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domingo, 7 de janeiro de 2018

Trump: sob fogo e fúria na América tardia

Ilma Gore -- Trump Nu (retirado daqui)
O lançamento de Fire and Fury, livro sobre os bastidores da Casa Branca de Trump é um belo exemplar de fogo amigo voltado a enfurecer o presidente mais impopular da história, só para fazer jus ao nome. E também é só mais capítulo na crise que corrói a América, incapaz de se reposicionar numa ordem global no qual o velho modelo de hegemonia americana não funciona mais.

Há, é claro, uma boa dose de calculada encenação no relato insider e em primeira mão, do mesmo modo que Trump, igualmente é um grande personagem, seja nos seus negócios ou na sua incursão da política -- um personagem que se tornou a voz de um setor da sociedade americana cuidadosamente azeitado pelos republicanos para servir (apenas) como massa de manobra.

Trump sempre se vendeu como um parvo para ser subestimado por rivais e concorrentes, além de atrair para si a simpatia do público médio americano do interior -- e a mesma lógica se aplica à sua incursão na política. Agora, a chave é retratar essa "verdade de homem comum" como debilidade e demência. Talvez funcione.

O desastre Trump, o presidente americano mais impopular desde que esse tipo de medição passou a ser feito nos anos 1930 pelo instituto Gallup, está além das aparências. Trump desagrada o establishment político americano, à esquerda e à direta, e também não oferece uma saída para os impasses da América, uma vez que governa de maneira compartilhada com um Congresso hostil, inclusive no que diz respeito a seu partido.

A receita é simples: se o grandioso plano Obama fracassou, de acelerar o processo de globalização como forma de permitir aos EUA manter e afirmar sua liderança, a tentativa de voltar a um passado glorioso, industrialista e isolacionista, encontrou a dura barreira da realidade.

Após Bush Jr. tentar tirar os EUA da estagnação com largo envolvimento em guerras, Obama operou a reconstrução econômica do país salvando antes de tudo o mercado financeiro. De um jeito ou de outro, o americano comum esteve órfão nos últimos dezesseis anos, depois de décadas paternidades relapsas, na qual o american way of life era desconstruído lenta e silenciosamente. 

A vitória de Trump foi o gesto final de um processo no qual os republicanos retomaram a Casa Branca depois de, a rigor, assumirem a maioria política em todas as instâncias da política americana, desde o Congresso dos Estados Unidos, passando pelos congressos estaduais e governos estaduais. Tudo sob a era Obama, e seu fantástico fracasso em reconstruir a América -- pelo menos para além dos grandes grupos de interesse do Partido Democrata. Mas a cereja do bolo foi, também, uma vitória de pirro.

O pós-fascismo de Trump não funciona exatamente nos tempos atuais, reunir maiorias sociais sob a égide de um discurso abstrato de nação contra minorias não é o tipo de coisa que constrói coesão ou estabilidade nos dias atuais, mas sobretudo há falhas na condução da geopolítica, que representa muito em matéria de política interna nos EUA.

Os EUA assumiram a hegemonia mundial debaixo da decadência das potências europeias, pois preferiu dominar áreas estratégicas de comércio global em vez de administrar diretamente enormes populações. Depois, serviu como mecanismo do mercado global capitalista, criado no pós-guerra. Os EUA lutaram com dureza, e impuseram aos seus parceiros europeus, o encargo de servir como motor da economia capitalista, emitindo a moeda internacional e servindo como a cabeça de sua polícia global.

A enorme responsabilidade americana parecia ser uma tarefa fácil, gerando como retorno o privilégio exorbitante de emitir a moeda global. O sonho de fadas acaba no final dos anos 1990, quando a responsabilidade aumenta e, por outro lado, a ausência de uma guerra fria transforma a atividade da guerra em flagelo para o mercado capitalista global. 

Ora, o mundo capitalista não sabia, mas a grande mola mestra da economia americana desde os anos 1950 era, de fato, o complexo bélico-industrial, isto é, investir em armas, usar as forças armadas como pólo de inovação tecnológica e inserir esses ganhos no mercado de consumo.  O imperialismo de novo tipo americano guardava em si um arcaísmo, próprio dos velhos impérios e gérmen de sua decadência -- e a Guerra Fria permitia aos EUA mascarar isso.

É aí que nem Bush, nem Obama e, tampouco, Trump conseguem operar. Todos buscaram e buscam saídas de curto prazo para manter tudo como antes. Sem as velhas guerras indiretas nas bordas da Guerra Fria, o próprio sistema capitalista se assusta com essa bélico-dependência americana e ensaia migrar para novas zonas de consistência.

A resposta de Trump contra uma ordem global é uma mistificação louca. E pior, ela se deu, objetivamente, com um erro de geopolítica inverso ao de Obama. Se o ex-presidente acertou na maneira como conduziu a política no extremo-oriente, errou feio no Oriente Médio. Trump, por sua vez desfez os erros de Obama no Oriente Médio, embora tarde demais, enquanto errou na sua relação com a China.

Vejamos, Obama procurou interferir nas Primaveras Árabes. O terror com insurreições multitudinárias que abalavam uma ordem, tirânica, que favorecia aos EUA -- e foi decisiva para derrotar os soviéticos -- foi trocado pelos novos estrategistas americanos por uma vã esperança: interferir à distância e usar as revoltas como forma de aumentar ainda mais o poder.

Obama usou da derrubada do governo sírio como forma de derrubar os preços internacionais do petróleo e, assim, valorizar o dólar sem precisar praticar uma política econômica restritiva, isto é, diminuir emissões ou aumentar os juros. Mas ao afiançar uma coisa na outra, dependia da queda do regime para as expectativas virarem realidade. Só que seus apoiadores dentro e fora da Síria não eram capazes de agir juntos, uma vez que não desejavam a mesma coisa.

Turcos, israelenses e sauditas não tinham interesses convergentes, poderiam derrubar o regime sírio, mas não tinham, nem têm, acordo sobre o que colocar no lugar. A oposição laica da Síria foi rapidamente suplantada por radicais islâmicos, primeiramente tolerados e depois causadores de mais dor e mortes. O resultado da guerra, com centenas de milhares de mortos e milhões de refugiados chegou rapidamente à Europa.

Os russos, para piorar a situação de Obama, encontraram a deixa ideal para intervir no conflito e defender seus interesses, obtendo um êxito militar que Washington supunha que Moscou não tivesse mais, ou não tivesse ainda. A Rússia, viu, veio e venceu, voltando a ser um peça importante no Oriente Médio, algo que não acontecia desde o começo dos anos 1970.

Trump estava certo em se unir a Moscou e cessar a estratégia louca de Obama para a Síria, inclusive porque um petróleo barato não interessa tanto assim à economia americana, não tanto quanto possa parecer. Mas já era tarde.

O problema de Trump foi elevar o tom contra a China, que buscou ficar silente, apoiando o grande plano global de Obama em tantos momentos. Ora, os chineses arcaram com os ganhos sem ter o ônus, da desvalorização do barril de petróleo e da valorização do dólar. E estavam lá, funcionando como recicladores do capital americano, exportando mercadorias baratas e comprando títulos americanos com os excedentes comerciais.

Trump não tinha motivo para mexer com os chineses, mas mexeu, julgando ser uma prioridade travar a China comercialmente para reindustrializar a América. O resultado das tensões, de declarações burras até pressão militar -- a Coreia do Norte pouco importa econômica e politicamente, se ela virou alvo, o alvo real só poderia ser a China, que depende da sua vizinha para a segurança nacional.

O ponto é: seja por esforço de guerra ou por ajuda dos chineses e russos, os norte-coreanos terminaram seu projeto de rearmamento  com mísseis com ogivas nucleares capazes de atingir o solo americano. A invasão da Coreia do Norte fez água diante da impossibilidade militar de sua invasão. Trump fez de Kim Jong-Un virar um player internacional.

Com isso, os chineses se reaproximaram da Rússia e mais ainda da Eurásia: o grande projeto chinês é reciclar capitais cuidando do déficit infraestrutura da Ásia, sobretudo no que diz respeito à ligação por terra com a Europa. É a Nova Rota da Seda, um projeto que custava a sair do papel enquanto os chineses estavam tranquilos com o comércio do Pacífico. Ironicamente, isso interessa aos sul-coreanos, enquanto habilmente a Coreia do Norte buscou aproximação com sua rival do sul.

