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quinta-feira, 28 de julho de 2011

Crise Mundial que se Aprofunda, o Brasil e Algumas Divagações

Grécia: a pequena criança levada para a terapia de choque depois de gritar que o Rei está nu.

Como não cansamos de repetir por aqui, o óbvio nem sempre é evidente, mas ele é sempre revolucionário. A crise econômica mundial - sim, uma crise estrutural do sistema capitalista - avança. O agravamento dos problemas econômicos europeus e americanos chega a ser tão pedantes quanto foram previsíveis: um bloco econômico construído sobre um pântano e um grande instrumento artificial e inviável - o Euro - junto com uma superpotência perdulária e belicosa - a exemplo do Império Espanhol do século 16º e 17º como não cansa de usar como exemplo o americano Paul Krugman.  

Embora não seja parte da UE, a Noruega também arde com o extremismo de direita
A União Europeia sempre carregou em seu projeto originário defeitos sistêmicos cuja natureza permitia a qualquer observador mais atento considerar que, vejam só que espanto, uma vez alguma crise surgisse, os beneficiados do esquema iriam tentam montar uma porta corta-fogo para deixar as vítimas do incêndio à própria sorte. Dito e feito. Só que era igualmente óbvio que isso não daria, posto que todas aquelas nações compartilham o mesmo espaço econômico - ouviu frau Merkel? -, a crise de um, é crise de todos, ora pois - e se não é, passa a ser por efeito dominó.

Tabela do endividamento estadounidense
Dos Estados Unidos, muito mais se pode dizer; um modelo de produção e consumo social, econômica e ambientalmente inviável acompanhada de uma política belicista para alimentar tudo isso - e se alimentar -, a parasitagem de setores arcaicos da indústria energética - também chamado de setor petroquímico - e um governo como o do pequeno Bush não poderiam dar em outra coisa: Um desastre. Mas é verdade que Bush tem lá a responsabilidade (méritos?) de ter antecipado o temporal quando resolveu cometer em dois anos, os erros que os líderes soviéticos levaram doze para realizar: o Afeganistão (2001) e o Iraque (2003) se aproximam muito da incursão soviética na Hungria (1956) e na Tchecoslováquia (1968)  do ponto de vista geopolítico.

Por certo, também não falamos apenas de uma crise instrumental - embora linhas de fuga (ou melhor, gambiarras) sempre sejam um horizonte possível para o Capitalismo. Se pensarmos bem, a nova ordem desenhada nos anos 90, com países pobres usando de disciplina fiscal para acumular reservas estrangeiras, isto é, financiar o déficit dos ricos para que eles importam mercadorias, poderia funcionar para sempre. O problema é como isso criou uma bolha de consumo - e a reprodução do capital é incessante - nos países ricos mediante a injeção irreal de recursos no sistema financeiro dos ricos. 

Mesmo em um cenário de estabilidade, a impossibilidade de universalizar o consumo dos ricos - e a impossibilidade dos pobres viverem sem a possibilidade dessa universalização dentro dessa relação - já seria uma contradição em termos claríssima. O fato é que essa estabilidade não era mesmo possível - ricos administrando pequenos déficits que seriam financiados pelos "emergentes" de quem importariam mercadorias baratas -, uma vez que o círculo vicioso do hiperconsumismo iria forçar os mais ricos a estourarem suas contas - seja por uma via militar (a guerra de conquista como elemento de aquecer a economia da sociedade do consumo e do espetáculo) ou pela saída "pacífica" optada pelas potências europeias (uma astúcia, sem dúvida).

Desenhado esse cenário, vamos ao que nos é mais próximo: e o Brasil com isso? Conseguimos, mediante esse jogo, internalizar a dívida pública eliminando, assim, a dívida externa e, ainda, forçamos o sistema ao limite, caminhando para a universalização daquilo que não pode ser universalizado por sua própria condição ontológica: a renda nacional da produção capitalista, ela mesma assim como inúmeros itens acessórios que formam o complexo da chamada "cidadania". É claro que isso teve um ônus pesado, inclusive a aquisição de títulos da dívida americana como forma de ancorar o processo de pagamento da dívida externa - num processo que ela foi recomprada pelo nosso sistema financeiro, então o que era "dívida externa do Estado brasileiro" passou a ser apenas "dívida pública do Estado com, afinal de contas, jurisdicionados seus". 

