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terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Dilma vai à Cuba

A visita de Dilma Rousseff à Cuba é polêmica líquida e certa - e o é porque, antes de mais nada, Cuba não é uma simples ilha, mas o terreno central da disputa política e ideológica na América Latina, o que faz sua influência nos rumos do continente ser fortíssima ao longo dos últimos cinquenta anos, para muito além de suas limitações todas. 

O imaginário em torno do modelo cubano influencia mais as economias da região do que sua economia poderia, diretamente, sonhar em fazer - assim como seu peso nas reformas sociais e democráticas pelo continente nos últimos anos, por sua vez, excede o que seu sistema consegue realmente produzir de bondades internamente.  

A Revolução de 1959, que derrubou o ditador Fulgêncio Batista - líder de mais um dos tantos regimes fascistas apoiados pelos Estados Unidos - foi um evento mágico, no sentido em que criou uma alternativa profunda: a partir dali, era possível conceber outro caminho para a América Latina que não a de ser colônia velada de Washington. 

Se você acha que o sistema cubano construído ali transformou a ilha em um paraíso ou em um inferno, pare de ler este post agora. Se você acha que os problemas que aquele país tem são causados unicamente pelo bloqueio americano ou só pelos problemas do sistema local, idem. O mundo não se divide entre o plano e o mercado, como, para o mal, a China prova, então sejamos não-idiotas. A História não é um filme de bang-bang.

O país Cuba, bastante real, possui um sistema que não deixa de ser uma variante do nosso - o que se chama de engenharia reversa; se a diferença entre o capitalismo o velho regime é que no primeiro você entra em todos os lugares que pode pagar - a rigor, você entra em tudo -, no segundo o acesso é condicionado ao seu status. E o socialismo tem um pouco de velho regime, embora se funde na garantia da vida para todos e não no fazer morrer, deixar viver.

Na Moscou socialista, só os autorizados podiam morar na cidade, embora seus preços fossem semelhantes aos de toda União Soviética. O bom funcionário público se frustrava com o sistema por ser proibido de se mudar para lá. Com o capitalismo, qualquer um que pudesse pagar, poderia ir para Moscou, seus preços cresceram e a barreira passou a ser econômica: o bom funcionário da empresa privada se frusta consigo mesmo.  

A impossibilidade do socialismo à moda soviética de construir acessos automáticos, mesmo que defeituosos, levam a uma constante de frustração e esgotamento generalizado, com eventuais rompantes de revoltas em relação as quais o sistema não tem condições de lidar senão por meio da polícia - o que em último caso, contradiz o princípio fundante do sistema. Esse é o problema do antigo bloco socialista e não deixa de ser o de Cuba também.

No mais, revoluções dependem da manutenção do seu espírito nômade: ela precisa ser exportada e não parar de correr em linha de fuga. Uma vez as circunstâncias, ou decisões políticas, façam com que ela fique presa a um território, ela se corrompe. Esse também é um problema de Cuba, mas não foi da França. Nesse sentido, a relação com o Brasil, e abertura de um para o outro, é fundamental para ambos - e não custa lembrar que o Brasil, como a maioria dos países capitalistas, ainda é pior para se viver do que Cuba e o capitalismo vai mal onde ele aparentemente ia bem.

Resta a grande questão: deveria Dilma usar da relação histórica entre PT e Cuba para exigir a libertação dos atuais presos políticos cubanos e, também, permitir a vinda de Yoani Sánchez ao Brasil conforme tem se esforçado o Senador Eduardo Suplicy? Sim e Raul Castro deveria exigir explicações sobre o Xingu e o Pinheirinho. Cordialmente, sem estardalhaços para não servir à propaganda ocidental. Não estou sendo irônico, estou sendo cínico mesmo: realmente gostaria que isso acontecesse. 

Gostei bastante do que Dilma disse em Cuba: o Brasil não pode usar os direitos humanos como "arma de interesse político e ideológico" e de que temos "telhado de vidro" no assunto. A indignação seletiva, como nós vemos na mídia brasileira, é o que pode haver de pior. Mas Dilma precisa se esforçar mais no plano interno, afinal, ela não é uma analista política e sim a Presidenta da República. 

Sobre a mídia corporativa que fica indignada com o que se passa em todo território cubano, exceto em Guantánamo, e insiste em encobrir o Pinheirinho, só o humor salva. 

Eu quero que ela interceda pelos nossos desabrigados políticos antes de mais nada e que, também, influencie nos bastidores as necessárias reformas cubanas - que precisam engendrar o novo e não passar por reformas "de mercado" que sempre resultam no mesmo salve-se quem puder [pagar].

Gosto da liberdade de ser idiota que existe no Brasil e gosto da liberdade de não ser abandonado para morrer que existe em Cuba. Espero que esse seja o principal intercâmbio entre os dois países.



segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Um Ano de Dilma

Kandinsky -- onde está a linha do horizonte?
Dilma Rousseff iniciou seu mandato com o duro desafio de substituir seu mentor, e grande fiador de sua eleição, Luis Inácio Lula da Silva, cujos índices de popularidade batiam na Lua quando deixou o poder. Dilma, um ano depois, possui aprovação recorde para um primeiro mandato presidencial, superando o próprio Lula. O governo Dilma tem o apoio de quase três quartos dos brasileiros - e ele ainda é considerado ótimo ou bom por mais da metade. Levando em consideração que ela foi eleita com uma votação inferior a Lula e FHC, é um fenômeno político interessante.

É verdade que Dilma tornou-se mandatária nas circunstâncias políticas e econômicas mais favoráveis desde sempre: ela sucede um governo muito bem avaliado, do qual fez parte, e foi eleita com as bençãos de seu antecessor. Seu primeiro ano, por se tratar de uma continuidade, foi mais simples do que o de seus antecessores, que assumiram em condições piores e precisando pôr em prática um projeto novo - normalmente com razão -, o que leva aos naturais choques que a materialização de projetos políticos causam.

Isso, no entanto, não significa que Dilma simplesmente manteve, ou que poderia ter mantido, inercialmente o governo Lula. Ela, naturalmente, imprime seu modo próprio de capitanear o projeto que herdou - e ajudou a desenvolver -, o que é perceptivelmente diferente do seu antecessor, inclusive pela formação política de cada um - ele, um sindicalista, ela uma ex-guerrilheira cujo papel na política partidária sempre foi eminentemente "técnico".

Não existe nela, como em Lula, uma flexibilidade negocial ao estilo do neosindicalismo e sua franca disposição de lidar com as diferenças, baseado em uma lógica de semelhanças, visando  à sua articulação: em seu lugar, entra uma crença na racionalidade do trato com a coisa pública, cuja administração demandaria certa coerência lógica materializada em procedimentos de validade universal e efetividade objetiva. Isto é, para Dilma, a administração, no limite, é exata, enquanto para Lula não - ou, pelo menos, não totalmente.

Dessa forma, em Lula, conviviam um Ministério da Fazenda neokeynesiano com um Banco Central neoclássico, uma Casa Civil desenvolvimentista com um Ministério do Meio-Ambiente  ambientalista. Na cabeça de Lula, sem precisar recorrer a muitas formulações filosóficas, todas essas razões podiam ser úteis e articuláveis entre si, enquanto para Dilma é necessário, como ela fez, uma racionalização, um enquadramento. Seja já na disposição inicial dos ministérios - seus ocupantes, sua relação entre si - e, depois, com sua lenta reforma ao longo do primeiro ano, na chamada faxina - sobre a qual falaremos mais adiante - até sua conclusão, agora, na reforma ministerial.

Nesse sentido, Dilma difere não apenas de Lula como da governança petista média, pois por mais que sindicalistas, católicos e socialistas (e o plural, no último caso, é dobrado, se aplicando à quantidade de sujeitos e de socialismos dentro do PT) discordem entre si, existe uma convergência no partido da estrela: gestão política do Estado. E o significado disso é claro,  um governo calcado não só na subordinação às demandas sociais como também construído de acordo pelo amplo debate, tendo em vista que não há certezas absolutas e caminhos únicos, mas uma constante escolha de alternativas.

Essa concepção do que fazer com a máquina estatal, certamente, é o opunha os dois grandes projetos de esquerda que disputavam a hegemonia daquele campo nos fins dos anos 80: o PDT de Leonel Brizola, o getulismo social e trabalhista tardio com uma herança positivista inconfessável, e o PT de Lula. A decisão sobre qual face a esquerda brasileira tomaria na democracia resolveu-se nas urnas, no pleito de 1989 com Lula indo ao 2º turno contra Collor, após bater Brizola - ano em que a própria Dilma pertencia aos quadros do PDT, coisa que iria se manter ainda por mais de dez anos, até sua filiação ao PT gaúcho.

Depois dos anos 80, vamos assistir a uma disputa parecida, embora em outros termos, na qual Lula enfrenta Geraldo Alckmin nas presidenciais de 2006: o argumento central do conservador Alckmin é de que a política não funcionava e o país precisava, pois, ser administrado gerencialmente, como uma empresa. Não que isso, no limite, não existisse também no PT, que sempre vislumbrou, ecoando um leninismo tardio, um dualismo no qual o "técnico" estaria subordinado ao político, causando uma clivagem no governar, entre o que está na esfera da necessidade de manutenção do Estado e o que está no campo de suas possibilidades. 

Cá do nosso lado, temos dúvidas, de fundo ontológico, sobre a validade dessa "técnica" e até que ponto não estaríamos falando de tipos diferentes de fazer política. Seja como for, o primeiro ano do governo Dilma, e possivelmente todo o resto, foi trespassado pela busca de uma coerência racional na organização dos ministérios e na relação com o Congresso, o que provocou atritos com a base aliada - embora o governo não tenha perdido nenhuma votação que desejasse realmente vencer.

Junto dessa virada, temos uma mudança de estratégia: a busca por distensão com setores que estiveram em lados opostos nos últimos anos. O governo buscou "normalizar" relações com a mídia corporativa, com FHC, com a oposição, sobretudo com a fabulosa articulação de Gilberto Kassab, que resultou na criação da quarta legenda do país, o PSD (nascido de uma debandada de parlamentares e lideranças do direitista DEM), nascido já com a vocação de negociar com o governo - isto é, fazer a velha política de permuta de cargos por votos no Congresso, algo interditado pela direção demista e seu canino oposicionismo. 