Sem garantias dos americanos de um livre comércio, sem tranquilidade nem mesmo nas suas águas territoriais, os chineses se lançam para dentro da Ásia, o que favorece a Rússia -- ou duplamente a Rússia, haja vista que a valorização do barril ajuda a economia local. Moscou, acusada de fazer Trump ganhar, acabou favorecida pelos erros e os acertos da Washington de Trump.

Voltamos à política externa americana. Trump, sem criar meios de voltar ao passado, sem criar meios de fazer os EUA saberem viver em paz ou criar novos meios para guerra, sem ser capaz de lidar com tensões sociais, sejam elas econômicas, raciais ou de gênero, sem agradar o velho establishment ou a nova política, se torna o cordeiro a ser sacrificado.

Mas a aparente estupidez de Trump não tornará uma volta do establishment em uma tarefa fácil. Primeiramente, porque o vice Mike Pence não é confiável. Depois porque remover presidente e vice seria uma situação inédita na história americana, e como a experiência brasileira ensina, um país de proporções continentais não é capaz de funcionar bem com uma solução tampão. 

Novas eleições seriam uma boa saída, mas isso dependeria das grandes máquinas políticas concordarem. Inclusive porque não há garantia de que a velha política ganhe. Como a burocracia americana lidaria com a eleição de um Bernie Sanders? Os impasses corroem a América e a ausência de soluções leva a um quadro de agonia, de morte ou, com alguma sorte, de dores do parto de um novo mundo que não necessariamente será bom ou belo.


P.S.: agradeço ao Edu pelas ideias trocadas sobre a América tardia e a Vera pelo estímulo a voltar a escrever. O blog precisou de um sabático, mas escrever é importante e terapêutico. Sempre bom voltar à ativa.


domingo, 11 de novembro de 2012

Transições nos EUA e na China: o Império Global

A aliança entre Mao e Nixon: Pequim, 1972
Enquanto o mundo arde em crise, os americanos reelegeram, em seu peculiar sistema eleitoral, o democrata Barack Obama, e os chineses preparam a substituição de suas lideranças no partido hegemônico. A coincidência das datas e a importância dada pela mídia internacional aludem para o seguinte quadro: o mundo não é mais bipolar como na guerra fria, mas a multipolaridade se resolve cada vez mais entre Estados Unidos e China, menos pelo porte econômico e mais pela disposição estratégica de ambos que justifica essa pujança. E é uma polaridade menos de antagonismo e mais de uma relação peculiar de complementação, cujo aniversário de quatro décadas ocorreu em Fevereiro deste ano.

Obama venceu nos Estados Unidos por uma pequena vantagem (embora majorada pelas peculiaridades do sistema local). As causas da vitória democrata se devem menos pela força de Obama e mais pela incapacidade de seus adversário, Mitt Romney: não existe modo ou motivo para uma minoria votar no Partido Republicano atual, o mapa eleitoral americano de hoje, aliás, é o próprio mapa da divisão histórica do país entre estados liberais e aqueles onde a praga da escravidão e, depois, do segregacionismo persistiram por mais tempo (e foram derrotados unicamente por causas externas), portanto, sem negros, hispânicos, mulheres e homossexuais -- que são os setores mais potentes da sociedade americana -- não há como vencer. No entanto, isso não quer dizer automaticamente que Obama catalise o clamor que o elegeu: ele está muito longe de tomar medidas internas corajosas ou, no plano internacional, parece pouco capaz de renegociar a posição americana no sistema global por não poder assumir o declínio do país.

Na China, o sistema local -- no qual o Estado é um simulacro formal comandado pelo Partido Comunista, com sua estrutura complexa e aristocrática -- toma forma e ganha um rigor procedimental: o processo de sucessões passa a ser ordenado, previsível, enquanto os mandatos ganham prazo certo e o casuísmo cede lugar à racionalidade de comando e poder. O regime, por óbvio, não é democrático, mas ele também não pretende ser, portanto, uma vez aperfeiçoada sua arquitetura, ela toma a forma de um sistema vertical e hierarquizado bem regrado. Hu Jintao, o sóbrio burocrata que sucedeu Jiang Zeming há dez anos, não deve permanecer como comandante das forças armadas, ao contrário de todos os seus antecessores (que abandonavam a liderança política, mas não o controle militar do país), fato que marca a passagem definitiva da forma pessoal de exercício do poder para a forma sistemática. Em seu lugar, Xi Jinping, um nome de consenso do politburo, filho de um célebre herói revolucionário expurgado na Revolução Cultural. 

Depois de ter insistido em compor com os republicanos, que radicalizaram o jogo nos últimos quatros anos, deixando seu governo em xeque, Obama tenta novamente, pela via de negocial, resolver o problema das contas americanas. Depois do segundo fracasso presidencial consecutivo, a questão é saber o que será dos republicanos. Dos democratas, o ponto é saber até que ponto Obama continuará à deriva, sujeito aos ditâmes dos Clinton e os democratas dos anos 90 na defesa e na estratégia geopolítica, enquanto no plano econômico, continua cedendo aos privatistas (sem ter bons resultados, é claro). Os chineses, por outro lado, repetem jargões sobre casos de corrupção nos quais seus líderes estão envolvidos, mas esquecem o que há de essencial no problema todo: a desigualdade social crescente, um capitalismo controlado por burocratas que vivem entre o estatal e o privado.

Enquanto a Europa assiste a tais transições quase paralisada pela insuficiência dos mecanismos europeus em mitigar a crise, vivendo em uma zona de indeterminação na qual nem existe mais autonomia nacional, nem uma estrutura continental efetiva -- mas uma grande zona de transição anódina e disfuncional -- resta cada vez menos dúvidas que é entre os Estados que vacilam e a China que ascende -- nem sempre sobre bases sustentáveis -- que o jogo dos Estados se equilibra e se decide. Muito do que os Estados Unidos são hoje se devem à organização do socialismo chinês produzindo seus bens de consumo, enquanto muito do que a China se deve ao capitalismo americano. Ambos representam as formas últimas das artes de governo liberal e socialista e sua relação, para além da confrontação retórica, é de estreita colaboração para manter a ordem estatal global -- e não ainda o Estado global, mas talvez um dia -- contra a multidão globalizada: são as duas cabeças da mesma estrutura imperial bifronte, seu mecanismo de dívida infinita e seu modo de consumir e produzir. 

domingo, 15 de abril de 2012

A Crise na Indústria

A cena clássica de Tempos Modernos
Um tema recorrente, levantado como objeção frequente ao projeto petista, é a dita crise na indústria brasileira, o fantasma da "desindustrialização" levantado de Serra a Plínio na última campanha eleitoral e, agora, reverberada em recente artigo de Marina Silva para a Folha. Há muitas lendas sobre a questão e pouca profundidade nessas análises, até pelas necessidades imediatistas da política partidária e da mídia - o que, a bem da verdade, não diferem mais tanto assim.

Em um primeiro momento,  a questão industrial brasileira não é um problema exclusivamente macroeconômico e atual, mas parte relevante da nossa problemática histórica. Vejamos, o Brasil se industrializa tarde demais, depois dos esforços homéricos de Mauá contra toda uma legião de obscurantistas, uma República Velha inteira privilegiando os interesses de cafeicultores em detrimento de todos os demais setores e, só nos anos 30, há algum oxigênio.

A radicalização do processo de industrialização em Vargas é a combinação de várias coisas: a doutrina de gestão estatal direta e total somada, ao sabor da época, à construção de um mercado interno para substituir um mundo que ruía por conta da crise de 29. É também o início do casamento entre o capitão-da-indústria do Sul Maravilha com o Coronel do Norte, o segundo enviando mão-de-obra barata para se aliviar da pressão por reforma agrária, o segundo abrindo os braços.

O desenvolvimento no pós-guerra encontra algumas chaves, a primeira é a entrada forçada do capital internacional depois da morte de Vargas - em um processo conexo -, o modelo carrocêntrico de JK - que é fator determinante para o escoamento da produção e, ao mesmo tempo, para determinar a própria dinâmica de produção - e, como fecho, a organização corporativista encabeçada pela Ditadura em articulação com a FIESP, a modernização do sistema financeiro com a instituição do BACEN entre outras coisas.

