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terça-feira, 16 de setembro de 2014

O Porvir do Brasil II: A Veja, Marina e o Extremismo de Centro

Foto tirada daqui
A capa da revista Veja desta semana ilustra uma cena curiosa: Marina Silva seria vítima de uma campanha caluniosa, de uma fúria nunca antes vista numa corrida eleitoral. Mas o fato é que isso ilustra, antes de tudo, o próprio argumento da candidata face às críticas que ela tem sofrido (não à toa, a capa foi exibida no próprio perfil do facebook de sua campanha); se, por um lado, Marina passou a ser criticada porque apareceu com força nas pesquisas, por outro lado, sua resposta vem em um momento que ela, depois de um crescimento vertiginoso, está a perder terreno para sua principal rival, e postulante à reeleição, Dilma Rousseff. Nenhum dos dois movimentos é estranho à política, mas só é estranho que Marina o acuse em um momento no qual flutue para pior.

Até agora, nenhuma acusação expôs a vida pessoal de Marina como, verdade seja dita, ocorreu com Lula na derrota para Collor: até uma filha concebida fora do casamento do candidato, e futuro presidente, foi exposta -- Collor e FHC tiveram casos parecidos em suas vidas privadas, mas isso jamais foi utilizados contra eles nem pelos adversários (incluso aí o PT), tampouco pela mídia grande. No que toca às eleições em curso, como lembrou o filósofo Renato Janine Ribeiro, Aécio e Dilma estão expostos a críticas inclementes há tempos, por que então Marina, que é tão candidata quanto eles, estaria isenta dessas cobranças e questionamentos? Ou por que ela, por exemplo, comparou o PT com o "chavismo"?

Se essa última flutuação eleitoral se manterá ou se Marina vai se recuperar, não se sabe. O que interessa é que existe um fenômeno importante de fundo. Marina, ao cometer essa pequena contradição -- criticar o adversário por ele ter lhe criticado como se isso, em si, fosse um problema -- revela bastante disso. É a exposição de algo latente nos últimos anos que se popularizou pela crítica ao "Fla x Flu" político: o antagonismo recriminado uma vez que emerge no palco do debate público brasileiro; ele acaba posto em seu devido lugar como se fosse não a alma da política, mas uma deformação sua. É o velho "política, futebol e religião não se discute".

Nada novo sob o Sol. Se é conhecido o fato que alguns países sofreram com regimes ditatoriais de direita, outros com tiranias de esquerda -- outros de ambas. No caso brasileiro, ironicamente, apesar de histórico de autoritarismo sempre conservador (mesmo o varguismo, apesar das idas e vindas que a historiografia dá), sempre houve um fundo cordialista, uma moderação em relação ao intolerável. Alguns dizem que isso evitou a ocorrência de uma ditadura mais cruel, no entanto, o fato é que esse traço cultural jamais evitou qualquer golpe nestes brasis de meu deus, muito embora atravanque a democracia brasileira -- que resta como uma promessa não cumprida.

Sim, o mais agudo caso de extremismo político brasileiro -- como a atual campanha para as eleições gerais insiste em nos provar -- não está à direita ou à esquerda, mas ao centro. Vivemos às voltas com o fantasma do extremismo de centro. E não estou falando do PMDB apenas. Há uma série de partidos que se colocam ali pelo meio, prontos a negociar com qualquer um -- e de qualquer forma -- além de outros que, embora programáticos, não se cansam de atrair o debate político, e as práticas, para cima do muro.

Nesse sentido, o discurso de Marina aparece polarizando contra a polaridade entre PSDB e PT, mas se apresenta, curiosamente, como uma não-polaridade: ele seria síntese já dada dos dois e, também, critério de seleção dos "melhores" dos "dois lados" que seriam chamados a governar -- pronto a desmobilizar a polaridade. Curiosamente, um dos grandes problemas da polaridade entre PT e PSDB é ela ter enfraquecido, se reduzindo ao centro e ao vazio dos grandes consensos. 

Pior ainda, que PT e PSDB, uma vez no poder, tenham perdido a noção do simbólico, tendo feito alianças dignas de dar um nó na cabeça de qualquer um. FHC se aliou com ACM (e também com Sarney!) porque, de fato, precisava, mas o fez de modo que terminou numa camisa-de-força; Lula, mais inteligente, soube tirar ganhos práticos de certas alianças, mas fez outras nas quais nada ganhou (nem poderia) e apenas desmobilizou seus próprios militantes e apoiadores, desconsiderando a potência do simbólico em produzir realidade (vide Maluf e Collor). Dilma lida pior com as alianças que herdou do que seu mestre e antecessor. Marina, por seu turno, quer internalizar esse aliancismo e não esconde isso.

Nos finalmente, é fato que nunca houve Fla x Flu na política brasileira contemporânea, no sentido de um antagonismo duro, inclusive porque a polaridade entre PT e PSDB. Seja porque o antagonismo do futebol, que é uma simulação da guerra, não é da mesma ordem de qualquer antagonismo político -- nem mesmo de uma simulação da guerra civil -- ou, também, porque não houve uma disputa política dessa monta. A lógica por trás da crítica do Fla x Flu, essa sim, leva, na prática, a um trajetória de esvaziamento pela eliminação da divergência e do dissenso. 

E a dissonância entre a premissa plebeia do "política não se discute" (ou o elitista "não façamos disso um Fla x Flu") e o "são todos farinha do mesmo saco" explica o mal-estar indeterminado (e imenso) sob o qual vivemos: e não é sobre "inconsciência" que isso se trata, mas da força gigante que cerceia (pela esperteza ou pela violência) a discussão, mas que não consegue apagar o desgosto com o resultado disso.

Embora limitada sob vários aspectos, a tese do peemedebismo de Marcos Nobre faz sentido: no fundo, há uma (des)articulação cordialista que embaralha a capacidade transformadora, ou de reles resposta às demandas usuais, da política brasileira. Eis o nosso problema. O insight de Nobre funciona porque ele denuncia a ausência de tensões (e, por que não, de paixões) como o nó górdio. 

Marina não pretende mandar o PMDB para a oposição, mas dividi-lo e conquista-lo -- trazendo para junto o PMDB que lhe interessa --, só que o fundamento de sua política é se colocar ao centro do centro e governar. Assim, a ideia de uma impossível coexistência entre transgênicos e não-transgênicos ou de uma "elite" como rótulo genérico para os "melhores" -- sem considerar as diferenças e antagonismos entre, vamos supor, seringueiros e banqueiros -- se tornam possíveis. O mesmo pode se dizer de independência do Banco Central e se defender sob a alegação de que o problema está em quem critica.

