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domingo, 6 de junho de 2010

Benjamin, a Europa e a Social-Democracia





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Os temas que as regras do claustro impunham à meditação dos monges tinham como função desviá-los do mundo e das suas pompas. Nossas reflexões partem de uma preocupação semelhante. Neste momento, em que os políticos nos quais os adversários do fascismo tinham depositado as suas esperanças jazem por terra e agravam sua derrota com a traição à sua própria causa, temos que arrancar a política das malhas do mundo profano, em que ela havia sido enredado por aqueles traidores. Nosso ponto de partida é a idéia de que a obtusa fé no progresso desses políticos, sua confiança no "apoio das massas" e, finalmente, sua subordinação servil a um aparelho incontrolável são três aspectos da mesma realidade. Estas reflexões tentam mostrar como é alto o preço que nossos hábitos mentais têm que pagar quando nos associamos a uma concepção da história que recusa toda cumplicidade com aquela à qual continuam aderindo esses políticos.


As teses sobre a História de Benjamin consistem em uma das críticas mais contundentes ao conceito de História linear e mecanicamente determinado, partilhado durante muito tempo no Ocidente, o que se materializa numa peculiar ideia de progresso. Sem entrar em pormenores da vasta e profunda obra desse ilustre mestre frankfurtiano - quer seja por uma questão de foco ou pelas limitações desse pobre mortal que vos escreve -, pegamos aqui um ponto específico e emblemático desse texto como mote de nossas reflexões, mais precisamente sua tese número X, que continua incrível - e tragicamente - atual. Analisemo-na pois, à luz do que se passa agorinha mesmo, no Velho Mundo - e não é porque se trata, por si só, da velha Europa, mas também e como isso implica nos nossos próprios destinos e de toda a humanidade.

A Europa, continente que desfilava, nos tempos da Guerra Fria, os chamados Estado de bem-estar social aos montes - usando a retórica do "nem comunismo, nem capitalismo" ou mesmo advogando uma espécie de "capitalismo civilizado" ou, simplesmente "sob controle"- encantava corações e mentes ao redor do planeta, inclusive na terra de Pindorama, em meio a sua potente inteligentsia. Era tudo bonito demais: A possibilidade de construção do socialismo pela "via pacífica", a existência de uma direita bonitinha que aderiu a um certo "pacto civilizatório" - a ponto de, deusmeu, dela ser até votável. 

Que dizer então do pós-Guerra Fria, quando a União Soviética, vítima de suas próprias maldades e o que resta é o projeto iluminado da Europa Ocidental que a tudo há de englobar, formando uma fraternidade de países civilizados e civilizadores, capazes até mesmo de superarem o incipiente atraso que eventualmente venham a existir nesse ou naquele rincão isolado. De repente socialismo torna-se um adorno intelectual - um ideal - e capitalismo se torna uma anomia controlável, um mal necessário.

As raízes de tal concepção repousam, é verdade, lá no século 19º. A somatória da aclamação da Ciência junto com uma concepção de História que aponta para o futuro, em suas mais variadas vertentes, como uma seta. Para além disso, resta o registro histórico da inversão dos pólos da social-democracia: Da intervenção subversiva do movimento proletário, na qual pelo uso de uma máscara burguesa qualquer - aqui, um partido -, se atuaria no palco do teatro onde se encenava a farsa da política burguesa para denuncia-la à plateia ignara e crente, viu-se a inversão de papéis, em um fenômeno metalinguístico único, onde o ator se torna a personagem e vice-versa; ao contrário da instrumentalização da ideologia como forma de destrui-la, os partidos social-democratas são instrumentalizados por ela e caem num casulo de auto-ilusão acomodação diante das benesses do poder, transformados pelo Estado que deveríam transformar e, por conseguinte, com seu poder de transformação anulado.

Um dos camaradas que, muito embora acusado pelos dedos indicadores da História como o responsável por tal desgraça, aparentemente apenas racionalizou tal fenômeno social e político - e falo aqui de um austríaco de nome confuso, talvez Kaustisko, Kakto ou Kautsky  -, ainda que o nosso Benjamin aponte para outro nome, o de um compatriota seu de nome Dietzgen. Acerta o mestre de Frankfurt ao determinar qual o ponto-chave desse processo - e aí voltamos à questão inicial, os equívocos políticos decorrentes de certa concepção de progresso técnico-científico, amparada, por sua vez, por aquele conceito de História ao qual ele crítica tão ferozmente.

O partido social-democrata torna-se não mais o elemento revolucionário, mas sim a mola-mestre de um processo dessa forma de desenvolvimento, condicionado, ainda, por processos eletivos. Não devemos olvidar, claro, como um certo Senhor Ulianov, de ascendência russa talvez, se apropriou do que tão bem escreveu o Senhor austríaco de nome estranho e construiu uma organização técnico-burocrática, uma corporação destinada a ser total, e, apesar do rompimento posterior, não deixou para trás nem a burocracia, nem a técnica, nem  a ideia peculiar de progresso, nem o hábito de agir em nome do povo - mesmo tendo lá suas dificuldades para falar com os muzhiks, letrado que era ele e seus amigos. Vem o Fascismo, construído sobre o mesmo conceito de história e a mesma ideia de progresso. A desgraça. A guerra. 

Finda a guerra e o que temos de um lado da Europa é a falsa subversão social-democrata na peça burguesa, enquanto do outro, o script do Senhor Ulianov, que deveria se estabelecer enquanto monólogo denunciador, acaba tendo sua execução terminada por seus continuadores, com assassinato dos demais atores, deixando a plateia perplexa, muito embora, por prudência e comedimento, ela tenha resolvido ficar em seus assentos. Se os líderes social-democratas ocidentais dizem controlar o capitalismo local, tarefa hercúlea facilitada pela redução do referido sistema econômico a um eufemismo, do outro lado do muro, os líderes comunistas do leste dizem ter posto termo a tal ignominioso sistema, apesar de não terem subvertido de modo decisivo a sociabilidade do capital - e nesse ponto, Benjamin, apesar de ter criticado linha por linha do tremendo equívoco que se cometeu no Leste, acaba não explicitando sua crítica como fez com o Oeste.