O tripé capital estatal/capital nacional/capital estrangeiro, a política de Estado nacional-desenvolvimentista e tudo mais fale em um determinado momento: para além dos boicotes estrangeiros para o desenvolvimento de uma indústria de ponta no Brasil, o fato é que aquilo que sai de todo esse processo é um indústria ineficiente, dependente da tutela estatal - e do constante financiamento - pouco competitiva.

O dilema dos anos 90 para cá é o que fazer com a indústria. Collor e FHC preferiram abrir a economia, dar um choque de mercado fazendo-as competir com a indústria internacional - muito mais eficiente e, ainda, gozando de condições macroeconômicas mais vantajosas - para produzir uma seleção natural. O impacto geral foi a modernização do grande capital industrial, em geral o multi ou transnacional, o colapso da pequena indústria, uma maré de desemprego que pôs em xeque o mercado interno já atrofiado. Controle de preços a um custo alto.

A eleição de Lula em 2002 é retrato da insatisfação desses setores - representados, aliás, pelo então vice-presidente José Alencar. E é o nascimento do social-desenvolvimentismo lulista que ganha sua face mais hardcore, agora, com Dilma: a volta do Estado ao planejamento, ainda que longe de uma participação direta. Se o primeiro momento é de uma alavancagem, o segundo, com a manutenção do Real propositalmente valorizado, é da perda da importância relativa da indústria.


O fato é que existe de um lado uma demanda não só por mais e melhores produtos como, também, por preços equilibrados no mercado interno - o que nem sempre a indústria nacional deu conta, diga-se. Por outro lado, é necessário manter empregos e renda, não é possível desmobilizar a indústria nacional ou a expor como feito nos anos 90, de Collor a FHC.


O governo petista conseguiu um equilíbrio grande nisso, ainda que surjam n problemas. Foi beneficiado, inclusive, pelo boom do setor de serviços - o que é uma tendência real e presente da economia capitalista - e da agricultura - em termos não muito satisfatórios em termos da organização do trabalho nas zonas agrícolas, mas que representou equilíbrio dos preços de produtos alimentícios e, ainda, gerou saldo positivo na balança comercial.


A indústria, nesse sentido, perdeu espaço relativo de forma indolor porque os preços estão estáveis e o desemprego está baixo. O maior problema dela é, hoje, sua ineficiência em gasto de energia e toda problemática que envolve o modelo de transporte da produção - que  importa em produção de transporte também. 


Não é um fenômeno exclusivamente brasileiro, diga-se de passagem, essa tendência - com a indústria chinesa recepcionando fábricas de todas as bandeiras e marcas - é global. A corda da superprodução - cuja origem é a criação de demandas socialmente inúteis - em escala global, é claro, passa pelo esgotamento ambiental e social, principalmente por parte da indústria.


Uma problemática posta nos termos de "recuperemos a indústria nacional" é balela. É preciso reinventar a indústria no Brasil, não aumentar a importância relativa de sua (super)produção em relação à (super)produção geral da nação. Se os planos de recuperação da indústria do governo atual parecem farsescos - e em certa medida demagógicos - sua macroeconomia tem sido sábia, embora falte muito para se conseguir praticar a reinvenção industrial que precisamos. No entanto, uma oposição que discursa - pela falta de discurso - sobre "desindustrialização" está, na verdade, sem discurso.  


P.S.: este post marca a saída do blog do breve sabático dos últimos dias, causado tanto por falta de tempo quanto por falta de inspiração.




quarta-feira, 22 de junho de 2011

O Brasil e o Segundo Tempo da Crise Econômica Mundial

Como nos lembra o nosso sempre perspicaz Allan Patrick, a Crise Econômica Mundial se aproxima do seu Segundo Tempo. Se, em um primeiro momento, vimos a explosão da bola do sistema financeiro, cujas implicações transcenderam o campo das finanças,  atingindo o domínio econômico e arrastando vários países junto. Agora, baixada a poeira do primeiro momento da crise, assistimos a uma nova escalada, na qual a economia americana começa a arcar com o ônus do seu largo e continuado endividamento - a despeito de emitir a moeda hegemônica, como previmos aqui -, a União Europeia vê sua situação se agravar, vítima da sobrevalorização internacional do Euro e dos impactos internos da homogeneidade monetária - como se vê no caso grego - e o Japão, por sua vez, além de estar enrascado com a crise econômica, ainda se viu destruído por um violento desastre natural que comprometeu sua planta energética nuclearizada, o que terá um impacto profundo e duradouro; enquanto isso, China, Brasil e Índia emergiram fortalecidos desse cenário, mantendo altas taxas de crescimento econômico e se voltando para dentro 

Acrescentamos da nossa parte que embora a desregulamentação nos países cêntricos, sobretudo os EUA, tenha colaborado para o atual momento, isso foi apenas uma fissura que se abriu mais ainda com o abalo, mas não foi a causa dele.  O fato é que as economias capitalistas se reuniram desde o pós-guerra em torno dos Estados Unidos e não constituíram instituições internacionais propriamente ditas para auto-sustentarem o sistema; nada de moeda única como sonhava Keynes: o dólar passou a funcionar como essa moeda de reserva, embora seu funcionamento como tal nunca tenha deixado de ser precário. Fosse como fosse, o mundo capitalista seguiria dali em diante dependente de decisões internas dos EUA a respeito de sua moeda.


A grande questão que não foi levantada é: e se os governos americanos começasse a tomar atitudes irresponsáveis de forma indiscriminada? Todo o sistema capitalista - agora mundializado, com o colapso soviético - dolarizado nas trocas comerciais e nas reservas dos Estados, acabaria por ruir. Com a política de irresponsabilidade fiscal de Bush Filho - altos gastos militares, favorecimento do grande complexo bélico-industrial junto com o petroquímico - e a insustentabilidade do modelo de produção e consumo local - expresso por um incontornável déficit comercial -, a multidão tomou um susto: o rei estava mesmo nu e tudo era é uma farsa. A partir daí, as coisas saem dos eixos.

Se na primeira onda de choque, o Brasil acionou os mecanismos do regime contracíclico de gastos públicos - que consiste basicamente em economizar nos tempos das vacas gordas para gastar na crise- para sustentar a economia por meio do aquecimento do mercado interno - pela geração de emprego e da renda e incentivar o consumo das famílias -, empreitada da qual se saiu muito bem-sucedido, agora o momento é outro; a economia voltou a crescer e, como prova o exemplo chinês, é preciso que os Bric's se voltem para dentro, uma vez que o comércio internacional tende a declinar severamente.  


Apesar da propaganda da oposição no último pleito, que pegava uma fotografia de certo momento do funcionamento da política contracíclica para "provar" que as contas do país estavam estouradas, o Governo executou devidamente a política; passado o pior, novamente a austeridade e o déficit público voltou a encolher, tomando dimensões razoáveis. 


Neste momento, o Governo está a pôr em prática uma política de grandes obras para aquecer o mercado interno - ainda que de forma um tanto atribulada, como demonstra o caso de Belo Monte e das obras da Copa e das Olimpíadas -, busca agregar valor à cadeia produtiva - como demonstra a troca de comando da Vale feita por Dilma - e segue com políticas que estimulam a geração de emprego e renda salarial - segurando em outra ponta a inflação por conta de um cálculo de custo-benefício em relação aos ganhos que determinada oferta de crédito pode produzir contra o impacto da desvalorização monetária. O câmbio - livre, mas "sujo" - é deixado valorizado como instrumento de combate à inflação porque isso colabora para a incorporação tecnológica, sendo que já não é mais tão relevante para o país continuar a ter gigantescos superávits na balança comercial, até pela boa quantidade de reservas que temos. 


Em tese, está tudo no lugar, mas esse novo momento forçará o Brasil invariavelmente a adotar uma postura ofensiva: é possível aliviar as contas públicas se o país começar a adquirir títulos das dívidas dos europeus, mas não só: isso seria importante para o equilíbrio da União Europeia, que é, enquanto existir, uma importante parceira brasileira. Se boa parte do processo de internalização da nossa dívida externa se deu, infelizmente, por meio de uma operação de alto custo na qual convertemos boa parte das divisas que ingressaram com o boom das exportações em títulos da dívida americana - que até outro dia não traziam grande retorno - para constituir nossas reservas. 