Existe, em consequência disso, surge um visível desconforto de vários setores petistas e de esquerda quanto ao governo Dilma, enquanto, paralelamente, ocorre a deserção de setores oposicionistas - parlamentares ou mesmo a base eleitoral. O governo Dilma, portanto, coloca-se rigorosamente ao centro do debate político com sua imagem de neutro, objetivo e técnico, mantendo o apoio dos trabalhadores e dos pobres, ao mesmo tempo em que traduz as demandas sociais no campo dos grandes números - sai a conferência e o debate público, já escassos no próprio governo Lula, e entra a estatística - voltado para políticas públicas. 

Das mudanças ministeriais, pelo menos as duas mais relevantes, a saída de Antônio Palocci da Casa Civil e de Nelson Jobim da Defesa são um caso à parte. O primeiro, entra na esfera das disputas internas que marcaram a campanha de Dilma em 2010 e era previsível, embora não tão precocemente. O segundo, conservador e ligado aos militares, era mantido por Lula como seu porta-voz, mas com pouco poder e com menos chances ainda de conquistar algo mais, ele se lançou numa guerra interna contra o governo, por dentro dele, até se chocar com Dilma de forma jocosa, em uma entrevista à revista Piauí, e terminar demitido.

As outras mudanças, aí, sim, entram no plano da chamada faxina. Ministros da base aliada sofreram denúncias pesadas na mídia e foram abandonados à própria sorte até deixarem o cargo junto ao seu staff. Em todas as situações, a imagem de Dilma passou incólume e os ministros tombados. Também não era segredo para ninguém o quanto Alfredo Nascimento (PR-AM) incomodava Dilma no Ministério dos Transportes, estratégico para o PAC e paralisado há tempos. O mesmo se pode dizer da Agricultura sob o comando de Wagner Rossi (PMDB-SP), aliado fraterno de Michel Temer, cuja queda enfraqueceu o vice-presidente - e embora Temer tenha mantido aquele ministério sob seu controle, é fato que perder um aliado como Rossi não foi pouca coisa.

Enquanto isso, uma reforma política propriamente dita não decolou. Uma comissão no Senado trabalhou em torno disso, já teve algo relatado pelo Henrique Fontana na Câmara, mas até agora nada saiu do lugar. Aliás, Dilma havia suscitado a ideia confusa de constituinte exclusiva, bola levantada também por Marina no debate do UOL, coisa que ela não levou adiante. A própria reforma que passa na Câmara já tem a marca evidente do PMDB, no que toca à reforma do sistema eleitoral - o "distritão misto" - e não sabemos até onde o PT se empenhará mesmo na busca do financiamento exclusivamente público de campanha - uma vez que não está longe de haver concordância entre a base aliada.


No campo da política econômica, o novo funcionamento da equipe, coordenado e unitário - com o fim do dualismo entre Fazenda e BC - foi testado. Em um primeiro momento, ele teve de lidar com o recuo dos instrumentos monetários e tributários de incentivo, mecanismo típico de governos que usam uma lógica contracíclica - isto é, economizar nas vacas magras para gastar nas crises -, mas foi pego no contrapé do movimento em W da crise mundial. Cenarização errada, mas que teve resposta rápida com redução dos juros, abaixo do que o mercado reivindicava em Setembro, mecanismos tributários de proteção da indústria nacional e incentivos ao crédito de pessoa física. O crescimento de 2011, mesmo assim, será menor do que o esperado.


Para 2012, o governo acena com mais mudanças. O já programado grande aumento do salário mínimo virá acompanhado de mais medidas de ampliação do mercado creditício, mais incentivos tributários e quetais. Típicas medidas neokeynesianas de fortalecimento do mercado interno, o que vai na contramão das políticas de resolução de crises por ajustes contra o Trabalho, visto na Europa de hoje - e que vai no sentido do que ainda enxerga o PSDB. O governo Dilma segue em uma direção franca e tradicionalmente welfarista, menos no sentido de dar uma vazão revolucionária à produtividade - como algumas experiências mais radicalizadas da social-democracia do pós-guerra até fizeram - e mais em organizar a sociedade em torno do Trabalho.


Nesse aspecto, impossível não conectar esse welfarismo com as políticas do Ministério da Cultura, alvo de críticas constantes e contundentes de ativistas da área, o que termina por ser potencializado pela torpeza da sua ocupante, Ana de Hollanda: política cultural voltada para a construção de uma indústria nacional, assentada na figura do "artista", e menos para políticas moleculares que se desdobravam por dentro sociedade, com inaugurado por Gilberto Gil - e continuada por Juca Ferreira, seu sucessor -, cuja atuação no MinC foi a grande surpresa positiva do governo Lula.


O mesmo pode-se dizer das grandes obras do governo, uma delas, o Plano Nacional de Banda Larga (PNBL) - que pode alcançar as mais diversas formatações, daí sua estruturação ser alvo de uma intensa disputa - e a usina hidrelétrica de Belo Monte - que era alvo de disputa dentro do governo Lula, mas com a ascensão de Dilma tornou-se sua cereja do bolo.


O primeiro, não saiu do papel sequer ainda, embora tenda a ter um modelo sob o controle e o agrado das empresas que controlam o setor telefônico - com valor barato, mas com uma qualidade que não ameaça seus planos de banda larga, como o Speedy da Telefonica -, o que consiste em um fiasco duplo do ministro Paulo Bernardo, seja projetivo ou de implementação do mesmo. A usina de Belo Monte, por sua vez, é alvo de controvérsias judiciais e de campanha popular contra ela. O ponto central das críticas ao projeto é o seu impacto sobre o Rio Xingu e, por tabela, sobre o Parque Nacional do Xingu onde vivem quase três dezenas de povos indígenas diferentes.


A questão da produção energética, aliás, perpassa a atuação de Dilma ao longo do governo Lula. Ela assumiu as Minas e Energia no auge do chamado Apagão - a crise energética, nascida no governo FHC, que ameaçava chegar ao ponto de racionamento de energia nos domicílios - e conseguiu articular saídas para o pior no curto prazo, ainda assim, como é público e notório, os custos com energia elétrica no Brasil são dos mais altos no mundo - onerando fortemente consumidores domésticos. Questões que se levantam em relação a Belo Monte são, precisamente, a própria eficiência da planta industrial que Dilma pretende expandir, mas é um debate que atravessa, fatalmente, o modelo de desenvolvimento - o que jamais poderia ser desvinculado da engenharia energética que lhe move, como colocado aqui há meses.


Também foi vista movimentação intensa nas pastas de Educação e Justiça, ambas chefiadas por notórias figuras da esquerda do PT. No MEC, Fernando Haddad, em seu último ano na chefia da pasta - ele se retira para se disputar a Prefeitura de São Paulo - tocou adiante o Plano Nacional de Educação, conseguiu negociar o aumento gradual de verbas para o setor e manteve o trabalho inercial de inclusão no ensino superior e de reestruturação das competências do ensino médio e fundamental. Na Justiça, José Eduardo Cardozo começou o ano acossado com pressão Planalto para demitir um secretário seu, Pedro Abramovay, por suas declarações sobre política criminal e a questão das drogas, depois, coordenou o processo de constituição da comissão da verdade, cujos trabalhos se iniciam este ano, em cima de críticas por sua limitações - em comparação aos vizinhos latino-americanos.


Do ponto de vista da política externa, Dilma adotou, com Antônio Patriota como chanceler, uma linha retórica low profile - em contraste com a retórica não-alinhada de Celso Amorim, ideólogo da política externa contemporânea e atual ministro da defesa -, mas depois de uma inflexão assumindo o discurso dos direitos humanos nos termos do Ocidente, voltou atrás e colocou-se na mesma posição de antes, alinhado com os Brics e o Sul. O processo de integração sul-americano segue em curso, o que combinado com a decadência americana, provoca um reviravolta mesmo em governos conservadores recém-eleitos, como o de Sebastían Piñera no Chile e o de Juan Manuel Santos na Colômbia - o que torna as posições de Serra em matéria de política externa incrivelmente anacrônicas.


Elas por elas, Dilma está em uma posição, hoje, confortável. O que não quer dizer que seja boa.  Ela já está diante de uma liberação intensa do potencial da massa pobre que, até outro dia, era posta em seu lugar, resignada e desautorizada a desejar; isso, agora lhe é favorável, mas certamente testará, tão logo, os limites da democracia representativa - o que ela espera conseguir evitar por meio da gestão pública "racional", do welfare (a articulação entre política encastelada no Estado, produção encapsulada nos moldes do trabalho empregado e vida normatizada pela família) e, é claro, do progresso. 



domingo, 13 de fevereiro de 2011

Uma Revolução de Multidões dentro de uma Multidão de Revoluções

Um ramalhete, não uma flor*
é o que está acontecendo agora no Egito e pode acontecer na Argélia, mas também no Iêmen ou, quem sabe, em mais lugares do mundo árabe. A onda começou na Tunísia, como anotamos, onde alguns ciberativistas fizeram multidão e o gesto de sacrifício do vendedor de rua Bouazizi - também enfatizado por Diego Viana no Amálgama -, ao pôr fogo no próprio corpo, trouxeram à tona a nudez do Regime, cuja consequência não foi apenas a queda do ditador - seguida da luta que agora se trava pela democratização -, mas também um efeito que ecoou pelos seus vizinhos árabes: Mais importante do que a mensagem dos tunisianos para seus vizinhos, de que a ditadura e a submissão ao imperialismo não são mais aceitáveis, é o sentimento que partiu da Tunísia que realmente conta; tanto o sacrifício de Bouazizi quanto a ação dos ciberativistas produziram uma faísca que restituiu parte da vida daquelas pessoas, o suficiente para aqueles tiranos perderem a capacidade de entristecerem seus súditos, o que, como Spinoza nos ensinou, é fatal. Os eventos em tela colocam em xeque a Filosofia da Consciência - mesmo a libertária - na qual estivemos embebidos durante tanto tempo; embora pobres, aqueles países não são os mais pobres - nem os mais desiguais - da África, tampouco o que deflagrou o processo foi alguma massiva campanha de esclarecimento popular - como se a opressão já não fosse sentida nos corpos -, o que muda aqui, reitero, é o desejo revolucionário e como ele foi despertado aqui.

