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quinta-feira, 5 de maio de 2011

Osama, Kadafi e o Xadrez do Mundo Islâmico

Não é preciso ser muito perspicaz para perceber que há algo que não se encaixa nas versões da morte de Osama Bin Laden. De todo modo, o que importa é o ar farsesco do discurso do presidente americano Barack Obama sobre um episódio cujas cenas podem até ser incertas e duvidosas, mas o mesmo não se pode dizer sobre os excessos narrativos, uma clara hollywoodianização dos fatos com fins eleitorais. Dias antes, o assassinato do filho e de três netos do ditador líbio Muamar Kadafi, em mais um bombardeio da Otan sobre aquele país, não ganhou a devida cobertura.

Ambas as ações - perfeitamente conectadas quando se observa o desenvolver do jogo geopolítico no Mundo Árabe - são atos nos quais a superpotência americana, em sua decadência, agoniza desrespeitando as conquistas mais elementares do Iluminismo. Sim, mesmo os nazistas foram levados a julgamento ao final de Segunda Guerra Mundial e o assassinato de Bin Laden, em território estrangeiro e a mando do líder americano sem qualquer julgamento, foi um crime inequívoco, tanto quanto os que ele cometeu - muitos dos quais, aliás, graças ao treinamento e ao financiamento americano nos tempos da Guerra Fria quando eles eram aliados. 

No caso líbio, antes mesmo do assassinato brutal do filho e dos netos (todos crianças) de Kadafi, é bom lembrar que aquela própria guerra é, como nos lembra o sempre atento Tsavkko, uma ofensa à ordem internacional, na medida em que a resolução n. 1973 da ONU voltava-se para a criação de uma zona de exclusão aérea sobre o território líbio e a proibição de entrada de armas no país - ela jamais foi uma autorização para bombardeios massivos sobre a população civil tampouco disse respeito ao armamento dos revoltosos. 

Estamos diante de um retorno a Schmitt na medida em que, malandramente, o contrato foi suspenso e o soberano achou a desculpa que precisava para voltar a mandar e desmandar. A tentativa de construção de uma ordem internacional pacífica e cada vez mais integrada, mesmo com todos os seus percalços e falhas evidentes, neutralizou uma marcha rumo ao abismo que se desenhava claramente no século 20º. Uma vez implodido o poderoso Estado soviético e agonizante a tentativa de pax americana, os EUA se lançaram numa jornada tirânica que desequilibrou a geopolítica e a economia mundial.

O colapso das ditaduras da Tunísia e do Egito e o processo revolucionário em ambos os países neste ano esvaziaram, bruscamente, a relação de retroalimentação entre o imperialismo ocidental - e suas pequenas tiranias satélites - e os grupos terroristas que serviam de álibi para aquela forma de dominação - e vice-versa, pois esses próprios grupos também sempre se alimentaram das circunstâncias causadas por aquela forma de dominação -; de repente, surgiu uma multidão que já não mais se sujeitava ao discurso do déspota e os EUA viu-se sem chão - e o mesmo se pode dizer da própria e sempre superestimada Al-Qaeda.

Produzir uma guerra na Líbia foi a saída malandramente encontrada para que tudo mude sem nada mudar; derrubar uma ditadura agora amiga, mas pouco confiável serviu para construir um posto avançado para manter tropas capazes de suprimir desdobramentos mais libertários que os processos tunisianos e egípcios possam ter.  O assassinato de Bin Laden, nas condições ainda pouco claras e cercada pela nuvem pirotécnica obamista, trata-se tanto mais de um golpe de marketing eleitoral contra um adversário praticamente irrelevante para as pretensões americanas - mas não para as pretensões eleitorais democratas.

Obama que poderia representar o reestabelecimento de uma ordem contratual na comunidade internacional - que é tirânica também à sua maneira, mas não se iguala ao que vemos hoje -, simplesmente jogou pela janela as oportunidades que teve, uma consequência clara da chegada ao poder de um político jovem, sem o devido controle da sua máquina partidária e que, por sua vez, parecer desconhecer a verdadeira natureza dos problemas que deve responder. Sua reeleição, hoje, está praticamente garantida, uma vez que a retórica barulhenta e oca de Sarah Palin e do Tea Party foi abafada pelo acaso - o atentado contra a congressista democrata Gabrielle Giffords, alvo do mapa de Palin e vítima de um franco-atirador lunático, contagiado pela radicalização política local - e pelos efeitos da encenação da morte do vilão-mór - o que surtiu efeito junto ao eleitorado que ele precisa disputar.

No entanto, a governabilidade do país está cada vez mais ameaçada, seja pela maneira como a estratégia imperial americana tropeça nas próprias pernas ou pela forma como as causas da crise econômica não são enfrentadas - e ambos os problemas, curiosamente, se entrelaçam, a indústria parasitária da guerra está junto dos problemas econômicos do país, embora ambos aludam para um modelo de produção e consumo insustentáveis. A questão é que os EUA podem mesmo implodir levando o mundo junto ou não.