra a crueldade contra os animais (o que é sintomático, aliás). Depois do choque frontal entre FHC e Serra, é difícil antever o que pode acontecer dentro do ninho tucano.

Para além das intrigas palacianas - exacerbadas no PSDB mas presentes de canto a canto dessa eleição -, muita coisa está em jogo nessa eleição, embora isso esteja posto nas questões de fundo. O modelo de governança urbana - a união de imobiliárias, bancos, seguradoras e a polícia - que se pretende implementar em São Paulo não é questão meramente local, é laboratório para o país como já tem sido em partes - e arrisco em dizer, para o mundo -, uma política (des)habitacional fundada na guerra civil permanente. O impacto nacional sobre o alinhamento das forças partidárias também não significam pouca coisa. O PSDB disputa, hoje, a gerência dessa forma de governança, embora tenha reais dificuldades de admitir isso.

É a decisão que sairá do confuso ninho tucano que, invariavelmente, deflagará a eleição municipal paulistana mais importante da história, repleta de candidatos novos e com mais forte repercussão na cena nacional.












quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

A Privataria Tucana, a Má Consciência e a Coisa Nossa

Privataria Tucana. É o sugestivo nome do bestseller da literatura política do momento, de autoria de Amaury Ribeiro Jr., ex-jornalista do Estado de Minas. Há anos atrás, Amaury esteve enfiado na investigação do processo de privatizações no Brasil dos anos 90, acumulou desafetos, tomou um tiro, juntou documentos. Eis que em 2007, ele foi incumbido de investigar a vida de José Serra, desafeto e rival direto de Aécio no PSDB, tarefa que ele executou com afinco - já munido do material que tinha -, adentrando no que há de mais profundo do terreno pantanoso nos bastidores da política nacional recente - até que a intervenção de forças ocultas impediram a publicação da reportagem e levaram a uma campanha de descrédito contra a figura de Amaury na mídia. Eis que agora tudo aparece compilado e na forma de livro.

Seu livro, apesar do nome escandaloso e aparência de factóide, é uma bomba.  E o é justamente porque traz uma quantidade incrível de documentos, provando grande parte do que fala. Mesmo as conjecturas, sobretudo a respeito da campanha de Dilma Rousseff  - o racha petista, a guerra interna etc - e o enriquecimento misterioso de figuras ligadas às privatizações durante os anos FHC, são, para quem acompanha a política brasileira de perto, no mínimo plausíveis... Não, eu ainda não cheguei a ler todo o calhamaço de 344 páginas - cuja edição eletrônica já gira pela Rede, uma vez que a primeira edição já se esgotou -, mas olhei seus pontos estratégicos e assisti às entrevistas do autor. É espantoso. Sobretudo como as pontas soltas entre os esquemas de favorecimentos com as privatizações, as empresas fantasmas, a espionagem de inimigos políticos internos de José Serra e o escândalo do Banestado se unem.

É curioso notar a reação das personagens centrais do livro. Até agora, todos acusaram o golpe, se fingem de desentendidos, soltam muxoxos ou, no caso dos jornais alinhados ao PSDB, silenciam. Dentro da cúpula petista, idêntico silêncio ou explicações confusas sobre as acusações contra Rui Falcão, atual presidente da sigla. Importante citar que durante a campanha, o PT foi acusado de usar Amaury para quebrar o sigilo da filha de Serra, Verônica, o que nunca foi provado, mas o fato é que o jornalista transitou pela campanha dilmista, possivelmente levado pelo mineiro Fernando Pimentel.  Tanto que Amaury tem informações da guerra interna no partido e acusa Falcão de ter vazado informações para a mídia com o intuito de destruir Pimentel - o que lhe vale uma queixa-crime do atual presidente petista. À época, os petistas, sob acusação, apontavam que o dossiê sobre Verônica tinha a ver com Aécio e não com eles - o que por uma questão cronológica faz sentido, mas é possível que o dossiê, e futuro livro, passou sim pelo furado "bunker" de campanha de Dilma.

Não resta dúvida que um enredo novelístico como esse desperta a atenção das nossas vidas monótonas. O que realmente importa no livro, entretanto, é que ele é o fecho de uma série de reportagens, acusações, bolas rolando na área e afins sobre o processo de privatização dos anos FHC  -o que o torna um quase Wikileaks, uma prova do óbvio - além de, também, desvelar a grande pasmaceira que se tornou a política nacional: o que há de mais interessante em termos de confrontos, hoje, se dá em guerras intestinas dentro dos grandes partidos, PSDB e PT, ainda mais no primeiro, cujos confrontos entre Aécio Neves e José Serra já beiram o cômico - para quem ainda duvida da decadência do partido tucano, como cantamos a bola aqui há tempos. A julgar pelos rumos de PSOL e PV, aliás, nos parece que esse último item pode ser visto até como tendência geral.