Isso não só teve um custo econômico alto - pois a diferença entre o que esses títulos nos traziam de retorno e o quanto nós gastamos com a manutenção da nossa dívida é um ônus pesado para arcar - como também serviu, de certa forma, para alimentar por alguns anos mais a irresponsabilidade fiscal e monetária dos EUA, causa de boa parte dos problemas do mundo hoje. Agora, em tese, temos mais opções e, não só, o mundo precisa que o Brasil assuma efetivamente o peso que acabou ganhando nos anos Lula: temos como e precisamos ser um ator global de relevo.








sábado, 19 de março de 2011

Três Debates Estratégicos: Líbia, Comissão da Verdade e a Visita de Obama

Dilma e Obama em Brasília -- foto: Agência Brasil

Assim mesmo, tudo junto e misturado. Na última quinta-feira, o Conselho de Segurança da ONU aprovou a Resolução nº 1.973 que, por sua vez, aprova o uso da força contra a Líbia, em virtude da violenta repressão da Ditadura Kadafi contra as forças rebeldes - o Brasil, enquanto membro eleito desse Conselho, se absteve junto com Rússia, China, Alemanha e Índia, sendo que os dois primeiros não utilizaram do poder de veto (que dispõem na medida em que são membros permanentes). Na última sexta-feira, o TUCA (Teatro da PUC-SP) recebeu a 48ª Caravana da Anistia, a primeira do atual Governo, contando, inclusive, com a presença do Ministro da Justiça José Eduardo Cardozo - também professor da Casa - que, após o evento, declarou à imprensa que o Governo está unido em relação à implementação da Comissão da Verdade - como este humilde redator testemunhou a alguns metros de distância. Hoje, o Presidente Americano Barack Obama, em visita ao Brasil desde ontem, discursou em Brasília ao lado da Presidenta Dilma Rousseff.

São três itens centrais que se relacionam entre si e dizem respeito ao novo momento do Brasil no mundo. Sim, o Brasil depois de Lula é um país importante, diferentemente do que era no fim dos anos 80 - quando México e Argentina ainda eram os países mais relevantes da América Latina - ou do que ele poderia já ter se tornado nos anos 90. Isso não quer dizer que nosso país não tenha problemas graves ainda: O fato de estarmos já na 48ª Caravana da Anistia e o legado da Ditadura não ter sido superado - diferentemente do que houve no Chile e na Argentina - é gravíssimo. Ainda assim, é preciso considerar que a fala de Cardozo durante sua exposição e, depois, na entrevista para os órgãos da mídia corporativa foi contundente e alentadora - além de suscitar certo respaldo do Palácio da Alvorada. Não, o Brasil não poderá ser o país importante que ele quer ser - e que o próprio mundo, neste momento crítico, demanda com urgência - se não superar de vez o legado presente de sua Ditadura, isto é, o que resta neste exato momento do refluxo reacionário que produziu o 1º de Abril de 1964 - tudo de ruim que a Ditadura poderia ter feito já passou, o que interesse são os efeitos presentes, a negação de abrir arquivos históricos, de punir torturadores etc. Isso não é revanchismo, dado que se refere a problemas que existem em ato. O mundo precisa de um Brasil forte, mas não de um Brasil covarde que se autoanistia de crimes contra a humanidade, é condenado pela Corte Interamericana de Direitos Humanos por conta disso e permanece inerte.

Por que o mundo precisaria tanto de um Brasil forte? Vejamos, a atual Crise Econômica Mundial expôs que o sistema econômico global é, na verdade, um gigantesco parque de diversões construído sob um pântano tenebroso, enquanto o fenômeno Wikileaks trouxe à luz, por sua vez, o fato de que o sistema político global, como não poderia ser diferente, é o Estado de Exceção de Agamben dito e feito. A União Europeia é um fracasso  - e a Rússia pós-soviética não é muito diferente, só que piorada -, o Japão se vê diante da iminência de uma hecatombe nuclear. O que resta ao mundo? Os EUA em crise, mas ainda imponentes com seu arsenal nuclear e sua presença imperial pelos quatro cantos - com algum eco libertário soterrado sobre os escombros do Iraque e preso entre as grandes de Guantánamo -, uma ascendente - e ditatorial - China, quem sabe a Índia e...o Brasil.

A humanidade, depois do Governo Bush Filho e da inércia de Obama vive a situação mais assustadora desde os anos 30. Ainda que se possa questionar bastante a atuação americana ao longo da segunda metade do século 20º, as atitudes tomadas nos últimos dez anos foram particularmente temerárias. A China, se muito, oferece apenas soluções para si mesma. O Brasil, portanto, é chave nesse processo em virtude de sua proposta de atuação não-belicista, favorável ao fortalecimento do sistema multilateral e cética em relação à gestão da economia mundial nos últimos trinta anos - o que produziu essa terrível crise econômica. Claro, a visita de Obama tem mais a ver com a necessidade dos EUA se apoiarem em um novo parceiro de peso - para sobreviverem - e, digo mais, com as próprias ambições político-eleitorais do Presidente americano - em suma, transformar essa aproximação com o Brasil em um fato político positivo para 2012, coisa que ele não foi capaz de fazer até agora por pura incompetência, sobretudo pela atuação ambígua de Washington no que se refere ao golpe hondurenho.

O Brasil precisa ser colocar como o fiel da balança da nova ordem, manter o diálogo produtivo e em posição de igualdade com os EUA - que não vai deixar de ser uma nação importante -, mas ao mesmo tempo manter a aliança com a China. O que nos interessa, enquanto brasileiros e seres humanos, é ver o Brasil contrabalanceando a China com o manutenção do diálogo com Washington e neutralizando os EUA com a manutenção da aliança com Pequim. Nesse sentido, a posição brasileira diante da invasão da Líbia - favas contadas desde que a insurgência contra Kadafi tomou corpo e ele preferiu destruir o próprio país a renunciar - foi correta; sim, Kadafi é um ditador insano e precisa cair; não, infelizmente, a intenção das potências que aprovaram o "uso da força" contra a Líbia são as mesmas que passaram os últimos anos alimentando toda sorte de ditaduras naquela região e, por sua vez, procuram neutralizar a todo custo as vitórias das mobilizações populares, grandiosas e intensas, que derrubaram as ditaduras de Ben Ali na Tunísia e a de Mubarak no Egito. Menos do que uma apologia à democracia, o Ocidente pretende estacionar tropas no Magreb para, digamos, negociar melhor a democratização da região. Nesse aspecto, refaço apenas as minhas críticas à posição tímida do Brasil frente à revolução tunisiana e egípcia. Agora, o álibi para a invasão ocidental na Tunísia é inevitável, o que resta é procurar a evitar que a futura presença militar da OTAN na Líbia não frustre a democratização de Tunísia e Egito.

É essa sensibilidade histórica que o Governo Dilma precisará ter: A luta pelo Brasil dar certo já não é mais apenas problema nosso, a humanidade toda depende disso.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Wikileaks: A Prisão de Assange e os Próximos Passos

Assange no Tribunal de Westminster
E, hoje, Assange foi preso e já teve a fiança negada na Inglaterra, depois de ter tido sua conta bancária bloqueada na Suiça ontem por erro de endereço, em um dos episódios mais tragicômicos da história. A polícia metropolitana de Londres cumpriu mandado de prisão expedido pela Justiça Sueca em relação a um obscuro processo de assédio sexual contra o fundador da Wikileaks que, coincidentemente, veio à baila apenas com a explosão das denúncias daquele site contra as desventuras em série da diplomacia americana. Há pouco, o Judiciário Britânico afirmou que as provas contra ele são sérias e que há grandes chances que ele fuja. Além da fragilidade da acusação, é óbvio como ela está sendo usada numa tentativa de deslegitimar as denúncias feitas pelo site, na medida em que não há nenhum nexo causal ou relacional entre os episódios. Nada de novo sob o Sol, o que aconteceu é uma mera consequência do que já debatíamos aqui há alguns dias, a confirmação pura e simples do recrudescimento dos mecanismos de controle do capitalismo global - administrado por uma superpotência em decadência que, atolada em guerras sem sentido, orquestra atitudes precipitadas para mascarar efeitos e manter posições. Nesse jogo, o Governo Bush foi catalisador e o Governo Obama é apenas figurante na representação, sem desejo, consciência ou força para mudar a direção das velas. A potência ascendente China que, certamente, está pouco disposta a arcar com o ônus de administrar o mundo sozinha, seguiu o seu procedimento padrão e censurou o site, especialmente devido as revelações sobre o jogo chinês em relação à península coreana, sempre ambíguo no discurso, mas bastante claro nas ações. Esperemos os próximos movimentos nesse fim de ano, mas tudo leva a crer que a ação de violenta de abafa em relação ao Wikileaks caminha em direção do surgimento de um wikileakismo na rede, o que tenderá a manter a tensão alta por essas bandas (nem tão largas).