A Guerra Fria termina no momento em que o velho ator caduco, que monologava para uma teatro vazio, é retirado de cena - não por piedade, mas para inaugurar a nova peça, a farsa da nova Rússia, também conhecida pelas esquinas de Moscou como "A Origem da Desigualdade entre os Homens de J.J. Rosseau em versão New Wave". Aí voltamos a velha Europa Ocidental, o que se fez sob os auspícios da civilidade, das luzes e da boa razão durante meio século? Nada senão a intensificação do Capitalismo local, dirimindo contradições de classe por meio de uma conciliação cuja conta normalmente foi paga pelos pobres diabos do terceiro mundo - não, caro leitor, lobo não come lobo na Antuérpia, mas o mesmo não se pode dizer do que fazem no Congo os belgas. Não seria isso o Éden dos países de classe-média que os liberais nos esfregam na cara, apesar da vaguedad desse conceito? 

Não escapou aos tentáculos desse magnífico projeto, nem ao menos, os países periféricos de tal região, fagocitados e transformados em colônias de consumo as quais foi concedido farto crédito e, pasmem, uma moeda forte. Isso, até que o sonho acaba, quando os déficits nas contas correntes detonam o futuro de tais periféricos e, sob o risco de contaminação sistêmica, tal fenômenos faz com que o potente motor franco-germânico lhes culpe pela própria desgraça e lhes obriga a executar um duro programa de ajustes - ao interesses de tal magnífica força motriz, claro, impondo cortes de gastos públicos, desde salários de servidores até em programas sociais, em caráter de exceção, como forma de adequar as contas dos pobres diabos a uma política cambial comum e que sempre favoreceu aos países centrais, tudo isso sob os auspícios, reitero, da culpabilização das vítimas.

Eis que voltamos ao velho Benjamin e vemos, nesse trágico enredo - pela repetição, talvez farsesco - os três aspectos que formam a mesma realidade e ele denuncia "a obtusa fé no progresso desses políticos, sua confiança no 'apoio das massas' e, finalmente, sua subordinação servil a um aparelho incontrolável" - e como tema de fundo, a História em forma de seta justificando exceções, enquanto corretivos de rumo, em um caminho para se atingir o ideal. Advertência feita, façamos um novo corte: O presente latino-americano, seus governos democráticos e suas novas constituições provocando melhoras substanciais, diretas e imediatas na vida de seus cidadãos - trazendo, inclusive, a promoção da propriedade comunitária bem como belos artigos sobre a proteção ao meio-ambiente, medidas interesantes, muito embora não rompam com o capitalismo enquanto sistema produção. Há quem seja entusiasta desse fenômeno latino-americano, que sopesando virtudes e defeitos é mesmo positivo, mas não caímos na mesma falácia que, por comodismo ou incompetência, caiu o movimento emancipador na Europa.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

A Crise e a Grécia

A Crise Grega não é um mero acaso do destino. Nem fruto de um governo atrasado e corrupto. Trata-se de um reflexo dos erros gravissímos do projeto europeu conjugados com uma problemática particularmente grega, que serviu para agravar o quadro, mas certamente não provocou. Já dissertei aqui sobre a hipótese de como a implementação atabalhoada da moeda única no continente europeu estava destinado a provocar uma crise aguda nos países periféricos, o que, catalisado, pela crise mundial trouxe à baila alguns problemas latentes. A Grécia, apesar de toda sua história, é uma economia pequena, uma crise sua, isolada, não seria motivo para tanto pânico ou tamanha histeria, mobilização das principais economias e coisas do tipo. Ajudas financeiras por ajudar financeiras também não foram muita diferença no médio prazo se os rumos da União Europeia não forem corrigidos. O avanço de um direita pseudo-sofisticada pelo continente, que guarda muito bem no seu discurso bons toques de nacionalismo - e, por tabela, de xenofobia - numa estratégia bastante simples de promover ajustes duros aplelando para um binarismo amigo-inimigo, que uniria a nação, "num momento tão difícil de sacrifícios", enquanto a culpa é jogada na figura do Outro. A despeito de boas gambiarras e jeitinhos, nuvens negras pairam no horizonte europeu.

domingo, 7 de fevereiro de 2010

O Choque na Periferia da Europa

(Charge retirada daqui)

Há pouco menos de um ano, eu já debatia por aqui a situação econômica e política da Europa; ela não é nada boa e a crença de que alguns nutriam no colapso do Capitalismo de Estado à americana em detrimento de um Capitalismo de Estado à europeia era equivocado em virtude da própria dinâmica da atual Crise Mundial - em suma, do seu impacto real tanto sobre os EUA quanto sobre a UE. O caso da periferia europeia - isto é, Portugual, Irlanda, Espanha e Grécia - não é só da maior gravidade como também é revelador: O cerne da questão são os problemas contidos nas diretrizes básicas de como se deu o processo de integração europeu dos anos 80 para cá e não na "mudança nos padrões de consumo daqueles povos" como alguns analistas apregoam.

Desde o fim da Segunda Guerra Mundial, os Estados europeus superaram a destrutiva lógica de afirmação econômica por uma perspectiva nacional estrita, o que, no duro, foi a causa das duas guerras mundiais - ambas travadas em grande parte dentro do território daquele continente e que como consequência resultaram na perda do protagonismo geopolítico daqueles países. De tal forma, foi fundado um compromisso ético na direção de uma solidariedade não apenas política como também econômica entre os países da Europa Ocidental - e que como todo compromisso ético é, sobretudo, um exercício de utilitarismo a longo prazo do que idealismo bem-intencionado, como pensam alguns realistas vulgares. Para além da necessidade de evitar a guerra - entendida após o desastre da Guerra como uma verdadeira autofagia - também pesou a necessidade de aumentar a coesão diante do poderio econômico, político e bélico da União Soviética e o seu bloco de países no leste do continente.