No entanto, a Privataria Tucana alimenta mais as más consciências desocupadas do que suscita algum debate efetivo sobre os rumos da nossa política, portanto, nos apropriemos das informações valiosas que ele traz, mas, por favor, isso não é O debate. O primeiro ponto é que a corrupção não foi, de longe, o maior problema das privatizações, mas sim o processo em si, fosse limpo ou não, na medida em que marcou quase uma lápide no tardio e ainda infante welfare que a Constituição de 88 tentou implementar - o ônus das privatizações, com empréstimos sendo tomados no mercado externo, a altas taxas de juros, para capitalizar as futuras compradoras e a maneira como, uma vez findo o processo, não só o Estado brasileiro estava mais preso ainda à dívida infinita como a gestão dos serviços mais elementares estavam nas mãos do capital, ponto quase um termo final na democratização do país. O segundo ponto é que o tom novelístico, e a repercussão dada, foge a outro aspecto central: a necessária crítica à democracia representativa, essa mistura de salvacionismo messiânico, chantagem e comportamento de manada que, pelo visto, chegou ao limite de suas potencialidades positivas aqui e em qualquer parte.

Sim, José Serra é pior do que parecia - e olha que, à época, quando eu apenas o acusei de ser um pretende a Collor cheguei a ser criticado - e o PSDB está esgotado, completamente esgotado - direi por aqui pela centésima vez. Sim, podemos dizer que o PT é ainda o pior partido do país com exceção de todos os outros, muito mais pelo (grande) esforço dos seus concorrentes do que do seu - uma vez que bons nomes como Paulo Teixeira precisam conviver com os falcões e seus projetos pessoais. Seja como for, essa é apenas uma parte do debate, longe de ser, sequer, a maior dele. A corrupção não é uma entidade maléfica que está em fulano ou beltrano, tampouco paira por aí, mas é, se muito, uma consequência óbvia do funcionamento dessa forma de fazer política. Não estamos em busca de pecadores nem de salvadores, mas de saídas para um mundo em crise, esse sistema, tal como está, é insustentável e precisa ser confrontado de todas as formas possíveis.



terça-feira, 8 de novembro de 2011

A USP e o Choque da Tropa

Foto: Érica Saboya R7
Hoje pela manhã, uma verdadeira correnteza de tuitadas, mensagens no Facebook e e-mails de testemunhas oculares atropelava a mídia tradicional, cujo esforço para tentar noticiar tudo à moda do velho jornalismo - se é que isso não é uma redundância pura - era admirável, embora insuficiente e questionável como sempre. O que se passava? A USP, novamente, via seu campus principal ser invadido pela Tropa de Choque da Polícia Militar de São Paulo, sob as bençãos da atual reitoria. Seu alvo era, precisamente, o prédio da reitoria, que foi recentemente ocupado por grupos do Movimento Estudantil, depois de uma assembleia mal-explicada e questionada dentro do próprio movimento. 

O acontecimento em questão é resultado de um processo bisonho de militarização do campus, cuja problemática chegou ao seu clímax depois da tentativa de prisão, por parte da PM, de três estudantes que fumavam maconha em um carro dentro do campus, evento que teve como seguimento a resistência dos estudantes da FFLCH à prisão dos três, a  referida e funesta assembleia para deliberar sobre a ocupação da Reitoria, sua ocupação por grupos minoritários até chegarmos ao momento presente.

Essa militarização ocorreu a pedido da reitoria, na esteira do assassinato de um estudante, dentro do campus,  em circunstâncias até hoje mal explicadas - possivelmente, tratou-se de latrocínio. Isso se segue a toda um histórico no qual os estudantes reivindicavam mais segurança, em decorrência da ocorrência, dentro do campus, de crimes graves como estupro ou mesmo pequenos furtos e quetais. Até aquele momento, as reivindicações em torno de melhor iluminação e da ampliação e treinamento da Guarda Universitária foram rigorosamente ignorados pela Reitoria.

A decisão do magnífico reitor Rodas - aquele lá que ficou em segundo na lista tríplice, de um sistema eleitoral por si só ultra-excludente mesmo que fosse direto, e mesmo assim foi escolhido pelo então governador José Serra - de fazer um convênio com a Polícia Militar, nesse sentido, é ambivalente: se sua preocupação era mesmo a segurança por que esperar que alguém fosse assassinado? Ou melhor, se é de segurança que estamos falando, por que inundar um campus de policiais militares em vez de recuperar a própria Guarda Universitária, combalida em número de quadros e vítima de condições de trabalho absurdas?

