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sábado, 18 de julho de 2015

Momento Poesia: E Isso que eu Sonhei, Eu Sonho

Chavannes --Le Rêve (1883)
E ISSO QUE EU SONHEI, EU SONHO*.


E isso que eu sonhei, eu sonho,
E isso algum dia novamente eu sonharei,
E se repetirá tudo, e tudo reencarnará
E vós sonhareis com tudo que  eu vi em sonho.


Lá, além de nós, até do mundo além
Onda após onda quebra na costa
E sobre cada onda uma estrela, um homem, um pássaro
Uma realidade, um sonho, uma morte -- onda após onda.


Não preciso de números: eu era, sou e serei,
A Vida -- milagre dos milagres, de joelhos um milagre
Sozinho, como um órfão, eu mesmo me coloco
Sozinho, entre os espelhos, cercado por reflexos
Mares e cidades, incandescência em torpor
E a mãe em lágrimas leva seu rebento no colo.


(Tradução do russo em confronto com a tradução em inglês)

sábado, 15 de setembro de 2012

Sublime


Café Terraço à noite -- Van Gogh
Buzinas prepotentes, gargalhadas ébrias, violão assanhado. Sonhava durante toda a adolescência em me enraizar nessa dinâmica efervescente, paisagem colorida por todos meus sentidos infantis. Me escondia nas  próprias certezas incertas, à espera de um prazer que só se revelaria inatingível com os dissabores dos anos posteriores.

Depressão? Não sabia que amadurecimento tinha esse nome. Quanto mais fantasias se  tornam fantasiosas, os momentos de alegria viram mais reais. Consigo tocá-los com as mãos, ao recordá-los enquanto deitada no recanto de meu quarto. Sapateiam sobre meu peito, quando corro por cima do concreto paulistano na segunda-feira. Fecham meus olhos, gentilmente, quando  a rotina decide me golpear.


Álbuns velhos...Fotos indesejáveis... Memórias espalhadas pela rua, pelo bairro, pela cidade. Nem tive o trabalho de varrê-las para longe. Brotaram-se  sorrisos, expelindo-as dos meus sonhos durante madrugadas egoístas. Parece que nasci para  vê-las  morrerem. Quão sublime se tornaram os dias singelos. Conversas sobre livros favoritos, poemas, histórias de infância, amarguinho de café, lágrimas delicadas, almoços em um quilo, Yakisobas da liberdade, melodias esfuziantes, trilhas na Paulista, expedições no centro, cinemas de rua, pequenas grandes  vitórias, grandes pequenos fracassos.


Finalmente, a vista daquele mar de edifícios art decó desnudou sua beleza mediante meus olhos tímidos. A saudade de um passado inexistente foi substituída pela melancolia, devido à possibilidade do futuro desvirtuar o presente. Saudades de um presente concreto, digno  de um tema para um romance de Clarice Lispector. Deficiente, se comparado com uma idealização vitoriana sobre a vida.  A fumaça , abraçada com uma névoa tênue, embala a cidade ao anoitecer. Escura, gelada... Incomoda. Mas só o faz por que se pode senti-la. Faz o menino vestir o moletom ao retornar da escola, louco para assistir ao desenho de final da tarde enquanto janta, a contragosto da mãe. Faz o casal urbano relembrar, por algumas horas,  que amam mais um ao outro do que o trabalho.


Sentir, tocar, acariciar, cantar, rir, chorar, soluçar, suspirar, berrar, correr, beijar,  brigar, estudar, trabalhar, escrever, recitar...


Respirar o imperfeito... Perfeito.
Isabella Martinho Eid

domingo, 10 de junho de 2012

Olhar de Machuca


Homenagem singela de Isabella Eid a Machuca de Andrés Wood...

Olhar de Machuca

Pedalar de dez mil meninos
Os que pintaram o muro de beleza
Entrelaçaram a sensibilidade entre braços finos
Presenteando sua nebulosidade com clareza

Sentiu suas sardinhas esturricarem ao sol,
Acalanto do berreiro encrustado no coração
Como é bom sentir a roda a esmagar o girassol
Berrante, apagando o colorido do chão

Brotou-se uma rosa
Frágil? Tão forte...
Eterna? Em prosa...
Ignorante: “Que falta de sorte!’’

domingo, 15 de abril de 2012

Réquiem para o Revolucionário

Robespierre vai ao cadafalso


O réquiem do revolucionário se aproxima,
cabeça ainda erguida por pescoço de véspera degolado,
é árido e frio o clima
e ainda há quem lhe pergunte qual o seu lado.