Como sabemos desde Platão, a Política é uma técnica no sentido antigo da palavra, o que, trocando em miúdos, trata-se de uma espécie de intervenção criativa do homem no seu ambiente - cujo fim atende à sua sobrevivência imediata ou não - por meio da qual ele amplia sua própria força, realizando necessidades suas que, no entanto, sozinho ele não conseguiria. A Política permite que nosso corpo se articule com tantos outros corpos e crie um corpo maior no qual o individual e o coletivo são as suas duas dimensões; A multidão feita na Tunísia produziu uma vibração que pôs o corpo da Tunísia em contato com os demais corpos próximos, afetando-os inexoravelmente. Aquilo que era uma Revolução de multidões na Tunísia deveio uma Multidão de revoluções, onde corpos gigantescos - co-habitados por corpos humanos - estão em ebulição, é o "Nós somos Um" gritado por muçulmanos e cristãos, unidos, no Egito. A esse respeito, cabe um mea-culpa da nossa parte: Tratamos a Revolução Tunisiana, a princípio, como Revolução do Jasmim, um equívoco, sem dúvida; não é uma flor, mas sim um ramalhete - como era um ossário e não um osso aquilo Jung viu no sonho, embora Freud insistisse no contrário -, falemos, portanto, em Revolução dos Jasmins a partir de agora. Compreender a multiplicidade aqui e a articulação da parte com o todo, é fundamental

O desafio tunisiano não será nada pequeno; sobre isso é importante ler o belíssimo Carta a um Amigo Tunisiano, onde o filósofo italiano Antonio Negri escreve a um ex-aluno, relembrando as conversas que eles tiveram, há vinte anos, sobre o país natal do segundo, suas dificuldades, suas potencialidades e a tarefa enormíssima de democratizar a Tunísia que se impõe no aqui e agora. Todavia, existe um vento que sopra a favor dos tunisianos e que corresponde à ausência de organizações políticas que se assentam sobre o extremismo religioso e, por outro lado, a força das organizações de estudantes universitários e de trabalhadores, cuja participação nesse processo foi decisivo. É verdade que o ditador foi-se, mas a velha elite segue dentro e às voltas do Poder e é forte, não nos iludamos, mas é bastante positivo que as organizações que se insurgem contra a Ordem sejam como são - sim, o processo tunisiano demorará anos e não será feito apenas de vitórias, ainda mais dentro dessa conjuntura mundial, mas ele caminha bem. Isso é um pouco diferente do Egito, onde o movimento revolucionário local conseguiu expulsar o ditador Mubarak há dois dias, como noticiado neste blog, mas apesar da força dos manifestantes, a presença de organizações fundamentalistas - logo, reacionárias e meramente golpistas, que se aproveitam desse momento enquanto parasitas para se apoderarem do Poder -  consiste em um desafio extra para a Revolução em curso, seja porque isso é vendido enquanto fantasma fora do país ou porque é, de fato, problema objetivo para os libertários do Egito.

Cristãos protegem muçulmanos na ora da prece
Como anota Slavoj Zizek, em recente artigo no Guardian - cuja versão traduzida pode ser encontrada aqui no Diário Liberdade -, o caso egípcio não se compara ao caso iraniano de trinta anos atrás: Enquanto lá o levante tinha um caráter islâmico com a participação de forças laicas - não custa lembrar que em 1978, comunistas e nacionalistas laicos eram minoria frente aos setores puramente religiosos e nacionalistas islâmicos -, no Egito, assistimos a um levante laico com a participação de grupos islâmicos radicais - e a presença de cristãos protegendo muçulmanos enquanto eles rezam nos parece um argumento razoável nesse sentido. Ademais, o pensador esloveno acerta belas provocações na sua fala, a primeira sobre a intraquilidade dos conservadores ocidentais, os arautos da civilização, diante dos protestos é marcante. Cá da nossa parte, acompanhamos Zizek e ainda acrescentamos: A situação atual chega a ser um golpe mais contundente para neoconservadores - e mesmo liberais - do que a Crise Econômica Mundial na medida em que a derrubada  de líderes "do tipo monarca" - e não os párias que eles forjam por meio do grande Consenso - somada aos seu temor inescondível em relação às reivindicações econômicas concretas dos manifestações produzem, irremediavelmente, um impacto maior do que a falência de intrincados programas econômicos. 

Comemoração da denúncia de Mubarak - Pedro Ugarte
Os setores americanófilos, seja na civilização ou por aqui, deliram até uma participação americana no bom andamento da Revolução - como se não estivéssemos falando de um regime como o de Mubarak, sustentado há trinta anos por subsídios bilionários vindos de Washington - ou como se essas preocupações com os rumos da "democracia" fossem críveis, como se o Egito não fosse uma Ditadura (como Zizek acentua) e, ainda, como se não fosse ridículo usar a existência da Fraternidade Muçulmana enquanto fantasma como se, olhem só que ironia, os Estados Unidos jamais a tivessem financiado para combater o nacionalismo laico de Nasser. As únicas pessoas interessados em vender a Revolução Egípcia como uma nova Revolução Iraniana, salvo equívocos de compreensão, são o próprio regime iraniano tentando se legitimar e os setores hegemônicos do ocidente tentando deslegitima-lo. Por ora, as forças revolucionárias estão em vantagem e algo novo e bom está em curso, como nos lembra o nosso amigo Bruno Cava.



*imagem retirada daqui


Atualização das 19:58: Segundo nos informa Juan Cole por meio do seu blog, a Constituição Egípcia foi suspensa pela Junta Militar que neste exato momento governa o país. Um ponto fundamental para se compreender os próximos desdobramentos da Revolução Egípcia é manter os olhos nos militares do país: Poderosa instituição política, destino de boa parte dos bilhões de dólares dos subsídios americanos, as Forças Armadas do Egito não reprimiram com força os manifestantes, mantendo sua popularidade alta enquanto Mubarak desabava por si só. Isso não chega, ao nosso ver, a ser uma ditadura militar; um golpe militar propriamente dito aconteceria se Mubarak tivesse sido derrubado por uma intriga palaciana com o apoio dos militares locais, não por milhões de pessoas nas rua. A questão aqui é outra, se o processo revolucionário será abortado pelos militares envolvidos no comando do país ou se eles apenas assumiram o controle da máquina respeitando a vontade da multidão, enquanto eleições livres não ocorram. Portanto, esqueça os fantasmas, a instituição que pode sabotar a democratização do Egito é as Forças Armadas.


terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

A Posição do Brasil diante da Revolução Árabe

O Chanceler Patriota em Caracas/ Reuters
É certo que a cautela, em matéria de relações internacionais, é o seu princípio primeiro, mas isso não se confunde com omissão. A posição da diplomacia brasileira quanto à confusão no Mundo Árabe não é boa, ela é terrivelmente evasiva. Uma coisa é não interferir na política interna alheia, outra é silenciar diante do descalabro. É uma linha tênue, mas é preciso saber diferenciar as coisas. Não, antes que se diga, não há simetria alguma entre este momento com a questão do Irã, quando o Brasil se eximiu de tomar posição nos protestos que tomaram o país diante do fato de Mir Moussavi ater alegado que a vitória de seu rival, Mahmoud Ahmedinejad, tinha sido fraudulenta: Por mais provável que fosse aquela afirmação, como dizíamos à época por aqui, qualquer uma das variáveis não era boa, haja vista que qualquer um dos desdobramentos possíveis daquela situação não resultaria em uma democracia efetiva no Irã, sendo ambos favoráveis à Teocracia - uma aristocracia, na prática. Não havia motivo para tomar partido, ainda mais com Moussavi manipulando a seu favor interesses imperialistas do Ocidente. O momento atual é delicadíssimo, mas a eclosão das revoltas na Tunísia, cujo resultado foi a Revolução do Jasmim, surgiu de uma onda que é, frise-se, o maior movimento libertário e secular já visto no Mundo Árabe. O quadro atual naqueles países é de pobreza e opressão agudas, causadas por tiranias particularmente ineficientes e cruéis, todas a soldo do Ocidente, cujo destino é, cedo ou tarde, serem derrubadas por religiosos extremistas - os mesmo que se multiplicam a partir do messianismo religioso alimentado por aqueles mesmos regimes para, vejam só, pacificar as populações locais e não se confundem com a sociedade civil organizada nas ruas nesse momento. Grande parte do esquema europeu e, sobretudo, americano passam por aquelas ditaduras, fenômeno que se deve à incapacidade e covardia dos representantes do mundo civilizado em negociarem uma nova ordem mundial - o que fatalmente acontecerá, seja para melhor ou para pior -; falamos de um pilar de uma ordem que, a bem da verdade, não nos parece muito favorável, tampouco para o desenvolvimento da humanidade. Sim, o Brasil deve ser cauteloso, mas isso não se confunde com deixar de tomar posições mais claras e assertivas em apoio àqueles manifestantes que estão testemunhando com seus próprios corpos suas convicções libertárias.

Atualização das 00:03: Como o Guilhermé nos lembra lá embaixo, o Brasil recentemente reconheceu o Estado Palestino, um ato ímpar de grandeza e coragem que provocou um efeito dominó no continente - gerando reconhecimentos vários, inclusive do governado conservador do Chile -; não me venham dizer que isso não é uma declaração delicada, porque ela é - na mesma intensidade que é justa. Isso só torna mais incompreensível ainda uma posição mais clara no caso magrebino.

terça-feira, 27 de julho de 2010

A Economia Enquanto a Banda Passa

Neste exato momento, enquanto as atenções no Brasil se voltam para o debate eleitoral - ou isso que classificamos como tal -, a roda da economia continua a girar. Sim, a Crise Mundial segue. Seu movimento sinuoso é também singular. O movimento inicial, que veio à tona em 2008 era a concretização de uma tragédia anunciada, decorrência necessária da esquizofrenia das desregulamentação desvairada dos anos 80 e 90 e da irresponsabilidade americana durante os anos Bush. O aporte trilionário feito pelos Estados, refreou a crise - sem implicar em expropriações (pelo menos de parte) ou, ao menos, punição de executivos das grandes corporações. Por outro lado, políticas de contenção fiscal passaram a ser novamente defendidas, enquanto os atores políticos são incapazes - por uma série de motivos - de examinar a natureza dos gastos públicos, não distinguindo assim o joio do trigo, o que é fundamental para saber o que deve ser cortado e no que deve ser investido.