Quando falamos em militarização do campus, não estamos, de modo algum, exagerando. O que ocorre é o  contrário: estamos normalmente esquecidos que, embora o Brasil tenha se tornado uma democracia à moda ocidental - com todas as suas boas-intenções e bom-mocismos -, ainda temos como principal força de segurança policial um corpo militar com poder sobre a população civil em tempos de paz. Pior do que isso, só mesmo a decisão política de colocar tal força para dentro de uma instituição de ensino - ou, quem sabe, fazer isso e esperar que não ocorra nenhum incidente. O uso da Tropa de Choque para a reintegração de posse é só a cereja do bolo.

Seja como for, não é estranho ao histórico da USP essa forma de gerenciamento dos espaços: universidades são sim dispositivos, cercados destinados a produzir conhecimento de forma segura para o sistema, mas o caso daquela universidade é um tanto pior; ele passa pela comoção pela derrota bandeirante em 1932 e a criação de um projeto de articulação das faculdades existentes na capital em torno de uma única unidade, sob firme controle do governo do estado, já nos anos 30. O processo de acomodação de boa parte daquelas unidades de ensino no longínquo - e isolado - campus do Butantã, quando a USP se torna a ponta de lança da produção do conhecimento para o nacional-desenvolvimentista verde-oliva, foi só um passo dentro dessa caminhada.

A própria existência da atual Cidade Universitária, onde, como e por qual motivo ela foi instalada, já suscita a intervenção da peculiar forma de poder disciplinar oriunda da doutrina de segurança nacional militar. A escolha de Rodas por Serra, a primeira de um não-primeiro colocado desde a Ditadura, por sua vez, se apresentou como uma reação defensiva e radical às políticas educacionais do Governo Federal que, tanto na esfera das universidades estatais quanto das privadas, marcam, pela primeira vez em nossa história, um furo na política universitária tradicional baseada no academicismo aristocrático das primeiras e no nascente mercantilismo das segundas - políticas como o Reuni e o Prouni trouxeram para dentro da Academia a multidão em constituição e marcaram a possibilidade de controle das mesmas por ela.    

Apesar de que uma sociedade de controle disponha de métodos mais eficientes para a gestão da vida - e a decisão sobre a morte -, a existência de eventos como esse não é estranha à sua existência: são reterritorializações sobre as quais Deleuze se referia ao analisar o nosso tempo e a representação de arcaísmos como forma de sua realização. O sistema que se expande loucamente está exposto a crise cíclicas, que ele resolve construindo pontos de segurança, pela representação do velho. O fetiche de Rodas pelo controle policial sobre, sejamos honestos, a atividade política é explicável e, em certa medida, trata-se das parte das medidas desesperadas em que sua gestão se constitui.

Não deixa de ser curioso, entretanto, que boa parte das formas de resistência que se estabeleça em relação a esse processo seja, vejamos só, elas mesmas também outros modos de arcaísmos: parcelas do movimento estudantil, parado no tempo, ansioso por catalizar mudanças enquanto vanguarda contra um poder disciplinar [que não existe mais, ou existe, mas apenas e tão somente enquanto representação] decidiram, de forma atabalhoada, ocupar a reitoria, o que estava fadado ao fracasso. E leem, ainda, a questão completamente fora de contexto, em uma crítica maniqueísta da gestão Rodas, ignorando seus comos e porquês.

Reclamar da incompreensão da mídia ou do estudante médio é patético. Em política, não discutimos teoria, mas sim efeitos práticos e concretos das ações. Deve-se calcular a tensão dos corpos e não ter devaneios com ideais, sob pena de fracassar das mais diversas formas possíveis ou, mesmo, encampar o estereótipo que pretendem - e precisam - enquadrar você.

Não há, com efeito, simetria entre a incomensurável concatenação de erros daqueles coletivos e a violência policial - e isso deve ficar bem claro aqui -, mas a necessária crítica daquele movimento precisa ser feita, do contrário, estaremos sempre escravos de um maniqueísmo que nos impede da devida crítica. A luta que se trava é muito mais complexa e o movimento estudantil precisa ter consciência disso, do contrário, apenas servirá como o bode expiatório necessário.


sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Para Além da Reforma Política

Pnyx, o berço da democracia


Há muito se fala na necessidade de ser feita uma"reforma política" no  nosso país. A razão para tanto está, precisamente, nas muitas fissuras que se abriram em partes relevantes do sistema político desenhado pela Constituição de 1988, coisa que já era possível constatar logo assim que ele foi posto em funcionamento.

É claro que o buraco, para variar, é mais embaixo. A problemática do exercício do poder no Ocidente - e o Brasil não escapa a isso - vai muito mais longe. A tentativa de construção de uma democracia representativa não deixa de ser uma contradição em termos, embora a construção de quimeras raramente decorre de - tampouco volte-se para - meros enganos.