Na mente, lembranças, rancores, tremores
de andanças, amores, temores
danças, cores, odores
lanças, dores e clamores.


Sabe bem que não se vive pela morte
mas se morre pela vida
e só haveria culpa numa jornada torpe
na qual se caminhasse pela dívida


Caminha o revolucionário
passo a passo para a guilhotina,
eis aí o seu irônico calvário:
uma vida que se lamina


Sua morte, concreta ou simbólica
pouco importa,
seja na manhã mais clara ou numa tarde bucólica,
não é nada perto da vida que ora se corta


Se morrem jovens aqueles que os deuses amam
- por lhes querer ao seu lado -
o mesmo se diz daqueles pelos quais eles clamam
- aqueles que veem o criado como um dado -


Resta-lhe apenas a reminiscência daquele sorriso eterno
branco como a cor de marfim daquela pele
e cândido como o afeto que lhe tem sincero e terno
daquela moça que se distingue na plebe. 


Vai-se o revolucionário para o cadafalso,
orgulhoso como um alvo,
mas pouco importa a sentença de seu carrasco:
ele sabe que já está salvo...


domingo, 8 de abril de 2012

Venta

Lucifer - Zichy
Vento frio em minh'alma, 
eu me protejo com as asas de anjo caído, 
mas nem por isso minha dor acalma, 
nem se apaga o tempo ido.


Pai não me perdoai, eu desejei cair
tombar antes do dia do juízo
ficar longe de ti
e tão perto do martírio


Tempo vivo que me envolve
como mar de lágrimas
nada se resolve
nas torrentes cálidas


Uma lembrança, um beijo
um suspiro
da vida um lampejo
achado quando terminei perdido


Se já que quem  canta é a cotovia
vou-me em tempo 
pois não é a noite que ela anuncia
é hora de sumir como o vento...





quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Uns Versinhos

A Noite Estrelada - Van Gogh


Perdido na vida, sozinho no mundo
sonhando com as remotas ondas do mar
e um céu de estrelas profundo,
pequenos maremotos ao luar...


Cá, tombaram há muito todas as constelações
para, na forma de neons, jazerem na terra
testemunhas urbanas de tantas paixões
ou mesmo da vida que se encerra


Pequenos sussurros ao vento
grandes gritos de medo
na aridez cinza de cimento
o novo se dilui no mesmo


Sigo como nômade em linha de fuga
cambaleante e ao léu
bailando ao som de um música muda
e sonhando com a moça da rima de mel


segunda-feira, 27 de junho de 2011

Versos de Inverno

Napoleão no Inverno
Eu crio
e rompo a anestesia
mesmo no frio
faço alguma folia


Bobos são os meus versos
mas ocupam a minha vida
loucuras eu não te peço
só lembre de mim na despedida


Pobre coração,
condenado ao abandono
escuta essa canção
ela trespassa o mais profundo sono


Temores do inferno
façam-se rima
tremores do inverno
não duram à mudança do clima


Gira o mundo em pesado andor
mas sempre restam as eternas amigas
de um lado a dor
do outro lado a bebida



sábado, 18 de junho de 2011

Melancolia

Othello e Desdemôna -- Berchem.
No fundo o sol se esconde
e ao fundo toca a sinfonia
te encontrarei onde,
fugaz alegria?
responde


Resto cá com minha fiel companhia
aquela que me segue há muito e desde longe:
a velha e impiedosa melancolia
esse é o seu nome
e por sua culpa escrevo esta poesia


Só palavras ao vento
em rimas tão pobres
Mas esse é o meu sincero lamento
espero que não me demore
enquanto vago ao relento


Nos tempos presentes,
terno segue o amor,
mas como nos lembram os ausentes
eterno mesmo só a dor,
não nos percamos olhando para os horizontes


Fugaz alegria,
agora te vejo melhor,
teu nome é melancolia
e nunca negaste o meu clamor:
tu sempre foste a minha guia.

domingo, 20 de setembro de 2009

Um olhar cego sobre um canto mudo.