O avanço do processo de integração foi progressivo apesar do ceticismo britânico; as grandes economias da Europa Ocidental se integravam cada vez mais como nos casos da antiga Alemanha Ocidental com a França, as economias do Benelux, Áustria e como um pouco de distância a Itália - que não obstante o seu atraso relativo às potências do continente, ainda demorou um pouco mais para se recuperar dos danos da Guerra. O desafio que se desenhava no horizonte nos anos 70 partia de duas constatações: (a) a manutenção do processo de integração dependia do esboço das linhas gerais de um projeto que conduzisse a uma moeda única para o bloco; (b) ainda existiam países pobres naquele lado do continente, todos muito pouco industrializados e passando por uma frase de transição quer seja de ditaduras (Portugal, Grécia e Espanha) ou da instabilidade causada por divisões internas (Irlanda e novamente Espanha).

Os dois processos, o da continuidade da integração dos países cêntricos do continente visando um moeda única e o de absorção dos países periféricos seguiu sincronicamente - e em um ritmo considerável -, tanto é que em 1999 entrou em circulação a moeda única, o Euro. É preciso notar que se o primeiro processo dependeu apenas de uma política estratégica, comercial e macroeconômica coordenada entre os principais países da região, o segundo se deu de uma maneira mais complexa: As grandes economias do continente passaram a reservar "fundos de equiparação" para os países mais pobres para que eles pudessem atingir um grau de desenvolvimento suficiente para a integração física e monetária com o resto da Europa - quase sempre num esquema de empréstimos a baixo custo e com pagamento a longo prazo, além de certos fundos humanitários e também a própria abertura comercial.

O apêndice que suturou neste exato momento, contudo, se liga ao defeito de origem do processo de absorção: A UE por ter decorrido em grande parte do processo de integração dos países periféricos da banda ocidental, mas eles se integraram na condição de periféricos - eis o ponto. Estamos falando de países que à época da implantação da moeda única ainda detinham PIB's per capta inferiores aos da média dos países cêntricos e o fato de compartilharem a mesma moeda com uma Alemanha, por exemplo, teve um impacto semelhante - ainda que numa gradação menor - do Brasil ter mantido sua moeda em paridade com o dólar americano; evidentemente, se aqui o descompasso entre assimetria produtiva e simetria monetária levou o país à bancarrota, na Europa a menor diferença produtiva entre os países da periferia e os países cêntricos assim como a existência de fundos continentais de contrapartida geraram um equilíbrio que, a priori, deu viabilidade ao projeto.

Dispondo de uma menor produção e um moeda forte - o que implica não apenas em poder de compra direto como também em juros mais baixos -, animados pelos ganhos reais de qualidade de vida devido os investimentos em saúde e educação - feitos pelos seus governos que tinham à mão as verbas europeias - e submetidos à intensa propaganda midiática, os cidadãos dos países periféricos da Europa ocidental se lançaram numa orgia de consumismo e endividamento que impactou diretamente em déficits na balança comercial dessas nações - favorecendo em um primeiro momento as economias cêntricas do continente por meio de exportações, mas num segundo momento criando problemas continentais, pois o desequilíbrio severo nas balança comercial dessas nações gera, por tabela, uma desarmonia severa nas suas contas correntes, o que não pode ser ajustado por meras medidas de equilíbrio e fiscal e, levando em consideração o fato de que tais países compartilham da mesma moeda que os demais, surge o risco de um desequilíbrio macroeconômico geral.

Essa relação país cêntrico exportador-financiador dos fundos europeus/país periférico importador-tomador de empréstimos estatais e privados se baseava em um equilíbrio extremamente tênue. A absorção de muitos dos países do antigo leste Europeu à UE, por si só, já resultou num impacto muito grande nisso, na medida em que o dinheiro dos países europeus centrais se pulverizava - e os próprios países cêntricos se viram incapazes de arcar com um novo processo de equiparação econômica em larga escala, pela própria dinâmica do capitalismo global e o seu impacto sobre suas economias. Por outro lado, tal dependência por parte dos periféricos colaborou para um processo de industrialização interno incapaz de suprir sua demanda de consumo interna por si só.

Um outro fator, não menos importante, foi a crise no dolár americano causada pelas intemperes na gestão daquele que é o subsistema central do capitalismo global: A valorização artificial do Euro jogou um peso grande demais sobre as costas de França e Alemanha bem como expôs a Itália - um país que nos anos 80 se encontrava num estágio intermediário entre as economias altamente desenvolvidas do continente e as periféricas que hoje se encontra numa sinuca de bico, por não ter conseguido se beneficiar do processo de integração europeu e não ter mecanismos cambiais para tentar se recuperar. Some isso ao efeito dominó provocado pelo aumento dos juros americano, o que expôs tanto as incongruências do sistema credíticio estadunidense quanto das demais bolha ao redor do mundo, em especial, as da periferia da Europa.

A recente pontada europeia é que não há condições da UE suportar um Euro tão valorizado sem que as economias não acusem algum sintoma - e o mercado reagiu com a desvalorização recente do Euro. Esse cabo de guerra entre Euro e Dolár apontam para o fato de que lá atrás, autoridades russas e chinesas tinham razão: O futuro próximo do Capitalismo Globo depende de um gerenciamento global, quem sabe até de uma base de trocas mundial.