Pois bem. A reforma política foi tema recorrente da nossa última campanha presidencial com Dilma Rousseff, a atual presidenta, mostrando-se favorável à reforma - fazendo coro com Marina Silva, então candidata verde -, enquanto o conservador José Serra se limitava a defender o "voto distrital". 

Dilma e Marina defendiam a reforma mediante uma "constituinte exclusiva", o que,  já àquela época, apontávamos como fantasiosa e impossível: a reforma passaria obrigatoriamente pela dureza das negociações parlamentares, pois não havia meios jurídico-constitucionais vigentes para fazer diferente disso, seja no que concerne à produção de leis (complementares ou ordinárias) ou, sobretudo,  às emendas constitucionais.

O problema, tal como posto, encontra dois tópicos da maior importância: um é a distância dos eleitores em relação aos legisladores que elegem e o outro a corrupção colateral que decorre, vejamos só, de acordos espúrios decorrentes do financiamento de campanha, em grande parte privado - embora juridicamente ele seja misto -, o que vincula de forma promíscua políticos eleitos de seus financiadores. 


O sistema de voto proporcional com listas abertas adotado é frenquentemente incompreendido, seja por sua relativa complexidade ou por agravar mais ainda a fragilidade dos partidos, o que cria uma concorrência interna nos partidos e, por tabela, produz uma desinformação geral sobre seu funcionamento. Essa disfunção produz uma cultura de voto na figura pessoal do candidato em um sistema que se alimenta (ou deveria) na coerência dos partidos.


Votando na legenda ou não, temos um voto com dupla implicação, a primera, é a ida do voto, nas eleições parlamentares, para o partido do candidato e a segunda, por sua vez, é, em caso de voto em algum candidato e não na legenda, para o próprio candidato em relação aos seus colegas candidatos pelo partido. Assim, se um partido (ou uma coligação, o que está prestes a cair) elege 50 deputados, eles serão os 50 mais votados entre si.


Em resumo, o sistema força um efeito curioso, onde cada candidato à deputado ou vereador faz campanha para si mesmo e, ao mesmo tempo, os partidos são desobrigados a realizarem prévias internas para escolherem seus candidatos e, pior ainda, de apresentarem um programa sólido. 

Figuras pessoalmente populares se destacam e o parlamento fica erodido, ainda mais em um cenário no qual a fidelidade partidária só veio a ser, razoavelmente, implementada há pouco. Por outro lado, campanhas, de um modo geral, custam caro, o que não é de se estranhar em uma sociedade do espetáculo. 


Empresas têm dinheiro e nem sempre é possível um candidato prescindir delas - quando isso ocorre, é mais difícil ainda livrar-se dos compromissos políticos contraídos - legais ou não, embora grande parte dos casos de corrupção tenham relação com tal fenômeno, mas é preciso salientar que mesmo em um cenário onde não há ilegalidade, só o fato dos financiadores de campanha se tornarem super-eleitores, já é, por si só, um problema.

O Projeto de Reforma Política, relatado pelo deputado federal Henrique Fontana (PT-RS), foi enviado para a Câmara recentemente e foca nos dois pontos citados (além de mudança na data de posse, suplência de senador e mudanças no domicílio eleitoral): ele defende a alteração do sistema de voto proporcional em lista aberta para estabelecer um sistema com dois votos, o chamado "distritão misto" - um para o partido, outro para candidatos de forma unipessoal - sendo metade da lista eleita proporcionalmente à votação do partido (por listas fechadas) e a outra por seu desempenho pessoal; por fim, ele defende o financiamento exclusivamente público de campanha. 

É fato que a proposta de alteração do sistema eleitoral para eleições legislativas é ruim. O distritão misto é confuso, não resolve os problemas do sistema atual e ainda é mais difícil ainda de ser compreendido. O financiamento exclusivamente público de campanha, por sua vez, é uma saída interessante e, à luz dos fatos, é uma proposta impressionante de tão boa.

A questão do sistema de voto misto, aliás, já é alvo de uma polêmica, uma vez que o senador  Aloysio Nunes (PSDB-SP) propôs no começo do ano um projeto de lei favorável ao sistema distrital puro e, agora, o PSDB parece mesmo engajado em defender esse sistema de voto - depois de Aécio ter defendido o "distritão misto" no começo do ano. José Serra, recentemente, se pronunciou atacando o projeto de Henrique Fontana, chamando o distritão misto de "samba do petista doido", ignorando a influência de seu correligionário - e desafeto - Aécio Neves na elaboração da proposta.