Atualização das 18:33: O último artigo de Assange, antes de ter sido preso.


segunda-feira, 15 de novembro de 2010

O Dia da República e o Brasil no Mundo

Hoje, no dia da Proclamação da República, enquanto nos vemos com as incertezas, dúvidas e balões de ensaio midiáticos sobre a futura composição dos ministérios do Governo Dilma, mais uma Cúpula do G-20 terminou frustrada e mal explicada - justamente aquela que marcou a última atuação do Presidente Lula em um grande fórum internacional e contou com a presença da Presidenta eleita Dilma Rousseff, já tendo em vista os acertos finais da amigável troca de bastão e dos ajustes finais do terceira etapa do projeto petista. É muito provável que da viagem, cujos frutos já eram previsíveis, tenham sido trazidas decisões acerca dos rumos da política externa, da política econômica e, quem sabe, definições importantes sobre os ministérios. 


O impasse que antecedia e motivava a Cúpula de Seul, a guerra cambial, se manteve, Alguma declaração em defesa da adoção do câmbio flutuante de forma generalizada foi feita assim como foi permitida a adoção de mecanismos de controle de capitais para os países prejudicados pela guerra cambial - em tese, uma vitória para o Brasil, mas nada que nós já pudéssemos fazer e talvez agora façamos de forma legitimada. Os americanos levaram a cabo a política de emissão de dólares que caminha para se tornar o maior (dentre tantos) erros do Governo Obama, os chineses estão pouco preocupados com isso e vão se defender a despeito de qualquer um. A posição dos chineses é clara, se quiseram se sentar e discutir uma moeda supranacional e uma nova arquitetura financeira global - como já propuseram os russos recentemente -, ótimo, senão, vai ser isso mesmo, Dólar e Yuan permanecerão parcialmente "amarrados" e os chineses vão lucrar com a desvalorização da moeda americana, valorizando sua moeda apenas se surgirem eventuais (e possíveis) pressões inflacionárias.


É fato elementar entre fatos elementares que um economia global demanda uma reserva monetária global, uma régua geral paras as trocas internacionais ao invés do uso de uma moeda nacional, seja ela qual for, mas os EUA estão pouco interessados nisso: Na visão míope dos estrategistas de Obama, aceitar qualquer proposta nesse sentido seria um sinal de fraqueza intolerável para sua opinião pública e, além do mais, ter o dólar como moeda global é um meio de dar mais "espaço de manobra" para os EUA exercerem sua política fiscal - mas lhes passa desapercebido que a cada dia que passa, a economia americana é relativamente menor ao Mundo e que mais medidas irresponsáveis tendem apenas a enfraquecer mais e mais o Dólar, caminhando para um cenário desolador nos próximos anos, no qual, o sistema global, por meio de um choque muito maior do que esse, elaborará uma saída para o padrão-dólar. Em suma, Obama, que tinha tudo nas mãos para ser o protagonista da construção de uma nova ordem global, tropeça na sua própria mesquinhez e falta de visão política, sendo pautado por adversários que querem esmaga-lo ao mesmo momento em que despreza potenciais aliados.


Para os grandes da Europa a situação não é menos grave. Países como Alemanha ou França sempre se beneficiaram do Euro internamente, mas com a desvalorização do Dólar - e consequente sobrevalorização do Euro -, a pressão internacional sobre a Zona do Euro está se tornando insuportável, assim como a situação dos sócios menores do bloco, - notadamente Portugal, Grécia, Irlanda e, em certa medida, Espanha - se torna insuportável para eles, podendo provocar uma contaminação sistêmica em todo bloco, posto que os déficits comerciais crônicos que o Euro lhes legou diante de seus "parceiros" europeus mais competitivos agora se maximiza com uma moeda hipervalorizada em relação ao Mundo. O atual governo de Portugal está num beco sem-saída e já cogita abandonar o Euro; muito embora se trate de um pequena economia, hoje, qualquer pequena pedra que se retire do monte seria o suficiente para provocar um evento em cadeia que desabe, de vez, o sistema europeu.


Da nossa parte, o Governo em transição protocolar não pode nem deve abrir mão de  imprimir uma política cambial dura, sob pena de ocorrer um desastre. O cenário atual é absolutamente artificial: Nos próximos anos, entrará uma quantidade considerável de divisas no país em virtude do Pré-Sal, da Copa do Mundo, das Olimpíadas, o que, somado à emissão de dólares por parte do governo americano, provocarão uma valorização ainda maior do Real. Dessa forma, é necessário administrar o mecanismo de juros com rédea curta - embora seu valor atual não seja tão discrepante em relação ao aquecimento da economia como já foi um dia - e taxar com dureza o que entrar. A situação global é grave e não há outra coisa a fazer senão manter uma política externa de fortalecimento do sistema multilateral, embora, é preciso anotar que o Brasil é um dos países com mais potencial para emergir fortalecido da atual situação. Por outro lado, dosar corretamente os ministérios, refrear as pressões de aliados e lobbies dentro do próprio governo é fundamental.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Cúpula do G-20 de Seul -- Início

Teve início hoje a Quinta Cúpula do G-20 realizada na capital sul-coreana, Seul. Em um primeiro momento, a simples realização de uma cúpula envolvendo as vinte maiores economias do mundo já ilustra um novo mundo em emergência (e de emergentes também): O arranjo internacional pós-Guerra Fria que apresentava a liderança estratégica incontestável dos EUA com a presença subsidiária das potências econômicas da Europa, o Japão e o Canadá - somados à Rússia pelo seu poder militar residual da URSS - caiu mesmo por terra. Mais do que esse processo, que já se avizinhava de maneira clara nos anos 90, a Crise Econômica Mundial, que eclodiu nos EUA e contaminou todo o sistema mundo, catalisou o processo de transformação de maneira aguda. No atual momento, a conjuntura mundial se expressa pela grave crise político-econômica dos EUA e o questionamento em relação ao futuro da União Europeia, ao passo que China, Índia e Brasil se impõem cada vez mais neste cenário - e de forma mais específica, o principal tópico da cúpula será a guerra cambial em curso, na qual os EUA, para manter sua política fiscal irresponsável, desvaloriza sua moeda (por sinal, ainda a principal moeda do Globo), o que traz junto o Yuan chinês, ameaçando de maneira grave o equilíbrio da balança comercial europeia e, inclusive, da brasileira. Trata-se de uma reunião tensa que irá trazer à baila de um dos problemas mais complexos do nosso, a construção de um arranjo político econômico internacional para uma realidade na qual o Dólar Americano se inviabiliza enquanto moeda hegemônica por conta dos próprios rumos do país que lhe emite. 