Drawing Hands by M. C. Escher, 1948

Se
O Filósofo algum dia esteve certo - e eu suspeito que ele estava certo sobre muito do que falava -, só é possível amar aqueles que um dia poderemos odiar e só odiamos aqueles que um dia amamos. A verdade, meus caros, é que estou enlouquecendo - e só pode haver loucura onde um dia existiu sanidade e só há sanidade onde um dia poderá haver loucura. Essa minha sanidade, no entanto, sempre se mostrou particularmente frágil, creio que ela nunca passou de um miquinho de circo andando num monociclo que caminha sobre um fio de nailón - que, por sua vez, liga a vida à morte.

Há alguns dias passei por uma experiência - não, eu não fumei, mas suspeito ter tragado -, que me fez pensar sobre o quanto as coisas não fazem sentido, mas se não fazem é porque um dia, quem sabe, poderão fazer. É particularmente interessante, ressalte-se, que isso esteja acontecendo também com muitas das pessoas que me cercam, ainda que por motivos diferentes: Talvez isso seja por culpa minha ou porque haja algo grande demais irradiando insanidade pelos poros. A ética se afigura, no fim das contas, como o elemento de mediação entre as nossas razões e as nossas paixões, mas e se não conseguimos ser tão racionais e as nossas paixões são insaciáveis?

As luzes do cinturão de Orion brilham como três sóis que me fazem perceber o quanto eu não posso desaparecer porque, de certa forma, sempre estive aqui e, portanto, sempre estarei - só resta saber como terminará esse breve sonho conhecido como vida, o momento onde a matéria, de repente, toma consciência - e o que é a consciência senão a transcendência do ser? -; é nesse breve instante que ela olha a Criação e a Criação a olha de volta - como diria um certo poeta russo, onde haveremos de morrer, no chão do campo de batalha ou singrando o cosmos? Todos nós queremos que o arco-íris que se materializa por detrás da chuva diga o nosso nome, mas e se ele nos renega? E se o abismo para onde escorre a água, para onde não ousamos olhar, mas que olhamos por instinto, nos olhar de volta e nos fazer nos jogarmos nele pelo fascínio causado pelo encantamento com a escuridão? Certo dia me disseste que o sucesso exige a queda e eu te rebati dizendo que é a queda que exige o sucesso - e é mesmo.

Mas hoje eu não quero provar nada. Para ninguém. Quero declamar a poesia sem palavras, ouvir a melodia sem som, quero continuar amando a mulher que só existe nos meus sonhos - mas teria coragem de vender a alma que não mais tenho para tê-la em meus braços -, quero continuar me maravilhando com aquele lugar lindo para o qual nunca fui, quero rir daquilo que não teve graça e chorar por aquilo que nunca me magoou. Quero morrer apesar de nunca ter vivido - ou será que eu gostaria de viver apesar de nunca ter morrido? Por qual motivo não poderia dançar com Lilith sob a luz da lua? Ah se eu tivesse ainda uma alma...

sexta-feira, 10 de julho de 2009

O Tempo

O futuro do passado que se anuncia é maravilhoso.
O futuro do presente que se delineia é a catástrofe, a aniquilação, o juízo final.
O futuro do futuro não existe, é o som escuro e a imagem fria da morte.
O passado do futuro é agora.
O passado do presente é terno e alvissareiro.
O passado do passado é o princípio e a fonte – arché.
O presente do passado é falso, enganoso, mas sedutor.
O presente do presente é pessimista, ressentido e amargo.
O presente do futuro é o eterno porvir.

segunda-feira, 16 de março de 2009

Para pensar

Chorus Sacerdotum

Oh, wearisome condition of humanity,
Born under one law, to another bound,
Vainly begot and yet forbidden vanity,
Created sick, commanded to be sound.
What meaneth nature by these diverse laws,
Passion and reason, self-division's cause?
Is it the mark or majesty of power
To make offenses that it may forgive?
Nature herself doth her own self deflower
To hate those errors she herself doth give.
For how should man think that he may not do,
If nature did not fail and punish, too?
Tyrant to others, to herself unjust,
Only commands things difficult and hard,
Forbids us all things which it knows is lust,
Makes easy pains, unpossible reward.
If nature did not take delight in blood,
She would have made more easy ways to good.
We that are bound by vows and by promotion,
With pomp of holy sacrifice and rites,
To teach belief in good and still devotion,
To preach of heaven's wonders and delights;
Yet when each of us in his own heart looks
He finds the God there, far unlike his books.


LORD FULKE GREVILLE