Confusões e hesitações como essas são normais em momentos nos quais a ordem dominante - por sinal, capitalista - se vê em xeque, suas válvulas de escape estão entupidas e não há para onde direcionar a pressão produzida. Algumas saídas são muito simples, mas ela se contrapõe a interesses de grupos - cuja influência na esfera política é certamente maior do que a produtividade econômica delas. É mais ou menos como a questão da indústria bélica americana, que necessita de guerras para funcionar, muito embora tais conflitos nem sempre tragam retorno para o sistema - muito pelo contrário, no atual momento. A ordem capitalista tem às mãos saídas que resultariam em seu próprio suicídio - o que em outra palavras, seria um suicídio inverso, pois tal sistema, em si, constitui-se em um Programa Suicida como bem anota Paulo Arantes -, o que está fora de cogitação, portanto, rumina-se saídas dentro do próprio sistema.


Caso retomemos o primeiro link, leremos o liberal Krugman falar na raridade de momentos como este, falando que embora recessões sejam normais, as depressões são fatos completamente excepcionais na "história econômica" - claro, na história capitalista. Certamente são essas depressões os momentos que devem ser chamados crises: O momento da decisão e da diferenciação, quando, diante de uma bifurcação, a Ordem precisa se reorganizar para voltar a responder à maior parte das demandas sem deixar de se auto-sustentar - ainda que possa, e até precise, fazer concessões para tanto -, o que nem sempre é instantâneo ou retíleneo. A pressão dos setores explorados constitui outra variante na planilha - especialmente caso se organizem, levando em consideração ainda o seu grau de consciência e compreensão conjuntural. Ordem capitalista, compreenda-se, nem sempre se confunde com o próprio Governo do Estado. 


O Brasil não está fora desse mundo. Em que pese ter saído mais rápido do momento incial da crise, ela descreveu uma curva. Ademais, temos alguns descompassos. Se por um lado, fizemos, ao longo do tempo, uma política inteligente de estabilidade fiscal desde o início do Governo Lula, com a adoção de superávits e de uma política contraciclíca, por outro, a regulagem da taxa de juros pelo Banco Central sempre esteve descalibrada ao longo dos últimos anos - ainda que no atual governo se pratique taxas menores do que no Governo FHC, não resta dúvida que seu valor excede o nível de aquecimento da economia - bem como a política cambial esteve à deriva. Se de um lado o crescimento aumentado pelas políticas do PAC - e depois o aporte bilionário junto ao setor produtivo durante a Crise - provocaram uma absorção dos impactos, do outro, a demora do BC em cortar as taxas de juros, oneraram a economia - pelo gasto que ela provoca e pela maneira como colabora para a valorização da moeda, o que de uma vez só, reduz o superávit comercial e aumenta o gasto público. Isso é péssimo. 


Primeiro, depois de uma retomada aguda do crescimento, vem uma desaceleração provocada pela nova oscilação do mercado externo. Para além do catastrofismo, essa matéria do Estadão, ilustra a situação de deterioração das contas externas - no entanto, ela simplesmente não explica de onde veio o gasto público. Parece que falamos de algo que surgiu do nada, citar que existem problemas é normal, afinal, a culpa é atribuída ao atual governo - no entanto, silencia-se a respeito desses fatores, pois eles favorecem precisamente alguns interesses que o referido jornal está junto. Um ponto lateral, mas de relevo foi, entretanto, surpreendentemente lembrado: O aumento agressivo das remessas das multinacionais para seus países-sede como forma de cobrir balanços. Isso, no entanto, nutre uma relação com o próprio valor do câmbio apreciado.


E política cambial é matéria de controvérsia na teoria econômica. Grosso modo, os defensores do dito "câmbio livre" partem do pressuposto que as interferências do Estado na cotação cambial - como no caso mais radical de fixação do valor da moeda nacional - provoca distorções, postulando que a função do câmbio é servir muito mais como um transmissor de informação para o Estado regular suas políticas econômicas em cima do valor dado - que seria a expressão real das necessidades econômicas. O câmbio flutuaria, portanto, naturalmente. Os opositores dessa tese afirmam que nunca haverá a expressão real dessas necessidades econômicas, pois a construção do dado cambial é uma decorrência da atuação de determinados agentes visando o estabelecimento do seu valor - ou produzindo efeitos sobre ele em decorrência de decisões suas -, deixado livre, o valor cambial poderia, portanto, ser facilmente distorcido por  certos agentes, o que pressupõe uma descrença na auto-regulação do mercado e a ideia da construção do dado cambial como forma de alavancagem do desenvolvimento. Se para os primeiros, ele é praticamente um indicador, para os segundos, ele se trata de um instrumento. Como a primeira hipótese pressupõe a neutralidade dos agentes no processo de construção do valor cambial, logo, tendo a discordar dela.


A divergência em tela, entretanto, passou batida porque momento da economia mundial produzia um efeito interessante, onde os liberais poderiam dizer que a estabilidade era fruto do equilíbrio natural produzido pelo câmbio livre enquanto seus variados opositores podiam dizer que a estabilidade era fruto do aquecimento do mercado mundial que mascarava os efeitos do câmbio valorizado. Os atuais movimento apontam para a segunda hipótese. Evidentemente, o câmbio livre sempre chega a um equilíbrio, mas esse ajuste por se dar por bem ou por mal: Todo avião que levanta voo, desce, não importa como, caindo ou pousando. Isso é o que está em questão aqui. Construir uma política cambial clara e por fim ao descompasso entre as necessárias políticas de aceleração de crescimento e a política monetária são itens urgentes ainda do atual governo - e do próximo. 


Por si só, não bastará, claro, o desenvolvimento econômico demanda aumento da gestão social do patrimônio econômico e uma ação propositiva acerca do impacto da produção sobre o equilíbrio do meio-ambiente - o que se encontra dentro de um agenda reformista, o que não é solução para o problema central, o que, até a criação de uma vontade organizada revolucionária de novo tipo, é o que nos resta, embora a primeira seja tática e a segunda dificilmente possa ser construída por dentro do Estado. Seja como for, a saída para o Capitalismo não é, certamente, o descapitalismo. Nesse sentido, a candidatura Serra vociferando contra o descompasso da política econômica soa estrepitosamente falso, seja porque não tenha força para empreender um tensionamento com o setor financeiro ou por suas declarações estabanadas acerca de política externa possam ter resultados econômicos negativos imediatamente. Isso não isenta Dilma de ir além do Governo Lula, o que será necessário não só na campanha como também em seu eventual Governo. A candidatura Marina se perde nas divagações liberais de sua equipe enquanto a de Plínio acerta na coisa, mas erra nas proporções e na velocidade por subestimar a complexidade do processo e das variáveis. Em suma, trata-se de uma questão que exige uma resposta no curto prazo dos candidatos e o PT prossegue menos distante nesse assunto.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Serra e as FARC

(Pára-militares Colombianos, provas-vivas de que o jogo é bem mais complexo do que Serra faz parecer)


Se existe uma coisa patente nesta campanha eleitoral é a quantidade de factóides produzidos por minuto. Impossível acompanhar todos, a menos que você esteja debruçado vinte e quatro horas sobre as eleições. Também não seria o caso de ficar jogando informação paranoicamente, essa não é proposta daqui d'O Descurvo - muito pelo contrário, o objetivo deste blog é matar a bola da overdose de informações no peito e cadenciar o jogo de forma racional. Em suma, a questão aqui é avaliar criticamente e sem sucumbir às exigências do "tempo". 

Para quem desconhece o termo, "factóide" é um suposto fato político, lançado no ar por algum candidato ou por um governante, que pode ser verdadeiro ou não - mas pela matéria que se trata ou pela pessoa a quem se refere, é possível, ainda que isso pouco importe, quem fala, não tem essa intenção. É difícil que algum adversário produza um factóide dizendo que Plínio de Arruda Sampaio recebe dinheiro de associações neonazistas do Grande ABC, mas o mesmo não se pode dizer de um factóide onde ele seja financiado integralmente por Cuba - embora claramente absurdo.

Pois bem, a questão é que a candidatura do candidato da oposição, o tucano José Serra, até agora, é uma sequência de factóides. Muitos das quais terceirizadas pela "grande" mídia que, via de regra, está alinhada com sua candidatura, além de outras tantas que começam a vir de sua boca e, em especial, do seu vice, Índio da Costa, numa campanha que é a dissimulação em estado puro - onde não se sabe se bolsa família é "bolsa-esmola" ou se foi invenção de FHC, sendo essa última, a falácia recorrente quando o discurso serrista toma um viés mais, por assim dizer, "social", o que pode ser facilmente desmentido.

No entanto, Índio, um vice obscuro escolhido à revelia do cabeça de chapa, é aquilo que pode se chamar de militante de direita padrão. Ele puxa a campanha de Serra para a direita. Vejamos, embora as dissimulações, a campanha serrista oscilava mais para dizer que a questão não era discutir o Governo Lula, mas sim em apresentar alternativas para depois, dizendo que o Brasil pode mais - fazendo até críticas por um viés desenvolvimentista. Mudava a plateia, claro, mudava o discurso, mas o a linha geral, para o "grande público" era a primeira, o que não era condenado pela segunda plateia, que via como uma "astúcia" em um jogo que vale tudo. Com Índio, a tese do bolsa-esmola torna-se mote.

