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sexta-feira, 13 de maio de 2011

O Bisonho Caso de Higienópolis e a Gente Diferenciada

A São Paulo de 1821 - Pallière
Acordo depois de uma (justa) tarde de descanso e me deparo com uma notícia bisonha: um grupo de moradores de Higienópolis está protestando contra a construção de uma estação de metrô no bairro. A alegação passa por argumentos confusos que vão desde a defesa de uma estação seja construída mais para o lado até pela admissão clara e inequívoca de um discurso elitista: "estações do metrô atraem gente 'diferenciada' como moradores de rua etc" - como colocou um morador. Ainda que o movimento, e é bom que isso fique claro, não fale em nome dos moradores do bairro (embora se ponha nessa posição, o que é revelador sobre sua posição no debate público), movimentos como esse ilustram um fenômeno bastante recorrente na metrópole paulistana e, por tabela, em grande parte das metrópoles brasileiras, haja vista que o modelo de urbanização brasileiro atual é inspirado  no modelo paulistano dos tempos da ditadura - uma das consequências possíveis para um processo de urbanização que obedecia, desde o primeiro momento, uma lógica de não construção de raízes com o lugar e pela exploração bruta do meio pelo colonizador português, como nos lembra o sempre necessário Sérgio Buarque de Hollanda em seu " O Semeador e o Ladrilhador". A organização atomista da metrópole bandeirante, onde um núcleo duro de "civilização" é circundado por um anel de pobreza e miséria - ligados por uma estrutura de transporte público insuficiente - e o automóvel reina como necessidade para milhões de cidadãos - até como condição para a própria cidadania substancial, na medida em que não há espaço para pedestres e ciclistas - serviu de inspiração para as nossas principais metrópoles, embora, por razões óbvias, o modelo não pôde ser reproduzido em sua totalidade - pela diferença óbvia da máquina capitalista bandeirante em relação a qualquer uma das outras partes do Brasil. De maneira transversal, o fenômeno ainda se trata de um avanço da lógica da imunização, tão presente nos tempos bicudos de hoje, cuja face urbanística visível é um movimento simultâneo de encastelamento das classes abastadas em condomínios cada vez mais fechados e de isolamento da Favela - o Outro como pestilento em relação ao qual precisamos nos proteger isolando-o, algo que não é nada novo como nos lembra um tal de Foucault, mas que toma uma dimensão incrivelmente preocupante na nossa época e, sobretudo, no nosso meio. Em suma, peculiaridades culturais brasileiras e paulistanas se entrecruzam com a radicalização do fenômeno da imunização na nossa época, resultando num fenômeno curioso no qual o próprio equilíbrio sistêmico da cidade se torna mero detalhe para certos grupos - isso, enquanto causa de certo recalque existente, torna-se, ele mesmo causa de acirramento do processo. Mas não poderia o morador, em seu momento fascista, ter sido mais feliz: sim, estações de metrô atraem gente diferenciada mesmo - em seu gozo perverso, ele não percebe, no entanto, qual o problema do Mesmo.

Atualização de 13/05 às 19:58: Eu, honestamente, não tenho ideia do que houve com este post. Até ontem à noite, ele tinha seis comentários que simplesmente desapareceram e houve relatos que ele ficou fora do ar por algum tempo. [aliás, este post foi publicado dia 11/05, ele sumiu mesmo e foi republicado automaticamente (?!), ficarei atento, mas é bisonho que isso tenha acontecido]

segunda-feira, 11 de abril de 2011

O Fascismo Nosso de Cada Dia

A declaração racista do oportunista Bolsonaro, a tragédia do Realengo e a recente manifestação fascista na Avenida Paulista não são peças desconexas entre si, mas sim cenas do mesmo espetáculo macabro. Se, por um lado, os últimos anos foram marcados por uma ascensão social nunca antes vista em nossa história, por outro, vivemos às voltas com uma profunda crise de valores na política. Não resta dúvida de que jogo político brasileiro foi esquizofrenizado à última potência pela estratégia lulista; a pragmática sindical - e, agora, sua versão gerencial-estatista com Dilma - produziu transformações sociais para melhor maiores do que gerações inteiras de comunistas, nem ao menos, poderiam conceber, mas há um esvaziamento perigoso do debate na medida em que atores diversos foram articulados e rearticulados pela nova ordem - a ponto de não saberem mais quem são ou onde estão. Há tempos, tenho insistido por aqui que as transformações brasileiras dos últimos anos têm um caráter de esfinge, a fricção entre as classes aumentou e se tornou mais complexa ao mesmo tempo. Diante disso, bolhas perigosas se formam. A palavra esquizofrenia é a lei:  Nunca antes fomos tão brasileiros - e ser brasileiro nunca foi tão intenso pelo mundo - e nunca antes fomos tão pouco - o processo de assimilação da "cultura global" é profundo no plano interno, inclusive com a reprodução de certo tipo particular de recalque. O avanço dessa forma de violência, que decorre de uma lógica de política francamente contrária à vida, se dá em ritmo alucinante nas frestas - jamais a despeito - desse enormíssimo fenômeno de mudança que se alastra e se aprofunda em nosso país. No meio desse cinismo atroz reside um agudo desprezo pela vida. Ser racista é uma forma de decidir sobre quem deve viver e morrer - como diria o velho Foucault -, é preciso já estar morto em vida para chacinar uma dúzia de crianças da escola onde se estudou, é necessário muito ódio para reproduzir no país da diversidade o programa teleologicamente assassino e purismo do fascismo - em sua face mais descarada. É preciso ter um instrumento capaz de costurar as partes e o todo e garantir a vida. Isso tem de ser para o aqui e agora.  

  
PS: Vale a pena dar uma olhadinha nessa bela pensata que eu pesquei do twitter do Alexandre Nodari:


"Um par de tapas me ensinou o que era tolerância. Eles vieram de meu pai, que era o mais gentil e mais tolerante homem do mundo. Eu tinha seis anos. Eu estava na varanda de uma casa olhando o Isar, em Munique. Homens em camisas marrons marchavam cantando sob bandeiras com suásticas que eram balançadas. Estava lindo lá fora. Estava muito alegre. Hitler estava tomando o poder. As pessoas, na rua estavam saudando a procissão. De minha varanda, comecei a aplaudir. Meu pai me desferiu um golpe. Foi o único que recebi durante minha vida, foi o único que ele desferiu. Meu pai odiava a violência. Ele odiava a guerra. Ele odiava o ódio. Ele foi muito bem forçado a odiar Hitler e o nacional-socialismo. Eu aprendi aos seis anos que a intolerância é intolerável e que não há tolerância para os inimigos da tolerância" (Jean d'Ormesson)