Hoje, o perigo que se projeta de forma iminente é, justamente, o de que os títulos da dívida americana que nós temos, graças à perspectiva de calote americano - por conta da Lei que proíbe os EUA de elevarem o patamar de dívida para mais do que 100% de seu PIB, o que os forçaria a dar um calote na dívida ou não gastar com a sua própria manutenção -, pode virar pó. É claro que o Brasil errou ao manter suas reservas quase que exclusivamente em dólares, mas quanto a isso, as coisas não são tão simples (1) pela bolha de confiança criada nos EUA nos anos 90, os títulos da dívida americana era o caminho menos arriscado para ancorar o processo de eliminação da nossa dívida externa; (2) pressões políticas forçam países emergentes a financiarem o déficit americano, por incrível que pareça, só a Venezuela de Chávez não cometeu esse erro (mas não de forma indolor, como sabemos); (3) de todo modo, toda a economia mundial está ancorada no dólar e na economia americana, direta ou indiretamente. 

Lula nunca teve a margem de manobra que um Chávez teve - assim como grande parte dos árabes tiveram, mas não fizeram bom uso -, uma vez que em seu mandato ele não dispôs do mesmo superávit na produção petrolífera que seu colega - ainda que tenha aumentado a produção nacional de petróleo e, ainda, tem promovido as reformas necessárias para que a petrolífera brasileira (uma sociedade de economia mista, isto é, uma empresa com controle acionário estatal, mas com parceiros privados) pudesse descobrir a reserva do Pré-Sal. O petróleo venezuelano, apesar de mal administrado até bem pouco, deu aos nossos vizinhos a estabilidade nas contas externas que nunca tivemos - nem ainda temos. O Brasil tem títulos da dívida americana que de papéis mais seguros do mundo, agora são uma bomba relógio.

É claro que se isso expõe a nossa economia no curto prazo, por outro lado, o Capitalismo, na sua eterna reorganização e atualização aponta saídas: com o calote americano, depois do choque, para onde iriam os fluxos de capitais? Nesse sentido, o Brasil sofreria um choque brutal como toda a economia do globo, mas novamente teria mais chances de colher dividendos disso se souber continuar a investir no seu mercado interno - como os chineses habilmente têm feito, embora essa inversão das turbinas da economia do País do Meio (de economia exportadora para economia centrada no próprio mercado) tenha limites, a um primeiro olhar, políticos, uma vez que não são pouco tecnocratas que temem a recomposição dos salários dos trabalhadores locais, o que operaria mudanças políticas pesadas no país e já pode até mesmo influir no processo de sucessão do Presidente Hu Jintao . 

Portanto, de um ponto de vista nacional, a crise em tela traz menos problemas para o Brasil do que se pensa. Isso pode ser, inclusive, até um incentivo para que, no pânico, certos nós górdios caprichosamente dados pela nossa elite, sejam desfeitos - assim como 29 serviu para, depois do abalo, ser a causa do fim do entrave à nossa industrialização. Por essa perspectiva, se Dilma e o PT souberem se aproveitar da situação como Vargas, de certa forma, soube, nenhum problema - mas as coisas insistem em ser mais complicadas.

O grande problema é que o tal "capital produtivo" sobrevive do "capital financeiro", eles não são excludentes entre si. O especulador da bolsa é uma mera consequência - nem a mais preocupante, muito menos a mais danosa - da construção de um aparato financeiro capaz de realizar o valor da produção. O problema é que a existência de um setor com tanto poder quanto financeiro sempre abrirá a janela para a desregulamentação e o surgimento da bolhas de ar na corrente sanguínea do sistema. Em outras palavras, o Brasil tem um problema imediato e objetivo que é com suportar a onda de choque - que tardando ou não, virá -, como se adaptar ao novo cenário e, depois, como mesmo superado isso, escapar ao esquema de escravização do sistema.