A dimensão da gravidade do atual momento político-econômico do projeto europeu é enormíssima; a crise de sua periferia é um atestado do fracasso do projeto europeu e, ao mesmo tempo, uma demonstração que nem mesmo o Capitalismo fortemente regulamentado e articulado para além dos limites nacionais é incapaz de promover um estado de real equidade - na prática, os países Ibéricos, Grécia e Irlanda não se desenvolveram realmente, eles apenas se tornaram colônias de luxo, ou seja, mercados consumidores construídos com os excendentes das economias cêntricas do continente para servir ao desenvolvimento real das mesmas, mas sua manutenção, ainda assim, é artificial, pois estabeceu uma simetria macroecômica falsa entre aqueles países ao desconsiderar a necessidade de buscar uma equidade, quem sabe estabelcendo uma moeda de trocas continental como base apenas para as trocas internacionais, mas sem abolir as moedas nacionais que expressavam de certas maneira valores referentes às idiossincrasias econômicas locais  - em suma, o Euro engessou a Europa e criou uma anomalia nas periferias.

Se de um lado o saldo da Segunda Guerra aponta para a insustentabilidade de uma política nacionalista radical, o outro lado, o desastre do socialismo à soviética na Europa Oriental, mira na inviabilidade de um modelo que esmague a Política em prol de uma administração cientificista e alheia às demandas individuais - o que a torna alheia às próprias demandas coletivas ao não reconhecer um de seus aspectos fundamentais -; o fato é que hoje estamos na terceira margem do rio, descobrindo a inviabilidade do Capitalismo de Estado pós-nacional e social-redistributivo - que no fim das contas é incapaz de dirimir contradições, no máximo, capaz de escondê-las bem.

A solidariedade se mostra um beco sem saída, pois ela, juridicamente, significa a vinculação dos separados enquanto separados, portanto, não apenas não afasta as contradições como também as gera; é necessário retomar um pensamento de conjuntural-dedutivo, o que dentro de uma lógica capitalista é sempre muito complicado, pois sua essência se fundamenta no alheamento do todo. De qualquer modo, do contrário, nos aproximaremos de um momento limite - e na Europa isso é particularmente preocupante por conta da alta taxa de concentração demográfica conjugada com uma profunda pluralidade cultural. a conjuntura política europeia, no entanto, suscita qualquer coisa menos otimismo.

domingo, 27 de setembro de 2009

Eleições Portuguesas

(Out door de José Socrates, líder do PS, partido vencedor das últimas eleições)

Eleições em Portugal -

Com 99,6% das freguesias, digo, distritos eleitorais, apurados, o Partido Socialista venceu, mas ao contrário das 121 cadeiras conquistadas há quatro anos, eles devem ficar com apenas 96 em um parlamento com um total de 225 assentos - portanto, nada de maioria.

A direita com o CDS/PP surpreendeu e está fazendo 21 cadeiras enquanto o Bloco de Esquerda está fazendo 16 e a coalizão de comunistas e verdes está fazendo 15. Os social-democratas (os tucanos lusos) estão fazendo 78. Em suma a composição fica assim:

Direita 99 x 126 Esquerda

Como os comunistas portugueses não se bicam com os socialistas, é difícil que queiram integrar um novo governo Socrates, portanto, resta ao atual primeiro-ministro fazer um acordo com verdes e com o Bloco para poder governar - em suma, isso conterá os pendores mais centristas do PS e reforçará a posição da esquerda local que deverá contar com alguns ministérios.

Em suma, o espírito da Revolução dos Cravos se provou ainda forte e mesmo diante da Crise e da total inépcia de parte considerável do PS, o sistema português, em meio a todo esse caos, produziu uma solução à esquerda.

E, no fim das contas, Grândola Vila Morena cisma em continuar a tocar ao fundo - e viva a Zeca Afonso, Salgueiro Maia e aos Capitães de Abril!

Eleições na Europa _ Alemanha e Portugal

Segundo o boca-de-urna, a direita bateu a esquerda po 48,1 a 46,4 na Alemanha. Merkel vai precisar cooptar alguém da esquerda para governar - os verdes talvez, mas duro vai ser ela convencer eles da parada da energia nuclear, então, o que será? Novamente os social-democratas na coalizão governista?

Em além-mar, os socialistas devem continuar no poder, mas de 121 cadeiras das 230, devem ficar só com 87 (!) - ou seja, vão ter de fazer concessões para o Bloco de Esquerda e até para o PCP e os verdes - cara, só o PV do Brasil que é uma merda mesmo. Pelo menos isso vai fazer José Socrates baixar um pouco mais a bola, resta saber qual ala no PS vai sair mais derrotada, os trabalhistas de Socrates ou os social-democratas de verdade (se for o primeiro, a esquerda portuguesa saiu ganhando).

De um jeito ou de outro, a Crise Mundial produziu um fenômeno interessante, a dicotomia clássica entre centro-direita x centro-esquerda na Europa está abalada; agremiações da esquerda-esquerda ampliaram seus votos tanto na Alemanha (PV/DL) quanto em Portugal (PCP/PV e BE) enquanto os partidos centristas perderam massa muscular (CDUe SPD na Alemanha/ PS e PSD em Portugal); a diferença é que a gangorra desfavoreceu menos a centro-direita na Alemanha enquanto a centro-esquerda saiu menos prejudicada em Portugal.

Em suma, as graves tensões econômicas na Europa estão polarizando o debate político, o que respeitadas as regras do jogo, é interessante, afinal, o modorrento debate centrista que tem dominado a política daquele continente e confunde polêmica com ofensa causou estragos demais ao levar as coisas em banho-maria nos últimos tempos - o risco é isso descambar para o extremismo, o que, em se tratando de Europa, não é impossível.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Cunhal, Saramago e a Política de Portugal




Todas as vezes que eu leio O Caderno de Saramago, eu tenho uma sensação estranha. É mais ou menos como se você estivesse navegando pela blogosfera e topasse com o blog de um Dostoievsky ou de um Machado de Assis. Isso gera um estranhamento duplo: Em uma época tão distosa quanto a nossa, é surpreendente saber que ainda existem gênios como Saramago entre nós ao mesmo tempo em que é assustador para nós, blogonautas, que ele ainda escreva um blog. Pois bem, estava eu a ler esse estandarte da língua portuguesa quando me deparo com um post sobre Álvaro Cunhal. Escreveu Saramago:



"Não foi o santo que alguns louvavam nem o demónio que outros aborreciam, foi, ainda que não simplesmente, um homem. Chamou-se Álvaro Cunhal e o seu nome foi, durante anos, para muitos portugueses, sinónimo de uma certa esperança. Encarnou convicções a que guardou inabalável fidelidade, foi testemunha e agente dos tempos em que elas prosperaram, assistiu ao declínio dos conceitos, à dissolução dos juízos, à perversão das práticas."