Dilma, durante os últimos quatro anos, buscou governar a economia pela técnica e, com a outra mão, trazer para o campo da média ponderada -- inclusive associada à ideia de "mídia técnica", na verdade, a mídia tradicional -- a discussão política sobre no campo dos direitos e liberdades individuais. Ela não ousou criar tendência, apenas contornar o que era difícil e se situar num ponto intermediário entre o desejado e o absurdo. Hoje, em campanha, descobriu que só isso não basta. E bastará menos ainda num eventual segundo mandato.

A ameaça de uma radicalização, como tomada de uma posição inequívoca e direta, é uma sombra que nos acompanha há tempos, mas ela não é real: é esse cordialismo de fundo que reduz e nivela o nosso maior problema. E não se trata de um problema moral ou transcendental, mas uma construção com fundo lastro material, estruturada primeiro como prudência prática diante das contingências das agruras da vida colonial e, depois, como armadilha do poder. O cordialismo nasce da necessidade de contornar o inconfrontável, mas se torna depois vício e até arte de governo flexível, inteligente e moderníssima mesmo enquanto arcaísmo. A opção pela democracia, ou melhor para o devir-comum da democracia, implica em mais e melhores polêmicas.





terça-feira, 19 de agosto de 2014

Sobre Virtù e Fortuna na Terra do Sol: Marina e a Tragédia de Campos

No meio do caminho das eleições brasileiras houve um desastre aéreo. Um desastre aéreo que ceifou a vida de um dos principais candidatos, Eduardo Campos. E a tragédia mudou tudo. Embaralhou um jogo que caminhava, por inércia, para uma vitória já em primeiro turno de Dilma. Marina Silva foi trazida novamente ao jogo. Agora, por conta disso, tudo indica que teremos um segundo turno, como confirmam as pesquisas feitas, sem muito pudor ou demora, nos dois dias seguintes à morte de Campos: [pretendente a] rei morto, [pretendente a] rainha posta. Ninguém mais perde tempo na era dos selfies e das redes sociais. Embora Marina não seja, ainda, oficialmente a candidata à presidência, há poucas dúvidas que isso deixará de ocorrer diante da verdadeira aclamação de seu nome por vários setores na tétrica oportunidade aberta. 



Depois do choque do acidente, na manhã cinzenta e turbulenta da última quarta-feira, mais três dias de luto nacional até a gigantesca cerimônia fúnebre, celebrada cinco dias depois, no Recife, terra natal do falecido, o cenário é de perfeita anomia. As coisas ficaram fora do lugar. Em um dia, Campos estava no Jornal Nacional, no outro, morto. A última vez que o destino pôs a mão nos rumos da sucessão presidencial brasileira, não se esqueçam, foi, ironicamente, no episódio da morte de Tancredo. E o fato apesar da tragédia não se aplicar a um chefe de Estado eleito ou em exercício, mas a um pretendente, não exime o episódio de gerar aquela carga que se via no antigo Império e se repetiu nas monarquias: a morte do corpo do imperador, a lei viva, enfraquece a ordem vigente e, durante o luto, nada mais é como antes, as coisas caminham incertas, embora seja muitas vezes uma incerteza reveladora.


Campos teve uma carreira meteórica, marcada pelo ímpeto e pela audácia, até se tornar um dos protagonistas do Lulismo: de ministro de Estado até governador da base governista, ele foi lugar-tenente das políticas que produziram uma verdadeira virada histórica no país, sobretudo no que diz respeito à sua região, epicentro estratégico do Novo Brasil. Apesar da insígnia socialista, era menos isso, ao contrário do avô, e mais um modernista de Estado. 

De movimentos audaciosos em movimentos audaciosos, Campos não apenas rompeu com o PT sob Dilma, mas também fez de seu partido a atração das eleições municipais de 2012, lançou-se candidato à presidência -- quando todos achavam um blefe -- e ainda admitiu em sua chapa a ex-concorrente e colega de ministério Marina Silva -- a qual ficou alijada da disputa por não conseguir formalizar seu partido a tempo das eleições num episódio controverso.


Muitos falaram em fortuna, remetendo a uma leitura fraca de Maquiavel, como se simplesmente o acaso tivesse aparecido e mudado todas as certezas de uma eleição que caminhava, grosso modo, para a reeleição de Dilma. Já Marina prefere crer na intervenção de uma providência divina, que a salvou do pior, uma vez que poderia estar no mesmo voo. O fato é que as coisas parecem menos aleatórias ou divinamente preparadas. 

Essa "fortuna", possivelmente, é de outra ordem. A fortuna é a fortuna sob o capital e a fortuna que lhe escapa. Se fortuna é a sorte, por outro lado, seu uso metafórico para designar riqueza se consagrou: mas a riqueza não aparece, nem se mantém, aleatoriamente. Riqueza, concordam Smith e Marx (e Marx por causa de Smith!), vem do trabalho. Essa fortuna, pois, diz respeito das vultuosas quantias sobre as quais falamos diariamente quando falamos sobre economia política. Um fluxo de riqueza administrado pelo capital, o qual é dependente de uma classe política profissional, destacada da sociedade, fluída e desterritorializada de partidos políticos sólidos ou o que mais lhe possa atar -- o partido é, sobretudo, unidade econômica, casa de um senhor só que manda e desmanda. O que não quer dizer que não haja matizes ou que não haja resistências ali ou acolá, mas o grosso do sistema é isso.


A Nova República é feita do grande capital -- nas suas cisões e seções, a grande indústria, os bancos, o agronegócio --, mas também das grandes estruturas do Trabalho como as centrais sindicais -- e também de poupudos fundos de pensão que gravitam em torno delas, hoje mais importantes do eventuais bases de trabalhadores. Isso tensionado com uma organização do trabalho que se modificou duramente nos últimos anos, assumindo a forma de redes resistentes e exigentes. Um novo trabalho no qual temos uma multidão no lugar do proletariado industrial e, também, a metrópole no lugar da fábrica.

Nesse mundo, os arranjos políticos fracos e personalistas fazem com que a morte de um único ser humano operem mudanças. Candidatos, infelizmente, podem morrer durante o intercurso de uma campanha eleitoral, mas aqui eles não têm instituições partidárias sólidas para impedir que isso signifique, muitas vezes, a morte de um projeto ou sua transformação. Ainda que os limites demandados e impostos pelo mesmo sistema sejam cada vez mais estreitos -- e reativos a transgressões e ultrapassagens. Não existe "acaso", mas os efeitos necessários das possibilidades óbvias. 