As incongruências do sistema, a constante aparição de crises cíclicas, podem ser resolvidas por um Estado cada vez maior que promova uma engenharia jurídico-econômica no Capitalismo. O futuro, aquele maravilhoso produto da nossa imaginação, se insinua com caminhos vários daqui em diante: um deles pode ser mesmo a barbárie, outro pode ser a construção de um tipo de Estado semelhante ao que os positivistas imaginaram um dia; uma máquina tecnocrática gigantesca que nos move para o futuro, no qual toda liberdade é dissipada e a ordem nasce como premissa maior de um sistema progressista - que promoveria o constante desenvolvimento técnico e científico que aprimoraria o padrão de vida. 

Em um momento no qual os riscos são tantos, a recomposição da soberania do Estado sobre a economia acaba se tornando uma necessidade tática frente ao vendaval, os riscos disso ser uma armadilha que nos jogue em um futuro huxleriano são enormes; um novo leviatã, híbrido pela necessidade de ser adaptável, e global poderia ser a saída encontrada. Hoje, a esquerda se prende na necessidade da regulamentação do sistema financeiro - coisa que o pânico ajuda a avançar em países governados pela centro-esquerda como o Brasil -, de recomposição do espaço público - por vias estatais, pois afinal é o que está à mão -, como arma de desmontar a bomba-relógio liberal das últimas décadas na qual os privilégios - no sentido de "lei privada" mesmo - passaram a ditar os rumos da economia assim como a propriedade comum passou por um processo de desconstituição. 

Isso não está errado, embora essa plataforma precise ser mais bem delineada, o cerne da questão se encontra no fato de que, embora isso tenha de ser levado a cabo, é preciso considerar que isso requer um, digamos, sentido histórico. Qualquer saída que se apoie no Estado como fim em si mesmo ou meio necessário e inquestionável para se atingir um fim ideal - o velho etapismo leninista - tende à sua própria corrupção. A construção de um Estado grane à keynesiana não é saída, uma vez que vai-se embora o Direito e fica só Estado, cada vez maior, como vemos hoje, o velho fazer isso para só depois fazer aquilo de Lenin e dos velhos Bolsheviks é o velho equívoco de condicionar a Liberdade ao Amanhã, o que a conjura perpetuamente do Aqui-Agora. 

É preciso escapar à catástrofe e tentar não pagar um preço alto demais por isso.
 

domingo, 13 de março de 2011

O Desastre Japonês e o Destino Americano em Wisconsin

Miyagi destruída -- AP

Nos anos 80, a vitória dos Estados Unidos na Guerra Fria já se anunciava claramente em um horizonte próximo, diante de uma União Soviética presa no atoleiro do Afeganistão e, sobretudo, na própria camisa de força de sua economia hiperburocratizada, os americanos - que já tinham vencido a corrida espacial e tinham absorvido o choque da derrota no Vietnã - caminhavam a passos largos para a hegemonia não só do Ocidente como do Mundo. A Perestroika só foi o anúncio oficial para que os sovietistas ortodoxos pudessem acreditar no que seus olhos testemunhavam - mas fé é sempre um assunto complicado. O fato novo naqueles tempos era o Japão, um país situado em um arquipélago com uma cultura milenar e profundamente singular que, desde os anos 70, surpreendia o mundo seguidas vezes com suas inovações tecnológicas - os japoneses produziam uma tecnologia simples e eficiente que de fato melhorava a vida cotidiana das pessoas, o que era o exato oposto dos soviéticos que com sua tecnologia militar e espacial grandiosa eram, no entanto, incapazes de produzir bons liquidificadores. Os ganhos de produtividade dos japoneses assustavam o mundo e já o país já era colocado como futura maior potência econômica global. 