Álvaro Cunhal, para quem não o conhece, foi um histórico militante comunista português. Participou da resistência ao Salazarismo além de ter sido homem de confiança de Moscou - não só em Portugal como na Europa Ocidental - nos anos 60 e 70. Foi romancista e pintor; assinava suas obras sob o pseudonimo de Manuel Tiago, o que foi revelado apenas em 1995, dez anos antes de sua morte. Viveu longa e intensamente, sendo um dos atores políticos mais importantes daquele país no século 20º. Muito do que Portugal é hoje, para o bem e para o mal, ou foi em virtude ou contra ele.

Falamos de um país com o qual temos inequívocos laços culturais e que viveu décadas sob a égide de um regime fascista, o Estado Novo, também conhecido como o Salazarismo. Ele nasce do caos em que se encontrava o decadente Portugal do início do século 20º e dá a cola administrativa que a burguesia local precisava para prolongar a vida do imperialismo do país. Também serviu para manter Portugal atrasado e isolado da Europa.

Frente a isso, os comunistas portugueses fizeram dura oposição e foram perseguidas. Cunhal chegou a estar preso várias vezes, chegando a protagonizar espisódio celébre denominado como a
Fuga de Peniche. Nunca se desgrudou de Moscou, muito pelo contrário. Diante do agravamento da crise portuguesa nos anos 60, quando a Guerra Colonial ceifava vidas e criava cisões irreconciliáveis nas Forças Armadas, o Estado Novo se via às portas da queda e o PCP de Cunhal era uma possibilidade concreta de vir a tomar o poder.

Ironia das ironias, é na esquerda que vai surgir a oposição ao PCP: É nos arrededores de Bonn, capital da antiga Alemanha Ocidental, em 19 de Abril de 73, que inúmeros intelectuais social-democratas, trabalhistas e trotskystas em exílio são reunidos sob as bençãos - e o financiamento - do SPD para fazer frente ao PCP numa realidade pós-salazarista.

A Revolução dos Cravos acontece em 25 de abril de 74 e a direita portuguesa é varrida; o sistema político partidário é reconstruído e nenhum partido se identifica como sendo coisa mais do que centro - mesmo o direitista CDS/PP se posicionava enquanto "centro". Estão organizados o PS, firmado no contexto já explicado, o PCP de Cunhal e no mês seguinte o curioso AD, doravante PSD - a social-democracia portuguesa que nasce dos corredores das Faculdade de Direito de Coimbra e Lisboa inspirada na Social-Democracia Alemã que estava no seu auge, olvidando-se de combinar com os alemães do SPD que criaram o PS e sempre o enxergaram como seu congênere em Lusitânia.

O PCP tem sua importância denunciando e combatendo tentativas contra-revolucionário ao mesmo tempo em que tenta trazer Portugal para a esfera do Socialismo Soviético - ao qual Cunhal, reitero, manteve fidelidade canina, mesmo na Primavera de Praga. No xadrez da Guerra Fria, claro, seria impossível imaginar um país socialista no extremo-oeste da Europa e a saída se dá pelo meio com o PS de
Mário Soares.

Cunhal e o seu PCP foram neutralizados. Portugal promulga a Constituição de 76, de inspiração Social-Democrata, e se torna República Parlamentarista. A debilidade decorrente do verdadeiro balaio de gatos em que se materializara o PS de Soares levam o partido a perder as eleições no início dos anos 80, dando oportunidade para o improvável PSD, que dentre os partidos assumidamente social-democratas no mundo, só encontra rival do mesmo nível no que toca o quesito esquizofrenia ideológica na figura do glorioso Partido da Social-Democracia Brasileira.

Os socialistas ainda voltam ao poder, mas fracassam e o PSD vence novamente se assumindo como defensor daquilo que é chamado como "Liberalismo Social". Dessa vitória decorre o mais longo Governo da história da III República Portuguesa, na figura do social-democrata Cavaco Silva, o que na prática coloca o PSD na centro-direita. Cavaco Silva dá a cola administrativa que o Governo nunca encontrou ao mesmo tempo em que se beneficiou duramente da entrada de Portugal na UE, alimentando-se politicamente do desenvolvimento social inercial que decorreu desse processo.

De lá pra cá, os portugueses assitem a uma alternância entre PS e PSD e atualmente se deparam com o Governo de
José Socrates, entusiasta das fileiras trabalhistas do PS, já no poder há cinco anos fazendo o estilo "terceira via" à la Blair, um centrismo onde a boa arrumação do topete conta mais do que qualquer outra coisa. Os socialistas dominam a cena política local, detendo 121 cadeiras das 230 da Assembleia Nacional. Enquanto isso, seus rivais encontram-se isolados na direita (com as 87 cadeiras do CDS/PP e do PSD) e na esquerda (as 22 cadeiras dos comunistas, dos verdes e do bloco de esquerda, que para variar não se entendem entre si) - isso na prática, em tese ninguém é direitista.O PCP - que tem como filiado mais ilustre o mesmo Saramago que deu início a essa divagação - concorreu em coligação com os verdes e teve 7,56% dos votos, fazendo 12 cadeiras.