Entre os factóides que o nobre deputado carioca soltou, o maior foi envolvimento do PT com as FARC. Pior, se antes algumas das besteiras que Índio soltou pelos cotovelos lhe valerem  repreensões da coordenação de campanha serrista, esta, Serra encampou publicamente. Uma resposta contundente, simples e precisa para a questão foi a de Brizola Neto:

"O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso defende publicamente a legalização da maconha como forma de superar o problema da criminalidade ligada ao narcotráfico. Concorde-se ou discorde-se dele, isso não dá a ninguém, exceto a quem seja um crápula, o direito de dizer que o ex-presidente é ligado ao uso de drogas. Seria uma infâmia, uma calúnia, um ato odioso. Se o PT e outras forças políticas defenderam ou defendem a negociação com o movimento guerrilheiro das FARC como forma de superar os impasses políticos que, há décadas, consomem vastas áreas da Colômbia, isso igualmente não dá a ninguém o direito de dizer que, por isso, são ligados ao terrorismo. É uma mentira infamante, um ato de oportunismo tão grande quanto o que se apontou no parágrafo anterior."
Ora essa, sabe-se que o PT sempre defendeu uma saída negociada para a Guerra Civil que vitima a Colômbia há quase meio século. Sabe-se que o PSDB, pelo menos no Governo, defendeu o mesmo - e que FHC declarou, publica e orgulhosamente, ter negado a proposta de Clinton segundo a qual o Brasil deveria ajudar - militarmente - a "normalizar" a situação do país vizinho. Mais do que isso, apesar de que tenha sido com algum atraso - coincidentemente depois do seu Governo -, hoje, o ex-Presidente Fernando Henrique Cardoso se empenha na luta pela resolução do problema das drogas defendendo sua liberalização. Enfim, dizer como isso é essa afirmação de Serra não é apenas um factóide - e um factóide ruim por ser completamente ilógico -, Brizola Neto já o fez: Se o PT é ligado ao tráfico por isso, o PSDB também o é, mas evidentemente não é o caso. 


O aspecto que me interessa - além de reiterar aos incansáveis frequentadores deste blog a minha decepção com o baixo nível do debate nesta campanha - é o quão Serra é temerário. Já não é a primeira vez que ele dá passos errados e comete erros gravíssimos para alguém que quer ser Presidente. Acusar mentirosamente o PT é o menor dos problemas que ele está causando quando faz afirmações como essas: A questão aqui é como a ambição pessoal do candidato é tão grande que ele é incapaz de considerar o quão delicado é o quadro humanitário da Colômbia, um dos países com um dos maiores números de refugiados de guerra do mundo. Nada disso, o que importa é a campanha e diz-se o que bem entende, pouco importando a gravidade da matéria da qual trata. 


Já não é a primeira vez que isso acontece, aliás, os acusações até agora sem provas contra a Bolívia, contra a viabilidade do Mercosul - à revelia dos números - atentam para essa nuance particular do candidato Serra. Sobra verborragia e falta conhecimento de política externa, sempre que na falta de ideias, repete-se o "exemplo chileno", como se um país do tamanho do Brasil pudesse seguir o exemplo do nosso vizinho, cujas características econômicas, ainda por cima, são totalmente diversas das nossas. 


Autismo político é sinal de falta de senso republicano, o que foi patente nos seus governos na Capital e no Estado de São Paulo. Isso, como discutimos aqui é um enorme perigo em termos de política legislativa, mas na questão da administração pública, principalmente em termos de Política externa, é fatal. Honestamente, esperava que Serra mudasse um pouco para a campanha presidencial, pelo menos sendo o Serra dos anos 90, mas a cada minuto que passa, as coisas ficam piores e os riscos são tremendos. Quando tudo, até mesmo guerras civis, passam a ser enquadradas na lógica de classificação reducionista, binarista e, sobretudo, desumana que divide os fatos - e as pessoas - em instrumentos e obstáculos, aí, sim, temos realmente nuvens negras no horizonte.

terça-feira, 29 de junho de 2010

O G-20, a Ordem Mundial e o Aniversário de Honduras

(Cristina Kirchner na Cúpula do G-20 - Página 12)

Ontem, deparei-me com a declaração final do G-20 sobre mais esse capítulo da Crise Mundial. Esse peculiar clube dos Estados que, juntos, praticamente, monopolizam a produção econômica mundial. Sou do tempo quando ainda se falava em G-7. Os americanos, os japoneses, o Canadá e os quatro grandes da Europa - Alemanha, França, Reino Unido e Itália. Era um tempo de fim de festa - e de História - quando a União Soviética fez-se pó - com a fragmentação do país e uma crise aguda nos países recém-nascidos que apostavam numa transição absurda, para a felicidade de certos teóricos ocidentais -. a Iugoslávia se consumia no Guerra Civil sanguinolenta os holofotes ainda não se voltavam para China e Índia, enquanto o Brasil era apequenado pelos seus líderes.

A evolução do processo de mundialização do Capitalismo alterou profundamente a relação do sistema de produção com os Estados-nação, o que se configurava por uma nova configuração da divisão internacional do trabalho e do consumo, na qual o Estado deixava de ser a estrutura necessária para a manutenção do Capitalismo para se tornar instrumentos cômodos. Isso muda tudo. A informática é responsável em grande parte por isso, seja nas linhas de produção ou de comunicação. Nada de novo sob Sol, computadores e suas redes integradas são como as velhas alavancas, aumentam a eficiência do Trabalho, a sua peculiar natureza sob o sistema capitalista é como isso se relaciona com um sistema cujas unidades de produção, por excelência, funcionam de forma anti-sistêmica. Falo, portanto, de desemprego e avanço da desigualdade material.

Por outro lado, a alteração na relação de produção e comércio mundial nos leva a uma nova conjuntura que altera a relação de poder entre os Estados: Em dado momento, as potência ocidentais controlaram nacos consideráveis do mundo por meio do seu sistema financeiro e de instrumentos cambiais. Muito embora não produzissem mais, tinham moedas mais fortes, o que servia como mecanismo de controle. A mundialização das empresas as fez notar para outros fatores: O poder de comprar real das moedas. Se você instala uma empresa na China e aufere seus ganhos em dólar, não será nada animador, no entanto, caso o cálculo seja feito em cima do que aquilo pode comprar no mercado interno chinês, a história muda. Essa internacionalização fez economistas e analistas voltarem seus olhares para o tamanho real da produção ainda que, paradoxalmente, a dita economia financeira, tenha sofrido uma elefantíase, mas advirto: Nunca de forma descolada da realidade produtiva, talvez como sua parasita, mas o sistema financeiro não passa, como nunca passou de um instrumento político de realocação da mais-valia, ideologicamente legitimado .

O crescimento econômico mundial fez com que a China se destacasse. Comandada por uma tecnocracia que se corporifica no Partido Comunista, algo como uma imensa corporação monopolista nacional, o Trabalho é explorado - e a renda do trabalhador cresce em níveis muito abaixo de sua potente economia - e o país funciona como o fígado do mundo, recebe matéria-prima, processa exporta. A China mantém dessa forma boa parte do consumo mundial: Ela garante preços baixos e, ao mesmo tempo, usa parte desses ganhos para comprar títulos da dívida americana e papéis de todo tipo como forma de garantir mercados consumidores. Os trabalhadores, alienados da simples ideia do produto do seu trabalho são mal-remunerados, os tecnocratas, enriquecem.

Hoje, o chamado BRIC - grupo formado por Brasil, Rússia, Índia e China - detém mais de um quinto da economia mundial e dois quintos das reservas econômicas mundiais. A China é grande responsável por isso. Os quatro, juntos, formam um grupo deveras heterogêneo, mas que quando concordam em algo, possui um pode imenso para pautar o item na agenda mundial. A reservas monetárias, mais do que as bombas atômicas russas, chinesas e indianas. Isso esvaziou o poder desse G-7 - que no meio do caminho foi transformado em G-8, absorvendo a Rússia de Putin, suas bombas atômicas e seu Capitalismo de Estado. Mas ao invés de um G-11, fez-se um G-20 para completar todos aquele que realmente controlam o Capitalismo Mundial, restando uma fração pequena.

Ao meu pensar, o cerne da Crise Mundial é bastante simples: Trata-se de um esgotamento de um sistema econômica que, na prática, constitui-se como um projeto suicida - como bem define Paulo Arantes - e que, portanto, anda mesmo de mãos dadas com a esquizofrenia - se permitem o deleuzianismo. O modelo é um natimorto, uma tentativa de construção de um Capitalismo Mundial sobre as velhas estruturas nacionais, desprezando a lição de Lord Keynes, sem embargo, o maior defensor do Capitalismo que já existiu, que apontava para a construção de instituições internacionais e, inclusive, uma moeda mundial - para servir como referencial de troca. Sem isso, o Capitalismo Mundial teve de orbitar em torno da potência americana, mas seus líderes, incapazes de resistir aos acintes dos grupos de interesse específicos internos, viu-se incapaz de corresponder a tal tarefa.

George W. Bush antecipou aquilo que aconteceria em quinze ou vinte anos com suas políticas belicistas. Nem mesmo toda boa vontade do Partido Comunista Chinês em financiar suas aventuras bélicas, seria capaz de financiar a ponto de anular seu déficit nas contas pública que, junto ao déficit comercial - crônico, devido ao modelo consumista - corrói, dia após dia, a economia central. A tentativa de reequilibrar tudo com uma desvalorização do dólar representa uma saída simples no curto prazo, mas que só aumenta as nuvens negras no horizonte: Mesmo que os eurolíderes aceitassem tal medida covardemente, como aceitaram, isso só representaria uma transferência do desarranjo e não sua solução - pelo menos aqui parte-se do princípio que tirar a bomba do próprio colo para repousa-la no colo de quem está imediatamente ao lado não me parece estratégia viável.

A Europa merece um parágrafo à parte. Quando muitos analistas falavam na falência do modelo americano e a ascensão do modelo europeu, não restava outra coisa senão rir. O modelo europeu nada mais é que uma construção astuciosa das potências europeias para submeter as pequenas economias do continente - tudo sob os auspícios de lemas vazios envolvendo um dita solidariedade continental. Uma moeda única como instrumento geral de trocas para economias diferentes, com condições de equiparação falsas. Cedo ou tarde, os países periféricos ruiriam. Com os ajustes americanos, uma sobrevalorização do Euro - muito embora com um PIB capta alguma coisa maior do que a metade do americano, a moeda europeia ostenta, neste exato momento, uma taxa de câmbio 21% mais valorizado do que o dólar. A válvula de escape do comércio exterior à Europa é comprometida e traz à tona uma série de problema fiscais de países que nunca tiveram mecanismos reais para de equiparação.