Tudo isso, claro, não passava de uma análise apressada, ideológica e deslumbrada. Os japoneses produziam avanços tecnológicos de forma paranoica porque não dispunham de recursos naturais e, principalmente, porque a derrota na Segunda Guerra os alijou não só do controle territorial da Ásia como dos meios para retoma-lo (ou mesmo instituir uma relação soberana e amistosa de intercâmbio político-econômico com os países da Ásia), cedo ou tarde o país bateria em um teto, ainda mais porque sua política externa estava (como ainda está) posta em função do interesse dos EUA que continua, curiosamente, a ocupar o país com gigantescas bases militares e uma presença ostensiva de sua Marinha em torno do arquipélago. Ademais, a problemática do sistema financeiro local nunca foi bem compreendida no Ocidente e isso foi dos fatores que mais expôs as próprias limitações do aparentemente bem sucedido sistema político japonês - no fim das contas, uma mistura de Capitalismo de Estado Ocidental com uma indisfarçável manutenção da máquina despótica asiática e sua oligarquia intangível: O Estado japonês nunca foi capaz ou teve o interesse em construir mecanismos que afetassem os privilégios que sua nobreza tinham a partir do controle do seu sistema bancário. A crise japonesa do final dos anos 80 ilustra a chegada ao teto do modelo instituído no pós-Guerra na medida em que o sistema política se mostra incapaz de enfrentar a sua elite e seus interesses específicos junto às finanças nacionais, resultando em uma socialização dos prejuízos que estagnou o país desde então.

Os Estados Unidos, como já largamente debatido neste espaço, perdiam a olhos vistos sua importância relativa junto ao Globo, mas a partir de Reagan passaram a insistir em compensar isso com o aumento do seu poderio militar e, mais grave ainda, partiram para uma jornada imperialista dezenovista com Bush Filho, algo cujas perdas sobre a economia é incalculável. O mundo globalizado usou a estrutura econômica americana como seu núcleo e seu ponto de apoio, mas não percebeu que aquele edifício nem tinha bases suficientemente firmes nem quem estivesse disposto a fortifica-las.  Para além disso, a própria problemática da realização do valor no Capitalismo acabou por vir à tona quando seus mecanismos de fuga passaram a falhar - o que cedo ou tarde aconteceria mesmo.

A tragédia profunda que se abateu sobre o Japão na última sexta - um formidável Sismo que produziu um tsunami, cujo resultado foi a destruição de cidades inteiras e a morte de milhares de pessoas - expôs o drama econômico e político de um país estagnado e, também, particularmente atingido pela Crise Econômica mundial. Pior, as inúmeras usinas nucleares do país, substitutivo arriscado para o petróleo e saída para o alto padrão de consumo energético do país, estão ameaçadas e o risco de se produzir uma tragédia maior com o envenenamento radioativo de vastas áreas é permanente. Analisar a atual situação pelo viés da tragédia pessoal ou mesmo do acaso natural é falso, é necessário pensar no caráter socioeconômico da crise japonesa e suas implicações - ou melhor, como as variáveis socioeconômicas não brotaram do nada e como o resultado de uma tragédia natural só pode ser pensado conjugado com elas. Por exemplo, o que dizer do fato do Governo Japonês ter ignorado os alertas sobre a segurança do seu sistema de produção de energia atômica? Em suma, isso só é uma página da história japonesa, mas que certamente tornará incontornável o debate sobre o sistema local. 

Do outro lado do Pacífico, a crise americana não é menor. A luta do Governo de Wisconsin contra os sindicatos - com direito a golpe do Senado local -, o que gerou essa resposta brilhante do cineasta Michael Moore: A América não está Quebrada - ou melhor, essa crise atual também não brotou do nada, mas tem origens muito claras, sobretudo nas causas da atual Crise e, principalmente, na forma como o Governo Obama tem enfrentado o quadro desde que assumiu, onde passar a mão na cabeça de executivos incompetentes e corruptos  com a injeção de uma massiva quantidade de dinheiro público, sem garantia de retorno algum em troca, tornou-se uma constante enquanto os trabalhadores perdem seus empregos - e veem agora, até mesmo, sua liberdade de organização ser atacada. O movimento de trabalhadores em Wisconsin é chave para o futuro dos Estados Unidos agora que o desastre Obama  prova que os problemas locais vão para além do Partido Republicano.

O momento atual em ambos os países é dramático e o resultado disso será fundamental não só para a sobrevivência, mas também para os rumos da humanidade que vive a agonia do Capitalismo tardio.