O país vive num beco sem saída que se materializa numa economia travada, um modelo europeu esgotado, uma direita que apesar de pequena é barulhenta e agressiva. Na esquerda, de um lado, o socialismo à la URSS, que alimentou os sonhos do PCP durante anos, se foi (felizmente, como diria um certo Chomsky); do outro, a nova divisão internacional do trabalho pós-URSS matou muitas das ilusões social-democratas. Entre esses dois modelos, um fracassado e o outro às portas do fracasso, ronda o espectro do Fascismo, a noite das noites, o abismo gélido e escuro que encara toda a Europa nesse exato momento.

Dificilmente a resolução para esses problemas estará em Portugal, mas o país é, pelo menos, um exemplo emblemático do enigma que nós somos obrigados a resolver - sob pena de assistirmos a vida nesse mundo pequeno e azul ser devorada junto conosco.

terça-feira, 14 de julho de 2009

Giro Rápido por um Mundo em Crise

Em Honduras, os golpistas prosseguem no poder. O Direito, como o seu próprio nome sugere, é aquilo que é próprio daquilo que é reto, ou seja, aquilo que está alinhado com o ideal. Se há o ideal ou se existem vários ideais é um debate longo que atormenta o Homem há muito. O fato é que há uma determinada ordem em Honduras que ao ser ameaçada resultou no golpe, ou seja, na instalação da exceção para reconduzir o país àquilo que é considerado ideal por sua classe dominante e que, ao meu ver, passa longe de ser reto: É o permanente oblíquo ao qual também estamos submetidos. Bem se sabe que a exceção vira regra pela força normativa dos fatos; posse vira propriedade - e os desbravadores do oeste estadunidense hão de concordar comigo - e tirania vira governo legítimo - como tenta repetir a oligarquia hondurenha repetindo seus pares latino-americanos - pela impossibilidade das coisas voltarem ao status quo ante pelo passar do tempo. Ironicamente, ao se digitar "presidente interino de Honduras" no Google se faz descobertas interessantes sobre a cobertura dada pela mídia corporativa ao evento.

Mais do que expor as nossas fraturas ainda expostas a crise hondurenha expõe também as dos nossos ricos irmãos do norte, que tem em Obama o necessário negociador para alterar a estratégia americana, o homem a quem foi imputado o dever de ceder o menor número de anéis possíveis em troca dos dedos que estão sob pungente ameaça: Ao mesmo tempo em que ele condenou o golpe publicamente e depois interrompeu o envio de verbas para os gloriosos programas de cooperação com Honduras, sabe-se agora que
o embaixador americano em Tegucigalpa se reuniu com os conspiradores às vésperas do golpe, o que suscita sérias dúvidas acerca do que se passa nos corredores escuros de Washington e quais serão os rumos de sua política de exceção for export tão necessária para manter a estabilidade interna diante das contradições inerentes ao seu sistema. Até que ponto a CIA se autonomizou como deu a entender um maledicente Chávez?

Do outro lado do mundo, a situação no Xinjiang pemanece tensa; ela expõe tanto os impactos da crise na China quanto a sua própria fragilidade que mora justamente no fato de ser um país étnica e socialmente fragmentado. As elites do país, que concentraram a renda decorrente do boom econômico dos últimos trinta anos de forma brutal, se vê às voltas com a necessidade de ceder os anéis, mas nunca parece disposta a tanto. Por outro lado, o fato do primeiro-ministro turco ter apontado o dedo para os chineses denunciando um suposto genocídio
me parece um tanto irônico.

Na Europa, o centro-direitista polonês
Jerzy Buzek é o novo Presidente do Parlamento Europeu e o primeiro europeu oriental a ocupar o cargo. O Parlamento Europeu, por sua vez, criou uma comissão permanente para tratar da Crise Mundial - medida um tanto pirotécnica, afinal o problema econômico do continente é muito mais embaixo; um capitalismo que fracassou já no início do século 20º, duas guerras mundiais que eclodiram de seu interior, o fogo-fátuo da social-democracia, o socialismo centralista e sua inevitável queda, o desmonte da social-democracia com a globalização. É um esgotamento de modelos conjugado a um vazio criativo.



quarta-feira, 8 de julho de 2009

Nazismo e Stalinismo: A Falsa Simetria













Há poucos dias, a Assembleia Parlamentar da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa aprovou
uma resolução que equiparou o Stalisnimo ao Nazismo. Trata-se de um erro grave que parte de uma premissa falsa e, no fim das contas, apenas relativiza o que foi o Nazismo - coincidência ou não, num momento em que ocorre uma ascenção de movimentos de extrema-direita no continente europeu.

O Nazismo é uma ideologia que deve ser banida porque rompe com um patamar mínimo civilizatório conquistado no Iluminismo. Seu objetivo é chegar na Utopia eugênica - na verdade, uma terrível distopia -, onde um Estado tecnocrático comandado por humanos geneticamente superiores - entenda-se, germânicos - mantêm as demais etnias - "raças", na sua concepção - em estado de permanente escravidão, matando, à priori, os grupos irremediavelmente incompatíveis com esse projeto. O fim perseguido pelo Nazismo, portanto, já é um crime em si mesmo e qualquer meio que venha a se empregado para atingi-lo será invariável e igualmente iníquo - e o termo crime aqui está sendo empregado no sentido de atentado a princípio ético fundamental para a convivência humana, portanto, vai além da mera concepção juspositivista.

O Stalinismo por sua vez, mais do que o período da ditadura de Josef Stálin a frente da URSS equivale a um fenômeno social e político além de uma forma anômala de socialismo. Ele persegue a construção de uma sociedade comunista por meios essencialmente autoritários e burocráticos, onde uma elite instalada nos gabinetes administraria técnica e cientificamente um capitalismo in vitro de onde seria tirada a mais-valia necessária para realizar as revoluções tecnológicas que levariam à conquista do Comunismo. Como tal elite decidiria de modo "científico", suas deliberações seriam inquestionáveis do ponto de vista político e as discussões se dariam dentro do Partido Único que se confundiria com o próprio Estado e com o Monopólio Econômico. À priori, ninguém seria exterminado e todos estariam incluídos no projeto desde que não ousassem discordar das diretrizes do Partido.