Se o distritão misto é mesmo ruim, por outro lado, o voto distrital - alvo de uma campanha na Internet  - é simplesmente horrível por vários motivos: 

(1) o número de deputados estaduais é maior do que o número de deputados federais, logo, ou teríamos de aumentar o número dos segundos ou reduzir o dos primeiros - ou uma terceira hipótese absurda que seria a de termos um distrito para deputados estaduais e outra circunscrição para deputados federais na mesma eleição; 

(2) O Brasil é um país demograficamente heterogêneo, logo, cidades grandes teriam de ser rachadas em vários distritos, enquanto cidades pequenas deveriam ser unidas. Nunca teríamos distritos certinhos, com uma proporção correta do eleitorado.

(3) O sistema de voto distrital abre espaço para distorções matemáticas. Por exemplo, em um país imaginário com 100 distritos, se um partido vencer por 100% dos votos em 50 deles, ele terá o mesmo número de cadeiras que seu adversário, que venceu na outra metade por 50,1% dos votos. Mas nem precisamos de um exemplo hipotético tão teratológico, basta lembrar das últimas eleições britânicas, nas quais houve uma distorção absurda dos votos: se os conservadores tiveram apenas 36% dos votos contra 29% dos trabalhistas e 23% dos liberal-democratas, a distribuição dos votos por distritos fez com que os conservadores ficassem com 47% das cadeiras contra 39% dos trabalhistas e apenas 8,8% para os liberal-democratas. Sim, um partido pode conseguir a maioria das cadeiras sem vencer entre os eleitores.

(4) Restaria saber quem e - principalmente - como seriam divididos os distritos - e também quem e como se faria a permanente contagem populacional dos eleitores de cada distrito. Isso, nos EUA, sempre alvo de problemas, com circunscrições eleitorais sendo definidas por interesses de políticos e interesses poderosos para, inclusive, prejudicar minorias étnicas que, por um acaso, estavam concentradas em certas regiões de alguns estados - sobretudo os negros no sul. Eram construídos distritos artificiais, verdadeiras costuras, para impedir que representantes negros fossem eleitos. Existe até uma expressão para essa prática: gerrymandering.

(Enfim, se tem gente por aí que diz ser a favor do voto distrital puro porque "ele elegeu Churchill", eu sou contra porque isso atrasou em anos a eleição de representantes negros nos parlamentos dos Estados Unidos)

Estranho, embora explicável, é a contrariedade de Serra ao financiamento exclusivamente público de campanha. E com argumentos de que isso favoreceria PT e PMDB. Errado, essa bem-aventurada proposta petista favoreceria os pequenos partidos e ainda por cima diminuiria a promiscuidade da relação partidos-empresas. Quem sairia prejudicado é quem tem mais conexões com o capital, precisamente os grandes partidos como PMDB e PT - mas talvez em maior medida o PSDB, o que torna seu posicionamento explicável como coloquei inicialmente, embora seja um sofisma dizer que os dois maiores partidos governistas sairiam favorecidos.

Como se não bastasse, o que Serra e Aloysio talvez ignorem, quem sabe por não olharem atentamente o número de prefeituras pelo país, é que quem sairia fortalecido de um sistema distrital puro são, justamente, os partidos que ainda controlam currais eleitorais e não aqueles que, bem ou mal, estão propondo projetos (como o PSDB): em outras palavras, se Serra e Aloysio estão tão preocupados assim com o crescimento do PMDB, eles não deveriam defender o voto distrital, uma vez que é aquele partido o mais enraizado no interior brasileiro e, por tabela, o mais favorecido.

Ironias do destino, o voto em lista fechada, sempre defendido pelo PT é aquele que mais ajudaria o PSDB, hoje, a reverter sua trajetória de queda na votação para a Câmara. Na medida em que os tucanos lançam candidaturas e são quem, de fato, antagonizem com algum peso contra o PT, é provável que se o partido da estrela até aumentasse sua bancada, por outro lado, seria o PSDB e não o PMDB a vir logo atrás dele. Relativamente, é provável que a base governista até diminuísse com o sistema de voto que o PT defende. Olhando o sistema de lista fechada destacado do impacto no mundo partidário, ele seria mesmo a melhor saída, embora sem obrigação legal de realização de prévias, nada feito. 

Em outras palavras, a referida reforma política segue atolada e não há de se esperar grande coisa. O debate é construído nas altas cúpulas, longe das ruas, o que toma um caráter dramático quando levada em consideração a aparente esquizofrenia das propostas tucanas, os interesses rasteiros do PMDB nisso tudo e a escravidão do PT em relação à sua burocracia e,  mais ainda, em relação ao sistema parlamentar falido e uma base governista heterogênea e instável.

Só um movimento muito forte vindo da sociedade poderia produzir uma mudança, mas nenhum partido tem interesse em movimentar isso e as organizações políticas não-partidárias têm pouca ou nenhuma força - as que tem, notem, estão vinculadas de certa forma aos partidos como no caso dos sindicatos.