Que deseja Marina, afinal? Certamente a manutenção sofisticada desse mesmo sistema, mas com a mera gestão, e não a governança, da "economia", preservada como uma reserva natural, uma vez que o estágio atual não admite qualquer eficácia em uma "intervenção" qualquer naquela esfera -- que deve ser, portanto, administrada por seus técnicos, como um André Lara Resende; por outro lado, a "superestrutura" se torna espaço de composição, a única área de atuação possível de um futuro governo. Há um certo ideário marxista de formação bem longínquo que, no entanto, cede lugar à democracia liberal como forma acabada, resultando na produção do sujeito do multicultural, de diferenças diluídas por um sistema universal.

Não é um projeto que deixe de ser reformista, mas não o é, em si, forte para se sustentar enquanto tal, para não capitular às linhas fracas de sua própria composição como às pulsões suicidas inerentes ao neomalthusianismo de ocasião -- que põe no consumo, por parte dos pobres, e não na superprodução, para a especulação, os efeitos da devastação ambiental -- ou a outras tendências apocalípticas ou catastrofistas podem ser muito bem apropriadas pelas elites. Quando a crise ambiental é pensada a partir do fim do mundo, ajuste por recessão ao sabor do mercado financeiro -- que, no Brasil, é uma máquina completamente anômica -- e santuarismo podem sim andar de mãos juntas. 

Marina não é menos economicista do que Dilma, apenas faz opções diferentes para a economia,  nem Dilma é menos "superestruturalista" ao fazer exatamente o inverso dentro do mesmo, isto é, governar a "economia" enquanto trata como penduricalhos -- rifáveis, inclusive -- tudo que estaria posicionado como exterior à esfera econômica.   Os costumes brasileiros, pensa Dilma, são assim mesmo pelo "estágio" da nossa civilização, portanto, é preciso trabalhar a partir de largos consensos mesmo que, por vezes, isso exponha as minorias, enquanto o desenvolvimento econômico ainda não dá conta de produzir o salto necessário. Em ambos os casos, é um pouco de um marxismo formalista e positivista de formação, que cinde "economia" das "outras coisas" e, nesse binarismo, faz opções de como articula-las.

Marina, aliás, pensa o mesmo da economia, do neoliberalismo, pois este só seria superado com o salto dado a partir da cultura, da formação de uma nova subjetividade, o qual não seria propriamente um cidadão emancipado, mas enquadrado em um regime de "tolerância" e "diversidade", enquanto temas sensíveis aos direitos civis seriam deliberados por plebiscitos como nos casos do aborto ou da descriminalização do uso da maconha. Mas se num libelo de tolerância Marina diz que o problema não é que um Feliciano seja evangélico, mas sim intolerante com os direitos humanos, o que é correto, por outro lado equipara uma  "cristofobia" à "homofobia" -- como se os homossexuais estivessem ou pudessem estar aí atacando cristãos (?!). Se não há uma formulação que determine o que é a parte majoritária ou minoritária da relação de poder, nos pegamos no mínimo diante de uma situação potencialmente perigosa.

Fato incontestável é que agora as eleições começaram. Porque Marina tem por trás de si, à base da nova economia ambiental e do setor financeiro, um bloco de poder que se usa, e é usado, por seu programa reformista, pareando-a com Aécio e Dilma, que como representantes de PSDB e PT já tinham essas condições há muito tempo. Curioso notar que venceria quem se aproximasse realmente, de corpo e alma, do continente desconhecido da nova composição de classe brasileira, mas a ordem é governa-lo e contê-lo, não se agenciar com ele. O desarranjo provocado pela entrada de Marina no jogo apenas cria uma tensão nas alturas, mas está longe de marcar um fluxo constituinte que faça nosso sistema sair da mesmice.  


domingo, 15 de abril de 2012

A Crise na Indústria

A cena clássica de Tempos Modernos
Um tema recorrente, levantado como objeção frequente ao projeto petista, é a dita crise na indústria brasileira, o fantasma da "desindustrialização" levantado de Serra a Plínio na última campanha eleitoral e, agora, reverberada em recente artigo de Marina Silva para a Folha. Há muitas lendas sobre a questão e pouca profundidade nessas análises, até pelas necessidades imediatistas da política partidária e da mídia - o que, a bem da verdade, não diferem mais tanto assim.

Em um primeiro momento,  a questão industrial brasileira não é um problema exclusivamente macroeconômico e atual, mas parte relevante da nossa problemática histórica. Vejamos, o Brasil se industrializa tarde demais, depois dos esforços homéricos de Mauá contra toda uma legião de obscurantistas, uma República Velha inteira privilegiando os interesses de cafeicultores em detrimento de todos os demais setores e, só nos anos 30, há algum oxigênio.

A radicalização do processo de industrialização em Vargas é a combinação de várias coisas: a doutrina de gestão estatal direta e total somada, ao sabor da época, à construção de um mercado interno para substituir um mundo que ruía por conta da crise de 29. É também o início do casamento entre o capitão-da-indústria do Sul Maravilha com o Coronel do Norte, o segundo enviando mão-de-obra barata para se aliviar da pressão por reforma agrária, o segundo abrindo os braços.

O desenvolvimento no pós-guerra encontra algumas chaves, a primeira é a entrada forçada do capital internacional depois da morte de Vargas - em um processo conexo -, o modelo carrocêntrico de JK - que é fator determinante para o escoamento da produção e, ao mesmo tempo, para determinar a própria dinâmica de produção - e, como fecho, a organização corporativista encabeçada pela Ditadura em articulação com a FIESP, a modernização do sistema financeiro com a instituição do BACEN entre outras coisas.

O tripé capital estatal/capital nacional/capital estrangeiro, a política de Estado nacional-desenvolvimentista e tudo mais fale em um determinado momento: para além dos boicotes estrangeiros para o desenvolvimento de uma indústria de ponta no Brasil, o fato é que aquilo que sai de todo esse processo é um indústria ineficiente, dependente da tutela estatal - e do constante financiamento - pouco competitiva.

O dilema dos anos 90 para cá é o que fazer com a indústria. Collor e FHC preferiram abrir a economia, dar um choque de mercado fazendo-as competir com a indústria internacional - muito mais eficiente e, ainda, gozando de condições macroeconômicas mais vantajosas - para produzir uma seleção natural. O impacto geral foi a modernização do grande capital industrial, em geral o multi ou transnacional, o colapso da pequena indústria, uma maré de desemprego que pôs em xeque o mercado interno já atrofiado. Controle de preços a um custo alto.