Desde o momento em que o extermínio prévio de determinados grupos não é premissa do Stalinismo - na medida em que o uso de extrema violência física pelo Estado é hipótese para o descumprimento das diretrizes -, estamos diante de uma ideologia extremista, autoritária e inviável, mas que não rompe com os parâmetros éticos mínimos estabelecidos pela tradição iluminista - o da busca de um sociedade justa por meio da inclusão de todos.

Estabelecer uma analogia entre os dois movimentos por conta do
pacto Molotov-Ribbentrop é inteiramente falso. Acordos táticos de natureza dissuasória como esse eram feitos aos montes pelas potências da época. Na prática, o pacto em questão foi uma maneira que ambos encontraram para ganhar tempo diante da guerra iminente, um jogo onde uma parte tentou enganar a outra - e pelo resultado do conflito, sabemos quem enganou quem no final. Se isso for o suficiente para igualar as duas ideologias, então o parlamentarismo britânico e o republicanismo francês deveriam ser equiparados ao Nazismo também.

Mas a palavra-chave aqui é mesmo dissuasão; como lembrado no início do post, a Europa vive um momento preocupante. Quando se compara algum movimento com o Nazismo, se esconde uma perigosa ideia por detrás: A relativização do próprio Nazismo. É um raciocínio tortuoso, mas funciona assim: Se o Nazismo e o Stalinismo são mesma coisa, pode-se jogar o Nazismo na vala comum do (felizmente) finado Stalinismo e assim estar livre para criar uma nova forma de regime da extrema-direita, isento da reprovação ética prévia da sociedade e pronto para fazer o seu papel de - em meio ao vácuo intelectual, político e econômico da Europa contemporânea - achar os bodes expiatórios do momento e, numa jogada desesperada, salvar o capitalismo local.

É um momento político muito perigoso onde encontramos dois pontos interessantes e assustadores: O primeiro toca às direitas moderadas do pós-guerra, signatárias de algum compromisso social, pouco a pouco se desarticulam, pois suas políticas dependiam do apoio intensivo de Washington, algo impensável nos dias atuais seja pela queda na importância estratégica da Europa ou pela própria crise americana; o segundo diz respeito às esquerdas do continente, onde os social-democratas ignoraram os fatores materiais que eram as bases reais do welfare state e agora se veem perdidos, enquanto os comunistas caíram na cantilena do Stalinismo e há vinte anos se veem perdidos. É em meio a essa crise de Hegemonia, onde as esquerdas não conseguem atuar politicamente, que o capitalismo europeu começa a articular novas saídas para a sua sobrevivência e, não custa lembrar, elas não são nem um pouco bizarras.


P.S.: Há um artigo muito interessante de
Slavoj Zizek sobre a questão que foi publicada na edição nº 12 do Sopro.





sábado, 16 de maio de 2009

Brasileiro Não Desiste Nunca?

O Nassif publicou um post batendo no artigo de Clóvis Rossi da inefável Folha onde ele se presta a criticar a campanha do "sou brasileiro e não desisto nunca" usando como exemplo Ronaldo e o fato de seu filho estudar na Europa . Não sei o que é pior, essa propaganda populista do Governo, a crítica desqualificada de Rossi ou o post bobo do Nassif dizendo que Ronaldo não é exemplo porque "já não é mais brasileiro há muito tempo". Enfim, uma sequência de erros bisonhos. Pelo menos, há o que se aproveitar do Governo Lula ou do Nassif, mas do que o Rossi escreve - assim como 90% do que a Folha publica - é digno de desistência mesmo.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

35 anos da Revolução dos Cravos


"Há diversas modalidades de Estado: os estados socialistas, os estados corporativos e o estado a que isto chegou! Ora, nesta noite solene, vamos acabar com o estado a que chegámos. De maneira que quem quiser, vem comigo para Lisboa e acabamos com isto. Quem é voluntário sai e forma. Quem não quiser vir não é obrigado e fica aqui."
(Salgueiro Maia, Capitão de Abril).

Quase me ocorre uma falha imperdoável
: Por pouco me esqueço de registrar que hoje, 27 de Abril, comemora-se trinta e cinco da Revolução dos Cravos, evento histórico pelo qual foi posto abaixo a Ditadura Salazarista em Portugal. É verdade que Salazar já havia morrido anos antes, mas ele deixara seu inequívoco legado; um regime ditatorial fascista, uma guerra colonial interminável, infernal e implacável, uma metrópole empobrecida e emburrecida e, sobretudo, o isolamento português da Europa.

Foi nesse cenário árido e áspero que
foi se solidificando o núcleo duro do qual decorreria a Revolução. O país estava inquieto e esse desconforto aturdia os mais variados setores da sociedade - e ia para além dela, não olvidando que o Partido Socialista foi fundado na Alemanha, sob as bençãos do poderoso SPD, por inúmeros intelectuais exilados pelo regime no continente. Em Portugal por mais que seja relevante as ebulições entre os operários e nas universidades - principalmente nas Faculdades de Direito de Lisboa e Coimbra -, o setor chave foi o Exército, principalmente entre os capitães, muitos dos quais tinham conhecido o horror da Guerra Colonial nos anos anteriores. Foi o Movimento das Forças Armadas que encabeçou a conspiração e desencadeou o golpe que poria abaixo o Estado Novo depois da Grândola Vila Morena, senha nº2 da Revolução, ter sido tocada em rede nacional.

Os fascistas caíram, o país passou pelo duro processo revolucionário até a promulgação da Constituição Portuguesa de 1976, uma das Cartas
modernas mais belas. Portugal, a duras penas tornara-se uma Democracia e iniciaria, dali há poucos anos, o processo de integração à União Europeia, o que resultou nos anos 80 e 90 num processo que apesar de seus altos e baixos conduziu o país a uma melhora considerável na sua qualidade de vida.