Lula chega fortalecido à Cúpula, seja pela situação do Brasil diante do mundo ou pela vitória que seu projeto político novamente obteve nas urnas - e seu trófeu, Dilma Rousseff, sua sucessora feita, marca sua presença no último grande evento internacional com Lula na chefia de Estado do Brasil. Não há pouco o que negociar e o assunto chave da cúpula, como dito, nos interessa direta e profundamente. Um Real sobrevalorizado resulta, irremediavelmente, em uma balança comercial menos favorável e, consequentemente, em menos espaço de manobra para o Estado induzir o crescimento econômico ou mesmo bancar projetos sociais essenciais. É inegável que o ajuste que o Brasil necessita passa por uma série de ajustes internos que o Governo não pode mais protelar, mas o componente externo também representa uma parte fundamental da história. Os chineses, fortalecidos pela crise e, ao mesmo tempo. em um período de alteração na correlação de forças interna - com a ascensão do grupo de Xangai - são figuras essenciais na reunião. Obama estará em xeque, tanto pelo resultado amplamente desfavorável nas eleições legislativas quanto pela posição dos EUA no Mundo - que ele contribui em manter em fragilização, dada a total inércia com a qual o seu Governo conduz a política externa, tornando-se cada vez mais incapaz de ser o protagonista da reconstrução do sistema mundial, posição que parecia irremediavelmente sua quando derrotou os republicanos há dois anos. É questão de manter os olhos bem fixos no que se desenrolará pelos próximos dias na capital sul-coreana.

terça-feira, 29 de junho de 2010

O G-20, a Ordem Mundial e o Aniversário de Honduras

(Cristina Kirchner na Cúpula do G-20 - Página 12)

Ontem, deparei-me com a declaração final do G-20 sobre mais esse capítulo da Crise Mundial. Esse peculiar clube dos Estados que, juntos, praticamente, monopolizam a produção econômica mundial. Sou do tempo quando ainda se falava em G-7. Os americanos, os japoneses, o Canadá e os quatro grandes da Europa - Alemanha, França, Reino Unido e Itália. Era um tempo de fim de festa - e de História - quando a União Soviética fez-se pó - com a fragmentação do país e uma crise aguda nos países recém-nascidos que apostavam numa transição absurda, para a felicidade de certos teóricos ocidentais -. a Iugoslávia se consumia no Guerra Civil sanguinolenta os holofotes ainda não se voltavam para China e Índia, enquanto o Brasil era apequenado pelos seus líderes.

A evolução do processo de mundialização do Capitalismo alterou profundamente a relação do sistema de produção com os Estados-nação, o que se configurava por uma nova configuração da divisão internacional do trabalho e do consumo, na qual o Estado deixava de ser a estrutura necessária para a manutenção do Capitalismo para se tornar instrumentos cômodos. Isso muda tudo. A informática é responsável em grande parte por isso, seja nas linhas de produção ou de comunicação. Nada de novo sob Sol, computadores e suas redes integradas são como as velhas alavancas, aumentam a eficiência do Trabalho, a sua peculiar natureza sob o sistema capitalista é como isso se relaciona com um sistema cujas unidades de produção, por excelência, funcionam de forma anti-sistêmica. Falo, portanto, de desemprego e avanço da desigualdade material.

Por outro lado, a alteração na relação de produção e comércio mundial nos leva a uma nova conjuntura que altera a relação de poder entre os Estados: Em dado momento, as potência ocidentais controlaram nacos consideráveis do mundo por meio do seu sistema financeiro e de instrumentos cambiais. Muito embora não produzissem mais, tinham moedas mais fortes, o que servia como mecanismo de controle. A mundialização das empresas as fez notar para outros fatores: O poder de comprar real das moedas. Se você instala uma empresa na China e aufere seus ganhos em dólar, não será nada animador, no entanto, caso o cálculo seja feito em cima do que aquilo pode comprar no mercado interno chinês, a história muda. Essa internacionalização fez economistas e analistas voltarem seus olhares para o tamanho real da produção ainda que, paradoxalmente, a dita economia financeira, tenha sofrido uma elefantíase, mas advirto: Nunca de forma descolada da realidade produtiva, talvez como sua parasita, mas o sistema financeiro não passa, como nunca passou de um instrumento político de realocação da mais-valia, ideologicamente legitimado .

O crescimento econômico mundial fez com que a China se destacasse. Comandada por uma tecnocracia que se corporifica no Partido Comunista, algo como uma imensa corporação monopolista nacional, o Trabalho é explorado - e a renda do trabalhador cresce em níveis muito abaixo de sua potente economia - e o país funciona como o fígado do mundo, recebe matéria-prima, processa exporta. A China mantém dessa forma boa parte do consumo mundial: Ela garante preços baixos e, ao mesmo tempo, usa parte desses ganhos para comprar títulos da dívida americana e papéis de todo tipo como forma de garantir mercados consumidores. Os trabalhadores, alienados da simples ideia do produto do seu trabalho são mal-remunerados, os tecnocratas, enriquecem.

Hoje, o chamado BRIC - grupo formado por Brasil, Rússia, Índia e China - detém mais de um quinto da economia mundial e dois quintos das reservas econômicas mundiais. A China é grande responsável por isso. Os quatro, juntos, formam um grupo deveras heterogêneo, mas que quando concordam em algo, possui um pode imenso para pautar o item na agenda mundial. A reservas monetárias, mais do que as bombas atômicas russas, chinesas e indianas. Isso esvaziou o poder desse G-7 - que no meio do caminho foi transformado em G-8, absorvendo a Rússia de Putin, suas bombas atômicas e seu Capitalismo de Estado. Mas ao invés de um G-11, fez-se um G-20 para completar todos aquele que realmente controlam o Capitalismo Mundial, restando uma fração pequena.

Ao meu pensar, o cerne da Crise Mundial é bastante simples: Trata-se de um esgotamento de um sistema econômica que, na prática, constitui-se como um projeto suicida - como bem define Paulo Arantes - e que, portanto, anda mesmo de mãos dadas com a esquizofrenia - se permitem o deleuzianismo. O modelo é um natimorto, uma tentativa de construção de um Capitalismo Mundial sobre as velhas estruturas nacionais, desprezando a lição de Lord Keynes, sem embargo, o maior defensor do Capitalismo que já existiu, que apontava para a construção de instituições internacionais e, inclusive, uma moeda mundial - para servir como referencial de troca. Sem isso, o Capitalismo Mundial teve de orbitar em torno da potência americana, mas seus líderes, incapazes de resistir aos acintes dos grupos de interesse específicos internos, viu-se incapaz de corresponder a tal tarefa.

George W. Bush antecipou aquilo que aconteceria em quinze ou vinte anos com suas políticas belicistas. Nem mesmo toda boa vontade do Partido Comunista Chinês em financiar suas aventuras bélicas, seria capaz de financiar a ponto de anular seu déficit nas contas pública que, junto ao déficit comercial - crônico, devido ao modelo consumista - corrói, dia após dia, a economia central. A tentativa de reequilibrar tudo com uma desvalorização do dólar representa uma saída simples no curto prazo, mas que só aumenta as nuvens negras no horizonte: Mesmo que os eurolíderes aceitassem tal medida covardemente, como aceitaram, isso só representaria uma transferência do desarranjo e não sua solução - pelo menos aqui parte-se do princípio que tirar a bomba do próprio colo para repousa-la no colo de quem está imediatamente ao lado não me parece estratégia viável.

A Europa merece um parágrafo à parte. Quando muitos analistas falavam na falência do modelo americano e a ascensão do modelo europeu, não restava outra coisa senão rir. O modelo europeu nada mais é que uma construção astuciosa das potências europeias para submeter as pequenas economias do continente - tudo sob os auspícios de lemas vazios envolvendo um dita solidariedade continental. Uma moeda única como instrumento geral de trocas para economias diferentes, com condições de equiparação falsas. Cedo ou tarde, os países periféricos ruiriam. Com os ajustes americanos, uma sobrevalorização do Euro - muito embora com um PIB capta alguma coisa maior do que a metade do americano, a moeda europeia ostenta, neste exato momento, uma taxa de câmbio 21% mais valorizado do que o dólar. A válvula de escape do comércio exterior à Europa é comprometida e traz à tona uma série de problema fiscais de países que nunca tiveram mecanismos reais para de equiparação.

A fagocitose fica clara. Euroautoridades aparecem com suas faces rosadas e escarnecidas culpando gregos, portugueses e espanhóis por sua irresponsabilidade. O programa de "ajustes" proposto para a Grécia, sem medo de exagerar, se coaduna com a mesma lógica genocída das terapias de choque do Leste Europeu nos anos 90 - e não deixa de ser ilustrativo de como o Capitalismo anda de mãos dadas com a esquizofrenia mesmo, até mesmo "terapias de choque" ganham seu lugar em momento de crise dependendo da escola do analista. Nouriel Roubini nos dá a real dimensão do choque quando compara a crise grega com a argentina de nove anos atrás. Voltemos à declaração final do G-20: É essa mesma lógica europeísta agora elevada ao cubo. Nada mais preciso do que a resposta da Presidenta da Argentina Cristina Kirchner sobre a tal lógica de ajustes: A Argentina é maior prova do desastre que a ortodoxia financista realmente é, seja pela hecatombe produzida nos anos Menem ou pela forma como o país escapou à sua falência, achando soluções diametralmente opostas a certo receituário.