A eleição de Lula em 2002 é retrato da insatisfação desses setores - representados, aliás, pelo então vice-presidente José Alencar. E é o nascimento do social-desenvolvimentismo lulista que ganha sua face mais hardcore, agora, com Dilma: a volta do Estado ao planejamento, ainda que longe de uma participação direta. Se o primeiro momento é de uma alavancagem, o segundo, com a manutenção do Real propositalmente valorizado, é da perda da importância relativa da indústria.


O fato é que existe de um lado uma demanda não só por mais e melhores produtos como, também, por preços equilibrados no mercado interno - o que nem sempre a indústria nacional deu conta, diga-se. Por outro lado, é necessário manter empregos e renda, não é possível desmobilizar a indústria nacional ou a expor como feito nos anos 90, de Collor a FHC.


O governo petista conseguiu um equilíbrio grande nisso, ainda que surjam n problemas. Foi beneficiado, inclusive, pelo boom do setor de serviços - o que é uma tendência real e presente da economia capitalista - e da agricultura - em termos não muito satisfatórios em termos da organização do trabalho nas zonas agrícolas, mas que representou equilíbrio dos preços de produtos alimentícios e, ainda, gerou saldo positivo na balança comercial.


A indústria, nesse sentido, perdeu espaço relativo de forma indolor porque os preços estão estáveis e o desemprego está baixo. O maior problema dela é, hoje, sua ineficiência em gasto de energia e toda problemática que envolve o modelo de transporte da produção - que  importa em produção de transporte também. 


Não é um fenômeno exclusivamente brasileiro, diga-se de passagem, essa tendência - com a indústria chinesa recepcionando fábricas de todas as bandeiras e marcas - é global. A corda da superprodução - cuja origem é a criação de demandas socialmente inúteis - em escala global, é claro, passa pelo esgotamento ambiental e social, principalmente por parte da indústria.


Uma problemática posta nos termos de "recuperemos a indústria nacional" é balela. É preciso reinventar a indústria no Brasil, não aumentar a importância relativa de sua (super)produção em relação à (super)produção geral da nação. Se os planos de recuperação da indústria do governo atual parecem farsescos - e em certa medida demagógicos - sua macroeconomia tem sido sábia, embora falte muito para se conseguir praticar a reinvenção industrial que precisamos. No entanto, uma oposição que discursa - pela falta de discurso - sobre "desindustrialização" está, na verdade, sem discurso.  


P.S.: este post marca a saída do blog do breve sabático dos últimos dias, causado tanto por falta de tempo quanto por falta de inspiração.




domingo, 20 de fevereiro de 2011

O Verdismo e o Nosso Tempo

As Flores de Bazarov -- retirado daqui
A Crise Econômica Mundial, ainda em curso, é um dos processos mais intrigantes da História: Embora ela tenha provocado um tremendo alarde quando se iniciou, logo veio o silêncio - e não arrisco em dizer que mais se cala do que se fala seja sobre seus efeitos, imaginem só sobre suas causas. Sim, porque ela não significa apenas um abalo no edifício das verdades majoritárias como também balançou as certezas, por assim dizer, "contra-hegemônicas". O fato é que o consenso imperante caiu por terra sem, no entanto, nada - de melhor ou pior - surgir em seu lugar, o que gera um quadro de apreensão e ansiedade. De onde estamos saindo, onde poderemos chegar? A pax americana acabou tão rápido quanto começou e não sabemos para onde vamos; a nau bateu nos rochedos, os que não se foram na desdita estão agarrados em suas tábuas de salvação - e há quem relute em aceitar que elas são apenas e tão somente isso: Uma pequena chance de chegar à terra firme.


No mundo rico, o que se vê na esteira da erosão do consenso político é a ascensão, quase que por inércia, da extrema-direita; o primeiro momento em que uma luz apareceu no fim do túnel nos últimos tempos foi agora, com a multidão de revoluções no mundo árabe, o que nos tirou de uma anestesia profunda cujos efeitos, quem sabe, possa ajudar a despertar os (antigos) países cêntricos do seu pesadelo. Claro, para além do esgotamento do modelo econômico, temos, também, uma crise ambiental que se opera de forma mais silenciosa ainda. Não, nós não estamos apenas às voltas com problemas nas vigas que sustentam a nossa Casa, mas também com um problema dentro dela mesma, em seu próprio ambiente. Mas não, também não se trata, frise-se, de dois problemas separados: As rachaduras na parede e as constantes confusões dentro da Casa se interrelacionam enquanto efeitos da atividade que é realizada ali dentro. Algo, em sua esquizofrenia, abala desde as estruturas da casa e, ao mesmo tempo, abala seu ambiente.


É um pouco do que fala Guy Debord em O Planeta Doente, artigo de 1971 publicado recentemente no Sopro. Em suma, ele fala do impacto da forma como os homens se organizam - não somente sobre a sua sociedade, mas também sobre aquilo que a sustenta, a saber, a própria natureza. Como anota Debord, o ambientalismo, já àquela época, estava na moda, mas é claro que os problemas ligados à poluição passavam bem longe de meras saídas administrativas, onde o Estado capitalista - ou sua tentativa de alternativa, os Estados socialistas burocráticos do Leste Europeu e da Ásia - mudariam isso ou aquilo e superariam o empecilho. É evidente que essa problemática passa por decisões políticas que tocam sim o cerne do sistema produtivo, sem concessões nem eufemismos. Discorde-se ou não de certos aspectos subsidiários da análise de Debord, o fato é que o desenrolar das coisas se deu na direção que ele anteviu. 


Àquela época, um novo grande consenso começa a ser edificado, ele considera sim os problemas ambientais, mas enquanto ameaça ao Capitalismo - ou melhor, à "Economia".  É também nos anos 70, um ano depois do artigo de Debord, que a ONU entra na parada com o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), mais uma das infernais boas intenções das Nações Unidas, cuja finalidade é resolver os problemas segundo as regras do velho universalismo. Isso também coincide com ano do nascimento do movimento verde na Austrália, o que se espalha pela Europa na mesma década e chega, nos anos 1980, ao Brasil. Ainda que o verdismo nasça com uma proposta libertária, ele se vê permanentemente rondado pelo espectro do ambientalismo conservador, teses de crescimento zero - o que favorecia, por óbvio, quem já é desenvolvido - e o mais roto neo-malthusianismo possível - e suas capciosas teses sobre o excesso de população.