Aí chegamos à matriz do problema da democracia representativa: ela não nasce neste ou naquele modelo de representação, mas sim na clivagem fundamental da modernidade, a saber, não apenas a redução da pólis à sociedade - um grupo atomizado, unido por interesses variáveis -, mas que essa própria sociedade está cindida permanentemente; de um lado, a sociedade política - o Estado, seus burocratas, seus líderes eleitos (nas democracias) todos em menor ou maior rotatividade -, do outro, a sociedade civil, lar dos cidadãos, aqueles que são identificados como parte do todo político, mas não são vistos como ativos do ponto de vista da governança.

Se na Antiguidade o civens (cidadão) era apenas a palavra latina para o grego politikón (político), a modernidade considera os dois termos não como sinônimos, mas como instrumentos conceituais diferentes que, entretanto, se unem para dentro da mesma escala de hierarquia para opera-la. Se a Revolução Francesa por um lado trouxe a universalização da cidadania, por outro lado, ela se deu esvaziada de seu conteúdo; o cidadão tornou-se tão somente uma identidade, passivo e posto para fora da esfera decisória como qualquer súdito.

Em outras palavras, os problemas que levam o Brasil a buscar uma reforma política - e os mesmos que atravancam tal processo - têm implicações muito mais profundas; se o Estado de Exceção é regra geral em nosso tempo, isso se dá não apenas porque o Capitalismo - e o posterior estado de guerra civil global produzido pela globalização - reforçam o autoritarismo por meio da dissolução da política pela exaltação do Governo, mas sim porque antes deste momento, a própria construção política contemporânea já parte de uma premissa na qual quem ela inclui no corpo da cidade é incluído como separado.



sexta-feira, 22 de abril de 2011

Novos Capítulos da Crise na Oposição

"Daí o PT ganhou a eleição e assumiu uma posição de centro-esquerda, tornou-se o partido social-democrata brasileiro — e o PSDB, naturalmente, continuou sua marcha acelerada para a direita. Nas últimas eleições, ele foi o partido dos ricos. Isso, desde 2006. É a primeira vez na história do Brasil que nós temos eleições em que é absolutamente nítida a distinção entre a direita e a esquerda, ou seja, entre os pobres e a classe média e os ricos. E um partido desse não me serve, seja pela minha posição social-democrata, seja pela minha posição nacionalista econômica (...). "
Luiz Carlos Bresser-Pereira em entrevista a Maria Inês Nassif para o Valor Econômico, há pouco menos de duas semanas, na qual anuncia sua saída do PSDB  (capturada do blog do Rudá Ricci).


A saída do ex-ministro Bresser-Pereira do PSDB poderia ser ironizada como um episódio da série "já não era sem tempo", mas ela quer dizer mais do que isso. Ela marca a saída do grande representante do desenvolvimentismo keynesiano do partido, alguém que resistiu internamente mesmo aos anos 90 e, se chegou ao "agora não dá mais", é porque o PSDB perdeu seu prumo. Boa parte da ala de intelectuais que dava substância ao PSDB em seu nascedouro partilhava de ideias parecidas que convergiam em uma crença: a luta pelo desenvolvimento nacional democrático por meio da construção política do Estado Social - discordando de saídas mais à esquerda como a democracia popular e participativa proposta pelo PT, mas também fazendo o mesmo em relação ao autoritarismo e à ineficiência da direita brasileira tradicional. Isso foi se perdendo com as negociações por cima de FHC para ser Presidente, suas políticas ao longo dos anos 90, mas só chegou em ponto crítico agora - e a saída de Bresser é sim um corte. O PSDB, agora, comporta-se esquizofrenicamente como o partido da nova direita que se insurge contra as mudanças do pelas quais passa o nosso país.

Nos anos 90, ainda que FHC afiançasse politicamente a gestão da economia por Malan e os intelectuais da PUC-RJ, havia uma disputa interna forte contra isso; José Serra e sua ala faziam enfrentamento frontal - embora pelo alto e nos corredores do Poder, como sempre foi típico daquele partido. Mesmo com a indicação de Serra para Presidente em 2002, o PSDB não conseguiu se livrar do peso dos anos 90; o partido jamais conseguiu fazer mea-culpa dos erros cometidos e, na impossibilidade de defendê-los, os escondeu ao máximo, gerando um suicida efeito sorriso amarelo que foi a chave para suas três derrotas consecutivas. A derrota para Lula no início do década passada, por sua vez, gera uma crise muito forte de valores no partido que, somado a guinada à direita em São Paulo, aproxima o PSDB de um conservadorismo mais e mais ressentido.