A fagocitose fica clara. Euroautoridades aparecem com suas faces rosadas e escarnecidas culpando gregos, portugueses e espanhóis por sua irresponsabilidade. O programa de "ajustes" proposto para a Grécia, sem medo de exagerar, se coaduna com a mesma lógica genocída das terapias de choque do Leste Europeu nos anos 90 - e não deixa de ser ilustrativo de como o Capitalismo anda de mãos dadas com a esquizofrenia mesmo, até mesmo "terapias de choque" ganham seu lugar em momento de crise dependendo da escola do analista. Nouriel Roubini nos dá a real dimensão do choque quando compara a crise grega com a argentina de nove anos atrás. Voltemos à declaração final do G-20: É essa mesma lógica europeísta agora elevada ao cubo. Nada mais preciso do que a resposta da Presidenta da Argentina Cristina Kirchner sobre a tal lógica de ajustes: A Argentina é maior prova do desastre que a ortodoxia financista realmente é, seja pela hecatombe produzida nos anos Menem ou pela forma como o país escapou à sua falência, achando soluções diametralmente opostas a certo receituário.

Aqui não reside qualquer apologia à heterodoxia. Ambas, como os nomes suscitam, pertencem ao império da opinião e fazem jus ao seu nome. Ao menos os heterodoxos, por definição, não se pretendem os senhores da verdade e sabem que a real tarefa deles é achar as linhas de fuga que o Capitalismo necessita no campo da Política Econômica. Enquanto a ortodoxia é uma aguda forma de idealismo destinada a produzir contradições indissolúveis, a heterodoxia é uma forma de resolução das mesmas dentro da ordem, sem, no entanto, cogitar superar as causas - portanto, falo de uma máquina esquizofrênica de resolução de problemas pelas consequências.

Frente a isso, o sistema americano permanece incapaz de produzir saídas. O sistema político-partidário americano é incapaz de construir sequer resoluções para as consequências dos problemas, pois a flexibilização para se adequar a certas demandas parece impossível. Estamos às voltas com o primeiro ano do Golpe em Honduras, dia em que qualquer possibilidade do Governo Obama poder representar uma sobrevida ao modelo virou vapor. A História, portanto, vive - e estamos em um período de grandes e bruscas mudanças, comparável até aos anos 80.

sábado, 5 de junho de 2010

Análise da Copa do Mundo

(Bem-vindo à África do Sul)

A Copa do Mundo 2010, primeira edição da principal competição futebolística do planeta em solo africano. Desde o fim da Guerra Fria, tivemos a mundialização do Capitalismo e o processo de enriquecimento das ligas europeias - sob os auspícios do projeto de integração econômica, política e social daquele continente. Isso marcou o rompimento do paradigma nacional, onde os jogadores atuavam em seus países de origem e uma seleção brasileira, por exemplo, era sinônimo de uma seleção do Brasil e não apenas de brasileiros como é hoje. Em suma, falamos de uma competição entre times nacionais de um mundo desnacionalizado. Uma competição mundial feita para a massa de consumidores globais, jogada em um dos países consumidos pelo globo. Vale o espetáculo, muito embora o significado em parte tenha sido perdido - ou exarcebado, sabe-se lá. Para além das implicações políticas, foquemos na análise futebolística, time a time.

GRUPO A

África do Sul: É a dona da casa e tem como treinador nosso velho conhecido Carlos Alberto Parreira - treinador que jamais venceu um jogo de Copa por uma Seleção que não a Brasileira (!). Trata-se, dentre os principais países africanos, do futebol mais problemático, o que é facilmente explicado pelo fato de que o desenvolvimento do seu futebol foi duramente atrasado pelo regime do apartheid, em decorrência do qual ocorria o absurdo de existirem federações diferentes para cada uma das etnias que compõem a população local. Uma federação unificada só veio a surgir com a refundação do país nos anos 1990, mas o único título de expressão, até hoje, foi a Copa da Nações Africanas de 1996. Sua campanha pré-Copa foi um fiasco com a passagem de alguns treinadores - dentre eles, Joel Santana - e o corte de Benni McCarthy, dito maior craque do país, ainda que problemático. Mesmo que eu questione bastante os critérios do Ranking da FIFA, ver que a seleção anfitriã ocupa apenas a 88ª posição não é lá muito animador. É evidente que por ser dona da casa, a África do Sul terá chances de passar para a fase seguinte, coisa que não seria capaz fora dessas circunstâncias, mas eu suspeito que não passe muito disso - e não duvide que ela se torne o maior fiasco de uma seleção anfitriã em copas, haja visto que o elenco é limitado e formado por jogadores que atuam em times pequenos e médios do futebol europeu, sem muito destaque, eu, pelo menos, sou pessimista quanto a sua classificação para as oitavas. 

México: Prossegue disputando a hegemonia da América do Norte e Central com os EUA. No quadriênio, ganhou uma Copa Ouro e perdeu a outra - mas não chegou à Copa das Confederações de 09 porque não foi campeão em 2007. Nas eliminatórias, passou em segundo, chegando a estar ameaçado de não se classificar na breve - e desastrosa - passagem de Sven-Goran Eriksson pela time - depois trouxe Javier Aguirre de volta para chegar ao mundial e conseguiu. Os destaques do time ficam por conta de Rafa Marques do Barcelona, do experiente Blanco e do jovem Giovanni dos Santos. Gostei do que vi no amistoso contra a Itália na Béligica, onde o time venceu a azurra por 2x1, ainda é pouco para quem passou os últimos anos jogando mal e tem um histórico de fracassos em Copas, mas acho que ele consegue passar adiante, afinal, no duro é o melhor time do grupo.

Uruguai: Ano vai, ano vem e desde que a Eliminatória sul-americana passou a ser jogada em turno e returno com todas as seleções presentes, a celeste olímpica termina em quinto lugar e vai para o sacrifício da repescagem. Para 2002 e agora, deu certo, para 2006 não. O time, no entanto, não é tão ruim, tem velhos conhecidos da torcida brasileira como o zagueiro Lugano (ex-São Paulo), o atual atacante do Botafogo, Loco Abreu, e ainda Fórlan no ataque. Não creio que tenha pretensões muito maiores do que chegar até as oitavas do torneio, mas com algum esforço, consegue.

França: A seleção gaulesa teve três grandes momentos na história, a primeira no fim dos anos 50 com a geração de Just Fontaine, depois nos anos 80 com a turminha de Platini e companhia e, por fim, a geração de Zidane, campeã da Copa de 98 e na Euro 00. Depois do fiasco de 2002, quando era apontada como uma das favoritas, veio ainda as má campanha na Euro 04. Desacreditada, a seleção francesa fez uma boa Copa em 06, chegando a final com um time com idade avançada. O processo de renovação, no entanto, está sendo muito duro, a classificação para a Euro 08 foi difícil e a eliminação na primeira fase foi dolorida, a classificação para a Copa da África veio na base da repescagem. Sopesada a tradição, não creio que o time francês, envelhecido e com sua velha dificuldade de renovação de uma geração para outra, consiga chegar sequer às oitavas, a menos que algo muito relevante aconteça.

GRUPO B

Argentina: Era uma das favoritas ao título do último mundial, mas acabou sendo eliminada pela Alemanha, a anfitriã do torneio. Depois, o processo de reconstrução da equipe visando 2010 deu errado com Alfie Basile, o que levou a federação local, após a derrota na Copa América para o Brasil - de goleada, ainda - , a trazer Maradona para treinar a equipe. Idas e vindas, a Argentina se classificou na bacia das almas, não tendo vencido seu eterno rival, o Brasil, em nenhuma ocasião e ainda ter sofrido uma goleada de 6x1 para a Bolívia - e nada de títulos nos últimos quatro anos. A Argentina lembra o Brasil de 2002, um time com alguns craques - notamente Messi -, com toda uma mística envolvendo seu treinador e muito pouco, seja do ponto de vista tático ou de retrospecto nos últimos quatro anos, que lhe aponte como vencedor do torneio. Eu ainda creio que o time cresça na Copa e chegue firme, não sei se vindo de trás ou como azarão mesmo.

Coreia do Sul: Passou em segundo lugar nas eliminatórias asiáticas, disputando uns duelos interessantes contra sua rival, Coreia do Norte. Na Copa da Ásia de 07, ficou apenas em terceiro lugar, batendo o Japão nos penâltis. É um time organizado e disciplinado, mas não deve disputar vaga na oitavas não.

Nigéria: Classificou-se para o Mundial de forma invicta para o mundial e apesar de ter parado nas quartas de final da Copa da África de 08, manteve-se, nas outras edições, sempre entre os  quatro melhores times do continente. É verdade que não chega tão forte quanto em 98, onde vinha com a medalha de ouro das Olímpiadas de Atlanta. Creio que passe para a fase seguinte.

Grécia: Campeã da Eurocopa de 2004, sequer chegou na Copa de 06 e foi um fiasco na Euro 08, onde não saiu do zero. De repente, a equipe - que caiu num grupo fraco, é verdade - chegou a Copa, mesmo que dependendo da repescagem. É nesse espírito que a equipe - de um  país que está sendo engolido por uma grave crise econômica -, está chegando à África - eu não estou tão otimista assim quanto a sua campanha.

GRUPO C

Inglaterra: Terra onde nasceu o futebol, a Inglaterra primeiro demonstra um desdém total por disputas internacionais, julgando-se boa demais para confrontar qualquer seleção. Superada a marra inicial, a terra da rainha só conseguiu vencer um mundial, em 66, em uma condição bastante discutida até hoje, notabilizando-se muito mais por ser uma escola de futebol quadrada, burocrática e morna. A grande revolução do futebol inglês acontece nos anos 90 com o advento do Manchester United e seu futebol bonito, competitivo e cheio de craques - a jovem geração liderada por Beckham fracassa na Copa de 98, por imaturidade, mas depois prometia chegar longe. Os anos em que foi treinada por Sven-Goran Eriksson, no entanto, foram um somatório de decepções, onde o favoritismo local por vezes foi por água abaixo devido aos erros do estranhamente festejado treinador sueco. Depois do trauma na Alemanha e a saída de Eriksson, veio Steve McLaren e mais um fracasso: Desta vez, nem classificação para a Euro 08 deu. A reconstrução do time para a Copa da África, sob o comando do italiano Fabio Capello deu certo: Uma campanha arrebatadora nas eliminatórias locais com a classificação conquistada com tranquilidade - uma única derrota, 1x0 para a Ucrânia fora. A equipe mantém a boa base da última Copa e, suspeito, briga pelo título.