No Brasil, o verdismo surge no Rio de Janeiro, tocado por militantes anti-Ditadura que encamparam a questão ambiental, normalmente posta de lado pela esquerda tradicional - campo político em relação ao qual também se afastavam pela sua oposição ao bolshevismo e suas variantes. Falo de gente como Sirkis, Minc, Gabeira e tantos outros. Muito do conteúdo esquerdista do partido se dilui com o tempo, seja pela maneira como ele se expande pelo país - o verdismo, por sua natureza, é um movimento aberto, o que o faz ter predominâncias variadas pelo mundo, o que se verifica na composição do partido no Brasil também - ou por não ter conseguido se colocar de maneira clara em relação à questão social, talvez do mesmo modo que a esquerda tradicional jamais tenha conseguido realmente encarar a questão ambiental frontalmente, como aborda Alexandre Nodari - o que, ressalto cá do meu lado, no Brasil possui um complicativo maior em relação à Europa, aqui, o elemento plebeu, da massa mestiça das periferias e do campo, não é das coisas mais fáceis de se decifrar, item em relação ao qual, sem dúvida, o PV brasileiro falhou.


O PV brasileiro segue um tanto erodido até que ocorre o ingresso de Marina Silva para disputar a Presidência, o que o coloca de novo nos holofotes, algo relevante depois dos anos 90 o ter condenado, aparentemente, a ser um pequeno - o que, no entanto, nem a votação gigantesca de Marina parece ter mudado. A questão é para onde esse verdismo vai ou pode ir, seja aqui ou no mundo. Neste exato momento, para muito além de um surrado Deep Ecology, ascende um verdismo de mercado que parece bastante sedutor agora, onde falar em "economia criativa" e numa saída clean para as contradições sociais - se é que elas vão ser levadas em consideração. O que nos resta? Mercadificar a temática ambiental e construir todo um circuito de consumo de bens ecologicamente corretos, instituindo, quem sabe, todo um sistema complexo e eficiente de trocas de créditos de carbono? Levando em consideração que a atual Crise Econômica, longe de ser um mera sazonalidade - antes de mais nada, ela é efeito de um problema agudo na própria realização do valor -, vemos que o buraco é mais embaixo, por mais que isso nos ajude a lidar com nossas culpas, isso não parece ajudar a fazer muito mais do que isso.


De fato, cá ficamos com as linhas gerais do velho Debord, longe de ser ingênuo, a eficiência da produção administrada pelos próprios trabalhadores e o fim de uma perspectiva de ciência alienada são as únicas chances de enfrentar uma situação que, por sua vez, antes de ensejar um neo-malthusianismo, nos diz exatamente o contrário: Existem bocas de menos para o que se produz, se elas terminam mal-alimentadas é porque há algo de verdadeiramente perverso no sistema econômico, o que se torna problemático se essa produção excessiva, ainda por cima, oneram o meio-ambiente. Não será uma volta a uma espécie de essencialismo naturalista, um platonismo qualquer, que mudará isso, tampouco será a social-democracia aparentemente triunfante como via política que nos salvará; a ideia curiosa de um Estado que explora um sistema perverso, corrigindo suas falhas e se aproveitando da sua capacidade de produzir, além de não passar de um paliativo político-econômico, não será capaz de deglutir as toxinas produzidas por esse sistema que, por seu turno, envenenam aquilo que sustenta a própria vida.


São tempos interessantes esses, para além de uma crise no nosso modo de vida (uma crise econômica), se opera uma crise que põe em xeque nossa própria vida (uma crise ecológica). Cá no Brasil, o PT ainda é um raro exemplo de esquerda com pés na realidade social que o engendrou - ainda que tenha caminhado em uma direção ruim nos últimos anos, me parece a única alternativa relevante ao tecnocratismo kautskyano - e, talvez por isso, conseguiu mudar a ética de funcionamento do Estado tornando a garantia da vida de todos bem mais que um interesse refratário, mas precisará encarar com mais seriedade a questão ambiental - o que passa por mais coisas do que se pode supor.  Se, em um primeiro momento, seria ótimo que o PT unisse sua prática social-democrata a um ambientalismo decidido - assim como seria se Marina conseguisse dar um caráter social-democrata ao PV -, o desafio que está posto no horizonte é mais complicado do que isso: O único meio de salvar o meio-ambiente é traçando como fim para tal atividade a preservação da vida, o que não coincidirá com a preservação do Capitalismo. A dificuldade disso, diante da própria crise crônica no nosso sistema político, não é pequena, mas a boa luta nunca deve deixar de ser lutada.



sexta-feira, 6 de agosto de 2010

O Primeiro Debate Eleitoral

Ontem à noite, a TV Bandeirantes realizou e transmitiu o primeiro debate eleitoral da atual disputa pela Presidência da República. Basicamente, foram os três primeiros candidatos nas pesquisas e Plínio de Arruda Sampaio do PSOL - partido que detém representação no Senado e na Câmara. O ponto é que o modo como esses debates são feitos - e esse não foi exceção - é muito ruim. Primeiro, todos os candidatos deveriam ter o direito de participar - pouco importa se temos doze nove, não é justo excluir ninguém que seja candidato legítimo -, depois que o próprio formato, ao contrário de privilegiar o debate de ideias, trata-se sobretudo de um espetáculo midiático. Para além da forma, o debate em si também foi bem fraco. Como debatemos aqui, existe um esvaziamento discursivo cada vez maior nas democracias contemporâneas, no Brasil, isso não é diferente - e nem por isso deva ser visto como normal. Os debates retratam bastante essa faceta - e aqui não falo de retórica necessariamente, mas de capacidade e disposição de debater.


Do debate em si, Dilma e Serra adotaram estratégias conservadoras, demonstrando sua habitual postura - são políticos muito menos retóricos e muito mais realizadores -, Marina fez o mesmo e Plínio usou de sua excepcional capacidade retórica para tentar desfazer a vantagem que os três possuem sobre ele - utilizando-se bem bem do espaço que lhe é negado por quase toda mídia corporativa. Pela perspectiva do conteúdo, Dilma, que iniciou nervosa e foi se recuperando, tinha uma vantagem sobre os demais: Números concretos para afiançar o projeto. Isso não é uma vantagem pequena da candidata petista, ainda que se aponte para o fato dela não ser uma exímia retórica-, sua força discursiva está nos momentos em que se fixa nos dados e na questão administrativa, passando a imagem de precisão e segurança - o conteúdo é simples, o que deu certo, como deu certo e o quanto. Serra, por sua vez, também não é um retórico, assim como Dilma, ele tenta passar a imagem do político gerencial e eficiente, mas se lhe falta a capacidade argumentativa, também lhe falta capacidade administrativa, o que fica claro em contraste com uma administradora que lhe é bem superior - além de ter caído na mesma encruzilhada que Alckmin em 2006, não tendo coragem de defender o Governo FHC nem de ataca-lo, mostrando um desconforto que enfraquece o próprio partido. Marina, perdeu-se ao se colocar ao centro e perdeu uma bela oportunidade de dar um cara mais coerente à sua candidatura - não gosto de candidatos que entram em eleições para pautarem certos tópicos, por mais importantes que eles sejam, como foi Cristovam Buarque em 2006 e agora a própria Marina, não resta dúvida que questões como educação e meio-ambiente são fundamentais, mas o debate não pode se limitar a eles, sob pena de banaliza-los pela exaustão que ser bandeira única de algum candidato provoca. Plínio, por sua vez, falou bem, acertou em elevar o tom - algo necessário para a situação de sua campanha, ainda que tenha exagerado nas ironias em dados momentos - e conseguiu finalmente um espaço importante para pontuar o caráter de sua candidatura, mas em termos materiais encara a limitação de pautar seu posicionamento preocupado com a perfeição de princípios e fins, mas sem a mesma sofisticação na construção de meios práticos de intervenção política para realizar as metas - porque sua candidatura foi construída para pautar o debate eleitoral mais à esquerda, diante das limitações concretas na disputa pela hegemonia, ainda assim, o resultado seria mais efetivo se considerasse as dificuldades concretas de execução da execução do programa, o que resta, portanto, é algo conceitual demais e inalcançável para a massa.