Se, a um primeiro olhar, tenha parecido exagero da nossa parte falar em "decadência do PSDB" em Agosto do ano passado - há meses de uma eleição que se decidiria apenas no Segundo Turno -, o tempo nos deu razão. Serra não foi sequer o principal fator que levou as eleições para o Segundo Turno, afinal, a falta de traquejo eleitoral de Dilma e o fenômeno Marina ocupam, de longe, as primeiras colocações nesse quesito. A própria diminuição da bancada tucana no Congresso exprime isso. Serra tinha a seu favor unicamente o apoio da grande mídia, um potente amplificador de seu discurso anti-Dilma. Sua candidatura nada acrescentou ao partido, apenas serviu para tirar o apoio de sua rival - por meio de histeria e do uso das velhas superstições -, uma vez derrotado, o próprio quotidiano do Governo Dilma serviram para diluir boa parte dos 44 milhões de votos que seu adversário obteve. 

Pior, o partido se embrenhou numa guerra interna sangrenta. Para quem supunha que as coisas não eram tão graves - que, no caso da derrota de Serra, Aécio ocuparia seu posto automaticamente -, a realidade se mostrou um tanto mais complexa. O PSDB paulista está rachado em dois, mas une-se contra o PSDB nacional. Se Alckmin - ressuscitado pela falta de quadros para vencer as eleições estaduais em 2010 - representa um direitismo provinciano, religioso e discreto, Serra é o conservadorismo sofisticado, laico e paulistano - ambos não se bicam, mas não passa pela cabeça de nenhum dos dois grupos uma articulação nacional que tire de grupos político-econômicos paulistas a centralidade do processo. E Aécio subestimou o poder disso. O senador mineiro preferiu, extremamente seguro de si como é, disputar internamente a  indicação presidencial e já ameaçava ali, caso Serra lhe tratorasse, que ele simplesmente entregaria o governador paulista à própria sorte contra o Lulismo. Dito e feito, mas Aécio esperava que da cama de gato que ele deu em Serra viesse o reconhecimento, por aclamação, de sua liderança, não um novo movimento lhe bloqueando. 

E quando falo que o senador mineiro está sendo bloqueado, não me refiro exatamente ao fato de Aécio ter sido parado em uma blitz no Rio de Janeiro com problemas na sua habilitação e, ainda, levado multa por não ter feito teste no bafômetro - o que arranha seu único capital político, a imagem -, mas sim de coisas mais concretas e graves: se seu grande aliado, o presidente do partido, Sérgio Guerra, está praticamente desautorizado no poder - neutralizado pelo grupo paulista -, por outro lado, o maior aliado tucano, o DEM está se desfazendo, graças ao projeto pessoal do prefeito paulistano Gilberto Kassab - que, no afã de sobreviver na política, criou uma nova agremiação, o PSD, que tem atraído inúmeros demistas descontentes, que atribuem as desditas que o partido tem sofrido nas urnas à direção do partido. O problema é que o apoio expresso da direção demista ao nome de Aécio era sua grande força dentro do próprio PSDB para bancar sua candidatura em 2014. Sem o DEM, as coisas mudam (para pior) para Aécio.

Por outro lado, o surgimento do PSD muda o jogo político paulista, sendo que Geraldo Alckmin perde novamente o controle da situação na capital, afinal, boa parte dos vereadores tucanos migraram para o novo partido, o que esvazia o poder do diretório municipal alckimista - nada pessoal, apenas é comum aos destinos de Kassab e Alckmin se cruzarem e o primeiro costuma levar a melhor. Quais as implicações práticas disso? Serra volta à tona e tem a faca e o queijo na mão para ser candidato a prefeito paulistano em 2012 em nova candidatura-trampolim para 2014. O problema é que o ex-governador é um morto-vivo político. Se ele mal tem vida para ser um candidato competitivo ano que vem na capital - e se vencer será pior ainda para o PSDB porque ele não é mesmo um candidato presidencial competitivo -, ele também não está suficiente morto para entender que precisa passar o bastão para novos nomes.

No meio dessa contenda absurda, voltamos ao item inicial da nossa conversa. E o substrato intelectual do partido nessas horas? Se de um lado o pensamento liberal da PUC-RJ não se enraizou no partido e ainda foi atropelado pelas circunstâncias históricas, por outro lado, há uma debandada dos desenvolvimentistas. É aí que entra em cena FHC com seu artigo sobre o papel da oposição como debatido aqui. O partido precisa lutar agora para manter o capital político que tem, a "classe média tradicional" - profissionais liberais, funcionários públicos e pequenos empresários - e, talvez, abocanhar a "nova classe média". O erro de pensar em categorias de renda no lugar de classes sociais é que o ex-presidente se perde na análise socioeconômica - mais até do que no aspecto político -, afinal, ele esquece que a "nova classe média" é a própria classe trabalhadora que viu sua renda crescer, para além da faixa da pobreza, realizando a mesma atividade com a qual não conseguiam sair da pobreza nos anos 90. 