EUA: Seria a hora e a vez do time americano? O futebol masculino é uma das poucas modalidades de esportes nas quais os americanos se dão mal historicamente. Muito embora disputem com o México o posto de melhor time da banda norte do continente americano - e tenham levado vantagem nessa disputa no último quadriênio, chegando, inclusive, a final da Copa das Confederações do ano passado -, ainda falta o título mundial, o que parece um sonho distante. Ainda assim, pela chave, creio que o time americano tenha boas chances de chegar às quartas do torneio.

Argélia: Teve o mérito de eliminar o Egito, atual tricampeão africano, e qualificou-se para o mundial, fora isso, não brilhou nem nas competições africanas nem em lugar algum - este ano ficou apenas com a quarta colocação na Copa Africana e dificilmente passará adiante.


Eslovênia: Uma das partes integrantes da antiga Iugoslávia e terra do famoso filósofo Slavoj Zizek, conseguiu sua independência de um modo razoavelmente tranquilo nos anos 90 e conseguiu passar praticamente incólume pelo terror da guerra que eclodiu naquela região em virtude do esfacelamento do antigo páis socialista - sob os auspícios do nacionalismo sérvio e do intervencionismo da OTAN. Em sua breve história futebolística, a Eslovênia conseguiu os feitos de se classificar para a Euro 2000 e, dois anos mais tarde, para a Copa da Ásia, torneios que disputou como mera figurante. Depois de anos fora do grande cenário do futebol mundial, ela conseguiu superar a Polônia e a República Tcheca em seu grupo das eliminatórias europeias para depois, na respecagem, conseguir o feito de eliminar a Rússia. Depois de ter superado boa parte das melhores escolas do futebol europeu oriental, os eslovenos só têm a seu favor a união do grupo e o desejo de autoafirmação nacional próprio dos países que se tornaram independentes na leste europeu. 

GRUPO D

Alemanha: Muito embora tenham um título a menos do que a Itália na Copa, é sabido que a Alemanha é a dona do segundo melhor retrospecto em mundiais - levando em considerações os resultados da Alemanha Ocidental, haja vista que a sua contraparte oriental, em que pese ter sido uma potência olímpica enquanto existiu, jamais conseguiu brilhar no futebol. Depois da reunificação, a Alemanha ganhou apenas um título europeu (1996, na Inglaterra) - a reunificação ocorreu alguns meses depois do título mundial de 1990, na Itália -, sob a égide da geração de Matthäus e Klinsmann. As duas últimas campanhas em copas foram enganosas: Em 2002, o time chegou como azarão entre azarões e fez um final que ninguém esperava contra o Brasil, ficando como vice, depois, sediando o torneio, acabou sendo eliminada na semi-final contra a campeã, Itália - e nesse meio tempo, conseguiu o feito de não passar da primeira fase da Euro 00 e 04. A recuperação do time só aconteceu nesse quadriênio, onde o time finalmente se renovou, incorporando uma série de jogadores naturalizados que incorporam bem a diversidade étnica da Alemanha contemporânea - e um pouco dessa naturalizianismo do futebol contemporâneo, quer seja pela maior integração entre os povos ou por oportunismo mesmo - como o polaco Klose, o brasileiro Cacau. O vice na última Euro e a campanha invicta nas eliminatórias colocam o time alemão como um dos favoritos ao título.

Austrália: Agora filiados à confederação asiática e não mais à Oceania, os australianos levaram com facilidade as últimas eliminatórias continentais, mas terminou apenas em quinto lugar na última Copa da Ásia. Entra na sua terceira Copa do Mundo depois de uma campanha positiva em 2006, quando quase eliminou a futura campeã Itália nas oitavas de final, e aqui disputa - mesmo não como favorita - a segunda vaga do grupo.


Sérvia: Herdeira da camisa iugoslava, a Sérvia pagou muito caro em vidas humanas devido a violência da guerra que marcou a extinção daquele Estado: A instabilidade tremenda em suas terras - e, ainda, posteriores tensões secessionistas em seu território, mesmo quando as tensões já tinham se acalmado em seus vizinhos - fizeram com que o poderoso futebol local ficasse estagnado nas últimas décadas. Nos últimos anos, não conseguiu passar das oitavas de final na última Copa, nem classificou-se para Euro 08, mas passou com certa tranquilidade para Copa atual, num grupo com França e Romênia. Briga pelo segundo lugar do grupo, ainda que Gana seja favorita.

Gana: Liderado por Essien (Chelsea) e Appiah, o time de Gana, nossa adversário nas oitvas da última Copa, aparece novamente na Copa depois de ter ficado no terceiro lugar na Copa África 08. Ao meu ver, disputa palmo a palmo com a Sérvia a segunda colocação do Grupo, mas é favorita.

GRUPO E


Holanda: A eterna quase-campeã mundial novamente chega bem ao mundial, com um time leve, técnico, inteligente taticamente, mas sempre faltando aquele algo mais. Trata-se de uma das poucas seleções que passou os últimos quatro anos jogando bem, chegou com força na última Euro, fez uma primeira fase que lhe gabarativa para o título - até que foi surpreendida pela Rússia -, depois classificou-se para a Copa com uma campanha perfeita de oito vitórias em oito jogos. Seu treinador, Bert van Marwijk, tem a disposição craques como Robben - ou talvez não -, Kuyt, Seneijder entre outros, tendo a tarefa de transformar o espetáculo em campo em algo realmente efetivo. Eu creio que a laranja leva fácil o grupo, o problema é mais adiante,    imaginar esse time jogando um futebol bonito não resta dúvida, agora imagina-lo ganhando um título é mais complicado - muito embora, ele, mais do que muitos, merecesse.

Dinamarca: O pequeno país nórdico teve seus momentos na história do futebol mundial, principalmente no um círculo virtuoso que vai de 1984 até 2004, onde o time foi presença constante na Eurocopa, venceu o torneio em 1992, ganhou a Copa das Confederações em 1995, além de ter emplacado três classificações para mundiais, sendo a última, em 2002,
quando chegou às oitavas de final. Desde o fim da geração dos irmãos Laudrup, no entanto, o time não conseguiu se renovar, tarefa normal e corriqueira para um país continental como o Brasil, mas longe de ser simples para um país de suas proporções. De qualquer modo, apesar da desclassificação para a última Copa da Alemanha e para última Euro, veio nessas eliminatórias a classificação para a África: Liderança em um grupo que contava com Portugal e Suécia, com direito a vitória contra os dois rivais fora e apenas uma derrota. Se mantiver a pegada, o time do veterano Morten Olsen, leva a segunda vaga do grupo.

Camarões: Até meados dos anos 80, os únicos times africanos que se destacavam no cenário mundial eram os norte-africanos - e muito mal. Isso se dava por motivos óbvios, as guerras de descolonização pegavam fogo, piorando a vida que já não era fácil nos tempos de colônia, enquanto o regime do apartheid impedia que o futebol sul-africano se desenvolvesse. Ainda que times como Gana, a Etiópia ou Congo já tivessem sido campeões africanos, o grande ponto de inflexão do futebol africano é mesmo aquela campanha de Camarões na Copa de 1990, pela primeira vez na história, um time da África Negra consegue assustar europeus e sul-americanos. Ali, valeu pelas quartas de final, depois seguiram-se boas campanhas como o ouro olímpico em Sidney e o vice-campeonato da Copa das Confederações em 2003. O time de Eto'o e Song é, no papel, o melhor time africano, apesar de no plano continental, não ter conseguido suplantar o Egito, atual tricampeão do torneio. O time terá um desafio duro com os dinamarqueses, mas vai precisar transformar a sua qualidade em competividade para lhes tirar a vaga.

Japão: O sonho de se tornar uma potência futebolística tem feito os japoneses evoluírem brutalmente no futebol. Se o futebol local era completamente inscipiente nos meados do século 20º, a punição por ter perdido a guerra ainda serviu para atrasar seu futebol. Dos anos 80 para cá, com um intercâmbio interessante como futebol brasileiro e mundial, os japoneses fizeram progressos interessantes. Classificaram-se para as seis últimas copas da ásia e ganharam três delas - bem como estiveram nos três últimos mundiais (em 2002, enquanto seleção-anfritriã). Como uma base atuando no futebol nacional e liderada pelo experiente Nakamura, o time pode fazer uma campanha honrosa, mas o grupo em que caiu lhe é desfavorável.

GRUPO F

Itália: Eis a atual campeã mundial. Os italianos tinham o grande time do futebol europeu no pré-Segunda Guerra e levaram as copas de 34 e de 38 - a última de maneira controversa, dizem. Depois disso, serviu de sparring na final da Copa de 70 para o Brasil - na sequência de ter vencido a Euro 68 -e reapareceu para ganhar o improvável título de 82. Em 94 o Brasil lhe dá novamente o troco e a azurra vai tropeçando em cima de um futebol burocrático, retrancado, angustiante. De repente, não mais do que de repente, a Itália vai para a Copa da Alemanha vivendo uma grave crise no seu futebol e com uma seleção que não consegue mais vencer, até que, como o Brasil de 02, assiste os favoritos tropeçarem um a um, conta um pouco com a sorte e vence, nos penâltis, a França na final. Os últimos quatro anos não foram lá espetaculares para a Itália, ainda que não tenham sido ruins: Uma classificação complicada para a Euro 08, depois de ter caído num grupo duro, depois uma eliminação nos penâltis contra a futura campeã Espanha na Euro, classificação tranquila para o mundial num grupo fraco e sorteio para um grupo administrável na Copa da África. Basicamente, o time de hoje é não é muito diferente do time de quatro anos atrás, retrancado, tem um baita goleiro como Buffon, uma boa zaga com nomes como Cannavaro, um meio de campo que marca muito, mas ausente de criatividade - onde o volante Pirlo é o destaque - e um ataque bom, mas longe de ser de ponto com Iaquinta e Gillardino. A equipe de Lippi joga aquele velho futebol cadenciado, de toque de bola, a espera de buracos. Fosse a Copa jogada em pontos corridos e a Itália não teria lá muitas chances, com esse estilo de jogo num torneio eliminatório de tiro curto, ela se credencia, muito embora corra por fora - e por mais difícil que seja repetir 2006, ela está aí.