O Portugal de hoje é, no entanto, um país com problemas. Haveria motivos
para se comemorar, ainda, a Revolução dos Cravos? Só um parvo ou um fascista diria que não, mas não resta dúvida que não há como fazê-lo sem ser criticamente; o governo liderado por José Sócrates do PS é mais um exemplo da esquerda estilo New Labour e isso não é nenhuma novidade, afinal, o ilustre premiê daquele país não esconde sua profunda admiração por uma figura como Blair. Por outro lado, o PSD, raro exemplo de agremiação social-democrata que só o é de nome - onde foi que já ouvimos isso antes? -, vive uma crise pesada. O país, pelo seu lado, está estagnado. Que dizer do futuro?

Atualizado
em 10 de Maio de 2009

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Futebol e Racismo na Europa

Há alguns dias, Michel Platini, ex-craque francês, carrasco brasileiro na Copa de 86 e atual presidente da UEFA, órgão que dirige o futebol europeu, fez uma proposta interessante: Paralisar por dez minutos as partidas em que alguma torcida proferir ofensas racistas de alguma natureza e só retoma-la quando a normalidade voltar ao estádio. A idealização dessa medida se dá em um momento em que a intolerância é cada vez mais presente no futebol europeu.

Curiosamente, o futebol europeu é uma verdadeira Babel; atuam nele jogadores latino-americanos, norte-americanos, africanos, asiáticos bem como os próprios europeus hoje, com o advento da União Europeia, atuam muitas vezes em algum outro país da comunidade continental que não o seu de origem. Como se não bastasse, toda uma geração de filhos de imigrantes já começa a despontar no futebol europeu enquanto nacionais; boa parte da Seleção Francesa é composta por negros, nascidos na África e criados na França ou mesmo já nascidos no país.

O que teria então a ver futebol europeu e racismo? Nada. O futebol, seja na Europa ou em qualquer outra parte do mundo, conserva um incontido caráter cosmopolita integrando negros, brancos e asiáticos. O fenômeno que se vê na Europa não é, de maneira alguma, futebolístico, mas sim social e político. Ele contamina os mais variados setores da população e, por óbvio, se adentra no meio futebolístico, esse inequívoco fenômeno de massas. Do mesmo modo em que a violência urbana se reflete no nosso futebol por meio da inflitração de gangues nas torcidas, o mesmo se dá na Europa com seus racistas.

Como esse blog já dissertou longamente há pouco tempo, a situação da Europa não é boa. O continente está estagnado economicamente, será um dos mais afetados pela Crise e o somatório disso com o esgotamento das forças políticas, à direita e à esquerda, gera um terrenos fértil para a intolerância e para a xenofobia. De Moscou até Lisboa, de Helsinki até Atenas, grupos neonazistas são formados por jovens que se reúnem para massacrar minorias - especialmente imigrantes. Mesmo dentre os setores médios da população, cresce um discurso fácil e demagógico onde imigrantes e minorias de um modo geral são apontadas como os culpadas pela situação do continente.

Nesse contexto, o futebol não pode nem deve se omitir. A UEFA, enquanto instituição máxima do futebol europeu, não pode se eximir de fazer o que puder contra isso. No entanto, não será a sua mui valorosa iniciativa, por si só, que mudará o panorama. Desse modo, que ela seja entendida - e tomada - como um pontapé inicial para poder virar esse jogo e que do conhecimento das limitações de seu poder surjam medidas práticas em parceria com os governos nacionais e com a UE.

quinta-feira, 16 de abril de 2009

A Europa e a Crise Mundial


Prosseguindo o tour que esse blog anda fazendo pelo mundo em Crise, abordo hoje como anda a situação da Europa em meio a tudo isso. Vale dizer de antemão que ela não é nada boa. Não que isso seja alguma novidade, afinal, assistimos nos últimos tempos uma economia europeia estagnada mesmo num período de certa prosperidade econômica, agora com essa situação nada favorável da economia global, o que se vê é o agravamento dessa situação.

Mais do que uma crise econômica, é uma crise no sistema político-partidário. Como coloquei num comentário meu para o blog do Nassif que ele acabou dando destaque, a situação transcende a problemática econômica e se conecta ao beco sem saída da política europeia nos últimos anos; na Europa Ocidental, isso se manifesta com o fracasso dos partidos democratas-cristãos e da direita democrática de um modo geral somado a fragmentação e a confusão mental e a paralisia que domina a esquerda por aquelas bandas - isso é extremamente perigoso na medida em que fortalece cada vez mais movimentos radicais de extrema-direita em todos os países da região.

Por outro lado, na Europa Oriental, o sistema político-partidário forjado após o socialismo parece insuficiente e incapaz de responder as demandas desse período atual; Líderes reacionários e nem sempre idôneos que ainda por cima se mostram pouco interessados em avançar com um projeto europeu - e que sempre serviram muito mais ao interesse americano do que o da UE - dominam a cena local. Na pós-URSS, como já adiantei por aqui, a situação chega a ser mais dramática: Governos pouco democráticos e entusiastas de um nacionalismo bem arcaico operam numa verdadeiro campo minado étnico em uma situação de crise bem aguda: A Rússia deve perder por volta de 5% do seu PIB ano que vem, a Ucrânia, por volta de 9%.

No que toca mais especificamente a UE, a falta de coesão desse verdadeiro leviatã que representa um PIB maior que o americano (com 21,7% da economia mundial contra 20,6% dos americanos) é nítida; a falta de capacidade do bloco em lançar mão de ações integradas para combater a crise - somada ao instinto suicida de pular do barco de alguns líderes eurocéticos - pode levar a uma queda ainda maior da importância relativa da Europa em relação ao mundo e até mesmo a consequências perigosas como não é incomum por ali, infelizmente.