Na prática, Dilma, que está disparando nas pesquisas, saiu incólume e sua trajetória de ascensão deve persistir - o teto para tanto, até agora, ninguém conseguiu sequer prever -, o que tornou o debate improdutivo para Serra - que também não se comprometeu, mas precisava simplesmente travar sua adversária para tirar algo de produtivo na noite de ontem, mas que topou com uma Dilma se saia bem na maior parte das confrontações diretas e quando se encontrava numa situação complicada, acabava sempre se saindo com comparações entre Governo Lula sobre o de FHC, o que normalmente favorece o primeiro. Marina perdeu uma bela oportunidade de dar um caráter mais propositivo à sua candidatura, enquanto Plínio fez o contrário e voltou a disputar o terceiro lugar - e é o único candidato que alterou sua situação (para melhor, no caso), em algum grau, pelo debate de ontem, os demais cumpriram tabela e suas candidaturas seguem a mesma curva em que se encontravam antes do embate, ou seja, bom para Dilma, ruim para Serra e Marina.


Atualização de sábado 07/08: Idelber Avelar fez uma breve análise do debate no site da Fórum e André Egg também escreveu a respeito no Amalgama.

sábado, 17 de julho de 2010

A Coragem de Cristina Kirchner e as Eleições do Brasil



A recente aprovação do matrimônio gay na Argentina, para além do tema central - o avanço dos direitos civis, em especial naquilo que concerne à relação dos homossexuais com a coletividade da qual fazem parte -, traz à baila também um séria de outras questões, de cunho geral, cujas implicações não são menos importantes. Um ponto que me chama, particularmente, a atenção diz respeito àquilo que concerne ao desenvolvimento de meios para o exercício do poder em uma "democracia representativa", cujo fim é a resposta de certas demandas essenciais, cuja necessidade embora evidente - e facilmente demonstrável à luz da razão - tem sua resolução prática bloqueada por fatores condicionantes ligados à ideologia dominante ou à própria cultura.

A indagação que eu me faço se funda no seguinte: Podemos saber e demonstrar racionalmente porque os gays devem poder casar se assim porque programas sociais devem ser executados para a realização da população, mas como construir, concretamente, os mecanismos para tanto, diante da frágil estrutura das sociedades contemporâneas, levando em consideração que qualquer movimento hoje - mais do que nunca - pode facilmente restar neutralizado por um teia social que é complexa como a trama de aranhas e, ao mesmo tempo, frágil como cristal. Essa indagação não concerne a como formular qualquer estratégia fundada, digamos, em uma espécie de consenso formal, vago e cândido - até porque não há simetria entre os atores -, mas sim como conduzir a confrontação dentro da conjuntura exposta - com as estruturas de poder, tal como dadas, enquanto elementos construíveis e transformáveis com a emancipação humana como meta e não como ideal.

Larguemos as abstrações e relacionemos isso com o Brasil contemporâneo - que se encontra, vejam só, às vésperas de suas eleições gerais. Assistimos sete anos de Governo de uma das mais relevantes agremiações de esquerda surgidas na América do Sul desde o último quarto de século, que termina com altos índices de aprovação e, agora, a ex-Ministra Dilma Rousseff concorre à Presidência pela situação contra adversários, cuja formação política se deu à esquerda no espectro político - e falo aqui de José Serra, Marina Silva e Plínio de Arruda Sampaio, o que muito embora isso não coincida com as posições atuais de todos eles. Os outros  oito anos anteriores foram de governo de um ex-professor de Sociologia - que embora restasse convertido ao credo mercadista, passava ao largo de ser um reacionário - ainda assim, restam inúmeros itens na agenda da Democracia brasileira no que concerne a resolução de certas demandas - seja pelo maquiavelismo do ex-professor, um cinismo político calculado, ou pelo reformismo fundado na lógica do distensionamento do ex-metalúrgico que ora nos preside.


Aparentemente, quando pensamos na política argentina à luz da lógica do possível que nos é vendida pelos dirigentes - com suas insígnias de ex-comunistas, ex-socialistas e que ainda ostentam a posição de democratas convictos e militantes -, não faz muito sentido as conquistas em determinadas áreas que o país vizinho teve, seja na área de mídia, de reforma material do judiciário local - com a indicação de juristas progressistas para sua suprema corte -, da política econômica - no enfrentamento direto da banca depois da quebra em 2001 - e agora com a lei que possibilitou o matrimônio gay. Evidentemente, a Argentina é um país menor e de certa forma menos complexo do que o Brasil, mas não resta dúvida que muito do que foi conquistado lá poderia tê-lo sido feito aqui; seja sob a égide do reformismo lampedeuziano dos tucanos ou, principalmente, o reformismo cauteloso porém obstinado dos petistas - se estivesse falando de futebol, diria retranqueiro, mas não cometerei tal impropriedade -, o desenvolvimento de certos instrumentos políticos para a concretização de certas metas - que são consensos civilizatórios - poderiam ter sido desenvolvidas de outra maneira.