Paraguai: Os confrontos entre seleções na América do Sul, ao contrário do que acontece na Europa, quase nunca são marcados por rivalidades políticas maiores do que as futebolísticas. Talvez isso se deva ao fato de que o único grande confronto bélico no continente tenha sido marcado pela derrota incontestável de um país, cuja única falta foi tentar defender o solo sagrado de sua pátria - e por conta disso foi massacrado por seus vizinhos. Esse país é o Paraguai. Uma nação próspera reduzida ao pó nos fins do século 19º e, desde então, desdenhada por todos. Paraguaio, no Brasil, acima de tudo, é um defeito. E é pelo futebol que os paraguaios expressam seu espírito de resistência. Não adianta dizer que o Paraguai vai para sua quarta Copa seguida e que fez campanha maravilhosas nas últimas eliminatórias, afinal, é o Paraguai. Quando tinha uma equipe boa, primeira colocada nas eliminatórias para a Copa da França, dizia-se que era apenas uma defesa forte sem ataque, um time, destinado a cair novamente na obsolência quando seus defensores se aposentassem. Não é que o Paraguai se renovou? E não é que formou atacantes? Nas últimas eliminatórias, os paraguaios começaram arrasando, mas depois foram alcançados por chilenos e brasileiros, ainda que tenham ficado apenas um ponto abaixo do Brasil e perdido a segunda colocação no saldo de gols para o Chile - em suma, bem acima da Argentina e do Uruguai, campeões mundiais que suaram a camisa. Aqui, são favoritos para a segunda vaga e podem fazer uma campanha melhor do que muita gente imaginava, afinal, não só na política e na economia é a vez da América do Sul, no futebol também.


Nova Zelândia: Desde que a sua vizinha Austrália abandonou a Confederação da Oceania, restou a Nova Zelândia a sina de jogar contra seleções semi-amadoras das ilhas e arquipélagos que a circundam. Quatro anos de auto-enganação e desperdício de forças, onde a seleção local, destacada pela força física, fica treinando para a Copa. Aqui, dificilmente conseguirá seguir adiante.


Eslováquia: Era parte da antiga Tchecoslováquia, com a divisão do país, uma antiga potência futebolística do leste europeu, ficaram seus vizinhos tchecos com a técnica e os eslovacos com a força - o que, no entanto, foi o suficiente para superar a República Tcheca no seu grupo das eliminatórias assim como ficar a frente de eslovenos e polacos. São, junto com a Eslovênia, classificada na repescagem, e com a Sérvia, as três únicas seleções europeias orientais a chegar na Copa da África, sem muito brilho, enfraquecidas por divisões nacionais com ou sem muito sentido.

GRUPO G


Brasil: Trata-se do único país que chegou a todas as copas do mundo e, desde os fins dos anos 50 e o fenômeno Pelé, chega aos torneios com status de potência do futebol, apesar de que na geopolítica restava insignificante, submetido aos EUA, e, na economia, um país promissor, muito mais por suas potencialidades do que pela prática de sua política econômica. O Brasil mudou de lá para cá. Mudou muito. Hoje, a nação é vista como um dos principais atores do teatro das nações. No futebol, depois do fiasco de 2006, quando foi levado para a Alemanha um verdadeiro time dos sonhos que acabou fracassando fragorosamente, foi trazido o ex-capitão da seleção Dunga para o cargo de treinador. Mesmo com todas desconfianças por nunca ter treinado antes, Dunga estreiou vencendo a Argentina por 3x0 e foi construindo uma seleção debaixo da lógica que Parreira utilizou em 94: Montar o melhor time pelo conjunto e não pelos destaques individuais, com um jogo habilidoso com a burocracia da CBF,  o que resultou em quatro anos de estranha tranquilidade, onde o time venceu tudo: Ganhou a Copa América (novamente sobre os rivais argentinos), a Copa das Confederações (contra os EUA, que frustrou a esperada final contra a Espanha) e ainda terminou em primeiro as eliminatórias de seu continente. Nunca antes na história o Brasil teve um quadriênio mais tranquilo, muito embora o tenha tido com uma seleção que não é o melhor time, mas o time que melhor funciona junto segundo a metodologia do seu treinador, um time que seja cada vez mais uma seleção de brasileiros e não mais brasileira - dada a quantidade de jogadores atuando no exterior, mesmo num cenário onde a crise na Europa e o fortalecimento da economia nacional tenham produzido um retorno em massa de craques. Sem ufanismos, é o time a ser batido, quer seja pelo desempenho ou pelo entrosamento, o que conta contra si é apenas e tão somente  o fato de ser o dono da casa daqui a quatro anos e de que um hexa brasileiro, politicamente, talvez não interesse.

Coreia do Norte: Presença constante no noticiário global, muito mais por se opôr aos EUA do que pelo seu regime totalitário - escandalizado aos quatro cantos para legitimar seu isolamento e, quem sabe, sua invasão -, os norte-coreanos, que sempre viveram às turras com punições no futebol por motivos políticos - e nunca se destacaram, até que surpreenderam, classificando-se para a Copa da África com um time majoritariamente de jogadores que atuam no seu próprio campeonato e uns poucos atletas da j-league. Não deve ameaçar os competidores do grupo, mas não deixa de ser uma presença interessante.

Portugal: Sempre foi uma das forças médias do futebol europeu, mas jamais conseguiu transformar o material humano produzido nos seus clubes em uma seleção competitiva. Mesmo nos anos 90, quando produziu uma geração interessante, que chegou ao auge nos anos 2000 e 2002 acabou fracassando. O ponto de inflexão foi a contratação de Luis Felipe Scollari, treinador recém campeão mundial pelo Brasil em 2002 que, por pouco, não levou o título europeu de 2004 - perdendo a final para a Grécia -, mas ainda chegou à semi da Copa da Alemanha e as quartas de final da última Euro - em suma, manteve Portugal não apenas chegando nas grandes competições mundiais como as disputando em grande nível, um salto qualitativo que só foi capaz de dar depois de muitos tensionamentos com a liga da clubes locais e a influência que eles sempre exerceram na seleção nacional. Sob o comando do atual treinador, o luso-moçambicano Carlos Queiroz, o time sofreu para chegar à Copa, ficando em segundo no grupo da Dinamarca e sofrendo na repescagem contra a Bósnia. Enquanto seu país arde vítima de um crise econômica considerável, sua seleção nacional aporta na África, continente com o qual nutre relação profunda e tempestuosa, para tentar repetir as boas campanhas dos últimos anos. Ao meu ver, disputa, com alguma vantagem, a segunda vaga do grupo com a Costa do Marfim, o que pode render um clássico com a Espanha nas oitavas.

Costa do Marfim: ex-colônia francesa em uma das regiões mais ricas do continente africano, a Costa do Marfim vem se destacando no futebol europeu de 1992 para cá, quando venceu a Copa da África. Com um time disciplinado, liderado por Drogba, o time está na briga pela segunda colocação do grupo, mas o desastre da contusão do seu principal jogador pode ser uma perda grande demais para ser superada.

GRUPO H

Espanha: O futebol sempre foi um elemento fundamental no complexo tecido sócio-político espanhol do pós-Guerra: Era por meio do futebol que o seu ex-ditador, Franscisco Franco, afirmava o domínio de Castela sobre as demais regiões, investindo quantias fabulosas no Real Madrid, time que apesar de pertencer a uma das mais pobres nações da Europa Ocidental, tornou-se o principal clube daquela região. Era por meio do futebol, como é até hoje, que catalães expressam seu orgulho nacional, especialmente nos anos do franquismo, quando só lhes restava torcer e investir no Barcelona, clube que no fim das contas, fazia às vezes do que deveria ser sua seleção nacional. Tais fraturas e incongruências tornaram o futebol espanhol uma potência no âmbito clubístico e um fracasso entre as seleções. A solidificação da economia nacional dos anos 90 para cá - abalada apenas agora - e, por conseguinte, da sua liga nacional, acabaram construindo uma seleção jovem e forte, que já fez uma campanha boa na última Copa, foi campeã europeia, arrebentou nas eliminatórias para essa Copa e só falhou mesmo na Copa da Confederações do ano passado. Sem dúvida, é uma das favoritas.

Suiça: Como país, a Suiça mais parece uma amontoado de imagens, um campo bucólico com suas vacas e suas belas fazendas e cidades abarrotadas de bancos. A segurança e uma paz demasiada são suas marcas e parecem se expressar em seu time nacional, uma equipe disciplinada taticamente, defensivamente muito forte e ofensivamente inepta. Conseguirão os suiços passarem adiante? Eu suspeito que não, ainda que venham a dar trabalho.

Chile: A primeira vez que o futebol chileno teve algum destaque no futebol mundial se deu quando da realização do mundial de 62, quando terminou na terceira colocação. De lá para cá, sempre ocupou uma posição secundária no futebol sul-americano, aparecendo muito mais por episódios jocosos como o da fogueteria do Maracanã do que pelo seu futebol. A geração atual do futebol chileno, no entanto, tenta provar o contrário, montada lá pelo pré-olímpico de 2000 e com mais e mais atletas sendo formados ao longo desses anos, a seleção chilena arrebentou nas últimas eliminatórias, sob o comando do treinador argentino Marcelo Bielsa, e conta com jogadores conhecidos do futebol brasileiro como Maldonado, Valdívia, Gonzalo Fierro além de bons jogadores como o goleiro Bravo e o centro-avante Suazo. Tem tudo para fazer uma grande campanha na Copa, aliás, precisa fazer uma campanha na Copa, seja pelo seu futebol ou por seu treinador, um dos maiores estrategistas do futebol sul-americano que acabou tendo seu currículo manchado com o fracasso na Copa da Ásia quando treinava sua seleção nacional. Acho que leva a vaga e pode protagonizar um belo confronto com o Brasil nas oitavas.


Honduras: Enquanto vivia às voltas com as incertezas políticas, depois de ter vivenciado recente golpe de Estado, Honduras conseguiu um classificação heróica na Concacaf, onde sempre EUA e México monopolizam as vagas e deixam o terceiro lugar para ser disputar à tapa pelos seus vizinhos. Aqui, terá enormes dificuldades para seguir adiante, esperamos que o futebol sirva muito mais como elemento de reconstrução nacional do que como instrumento de afirmação de golpistas por meio do ufanismo - como infeliz e normalmente costuma ser nessa América Latina de meu deus.