Aqui não reside qualquer apologia à heterodoxia. Ambas, como os nomes suscitam, pertencem ao império da opinião e fazem jus ao seu nome. Ao menos os heterodoxos, por definição, não se pretendem os senhores da verdade e sabem que a real tarefa deles é achar as linhas de fuga que o Capitalismo necessita no campo da Política Econômica. Enquanto a ortodoxia é uma aguda forma de idealismo destinada a produzir contradições indissolúveis, a heterodoxia é uma forma de resolução das mesmas dentro da ordem, sem, no entanto, cogitar superar as causas - portanto, falo de uma máquina esquizofrênica de resolução de problemas pelas consequências.

Frente a isso, o sistema americano permanece incapaz de produzir saídas. O sistema político-partidário americano é incapaz de construir sequer resoluções para as consequências dos problemas, pois a flexibilização para se adequar a certas demandas parece impossível. Estamos às voltas com o primeiro ano do Golpe em Honduras, dia em que qualquer possibilidade do Governo Obama poder representar uma sobrevida ao modelo virou vapor. A História, portanto, vive - e estamos em um período de grandes e bruscas mudanças, comparável até aos anos 80.

sábado, 13 de março de 2010

O Brasil e a Crise Mundial - O Resultado de 2009

A Crise Econômica Mundial de 2008 foi o mais grave acontecimento da era da mundialização do Capitalismo e o mais sério desequilíbrio desde 1929. Sua deflagração trouxe uma única certeza: Após a poeira baixar, a ordem econômica - e por conseguinte o próprio equilíbrio geopolítico - da era pós-sovietica seria drasticamente alterado. No nosso país, isso ascendeu luzes amarelas justamente no momento em que o país voltava a se desenvolver depois da longa noite que foi da falência do Estado Varguista até o PAC. A sensação de termo sido atropelados por circunstâncias exteriores a nós e o histórico negativo do Brasil em crises nos anos anteriores deixaram os ânimos em polvorosa.

O fato é que nos saímos relativamente bem: Pelos dados divulgados a dois dias atrás, registramos uma queda de apenas 0,2% no ano todo e cravamos um crescimento de 2% no último trimestre. Foi o terceiro melhor desempenho dentre as dez maiores economias do planeta, perdendo apenas para China (8,7%) e Índia (5,6%) e dentre as economias do G-20,o país só perdeu para Indonésia (4,5%), Austrália (2,4%) e Coreia do Sul (0,2%) - segundo o Instituto Nacional de Estatísticas da Argentina, sua economia da Argentina cresceu 0,9%, mas existem questionamentos a esse respeito. Estados Unidos (-2,4%), Japão (-5%) e União Europeia (- 4,2%), os aclamados centros de poder do período em que a história teria acabado, se deparam com sérias crises, em especial o último deles que além de se deparar com o desafio de uma complexa integração econômica, agora também se vê às voltas com o dilema de como se inserir enquanto conjunto - ainda inacabado - neste novo momento da economia globalizada.

Honestamente, eu não apostava numa queda, por menor que fosse, do PIB brasileiro em 2009, mas esperava que o resultado ficasse mesmo em torno de zero; ainda assim, não esperava que os impactos reais dessa crise sobre as pessoas fosse tão brando: O país assistiu, em plena crise, a um aumento do consumo das famílias na ordem de 4,1% e o desemprego fechar em apenas 6,8% - menor nível dos últimos 6 anos, segundo a serrista Folha de São Paulo -, em suma, os trabalhadores não pagaram pela Crise neste país. Enquanto nuvens negras ainda se encontram bem presentes no horizonte próximo da economia americana - que requer um reforma urgentemente - e a tempestade esteja simplesmente desabando na Europa, o Brasil saiu incólume do processo.

Outro indicativo é o deslocamento cada vez mais acentuado -e voraz - do poder econômico mundial para a Ásia - o que beneficia até mesmo países de cultura majoritariamente ocidental que ficam para aquelas bandas como a Austrália -, o que aponta para um ponto fundamental: Como o fato da diplomacia brasileira ter rompido com a lógica de alinhamento atlantista nos rendeu não apenas frutos econômicos imediatos como também nos colocou no caminho certo nas relações políticas e econômicas; o exemplo mexicano não pode ser ignorado; aquele pais fez basicamente tudo aquilo que a direita brasileira defende caninamente - alinhamento econômico e políticos aos EUA, baixa carga tributária e ausência de políticas sociais - e agora encontra-se quebrado de uma maneira aguda, arrastado pelo turbilhão dos acontecimentos. Ainda há muito o que ser feito no Brasil, mas não podemos ignorar o que aconteceu - e o que deixou de acontecer - no Brasil em 2009.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

1º de Outubro - 60 anos da Revolução Chinesa


Hoje é a data de aniversário da Revolução que modificou de maneira indelével o maior país do mundo. Há 60 anos, Mao Tsé Tung fez o famoso discurso na Praça da Paz da Celestial que resultou na República Popular da China. A Revolução de 1949 foi um resultado direto do processo de ocidentalização pelo qual passava a China, país milenar que desde os meados do século 16º se encontrava em decadência - o que a fez incorporar modelos ocidentais, primeiro com o advento da República no início do século 20º, depois com a Revolução que vem na esteira do pensamento marxista e da escalada revolucionária que começa no leste europeu e ruma para o oriente.


A China de 1949 era um país que há cem anos se encontrava em um verdadeiro caos; da queda da dinastia Ming nos anos 1640 até a derrota na Primeira Guerra do Ópio em 1842 se materializou como um período de letargia onde o modelo chinês esteve em xeque a todo momento, daí em diante, assistimos aos impactos do colonialismo ocidental que vem culminar em um processo tortuoso de republicanização do país e passa pelo crivo do traumático domínio japonês nos anos 30 - agravado pela guerra civil entre nacionalistas e comunistas. 49, portanto, foi um ponto de inflexão nesse processo.


Seis décadas depois, a China é a segunda economia mundial, tendo fechado 2008 com algo entre 11% e 12% do PIB mundial além de ter mantido, em plena Crise Econômica Mundial, um ritmo de crescimento alucinante e um poderio militar considerável - diferentemente do país arrasado do fim dos anos 40, onde a situação dos camponeses era de miséria profunda e o incipiente parque industrial do país estava na mão de quatro famílias. Paradoxalmente, o país não superou certas premissas da lógica administrativa burocrática do confuncionismo assim como não o fez em relação ao modo filo-stalinista de organização política do país; a questão das nacionalidades segue, como provou a recente crise no xinjiang assim como o problema da cidadania e das liberdades políticas, algo não incomum a regimes socialistas burocráticos.


O nacionalismo que o Partido Comunista exorta desde o fim do bloco socialista é, nada mais, que uma construção ideológica que mira a unidade de um país ontologicamente fragmentado e também a busca pela reconstrução da narrativa do ponto de vista político - A China atual é um país profundamente ocidentalizado, seja pela superação de sua monarquia no início do século, pelo socialismo ou pela recente abertura econômica; enfim, o país tem mimetizado modelos ocidentais e adequado-os a sua realidade, com êxito variável, e dos fins dos anos 70 para cá, é a pedra de toque do processo de mundialização do capitalismo e da consequente reorganização da divisão do trabalho.


Aliás, é bom não perder de vista o quão diferentes são as duas fases distintas do período socialista; a primeira que vai da Revolução até a entrada do país nesse processo em 1978 - onde o modelo soviético é copiado ao pé da letra com algumas pequenas singularidades, uma tentativa de industrialização sanguinolento nos fins dos anos 50 e uma tentativa não menos confusa dos anos 60 e 70 da Revolução Cultural - e a que vem de lá para cá - quando Deng Xiaoping mantém o controle e o planejamento central, mas se abre para o capital internacional e constrói um modelo industrial-exportador, responsável por um dos mais especulares processos de crescimento economico da história da humanidade que, no entanto, se combina com uma escalada perigosa da desigualdade social e a produção de seríssimos danos ambientais.