Como já debati aqui, muitas vezes, a construção da realpolitik esbarra em um problema claro, que é a delimitação do que é o real, em outras palavras, do que é o possível - antes mesmo do reducionismo que essa espécie de política demanda que seja feito em relação à coletividade. Por exemplo, ontem, o Raphael Neves divulgou pelo seu twitter uma informação curiosa, do Clarín, sobre como se comportaram as bancadas do Senado Argentino durante a votação. Não, Cristina não tem maioria no Senado. De 72 cadeiras, Cristina tem 29, 9 são peronistas dissidentes - dentre eles o ex-Presidente Carlos Menem -, 18 são da tradicional União Cívica Radical e 16 senadores de outras agremiações - dentre eles Independentes e representantes locais. O que ela teve de empreender foi a aprovação de um lei que apesar de ser perfeitamente constitucional, mas altamente polêmica por se contrapor aos interesses da Igreja Católica - com cada vez menos praticantes, mas ainda com uma relevante influência nas estruturas políticas -, com o apoio de um pouco mais de metade das pessoas, segundo as pesquisas de opinião - o post de Ariel Palacios vale a penas ser lido - e, claro, a desvantagem de cadeiras na referida Casa Parlamentar. 


O modo como Cristina trabalhou por fora das insituições, no esfera de discussão pública, usando a visibilidade que seu cargo no executivo lhe dá para afiançar a proposta e como trabalhou dentro e fora de sua bancada foram fundamentais - o que, naturalmente, ainda encontrava o complicativo de que muitos dos seus senadores não iriam votar mesmo no Projeto de Lei. A ação foi bem articulada, pois se deu por fora e por dentro do Senado, se articulando junto aos movimentos de reivindicação e à multidão em geral. Quanto a hierarquia da Igreja se deu por conta, a aprovação seria inevitável, o que a fez reagir de maneira totalmente descontrolada, o que serviu ainda mais para enfraquecer sua posição. Quando até mesmo figuras como cardeal Bergloglio, segundo no último conclave, perde a compostura, tudo estava perdido.


No Brasil, no entanto, pouco se fala. A repercussão do acontecido na República vizinha fez com que o vice da Chapa de Dilma, Michel Temer, se dissesse favorável à União Civil entre pessoas do mesmo sexo, posicionamento no qual está acompanhado pela titular de sua chapa - o que não é a mesma coisa do que o matrimônio, digamos, é uma saída pelo meio - enquanto Marina Silva disse que o "casamento é um sacramento" - fazendo sua habitual confusão a respeito da laicidade do Estado ao olvidar que estamos falando do instituto civil do casamento, não de algum ritual religioso, mas aparentemente apoiando alguma espécie de saída como a União Civil. O católico Plínio de Arruda Sampaio já se mostrou favorável à liberação das drogas e da legalização do aborto, ainda que, no entanto, não saiba sua posição quanto às últimas notícias que vêm de Buenos Aires. De José Serra, candidato que apesar das origens está à direita do centro nessa campanha, desconheço o posicionamento.


Esses posicionamentos refletem bastante o que se pode esperar das principais forças políticas brasileiras. O PT prosseguirá pelos próximos anos seguindo a rígida estratégia político-institucional com uma proximidade junto aos movimentos sociais enquanto força subsidiária - em momento algum, o PT se afastou dos movimentos reivindicatórios, o que não quer dizer que os tenha mobilizado, a estratégia lulista se centra num caminhada por uma linha reta e tênue no extremo que separa o não agir extra-institucionalmente e o poder agir, o que serve para arrefecer ânimos reacionários de certos setores e, ao mesmo tempo, manter os movimentos sociais por perto com o aceno constante de poder mobiliza-los - com o socialismo enquanto ideal e não como meta, ainda que determinados pontos como Reforma Agrária, Democratização da Mídia ou a Reforma Política sejam itens que, como os próprios nomes sugerem, estão distantes de qualquer tópico revolucionário e se enquadram como demandas concernentes ao próprio processo civilizatório. Abrir mão disso enquanto meta seria abrir mão da própria identidade de partido à esquerda do centro, o que poderia fazer com que o Partido dos Trabalhadores acabasse engolido pelas transformações que ele próprio ajudou a construir no plano econômico, como a redução do exército de reserva e a redução severa da fome, o que em uma gradação considerável serviu para o avanço da emancipação humana no país.


Como coloca André Singer, se o PT, depois de ter dados importantes passos em reverter no plano econômico o declínio severo agudo dos anos 80 e 90 - e ter dado uma profunda contribuição para a democratização do país - não se voltar para a politização do sub-proletariado ascedente - embora eu discorde do termo "subproletariado" como já expus aqui, leiamos proletariado urbano estabelecido -, fatalmente verá as mudanças que ajudou a produzir o engolirem; essa hipótese faz sentido porque depois de ter alcançado determinadas conquistas, a tática anterior se esgota exigindo novos passos que se não forem dados fatalmente produzirão um retrocesso ou o surgimento de uma outra força capaz de catalisar essas forças - mesmo negando os méritos petistas na construção dela. Mesmo o não avanço na agenda das reformas citadas, demandas claras e urgentes, pode provocar o mesmo efeito. O exemplo que fica da Argentina é de que existe a possibilidade da efetividade de um discurso, cuja articulação não se restrinja à esfera institucional, como instrumento para a consecução de um fim que, por ora, demande a ratificação das institucionais. As possibilidades de atuação do PT junto à coletividade são, inclusive, maiores do que as do Partido Peronista. A questão é que não bastará a Dilma administrar o projeto que lhe foi legado, mas construir ou permitir que se construa uma renovação interna, o que é uma missão complexa.


Por outro lado, se o discurso - e a tática que lhe fundamenta - do PT corre por vias demasiadamente institucionais - buscando o aperfeiçoamento dos mecanismos de hegemonia nesse plano sem aprofundar-se para fora dele -, o PSOL erra ao passa demais por fora das instituições, insistindo, ainda, na disputa por espaços extra-institucionais já existentes - quando poderia também e prioritariamente buscar articular outros tantos setores, que restam desorganizados. Tal erro Psolista reside numa leitura equivocada da conjuntura atual, ignorando certas ferramentas existes, o que implica na impossibilidade prática de concretizar determinadas metas, com a redução dessas a meros ideais de forma involuntária. 


A candidatura verde de Marina Silva prossegue com os mesmo problemas de alguns meses atrás: A insistência em um discurso que substitui o republicanismo por certo moralismo cristão - o que serve, por convicção, de entrave para determinados avanços do mesmo modo que o faz o realismo eleitoral petista -  e o baixo grau de concretude e coesão do PV pelo país são temas pungentes. O programa econômico ecológico-liberal também esbarra num erro elementar entre causa e efeito na questão ambiental, estabelecendo-se como a tentativa esquizofrênica de resolver os problemas pela consequência e não pela causa. Serra, do seu lado, está enclausura num projeto hegemônico quase que pessoal no qual mesmo as (poucas) boas intenções da sua visão tecnocrática de mundo restam neutralizadas pelas alianças que teve que fazer.