Não há, portanto, nova "classe social", mas sim uma novidade muito grande produzida pelo lulismo no sentido de que grupos muito grandes *de trabalhadores podem ganhar uma renda digna com sua atividade*, o que altera a correlação de forças da luta de classes. Por isso eu creio que, para além de wishful thinking sociológico - a torcida para que a "nova classe média" seja conservadora, como enfatizou a Mary W no GReader do Idelber -, eu acredito que, mesmo inconscientemente, a fala de FHC tem neste momento uma conotação defensiva mesmo: a ordem é no sentido de não perder o que o partido tem agora diante do fenômeno Dilma. Mas daí a achar um norte vai longe. E isso é péssimo para a democracia brasileira. Ou o PSDB se senta para discutir uma verdadeira refundação, fazendo uma autocrítica pesada - algo comum nas democracias, olhem para o Labour no Reino Unido e o que significou a eleição de Ed Miliband - ou ele se tornará um problema maior do que foi em 2010, um mero (e raivoso) anti-PT, o que é desnecessário.

P.S.: O meu amigo João Villaverde escreveu recentemente um belo post sobre o assunto. 






quarta-feira, 30 de março de 2011

Bolsonaro, ainda



O vídeo acima é do humorístico CQC. Ainda que não seja o meu humorístico favorito - ao contrário, me parece mais um exemplo da decadência do humor brasileiro -, ele vez ou outra, acidentalmente, cumpre algum papel - como nessa entrevista com o deputado de extrema-direita Jair Bolsonaro, alguém suficientemente polêmico para "dar ibope" e que acabou até soltando uma manifestação racista no final dela, gerando grande repercussão na mídia. Bolsonaro, para quem não conhece, é ex-militar e construiu sua carreira política em cima de uma retórica agressiva que apela para todos os clichês possíveis que um político de extrema-direita poderia pensar em usar: Defesa da pena de morte, da Ditadura Militar - e, por tabela, da "moral", dos "bons costumes" e da "família" -, do policialismo como forma de combater a violência e o desrespeito permanente às minorias são itens presentes em seus discursos. Em entrevista nos anos 90, ele chegou até a sugerir o fuzilamento do então Presidente da República Fernando Henrique Cardoso. 

Na resposta à cantora Preta Gil, nessa edição do CQC, ele chegou a se referir à possibilidade de um relacionamento entre um filho seu e uma negra como "promiscuidade", o que provocou um massivo repúdio e deu início a uma mobilização intensa para cassá-lo. Não me surpreende que alguém como Bolsonaro seja deputado, afinal, ele explora muito bem um senso comum extremista muito presente na nossa sociedade. O fato é que no Brasil, diferentemente de muitas democracias mais antigas e melhores do que a nossa, não existe uma extrema-direita organizada porque o atual equilíbrio de forças partidário tem neutralizado isso com certo êxito, o que relega a defesa dessa linha a algumas poucas figurinhas carimbadas - de forma atomizada ainda por cima. 

A primeira vez, em anos, que isso pareceu ser abalado foi na última eleição presidencial, quando  o candidato presidencial José Serra - um intelectual de porte oriundo da centro-esquerda - surfou na onda de uma pauta ultraconservadora - e agressiva - quando se viu derrotado, criando uma atmosfera irrespirável que arranhou irremediavelmente sua biografia. Por isso, mais do que nunca, a manifestação de Bolsonaro ganha uma conotação perigosa. Também não é o caso de ignorarmos que suas falas têm se radicalizado mais e mais - assim como voltou a ganhar certo espaço na mídia -, principalmente, porque estamos na iminência de um duro debate sobre o desarquivamento dos arquivos da Ditadura e da instituição de uma Comissão da Verdade. 

Seja como for, essa fala de Bolsonaro no CQC, por si só, já é das coisas mais graves que ele disse. Liberdade de expressão tem limites, ainda mais quando alguém exerce mandato eletivo e se usa disso para incitar o ódio. Ainda que o deputado seja muito mais alguém dotado de um senso de oportunidade único do que um ideólogo de qualquer coisa, esse tipo de comportamento não é admissível e não pode ser tolerado. É demais pagarmos o salário de alguém que se usa da democracia para ser eleito, mas usa de seu mandato para atacá-la ou mesmo que, vejam só, lança pesados ataques às minorias, mas é (acredite se quiser) membro da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara. Ainda que a democracia seja dos poucos sistemas que admita a crítica a si mesmo de dentro de suas instituições, há limites para o cinismo alheio e para o grau de ameaça que seguidas e sistemática declarações irresponsáveis podem representar. Espero não estar postando por aqui algo como este "Bolsonaro, ainda" - pelo menos não sobre ele como deputado -, acho que já deu e um ato racista é um bom limite.