O futuro da China não é pouco complexo; pesa o imperativo da construção de um modelo que responda às novas necessidades do país, haja vista que os modelos soviético, americano e japonês cada vez menos ajudam a nortear o futuro do país - o primeiro já faliu, o segundo e o terceiro já estão esgotados em seus próprios países; resta a dúvida se é possível existir uma China livre e viável dadas as diferenças econômicas e culturais entre as regiões do país ao mesmo tempo que o próprio exercício da hegemonia de forma centralizada vai se aproximando do seu termo final - em grande parte pelas profundas transformações que o país está sofrendo neste exato momento, quando a Crise Mundial o fez se voltar para dentro e desenvolver o seu mercado interno de forma desesperada.

terça-feira, 14 de julho de 2009

Giro Rápido por um Mundo em Crise

Em Honduras, os golpistas prosseguem no poder. O Direito, como o seu próprio nome sugere, é aquilo que é próprio daquilo que é reto, ou seja, aquilo que está alinhado com o ideal. Se há o ideal ou se existem vários ideais é um debate longo que atormenta o Homem há muito. O fato é que há uma determinada ordem em Honduras que ao ser ameaçada resultou no golpe, ou seja, na instalação da exceção para reconduzir o país àquilo que é considerado ideal por sua classe dominante e que, ao meu ver, passa longe de ser reto: É o permanente oblíquo ao qual também estamos submetidos. Bem se sabe que a exceção vira regra pela força normativa dos fatos; posse vira propriedade - e os desbravadores do oeste estadunidense hão de concordar comigo - e tirania vira governo legítimo - como tenta repetir a oligarquia hondurenha repetindo seus pares latino-americanos - pela impossibilidade das coisas voltarem ao status quo ante pelo passar do tempo. Ironicamente, ao se digitar "presidente interino de Honduras" no Google se faz descobertas interessantes sobre a cobertura dada pela mídia corporativa ao evento.

Mais do que expor as nossas fraturas ainda expostas a crise hondurenha expõe também as dos nossos ricos irmãos do norte, que tem em Obama o necessário negociador para alterar a estratégia americana, o homem a quem foi imputado o dever de ceder o menor número de anéis possíveis em troca dos dedos que estão sob pungente ameaça: Ao mesmo tempo em que ele condenou o golpe publicamente e depois interrompeu o envio de verbas para os gloriosos programas de cooperação com Honduras, sabe-se agora que
o embaixador americano em Tegucigalpa se reuniu com os conspiradores às vésperas do golpe, o que suscita sérias dúvidas acerca do que se passa nos corredores escuros de Washington e quais serão os rumos de sua política de exceção for export tão necessária para manter a estabilidade interna diante das contradições inerentes ao seu sistema. Até que ponto a CIA se autonomizou como deu a entender um maledicente Chávez?

Do outro lado do mundo, a situação no Xinjiang pemanece tensa; ela expõe tanto os impactos da crise na China quanto a sua própria fragilidade que mora justamente no fato de ser um país étnica e socialmente fragmentado. As elites do país, que concentraram a renda decorrente do boom econômico dos últimos trinta anos de forma brutal, se vê às voltas com a necessidade de ceder os anéis, mas nunca parece disposta a tanto. Por outro lado, o fato do primeiro-ministro turco ter apontado o dedo para os chineses denunciando um suposto genocídio
me parece um tanto irônico.

Na Europa, o centro-direitista polonês
Jerzy Buzek é o novo Presidente do Parlamento Europeu e o primeiro europeu oriental a ocupar o cargo. O Parlamento Europeu, por sua vez, criou uma comissão permanente para tratar da Crise Mundial - medida um tanto pirotécnica, afinal o problema econômico do continente é muito mais embaixo; um capitalismo que fracassou já no início do século 20º, duas guerras mundiais que eclodiram de seu interior, o fogo-fátuo da social-democracia, o socialismo centralista e sua inevitável queda, o desmonte da social-democracia com a globalização. É um esgotamento de modelos conjugado a um vazio criativo.



quinta-feira, 9 de julho de 2009

Crise na China: A questão uighur

A questão do impacto da Crise Mundial na China já foi debatida neste blog há algum tempo. Basicamente, os recentes acontecimentos na economia mundial, principalmente aqueles que tocam a economia americana, trazem à baila a necessidade do país se voltar para dentro - o que fatalmente se materializaria em alguns anos, mas foi adiantado por conta da conjuntura. O modelo econômico pós-78 que consagrou o Socialismo de Mercado que dependia da associação da economia chinesa com o capital privado externo para criar um modelo industrial exportador - e assim se viabilizar - está chegando próximo ao seu esgotamento.

A burocracia "comunista" protagonizou nos últimos trinta anos um dos mais brutais avanços capitalistas da história da humanidade, marcado por uma violenta exploração do Trabalho pelo Capital expressa, por sua vez, numa violenta e crescente concentração de renda. A China, na nova divisão internacional do trabalho, se tornou o bairro industrial do mundo, num momento em que as nações centrais capitalistas se desindustrializam; é para lá que vão as matérias-primas de país latino-americanos, africanos e asiáticos para serem processados e exportados para EUA, UE e Japão - e o que sobrar, para o resto.

A China passou a ser uma espécie de fígado do mundo. Também fez com que o país tivesse um formidável crescimento econômico que, no entanto, se concentrou nas mãos da burocracia que manteve e mantêm a classe trabalhadora sob regime de trabalhos praticamente forçados, dando-lhe algumas concessões para manter a Hegemonia. Graças ao braço forte da estrutura militar-policialesca de sempre conjugada com a alienação em relação à produção causada pelo fato da produção estar apenas em curso pelo país - o que faz com que os trabalhadores não tenham uma ideia exata do valor do quanto realmente produzem -, o sistema se manteve com abalos relativamente pequenos. O fato é que até o momento a conjugação de controle estatal com algum desenvolvimento material pareceu compensar para o povo a desigualdade social e os problemas ambientais - o que, convenhamos, não é incomum para nós ocidentais, no entanto, a distância da cultura chinesa para a nossa nos permite ver com mais clareza esse processo.

O país, portanto, cumpriu sua função econômica para o triunfante capitalismo global com certo êxito; exportou deflação via produtos de baixo custo e ainda por cima usou parte dos seus excedentes obtidos para financiar os déficits americano, permitindo que aquele país vivesse muito além de suas capacidades produtivas. Isso acabou porque Bush conseguiu adiantar o esgotamento do modelo americano com seus erros geoestratégicos; os déficits americanos se tornaram infinanciáveis e o dólar deu sinais de fraqueza, o que afetou diretamente a China, queimando o valor real de suas reservas e provocando inflação graças a indexação cambial. Dessa forma, as recentes medidas de fortalecimento do mercado interno deverão, obrigatoriamente, sofrer aprofundamento.

No momento em que isso acontece, a verdade sobre a organização política vem à tona; para além da questão social, surge a questão étnica, afinal, estamos falando de um país profundamente heterogêneo etnicamente, um verdadeiro Império mantido graças a mão forte de um poder central que para além de se confundir com um Partido Hegemônico, também se confunde com uma etnia, o povo do norte. Tal como o Império Romano, a China tem seus cidadãos (os membros do partido), seus escravos (operários e camponeses) e seus bárbaros (os outros, como o mapa acima prova, dentre eles os uighurs). Mesmo que mais de 90% da população chinesa seja da
etnia Han, ela tem sua divisões internas e rivalidade internas, afinal, não há como esperar que um grupo com mais de um bilhão de integrantes seja homogêneo culturalmente.

Os protestos do
povo uighur, uma etnia altaica que reside no noroeste chinês - a área mais rica em petróleo do país -, é um retrato tanto da exclusão social que há na China contemporânea quanto da questão étnica que enfraquece o país enquanto Estado. Quando se vê um Estado reagindo com tamanha violência em relação a protestos populares, significa que a Hegemonia está em risco, afinal, quanto mais força é usada para valer determinações significa que a legitimidade do poder central para normatizar está enfraquecida.

A China vive uma situação de crise, o que, por definição, é uma situação ambígua: ao mesmo tempo em que a conjuntura mundial cria condições para que ela finalmente se construa para dentro e se efetive enquanto país, o que o conduzirá inexoravelmente para grandes mudanças políticas, por outro lado, existe o risco da burocracia jogar tudo no ralo, como aconteceu em vários momentos da história chinesa onde as elites governantes preferiram perder os dedos a ceder os anéis. Veremos. Eu ainda continuo acreditando em uma saída razoável no médio prazo.

post atualizado em 11/07/09 às 02:32