O ponto é que se uma análise rápida do sistema político-partidário brasileiro leva ao pessimismo, o advento na Argentina no prova que, necessariamente, há saídas e o que está posto na política é mais móvel - ou se desmancha no ar mais fácil do que imaginamos - do que nos é feito pensar - sobretudo que a articulação dos meios práticos para tanto é uma atividade mais dura do que sua realização. Ademais, um ponto central nisso tudo é como muito a organização dos atores pode e deve passar por fora do sistema partidário, ainda que não deva despreza-lo; a construção de espaços públicos para ao compartilhamento do conhecimento, reflexão, discussão e intervenção na realidade, com as devidas salvaguardas para evitar seu aparelhamento, constituem caminhos interessantes, ainda que a indagação feita lá em cima permaneça em aberto. Na falta de uma praça pública, construamos várias e interliguemo-nas no futuro.





sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Marina Silva, A Crise no Senado e o pré-2010

O Governo Lula vai chegando ao seu fim e ano que vem teremos, tal como 2002, não haverá possibilidade de reeleição do mandatário do momento, o que acirra os ânimos de maneira acentuada. Em 1988 1989, venceu um Collor em cima do racha da esquerda e de uma campanha midiática infernal; seu governo naufragou rapidamente e ele se tornou bode expiatório geral da República; Itamar tapou o buraco e transformou FHC em ministro e fiador do pacto elitista pós-Collor, reaparecendo como candidato da continuidade em 1994, eleição da qual saiu vencedor com certa facilidade em cima do êxito inicial do Plano Real. Em 1998, FHC, devido à emenda da reeleição - que ele mesmo idealizou, conseguiu aprovação e se beneficiou - conseguiu a reeleição para dar sobrevida a um governo que se naquela altura já se encontrava em vias de paralisar, acabou travando tão logo e foi se arrastando como um morto-vivo até o final.

Por sua vez, a eleição de Lula em 2002 foi uma convergência de um quadro internacional favorável - como os EUA dando pouca atenção à América Latina -, uma razoável estabilidade institucional, o descontentamento dos setores moderados com os últimos anos do Governo FHC e a própria viagem do PT para a centro-esquerda - acabamos assistindo a uma convergência de um eleitorado que caminhou para a esquerda e de um partido que caminhou para a direita. O Governo Lula nasce trazendo a esperança de produzir mudanças inéditas na forma de se fazer política e de gerir a economia e ao longo dos últimos anos obteve vitórias importantes ao mesmo tempo em que foi desgastado pelos anos de Governo num sistema possuidor de defeitos crônicos.

O próprio Partido dos Trabalhadores sofreu baixas importantes. Não há como fugir da constatação paradoxal de que o tempo de Governo fez o PT amadurecer em relação ao que é a gestão do Estado brasileiro, também trouxe à tona - assim como agravou - vários problemas desta agremiação. O PT de hoje é um partido mais calejado para o exercício do poder do que era ao mesmo tempo em que teve seu potencial de modificação foi reduzido severamente. Sua problemática, no entanto, acaba nublada pelo fato de que o PSDB piorou mais ainda do que ele no mesmo período assim como partidos como PMDB e DEM prosseguem derrapando - e opções à esquerda como o PSOL pecam pela falta de organicidade e uma maior coesão em termos de projetos.

Dois pontos importantíssimos que tocam diretamente o PT ocorreram nos últimos dias: O primeiro é a saída da ex-Ministra do Meio-Ambiente Marina Silva da legenda - ela deverá ir para o PV, partido que propôs lança-la candidata à Presidência da República; o segundo é o desgaste provocado no partido pela crise no Senado.

Sobre o primeiro ponto, não podemos perder do nosso horizonte visual que a questão ambiental foi um dos calcanhares de Aquiles do PAC e isso gerou desgastes violentos entre a Ministra Dilma, futura candidata à presidência pelo PT. Marina, em vários momentos esteve certa e não foi ouvida - e é necessário sublinhar que foi a melhor Ministra do Meio-Ambiente da nossa história, tanto por ter feito um bom trabalho quanto por conta da base de comparação fraca, levando em consideração que essa pasta já foi ocupada por gente como Zeca Sarney, futuro correligionário de Marina no PV. Sua saída para o Partido Verde, no entanto, é um erro muito grave; o partido em questão tem caminhado cada vez mais para ser um apêndice de uma oposição que perdeu o rumo e muito provavelmente qualquer candidatura que saia do PV venha a ser uma mera candidatura-peão do PSDB/DEM no tabuleiro das próximas eleições. Ademais, o PV brasileiro nunca conseguiu construir uma posição suficientemente coesa e oferecer uma alternativa crível para o desenvolvimento sustentável. Portanto, uma eventual candidatura de Marina pelo partido só teria a utilidade de trazer o debate ambiental à baila, mas não teria viabilidade eleitoral assim como o PV no Governo não teria uma base suficientemente sólida para promover mudanças na área - até por suas próprias inconsistências internas. No fim das contas, seria um movimento que daria um valioso préstimo à candidatura de José Serra.

Quanto a Crise no Senado, primeiro temos mais um espetáculo de hipocrisia aguda da mídia corporativa quanto ao velho José Sarney que enquanto serviu certos interesses era santo, mas agora, depois de décadas de vida pública de repente se viu denunciado por quem sempre o apoiou. Obviamente, ele errou em muitas coisas na Presidência do Senado, cometendo desde nepotismo até praticando atos secretos - o que, no entanto, é um problema sistêmico, não surgiu agora e acontece num órgão cuja existência decorre da mímese de modelos estrangeiros, dado o fato de que o federalismo brasileiro girar em torno muito mais dos municípios do que dos estados. O PT errou em vários momentos na aliança com o político maranhense, ora radicado no Amapá, dando muito mais do que recebendo - como ficou patente na relação com o ex-Governador do Maranhão, Jackson Lago, bisonhamente cassado e renegado pelo Governador Federal desde os primeiros dias -, no entanto, no caso em tela, ele acabou sendo vítima do jogo eleitoreiro de uma oposição muito longe de ser insuspeita. A ordem que veio de cima era para a bancada petista no Senado defender Sarney e assim o foi, sob os protestos de um histriônico Mercadante - que renunciou à liderança do partido naquela Casa - e de um Flávio Arns - que saiu do partido tecendo loas para uma figura como Arthur Virgílio, o que é no mínimo curioso.

Teremos um ano interessante ano que vem, muito provavelmente com uma eleição extremamente suja e tensa.